Sumário Resumo 5 1. Introdução 7 2. A Conjuntura Macroeconômica no Brasil e na Índia antes do Agravamento da Crise Global 9 3. Os Impactos Imediatos da Crise Global no Brasil e na Índia 22 3.1 Impactos sobre o Mercado Acionário 22 3.2 Impactos sobre o Mercado de Crédito 24 3.3 Impactos sobre o Risco-País e Custos de Capital 28 3.4 Impactos sobre as Exportações 30 3.5 Impactos sobre a Atividade Econômica 32 4. Enfrentando a “Tempestade” Global: Fortalezas, Fragilidades e Respostas de Política Econômica 35 5. À Guisa de Conclusão: O que Esperar para depois de 2009, o “Ano Perdido”? 49 Referências 53 Apêndice 59 O Brasil e a Índia frente à crise econômica global | 5 Resumo O trabalho avalia, em perspectiva comparativa, os impactos da crise econômica global sobre as economias brasileira e indiana, as políticas econômicas imediatamente implementadas para restaurar a normalidade dos canais de crédito e minorar os efeitos negativos sobre o crescimento econômico, bem como as fortalezas e fragilidades dos dois países para atravessar essa fase atual em que se projeta, pela primeira vez desde o pós-guerra, contração da atividade econômica global. O artigo mostra que ambos os países serão afetados adversamente na evolução das exportações e do produto interno bruto real. No entanto, três razões explicam por que a Índia está sendo bem menos afetada que o Brasil e figurará como um dos poucos países na economia global que conseguirá escapar de uma recessão em 2009: i) por contar ainda com menor grau de integração financeira externa, a deterioração das expectativas na Índia foi menos intensa do que nos demais países, inclusive o Brasil; ii) a imediata decisão do Reserve Bank of India, mesmo com inflação em alta, de reduzir sucessivamente as taxas básicas de juros tão logo a crise financeira americana se irradiou para a economia mundial, a partir de setembro de 2008; e iii) a implementação de um pacote fiscal prevendo aumento de gastos públicos (sobretudo investimentos em infraestrutura) no timing e na intensidade adequada para compensar parcialmente a queda dos gastos privados e das exportações líquidas. Conclusivamente, o artigo sugere que, sem menosprezar a importância dos estímulos monetários e ao crédito, no contexto atual de crise de confiança e forte preferência por liquidez, o principal instrumento para minorar os impactos recessivos no Brasil em 2009 é o fiscal. O autor é economista da Área de Planejamento do BNDES. As opiniões e sugestões de política econômica são de responsabilidade do autor, não refletindo a posição nem do governo brasileiro nem do BNDES. Este trabalho resultou não somente de pesquisa convencional em fontes primárias e secundárias sobre as economias brasileira e indiana, mas também das entrevistas realizadas em instituições governamentais, acadêmicas e empresariais em Nova Dehli e Mumbai, entre os dias 12 e 22 de janeiro de 2009. O êxito dessa missão técnica do BNDES à Índia não teria sido possível sem a competente assistência do corpo diplomático do Brasil naquele país. O autor agradece imensamente a incansável ajuda e presteza do corpo diplomático da Embaixada do Brasil em Nova Dehli e do Consulado em Mumbai, especialmente ao ministro-conselheiro José Carlos da Fonseca, aos conselheiros Pedro Terra e Eric Sogocio, bem como à vice-consulesa Jandira Gill Chalu Pacheco. O diretor executivo da India Brazil Chamber of Commerce, Subramaniam Ayyar, merece um agradecimento especial pelas diversas informações acerca das instituições indianas. Marcelo Machado Nascimento, economista da Área de Pesquisa e Acompanhamento Econômico (APE) do BNDES, colaborou na elaboração e na interpretação dos dados relativos à Seção 3. O restante da base de dados foi preparada pelo competentíssimo estagiário Edson Oliveira de Macedo. Fábio Giambiagi, Fernando Pimentel Puga e Valéria Delgado Bastos fizeram diversas sugestões que ajudaram a aprimorar esta versão final. Os erros remanescentes são, como de praxe, de responsabilidade exclusiva do autor. O Brasil e a Índia frente à crise econômica global | 7 1. Introdução Em seu trabalho clássico, o eminente e (agora) tardiamente reconhecido economista Hyman Minsky (1986) havia identificado diversos episódios graves de recessão econômica nos Estados Unidos cujas características tinham todos os contornos para se transformar numa grande depressão global.1 Segundo Minsky, na maioria desses episódios, só foi possível abortar os elevados riscos de depressão global porque, em ação imediata e coordenada, o Federal Reserve (Fed) e o Tesouro americano – seja mediante uma provisão adequada de liquidez e significativa redução das taxas de juros, seja por meio do drástico aumento dos déficits fiscais – conseguiram dissipar a deterioração das expectativas dos agentes econômicos e restaurar níveis adequados de demanda efetiva na economia.2 Desde setembro de 2008, pelos efeitos deletérios já manifestados sobre a contração simultânea de crédito, comércio e PIB globais, a crise ainda em curso, antes apenas circunscrita aos mercados hipotecários de segunda linha (subprime) nos Estados Unidos, já se transformou no mais grave episódio desde a Grande Depressão da década de 1930. Ainda que os economistas contemporâneos disponham atualmente de ferramentas teóricas e empíricas poderosas para evitar grandes depressões – diferentemente do início dos anos 1930, em que o “estado da arte” estava limitado às recomendações de tratamento liberal emanadas da teoria macroeconômica “clássica” pré-keynesiana – não há como antever, parafraseando outro trabalho clássico de Minsky (1982), se “aquilo (isto é, a depressão dos anos 1930) poderá acontecer de novo”.3 Embora tanto Keynes (1936, 1937) como Minsky estivessem cientes de que depressões só podem ser evitadas pela mobilização das instâncias de políticas econômicas direcionadas a prover liquidez e restaurar os canais de crédito (política monetária), bem como a induzir ao aumento da renda e dos gastos privados (política fiscal), ambos tinham plena consciência de que esses instrumentos só começam a produzir resultados efetivos a partir do momento em que consigam resgatar a confiança futura dos agentes e dissipar sua forte preferência por liquidez. Ou seja, políticas monetárias e fiscais expansionistas são 1 Entre os episódios identificados por Minsky (1986), destacam-se o credit crunch de 1966 e uma sequência de crises financeiras como as de 1970, 1974-1975, 1979-1980 e 1982-1983 (p. 4-5). 2 Para dar uma dimensão do papel da política fiscal como mecanismo anticíclico, na crise recessiva de 1974-1975 nos Estados Unidos, o Tesouro, depois de registrar um superávit fiscal de US$ 6 bilhões (0,43% do PIB) em 1973 (o auge do boom econômico do início dos anos 1970), já fechava com déficit fiscal de US$ 3,6 bilhões (0,24% do PIB) em 1974, elevado para o astronômico valor de US$ 63,4 bilhões (3,87% do PIB) em 1975! Ver Minsky (1986, p. 31). 3 Ao longo de todo o período de elaboração deste artigo, a perspectiva geral com relação aos desdobramentos da crise é de incerteza. Para se ter uma ideia, quando se iniciou a pesquisa de dados sobre a conjuntura macroeconômica brasileira e indiana (final de dezembro de 2008), as projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI) indicavam apenas desaceleração econômica em 2009 para a maioria dos países e crescimento global de 2,2%. Já na fase final de revisão do nosso trabalho (abril de 2009), a maioria das instituições econômicas projetava forte recessão global, a primeira desde o pós-guerra. Daí porque a pretensão deste trabalho está longe de apontar projeções para a economia brasileira e a indiana em 2009. 8 | André Nassif sabidamente os (únicos) instrumentos necessários, mas não suficientes para evitar que recessões se transformem em depressões. Porém, como a condição suficiente está fora da alçada da política econômica, posto que depende da reação positiva dos agentes aos estímulos monetários e fiscais implementados, só resta aos governos mobilizar a artilharia disponível contra – no caso dos países em desenvolvimento – a recessão econômica. Este trabalho tem o objetivo de avaliar, em perspectiva comparativa, os impactos da crise econômica global sobre a economia brasileira e a indiana, as políticas econômicas imediatamente implementadas para restaurar a normalidade dos canais de crédito e minorar os efeitos negativos sobre o crescimento econômico, bem como as fortalezas e fragilidades dos dois países para atravessar essa fase atual em que se projeta, pela primeira vez desde o pós-guerra, contração da atividade econômica global. Entre as diversas razões que justificam a comparação do Brasil com a Índia, podemos citar ao menos três: primeira, ambos os países compartilharam modelos de desenvolvimento econômico relativamente similares entre a década de 1950 e o fim da de 1980 (“substituição de importações”) e implementaram reformas econômicas liberalizantes praticamente ao mesmo tempo (Brasil a partir de 1990 e Índia após 1991); segunda, entre os países que formam o chamado BRIC, apenas o Brasil e a Índia compartilham processos de industrialização, sem descontinuidade, com características das formações tipicamente capitalistas;4 e, terceira, os impactos e as respostas de política econômica, embora tenham ocorrido por meio de canais semelhantes, acabaram, ao final, produzindo resultados distintos nos dois países. O artigo contém cinco seções, incluindo esta Introdução. A Seção 2 analisa a evolução da conjuntura macroeconômica no Brasil e na Índia, do início da década de 2000 até setembro de 2008, captando, porém, em casos excepcionais, os impactos imediatos do agravamento da crise econômica global nos meses subsequentes. A Seção 3 compara os principais canais de transmissão oriundos da crise global nas economias dos dois países. A Seção 4 aponta as principais fortalezas e fragilidades de ambas as economias para atravessar essa fase de contração global, para, em seguida, comparar as respostas imediatas da política econômica adotadas com o objetivo de minorar os impactos adversos da crise econômica mundial. A Seção 5 apresenta as principais conclusões do trabalho e as perspectivas para ambas as economias a partir de 2010, na hipótese de que seja este o ano em que a economia mundial volte a mostrar os primeiros sinais de recuperação. 4 BRIC é a expressão que se tornou famosa a partir do estudo dos economistas da Goldman Sachs, projetando que Brasil, Rússia, Índia e China (países que formam as iniciais da sigla) poderão – caso sejam confirmadas as hipóteses do modelo de crescimento – se tornar protagonistas importantes na economia mundial no longo prazo [Wilson e Purushothaman (2003)]. Ainda que, durante o processo de substituição de importação na Índia, as formas de intervenção estatal tenham sido influenciadas pelo modelo soviético, em nenhum momento se pôs em xeque a preservação da propriedade privada. O Brasil e a Índia frente à crise econômica global | 9 2. A Conjuntura Macroeconômica no Brasil e na Índia antes do Agravamento da Crise Global As taxas bem mais elevadas de crescimento do PIB real na Índia constituem, indubitavelmente, o ponto marcante que distingue a recente performance econômica deste país em relação ao Brasil. Como mostra o Gráfico 1, entre 2000 e 2007 a Índia vinha conseguindo manter um ritmo de crescimento econômico bastante elevado (média anual de variação do PIB real de 7,3%). Entre 2005 e 2007, a Índia entrou na fase de crescimento acelerado, com taxas médias anuais superiores a 9% de incremento do PIB real. Em contrapartida, as taxas médias anuais de crescimento relativamente menores do PIB real no Brasil em igual período ilustram as dificuldades que o país enfrenta para romper as barreiras do longo processo de semiestagnação de sua economia, que remonta ao início dos anos 1980.5 Podese afirmar que o Brasil não conseguiu, na média, se beneficiar da fase áurea de expansão global ocorrida entre os anos de 2003 e 2007. Gráfico 1. Taxas de Variação do PIB Real no Brasil e na Índia (2000-2008) Fontes: Banco Central do Brasil e Reserve Bank of India. Notas: 1. Os dados para o período 2000-2007 referem-se ao PIB real a preços de mercado, ao passo que os períodos jan./set. de 2007 e jan./set. de 2008 referem-se ao PIB a custo de fatores. 2. Os dados da Índia referentes ao período 2000-2007 são os dos respectivos anos fiscais, que se iniciam em 1º de abril de determinado ano e finalizam em 31 de março do ano seguinte. Já os dados referentes aos períodos jan./set. de 2007 e jan./set. de 2008 referem-se ao ano-calendário para ambos os países. No caso do Brasil, no início do primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2003, a priorização do crescimento econômico teve de ser sacrificada 5 Enquanto a variação média anual do PIB real brasileiro foi de 2,4% entre 1980 e 2000, o da Índia alcançou 5,6% (para o Brasil, dados do IBGE, e, para a Índia, do RBI). 10 | André Nassif pela necessidade de promover a estabilização monetária e cambial, bem como de evitar a deterioração das contas do setor público. Para isso, foi necessária (e justificada) a adoção de políticas monetárias e fiscais fortemente contracionistas. No entanto, apesar da sensível melhora dos fundamentos macroeconômicos, o Brasil mostrou maior lentidão para sustentar taxas de crescimento mais expressivas.6 Em que pese o intenso crescimento econômico da Índia no período mais recente, diversos analistas já vinham reiteradamente colocando em xeque a capacidade de sustentá-lo no longo prazo, seja devido a razões de ordem estrutural, seja em virtude dos preocupantes indicadores fiscais.7 A principal razão de ordem estrutural estaria vinculada à suposta incapacidade do setor de serviços indiano – notadamente os segmentos da indústria de tecnologia da informação (TI), que têm sido o principal motor do crescimento do país – de gerar maiores efeitos de encadeamento e externalidades tecnológicas para os demais setores da economia, em especial para a agricultura, que ainda emprega cerca de 60% da população economicamente ativa do país.8 Em especial, a questão estrutural diz respeito à peculiaridade de que o processo de desenvolvimento indiano, uma vez tendo superado as baixas taxas de crescimento “hindu” no início dos anos 1980,9 passou a ter, quase de imediato, o setor de serviços como principal fonte explicativa das taxas de crescimento do PIB real no período recente.10 Alguns analistas refutam, no entanto, a hipótese de que esse fato represente um risco para a sustentação do crescimento no longo prazo, alegando que os segmentos de software e demais indústrias de tecnologia da informação, embora tenham adquirido peso significativo nas taxas de crescimento do PIB e das exportações totais do país, conservam, sim, vínculos significativos com os diversos segmentos não comercializáveis do setor de serviços (comércio, negócios em geral e até mesmo infraestrutura) e da indústria.11 6 Essa discussão será retomada mais adiante. 7 Ver, por exemplo, Babu (2005) e Panagariya (2008). 8 Este dado, referente a 2003 e extraído do Directorate General of Employment and Training/ Ministry of Labour and Employment, é o mais recente a que o autor teve acesso. Ver http://www. dget.nic.in. 9 A expressão “crescimento hindu”, cunhada pelo professor Raj Krishna, da Delhi School of Economics, alude à radical adesão da sociedade indiana ao culto da paciência e do porvir. É largamente utilizada como referência ao baixo crescimento médio anual do período 1950-1980. Ver, por exemplo, Rodrik e Subramanian (2004). 10 Segundo Babu (2005), a contribuição do setor de serviços para o crescimento do PIB indiano passou de 46% (em média) no período 1981-1991 (contra 28% e 26% dos setores secundário e primário, respectivamente) para 60% no período 1991-2001 (contra 25% e 15% dos setores secundário e primário, respectivamente). Para mais detalhes, ver também Nassif (2006). Cruzando os dados das Tabelas 1 e 7 do Relatório Macroeconômico do terceiro trimestre do ano-fiscal de 2008-2009 (outubro-dezembro), elaborado pelo RBI, constata-se que a contribuição do setor terciário para o crescimento do PIB real indiano já alcançava 73%! Ver RBI (2009a, p. 1 e 8). 11 Em entrevistas dos autores com economistas indianos, é notória a divisão de posições com respeito a esse debate. Para Bibek Debroy, do Centre for Policy Research, de Nova Delhi, em que pese a precariedade da infraestrutura, as elevadas taxas de poupança interna, de investimento e da produtividade são indicadores que favorecem a sustentação do crescimento no longo prazo. No entanto, economistas do Indian Council for Research on International Economic Relations O Brasil e a Índia frente à crise econômica global | 11 Gráfico 2. Saldos Fiscais Primários e Nominais no Brasil e na Índia (2000-2008) Saldos Primários Saldos Nominais Fontes: Tesouro Nacional e Reserve Bank of India. Notas: 1. Os dados da Índia referentes ao período 2000-2008 são os dos respectivos anos fiscais, que se iniciam em 1º de abril de determinado ano e finalizam em 31 de março do ano seguinte. 