SIG APLICADO À ANÁLISE SÓCIO-ECONÔMICA PARA FINS
AMBIENTAIS: O CASO DA BACIA DO RIO DO COBRE, BA
Erika do Carmo Cerqueira
Pós-graduando em Gestão Ambiental / Gerenciamento de Recursos Hídricos - UNEB
Técnica da Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia – CONDER
Rua São Lázaro, 203 – Federação / SSA -Ba cep: 40210-720
[email protected]
Jémison Mattos dos Santos
Professor da Universidade Estadual da Bahia – UNEB
Mestrando em Geoquímica – UFBA
Campus Universitário de Ondina – Inst. de Geociências / SSA -Ba cep: 40170-290
[email protected]
RESUMO
A Bacia Hidrográfica vem ao longo dos tempos se consolidando como a unidade de planejamento mais adequada para
uma gestão territorial. Assim sendo, a área de estudo corresponde a Bacia do Rio do Cobre-Ba. O presente trabalho visa
analisar as condições sócio-econômica da mesma, a partir da espacialização de índices elaborados através do
cruzamento de variáveis do Censo 2000, que representa a precariedade das condições sócio-econômicas, organizados
em um Banco de Dados através do Sistema de Informações Geográficas - SIG.
Essa proposta, parte do pressuposto que a reflexão sobre a qualidade da ocupação humana auxilia na avaliação
ambiental de bacias hidrográficas urbanas. Ressalta-se que, ao longo do tempo, principalmente, a partir dos anos 80, o
uso e ocupação do solo desordenado provocou alterações ambientais negativas na bacia do Cobre, tornando-se claro a
necessidade de compreensão de sua realidade ambiental e, conseqüentemente, subsidiar o desenvolvimento de ações
satisfatórias em busca da estabilidade do sistema ambiental.
ABSTRACT
The hidrographical basin comes along the times if consolidating about the unit of planning more adapted for a
territory administration. Like this being, the study area corresponds the Basin of Rio of the Cobre. The present work
seeks to analyze the socioeconomic of the same conditions, starting from the spatialization of indexes elaborated
through the crossing of variables of the Census 2000, that it represents the precrious of the socioeconomic conditions,
organized in a database through the Geographical Information System - GIS.
That proposal, leaves of the presupposition that the reflection about the quality of the human occupation aids in
the environmental evaluation of basins urban hidrographicals. It is stood out that, along the time, mainly, starting from
the eighties, the use and occupation of the disordered soil provoked negative environmental alterations in the Cobre’
basin, becoming clear the need of understanding of its environmental reality and, consequently, to subsidize the
development of satisfactory actions in search of the stability of the environmental system.
1. INTRODUÇÃO
A literatura especializada freqüentemente
correlaciona a baixa qualidade sócio-econômica com a
degradação ambiental. No que diz respeito
especificamente aos recursos hídricos vários autores
justificam seus problemas em função da falta de
gerência territorial: ausência de saneamento básico,
ocupação desordenada, baixo nível educacional e de
renda, entre outras.
Portanto, percebe-se que na complexidade da
organização espacial se reflete no meio físico, o
resultado da sobreposição de variáveis sócio-econômica.
Assim, para a gestão do território torna-se
imprescindível à análise e inter-relacionamento dos
diferentes componentes do ambiente (meio abiótico e
biótico).
Apesar do conceito de sustentabilidade
associado ao meio ambiente ser uma conotação recente,
a definição que vem sendo aceita procura estabelecer
um equilíbrio dinâmico entre desenvolvimento
ecológico, econômico e social: “Desenvolvimento
Sustentável é aquele que atende às necessidades do
presente sem comprometer a possibilidade de as
gerações futuras atenderem suas próprias necessidades”
(Barbieri, 2001).
A Bacia Hidrográfica vem se consolidando
como a unidade do espaço geográfico mais adequada
para uma gestão ambiental, pois necessita de um aparato
especial para o planejamento e desenvolvimento de
projetos relativos à preservação sustentável dos recursos
naturais: “(...) os rios devem ser examinados sob a ótica
das bacias de drenagem, uma vez que refletem a forma
de uso do solo e sua dinâmica, além de considerar as
dimensões temporal e espacial” (Cunha, 2003).
baixa qualidade sócio-econômica caracterizada pela
precariedade de infra-estrutura e pelo baixo índice de
qualidade de vida que predomina na área, nos aludindo
a uma situação de baixa qualidade ambiental com
efeitos negativos para os recursos naturais,
principalmente o hídrico.
