JOCELAINE OLIVEIRA DOS SANTOS ANÁLISE DISCURSIVA DA PEÇA TEATRAL “O REI DA VELA” SÃO CRISTÓVÃO 2010 Livros Grátis http://www.livrosgratis.com.br Milhares de livros grátis para download. JOCELAINE OLIVEIRA DOS SANTOS ANÁLISE DISCURSIVA DA PEÇA TEATRAL “O REI DA VELA” Dissertação apresentada como parte dos requisitos para obtenção do título de Mestre em Letras, área de concentração: Estudos da linguagem e ensino, linha de pesquisa: teorias do texto, do programa de Pós-graduação em Letras da Universidade Federal de Sergipe. Orientador: Prof. Dr Antonio Ponciano Bezerra. Co-orientador: Prof. Dr. Renato de Mello. SÃO CRISTÓVÃO 2010 JOCELAINE OLIVEIRA DOS SANTOS ANÁLISE DISCURSIVA DA PEÇA TEATRAL “O REI DA VELA” Dissertação apresentada como parte dos requisitos para obtenção do título de Mestre em Letras, do programa de Pósgraduação em Letras, do Núcleo de PósGraduação em Letras da Universidade Federal de Sergipe. Área de concentração: linguagem e ensino. Estudos da Linha de pesquisa: Teorias do texto, Aprovada em: BANCA EXAMINADORA: Prof. Dr. Antonio Ponciano Bezerra - Orientador Universidade Federal de Sergipe Profª. Drª. Denise Porto Cardoso Universidade Federal de Sergipe Prof. Dr. Renato de Mello - Co-orientador Universidade Federal de Minas Gerais Suplentes: Profª Drª Maria Leônia Garcia de Carvalho Universidade Federal de Sergipe Profª Drª Lêda Pires Corrêa Universidade Federal de Sergipe . Aos que acreditaram na possibilidade de realização deste trabalho, em especial à minha mãe. AGRADECIMENTOS À minha mãe, que se mostra fortaleza e me faz fortaleza diariamente. Ensina-me a lutar e a não desistir nunca. Obrigada! Ao professor Dr. Antonio Ponciano, pelos ensinamentos que levarei além academia. Obrigada pelos direcionamentos, pela paciência e pelos anos de convivência. Ao professor Dr. Renato de Mello, pelas conversas e pelo carinho com que me acolheu. A Claudio, com quem compartilho as angústias diárias das escolhas que faço. A todos que torceram por mim e confiaram na minha capacidade de chegar até aqui. Obrigada! “A vida não é em linha reta, nem em ordem direta se processam as histórias de cada homem.” Oswald de Andrade RESUMO Esta dissertação tem como objetivo proceder a uma análise discursiva da peça “O Rei da Vela”, de Oswald de Andrade. Pretende-se, em um primeiro momento, articular uma análise discursiva das estratégias de construção de sentido e das estratégias de constituição dos múltiplos sujeitos que compõem o processo de enunciação deste texto teatral. Em um segundo momento, serão identificadas as representações sociais refletidas e refratadas na peça, através da reconstituição do ethos do personagem Abelardo I e do desvelamento das vozes presentes no texto. Para tanto, utilizar-se-á de um arcabouço teórico que abarque as especificidades do texto teatral em sua materialidade linguístico-discursiva. O trabalho se funda na Análise do Discurso por considerar que as análises propostas pela AD possibilitam ultrapassar os limites do próprio texto, adentrando na confluência da língua, do sujeito, da História e da ideologia, tudo isso no e pelo discurso. Palavras-Chave: O Rei da Vela. Análise do Discurso. Teatro. ABSTRACT This work aims at proceeding a discursive analysis of the play “O Rei da Vela” by Oswald de Andrade. Firstly, we intend to articulate a discursive analysis of the strategies of sense construction and the strategies of multiple subjects‟ constitution that are part of the utterer process of this theatrical text. Second, we will try to identify the social representations reflected and refracted on the play, through the reconstruction of the ethos of Abelardo I and from unveiling the speeches in the text. For so, we use a theoretical framework that contain the specificities of the theatrical text in its linguisticdiscursive materiality. Our work is based upon Discourse Analysis because we believe that the proposed analyses by DA make it possible to go beyond the limits of the text, getting into the language, the subject, the History and the ideology confluence, all this in and by the discourse. Key-words: O Rei da Vela. Discourse Analysis. Theater. SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................................... 9 2 O REI DA VELA .................................................................................................................. 14 2.1 AS VANGUARDAS EUROPÉIAS E O QUADRO DE INFLUÊNCIAS DA PEÇA .... 25 2.2 SOBRE A RECEPÇÃO E A ENCENAÇÃO DA PEÇA ................................................ 30 3 BREVE HISTÓRICO DA ANÁLISE DO DISCURSO ....................................................... 35 3.1 ETAPAS DE CONSOLIDAÇÃO DA ANÁLISE DO DISCURSO ............................... 42 3.2 ALGUNS CONCEITOS CHAVES PARA A ANÁLISE DO DISCURSO .................... 43 3.2.1 Sujeito .................................................................................................................... 43 3.2.2 Discurso ................................................................................................................. 46 3.2.3 Formação discursiva............................................................................................... 47 3.2.4 Interdiscurso ........................................................................................................... 48 3.3 CONSTRUÇÃO TEÓRICA DE UM DISPOSITIVO DE ANÁLISE ............................ 51 3.3.1 O conceito de ethos ................................................................................................ 52 3.3.2 O conceito de Polifonia .......................................................................................... 54 3.4 O TEXTO TEATRAL E SUA ESPECIFICIDADE ........................................................ 59 4 CONSTRUÇÃO DOS BLOCOS DE ANÁLISE .................................................................. 63 4.1 ABELARDO I .................................................................................................................. 67 4.2 INSTITUIÇÃO FAMILIAR ............................................................................................ 78 4.3 LUTA DE CLASSES ....................................................................................................... 83 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................................ 86 REFERÊNCIAS ....................................................................................................................... 89 9 1 INTRODUÇÃO Oswald de Andrade, em 1924, lança o “Manifesto Antropofágico”. Esse manifesto surge como uma proposta artístico-intelectual que tem em sua base absorver o que há de bom e de valoroso na cultura do outro. Não se trata, evidentemente, de copiar o outro, mas de assimilá-lo, de interagir com ele, de tirar dele o que há de melhor e fazer disso algo novo, genuinamente nacional: um projeto consciente de criação de uma arte brasileira autônoma. O manifesto reelabora, desse modo, o conceito eurocêntrico e negativo de antropofagia, passando à metáfora de um processo crítico de formação da cultura brasileira. Com a antropofagia, tenta-se deixar de ser o colonizado, ainda que sabendo o quão difícil é abandonar tal posição. “Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago. [...] Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.” (ANDRADE, 1995, p. 72) Assim como na metáfora antropofágica, um trabalho acadêmico exige esse constante exercício de reelaboração do pensamento. Buscar teorias, lançar olhares, cruzar conhecimentos são algumas das exigências ao aluno pesquisador, como o do Mestrado. Portanto, vale-se de tal metáfora para abrir e trilhar o caminho do trabalho que agora se apresenta, já que, nele, notadamente, Linguística e Literatura, Análise do Discurso e estudos específicos do Teatro, cruzam-se com a intenção de produzir mais um olhar sobre a obra O Rei da vela, de Oswald de Andrade. Ao perceber a escassez de estudos linguísticos que tratam do texto ficcional, do texto literário e, sobretudo, do texto dramático, resolve-se assimilar o que havia enquanto produção intelectual, escolhendo somente a parte que acredita-se ser a mais interessante para o trabalho. Deparam-se com alguns trabalhos acadêmicos que abordam o corpus e também dalí retira-se algo. Tudo isso foi feito com uma intenção: a de produzir um trabalho acadêmico, uma dissertação de Mestrado que tentasse algo genuíno. Deste modo, a proposta é a de proceder a uma análise discursiva da peça O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, escrita em 1933 e publicada em 1937. Pretende-se, em um primeiro momento, articular uma análise discursiva das estratégias de construção de sentido e das estratégias de constituição dos múltiplos sujeitos que compõem o processo de enunciação deste texto teatral. Em um segundo momento, buscar-se-á identificar as representações sociais refletidas e refratadas na peça, através da reconstituição do ethos do personagem Abelardo I e do desvelamento das vozes presentes no texto. 10 Para tanto, vale-se, aqui, de um arcabouço teórico que abarca as especificidades do texto teatral em sua materialidade linguístico-discursiva. O trabalho funda-se na Análise do Discurso (AD), por considerar que as análises propostas pela AD possibilitam ultrapassar os limites do próprio texto, adentrando na confluência da língua, do sujeito, da história e da ideologia, tudo isso no e pelo discurso. Além disso, a própria Análise do Discurso se dispõe a investigar as mais diversas práticas da linguagem, que vão desde situações linguageiras do cotidiano até as práticas literárias. Recorre-se, portanto, a teóricos que trabalham na confluência entre Literatura e Linguística, e, mais especificamente, Análise do Discurso, como Ubersfeld, Maingueneau, Ryngaert, Mello, Charaudeau, entre outros. A emergência da entidade discurso, como objeto de análise, leva à percepção do texto literário além da instância criadora e de seu aspecto meramente estilístico, apartando-se da visão romântica que permeava a maioria dos estudos literários até a década de 60. Desde Bakhtin (1929), opera-se uma mudança de paradigma, que se acelera com a Teoria da Recepção, com os novos dispositivos de leitura introduzidos por Chartier e com a sociocrítica da década de 70. Neste meio, a Análise do Discurso, que se desenvolve independentemente dos estudos literários, traz para o centro do debate as mais diversas práticas discursivas, operando uma abertura nas ciências da linguagem que permitiu a confluência de áreas até então consideradas distantes, Em vez de julgar evidente a oposição entre o „profano‟ das ciências humanas e o „sagrado‟ da literatura, a análise do discurso explora as múltiplas dimensões da discursividade, buscando precisamente explicar a um só tempo a unidade e a irredutível diversidade das manifestações do discurso. Ela não se contenta com a mobilização de noções tomadas à Psicanálise, à Sociologia, à Antropologia, etc, para aplicá-las a textos literários: não se trata de projetar um universo (as ciências humanas) noutro (a literatura) que lhe seria estranho, mas de explorar o universo do discurso. (MAINGUENEAU, 2006, p. 38) Apesar de estarem sob a mesma orientação e repousarem sob o mesmo substrato (a linguagem), os estudos linguístico-discursivos e os estudos literários, muitas vezes não se encontram reciprocamente, ficando reservados aos estudos da Análise do Discurso, por exemplo, recortes a partir dos gêneros mais cotidianos, como os propostos pela publicidade; e, reservados aos estudos literários, trabalhos com narrativas consagradas, por exemplo. Contudo, acredita-se que “[...] a AD se apresenta como mais uma possibilidade de abordar textos literários com conceitos e ferramentas que, até, provem o contrário, servem para todo e qualquer tipo de discurso e de texto, inclusive, evidentemente, o discurso e o texto literário.” (MELLO, 2005, p. 14) 11 Ao articular as noções de formação discursiva, de sujeito, de ethos discursivo, amplamente trabalhadas pela Análise do Discurso, ao texto literário, especificamente ao texto teatral, intenciona-se conciliar dois campos da pesquisa em Letras, que se situam em espaços diferentes: a pesquisa em Literatura, considerada pelos seus teóricos e cultores como um tipo de discursividade sublime, e a pesquisa em Linguística, mais afeita ao estudo do funcionamento efetivo e prático da linguagem em um contexto social. Trata-se, portanto, de discursos que são considerados diferentes, produzidos por sujeitos diferentes com intenções diferentes. Mas, percebe-se que essa diferença é apenas concebida e imaginada, e uma prova disso é que as novas teorias do discurso se propõem a desmascarar essa „aura‟ do discurso literário, considerando-o como um discurso analisável dentro da sua concepção de discurso mesmo. De acordo com Maingueneau (2004, p.44), “[...] é surpreendente que ainda hoje, a maior parte dos especialistas em Literatura ignore tudo o que é feito nos trabalhos sobre o discurso e que a maior parte dos pesquisadores sobre o discurso evite levar em conta categorizações advindas dos estudos literários.” A literatura é, assim, um campo vasto de articulação entre as novas tendências que tomam o discurso como prática sócio-interativa. Esta análise se firmará no texto da peça “O Rei da Vela”, excusando a representação nesse momento, pois entende-se que o texto, pela sua não perecibilidade diante das mudanças temporais e contextuais, articula, em seu aspecto de produção e produto, o discurso (ou os discursos). Sabe-se, também, que a análise do texto teatral em sua encenação demanda esforços teóricos e práticos não possíveis para este momento da pesquisa, uma vez que a peça teve montagem significativa em 1968, pelo Grupo Oficina. Deste modo, entende-se o texto teatral como discurso, de acordo com o que postula Maingueneau (2001, p.43), De maneira mais ampla, considerar o fato literário como „discurso‟ é contestar o caráter central desse ponto fixo, dessa origem sem comunicação com o exterior que seria a instância criadora. Fazê-lo é renunciar ao fantasma da obra em si, em sua dupla acepção de obra autárquica e de obra fundamental da consciência criadora; é restituir as obras aos espaços que as tornam possíveis, onde elas são produzidas, avaliadas, administradas. [...] A partir do momento em que não se pode separar a instituição literária e a enunciação que configura um mundo, o discurso não se encerra na interioridade de uma intenção, sendo em vez disso força de consolidação, vetor de um posicionamento, construção progressiva, através do intertexto, de certa identidade enunciativa e de um movimento de legitimação do próprio espaço de sua enunciação. Para proceder a análise do texto da peça, tornou-se necessário fixar a especificidade teatral que se faz na confluência entre Literatura e prática dialogal. Para tanto, reservou-se um momento da pesquisa no qual foi traçada a especificidade do texto e do discurso teatral. É importante lembrar que a natureza deste objeto de pesquisa é linguístico-discursiva, pois 12 entende-se que a representação configura-se como outro texto, situado ao nível da recepção. Por isso, a especificidade do do objeto faz ultrapassar os limites de uma só área do conhecimento. O almejado com esta dissertação é, em última instância, lançar um olhar sobre o texto oswaldiano sob a ótica dos estudos linguísticos. Na certeza de que é possível uma “inspeção lingüística”, na medida em que esse texto – assim como qualquer outro texto – é a materialização de um discurso (ou dos discursos) e como tal permite uma abordagem dos elementos e mecanismos fundamentais