2. O valor correspondente a 2008 para a Índia é o estimado no ano. (ICRIER) questionaram o chamado milagre indiano, alegando que o mesmo tem sido altamente intensivo em mão de obra qualificada (skill intensive), mas a maioria da população conta com precários níveis de qualificação. Posição semelhante foi manifestada pelo diretor do Indira Gandhi Institute for Development Research, D. M. Nachane, embora este tenha ressaltado como principal entrave ao crescimento os níveis precários da infraestrutura física e social. 12 | André Nassif Com respeito aos indicadores fiscais na Índia, o Gráfico 2 mostra que o déficit nominal estimado para 2008 (de 4,6% do PIB) já se encontrava em nível inferior à média do período 2000-2007 (de 7,8% do PIB, depois de ter alcançado 9,9% em 2001). Em contrapartida, o Brasil, graças ao maior esforço fiscal e à redução das taxas de juros básicas, observada entre setembro de 2005 e abril de 2008, conseguiu reduzir a 1,5% do PIB o déficit nominal em 2008 (contra média anual de 3,3% do PIB entre 2000 e 2007). A maior lentidão do ajuste fiscal indiano se reflete no elevadíssimo nível da dívida interna bruta consolidada do setor público, que já atingira cerca de 80% do PIB em 2005 e que, apesar de haver diminuído no último triênio (para o nível estimado de 73% em 2008), constitui um dos elementos que marcam a vulnerabilidade interna do país (ver Gráfico 3).12 Ao inspecionar a evolução da dívida interna pública bruta no Brasil, conclui-se que, apesar dos elevados superávits primários, ela não apenas vem se reduzindo lentamente nos últimos anos, como também se encontra ainda em patamares bastante elevados para assegurar a sustentação fiscal no longo prazo. No entanto, a lentidão com que se processa a retração dos indicadores de endividamento público em ambos os países está ligada a razões distintas: enquanto, na Índia, há maior resistência política a praticar superávits primários muito elevados – note-se que, pelos dados do Gráfico 2, o superávit primário estimado para 2008 é de 0,8% do PIB (contra 4,1% apurado no Brasil) –, no Brasil, são o custo da dívida devido às elevadas taxas de juros e o menor prazo de maturação dos títulos que explicam a trajetória mais lenta de redução da dívida pública/PIB.13 Ao comparar a duration dos títulos públicos nas mãos dos credores, conclui-se que, em outubro de 2008, 47% do total tinham vencimento em até dois anos no Brasil, ao passo que na Índia 70% tinham prazo de vencimento acima de cinco anos, o que mostra que a dívida brasileira está ainda fortemente concentrada no curto prazo.14 Em parte, o perfil mais alongado do endividamento público tem conferido ao banco central indiano, até certo ponto, maior raio de manobra para, em coordenação com as demais instâncias de política econômica do país (em especial o Ministério da Fazenda), praticar taxas de juros nominais bem mais baixas que as do Brasil. De todo modo, urge reconhecer que, embora a dívida interna bruta como proporção do PIB seja muito elevada nos dois países, no caso do Brasil – seja por causa do esforço fiscal, seja por causa da já mencionada retração das taxas bási12 Como seria de esperar, nas entrevistas às principais instituições econômicas oficiais indianas (Ministry of Finance, Ministry of Commerce and Industry, Planning Comission), foram unânimes as respostas de que a dívida pública indiana é facilmente financiável. No entanto, no meio acadêmico, foram manifestadas preocupações semelhantes às de Panagariya (2008) com os elevados déficits fiscais nominais e seus efeitos sobre a sustentação da dívida pública no longo prazo. Por exemplo, Debroy lembrou que existe uma parcela de déficits parafiscais relativa às companhias estatais de petróleo não contabilizada nos resultados primários. 13 Como já observado, embora a taxa básica de juros no Brasil se tenha reduzido continuamente entre setembro de 2005 (19,5% a.a.) e abril de 2008 (11,7% a.a.), este último nível ainda podia ser considerado inequivocamente elevado para os padrões internacionais. 14 Dados do Banco Central do Brasil e do RBI. O Brasil e a Índia frente à crise econômica global | 13 cas de juros –, a dívida líquida do setor público como proporção do PIB mostrou significativo recuo nos últimos anos (para 37,6% em março de 2008, contra 56% em setembro de 2002). Gráfico 3. Dívida Interna Bruta Consolidada do Setor Público no Brasil e na Índia (2000-2008) Fontes: Tesouro Nacional e Reserve Bank of India. Notas: 1. Os dados da Índia referentes ao período 2000/2008 são os dos respectivos anos fiscais, que se iniciam em 1º de abril de determinado ano e finalizam em 31 de março do ano seguinte. 2. O valor correspondente a 2008 para a Índia é o estimado no ano, e, para o Brasil, até outubro. Para aliviar as pressões inflacionárias, entre janeiro de 2005 e setembro de 2008 (portanto, bem antes do agravamento da crise global em curso), o Reserve Bank of India (RBI) aumentou monotonicamente a taxa básica de juros anual (repo rate) de 4,75% para 9%. No entanto, como mostra a Tabela 1, mesmo após o referido aperto monetário, as taxas básicas de juros em termos reais na Índia não chegaram a ultrapassar 2,2% a.a. e, um pouco antes do agravamento da crise global, em setembro de 2008, ela se encontrava (como em outros meses da série) em níveis negativos. No Brasil, ao contrário, as taxas reais de juros só começaram a recuar de forma mais consistente a partir de julho de 2006 (com a Selic nominal em 14,75%), chegando a alcançar 4,7% em julho de 2008. A partir de agosto de 2008, já refletindo os sucessivos aumentos da Selic e uma vez aliviadas as pressões inflacionárias,15 as taxas de juros reais no Brasil novamente se elevaram, alcançando cerca de 6,4% a.a. em março de 2009, níveis considerados elevados para os padrões internacionais e o contexto deflacionário da crise global. 15 O Conselho de Política Monetária (Copom) do Banco Central do Brasil reiniciou o aperto monetário em abril de 2008, justificando-o com base no argumento de que as pressões inflacionárias em curso resultavam de desequilíbrio entre oferta e demanda agregadas. No entanto, como mostra o Gráfico 4, a inflação já mostrava sinais de arrefecimento no mês seguinte, o que torna a hipótese anterior altamente questionável, dada a conhecida defasagem dos canais de transmissão da política monetária para a demanda agregada. 14 | André Nassif Tabela 1. Taxas Primárias de Juros Nominais e Reais no Brasil e na Índia (out. 2004-mar. 2009) (Em %) Brasil Período Taxa Básica¹ Anunciada 1 Índia Taxa Básica2² Real 1 Taxa Básica ¹ Anunciada Taxa Básica²2 Real out-04 16,75 8,8 4,75 -0,05 jan-05 18,25 8,4 6,00 0,51 abr-05 19,50 8,2 6,00 0,29 jul-05 19,75 10,7 6,00 1,52 out-05 19,00 11,8 6,25 1,74 jan-06 17,25 12,7 6,50 1,64 abr-06 15,75 13,3 6,50 1,49 jul-06 14,75 12,9 6,50 0,00 out-06 13,75 12,4 7,00 -0,35 jan-07 13,00 11,4 7,25 0,03 fev-07 13,00 11,0 7,50 -0,68 abr-07 12,50 10,5 7,75 0,35 jul-07 11,50 8,9 7,75 0,85 out-07 11,25 7,8 7,75 1,96 jan-08 11,25 6,8 7,75 2,10 fev-08 11,25 6,7 7,75 2,16 mar-08 11,25 6,4 7,75 -0,11 abr-08 11,75 6,0 7,75 -0,06 mai-08 11,75 5,3 7,75 0,00 jun-08 12,25 4,9 8,00 0,11 jul-08 13,00 4,7 8,50 -0,39 ago-08 13,00 4,9 9,00 -0,92 set-08 13,75 5,1 9,00 -1,50 out-08 13,75 5,2 8,00 -2,09 nov-08 13,75 5,4 7,50 -2,10 dez-08 13,75 6,2 6,50 -1,53 jan-09 12,75 6,4 5,50 -2,37 fev-09 12,75 6,4 5,50 -1,82 mar-09 11,75 6,4 5,00 nd Fontes: Banco Central do Brasil e Reserve Bank of India. Notas: ¹Taxa Selic para o Brasil e Repo Rate para a Índia. Os valores são referentes à taxa em vigor no período. ² Taxa mensal acumulada para 12 meses, ex post (ou seja, com base na inflação mensal anualizada ao longo do período). nd: não disponível. O Gráfico 4 mostra que, embora com níveis inicialmente mais baixos que no Brasil, a inflação na Índia vinha mostrando tendência de aumento contínuo desde O Brasil e a Índia frente à crise econômica global | 15 2003, período em que o Brasil já conseguia reduzir rapidamente os índices de preços ao consumidor (IPCA), após atingir o pico de 12,5% em 2002.16 Note-se que, a partir do segundo semestre de 2008 (ano-calendário), a escalada inflacionária na Índia passou a alcançar níveis preocupantes para um país que, historicamente, conviveu com níveis baixos de inflação. Gráfico 4. Taxas de Inflação ao Consumidor (IPCA) – 2000-fev. 2009 Fontes: Banco Central do Brasil e Reserve Bank of India. Nota: Taxa acumulada em 12 meses. A partir de 2008, o aumento dos índices de preços ao consumidor no Brasil e na Índia está associado, na essência, aos mesmos fatores explicativos da pressão inflacionária que vinha assolando a maioria dos países em desenvolvimento: o contínuo e intenso incremento dos preços das commodities no mercado global e seus impactos diretos e indiretos sobre o preço dos alimentos. No entanto, no caso da Índia, a pressão inflacionária dos últimos anos tem sido relacionada a outras causas, como as elevadas taxas de crescimento, que vinham produzindo um descompasso entre a oferta e a demanda agregadas e aumento substancial do crédito doméstico,17 bem como o aumento das expectativas inflacionárias por causa do enorme déficit fiscal e seu impacto sobre a dívida pública, como já analisado.18, 19 16 Deve-se ressaltar que o aumento da inflação indiana já vinha ocorrendo antes da pressão altista dos preços das commodities e dos alimentos nos mercados globais. De fato, os dados da Commodity Research Bureau (CRB) confirmam que os preços desses produtos permaneceram relativamente estáveis entre maio de 2004 e novembro de 2005. Daí em diante até o agravamento da crise econômica global, ocorrido em setembro de 2008, os preços sofreram aumento quase contínuo. 17 Um sinal desse descompasso é o rápido crescimento dos déficits comerciais, como se verá mais adiante. 18 As causas detalhadas da inflação recente na Índia estão analisadas no Relatório Trimestral referente a agosto-outubro de 2008 do Banco Central indiano. Ver RBI (2008, especialmente p. 54-64). 19 Em entrevista com a equipe responsável pelo departamento de pesquisa econômica do RBI, após observarmos que a inflação indiana já vinha crescendo desde 2003 – antes, portanto, do contínuo aumento de preços de commodities e alimentos ocorrido globalmente a partir de 2004 –, pergun- 16 | André Nassif A condução da política de controle inflacionário nos dois países tem se caracterizado, pelo menos, por dois aspectos distintos: primeiro, na Índia – onde não existem metas explícitas de inflação como no Brasil –, juntamente com a utilização das duas taxas básicas de juros (além da repo rate, existe também a reverse repo rate),20 o Banco Central tem combinado o manejo das taxas de recolhimento compulsório (o cash reserve ratio – CRR) com o chamado statutory reserve requirement (SLR), percentual obrigatório de títulos públicos que os bancos devem manter em carteira. Para se ter uma ideia, as taxas de depósito compulsório aumentaram quase de forma contínua entre julho de 2006 e agosto de 2008 (de 5% para 9%); segundo, a Índia, a exemplo do que já ocorria nos anos 1990,21 continua se pautando por uma estratégia de controle inflacionário bem mais gradualista que o Brasil, procurando, com isso, restaurar a estabilidade dos níveis de preços sem comprometer as elevadas taxas de crescimento econômico do país.22 Para efeito de comparação, embora o Banco Central do Brasil, antes do agravamento da crise em setembro de 2008, não viesse manejando com frequência as taxas de depósitos compulsórios, o percentual obrigatório incidente sobre depósitos à vista no início de julho de 2008 era de 45%, ao passo que na Índia era de apenas 8,75%.23 Embora o Brasil tenha sido mais bem-sucedido na manutenção da estabilidade inflacionária a partir de 2006, é preciso enfatizar que as elevadas taxas de juros (nominais e reais) têm tido implicações adversas de longo prazo para a economia brasileira que não devem ser menosprezadas. Seu principal efeito colateral – nesse caso, as elevadas taxas nominais, que têm “perpetuado” um enorme diferencial entre taxas de juros internas e internacionais – vinha sendo a redução da taxa de câmbio real, que mantém tendencialmente o real sobrevalorizado em relação às moedas dos principais parceiros comerciais brasileiros.24 Com isso, se por um tamos qual seria a natureza da inflação indiana. Tivemos como resposta a rápida aceleração do crescimento, que, além de ter promovido desequilíbrio entre oferta e demanda agregadas, acarretou enorme expansão do crédito doméstico, e, mais recentemente, a “importação” da inflação mundial pelo aumento dos preços das commodities (especialmente petróleo). Foi menosprezado o papel das expectativas inflacionárias devidas à incerteza quanto à trajetória da dívida pública [Panagariya (2008)]. 20 Os termos repo e reverse repo significam, respectivamente, injeção e absorção de liquidez. Ver RBI (2008, p. 56). 21 Ver Nassif (2007). 22 Essa estratégia foi conferida na entrevista com o departamento de pesquisa econômica do RBI. Para o Banco Central indiano, no período imediatamente anterior ao agravamento da crise global, o foco principal da política monetária vinha sendo reduzir a taxa de inflação de longo prazo para cerca de 4,5% a.a., nível considerado “tolerável por uma sociedade democrática”, mas “agora” (isto é, no período que seguiu à falência do Lehman Brothers, em setembro de 2008), “a prioridade da política monetária é o crescimento econômico”. 23 Em trabalho econométrico em que procura explicar por que os juros finais praticados no Brasil são tão elevados, Hausmann (2008, p. 13-14) demonstra que os enormes spreads bancários estão associados às elevadas taxas de juros básicas e às “anormalmente” altas taxas do compulsório. 24 Cabe ressaltar que o período 1999-2002 foi uma exceção à referida tendência, em que ocorreram dois episódios distintos de desvalorização nominal abrupta do real brasileiro. Com efeito, no início de 1999, o overshooting cambial foi decorrência do ataque especulativo contra o real brasileiro, o qual, por sua vez, resultou dos efeitos deletérios da própria sobrevalorização real da moeda brasileira, ocorrida no período 1994-1998, sobre a trajetória futura dos saldos em conta-corrente do balanço de pagamentos. Entre 2002 e início de 2003, por seu turno, nova desvalorização O Brasil e a Índia frente à crise econômica global | 17 lado as elevadas taxas de juros nominais e seu efeito sobre o câmbio real viabilizam o objetivo central da política monetária de manter o IPCA e as expectativas inflacionárias aquém do teto superior da meta de inflação ou mesmo abaixo desta, por outro lado, ao manter tendencialmente muito altas as taxas de juros reais no Brasil, na comparação com a média vigente em países emergentes similares, a política monetária acaba impedindo que a economia brasileira consiga romper seu processo de semiestagnação no longo prazo. Em outras palavras, é indubitável o status da política monetária brasileira – e, portanto, do regime de metas de inflação praticado no Brasil – de assegurar a estabilidade do nível de preços, mas o mesmo não se pode dizer com relação ao seu papel de manter o crescimento econômico sustentável no longo prazo.25 O Gráfico 5, que mostra a evolução das taxas de câmbio reais efetivas no Brasil e na Índia ao longo da presente década, em confronto com os dados e argumentos anteriormente apresentados, sugere interessantes insights com relação à condução da política cambial por parte dos bancos centrais de ambos os países. Gráfico 5. Taxas de Câmbio Efetivas Reais no Brasil e na Índia (Outubro de 1999 a Outubro de 2008) Fevereiro de 2004 = 100 Fontes: Funcex e Reserve Bank of India. Nota: Para o Brasil, taxa de câmbio R$/cesta de 13 moedas. Para a Índia, taxa de câmbio Rs (rupia)/cesta de 6 moedas. Os períodos-base originais (dezembro de 2003 para o Brasil e média de 1993 para a Índia) foram unificados para o período-base de fevereiro de 2004, após a constatação de que as moedas brasileira e indiana encontravam o nível de paridade real neste último período. acentuada do real brasileiro decorreu das expectativas negativas sobre a eventual eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, então candidato da oposição à presidência da República. Na ocasião, o atual presidente brasileiro era (equivocadamente) avaliado como um candidato antimercado. 25 Poder-se-ia argumentar, seguindo a tese original de Friedman (1968), que o papel da política monetária é exclusivamente garantir a estabilidade do nível de preços. No entanto, essa tese é questionável em termos teóricos ou práticos. Ver, por exemplo, as críticas de Tobin (1965, 1970) e Davidson (2003). 