2. DIMENSÃO ESPACIAL
A Bacia do Rio do Cobre está localizada na
borda oriental da Baía de Todos os Santos no município
de Salvador, no Estado da Bahia. Esta, faz parte da
bacia hidrográfica do Recôncavo Norte e possui uma
notável importância do ponto de vista ecológico,
histórico, religioso e cultural.
Para o contexto urbano municipal contém uma
das últimas áreas verdes de Salvador com um potencial
hídrico considerável, caracterizando-se por uma grande
diversidade de ambientes, distribuídos em uma reduzida
porção territorial.
Tendo em vista ao exposto, o presente trabalho
busca analisar as condições sócio-econômicas da Bacia
do Rio do Cobre/SSA-Ba, utilizando para tanto índices
elaborados à partir de variáveis sócio-econômicas do
Censo 2000 (IBGE), organizados em um Banco de
Dados.
A Bacia encontra-se próxima à um dos vetores
de expansão periférica da cidade, na Região
Administrativa do Subúrbio Ferroviário, a oeste da BR324. Possui uma superfície de 2.660ha compreendendo:
a)uma área verde não protegida, de cerca de 400ha,
onde se encontra a nascente do Rio do Cobre; b) um
complexo de bairros com uma significativa parcela de
assentamentos clandestinos; c) o Parque Metropolitano
de Pirajá, que possui uma superfície de 1500ha, dos
quais 75ha correspondem a uma área religiosa e
cultural, denominada Parque São Bartolomeu.
Essa proposta, parte do pressuposto que a
reflexão sobre a qualidade da ocupação humana auxilia
nas análises acerca da qualidade ambiental de um
determinado espaço.
È uma região de grande relevância ecológica,
ameaçada por graves problemas, típicos das periferias
urbano-marginais das grandes cidades como é o caso de
Salvador.
Os Sistemas de Informação Geográficas
transformaram o modo de se trabalhar com a análise
espacial, aumentando a flexibilidade e possibilitando
expressões de idéias e formas que antes eram muito
trabalhosas ou “impossíveis” de se fazer.
Figura
Bacia.
As análises espaciais se constituem na chave
para a resolução de problemas na gestão do ambiente,
principalmente se o usuário puder sintetizar e exibir
dados espaciais de muitas maneiras, bem como,
combinar múltiplos temas para descobrir suas relações
espaciais.
Em função da base territorial utilizada neste
trabalho se caracterizar pelo parcelamento através de
Setores Censitários, o qual tende a homogeneizar
fenômenos dentro de um espaço comum, tal análise
permite basicamente a visualização da distribuição do
fenômeno sobre o território, no qual, pode-se observar
que em função da ocupação desordenada que se
consolidou nesta bacia, a mesma, encontra-se com uma
1
–
Cartograma
de
Localização
da
3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
O presente trabalho utilizou o Sistema de
Informações Geográfica – SIG através dos softwares
ArcView 8.2 como instrumento para obter análises para
as questões supracitadas. Esta ferramenta contribuiu
para dois momentos importantes: o primeiro que
consistiu na geração, atualização, integração e análise
de informações georreferenciadas e/ou dados sócioeconômicos da bacia e o segundo na representação
cartográfica dos resultados obtidos.
A Base cartográfica utilizada caracteriza-se
pelas feições de: sistema viário, edificações, hidrografia
e curvas de nível. Através desta última foi traçado o
limite da Bacia hidrográfica do Rio do Cobre.
Com esta área definida, obtiveram-se os dados
dos setores censitários, ressaltando que sua área nunca
será igual à área da bacia diante da unidade de pesquisa
que estamos utilizando – setores – os quais
corresponderam portanto à aproximadamente a área de
estudo e na qual haverá informações uniformes à cerca
de sua área interna.
O IBGE disponibiliza 537 variáveis –
agrupadas em setores censitários – o presente trabalho
se restringiu a algumas que considera ilustrativas para o
objetivo do trabalho, as quais são:
• Variáveis que representa o precário esgotamento
sanitário;
• Variáveis que representa a precária coleta de lixo;
• Variáveis que representa a densidade demográfica;
• Variáveis que representa o grau de instrução do
chefe de família;
• Variáveis que representa a renda do chefe de
família.
Cabe ressaltar que os valores das variáveis
utilizadas correspondem ao questionário básico do
Resultado do Universo do Censo 2000, e que portanto
representam as unidades domiciliares, ou seja,
Domicílios Particulares Permanentes (DPP)1.