de sua enunciação. Cabe aqui lembrar que o interesse pela peça O Rei da Vela surgiu no período da graduação quando, à época da monografia, descobriu-se o teatro oswaldiano, até certo ponto imêmore pela crítica e desconhecido pelo grande público. Naquela ocasião, foi trabalhada a chamada Trilogia da devoração (as três peças compostas por Oswald – “O rei da vela”, A morta” e “O homem e o cavalo”) em uma análise mais interpretativa, pautada na crítica proposta por Magaldi (2004). Tratava-se mais de uma leitura de quem acabava de descobrir o novo, repleta de impressões e sensações. Em um segundo momento, em um curso de especialização, adentrou-se um pouco mais o teatro oswaldiano, agora somente com a peça “O Rei da Vela”, mobilizando conceitos apreendidos no curso de teorias do texto, como vozes e polifonia em Bakhtin, na tentativa de traçar a arena de vozes á qual se atribuía a peça. Tal embate passou a ser analisado com a intenção de mostrar como essa peça podia ser considerada um palco múltiplo das diversas instâncias enunciativas que ali se manifestavam. Contudo, entende-se que o nível de aprofundamento atingido ainda não possibilitou perceber nuanças constitutivas da peça que intrigavam e intrigam ainda, como os seguintes pontos: como Abelardo I, personagem síntese e referente do título, mobiliza as diversas instituições em que transita na construção de seu ethos? Há uma reflexão e uma refração das representações sociais no discurso construído pelos personagens? Como as diversas vozes representadas no texto mobilizam-se na construção do discurso (ideologicamente marcado, como todo o discurso) da peça? Há um discurso na peça ou há uma multiplicidade de discursos que se imbricam e se enveredam pelos meandros da linguagem? Agora, mobilizam-se em busca de tais questionamentos, pois julga-se que a partir das possíveis respostas será lançado um olhar diferenciado e, até certo ponto, responder-se-á àqueles que se interessam pelo teatro oswaldiano. Será lançada, ainda que de maneira incipiente, uma proposta de leitura sobre um texto profundamente marcado pela rejeição 13 acadêmica, à época de sua publicação, e pelo obscurecimento de sua relevância para a constituição do teatro moderno nesses últimos anos. Estes argumentos se consolidam no presente trabalho, organizado da seguinte forma: o primeiro capítulo ficará reservado ao conhecimento das condições de produção e de recepção do texto “O Rei da Vela”, considerando também a recepção da encenação em 1967. Será traçada uma breve caracterização da época e do autor – um percurso nas influências oswaldianas e nas concepções de teatro vigente; o segundo capítulo será o espaço da construção teórica do trabalho. Nele será localizada a Análise do Discurso, traçadas as especificidades concernentes ao objeto e compostos os dispositivos de análise, com os conceitos de sujeito, de discurso, de formação discursiva e de interdiscurso, além do conceito de ethos e de vozes, que auxiliarão na construção dos efeitos de sentido da peça. Em um terceiro momento, será realizada a analise da peça, compondo blocos de análise a partir da seleção e organização metodológica proposta. Tentar-se-á, a partir da percepção de recorrência temática (ou seja, repetição de grandes temas, a saber: instituição familiar e luta de classes) e do personagem Abelardo I, dividir a peça em blocos analisáveis. Este é o ponto em que a teoria será cotejada às análises, buscando discutir as indagações formuladas anteriormente e confirmando ou não as hipóteses iniciais. O quarto capítulo ficará reservado para a reflexão sobre as possibilidades de leitura dessa peça a partir das análises que serão propostas no terceiro capítulo. É o momento de relacionar a Análise do Discurso à análise do texto literário, mais detidamente do texto teatral, com a intenção de compor um quadro de referências. Por fim, nas considerações finais, em função da pesquisa feita, serão indicados os resultados do estudo. Sabe-se que, pela própria natureza do trabalho, muitos ajustes podem surgir ao longo do caminho. Ao explorar a peça, deparou-se cotidianamente com situações novas que podem exigir de redirecionamentos, já que o texto teatral é múltiplo em suas dimensões, assim como todos os textos. Tenta-se, assim, lançar um olhar para uma das formas de leitura do texto oswaldiano, já que, diante da pesquisa, deparou-se com poucos trabalhos que ligam Análise do Discurso e texto teatral, Linguística e Literatura. Entendendo que a leitura de um texto e a revelação de suas especificidades, de suas características, são uma construção progressiva. Buscar-se-á examinar as condições/circunstâncias específicas que determinam a produção e a interpretação dos sujeitos que participam do processo de enunciação, e a produção dos sentidos deles advindos. Pretende-se, neste sentido, enriquecer os estudos sobre a peça, mas, também, sobre os sujeitos plurais da linguagem, a partir de sua singularidade no texto dramático. 14 2 O REI DA VELA A obra é indissociável das instituições que a tornam possível, não existe tragédia clássica ou epopéia medieval fora de uma certa condição dos escritores na sociedade, fora de certos lugares, de certos modos de elaboração ou de circulação de textos. (MAINGUENEAU, 2001, p. 19) Considerada como um marco na escrita do teatro e da própria cultura nacional, “O Rei da Vela” (1933-1937), de Oswald de Andrade, foi produzida em meio a um momento histórico conturbado. A crise do café (1929), a Revolução de 1930 e a Constitucionalista (1932) marcaram profundamente a sociedade, a economia e, por conseguinte, a cultura. Neste sentido, Oswald de Andrade produz “O Rei da Vela”, uma obra que, como ele mesmo pontuou, buscava revelar minuciosamente as engrenagens do Brasil. O primeiro triênio do século XX foi marcado pelo desenvolvimento amplo das lavouras cafeeiras e, consequentemente, pelo aumento de imigrantes trabalhadores no país. Segundo Fausto (1978), de 1890 a 1930 chegaram ao Brasil, aproximadamente, 3.500.591 estrangeiros buscando melhores condições de vida no pós-Guerra, atraídos por subsídios à imigração, sobretudo concedidos pelo governo paulista. Essa realidade modificou o panorama das cidades que, com a crise do café e a queda da Bolsa de Nova Yorque, em 1929, constituíram-se em palco de desemprego e desordem. Há, neste mesmo período, em virtude da crise, só no estado de São Paulo, uma média de 70 greves em um ano, culminando com a formação de partidos operários e com as movimentações de partidos de oposição. Somam-se a essa realidade, a chamada “Revolução de 30”, um movimento armado, liderado pelos estados de Minas Gerais, Paraíba e Rio Grande do Sul, que culminou com o golpe de Estado, o Golpe de 1930, que depôs o presidente da república Washington Luís, em 24 de outubro de 1930, impediu a posse do presidente eleito Júlio Prestes e pôs fim à República Velha. Interpretada como a revolução que findou com o predomínio das oligarquias no cenário político brasileiro, a “Revolução de 30” conta com uma série de fatores conjunturais que explicam esse dado histórico. No âmbito internacional, pode-se destacar a própria crise do sistema capitalista e a ascensão de ideias socialistas e comunistas. Em solo nacional, a modernização das economias só era imaginada com a intervenção de um Estado preocupado em implementar um parque industrial autônomo e sustentador de sua própria economia. Em contrapartida, o capitalismo vivia um momento de crise, provocado pelo colapso das 15 especulações financeiras que, inclusive, provocaram o crash da Bolsa de Nova Iorque, em 1929. Além disso, há ainda um dos mais importantes acontecimentos da história política brasileira, ocorrido no Governo Provisório de Getúlio Vargas, a Revolução Constitucionalista de 1932, desencadeada em São Paulo. Foram três meses