18 | André Nassif Entre 2004 (média anual) e início de 2008, a rupia indiana e o real brasileiro mantiveram tendências de apreciação nominal em relação ao dólar, mas, em termos reais efetivos, a moeda brasileira acumulou tendência muito mais acentuada de sobrevalorização do que a indiana.26 Para se ter uma dimensão da perda de competitividade doméstica relativa, o Gráfico 5 mostra que a moeda brasileira já acumulava entre fevereiro de 2004 e agosto de 2008 uma sobrevalorização real de mais de 40% em relação a uma cesta de moedas dos principais parceiros comerciais, ao passo que a moeda indiana, embora ainda acumulasse uma sobrevalorização de cerca de 12% no mesmo período, já sinalizava, desde o início de 2008, tendências em direção ao nível de paridade real de sua moeda.27 Os dados relativos aos fluxos e estoques de divisas nos dois países podem oferecer respostas para esse enigma. Como mostra a Tabela 2, ambos os países vinham obtendo saldos líquidos positivos no balanço de pagamentos desde 2004, período em que as respectivas moedas mantiveram tendência de apreciação. No caso indiano, esses saldos expressivos se converteram simultaneamente em aumento acelerado do estoque de reservas internacionais até 2005 (ver Gráfico 6). No início de 2008, o país ainda continuava obtendo saldos superavitários no balanço de pagamentos, embora o ritmo de acumulação de reservas tenha se reduzido, alcançando o estoque máximo de US$ 314,6 bilhões em maio de 2008. A partir daí, a Índia começou a perder reservas. Note-se que entre maio e agosto de 2008, antes do agravamento da crise econômica global em curso, o estoque de reservas sofreu uma redução de US$ 19 bilhões. Os dados sugerem que, pelo menos até o primeiro semestre de 2008, o RBI continuou se pautando pela estratégia iniciada após as reformas de 1991 de, sem comprometer o funcionamento do regime de câmbio flutuante, fazer intervenções frequentes no mercado à vista (sobretudo mediante a compra de divisas) para assegurar um confortável estoque de liquidez internacional contra choques externos e, simultaneamente, evitar um nível exagerado de sobrevalorização de sua moeda.28 Falta responder por que a Índia começou a perder reservas a partir do primeiro semestre de 2008, se os déficits em transações correntes, já observados desde 2005, continuaram a ser confortavelmente financiados pelos influxos líquidos de capital 26 A conclusão sobre o comportamento das taxas de câmbio nominais foi obtida inspecionando a base de dados dos bancos centrais de ambos os países. 27 Entre 2004 e 2008, o Brasil passou a exibir taxas de crescimento médias anuais mais expressivas (especialmente entre 2006 e setembro de 2008), apesar da sobrevalorização da moeda brasileira em termos reais. Em princípio, isso poderia ser contraditório com as conclusões anteriores. No entanto, em 2006, diversos economistas brasileiros já alertavam, de forma implícita ou explícita, para a eventual possibilidade de que o crescimento econômico em curso viesse a ser abortado pelas restrições externas ao crescimento [Cardoso (2007), Lopez e Carvalho (2008) e BresserPereira (2009a)]. De fato, a sobrevalorização da moeda brasileira em termos reais já começava, ainda que lentamente, a reverter a tendência de elevados superávits em conta-corrente (os dados sobre o balanço de pagamentos serão mostrados a seguir). 28 Essa estratégia cambial foi confirmada na entrevista com o departamento de pesquisa econômica do RBI. Para mais detalhes sobre a política cambial na Índia no período 1991-2006, ver Nassif (2007). 2.244 Resultado do Balanço 4.319 -201 -1.890 -25.008 4.885 12.550 -9.464 3.558 -34.276 -73.606 118.308 44.703 13.985 2005 Fontes: Banco Central do Brasil e Reserve Bank of India. -383 -1.912 Empréstimos e Financiamentos Erros e Omissões -10.729 Investimento em Carteira Outras Operações 8.339 -4.750 Investimento Direto -7.523 3.236 Conta Capital e Financeira Transferências Unilaterais Correntes -25.198 -62.835 Importação de Bens Serviços e Rendas 96.475 33.641 Balança Comercial Exportação de Bens 11.679 2004 Transações Correntes Discriminação 30.569 628 -1.028 17.625 9.081 -9.380 16.299 4.306 -37.120 -91.351 137.807 46.457 13.643 2006 1.551 2007 87.484 -3.152 -16.115 29.292 48.390 27.518 89.086 4.029 -42.510 -120.617 160.649 40.032 Brasil 73.743 -2.419 -22.831 28.583 35.582 31.281 72.616 2.958 -30.356 -85.655 116.599 30.944 3.546 Jan-Set/07 23.959 -7.256 -4.011 25.638 17.087 15.448 54.161 2.840 -45.413 -131.233 150.860 19.627 -22.947 Jan-Set/08 Tabela 2. Balanço de Pagamentos no Brasil e na Índia (2004-jan./set. 2008) (Em US$ Milhões) 23.601 591 4.581 5.019 9.037 3.592 22.229 19.793 9.024 -105.975 77.939 -28.036 781 2004 14.460 -538 496 8.015 12.144 4.628 25.283 23.642 13.328 -149.130 102.175 -47.255 -10.285 2005 29.375 -325 1.427 20.720 9.546 6.820 38.513 27.055 25.494 -185-041 122.963 -62.078 -9.529 2006 2007 151.331 -79.137 -12.110 87.626 1.490 15.273 38.034 34.845 10.094 98.246 36.112 30.915 -230.468 Índia 60.888 935 13.832 26.566 20.183 6.365 66.946 25.246 21.806 -163.092 109.047 -54.045 -6.993 Jan-Set/07 22.491 -18 14.829 19.206 -9.253 22.030 46.812 39.122 30.557 -228.187 134.205 -93.982 -24.303 Jan-Set/08 O Brasil e a Índia frente à crise econômica global | 19 20 | André Nassif (ver Tabela 2). Em primeiro lugar, cabe ressaltar que, ao contrário do que pode sugerir a significativa participação dos capitais em carteira no total dos influxos líquidos de capital até 2007, a Índia ainda restringe a aplicação estrangeira no mercado de títulos públicos. Os dados contidos no subitem capitais em carteira da conta capital e financeira da Índia dizem respeito basicamente a investimentos estrangeiros no mercado acionário por parte de investidores institucionais. Gráfico 6. Estoque de Reservas Internacionais no Brasil e na Índia (2000-Jan. 2009) Fontes: Banco Central do Brasil e Reserve Bank of India. Nota: Reservas internacionais totais (inclusive ouro monetário), expressas em US$ milhões. *Para o Brasil, estoque disponível em 31 de dezembro de 2008, e para a Índia, em 16 de janeiro de 2009. Em artigo recente, Chandrasekhar (2008) observa que, apesar de evitar a plena conversibilidade da conta de capitais, o governo indiano tem introduzido, desde 2005, diversos mecanismos para estimular a aplicação, por parte de residentes indianos, dos saldos líquidos positivos de divisas provenientes dos megassuperávits do balanço de pagamentos (ver Tabela 2).29 Embora o autor comente criticamente que tais medidas seriam, na verdade, formas veladas de liberalização da conta de capitais, o fato é que elas vinham cumprindo o papel de promover depreciações nominais da moeda indiana e, ceteris paribus, restaurar a paridade relativa real do poder de compra da rupia em relação às moedas dos principais parceiros comerciais. Com isso, evitava-se o ônus fiscal decorrente das compras diretas de divisas pelo 29 Entre as medidas mencionadas por Chandrasekhar (2008), destacam-se a permissão para que companhias indianas constituam subsidiárias próprias ou joint-ventures no exterior em montante de até 400% de seu valor líquido; liberalização de investimentos em portfolio por companhias indianas listadas na bolsa em montante de até 50% de seu valor líquido; e permissão de investimentos no exterior, no valor de até US$ 5 bilhões, por parte de fundos mútuos indianos registrados na Securities and Exchange Board of India (Sebi). O Brasil e a Índia frente à crise econômica global | 21 RBI (ver Gráfico 5).30 Assim, com as diversas medidas de liberalização da saída de capitais visando à compra de ativos no exterior, por parte de indianos residentes (sobretudo agentes empresariais), o excesso de demanda no mercado de divisas vinha sendo suprido pela desova de reservas internacionais pela autoridade monetária.31 Portanto, a perda de reservas internacionais entre maio e agosto de 2008 (ver Gráfico 6) deve ser interpretada como o resultado de um engenhoso mecanismo que vinha proporcionando, simultaneamente, a restauração da competitividade real da rupia frente aos principais parceiros e a internacionalização de empresas indianas na economia global. Em suma, por meio de um mecanismo de política macroeconômica (neste caso, a cambial), o governo indiano vinha simultaneamente engendrando políticas industriais destinadas a transformar companhias indianas em empresas globais.32 A Tabela 2 também mostra a decomposição das contas do balanço de pagamentos nos dois países. Diferentemente da Índia, que já operava com déficits em transações correntes desde 2005, o Brasil só mostrou forte retração dos elevados superávits nesta rubrica a partir de 2007. Os dados de janeiro a setembro de 2008 mostram, no entanto, substancial crescimento dos déficits em transações correntes em ambos os países, na comparação com igual período do ano anterior. O rápido crescimento dos déficits em transações correntes no Brasil e na Índia a partir do ano passado tem causas relativamente associadas. Enquanto no Brasil ele está relacionado à enorme contração dos megassuperávits comerciais e à drástica elevação do déficit no subitem serviços e rendas – que já era historicamente elevado no país –, na Índia os saldos negativos em transações correntes aumentaram substancialmente em virtude do incremento vertiginoso dos déficits no comércio externo de mercadorias. Com o agravamento da crise econômica global que se seguiu à falência do banco de investimentos Lehman Brothers, em setembro de 2008, os países que já contavam com déficits elevados em transações correntes e moeda sobrevalorizada em termos reais foram os mais diretamente afetados pelo 30 O problema do excesso de entrada de capitais e seus efeitos deletérios sobre a instabilidade dos mercados acionário e cambial já era uma preocupação da autoridade monetária indiana desde 2007. Em matéria de 6 de março de 2008, a revista The Economist assegurava que “a Índia não podia mais absorver tamanho influxo líquido de capitais externos sem evitar, em contrapartida, maior turbulência no mercado de ações e fortalecimento da rupia”. Já então, concluía o periódico, “a maior parte dos capitais estrangeiros acabava alimentando o aumento de preços dos ativos (notadamente imóveis) e o acúmulo improdutivo de reservas internacionais”. 31 Os dados sobre compra e venda de dólares pelo RBI informam que, entre abril de 2007 e fevereiro de 2008, o RBI não efetuou qualquer venda de divisas no mercado de câmbio. A partir de então, ele passou a realizar operações de vendas das reservas, embora estas tenham sido inferiores às compras de divisas até maio daquele ano. A partir de junho de 2008, as vendas de divisas já superavam as compras em montante significativo (ver http://www.rbi.org.in). 32 Como salienta Chandrasekhar (2008), “as dificuldades para administrar o excesso de divisas externas requerem a escolha entre restringir novos influxos de capital ou estimular o uso das divisas por parte de residentes. O governo optou claramente pela última alternativa” (tradução livre do original, p. 3). É possível que o rápido crescimento dos déficits em transações correntes tenha alimentado expectativas futuras de paradas súbitas (sudden stops) e, por conseguinte, de desvalorização da rupia, o que poderá ter também contribuído para a desova de reservas internacionais pelo RBI. O autor agradece a Francisco Eduardo Pires de Souza por esta sugestão adicional. 22 | André Nassif contágio financeiro, manifestado por fuga imediata de capitais e desvalorização de suas moedas. Como se discutirá na próxima seção, nem o Brasil nem a Índia ficaram imunes a essa forma de contágio. No entanto, é preciso avaliar, em perspectiva comparada, com que intensidade o setor real de ambas as economias foi e está sendo afetado pela crise financeira global. 3. Os Impactos Imediatos da Crise Global no Brasil e na Índia A falência do banco norte-americano Lehman Brothers, em 15 de setembro de 2008, é o marco divisório a partir do qual a crise financeira, inicialmente limitada aos Estados Unidos e aos sistemas financeiros dos principais países europeus e do Japão, se irradiou para o mercado global. Entre meados de setembro e outubro de 2008, os mercados acionários de praticamente todos os países acumularam perdas substanciais. Ao mesmo tempo, em decorrência do movimento de recomposição de carteiras para compensar perdas em terceiros mercados e da corrida dos investidores para a segurança proporcionada pelos títulos do Tesouro americano, os países em desenvolvimento sofreram imediata fuga de capitais e parada súbita (sudden stop) de novos influxos financeiros, o que acabou por provocar forte desvalorização de suas moedas. O Brasil e a Índia também sofreram os impactos imediatos da crise econômica global, embora por níveis de intensidade distintos. A partir de setembro e mais intensamente em outubro de 2008, ambos os países sofreram súbita fuga de capitais estrangeiros – especialmente os direcionados para aplicação em carteira de títulos e de ações (no caso da Índia, apenas esta última modalidade) – e desvalorização de suas moedas. Em novembro e dezembro, já eram notórios os efeitos adversos da crise global sobre a atividade econômica nos dois países. A seguir, apresentaremos os principais impactos iniciais da crise internacional sobre os mercados de ações, de crédito, risco-país, bem como sobre a atividade econômica no Brasil e na Índia. 3.1 Impactos sobre o Mercado Acionário O contágio da crise global repercutiu de maneira distinta nos mercados acionários do Brasil e da Índia. Ao longo do primeiro semestre de 2008 – antes, portanto, do agravamento da crise internacional –, enquanto o comportamento das bolsas brasileiras continuava refletindo a euforia relacionada aos elevados preços das commodities nos mercados externos, o mercado acionário indiano já passava por um ciclo paulatino de contração, o que mostrava a desaceleração em curso da atividade econômica no país. No caso brasileiro, em particular, até junho de 2008 as expectativas de manutenção de preços elevados das commodities inflaram O Brasil e a Índia frente à crise econômica global | 23 a rentabilidade projetada das empresas nos setores de mineração, petróleo e alimentos. A intensa participação de investidores estrangeiros no mercado produziu, a reboque, forte valorização das ações em outros setores. Esses fatores levaram as bolsas brasileiras a alcançar uma fase de boom. Como mostra o Gráfico 7, desde o início de 2008 o Sensex 30, principal índice da bolsa de valores indiana, vinha mostrando tendência de queda, cujas causas estavam relacionadas não apenas à desaceleração econômica em curso decorrente da política monetária anti-inflacionária do RBI, como também às expectativas de retração na demanda externa de bens e serviços indianos. O Gráfico 7 apresenta o desempenho em dólares dos principais índices dos dois países – Ibovespa e Sensex 30. Pode-se observar que até o final de maio de 2008 as bolsas dos dois países se pautaram por comportamento tendencialmente opostos. Em dólares americanos, a bolsa brasileira apresentou valorização de 23,4% entre 3 de janeiro e 30 de maio de 2008, ao passo que o mercado indiano recuou 25,1% em igual período. Gráfico 7. Evolução em US$ do Ibovespa (Brasil) e BSE Sensex 30 (Índia) 1.1.2008 = 1 Fontes: Bombay Stock Exchange, Bovespa e Bloomberg. Enquanto o estouro da bolha especulativa no mercado de commodities, ocorrido em julho de 2008, deu início à correção no índice do mercado acionário brasileiro, a bolsa de valores indiana prosseguia sua trajetória de queda. Com o agravamento da crise econômica global, a partir de setembro de 2008, as baixas repentinas ocorridas no mercado acionário brasileiro foram tão proeminentes, que eliminaram 24 | André Nassif boa parte da vantagem acumulada no ano sobre o mercado indiano. Em termos comparativos, o choque de setembro de 2008 provocou quedas mais expressivas sobre o mercado brasileiro do que sobre o indiano. Entre 15 de setembro e 27 de outubro de 2008, a desvalorização em dólares norte-americanos do Ibovespa atingiu 53,0%, contra 42,1% do Sensex. 