Com as variáveis selecionadas partiu-se para a
elaboração dos índices, que para uma compreensão mais
abrangente serão detalhados em função do conceito
explicitado nas Notas Metodológicas do Censo
Demográfico 2000 – IBGE.
•
•
1
Densidade Demográfica – Pessoas Residentes /
Área em hectares;
Esgotamento Sanitário – Percentual do somatório
dos DPP com banheiro ou sanitário e esgotamento
“Quando construído para servir exclusivamente à
habitação e, na data de referência, tinha a finalidade de
servir de moradia a uma ou mais pessoas” (Notas
Metodológicas do Censo 2000 – IBGE).
•
•
•
dos tipos: fossa rudimentar, vala, lançamento em
rio, lago ou mar e com outro escoadouro / Total dos
DPP;
Coleta de lixo – Percentual do somatório dos DPP
nos quais o destino do lixo é ser queimado,
enterrado, jogado em terreno baldio ou logradouro,
jogado em rio, lago ou mar ou com outro destino /
Total dos DDP;
Chefes com renda até um salário mínimo –
Percentual do somatório das pessoas responsáveis
pelos DPP sem rendimento, até meio salário
mínimo e mais de meio até um salário mínimo /
Total de pessoas responsáveis por DPP;
Pessoas analfabetas – Percentual do somatório das
pessoas residentes não alfabetizadas / Total das
pessoas residentes.
Cabe ressaltar que sobre estes índices foram
lançados outros dados brutos como Hipsometria,
Declividade, Percentual de lixo com destino em rios,
Percentual de DPP sem banheiro e Limites de Parques e
APAs legalmente constituídas.
Os resultados obtidos foram lançados em
mapas de análise (coropléticos) a destacar: hipsometria,
ocupação urbana, condição econômica/educacional,
esgotamento sanitário e situação do lixo na bacia.
A representação cartográfica vem contribuir
para a visualização da espacialização do fenômeno,
considerando que a cartografia caracteriza-se como um
importante instrumento de análise visual e,
gerenciamento do espaço.
Cruzando os dados obtidos desta seqüência de
mapeamento com a base cartográfica, teremos a
correlação espacial entre a qualidade ambiental e a
situação sócio-econômica da área. Na qual, áreas com
baixa qualidade sócio-econômica estão relacionadas
com áreas de baixa qualidade ambiental.
4. CONCLUSÃO
Ao longo dos anos o processo de uso e
ocupação do solo desordenado provocou alterações
ambientais negativas afetando a qualidade do ambiente
da bacia.
Todavia, o poder público municipal
implementou medidas de prevenção legal, como a
institucionalização de APAs e Parques, assim como, a
inserção de tipos de infra-estrutura básica, que
atenuaram, no entanto, não resolveram o problema
definitivamente.
Através da Figura 2 pode-se observar que a
Bacia do Rio do Cobre vem sofrendo um processo de
pressão populacional de “fora para dentro”, e que seus
limites internos apesar de caracterizados por uma baixa
densidade sofre interferências da ocupação desordenada
adjacente.
mesmo assim possui muitas áreas com até 30% do lixo
tendo outros destinos que não o coletado pela prefeitura.
Figura 2
Tal análise se agrava ao sobrepormos os locais
que apresentam maiores índices de lixo com destino
para o canal hídrico, pois se concentram nas áreas
topograficamente elevadas (de difícil coleta) que através
das chuvas são acarretados para o sistema de drenagem
fluvial. Acompanhando o mesmo processo temos os
efluentes líquidos.
Figura 3
Assim como, em toda bacia hidrográfica em
meio urbano, esta também possui um alto grau de
degradação ambiental. A ocupação e uso do solo na
maioria das vezes não se conciliam com uma proteção
dos recursos naturais. E, nota-se, na Bacia do Rio do
Cobre que a ocupação do solo, com precários sistemas
de infra-estrutura urbana vem contribuindo para a
deteriorização dos cursos d’ água.
Tal precariedade é tradicionalmente ilustrada
através do esgotamento sanitário e do sistema de coleta
de resíduos sólidos. Essas duas variáveis podem ser
observadas na Figura 3 e 4 respectivamente, e comprova
que nas áreas com elevada densidade populacional têmse baixos índices de esgotamento.