de combate, que colocaram frente a frente, nos campos de batalha, forças rebeldes e forças legalistas. A revolta paulista alertou o governo de que era chegado o momento de pôr um fim ao caráter revolucionário do regime. Foi o que ocorreu em maio do ano seguinte, quando finalmente se realizaram as eleições para a Assembléia Nacional Constituinte, que iria preparar a Constituição de 1934. Vê-se que a crise política e econômica do início do século XX marcou indelevelmente a sociedade, pois suas consequências imediatas – desemprego, fome, êxodo rural – deixaram profundas cicatrizes nas famílias brasileiras. Época de contradições: abundância e miséria, superprodução e fome; milhares de sacas de café empilhadas, sem valor, sem destino; milhares de trabalhadores desempregados, na miséria. A velha aristocracia rural entra em decadência, e a nova burguesia industrial ascende na sociedade. A década de 30 foi palco, também, de profundas transformações intelectuais, em que as primeiras propostas de 22 começavam a ser amadurecidas. Apesar de não ter atingido o rompimento total, a “Semana de Arte Moderna”, em 1922, abriu inúmeras possibilidades criativas e fez com que o Modernismo começasse a ganhar visibilidade. Com isso, as artes foram impulsionadas e a Literatura floresceu. A chamada geração de 22 utilizou-se das ideias de choque e agressão, importantes aos objetivos que movimentavam a sua produção literária e teórica, para trazer uma reordenação reflexiva sobre seu tempo. Buscou ativar a inteligência brasileira pelo escândalo e pelo deslocamento de vozes que, ainda hoje, são responsáveis por aberturas de perspectivas formais (como o que aconteceu na Tropicália, em 70). Como afirma Helena (1983, p. 96), “A Semana foi um reinado-bufão, e significava um veto radical ao conservadorismo artísticosocial e uma relativação de valores. Ela foi uma prática carnavalizante instituída contra o lado doutor de uma sociedade enferma e mergulhada num marasmo cultural petrificante.” . Assim, o rompimento com as soluções parnasianas e românticas fomentou a luta por um língua nacional através da quebra de padrões prévios, herdados de um discurso importado. Há a busca por um novo conceito de texto literário, gerado pelo intercâmbio entre a literatura e as artes primordialmente iconográficas, mostrando que é possível outro dizer que não mais o linear. “A Semana” marca uma nova perspectiva, oriunda de um período pós-guerra, aliada a 16 estímulos culturais europeus que chegam com as imagens da máquina, da relação burguêsproletário, da metrópole convulsa. Pode-se dizer, portant o, que: A ruptura de 22 não foi obra do acaso, mas ponto crítico de um longo processo de diferenciação. A formação do grupo, a necessidade de reuniões amiudadas, a urgência de um manifesto, o happening final, são sintomas todos do crescimento firme de um modo de pensar que se sabe contrastado, mas que já sente no ar a possibilidade de uma definição pública. A partir de Semana, os modernistas são um ponto de vista dentro da história da cultura nacional. (BOSI, 1978, p. 315) Ainda segundo Bosi (1978), havia a emergência do novo, com a virada do primeiro pós-guerra, o que abriu circunstâncias em todos os sistemas culturais que mostravam indicativos de saturação. Dá-se, portanto, de forma aguda em centros mais desenvolvidos, como São Paulo, a oposição província/cidade. Uma ruptura que só foi possível pelo processo social, político, econômico e cultural que fomentava uma “sede de contemporaneidade junto a qual o resto da nação parecia ainda uma província do Parnaso.” (BOSI, 1978, p. 312) Há, nesse período, uma intelectualidade ativa que percebe as transmutações de estilo do período pós-naturalista e passa a incorporar, ao seu fazer literário, a desarticulação da sintaxe, o verso desmanchado e a reinvenção do vocabulário, características de um período de desordem e revolução. Neste contexto criador, aliado às vanguardas oriundas da Europa (as quais serão pontuadas mais adiante), Oswald de Andrade propõe o “Movimento Antropofágico” como uma tentativa de síntese do pensamento modernista. Esse movimento, que nasce sob a égide de um Manifesto (1928), tecia críticas à industrialização incipiente do país, ao mesmo tempo em que buscava explicar e explorar a nacionalidade, a partir de suas raízes primeiras. A antropofagia deve ser considerada uma linguagem literária ou estética de cunho nacionalista. A poética antropofágica de Oswald de Andrade reivindica o estabelecimento de um código literário específico que incorpore as categorias de uma consciência arcaica tipicamente brasileira, surgida numa hipotética Idade de Ouro. Essas categorias, que inspirariam a nova linguagem literária, incluem formas do surreal e do irracional. Os escritores antropofágicos romperiam, assim, com o discurso linear. A nova linguagem devoraria os modelos literários estrangeiros em vez de imitá-los. Além disso, a linguagem antropofágica atacaria os sufocantes códigos sociais, morais e literários, por meio da paródia e do sarcasmo. (GEORGE, 1985, p. 17) É importante pontuar que a noção de antropofagia, como corrente estética, aparece na literatura brasileira em 1928, com o projeto oswaldiano. Entretanto, como atitude estéticocultural vê-se que ela percorre o próprio processo de constituição da literatura, caracterizada pelo encontro de um projeto nativo que se viu oprimido pela cultura do colonizador, que com 17 ele foi, pouco a pouco, dialetizando, até compor os matizados contornos do perfil políticocultural. Essa atitude antropofágica já era vista, segundo Helena (1983), em Gregório de Matos e em Augusto dos Anjos; contudo passa a ser percebida como vertente transgressora da cultura nas obras de Oswald de Andrade. O que se ressalta, independentemente, é a busca por uma autonomia nacional, por um projeto literário genuinamente brasileiro, que se contrapõe à atitude patriarcal colonizadora dominante no percurso histórico da literatura. É uma atitude de caráter muito mais amplo, que se encontra enraizada na cultura do país, marcada pela aceitação cultural estrangeira. A própria dependência cultural brasileira que, assim como em todas as culturas originadas de uma dominação, passa a reproduzir não só modelos, mas também atitudes diante da arte, gerou uma literatura alterada e apoiada na figura do dominador e da inferioridade nacional. Com esse quadro havia, portanto, a urgência de uma arte autônoma, que buscasse refletir sobre as raízes primeiras. A antropofagia configurar-se-ia, portanto, como a contrapartida abrasileirizante da dependência cultural. A devoração da influência e do texto europeu não seria uma adaptação mecânica e comprometedora, mas uma apropriação consciente de táticas sorvidas na própria fonte da dominação, para, municiado de tal conhecimento, poder combatê-la e superá-la. Como se afirma no próprio Manifesto, “Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.” (ANDRADE, 1983, p. 45) Desse modo, o contato com as tendências estéticas provenientes, em sua maioria, da Itália e da França, não leva as obras dos antropófagos (representados, sobretudo, na figura de Oswald e Mário de Andrade) à perda de sua atitude e de seu caráter de brasilidade. Tal contato, diferentemente, confere distanciamento crítico e autonomia importantes para que possam redescobrir e recolocar o Brasil em seu lugar de origem. A busca por novos procedimentos da linguagem, como a incorporação dos processos de reduplicação verbal, de prefixação imprevista trazem a utilização de uma linguagem viva que se coaduna com as propostas do Manifesto (“Tupi, or not tupi that is the question”.). Há uma constante pesquisa que visa transformar a antropofagia em arma de desrepressão contra um discurso conservador herdado, sobretudo, dos parnasianos e do lirismo bem comportado. Por