3.2 Impactos sobre o Mercado de Crédito Desde o ínicio da década de 2000, o mercado financeiro indiano experimentava um crescimento virtuoso da liquidez e do volume de crédito. A taxa de expansão anual da oferta monetária, que vinha crescendo expressivamente desde 2005, chegou a alcançar cerca de 24% em dezembro de 2007 (cifra anualizada). Como no Brasil, a expansão do crédito foi também generalizada, porém, no caso indiano, houve maior concentração nos financiamentos à aquisição de bens duráveis e imóveis. O aumento da liquidez propiciou intenso crescimento na demanda por imóveis na Índia, de modo que, a exemplo de outros países, a formação de bolhas especulativas neste segmento foi inevitável.33 Ainda que estejamos sendo redundantes, é importante insistir em que, na percepção dos técnicos do RBI, menos que nos elevados preços das commodities nos mercados internacionais, parte significativa da inflação indiana estava atrelada ao excesso de demanda nos setores de serviços.34 É difícil estabelecer com precisão o papel exercido pelo expressivo influxo de investimentos estrangeiros (sobretudo aqueles sob a rubrica de “capitais para aplicação em portfolio acionário”) na expansão da liquidez e do crédito domésticos. De todo modo, as frequentes intervenções do RBI no mercado cambial levadas a cabo desde o início da década de 2000, de que resultou um acúmulo significativo de reservas internacionais para o país (ver Gráfico 6), acarretaram, em contrapartida, ampliação não desprezível dos saldos monetários da economia. Como já analisado na seção anterior, o problema dos elevados custos fiscais envolvidos na esterilização desse aumento de liquidez foi solucionado, em parte, pelos estímulos do RBI, a partir de 2005, à utilização das reservas pelos indianos residentes na aplicação de ativos no exterior. Com o agravamento da crise econômica global, não apenas o referido processo de expansão do crédito doméstico como o intenso influxo de capitais que o alimentava sofreram repentina e drástica reversão. A partir de outubro de 2008, a enorme dificuldade para efetivar novas captações externas por parte de bancos locais acabou comprometendo as operações de diversas linhas de crédito, notadamente as voltadas para o financiamento do comércio exterior. No entanto, a elevada 33 Ver The Economist, de 21 de agosto de 2008. 34 Essas informações foram colhidas na entrevista com o departamento econômico do RBI. O Brasil e a Índia frente à crise econômica global | 25 participação dos bancos públicos no mercado financeiro da Índia, além da estreita ligação entre alguns destes e o RBI, permitiu uma resposta rápida das autoridades econômicas à repentina compressão do crédito.35 Os impactos da crise internacional sobre o mercado de crédito no Brasil devem ser avaliados levando-se em conta dois aspectos principais:36 primeiro, o rápido ritmo de crescimento da atividade econômica em curso no Brasil no período imediatamente anterior ao agravamento da crise (até setembro de 2008); segundo, as características estruturais e institucionais do mercado de crédito brasileiro. No que concerne ao primeiro aspecto, os impactos foram bastante similares aos ocorridos na Índia: num contexto de aceleração da atividade produtiva e de aumento do investimento, o mercado de crédito doméstico vinha respondendo de forma elástica ao incremento da demanda por recursos financeiros de curto e de longo prazos por parte das empresas. Após a quebra do Lehman Brothers, em setembro de 2008, a brusca interrupção das linhas de crédito internacionais e a crise de confiança generalizada que se abateu sobre o mercado de capitais doméstico levaram à significativa compressão do crédito privado. Para compensar os efeitos do credit crunch, os bancos públicos passaram a atuar de forma anticíclica, seja aumentando as linhas de crédito direcionadas, seja extrapolando – ainda que em caráter excepcional – suas funções tradicionais (caso do BNDES, que criou linhas de financiamento para capital de giro), seja ainda exercendo o papel de “quase emprestadores” de última instância (caso do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal, que tiveram permissão para adquirir carteiras dos bancos privados de pequeno e médio portes, com maiores problemas de liquidez). No que respeita ao segundo aspecto, algumas características estruturais e institucionais sui generis do mercado de crédito brasileiro tornaram a crise de crédito no Brasil, no pós-setembro de 2008, mais severa do que na Índia. Com efeito, diferentemente da Índia, o Brasil tem uma estrutura do crédito privado fortemente concentrada em operações de financiamento de curto e médio prazos e um mercado de crédito interbancário fortemente focado em operações diárias (overnight). Com isso, a deflagração de uma crise de confiança, acompanhada por comportamento generalizado de preferência por liquidez, provocou uma situação inusitada, na qual foram simultaneamente contaminados o próprio interbancário, por meio do imediato empoçamento da liquidez, e o crédito privado livre, que comprimiu severamente o financiamento a empresas (sobretudo as pequenas e médias) e consumidores. 35 Apenas para citar um exemplo, os bancos públicos encarregados do financiamento agrícola na Índia têm acesso a linhas de desconto automático no RBI. Como já dito, na prática o RBI exerce funções que vão bem além daquelas normalmente executadas por um banco central clássico. 36 Este tópico se baseia no excelente resumo do Iedi (2009) a respeito dos impactos da crise internacional sobre as contas externas e o mercado de crédito brasileiros. 26 | André Nassif A existência de contratos de derivativos cambiais com operações nos mercados doméstico e global ajudou a agravar a situação de bancos e empresas e contribuiu para paralisar o crédito interbancário e final. A proliferação de operações nessa modalidade por parte de grandes empresas no contexto anterior de forte sobrevalorização do real frente ao dólar só veio à tona quando companhias de capital aberto como Aracruz Celulose e Sadia declararam contar com vultoso montante de posição vendida em dólar já em novo contexto em que a moeda brasileira, em outubro de 2008, tinha sofrido forte desvalorização frente à moeda americana.37 A divulgação, com alarde, dessa notícia pela imprensa serviu para aumentar o clima de desconfiança recíproca entre bancos – alguns dos quais enfrentavam problemas de liquidez para honrar o vencimento de contratos – e de contração do crédito. Na Índia, por seu turno, a equipe técnica do RBI procurou ressaltar, de maneira bastante veemente, que, em virtude de seu relativo isolamento e da forte regulamentação exercida pela autoridade monetária, tanto os fluxos de financiamento como os custos no mercado interbancário, ao contrário do que ocorrera com o crédito aos tomadores finais privados, não teriam sido atingidos pela crise global.38 O Gráfico 8, entretanto, apresenta uma versão menos afinada dos fatos com os discursos. É possível notar que, a despeito do referido isolamento, o sistema financeiro indiano foi atingido de forma bastante similar aos demais mercados. O spread básico no interbancário indiano para 30 dias (spread Mibor) ficou bastante próximo do indicador equivalente para o mercado americano (spread de três meses ou taxa TED). Logo após o agravamento da crise global, entre o início de setembro e meados de outubro de 2008, o spread no interbancário indiano elevou-se do patamar de 1 ponto percentual para mais de 5 pontos percentuais. Nos meses seguintes, num típico movimento de ajuste, o indicador seguiu bem de perto seu equivalente para o mercado americano. 37 Entre o fim de julho e 28 de outubro de 2008, a cotação do dólar elevou-se de R$ 1,56 para R$ 2,20, correspondendo a uma desvalorização nominal de cerca de 41% da moeda brasileira ao longo do período. Com base na listagem das empresas não financeiras que integram o Ibovespa, a imprensa informava, em outubro de 2008, que cerca de 20% delas possuíam contratos de derivativos de câmbio em seus balanços recentes. Ver O Estado de S. Paulo, edição online de 28 de outubro de 2008 (http://www.estadao.com.br). 38 Esse diagnóstico foi colhido na entrevista com o departamento econômico do RBI. A referida equipe técnica reconheceu que, “embora o crédito ao setor privado tenha sido fortemente atingido pela crise, o mesmo não teria ocorrido com o crédito interbancário”. Essa percepção não estava restrita às autoridades governamentais indianas. Em entrevistas, representantes do sistema financeiro privado local também ressaltaram que, por não haver aplicações de bancos nacionais indianos nos mercados considerados epicentros da crise – notadamente os mercados imobiliários europeu e americano –, a confiança no mercado interbancário só teria sido marginalmente afetada. O Brasil e a Índia frente à crise econômica global | 27 Gráfico 8. Spreads nos Mercados Interbancários: Índia x EUA Fontes: Reserve Bank of India e Bloomberg. Gráfico 9. Taxas de Juros Anuais no Período Recente no Brasil (Selic, CDI over e Swaps DI Prefixadas para 360 dias) Fonte: Banco Central do Brasil. O Gráfico 9 mostra o comportamento recente das taxas de juros no Brasil, antes e depois do agravamento da crise global. No Brasil, as taxas do interbancário brasileiro (os juros do CDI over) são geralmente definidas para um dia. Isso reflete a 28 | André Nassif estrutura sui generis do mercado interbancário brasileiro, com elevada concentração das operações no curtíssimo prazo. Como se pode notar, os spreads para um dia no interbancário brasileiro, que seguem bem de perto as variações ocorridas na taxa básica de juros (Selic), continuaram bastante elevados entre outubro de 2008 e meados de janeiro do ano seguinte, quando o mercado interbancário indiano já passava por movimento de ajuste.39 No entanto, mesmo diante da decisão do Conselho de Política Monetária (Copom) de manter inalteradas as taxas básicas de juros em 13,75% entre setembro de 2008 e meados de janeiro do ano seguinte, os juros futuros das operações de swap DI para 360 dias já mostravam forte tendência de declínio desde meados de novembro de 2008, o que já indicava que o mercado duvidava de que a autoridade monetária pudesse prolongar por muito tempo sua política monetária ultraconservadora.40 3.3 Impactos sobre o Risco-País e Custos de Capital Por não ter um mercado líquido internacional para seus títulos de dívida, uma vez que continua vedada a participação de estrangeiros no financiamento da dívida pública, não há para a economia indiana referência clara de risco-país, como os indicadores EMBI ou os preços de derivativos de crédito (CDS).41 No mercado internacional, costuma-se utilizar como proxy para o risco-Índia os CDS do State Bank of India – o maior banco comercial indiano, ainda sob controle estatal. No caso do Brasil, são fartos os indicadores de risco-país, sendo os mais utilizados o EMBI e o CDS. Por causa das limitações inerentes ao risco-Índia, em vez do nível absoluto do risco-país, é mais conveniente analisar as variações relativas ocorridas neste indicador nos meses imediatamente subsequentes ao agravamento da crise global. A Tabela 3 apresenta a evolução do risco para os dois países no período imediatamente após o agravamento da crise global. Ao comparar os índices no fim de outubro contra o fim de agosto de 2008, constata-se um acréscimo muito similar (em torno de 155%) no risco de ambos os países. Três meses depois, enquanto o indicador de risco para a Índia no final de janeiro de 2009 era apenas 52% 39 As taxas de juros do CDI no overnight (taxas anualizadas), que se encontravam em 12,83% no final de agosto de 2008, avançaram para 13,60% no final de setembro, permanecendo em torno desse nível até 21 de janeiro de 2009, dia da reunião em que o Conselho de Política Monetária reduziu, pela primeira vez após o agravamento da crise global, a taxa básica de juros (Selic). No dia seguinte, a taxa do CDI over recuou para 12,60%, permanecendo nesse patamar até 11 de março de 2009. 40 As taxas de juros das operações de swap DI para 360 dias recuaram de 15,31% a.a., em 14.11.2008, para 12,17%, em 30.12.2008, e para 11,23%, em 20.1.2009. Somente no dia 21.1.2009, o Copom reduziu, pela primeira vez após o agravamento da crise global, a taxa básica de juros em 1 ponto percentual (para 12,75%). 41 O EMBI (Emerging Markets Bond Index) é um dos mais utilizados indicadores de risco-país, calculado pelo banco americano JP Morgan. Já os CDS (Credit Default Swaps) são títulos negociados em mercados organizados ou de balcão, nos quais uma parte assume o risco de não pagamento (default) de uma dívida, enquanto a outra se compromete a arcar com o “prêmio” dos riscos assumidos, cujos pagamentos são diluídos ao longo do tempo. A determinação desse prêmio pelo mercado viabiliza o cálculo de uma proxy para o risco do devedor subjacente. O Brasil e a Índia frente à crise econômica global | 29 superior ao registrado em agosto do ano anterior, o risco-Brasil recuou apenas marginalmente. Tabela 3. Risco-País: Brasil e Índia – Variação em Meses Selecionados, Comparada a Agosto de 2008 (Em %) Risco Soberano Variação País ago/08 out/08 jan/09 ago/08 – out/08 ago/08 – jan/09 Índia* 235,89 605,47 360,56 156,7 52,9 Brasil 130,30 333,07 300,51 155,6 130,6 Fontes: JP Morgan e Bloomberg. * CDS do State Bank of India – proxy utilizada pelo mercado para o risco-país. A menor variação do risco-Índia no início de 2009 pode ser explicada por dois fatores distintos: o primeiro é que, embora entre 2006 e meados de 2008 parte expressiva das entradas de capitais nos dois países tenha sido registrada na modalidade “capitais para aplicação em carteira” (ver Tabela 2), na Índia há uma participação importante no total desses influxos de recursos financeiros provenientes de indianos não residentes, ao passo que no Brasil a maior parte está concentrada em aplicações de estrangeiros;42 o segundo é que, sendo a Índia importadora líquida de petróleo e insumos energéticos e modesta exportadora de minerais (inclusive petróleo), a rápida e vertiginosa queda dos preços de commodities observada entre outubro e dezembro de 2008 aumentou as expectativas de melhora dos termos de troca e, tudo o mais constante, de redução dos déficits em conta-corrente. O Gráfico 10 mostra os impactos imediatos da crise global sobre as taxas de câmbio nominais no Brasil e na Índia. É fácil observar que na Índia as variações do câmbio nominal foram bem mais modestas que no Brasil. Considerando a data anterior ao agravamento da crise como o mês de agosto (média do período) – que precedeu à falência do banco Lehman Brothers – em novembro de 2008 a rupia atingiu seu pico de desvalorização nominal (14,1%) e já registrava em janeiro de 2009 uma desvalorização de 11,5% frente à média de agosto de 2008. No Brasil, a desvalorização do real, além de ter sido bem mais expressiva que a da rupia, ainda continuava acentuada até janeiro de 2009. No entanto, cabe notar que, entre novembro de 2008 e janeiro de 2009, os percentuais de desvalorização em cada mês, em comparação com a taxa de câmbio nominal média prevalecente em agosto de 2008, ficaram relativamente estáveis 42 Em entrevista, a equipe técnica do RBI já identificava o retorno lento dos capitais externos a partir de janeiro de 2009. No caso da Índia, por razões culturais e de forte sentimento nacional, faz sentido interpretar o comportamento dos agentes econômicos indianos não residentes, que decidiram adotar comportamento de “manada” no limiar da crise financeira (outubro de 2008), desfazendo posições de carteira e se retirando do país, para, posteriormente, passado o pânico inicial, retornar lentamente ao mercado de capitais da Índia. 30 | André Nassif nos dois países – entre 39% e 43% no Brasil e entre 10% e 15% na Índia, níveis muito próximos à sobrevalorização real das respectivas moedas que vigorava até meados de 2008 (conforme já indicado no Gráfico 5). Portanto, os dados sugerem que, em janeiro de 2009, as taxas de câmbio nominal nos dois países estavam mais próximas do nível de paridade real. Gráfico 10. Taxas de Câmbio Nominais no Brasil e na Índia Variações Percentuais Mensais Comparadas a Agosto de 2008 (Médias do Período) Fontes: Banco Central do Brasil e Reserve Bank of India. Notas: (-) Desvalorização do real brasileiro ou da rupia indiana. Taxas de câmbio nominais R$/dólar e Rs/dólar. 