Quanto à coleta de lixo, apesar de se encontrar
em melhor situação se comparada à variável anterior,
não representa um índice satisfatório. Haja vista, tal
espaço encontra-se em ambiente urbano adjacente a
uma área de preservação com rico potencial hídrico e
Provavelmente, o elemento mais expressivo de
poluição refere-se aos resíduos domésticos, porém
percebe-se que as áreas protegidas legalmente possuem
melhores condições ambientais, o que reforça a
necessidade da institucionalização de áreas com
relevância ambiental.
Não se pode pensar em desenvolvimento
sustentável da Bacia sem conhecimento sobre seus
problemas sociais, assim como, sua localização no
espaço visando a intervenção de políticas públicas
apropriadas.
Figura 4
Figura 5
Porém, tais intervenções perpassam pelo
interesse político, que muitas vezes não são
direcionadas para as áreas periféricas da cidade do
Salvador que são historicamente desvalorizadas.
Todavia, nos locais onde o perfil de equilíbrio
das vertentes não foi rompido por atividades antrópicas,
observa-se processos naturais de aterramento dos
mesmos (lentos). Além disso, rompendo-se a dinâmica
normal, processos outros são ativados, a exemplo da
erosão, que devido ao elevado índice pluviométrico
anual – chuvas torrenciais – se intensifica, deslocando
uma massa detrítica que é carreada através das águas,
desestabilizando as encostas (Santos, 2002).
Tal desvalorização desta parte do solo urbano,
ocasiona uma concentração de pessoas de baixa renda
que se caracterizam concomitantemente pelo baixo
índice de escolaridade. A Figura 5 representa a situação
destas variáveis na Bacia.
Além dos fatores já mencionados, um outro
ainda se faz necessário analisar: a ocupação
desordenada, principalmente, nas vertentes. Salvador é
uma cidade muito dissecada e a Bacia do Rio do Cobre
possui entre seus divisores de água um sistema
escalonado de falhas.
Observa-se que o assoreamento dos rios, bem
como o entulhamento dos vales está em função da
retirada da cobertura vegetal, que intensifica os
processos morfogenéticos, conseqüentemente, ocorre a
remoção do material das vertentes, indicando uma ação
eficiente do run-off.
A Figura 6 ilustra os aspectos de declividade da
bacia, que se correlacionado com os outros mapas irão
promover uma visualização da realidade espacial da
área em estudo.
A ocupação indevida das vertentes, associada
com os aspectos de infra-estrutura já analisados,
reforça a idéia que os cursos d’água são utilizados
como destino para os resíduos sólidos e efluentes
líquidos produzidos por aproximadamente 150.360
habitantes que ocupam a Bacia do Cobre.
Figura 6
intervenções que vise à melhoria da qualidade de vida e
a preservação dos recursos naturais.
Figura 7
Os baixos índices de escolaridade, também,
favorecem: 1) a não exigência de melhoria por parte
dos poderes públicos; 2) formas indevidas de
acondicionamento de lixo e de uso dos recursos
hídricos próximos.
Como esta bacia encontra-se em meio urbano,
torna-se relevante à avaliação dos seus cursos d’ água,
para que se possam promover intervenções que vise a
sua preservação, dentro de uma abordagem do
desenvolvimento sustentável.
Cabe ressaltar a importância das intervenções
antrópicas no uso do solo que influencia as alterações da
dinâmica fluvial, “As condições naturais dos rios tem se
modificado pela participação antrópica diretamente nos
canais (...). Conclui-se que há constantes relações de
causa e efeito entre a calha dos rios e as atividades
humanas realizadas na bacia hidrográfica” (Cunha,
2003). A Figura 7 representa as condições hipsométricas
e das redes de drenagem da bacia.
Portanto, devido à importância desta Bacia no
contexto municipal e da sua situação sócio-econômica
apresentada através deste estudo, fazem-se necessárias
Destarte, a relevância social deste trabalho
encontra–se na elaboração de uma pesquisa que poderá
ser utilizada tanto pela comunidade, como por
instituições públicas, como subsídio ao diagnóstico dos
problemas sócio-econômicos-ambientais, procurando
aprofundá-los de maneira participativa, encontrando
medidas mitigadoras que visem à proteção e
conservação dos recursos naturais, principalmente, dos
recursos hídricos da bacia referida.
A presente metodologia pode ser utilizada em
outras áreas, pois os resultados demonstraram que a
utilização do SIG tornou viável a análise espacial
proposta, através do cruzamento de informações e da
manipulação de Banco de Dados permitindo o alcance
do objetivo almejado.
O uso do SIG pôde promover a agregação de
dados de várias fontes, as quais puderam ser
representadas espacialmente, exprimindo a totalidade e
a complexidade da realidade ambiental.
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