isso, funciona como um gesto de desmascaramento e de deslocamento dos emblemas da cultura oficial para um signo novo, genuíno e brasileiro. Neste movimento, Oswald de Andrade propunha uma nova linguagem literária, rompendo com o discurso linear e agregando formas vanguardistas às novas ideias. A 18 antropofagia, já idealizada no “Manifesto da poesia pau-brasil”, buscava uma revolução artística nacionalista, baseada nas raízes mais primitivas. Contudo, com o “Manifesto Antropofágico” a revolução cultural e social apresentava objetivos mais concretos e permanentes. O voltar às origens seria revelar as verdadeiras bases da cultura e da sociedade, como uma alegoria à resistência e ao subdesenvolvimento de uma sociedade livre de culpas e não reprimida. Diante do panorama de insegurança e de convulsão econômica, política e social, também se mostram anacrônicas as linhas de interpretação da realidade brasileira, embrionariamente questionadas pelo grupo que emergia em 1922, com a Semana de Arte Moderna. Ao bacharelismo, à cultura estagnada, começava-se a contrapor uma poesia Pau-Brasil, valorizadora de uma atividade nacional consciente e crítica, determinando uma volta ao passado, em perspectiva estético-cultural, numa busca das nossas verdadeiras raízes, promovendo um balanço e um questionamento do período colonial e da literatura comprometida com os padrões de ideário estético europeu. Dá-se adeus ao índio de tocheiro, ao brasileiro exótico, às próprias elites nacionais e tenta-se palmilhar, num localismo frutífero, uma nova geografia cultural que desse conta das raízes brasileiras e as redescobrisse. (HELENA 1983, p. 109) Alicerçada nessa liberdade inovadora, ideal estético do Modernismo, a peça “O Rei da Vela” seria a primeira aplicação da antropofagia à linguagem teatral. Razão pela qual ela “é a mais política das obras antropofágicas. Seu emprego da metáfora como arma de ataque contra as classes que se beneficiam com a dependência constitui um poderoso elemento de conscientização” (GEORGE, 1985, p. 33). Considera-se, assim, que a peça em estudo é, além de um marco na escrita teatral do Brasil, um marco também na luta de classes – propagada em meados de 30 no Brasil – e na consolidação de uma literatura brasileira. Seria uma espécie de manifesto ao povo, a fim de propor uma reflexão e, por conseguinte, uma atitude de mudança. O autor concebe “O Rei da Vela” fundindo consciência política e vanguarda, desvencilhando-se da forma clássica e unilateral de concepção teatral. A peça traz, em três atos satíricos, inovações sensíveis no quadro da dramaturgia brasileira que, até aquele momento, estava voltada para uma captação realista naturalista dos problemas sociais. A cena brasileira, nesse período, era marcada por algumas montagens internacionais, em sua maioria, italianas e francesas, gerando uma espécie de lacuna na produção local. As peças aqui produzidas reduziam-se, em grande parte, aos mesmos temas, por isso que “[...] os conhecedores da dramaturgia brasileira da década de 30 não podem entender como Oswald de Andrade escreveu O Rei da Vela. A peça está fora de todos os padrões praticados entre nós [...]” (MAGALDI, 1976, p. IV). Com a início do século XX, o teatro brasileiro viveu um período de incerteza e dúvida quanto à sua natureza. Com o início da Primeira Grande Guerra, as peças européias reduziram suas montagens e o país vivenciou um período lacunar, tentando, pouco a pouco, preenchê-lo 19 com obras nacionais. Coelho Neto (1864-1934), por exemplo, ao observar esse fato, iniciouse no teatro sem muito êxito, já que suas peças pecavam pelo preciosismo vocabular e grandiloquente, além de serem descontextualizadas da realidade brasileira, ambientado-se em castelos escoceses, por exemplo. Após essa tentativa de teatro nacional, figurou, nos palcos cariocas, Paulo Barreto, que atendia pelo pseudônimo de João do Rio (1881-1921). Ele estréia trazendo peças, como “Eva”, “Que Pena Ser só Ladrão” e “Um Chá das Cinco”, todas repletas de ambientes decadentes, de frases de efeito e de paradoxos que traziam para o teatro um vigor intimista que lhe assegurava um lugar de destaque na história, apesar do pouco reconhecimento no período. Além de João do Rio, outros tentaram renovar a cena brasileira, como Cláudio de Souza e Armando Gonzaga. Contudo, essas tentativas não obtiveram sucesso, já que os autores ainda se prendiam a temas estrangeiros, sem redefinir o caráter nacional de se fazer teatro. Alguns casos, como Renato Viana (1894-1953) – que contribuiu com experiências iniciais de vanguarda no teatro nacional, indo de encontro ao atraso da época –, propuseram renovações que vinham temperadas com as ideias vanguardistas vindas da Europa. Esse autor, juntamente com outros intelectuais da época, fundou, em 1922, a chamada “Batalha da Quimera” que era um “grupo que pretendia apresentar um teatro de síntese, em que luz e som fossem aplicados como valores dramáticos, explorando a importância dos silêncios, dos planos cênicos e da direção” (CACCIAGLIA, 1986, p. 102). Além dessas iniciativas surge, em 1927, o Teatro de Brinquedos, de Álvaro Moreyra, trazendo uma proposta teatral mais voltada para a popularização da arte. Sua renovação deuse, sobretudo, pela linguagem, que já começava a vislumbrar réplicas curtas e telegráficas. O teatro assim era chamado porque os cenários simulavam caixas de brinquedos. “A intenção de Álvaro Moreyra era tornar o teatro uma arte popular, que fizesse sorrir e ao mesmo tempo pensar, e que no último ato abrisse um mundo de reflexões [...]” (CACCIAGLIA, 1986, p. 100) É pertinente ressaltar que, fora estes casos excepcionais, o teatro brasileiro atravessava um período complicado, com uma dramaturgia que se voltava insistentemente aos temas europeus, mesclando comédias de costumes com valores não tão nacionais; a “cultura” de deleite, produzida sob encomenda para uma platéia extasiada de riso e sem reflexão, permanecia forte e parecia não querer “sucumbir” aos encantos desse teatro mais crítico e reflexivo que despontava nos meandros modernistas. 20 Para D‟Onofrio (2000), que coloca Oswald de Andrade ao lado de Becket, Ionesco e Arrabal, na constituição do que viria a se chamar teatro do absurdo, as idiossincrasias do momento isolado na produção teatral identificada em Oswald, consolidam-se pela liberdade estética não só de construção da obra, mas, sobretudo, em relação aos recursos da linguagem utilizados. A função desses dramaturgos (trata-se do teatro do absurdo), sem pertencerem propriamente a uma escola ou a um movimento artístico, é de representar no palco o absurdo da existência humana, seus conflitos indissolúveis. Eles têm em comum a consciência da crise dos valores tradicionais, que atinge até a linguagem, incapaz de expressar a angústia do homem contemporâneo [...] É o teatro que quer superar o estágio do diálogo tradicional, recorrendo a outros meios de expressão. (D‟ONOFRIO, 2000, p. 487) De forma resumida, a peça gira em torno de dois eixos temáticos básicos: o desmascaramento do nacionalismo econômico brasileiro dos anos 30, no qual o casamento entre Abelardo I e Heloísa, com ideais apenas econômicos, é o retrato máximo; e a relação entre as lutas de classes, com a demarcação clara da supremacia capitalista e exploradora do estrangeiro. A partir disso, é possível verificar que a estrutura da peça relaciona-se com acontecimentos históricos da época, em São Paulo e no Rio de Janeiro, como a crise do café e o processo de industrialização e “apresenta um panorama caleidoscópico da sociedade e das relações de classe brasileiras num período de transformações abruptas” (GEROGE, 1985, p. 35) Idealizada a partir de três atos satíricos, a peça não possui, por assim dizer, um personagem central; contudo, a presença de Abelardo I se mostra como eixo. A organização se dá através dos atos que são expostos em torno do seu cotidiano, sendo o primeiro ato reservado para mostrar como Abelardo I opera a sua vida e os seus serviços, o segundo para mostrar como seria a diversão para este personagem e, por fim, o terceiro, para revelar o drama da morte para ele que sucumbe, vítima da própria sociedade que ajudou a erguer. A “primeira” peça de Oswald de Andrade (ele já havia se lançado sem sucesso no teatro com Guilherme de Almeida anos antes, mas a peça só foi publicada posteriormente), apesar de estar alicerçada na total liberdade estética e no rompimento com os padrões conhecidos, não ostenta o título de iniciadora do teatro moderno brasileiro pelo fato de não ter sido montada em sua época. Este título ficou para “Vestido de Noiva”, de Nelson Rodrigues, encenada em 1943. Contudo, muitos teóricos, como Sábato Magaldi, pontuam que a mentalidade do período aliada à própria censura do governo não permitiriam essa encenação, nem mesmo a entenderiam, por isso ela ficou reservada para 1967, com José Celso Martinez e o Teatro Oficina. 