3.4 Impactos sobre as Exportações Como já analisado, um dos canais de transmissão da crise financeira internacional foi o financiamento ao comércio exterior. Como na maioria dos países, na Índia a retração das exportações foi a via inicial pela qual se manifestaram os primeiros impactos adversos da crise sobre o setor real de sua economia.43 A súbita interrupção das fontes de trade finance e a rápida desaceleração dos principais parceiros comerciais da Índia derrubaram, de imediato, as exportações do país. Como mostra o Gráfico 11, depois de registrarem forte retração em outubro de 2008, no mês seguinte as vendas externas continuaram em queda (de 10% em relação ao mesmo mês do ano anterior). Entre fevereiro de 2008 e fevereiro de 43 No Brasil, o impacto da crise global sobre a produção industrial foi imediato (esta já registrava desaceleração em outubro e variação negativa em novembro de 2008, segundo dados do IBGE) e ocorreu antes do efeito negativo exercido sobre as exportações. Na Índia, tanto as exportações como a produção industrial foram imediata e adversamente afetadas em outubro de 2008. O Brasil e a Índia frente à crise econômica global | 31 2009, as exportações apresentaram novamente forte variação negativa (-21,7%). Trata-se, sem dúvida, de impacto considerável, levando-se em conta que, até julho de 2008, as exportações vinham crescendo à taxa média mensal de 28%. A queda no preço do petróleo também colaborou para esse resultado, uma vez que o produto, responsável isoladamente por 10% da pauta exportadora de bens do país, teve seu preço reduzido em 69% entre julho e dezembro de 2008. Gráfico 11. Exportações – US$ Variação Mensal em Relação ao Mesmo Mês do Ano Anterior Fontes: Para o Brasil, Secretaria de Comércio Exterior (Secex), e, para a Índia, Department of Commerce e Government of India. O Gráfico 11 também permite avaliar, em perspectiva comparativa, os impactos imediatos da crise global sobre as vendas externas dos dois países (barras) e sobre o próprio comércio mundial (linha contínua). Diferentemente do que ocorrera com a Índia, as exportações do Brasil só começaram a indicar taxas de variação negativas em dezembro de 2008. Mesmo assim, tal impacto ainda podia ser considerado modesto se considerarmos o efeito negativo exercido pela queda acentuada dos preços de diversas commodities com participação expressiva na pauta exportada brasileira. Entretanto, em janeiro e fevereiro de 2009, já se tornavam notórios os efeitos adversos da crise internacional sobre as exportações brasileiras, que tiveram retração de -26,3% e -25,1%, respectivamente, em relação a iguais meses do ano anterior. Como nesses dois meses a retração dos preços dos bens exportados pelo Brasil foi, em média (respectivamente, -3,1% e -6,8%), bem inferior à do valor das vendas externas, a queda das exportações foi mais adversamente afetada pela contração do quantum exportado (respectivamente de -24,2% e -19,9% em igual período). Em suma, o Gráfico 11 permite concluir que a queda das exportações bra- 32 | André Nassif sileiras não apenas acabou se revelando mais intensa do que na Índia, como também superou, no primeiro bimestre de 2009, a retração das exportações mundiais. 3.5 Impactos sobre a Atividade Econômica Os Gráficos 12 e 13, bem como a Tabela 4, permitem elucidar os impactos imediatos da crise global sobre a atividade econômica em ambos os países. Iniciando pelos efeitos sobre a atividade do setor industrial, o Gráfico 12 apresenta as médias móveis trimestrais da variação mensal da produção industrial em relação ao mesmo mês do ano anterior. Nota-se que entre o início de 2007 e setembro de 2008, enquanto na Índia a produção industrial mostrava tendência de desaceleração, no Brasil caminhava-se na direção contrária.44 No entanto, salta aos olhos o drástico impacto exercido pela crise global sobre a queda da atividade industrial brasileira a partir de setembro de 2008. Entre dezembro de 2008 e fevereiro de 2009, a produção industrial teve contração média de -16,4% em relação ao mesmo período do ano anterior. Em contrapartida, a contração média da produção industrial indiana foi bem menos intensa (-0,8%) que a brasileira no mesmo período. No primeiro trimestre de 2009, por seu turno, apesar de a média móvel mensal da atividade do setor industrial brasileiro ter registrado ligeira melhora (-14,8%), a contração média era ainda significativa, comparada ao mesmo período do ano anterior.45 Gráfico 12. A Evolução da Produção Industrial no Brasil e na Índia Variações Mensais em Relação ao Mesmo Mês do Ano Anterior (Médias Móveis Trimestrais) Fontes: Para o Brasil, IBGE, e, para a Índia, Central Statistical Organisation. 44 No caso do Brasil, a produção industrial já mostrava tendência de crescimento a partir de meados de 2006. 45 Até a finalização deste artigo, não havia dados disponíveis para a Índia referentes ao mês de março. O Brasil e a Índia frente à crise econômica global | 33 O Gráfico 13 mostra a evolução do PIB real nos dois países. Os dados confirmam que a desaceleração econômica indiana já estava em curso desde o primeiro trimestre de 2008 e as razões desse desaquecimento não estavam relacionadas a qualquer problema de ordem estrutural, mas aos efeitos emanados da política anti-inflacionária do RBI. Como ilustra o Gráfico 13, que indica a variação do PIB real trimestral nos dois países na comparação com o trimestre correspondente do ano anterior, na Índia o impacto imediato da crise global a partir de setembro de 2008 foi acentuar o processo de desaceleração econômica em curso no país desde o terceiro trimestre do ano anterior. Depois de haver recuado para um crescimento de 7,6% no terceiro trimestre de 2008, comparado a igual período do ano anterior – contra 8,8% e 7,9% no primeiro e segundo trimestres de 2008, respectivamente –, a crise aumentou o ritmo de desaceleração da economia indiana, que fechou o último trimestre-calendário de 2008 com variação positiva de 5,3%. No Brasil, diferentemente da Índia, o impacto bem mais adverso sobre o crescimento do PIB real de curto prazo entre outubro e dezembro de 2008 (apenas 1,2% de variação positiva em relação a igual período de 2007), depois de registrar crescimento de 6,2% no trimestre imediatamente anterior, pode ser explicado por duas razões: a primeira está relacionada aos efeitos estatisticamente negativos provenientes de uma economia que já se encontrava num ritmo de crescimento relativamente acelerado; a segunda está ligada à maior lentidão e menor intensidade de resposta imediata das políticas monetária e fiscal adotadas no país, sobretudo no período outubro-dezembro de 2008, tema que será objeto das próximas seções. Gráfico 13. A Evolução do PIB Real no Brasil e na Índia no Período Anterior e Imediatamente Posterior à Crise Econômica Global Fontes: IBGE e Reserve Bank of India. Nota: PIB a custo de fatores para ambos os países. 34 | André Nassif Antes, porém, vale a pena analisar as variações recentes nos componentes do PIB real dos dois países pelo lado da demanda agregada, de acordo com as informações constantes na Tabela 4. Com esses dados, é possível elucidar os componentes agregados mais afetados pela crise global. As colunas da Tabela 4 mostram as taxas de crescimento trimestrais desde 2007 em relação ao mesmo trimestre do ano anterior. Os dados revelam que até o terceiro trimestre de 2008 – antes, portanto, do contágio da crise financeira americana para a economia global – a maioria dos componentes da demanda vinha crescendo a taxas expressivas no Brasil e na Índia. No caso brasileiro, à exceção das exportações, todas as demais variáveis vinham crescendo a taxas ou muito significativas (caso do investimento bruto e das importações) ou significativas (consumo das famílias e gastos correntes do governo). Na Índia, algumas variáveis vinham apresentando comportamento mais instável, como se pode notar pela taxa de variação negativa do investimento bruto e das importações em dois trimestres consecutivos de 2007 e também dos gastos correntes do governo no segundo trimestre desse mesmo ano. Esse comportamento reflete a já mencionada desaceleração da economia indiana, em curso antes do agravamento da crise global. Nada obstante, pode-se afirmar que, na média, os componentes mais dinâmicos vinham sendo o investimento bruto e as exportações. Tabela 4. Brasil e Índia: Evolução Recente dos Componentes da Demanda Agregada Variação Trimestral em Relação ao Mesmo Trimestre do Ano Anterior (Em %) Período Índia Brasil País Componente da Demanda 2007.1 2007.2 2007.3 2007.4 2008.1 2008.2 2008.3 2008.4 Consumo das Famílias 6,4 5,9 5,6 7,2 6,3 5,9 7,3 2,2 Consumo do Governo 4,7 6,3 4,5 3,6 6,5 4,3 6,4 5,5 Exportações 6,2 13,6 1,7 6,2 -2,3 4,9 2,0 -7,0 Importações 20,0 18,6 20,7 23,5 18,8 26,0 22,8 7,6 Formação Bruta de Capital Fixo 9,0 13,4 15,2 16,0 15,4 16,6 19,7 3,8 Consumo das Famílias 5,7 6,1 7,3 8,5 8,4 8,9 7,1 6,1 Consumo do Governo 5,7 -2,6 11,7 3,5 16,8 9,7 6,5 26,8 Exportações 15,5 14,1 18,5 15,3 9,6 9,4 13,3 4,6 Importações 15,1 -3,4 -2,8 9,5 7,6 26,6 15,7 11,0 Formação Bruta de Capital Fixo 12,6 -1,8 -3,2 8,2 7,7 31,9 29,9 22,1 Fontes: Ipeadata, para o Brasil, e Fundo Monetário Internacional, para a Índia. Nota: Para a Índia, os dados do Fundo Monetário Internacional estão originalmente expressos em termos nominais. A conversão para valores reais foi feita com base no deflator implícito do produto indiano. O Brasil e a Índia frente à crise econômica global | 35 A última coluna da Tabela 4 capta os impactos iniciais da crise global sobre os componentes de gastos agregados nos dois países. O efeito adverso sobre a economia brasileira é inequivocamente captado pela forte desaceleração do investimento bruto, do consumo e das importações e, principalmente, pela contração das exportações. Os gastos públicos também sofreram ligeira desaceleração. No caso da Índia, pode-se afirmar que as exportações figuram como o componente mais adversamente afetado no limiar da crise global. No entanto, a última coluna já evidencia os efeitos iniciais decorrentes da intensidade dos estímulos fiscais adotados pelo governo indiano sobre o comportamento dos gastos públicos correntes e do investimento bruto. Com efeito, enquanto as diversas renúncias fiscais e demais gastos públicos antirrecessivos fizeram a taxa de variação do consumo corrente do governo saltar de um crescimento anual de 6,5% para 26,8% entre o terceiro e o último trimestres de 2008, a formação bruta de capital fixo – que, na metodologia internacional de elaboração das Contas Nacionais, incorpora os fluxos de investimento privado e público – sofreu considerável desaceleração em igual período (de 29,9% para 22,1%). Esse comportamento confirma as conclusões do Relatório Anual do RBI, segundo as quais a intensificação dos estímulos fiscais contribuiu para compensar parcialmente a desaceleração do consumo e do investimento privados [RBI (2009b, p. i-ii). Esses pontos serão retomados na próxima seção. 4. Enfrentando a “Tempestade” Global: Fortalezas, Fragilidades e Respostas de Política Econômica O Brasil e a Índia, a exemplo de praticamente todos os países capitalistas com razoável grau de integração comercial e financeira internacional, sofreram os impactos da crise iniciada nos Estados Unidos, agravada a partir de setembro de 2008, após a falência do banco de investimentos Lehamn Brothers. Os canais de transmissão imediatos foram financeiros e cambiais, pois a maioria dos países emergentes teve fuga de capitais, forte desvalorização de suas moedas e compressão repentina do crédito privado interno e externo. Ao se aproximar o final de 2008, já era inequívoca a contaminação da crise financeira para o chamado setor real da economia, manifestada pela queda substancial da produção industrial nos dois países. Nesta seção, pretendemos analisar os pontos fortes e fracos dos dois países nessa fase em que precisarão enfrentar os impactos recessivos decorrentes da crise econômica global. As condições para que ambos os países possam pelo menos evitar taxas de variação negativas no PIB real em 2009 (ou mesmo em 2010, se não forem eliminadas as ameaças de depressão global) dependerão dos indicadores macroeconômicos preexistentes, bem como da intensidade, consistência e capacidade indutora das políticas macroeconômicas adotadas (notadamente, os 36 | André Nassif estímulos monetários e fiscais) para restaurar a confiança futura, desestimular a exagerada preferência por liquidez por parte dos agentes econômicos e retornar à normalidade os canais de crédito privado de curto e de longo prazos. Diversos analistas têm ressaltado reiteradamente que o Brasil, pela primeira vez depois de décadas de fragilidade financeira interna e externa, passou a exibir recentemente indicadores mais sólidos de solvência, o que lhe conferiria maior blindagem para enfrentar choques internacionais. Como mostra a Tabela 5, essa interpretação não contém qualquer exagero. Tanto o Brasil como a Índia exibem baixos (e muito semelhantes) indicadores de fragilidade financeira externa. Em 2007, expressos em percentuais do PIB, o estoque e os serviços totais (despesas com amortização e juros) da dívida externa eram baixos para os padrões dos países emergentes. O estoque de reservas internacionais disponíveis cobria mais de 15 meses de importações nos dois países. Embora tenha crescido significativamente no Brasil e na Índia em 2007 (20% do PIB), a dívida externa de curto prazo não chegava a sinalizar qualquer risco de insolvência, haja vista o reduzido grau de comprometimento anual com os serviços da dívida externa (3,9% do PIB no Brasil e 5,4% na Índia). Por outro lado, ao contrário da Índia, a fragilidade brasileira está concentrada no baixo nível de poupança e investimento doméstico (neste último caso, privado e público). Tabela 5. Brasil e Índia: Dados Macroeconômicos Básicos (2005-2007) Indicador Índia¹1 Brasil 2005 2006 2007 2005 2006 2007 Poupança em % do PIB) 17,3 17,6 17,5 34,3 34,8 nd Investimento Bruto Total (em % do PIB) 15,9 16,4 17,5 28,7 30,3 31,8 Investimento do Governo Central (em % do PIB) 0,8 0,7 0,9 2,4 2,4 3,1 Dívida Externa Bruta (em % do PIB) 19,2 15,8 14,5 17,2 18,0 19,1 Dívida Externa de Curto Prazo/Dívida Externa Total 11,1 11,8 20,1 14,1 15,6 20,9 Serviços2² da Dívida Externa (em % do PIB) 7,5 5,2 3,9 10,1 4,8 5,4 Reservas Internacionais (em Meses de Importação) 8,8 11,3 17,9 11,6 12,5 15,0 Fontes: Ipeadata, Banco Central do Brasil e Reserve Bank of India. Notas: 1 Os dados para a Índia referem-se aos anos fiscais (início em 1º de abril de cada ano e término em 31 de março do ano seguinte). ² Juros mais amortizações. nd: não disponível. Quando se compara, no entanto, a evolução da eficiência econômica, constata-se que aí reside um dos pontos fortes da Índia. Desde o rompimento com a etapa de crescimento “hindu” no início dos anos 1980, o país vem conseguindo manter, nas duas últimas décadas, taxas elevadas de incremento médio anual da produtividade O Brasil e a Índia frente à crise econômica global | 37 total dos fatores (PTF), indicador mais confiável para acompanhar a capacidade de sustentação do crescimento econômico no longo prazo (ver Gráfico 14). Os dados revelados no Gráfico 14 explicam por que o Brasil perdeu paulatinamente a capacidade de sustentar o crescimento econômico no longo prazo: em contraste com a experiência indiana no período da substituição de importações, o Brasil exibiu taxas de crescimento médias anuais da PTF relativamente significativas entre 1950 e 1979 (próximas a 2%), mas apresentou taxas médias anuais de crescimento negativas na década de 1980. Entre 1990 e 2006, embora o país tenha voltado a mostrar taxas de incremento da PTF positivas, elas foram, entretanto, muito reduzidas. Mesmo levando-se em conta as diferentes metodologias de estimação e o período mais atualizado para o Brasil, a Índia, em contraste, após registrar baixas taxas médias anuais de incremento da PTF na fase de estagnação econômica (apenas 0,9% entre 1950 e 1979), passou a exibir significativo crescimento do indicador a partir de 1980. Entre 1980 e 2003, a PTF na economia indiana cresceu à taxa média anual de 3% (contra -0,1% no Brasil entre 1980 e 2006).46, 47 A evolução da produtividade total dos fatores deve ser encarada como fortaleza (caso da Índia) ou fragilidade (caso do Brasil) porque, embora esteja relacionada ao comportamento dinâmico da produtividade nas últimas décadas, seu resultado positivo ou negativo tem implicações (igualmente positivas ou negativas) sobre a acumulação de capital físico e humano. Como nas fases de forte desaceleração (ou recessão, se for o caso) é de esperar expressiva retração de investimentos físicos e parca disposição das empresas privadas para manter os gastos em pesquisa, desenvolvimento e inovações tecnológicas (P,D & I), o estoque de capital físico e humano deverá contrair-se ou, na melhor das hipóteses, permanecer estagnado. Com isso, uma vez passada a crise global – e supondo todos os demais fatores constantes –, a Índia contará com uma base acumulada de capital físico e humano mais atualizada e fortalecida que a do Brasil para prosseguir seu processo de desenvolvimento econômico.48 46 Gomes et al. (2003) observam que entre 1950 e 1966 a produtividade cresceu à mesma taxa de evolução da fronteira tecnológica internacional; entre 1967 e 1976, cresceu em excesso em relação à evolução desta; entre 1977 e 1991, houve queda expressiva da PTF em relação à fronteira; e, no período 1992-2000, novamente crescimento da PTF compatível com a fronteira internacional. Observe-se, no entanto, que, pelas estimações mais atualizadas de Barbosa-Filho et al. (2008), o incremento médio anual da PTF após 2000 foi muito baixo, de modo que no período 1992-2006 ela cresceu à taxa média anual de apenas 0,7%. Para mais detalhes, ver as fontes citadas. 47 O comportamento da produtividade do trabalho na indústria (expressa, em termos reais, como a relação entre o valor adicionado e o pessoal ocupado) não foi muito diferente. Na década de 1980, a produtividade do trabalho industrial apresentou taxas de incremento médias anuais muito baixas (menos de 1%), chegando a apresentar variação média negativa em 1990 (-5%); entre 1991 e 1996, houve forte reversão do comportamento desse indicador, que cresceu à taxa média anual de cerca de 5%; mas, entre 1996 e 2004, o incremento médio anual foi negativo (-2,6%). Para detalhes, ver Bonelli e Fonseca (1998), Carvalho (1990) e Nassif (2008). 48 É sempre bom lembrar a argumentação clássica de Nelson (1964) de que o progresso tecnológico (expresso pelo comportamento da produtividade total dos fatores), ao contrário do que parece, não reduz significativamente a parcela da tecnologia “incorporada” (ou seja, aquela presente nas máquinas e equipamentos industriais existentes) no comportamento da produtividade da economia. O argumento é que à medida que a aceleração da taxa de investimento – que ocorre em simultâneo com o progresso tecnológico – atualiza o estoque de capital (a idade dos equipamentos se reduz), o aumento da participação da tecnologia incorporada nas máquinas e equipamentos tende a ser mais intensa. Para uma resenha dessa discussão, ver Nassif (2009). 38 | André Nassif Gráfico 14. Produtividade Total dos Fatores no Brasil e na Índia Taxas Médias de Variação Anual Fontes: Para o Brasil, Gomes et al. (2003), para os períodos 1950-1992, e Barbosa-Filho et al. (2008), para os períodos 1992-2006; para a Índia, Virmani (2006). Nota: As PTFs para a Índia foram calculadas com base nos anos-fiscais (início em 1º de abril de cada ano e término em 31 de março do ano seguinte). O Brasil e a Índia frente à crise econômica global | 39 Por outro lado, dado o caráter inequivocamente global da crise em curso, serão as exportações (líquidas de importações) o componente da demanda mais diretamente afetado na maioria dos países. A contração do valor exportado por cada país poderá resultar de dois fatores principais: da queda do preço das commodities e/ou da retração da renda agregada na economia global, ambos já ocorridos ou em curso desde outubro de 2008. Sendo assim, tudo o mais constante, os países mais afetados pela queda das exportações serão aqueles cuja pauta esteja fortemente concentrada em commodities (efeito-preço), em bens com elevada elasticidade-renda e em mercados mais adversamente atingidos pela crise recessiva global. Evidentemente, o efeito adverso final sobre a queda das vendas externas será o resultado líquido desses três fatores. A seguir, sem pretender fazer qualquer exercício de projeção quantitativa, procura-se analisar como as exportações do Brasil e da Índia poderão ser negativamente afetadas em virtude do impacto deles decorrentes. O Gráfico 15 apresenta inicialmente os principais destinos das exportações de mercadorias dos dois países em 2007. O Gráfico 15 revela que a dependência das exportações indianas para os países considerados epicentros ou mais afetados pela crise global (Estados Unidos, União Europeia e Japão) é menor (36% do total) que as do Brasil (43%), o que, em princípio, torna as exportações brasileiras relativamente mais vulneráveis à retração das importações nesses três blocos. No entanto, a Índia só será capaz de minorar os efeitos adversos sobre a queda das exportações para os países asiáticos (exceto China e Japão) – que representam expressivos 42% do total de suas vendas externas de mercadorias – na hipótese conjunta de que a desaceleração em curso nesses países não se transforme em recessão e que o comércio intrarregional consiga compensar parcialmente a retração das exportações para os Estados Unidos e União Europeia e Japão. Segundo o Banco Mundial [World Bank (2009)], em que pese incorporar muitas economias pequenas – portanto, com elevado grau de abertura comercial –, os países asiáticos têm sido os mais beneficiados relativamente pela brusca e significativa redução dos preços das commodities, especialmente petróleo, produto de que esses países são importadores líquidos. De acordo com estimativas da instituição, muitos países asiáticos já terão conseguido substancial melhora de seus termos de troca em função da vertiginosa queda de cerca de 69% observada nos preços do petróleo entre julho e dezembro de 2008. O Banco Mundial estima que o bloco asiático já tenha obtido no período ganhos (em média) da ordem de 2% do PIB em termos de acréscimo na renda agregada graças aos fatores mencionados. 40 | André Nassif Gráfico 15. Exportações de Mercadorias do Brasil e da Índia em 2007 Principais Mercados (Participação Percentual) Fonte: Secretaria de Comércio Exterior (Secex). Nota: * Não abrange China e Japão. Inclui Hong Kong. Fonte: Department of Commerce, Government of India. Nota: Os dados referem-se ao ano fiscal, que se inicia em 1º de abril de 2007 e finaliza em 31 de março de 2008. * Não abrange China e Japão. Inclui Hong Kong. No entanto, embora o bloco asiático importador líquido de petróleo tenha sido beneficiado pela melhora dos termos de troca, a Tabela 6 mostra que as projeções relativamente otimistas de crescimento econômico que vigoravam até dezembro do ano passado se reverteram drasticamente a partir de janeiro de 2009. As projeções mais recentes davam conta de que, exceto China e Índia, a maioria dos países O Brasil e a Índia frente à crise econômica global | 41 asiáticos passará por um ciclo recessivo em 2009. Isso significa que, excetuando a China, o comércio intrarregional asiático não será capaz de compensar a queda das exportações indianas para seus demais parceiros comerciais relevantes (especialmente União Europeia e Estados Unidos). Tabela 6. Projeções de Crescimento do PIB Real Mundial em 2009 (Em %) Período de Realização da Projeção Região janeiro-09 fevereiro/ março-09 outubro-08 novembro-08 dezembro-08 Mundo 3,0 2,2 nd 0,5 -1,0 a -0,5 Estados Unidos 0,1 -0,7 -1,0 -1,6 -2,6 Japão 0,5 -0,2 -0,9 -2,6 -5,8 Zona do Euro 0,2 -0,5 -0,9 -2,0 -3,2 Brasil 3,5 3,0 2,4 1,8 0,0 China 9,3 8,5 7,5 6,7 6,0 Índia 6,9 6,3 6,1 5,1 5,0 África 6,0 4,7 nd 3,4 3,2 Egito 6,7 6,7 4,9 5,1 3,9 Israel 3,2 2,8 2,5 0,9 0,4 Arábia Saudita 5,1 3,3 3,2 3,0 0,4 África do Sul 3,5 3,3 2,5 2,5 -0,8 Ásia/Oceania nd nd nd nd Austrália 2,2 1,9 1,1 0,8 -0,3 Hong Kong 3,5 2,1 0,5 -3,0 -5,9 Indonésia 5,5 5,5 3,5 3,5 1,9 Malásia 4,8 4,6 3,2 3,2 -0,3 Paquistão 3,5 4,2 2,9 1,4 1,2 Cingapura 3,5 3,8 -0,1 -2,9 -7,5 Coreia do Sul 3,5 3,3 1,6 -2,8 -5,9 Taiwan 2,5 3,4 1,5 -2,9 -6,5 Tailândia 4,5 3,9 1,9 -1,0 -4,4 América Latina nd nd nd nd 0,7 Argentina 3,6 2,5 2,2 -1,8 -2,8 Chile 3,8 3,3 1,0 1,0 0,4 Colômbia 3,5 4,0 2,0 2,0 -1,0 México 1,8 0,9 0,9 -1,4 -2,6 Venezuela 2,0 2,7 -3,0 -3,0 -3,0 nd Fontes: FMI, The Economist, African Development Bank, Banco Central do Brasil (Relatório Focus), Standard & Poors e Banco Mundial. nd: não disponível. 42 | André Nassif O impacto adverso provável da crise global sobre o desempenho exportador da Índia deverá ser agravado se incorporarmos no total da pauta exportada os serviços comerciais. Com efeito, é preciso lembrar que a metodologia internacional não inclui na classificação de mercadorias os segmentos de software e outros serviços das indústrias de tecnologia da informação (TI), itens que já constituem a principal vantagem comparativa da Índia [Rakshit (2009, cap. 6)]. Em perspectiva comparada, o Gráfico 16 permite detectar os principais itens que compõem a cesta de exportações de bens e serviços do Brasil e da Índia. Os dados confirmam que a pauta de exportações de bens e serviços brasileira é bem mais diversificada que a indiana. No entanto, o fato de que 37% do total exportado pelo Brasil estejam relacionados a bens primários ou agroindustriais, cujos preços são bastante sensíveis às flutuações da demanda internacional, deixa o Brasil bastante vulnerável à queda dos preços das commodities no mercado global. Gráfico 16. Exportações de Brasil e Índia em 2007: Principais Itens, Incluindo Serviços Comerciais (Participação Percentual no Total) Fontes: Comtrade e Banco Central do Brasil. O Brasil e a Índia frente à crise econômica global | 43 Fontes: Comtrade e Reserve Bank of India. No caso da Índia, salta aos olhos a proeminência do segmento de software como o principal item de sua pauta total de exportações (16% do total em 2007). Acrescentando a indústria de TI, conclui-se que esses dois itens já representavam 26% do total das vendas externas de bens e serviços da Índia em 2007. No longo prazo, essa é uma característica invejável do padrão de vantagem comparativa do país, posto que essas indústrias são, salvo exceções, caracterizadas por maior intensidade tecnológica e por maior capacidade de gerar externalidades tecnológicas para o restante da economia. No entanto, no médio prazo, sabendo-se que cerca de 91% das exportações de serviços de software e TI estão direcionados aos mercados dos Estados Unidos e da Europa, esses dois segmentos estarão entre os mais afetados pela queda das exportações na Índia.49 Finalmente, é preciso encarar como ponto forte a relativa disposição das autoridades econômicas dos dois países para adotar medidas imediatas de estímulo monetário e fiscal para atenuar os impactos recessivos resultantes da crise global. Tão logo se tornaram evidentes, a partir de setembro de 2008, os impactos financeiros e cambiais emanados do agravamento da crise global, as autoridades econômicas do Brasil e da Índia passaram a adotar medidas pontuais para conter a fuga de capitais, deter a desvalorização da moeda e restaurar a normalidade do funcionamento do crédito privado e da atividade econômica. Tanto o Brasil como a Índia implementaram imediatamente instrumentos para evitar o empoçamento da liquidez nos bancos privados e, posteriormente, concederam aporte adicional 49 Em termos mais específicos, do total das exportações indianas de software e TI em 2008, cerca de 60% foram destinados aos Estados Unidos e 19% ao Reino Unido. Ver National Association of Software and Service Companies (Nasscom), website http://www.nasscom.org. 44 | André Nassif de recursos para que os bancos públicos (comerciais e de desenvolvimento) continuassem financiando os gastos privados, de empresas e de consumidores. No Apêndice (ver Tabela A1), consta um resumo das principais respostas de política econômica implementadas nos dois países tanto no período imediatamente posterior ao agravamento da crise global (setembro a dezembro de 2008) como no período subsequente. As informações contidas na Tabela A1 são praticamente autoexplicativas, bastando comentar apenas que em determinados casos houve alguma similitude nas políticas de estímulo monetário e fiscal. No tocante à política monetária, as medidas comuns foram a criação de linhas especiais de crédito aos bancos comerciais e de desenvolvimento, bem como a redução do depósito compulsório, ao passo que no âmbito da política fiscal foram adotados programas para a ampliação dos investimentos públicos e isenções fiscais para o incentivo à compra de bens duráveis. As principais diferenças dizem respeito ao timing e à intensidade na aplicação dos estímulos monetários e fiscais adotados nos dois países. A esse respeito, comparativamente ao Brasil, os pontos fortes da Índia têm sido maior rapidez e intensidade na implementação dos estímulos monetários e fiscais. No primeiro caso, ao diagnosticar como óbvio que a recessão global já era um fenômeno em curso em outubro de 2008, o RBI, mesmo diante de uma taxa de inflação anual ao consumidor da ordem de 10%, mas percebendo que a queda drástica dos preços das commodities teria viés deflacionário na economia global, reduziu imediata e sucessivamente as taxas básicas de juros (repo rate).50 Em contrapartida, no Brasil, enquanto o Ministério da Fazenda decidiu corretamente prover liquidez adicional aos bancos públicos para compensar a compressão do crédito privado, o Banco Central, na contramão, só retomou a trajetória de queda dos juros primários (Selic) em janeiro de 2009, com atraso de cerca de três meses em relação ao agravamento da crise global (ver Tabelas 1 e A1). No caso dos estímulos fiscais, em palestra recente no Japão, o presidente do RBI, Duvvuri Subbarao, informava que, após a decisão de relaxar as metas fiscais, somente as medidas de estímulo governamentais implementadas em dezembro e janeiro de 2009 implicarão gastos públicos adicionais de cerca de 3% do PIB51 [Subbarao (2009, p. 4)]. Trata-se de medida anticíclica considerável, levando-se em conta que em 2007 os investimentos do governo central indiano já represen- 50 Nas palavras do presidente do RBI, “no âmbito da política monetária convencional, além da redução dos depósitos compulsórios, reduzimos as taxas básicas de juros agressiva e rapidamente” [Subbarao (2009, p. 4, tradução do original)]. 51 De acordo com Subbarao (2009), esses pacotes fiscais envolvem “gastos públicos adicionais, particularmente destinados a ampliação de investimentos, fundos de garantia governamental para gastos em infraestrutura, cortes de impostos indiretos, expansão das garantias de crédito para pequenas e médias empresas e apoio adicional aos exportadores” (p. 4). O Brasil e a Índia frente à crise econômica global | 45 tavam cerca de 3,1% do PIB.52 Cabe ressaltar que na Índia parece haver maior consenso na sociedade – notadamente entre governo e economistas de diversas correntes teóricas – a respeito da ideia de que, por causa da perda de confiança e forte preferência por liquidez, o instrumento mais importante para compensar os efeitos adversos decorrentes da retração do consumo e do investimento privados é o aumento dos investimentos públicos.53 O maior consenso quanto à importância de que a ampliação dos déficits fiscais é a arma mais eficaz para atuar como instrumento da política anticíclica pode ser observado ao longo das diversas entrevistas realizadas em Nova Delhi e Mumbai, bem como no noticiário impresso. Por exemplo, B. L. Pandit, chefe do Departamento da Delhi School of Economics, depois de declarar que a linha de pesquisa acadêmica do departamento era predominantemente neoclássica, se mostrava “contundentemente favorável à intensificação dos estímulos monetários e fiscais” como instrumentos de política econômica mais relevantes para debelar os impactos da crise global na Índia. Paralelamente, em discurso na sede do jornal The Economic Times, em 28 de janeiro de 2009, o primeiro-ministro Manmoham Singh reconhecia: “Nossos problemas não serão superados no presente ano. As dificuldades persistirão ao longo do ano (fiscal) 2009-2010”. E acrescentava que, “embora o governo tivesse pouco espaço para atuar pelo lado fiscal, o país precisará tolerar um elevado déficit fiscal no próximo ano (fiscal de 2009-2010) de tal modo que o aumento dos gastos públicos funcione como um estímulo à economia”. Ou seja, o ajuste fiscal que vinha sendo implementado para reduzir o enorme tamanho da dívida interna bruta/PIB na Índia está sendo interrompido temporariamente para evitar que o país entre em recessão. Nas palavras do primeiro-ministro, “o déficit no presente ano fiscal será muito maior do que o originalmente planejado em virtude dos impactos da crise econômica global” [The Economic Times, 28.1.2009, p. 7)].54 No caso do Brasil, dados de fevereiro de 2009 do Ministério da Fazenda estimavam para este ano investimentos do governo federal da ordem de 1,2% do PIB, os quais, associados aos investimentos programados pela Petrobras (1,7% 52 O último relatório do RBI (publicado em abril de 2009) praticamente confirma as cifras anteriormente apresentadas pelo presidente daquela instituição. Segundo o relatório, “o impacto dessas medidas (fiscais) sobre o ano fiscal de 2008-2009 alcança cerca de 2,9% do PIB” [RBI (2009a, p.12)]. 53 O maior consenso em relação ao referido ponto não produz, obviamente, efeitos positivos diretos sobre a atividade econômica, porém “libera” o governo para reagir de forma rápida e na intensidade adequada requerida para minorar os impactos adversos da crise global. 54 A dificuldade de obtenção de consenso a respeito de assuntos complexos e sujeitos a conflitos políticos e econômicos é típica de democracias. Por exemplo, nos Estados Unidos, uma vez que a economia caiu na “armadilha da liquidez”, parece óbvio que o principal estímulo para reverter a recessão em curso seja fiscal. No entanto, lá também têm sido notórias as dificuldades enfrentadas pelo presidente Barack Obama para aprovar no Parlamento os pacotes de estímulo fiscal. No caso da Índia, que há mais de meio século mantém estável seu sistema democrático, a maior facilidade para obter consenso em questões dessa natureza pode estar relacionada a razões culturais, institucionais e políticas que não cabem aqui discutir. 