21 “O Rei da Vela” é um exemplo inaugural do teatro moderno. A partir da análise da sociedade, o autor consegue desmistificá-la através da paródia e do blague, mostrando ao público uma realidade conhecida, mas escondida. Como bem pontuou José Celso Martinez, essa peça deve ter se fincado na premissa do “Esculhambo, logo existo”. De forma inovadora, o autor insere o público na peça a fim de mantê-lo atento e pensante, sem cair no ilusionismo, quebrando todos os paradigmas cênicos conhecidos e construindo uma teatralidade que, até hoje, é considerada atual e inovadora. Pode-se considerar a peça como um desfile de tipos: Abelardo I, o eixo da trama, representa o industrial incipiente de um país subdesenvolvido e dá nome à peça; seu comércio simboliza a fé cega de um país feudal que não enterra seus entes sem um exemplar de vela por entre os dedos. Além disso, ele representa um agiota que sobrevive à custa dos juros alheios e se vale das “leis”, que protegem o capital. Alegoricamente, Oswald premiou este personagem com o mesmo nome de um famoso amante do século XVII, que na peça se encarrega de fazer a paródia do amor perfeito com Heloisa de Lesbos. Em realidade, a escolha pela paródia pode ser considerada como uma inauguração da verve irônica da peça, que intenta revelar o amordinheiro, o amor-interesse, o amor lucro realidade do capitalismo. Em Abelardo e Heloisa, medievais, vê-se a impossibilidade de o amor se construir, em razão das barreiras sociais e culturais da época. Abelardo, professor, mais velho, apaixona-se pela tutoriada Heloisa, filha de um influente clérigo. Da impossibilidade do amor surgem as tragédias da morte de Abelardo e da condenação de Heloisa ao claustro. No caso oswaldiano, vê-se que as barreiras passam a não existir, pois o valor do dinheiro revela-se mais forte e vencedor. Mesmo de classes sociais distintas, como o Abelardo e a Heloisa iniciais, aqueles vêem na união interesseira a possibilidade do lucro: para ele, burguês ascendente, há uma posição aristocrática em jogo; para ela, o retorno à sua condição de rica. Abelardo I pode ser considerado um anti-herói, simbolizando a burguesia ascendente que encontra no matrimônio com uma aristocrata falida o status quo e a tradição que o dinheiro não compra. Através das falas de Abelardo I, evidencia-se que ele detém o dinheiro, mas não o nome necessário para ser de fato aceito em uma sociedade como a do início do século (“Para nós, homens adiantados que só conhecemos uma coisa fria, o valor do dinheiro, comprar estes restos de brasão ainda é negócio, faz vista num país medieval como o nosso o senhor sabe que São Paulo só tem dez famílias?” (ANDRADE, 2004, p. 44) Para contracenar com Abelardo I, um Abelardo II. Esse personagem, de mesmo nome, desempenha um importante papel na peça, pois é a partir dele que Abelardo, o I, irá sucumbir 22 e morrer. A escolha do nome é sugestiva: na engrenagem capitalista o dinheiro passa de uma mão para outra igual, do nome para o mesmo nome, “o dinheiro de Abelardo. O que troca de mão individual, mas não sai da classe [...]” (ANDRADE, 2004, p. 100). Ou seja, ambos são meros objetos que constituem o sistema, sem identidade e sem personalidade, a serviço da roda viva que é o capitalismo. “Somos uma barricada de Abelardos! Um cai o outro substitui, enquanto houver imperialismo e diferenças de classes.” (ANDRADE, 2004, p. 103) Oswald de Andrade constrói seus quadros e pinta seus personagens sem demarcar-lhes minuciosamente o perfil psicológico, de fato ele abandona esta caracterização romântica construindo suas identidades através de seus próprios atos. A partir da justaposição, as cenas e as atitudes se justificam por si mesmas, gerando um efeito cumulativo que define, aos poucos, a personalidade de seus personagens. Outra personagem importante para a trama é a noiva de Abelardo I, Heloísa de Lesbos. O nome e a caracterização da moça levam a crer que o autor quis demarcar-lhe tendências homossexuais; contudo, em nenhuma parte isso fica explícito. Heloísa é filha do Coronel Belarmino, aristocrata falido pela crise do café e que vê, na mistura de classes, que é o casamento da filha, uma saída para a família inteira. O casamento entre eles seria uma metáfora da união entre essas classes sociais, entre o nome e o dinheiro; uma salvação para a aristocracia frente às crises que a abalaram. A família de Heloísa é caracterizada por inúmeros vícios e taras: Totó fruta-do-conde, Joana ou João dos Divãs, irmã de Heloisa; Perdigoto, outro irmão de Heloisa, beberrão e jogador, que pretende organizar uma milícia aramada dos latifundiários; D. Cesarina, mãe de Heloisa que flerta com Abelardo I; D. Poloquinha, personagem símbolo da resistência latifundiária, que não admite a união da sua honrada família a um alpinista social e que, às escondidas, flerta também com Abelardo I. Através desses personagens, o autor mostra a sordidez escondida por “detrás dos panos” da aristocracia, e como a aparência e o nome repercutem, nessa sociedade que esconde suas fraquezas a todo custo. Nesse variado quadro de personagens, o autor ainda se valeu da figura do escritor Pinote (alguns teóricos, como Sábato Magaldi, acreditam ser este uma caricatura do escritor Menotti Del Picchia). Esse personagem serviu para que fosse exposta a situação do intelectual brasileiro que, para se manter, precisa se subjugar aos detentores do dinheiro, (“Imagina se vocês que escrevem fossem independentes! Seria o dilúvio! A subversão total! O dinheiro só é útil nas mãos dos que não têm talento. Vocês escritores, artistas, precisam ser mantidos pela sociedade na mais dura e permanente miséria! Para servirem como bons lacaios, obedientes e 23 prestimosos. É a vossa função social” (ANDRADE, 2004, p. 58) sentencia Abelardo I a Pinote. Para completar este quadro de personagens símbolos da sociedade da época, Oswald de Andrade ainda se vale do norte-americano Mr. Jones, que é demarcado na peça como sendo o detentor de todo o falso poder atribuído a Abelardo I. O americano é visto como o patrão e o dono de um país arrasado e vendido pelas dívidas, (“Também já hipotecamos tudo ao estrangeiro, até a paisagem! Era o país mais lindo do mundo. Não tem agora uma nuvem desonerada [...] Não se esqueça que estamos num país semicolonial. Que depende do capital estrangeiro”) (ANDRADE, 2004, p.109). Esta figura, que permanece in off durante toda a peça, aparece ao final para proferir a sentença, “Oh! Good business!” (ANDRADE, 2004, p.109) diante do casamento-negócio entre Heloisa e Abelardo, o II. É interessante ressaltar que a identificação dos caracteres desses personagens não se dá de forma explícita. Oswald repudiava qualquer psicologismo, além de ser avesso