46 | André Nassif do PIB), alcançariam a cifra total de 2,9% do PIB (ver Ministério da Fazenda, 2009)55. Tendo em vista a forte retração do consumo, do investimento privado e das exportações no último trimestre de 2008, conforme os dados recentemente divulgados pelo IBGE,56 é preciso reconhecer que esse montante seria ainda insuficiente para compensar tamanha reversão da demanda agregada da economia brasileira e, consequentemente, impedir que o processo de desaceleração em curso continue se agravando. É verdade que, ao ser surpreendida com a divulgação, no dia 10 de março de 2009, de forte contração do PIB real no último trimestre de 2008 em relação ao trimestre imediatamente anterior (de -3,6%), as autoridades econômicas passaram a reagir com maior intensidade no combate aos efeitos da crise global sobre a atividade econômica no Brasil. Em primeiro lugar, o Banco Central sinalizou para o mercado maior disposição de acelerar o ritmo de queda das taxas básicas de juros, reduzindo a Selic em 1,5 ponto na reunião de 11 de março de 2009.57 E igualmente (ou mais) importante, no âmbito fiscal, as autoridades econômicas já reconhecem a premência de ampliar os recursos direcionados aos programas de investimentos públicos. Prova disso é que a adoção do pacote habitacional prevendo a construção de 1 milhão de moradias até 2010 mobilizará recursos públicos adicionais da ordem de R$ 34 bilhões (aproximadamente 1,2% do PIB).58 O papel exercido pelo incremento dos investimentos públicos como condição necessária para evitar um processo recessivo fica mais claro quando se observa a contribuição dos componentes da demanda agregada para o crescimento do PIB real nos dois países nos últimos anos, como ilustra a Tabela 7. Comparando-se os dois países, verifica-se que têm sido os gastos privados o principal motor de crescimento de ambas as economias no período mais recente, em especial o consumo das famílias e os investimentos brutos. No Brasil, para o crescimento de 5,1% no PIB efetivo de 2008, 3,3 pontos percentuais foram decorrentes do consumo das famílias (64% do total) e 2,4 pontos percentuais, do investimento bruto (47% do total). Com relação à variação do PIB real na Índia em 2008, as principais forças explicativas do crescimento pelo lado da demanda também provieram do consumo das famílias (3,6 pontos percentuais ou 55%) e do investimento bruto (2,2 pontos percentuais ou 34% do total). Sabendo-se 55 Esses dados constam de apresentação do ministro da Fazenda, feita em fevereiro de 2009, portanto não incluem os investimentos relativos ao programa de estímulo habitacional. 56 No último trimestre de 2008, o consumo, a formação bruta de capital fixo e as exportações tiveram queda de -2%, -9,8% e -2,9%, respectivamente, em relação ao trimestre anterior do mesmo ano. Em relação a igual trimestre de 2007, as variações foram de 2,2%, 3,8% e -7,0%, respectivamente, de acordo com o Ipeadata (http://www.ipea.gov.br). 57 Nessa reunião, a Selic foi reduzida para 11,25%, ao passo que na reunião anterior de 21 de janeiro de 2009 ela havia sido reduzida em 1 ponto percentual (para 12,75%), após ter sido mantida em 13,75% nas reuniões de 10 de setembro, 29 de outubro e 10 de dezembro de 2008, em pleno agravamento do quadro recessivo global. 58 De acordo com informações da Agência Brasil – EBC (Empresa Brasil de Comunicação), de 25 de março de 2009. 0,5 (41,0) 0,1 (5,4) -0,6 (-42,6) 0,8 (63,6) -0,03 (-0,71) 0,8 (18,9) 0,9 (21,5) 0,04 (1,0) 4,3 Gastos do Governo Formação Bruta de Capital Fixo Variação de Estoques Exportações Líquidas Variação do PIB Real 2,7 2,5 (97,3) -1,1 (-43,2) -0,9 (-34,6) 0,9 (36,6) 1,1 (43,9) 2002 1,2 1,7 (134) 0,5 (37,9) -0,8 (-60,5) 0,2 (19,3) -0,4 (-31,5) 2003 5,7 0,7 (12,1) 0,5 (8,3) 1,4 (24,6) 0,8 (14,0) 2,3 (41,0) 2004 Brasil 3,2 0,5 (15,1) -1,0 (-32,4) 0,6 (18,6) 0,4 (14,1) 2,6 (84,6) 2005 4,0 -1,4 (-35,2) 0,1 (3,3) 1,6 (40,1) 0,5 (13,1) 3,1 (78,6) 2006 5,7 -1,4 (-24,8) 0,1 (2,1) 2,2 (39,1) 0,9 (16,7) 3,8 (66,9) 2007 5,1 -2,3 (-45,8) 0,6 (11,6) 2,4 (47,5) 1,1 (22,1) 3,3 (64,4) 2008 2,7 -0,1 (-1,9) 0,1 (1,9) 0,6 (23,2) 0,3 (12,9) 1,7 (64) 2000 5,7 -0,1 (-0,9) 2,9 -0,03 (-0,9) -0,002 (-0,1) 0,7 (23,7) 1,3 (22,9) 0,04 (0,7) 0,4 (12,4) 1,9 (64,8) 2002 0,7 (12,7) 3,7 (64,5) 2001 7,3 -0,1 (-1,0) 0,1 (0,9) 1,8 (24,1) 0,9 (12) 4,7 (64) 2003 Notas: 1. Os valores entre parênteses referem-se à contribuição percentual do componente da demanda para o crescimento do PIB real no ano. 2. nd: não disponível. 3. Os dados referem-se ao ano-calendário para ambos os países. Fonte: Elaboração própria, com base em dados do Ipeadata e do Fundo Monetário Internacional. 1,3 0,4 (32,5) 2,5 (59,4) Consumo das Famílias 2001 2000 Componentes da Demanda 8,6 -0,1 (-1,3) 0,1 (1,0) 2,2 (25,5) 1,0 (11,5) 5,5 (63,3) 2004 Índia 10,1 -0,2 (-1,8) 0,2 (2,0) 2,9 (29) 1,1 (11) 6,1 (59,9) 2005 9,1 -0,3 (-3,0) 0,2 (2,4) 2,8 (31,4) 1,0 (10,8) 5,3 (58,3) 2006 Tabela 7. Contribuição dos Componentes da Demanda Agregada para o Crescimento do PIB Real no Brasil e na Índia 2000-2008 (Em Pontos Percentuais) 9,6 -0,3 (-3,1) 0,2 (2,4) 3,2 (33,1) 1,0 (10,5) 5,5 (57,1) 2007 6,5 -0,23 (-6,4) 0,24 (4,7) 2,24 (34,9) 0,67 (11,2) 3,62 (55,6) 2008 O Brasil e a Índia frente à crise econômica global | 47 48 | André Nassif que os componentes da demanda doméstica mais afetados pela recessão global no Brasil e na Índia têm sido o consumo e o investimento privados – justamente as fontes mais relevantes na explicação do desempenho econômico de ambos os países no último triênio –, é lícito sugerir, pelo cruzamento das Tabelas 4 e 7, que o aumento dos investimentos públicos, ainda que não seja capaz de substituir por completo, poderá, pelo menos, amortecer os efeitos negativos exercidos pela queda daqueles dois componentes sobre o desempenho da economia de ambos os países em 2009-2010. Em suma, o incremento dos investimentos governamentais poderá funcionar como o principal anteparo contra os eventuais impactos recessivos que a crise econômica global possa, em princípio, causar tanto no Brasil como na Índia. Certamente, quanto maior a ambição de um pacote fiscal antirrecessivo, maior deverá ser a disposição política para reduzir temporariamente o superávit primário ou mesmo, como já optou o governo da Índia, para aumentar (também temporariamente) os déficits primários. Segundo exercício do Ipea (2009), supondo um crescimento de apenas 0,5% do PIB real no Brasil em 2009, a fim de repor um crescimento em torno de 5,5% (média dos últimos anos), seriam necessários gastos públicos adicionais de cerca de R$ 101,4 bilhões para substituir a queda já observada no consumo das famílias, investimento privado e exportações líquidas. Para tal feito, o governo deveria contabilizar o ônus de fechar o ano com um déficit primário de R$ 30 bilhões. Portanto, qualquer decisão relativa à redução do esforço fiscal deverá avaliar os custos e os benefícios associados com o trade-off entre maior desemprego e eventual recuo temporário do esforço fiscal. De todo modo, nossa sugestão não é nem mesmo a de repor, por meio de aumento de gastos públicos em investimento, o montante necessário para propiciar um crescimento médio compatível com o dos últimos dois anos, mas o suficiente para evitar que a recessão observada no último trimestre de 2008 se prolongue para 2009. Ainda assim, pode-se alegar que a redução da poupança primária governamental poderia comprometer a estabilidade fiscal no longo prazo. No entanto, eventual redução significativa dos superávits primários, se necessária, deveria ser implementada como o recurso mais eficaz para combater as tendências de contração da atividade econômica no Brasil, nesse contexto de crise mundial – cujas características têm todos os contornos de uma (ou ameaça de uma) depressão e não apenas de reversão temporária do ciclo econômico.59 Nesse sentido, eventual redução significativa do superávit primário, que venha a ser causada ao mesmo tempo pelo aumento dos gastos públicos – contanto que 59 Na reedição de seu livro publicado originalmente em 1999, Krugman (2009) analisa a crise global em curso e comenta que “a economia mundial não está em depressão e provavelmente não entrará em depressão. No entanto, a economia da depressão – os tipos de problemas que caracterizaram a economia nos anos 1930 – tem encenado um assombroso retorno” (p. 181). E mais adiante, recomenda que o que deve ser basicamente implementado é um programa de “estímulo fiscal do velho estilo keynesiano, calcado na expansão de gastos com estradas, pontes e outros investimentos em infraestrutura” (p. 187, tradução livre do original). O Brasil e a Índia frente à crise econômica global | 49 não se privilegiem aqueles com efeitos permanentes, como gastos com pessoal – e queda das receitas governamentais, não deve ser avaliada como preocupante, desde que seja utilizada apenas como medida de combate à recessão (ou ameaça de). A esse respeito, vale a pena citar Keynes (1942), que, em resposta a um comentário de James Meade, revelava sua oposição ao uso da política fiscal como instrumento anticíclico de curtíssimo prazo, mas defendia sua utilização como a medida mais eficaz no combate a tendências crônicas de recessão ou depressão:60 Obras públicas são o remédio apropriado contra tendências crônicas de insuficiência de demanda efetiva. Porém, elas não são capazes de exercer um efeito suficientemente rápido (e, acima de tudo, podem não ser revertidas ou desfeitas mais adiante) para que sejam recomendadas como o melhor instrumento para prevenir a reversão do ciclo econômico (p. 322, tradução livre do original). Não bastassem esses argumentos, cabe também ressaltar que, a despeito de deter uma dívida interna bruta ainda elevada (ver Gráfico 3), o Brasil conseguiu reduzir significativamente a dívida interna líquida do setor público como proporção do PIB (37,6% em março de 2009, contra 56% em setembro de 2002, conforme o Ipeadata), o que lhe confere, ao contrário do que ocorria entre 1997 e 2003, maior espaço para praticar políticas antirrecessivas, sem comprometer a estabilidade fiscal no longo prazo.61 5. À Guisa de Conclusão: O que Esperar para depois de 2009, o “Ano Perdido”? A partir de setembro de 2008, dada a intensidade e as perspectivas de prolongamento, o mundo capitalista vem enfrentando uma crise econômica sem precedentes desde a Grande Depressão da década de 1930. A irradiação da crise global para os países em desenvolvimento, manifestada inicialmente pelos canais de transmissão cambiais e financeiros (fuga de capitais, desvalorização das moedas, maior aversão ao risco e compressão do crédito) e, posteriormente, pela perda de produto real e aumento do desemprego, já se encarregou de desmoronar a tese do descolamento (decoupling), segundo a qual a maior importância relativa dos países asiáticos (notadamente a China) no PIB mundial impediria que eventual recessão nos Estados Unidos se transformasse em recessão mundial. A crise econômica global produziu 60 Esses insights surgiram de uma discussão do autor, em correspondência por e-mail, com o economista Mário Luiz Possas, do Instituto de Economia da UFRJ. O autor agradece ao professor Possas, a quem isenta de qualquer responsabilidade pela utilização da interpretação. 61 Em artigo recente na imprensa, a economista Eliana Cardoso ressalta que entre 1997 e 2005 o governo praticou políticas fiscais procíclicas mesmo em períodos de declínio da atividade econômica, porque tinha de aumentar o superávit primário para estabilizar o crescimento da dívida pública. E arremata que “o fato de que a dívida anda bem comportada dá ao governo um grau de liberdade que ele antes não tinha. Mas encontrar a medida certa da “gastança” é o xis da questão [Valor Econômico, 19 de março de 2009]. 50 | André Nassif forte desaceleração na economia indiana e já desviou a maioria dos países em desenvolvimento para um processo recessivo. Este artigo mostrou que os efeitos negativos imediatos, bem como as respostas da política econômica para enfrentar a crise global no Brasil e na Índia, foram, apenas em alguns aspectos, semelhantes. Após a fuga e imediata “parada súbita” (sudden stop) dos influxos de capitais externos, desvalorização das moedas e compressão do crédito interno, fatos ocorridos em meados de setembro de 2008, ambos os países implementaram diversas medidas de estímulo monetário (redução do compulsório, transferência de recursos para os bancos públicos, entre outras) e fiscal (redução de impostos sobre bens de consumo duráveis, aumento de investimentos públicos etc.). Nos idos de setembro de 2008, ao deparar com os primeiros impactos adversos emanados da crise mundial, com as reações iniciais de política econômica e com os indicadores macroeconômicos antecedentes, um analista poderia ser levado a suspeitar que o Brasil e a Índia seriam afetados de maneira bastante similar, notadamente no que se refere à retração das exportações ou à desaceleração da atividade econômica. No entanto, as evidências indicam que a Índia está sendo adversamente menos afetada que o Brasil, quer consideremos a queda das exportações e a contração da atividade industrial, quer tomemos como referencial a desaceleração da atividade econômica agregada. Com respeito aos efeitos deletérios sobre as exportações de bens e serviços, ambos os países foram violentamente afetados. No caso da Índia, desde outubro de 2008 as exportações de mercadorias têm sofrido quedas mensais sucessivas, comparadas ao mesmo mês do ano anterior, pois a pauta se concentra nos blocos que estão sendo severamente castigados pela recessão global (Estados Unidos, Zona do Euro e Ásia, à exceção da China). Além disso, da inclusão dos serviços nas exportações totais indianas emergem os serviços de software e demais segmentos da indústria de tecnologia da informação (TI) como os itens mais representativos do padrão de vantagem comparativa do país (26% das exportações de bens e serviços). A fortíssima concentração das vendas externas desses serviços nos mercados mais severamente afetados pela recessão global sugere que as exportações tanto de software como de TI sofrerão expressiva retração. No entanto, as estatísticas confirmam que o Brasil tem sido ainda mais prejudicado que a Índia: em fevereiro de 2009, as vendas externas brasileiras de mercadorias já amargavam retração de cerca de -25% na comparação com o ano anterior, cifra ligeiramente superior à queda do comércio mundial. Nesse mesmo período, a retração das vendas externas brasileiras decorreu fundamentalmente da diminuição do quantum exportado (-19,9%, contra -6,8% de diminuição dos preços médios exportados). O Brasil e a Índia frente à crise econômica global | 51 Os impactos relativamente menores sobre a atividade econômica na Índia estão associados a três razões principais: a primeira é que, embora o país se tenha também ressentido da interrupção das linhas de crédito externas, do aumento da incerteza, da compressão do crédito privado doméstico e da fuga de capitais (especialmente os destinados ao mercado acionário), a legislação cambial indiana ainda mantém fortes restrições à entrada de capitais externos de curto prazo, especialmente os orientados para aplicação em portfolio de renda fixa. Com menor grau de integração financeira externa – situação rara na maioria dos países em desenvolvimento no fim dos anos 2000 –, as autoridades econômicas conseguiram moderar, com maior eficácia, a deterioração das expectativas, ainda que a conjuntura econômica global se tivesse direcionado para a rota contrária. A segunda razão está relacionada à rapidez e à intensidade de redução das taxas de juros básicas por parte do banco central indiano. Tal decisão foi fundamental para sinalizar aos mercados que a prioridade passaria a ser evitar forte desaceleração ou mesmo, na pior das hipóteses, contração da atividade econômica. Só para dar uma ideia de comparação, entre outubro de 2008 e janeiro de 2009, a taxa básica de juros na Índia havia sido reduzida sucessivamente de 9% para 5,5%, um recuo de 3,5 pontos percentuais num país que, no início do ciclo de redução dos juros, vinha enfrentando uma inflação anual de cerca de 9%. Em contrapartida, no Brasil, a despeito dos diversos impactos negativos já descritos desde setembro de 2008 e da produção industrial em queda desde novembro deste mesmo ano, o Banco Central só iniciou o ciclo de redução dos juros básicos a partir de janeiro. Daí até março a Selic só havia recuado 2,5 pontos percentuais. A terceira razão é que, apesar de os pacotes de estímulo terem sido implementados em duas etapas, pelo menos até o fim de fevereiro de 2009 as medidas de estímulo fiscal na Índia, envolvendo aumento de investimentos públicos, renúncias fiscais e outros estímulos governamentais, tinham sido muito mais intensas que as adotadas no Brasil. De acordo com o Relatório do RBI relativo ao ano fiscal 2008-2009, “para implementar o pacote de estímulo fiscal, o governo decidiu renunciar às metas de déficit nominal requeridas pela Lei de Orçamento e Responsabilidade Fiscal de 2003” (RBI (2009b, p. ii). Com efeito, para um déficit nominal inicialmente orçado em 2,5% do PIB para o referido ano fiscal, o mesmo documento informa que o governo indiano revisou esse resultado para 6% do PIB no mesmo período!62 No caso brasileiro, é preciso reconhecer que as medidas de estímulo fiscal que haviam sido divulgadas até o fim de fevereiro de 2009 não teriam força suficiente para impedir a recessão econômica em 2009 porque, mesmo levando-se em conta os investimentos previstos pela Petrobras (de 1,7%), os 62 Por sua vez, o mesmo relatório informa que o resultado primário, inicialmente orçado para um superávit de 1,1% do PIB no ano fiscal 2008-2009, foi revisto para um déficit de 2,5% do PIB. É importante também ressaltar que o governo indiano estima para o ano fiscal em curso (2009-2010) um recuo apenas marginal dos déficits primário e nominal [RBI (2009b, p. 12)]. 52 | André Nassif investimentos do governo federal, programados em 1,2% do PIB, só teriam um acréscimo de 0,2 pontos percentuais em relação a 2008. Por conta de todos esses fatores, os impactos adversos imediatos sobre o PIB real brasileiro foram mais profundos do que os observados na Índia, ao comparar o desempenho no último trimestre de 2008 nos dois países (para a Índia, correspondente ao terceiro trimestre do ano-fiscal de 2008-2009). Embora projeções não oficiais indiquem para o Brasil crescimento zero ou mesmo variação negativa do PIB real em 2009, cabe lembrar que a maioria delas se baseia em indicadores antecedentes e se ancora na hipótese de que as medidas de estímulo monetário e fiscal até então implementadas surtam efeitos sobre a atividade econômica com alguma defasagem temporal. Considerando a data em que a versão manuscrita deste artigo está sendo finalizada (abril de 2009), para que tais projeções venham a ser contrariadas, são necessárias duas condições fundamentais: i) a continuidade de queda das taxas de juros básicas, mais do que justificada pelo contexto atual de aumento do gap de produto real, de recuo da inflação acumulada, bem como das expectativas inflacionárias;63 e ii) da consecução de um programa de aumento dos investimentos públicos em intensidade mais adequada do que os estímulos fiscais inicialmente implementados até o final de fevereiro de 2009, visando reativar o consumo, a renda e o emprego na economia brasileira.64 Nesse último aspecto, as autoridades econômicas estão na direção correta ao decidirem executar um programa de investimentos habitacionais que prevê a construção de 1 milhão de casas populares no biênio em curso (2009-2010), envolvendo a mobilização de cerca de R$ 34 bilhões (1,2% do PIB). A priorização do incremento desse tipo de investimento público, relativamente a gastos correntes improdutivos, tem maior potencial de reativar a economia por causa dos conhecidos efeitos multiplicadores keynesianos de renda e emprego. No dia da finalização deste artigo, a imprensa noticiava a decisão do governo de submeter ao Congresso a modificação da Lei de Diretrizes Orçamentárias ainda em 2009, propondo a redução temporária do superávit primário de 3,8% para 2,5% do PIB. Com isso, será permitida maior liberação de recursos para o aumento dos investimentos públicos e demais gastos do governo (O Globo, 16 de abril de 2009, caderno Economia, p. 19).65 Cabe advertir, porém, que, por conta 63 Ver indicadores recentes de inflação, nível de capacidade utilizada e expectativas de inflação nos websites do IBGE (http://www.ibge.gov.br), Confederação Nacional da Indústria – CNI (http:// www.cni.org.br) e Banco Central do Brasil (http://www.bcb.gov.br). 64 Como observa o ex-ministro da Fazenda e do Planejamento Delfim Netto, crítico contumaz dos elevados juros no Brasil e da demora com que o Banco Central reagiu para reduzi-los após o agravamento da crise, “mesmo com a redução dos juros, o carry over de 2008 vai produzir um crescimento menor do PIB em 2009. Esse crescimento não está escrito nem em 2008, nem nas estrelas. Ele vai depender do que o setor privado e, principalmente, o governo souberem e forem capazes de fazer nos próximos nove meses que nos restam” (Valor Econômico, 17 de março de 2009, p. A 2). 65 Apesar das críticas presentes na mesma matéria de economistas conhecidos (por ex., Armínio Fraga Neto), tal decisão deve ser avaliada como igualmente correta. O Brasil e a Índia frente à crise econômica global | 53 do mencionado lag temporal com que os estímulos monetários e fiscais – notadamente os investimentos públicos, que delongam tempo para sua efetiva maturação – exercem impactos efetivamente positivos sobre a atividade econômica, as medidas anunciadas, embora necessárias, podem não ser suficientes para dissipar os efeitos recessivos em 2009.66 Ainda assim, no contexto atual de forte desaceleração econômica e tendências recessivas, os dois instrumentos principais de política anticíclica são o monetário (sobretudo via redução das taxas básicas de juros e estímulo ao crédito) e o fiscal (pelo aumento dos gastos públicos, em especial em infraestrutura). Cabe, a esse respeito, uma última observação. Muitos analistas no Brasil vêm defendendo enfaticamente que, dadas as elevadas taxas de juros reais ainda vigentes no país, o principal mecanismo de estímulo contra a recessão econômica brasileira deveria ser o monetário. Alguns chegam mesmo a não recomendar a utilização dos instrumentos de estímulo fiscal, pelo temor (sem respaldo empírico) de descontrole da dívida pública no longo prazo.67 Entretanto, é preciso reconhecer que, como o momentum no Brasil e no mundo é de crise generalizada de confiança e acirramento da preferência por liquidez, a redução dos juros e os estímulos ao crédito per se dificilmente evitam a recessão, sem a adoção de estímulos fiscais na intensidade adequada para debelá-la. Parafraseando Hicks (1937) em seu artigo crítico à Teoria geral do emprego, de Keynes (1936), o momento requer o uso da “teoria da grande depressão do Sr. Keynes”. Isso significa que, embora a flexibilização da política monetária seja importante no contexto atual, a ênfase deve recair na política fiscal. Referências BABU, S. “India’s recent economic growth: some limits and limitations”. Economic and Political Weekly, 23.7.2005. BACHA, E. “O choque externo e a resposta possível”. In: BACHA, E. & GOLDFAJN, I. (org.). Como reagir à crise? (Propostas econômicas para o Brasil). Rio de Janeiro: Imago, 2009. 66 Krugman (2009) também reconhece esse problema, porém arremata que o timing de implementação é crucial: “desde que os gastos públicos sejam adotados em velocidade razoável, eles terão tempo suficiente para ajudar a combater a recessão” (p. 188). E detecta duas vantagens dos gastos públicos sobre as renúncias fiscais: i) a primeira é que “o dinheiro despendido pelo governo com obras públicas será, de fato, gasto”; e ii) “a segunda é que algo de valor (por exemplo, pontes, que têm natureza relativamente perene) é criado” (p. 188, tradução livre do original). 67 Para mencionar apenas alguns economistas influentes que defendem essa posição, basta citar a coletânea de artigos curtos originalmente publicada pela Casa das Garças, intitulada Como reagir à crise?. Ver ali especialmente as notas de Bacha (2009), Fraga Neto (2009) e Parnes e Goldfajn (2009). Há posições de economistas igualmente influentes que defendem o uso da política fiscal com veemência [Bresser-Pereira (2009b)] ou moderação [Mendonça de Barros (2008)] e o artigo de Eliana Cardoso citado na nota de rodapé 61. 54 | André Nassif BARBOSA-FILHO, F. H. et al. Evolução da produtividade total dos fatores na economia brasileira com ênfase no capital humano: 1992-2006. Anais do “XXXVI Encontro Nacional de Economia”, Salvador, 9-12 de dezembro de 2008, Associação Nacional dos Centros de Pós-Graduação de Economia. Disponível em: <http://www.anpec.org.br>. BONELLI, R. & FONSECA, R. “Ganhos de produtividade e de eficiência: novos resultados para a economia brasileira”. Pesquisa e Planejamento Econômico, 28 (2). Rio de Janeiro: Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea), ago. 1998. BRESSER-PEREIRA, L. C. “A crise financeira de 2008”. Revista de Economia Política, 29 (1), jan./mar. 2009a. ______. “A queda do PIB”. Folha de S. Paulo, 16.3.2009b. 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Brasil e Índia: Medidas de Política Econômica contra a Crise Global Brasil Políticas Monetária e Creditícia Setembro a Dezembro de 2008 Política Fiscal Setembro a Dezembro de 2008 Redução do percentual de depósito compulsório sobre depósitos à vista de 45% para 42% Extensão do prazo para recolhimento de impostos (IR, IPI, PIS, Cofins, entre outros) Adiamento dos reajustes na alíquota de compulsório sobre operações de leasing Redução do IOF (de 3,0% para 1,5%) para pessoas físicas em operações de crédito para bens de consumo e cheque especial Abatimento do valor do compulsório a ser recolhido dos bancos de grande porte que adquiram parte da carteira de crédito de bancos pequenos e médios Isenção do IPI para automóveis de até 1.000cc e redução de 13% para 6,5% para veículos de até 2.000 cc Autorização para que bancos públicos adquiram ativos de bancos de pequeno e médio portes Criação de novas faixas de tributação no Imposto de Renda, reduzindo alíquotas para a classe média Permissão para aquisição de bancos privados, companhias de seguro e de previdência privada pelo Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, sem licitação Incremento de R$ 9,2 bilhões (US$ 4,2 bilhões) no investimento público programado, em adicional aos US$ 16,6 bilhões já planejados Criação da CaixaPAR, banco de investimento da Caixa Econômica Federal para aquisição de participações em empresas da construção civil Autorização para o uso da carteira de empréstimos dos bancos como garantia nas operações de crédito realizadas junto ao Banco Central Criação de linha de financiamento habitacional para servidores públicos com condições especiais Janeiro de 2009 Janeiro de 2009 Destinação de R$ 5,5 bilhões (US$ 2,5 bilhões) do FGTS para utilização em investimentos na infraestrutura Fevereiro a Março de 2009 Pacote habitacional prevendo a construção de 1 milhão de imóveis até 2010, para famílias de renda baixa e média (Medida Provisória 459) Redução da taxa básica de juros de 13,75% para 12,75% Mudança no estatuto social do BNDES para aumentar sua capacidade de financiamento Aporte adicional do Tesouro de R$ 100 bilhões (US$ 45 bilhões) para o funding do BNDES Fevereiro a Março de 2009 Redução da taxa básica de juros de 12,75% para 11,25% (março de 2009) Políticas Cambial e de Comércio Exterior Setembro a Dezembro de 2008 Outras Fevereiro a Março de 2009 Uso das reservas internacionais para o financiamento às exportações Reajuste de 12% do salário mínimo Uso das reservas internacionais para facilitar o refinanciamento das empresas com dívida em moeda estrangeira Extensão do prazo de pagamento do segurodesemprego para trabalhadores dos setores industriais mais afetados Fevereiro a Março de 2009 Extensão para dois anos do prazo para comprovação das exportações vinculadas ao regime de drawback 60 | André Nassif Índia Política Monetária e Creditícia Setembro a Dezembro Política Fiscal Setembro a Dezembro Redução da taxa básica de juros (repo rate), de 7,5% para 6,5% (outubro) Incremento de Rs 200 bilhões (US$ 4 bilhões) no orçamento, com previsão de gastos em 4 meses Redução do depósito compulsório (CRR), de 9% para 5,5% (outubro) Aporte adicional de recursos para os programas agrícolas e de seguridade social Subsídio de 2% para a taxa de juros dos créditos para exportação de setores intensivos em mão de obra Programa de Parceiras Público-Privadas para rodovias no valor de Rs 500 bilhões (US$ 10 bilhões) Permissão para acesso a empréstimos comerciais no exterior Autorização para substituição de veículos públicos Incentivo ao financiamento habitacional Corte do Imposto sobre Valor Adicionado Nacional (IVA) em 4% (média de 21% anterior à crise) Duplicação dos limites do Programa Garantidor de Crédito para pequenas empresas Janeiro Redução do prazo de depreciação dos veículos comerciais Refinanciamento de empréstimos de longo prazo à infraestrutura, por parte do India Infrastructure Política Cambial e de Comércio Exterior Finance Company Limited (IIFCL) Emissão de Rs 1,1 trilhão (US$ 22 bilhões) em títulos para financiamento da infraestrutura Aumento do fundo de garantias públicas para obras de infraestrutura Janeiro Acesso facilitado ao Fundo do Setor Habitacional Setembro a Dezembro de 2008 Reembolso das taxas de serviço à exportação (10% do valor) Recursos adicionais para os programas de incentivo à exportação Janeiro Redução da repo rate para 5,5% Reforço dos benefícios fiscais via drawback em itens selecionados Redução do depósito compulsório de 5,5% para 5% Empréstimos, em dólares ou rupias, a taxas competitivas pelo EXIM Bank of India para operações de pré e pós-embarque Eliminação dos custos de transação e de limitações aos empréstimos comerciais externos Ampliação dos limites de investimento estrangeiro em portfolio de Rs 300 bilhões (US$ 6 bilhões) para Rs 750 bilhões (US$ 15 bilhões) Novas linhas para projetos de portos, rodovias e energia Liberação de Rs 750 bilhões (US$ 15 bilhões) para financiamento de projetos de infraestrutura a taxas competitivas Emissão de bônus sem tributação, por parte do IIFCL, no valor de Rs 300 bilhões (US$ 6 bilhões), para financiamento de projetos de infraestrutura no valor total de Rs 700 bilhões (US$ 14 bilhões). Capitalização dos bancos estatais em Rs 20 bilhões (US$ 4 bilhões) Fontes: Brasil: Ministério da Fazenda; Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior; Banco Central do Brasil e Cepal (2009). Índia: Reserve Bank of India (2008 e 2009) e Ministry of Commerce and Industry. Textos para Discussão do BNDES 89 À Procura de um Consenso Fiscal: O que Podemos Aprender da Experiência Internacional? – Fabio Giambiagi – março/2001 90 A Balança Comercial Brasileira: Desempenho no Período 1997-2000 – Maurício Serrão Piccinini e Fernando Pimentel Puga – setembro/2001 91 O Brasil na Década de 90: Uma Transição Bem-Sucedida? – Armando Castelar Pinheiro, Fabio Giambiagi e Maurício Mesquita Moreira – novembro/2001 Brazil in the 1990s: A Successful Transition? – Armando Castelar Pinheiro, Fabio Giambiagi and Maurício Mesquita Moreira – november/2001 92 Um Cenário Normativo para a Economia Brasileira com Reforma Tributária e Controle do Gasto Público: 2003/10 – Fabio Giambiagi – fevereiro/2002 93 Do Déficit de Metas às Metas de Déficit: A Política Fiscal do Governo Fernando Henrique Cardoso – 1995/2002 – Fabio Giambiagi – abril/2002 94 Restrições ao Crescimento da Economia Brasileira: Uma Visão de Longo Prazo – Fabio Giambiagi – maio/2002 95 A Localização da Indústria de Transformação Brasileira nas Últimas Três Décadas – Filipe Lage de Sousa – agosto/2002 96 O Apoio Financeiro às Micro, Pequenas e Médias Empresas na Espanha, no Japão e no México – Fernando Pimentel Puga – agosto/2002 97 As Perspectivas do Setor Elétrico após o Racionamento – José Claudio Linhares Pires, Fabio Giambiagi e André Franco Sales – outubro/2002 98 Um Cenário para a Economia Brasileira com Permanência da Austeridade Fiscal e Redução da Vulnerabilidade Externa – Fabio Giambiagi – abril/2003 99 Alternativas de Apoio a Mpmes Localizadas em Arranjos Produtivos Locais – Fernando Pimentel Puga – junho/2003 100 As Estruturas Industriais dos Estados Brasileiros nas Últimas Três Décadas – Filipe Lage de Sousa – agosto/2003 101 Uma Contribuição ao Debate sobre a Nova Política Industrial Brasileira – André Nassif – setembro/2003 102 Bases para uma Estratégia Gradualista de Expansão – Fabio Giambiagi – outubro/2003 103 Morte do Consenso de Washington? Os Rumores a Esse Respeito Parecem Muito Exagerados – Fabio Giambiagi e Paulo Roberto Almeida – outubro/2003 104 O Comércio Brasil-China: Situação Atual e Potencialidades de Crescimento – Fernando Pimentel Puga, Lavínia Barros de Castro, Francisco Marcelo Rocha Ferreira e Marcelo Machado Nascimento – abril/2004 105 Políticas Reformistas no Presidencialismo de Coalizão Brasileiro – Licínio Velasco Júnior – outubro/2005 106 A Inserção do Brasil no Comércio Mundial: O Efeito China e Potenciais de Especialização das Exportações – Fernando Pimentel Puga – outubro/2005 107 A Economia Indiana no Periodo 1950-2004 – Da Estagnação ao Crescimento Acelerado: Lições para o Brasil? – André Nassif – janeiro/2006 108 Há Evidências de Desindustrialização no Brasil? – André Nassif – julho/2006 109 Estrutura e Competitividade da Indústria de Bens de Capital Brasileira – André Nassif – agosto/2007 Rio de Janeiro Av. República do Chile, 100/Sala 105 – Centro 20031-917 – Rio de Janeiro – RJ Tel.: (21) 2172-8888 Fax: (21) 2172-6772 São Paulo Av. Presidente Juscelino Kubitschek, 510/5º andar – Vila Nova Conceição 04543-906 – São Paulo – SP Tel.: (11) 3512-5100 Fax: (11) 3512-5199 Brasília Setor Bancário Sul – Quadra I – Bloco J/13º andar 70076-900 – Brasília – DF Tel.: (61) 3204-5600 Fax: (61) 3225-5510 Recife Rua Antonio Lumack do Monte, 96/6º andar – Boa Viagem 51020-350 – Recife – PE Tel.: (81) 2127-5800 Fax: (81) 3465-7861 Internet: www.bndes.gov.br E-mail: [email protected]