às teorias realistas. Ao longo da peça isto fica claro pelas rubricas e pelos diálogos entre elas, já que “As cenas se justificam por si mesmas e não estão umas em função das outras. Pela justaposição de quadros aparentemente soltos Oswald consegue um efeito cumulativo que define aos poucos as personalidades” (MAGALDI, 2004, p. 25) São inúmeras as inovações que a peça trouxe para a escrita do teatro nacional, talvez, ousa-se dizer, até hoje insuperáveis. Talvez um dos pontos importantes, que também será visto em outras peças do autor, seja a utilização da técnica do “distanciamento” ou “estranhamento”, proposto por Piscator, ou mais profundamente por Pirandello em sua teoria “do teatro dentro o teatro”, e por Brecht, em 1928. Nessa técnica, há a quebra quase que total do ilusionismo cênico, ou seja, o ator se dirige ao público a fim de quebrar a ilusão, como pontua Abelardo I “[...] esta cena basta para nos identificar perante o público. Não preciso mais falar [...]” (ANDARDE, 2004, p. 43) mostrando à platéia que ela é parte do espetáculo e que, portanto, participa das ações, de forma a mantê-la sempre lúcida, acordada, pensante e crítica. Magaldi (2004) aponta para o fato de que Oswald possuía uma imensa intuição para os processos antiilusionistas, e que talvez ele só tivesse ouvido falar dos precursores, a exemplo de Brecht, que até então eram pouco conhecidos na França, e, consequentemente, no Brasil. Oswald busca desmistificar inúmeros pontos em sua obra. Sua paródia e sua crítica se mostram na desconstrução do amor romântico, símbolo da cena brasileira, onde o mocinho e a mocinha, inevitavelmente, acabam bem no final; no retrato de uma família aristocrata decadente que vê no casamento uma troca mercadológica, um negócio baseado no “eu lhe dou 24 meu nome e você me dá seu dinheiro”, pintado sob o prisma da degeneração sexual; no intelectual vendido que troca a sua pseudo-arte por uns tostões e pela proteção dos poderosos. A primeira grande virtude de “O Rei da Vela” é expor a sociedade da época a seus próprios defeitos. Como destaca Sábato Magaldi (2004): “O Rei da Vela representa a análise furiosa feita por Oswald da realidade brasileira e das classes dominantes a que pertencia por origem”. Ele desmascara o oportunismo e os procedimentos burgueses, sem esquecer que estes haviam sido seus também. Através de uma linguagem crua, sem hipocrisia ou convenção social, os personagens expressam-se em liberdade, como se não houvesse nenhum tipo de camada repressora. Em toda a peça, os exploradores são cientes da exploração, e por isso a fazem abertamente. Os atos da peça são situados em três cenários diferentes. O primeiro ato, que mostra a caracterização de Abelardo I e do seu “trabalho”, é encenado no escritório de usura dele, onde são enumeradas relações que movem a sociedade burguesa. Lá também é possível observar objetos que marcam a situação, como por exemplo: a jaula onde estão presos os devedores, o ajudante Abelardo II vestido como domador de feras, um divã futurista e diversos prontuários contendo rótulos de definição, como, suicídios, tangas, penhoras, malandros e outros. O segundo ato, onde é possível observar a diversão dos personagens, passa-se em uma ilha particular de Abelardo I, na Baía de Guanabara. Essa ilha é caracterizada com diversos adjetivos fálicos, a fim de mostrar a degeneração da família de Heloisa, que se encontra reunida à espera do americano. Já no terceiro ato da peça, vê-se a agonia da morte de toda uma sociedade, ou seja, aqueles que a construíram passam agora a ser destruídos por ela mesma. A roda viva do capitalismo, tão amada por Abelardo I, será a mesma que esmagará sua realidade. É nesse momento que o “cadáver gangrenado”1 vem à tona para refletir e sucumbir aos encantos de uma nova sociedade, que se erguia dos escombros burgueses. Saber de onde Oswald retirou tanta originalidade é algo ainda muito discutido. O seu filho, Nonê, em entrevista, afirmou que o pai construía suas imagens através de observações dos diversos locais por onde esteve, mostrando certo teor auto biográfico em suas peças. Além dessas experiências de vida, o autor também se valia de suas leituras, como por exemplo, “Ubu Rei” de Alfred Jarry, escrita em 1896. Essa obra já mostrava indícios de um experimentalismo, que só possível observar na contemporaneidade, junto com as vanguardas. “Espanta observar que Oswald, em 1933, tivesse tamanha consciência de vanguarda, a partir do vínculo intertextual com Ubu rei de Jarry [...]” (MAGALDI, 2004, p. 66) 1 Expressão utilizada por Oswald de Andrade em O Rei da Vela para caracterizar o Brasil. É uma tentativa de, metaforicamente, sintetizar o estágio de atraso do Brasil. 25 As vanguardas são outra fonte de inspiração e reflexão para o autor; a montagem dos cenários e dos figurinos, segundo as rubricas, parece sair de um quadro expressionista; os diálogos, repletos de recursos telegráficos, rápidos e sintéticos “aparecem com frequência nas sínteses futuristas italianas, possível modelo para Oswald” (MAGALDI, 2004, p. 83). Foi a obra teatral de Oswald de Andrade que refletiu com maior impacto as transformações de sua personalidade artística e sua capacidade de experimentação, exprimindo com vitalidade o compromisso que estabelecia com o mundo e com a sociedade em que vivia. No quadro que segue, será explorado, com mais intensidade, o quadro de influências das vanguardas a fim de construir as condições de emergência e de produção da obra de forma mais rica. 2.1 AS VANGUARDAS EUROPÉIAS E O QUADRO DE INFLUÊNCIAS DA PEÇA Como já pontuado, o início do século XX, no mundo, é marcado por profundas mudanças de ordem política, social e econômica. A 1ª Grande Guerra, a Revolução Russa e a 2ª Grande Guerra, dentre outros momentos, marcam profundamente a estrutura mundial, instalando incerteza e revolução, deflagrando uma nova forma de pensar e agir. Diante desses processos mundiais, o Brasil sofre influências que culminam na 1ª Greve Geral de São Paulo e na formação de núcleos anarquistas que, impactados pela Revolução socialista e pela 1ª Guerra, iniciam movimentos nunca antes presenciados no país. A cidade de São Paulo integra-se à vida moderna, “e adentra no século XX não mais como „capital dos fazendeiros‟, mas como um núcleo transformado pelos efeitos da industrialização” (FABRIS, 1994, p. 24). Confrontando tantas mudanças, era natural que o sentimento de dúvida penetrasse, de todas as formas, nos espíritos e gerasse inquietações em todos os aspectos. A arte, como parte constituinte das sociedades, exerceu seu papel de deflagradora dessas inquietações, transpostas para um momento denominado “vanguarda”. As vanguardas surgem na Europa como uma tentativa de renovação dos valores estéticos passados, pois a partir do desenvolvimento cientifico e tecnológico, provados no início do século, surgem novos ideais filosóficos e sociológicos, que questionam os valores passadistas. Essas novas tendências, que procuram “ordenar” o futuro, darão origem a uma pluralidade de investigações nas artes. “Os pioneiros da vanguarda postularam uma estética 26 revolucionária sob o signo da ruptura e da emancipação ligada ao mesmo tempo aos mais altos valores sociais utópicos e à esperança”. (SUBIRATS, 1991, p. 25). Diante do turbilhão da vida moderna, as vanguardas refletem as sociedades e a instabilidade em se viver nos grandes centros. Muitas discussões sobre os valores passados e a vida moderna permeiam esse momento, que também se preocupa em traçar os rumos do novo nacionalismo e da nova arte. Surge uma arte de choque, de ruptura, ávida por mudanças, que encontra berço nas mais diversas expressões e correntes: “Futurismo” (1909), “Expressionismo” (1910), “Cubismo” (1913), “Dadaísmo” (1916), “Espiritonovismo” (1918) e “Surrealismo” (1924), dentre outras, mostram a desorganização do universo artístico da época, ao mesmo tempo em que lutam pela destruição do passado, no afã de se construir algo novo. Das influências diretas e arquivadas na obra teatral de Oswald de Andrade, destacam-se o Futurismo, o Cubofuturismo e o Expressionismo com mais força. O Futurismo, tendo à frente Fillipo Tommaso Marinetti (1876-1944), caracteriza-se por ser uma corrente de forte teor de ruptura. Seus conceitos de renovação artística e literária estão apresentados no “Manifesto do Futurismo” (Paris, 20 fev. 1909) e no “Manifesto técnico da Literatura Futurista” em que o autor enfatiza a quebra total com os valores tradicionais, de uma forma heróica e dinâmica, para se erguer sob os escombros do passado uma arte genuinamente nova e livre de influências. Essa vanguarda enfatiza o culto à máquina, que nesse momento já era parte constituinte da vida cotidiana, e a quebra da sintaxe, propondo liberdade às palavras. Como pontua Helena (1996, p. 17), o Futurismo pretendia “Ser uma nova forma de arte e ação, uma lei de higiene mental, um movimento que pretende ser antitradicional, renovador, otimista, heróico, dinâmico e que se ergue sobre as ruínas do passadismo.” Por ser uma das primeiras vanguardas de ruptura real dos padrões, o Futurismo foi alvo de muitas críticas, contudo, é inegável seu valor para consolidação de uma nova forma de arte. Os modernistas, sobretudo os da primeira fase ou fase heróica, são o exemplo claro desta afirmação, já que o Futurismo exerceu uma influência de ordem técnica: na valorização do versilibrismo, da imaginação sem fios e das palavras em liberdade. Apesar da publicação do Manifesto Futurista ter chegado ao Brasil simultaneamente à publicação francesa, ele só alcançou certa projeção e conhecimento público em 1912, quando Oswald de Andrade retorna de sua viagem à Europa com um exemplar, literalmente, embaixo do braço. Oswald não só tomou conhecimento desse manifesto como também se utilizou dos conceitos para a construção de suas obras e dos seus manifestos. 27 Outro fato interessante merece destaque: no Manifesto de 1924, Marinetti cita os principais futuristas do mundo e os que mais contribuíram para a propagação das ideias e, quando se refere à América do Sul, faz alusão a um certo Prado e a um D‟Andrade, que não há precisão de quem se trata, mas que os estudiosos sustentam como sendo Oswald. A influência dessa vanguarda foi sentida em vários momentos do modernismo, sobretudo, quando se propôs o direito de pesquisa constante e a mudança de atitude cultural e crítica. Isso significou um grande avanço para um país, que insistia em recorrer aos valores passados, não valorizando o presente que se instalava de forma tão radical. Acerca do Cubofuturismo (ou futurismo russo) é interessante analisar que sua ascensão estava diretamente ligada à perda do prestígio do Simbolismo em toda a Europa, em fins do século XIX, já que as ideias deste último estavam vinculadas ao misticismo, à abstração e ao artificialismo. Em oposição definitiva a esse movimento, surge um grupo de poetas russos, dentre os quais Burliuk, Kruchenik, Khlebnikov e Maiákovski, que começa a articular as propostas do cubismo francês às propostas do futurismo italiano, formando um novo ideário. Em 1912, o grupo assina a autoria do polêmico manifesto “Bofetada ao gosto do público”, tornando públicas as ideias do Cubofuturismo. Nesse importante documento, ficou expresso todo o repúdio à literatura mística e moralizante do século XIX, e a exaltação da palavra pura através de uma linguagem transracional, que seria a observação da palavra como personagem e motivo em todo o seu aspecto sonoro. Dentre as inúmeras considerações e propostas do cubofuturismo, talvez a mais importante seja a valorização do teatro como forma de literatura mais acessível às massas. Maiákovski será o responsável em externar este preceito. O seu teatro, sobretudo o “Mistério Bufo”, revestia-se de uma forte carga de reflexão, fazendo com que a ideia de “teatro deleite” sucumbisse à crítica reflexiva que revestia suas peças e forçava o público a pensar. É inevitável mencionar que o teatro posterior a ele, e até mesmo o atual, são tributários diretos desse avanço significativo da arte. Não é inverossímil afirmar que o teatro engajado politicamente tenha vindo junto a essa vanguarda e ao futurismo italiano, já que é nessa época que ele se torna veículo de propagação dos ideais revolucionários, instalando uma nova forma de ver a arte. Com a sua impaciência teórica, com a sua particular avidez do novo e da novidade, ele (Oswald) foi, dos nossos modernistas aquele que mais intimamente comungou do espírito inquieto das vanguardas européias. Deste ponto de vista, que interessa à história literária, Oswald trouxe, para o nosso Modernismo, então em andamento, uma experiência por participação – de todo diferente da experiência de Mário de Andrade – no clima de atrito e desafio, na atmosfera de rebeldia e renovação. 28 Ninguém mais que Oswald acentuou, e às vezes até exageradamente, as íntimas relações entre a atividade do grupo de 22 e as correntes renovadoras da época. (NUNES, 1979, p. 62) Analisando as influências sofridas por Oswald de Andrade, na produção das suas peças (O Rei da vela, A morta, O homem e o cavalo), Lúcia Helena (1985) traça uma construção de referências, que agora será transformada em quadro. Lembra-se que a citada autora não se detém em nenhuma peça especificamente, mas traça um panorama geral que pode ser considerado caracterizador do teatro oswaldiano. Dessa forma, tentar-se-á aliar as influências elencadas por tal autora à obra “O Rei da vela”2, objeto desta análise. INFLUÊNCIAS CARACTERÍSTICAS Teatro futurista Nova concepção do espaço cênico e contestação do teatro burguês Teatro expressionista Personagem estereotipado Teatro dadaísta Espetáculo provocação COMO PODE SER PERCEBIDO NA PEÇA O REI DA VELA O primeiro ato é ambientado em um escritório de usura em que coexistem um divã futurista, um retrato da Gioconda, uma secretária Luis XV e a personagem Abelardo II (alter-ego de Abelardo I) em trajes completos de domador de circo. Tais referências podem ser consideradas alegóricas ao suscitarem estranheza ao público que dirige seu foco para as inúmeras incongruências transparecidas. Além disso, observamos, em vários momentos, o tom panfletário assumido por Oswald de Andrade contra o teatro burguês praticado na época e considerado por ele como “lacaio” (p.58), como revela o trecho “uma literatura bestificante. Iludindo as coitadinhas sobre a vida. Transferindo as soluções da existência para as soluções „no livro‟ ou „no teatro‟.” (p.57) Para revelar as características da sociedade burguesa e de suas relações pessoais, Oswald atribui a alguns personagens traços de desvios sexuais que, juntos, formam uma miscelânea de tipos “que se compreendem e relevam em uma velha família” (p.43). Assim, Heloísa (a noiva de Abelardo) recebe o sobrenome “Lesbos”, a irmã mais nova é conhecida por João dos Divãs e o outro irmão como Totó Fruta-do-conde, em clara referência às posições sexuais assumidas. Além disso, a velha tia é conhecida por D. Poloca numa referência óbvia às prostitutas estrangeiras chamadas de polacas. A única fala atribuída a Mr. Jones se dá na morte de Abelardo I e na assunção de Abelardo II ao posto antes ocupado pelo patrão. Nessa troca de papéis, reveladora do continuísmo a que estava submetida toda uma conjuntura social, Mr Jones reserva-se a dizer: “Oh, good business!” (p.109). Este trecho pode ser encarado como um vértice da provocação oswaldiana ao passo que escancara a engrenagem de subjugamento e dependência que nos liga ao capital estrangeiro. Como um toque final, Oswald traz à tona a essência de O Rei da Vela: o continuísmo paralisante, fruto de alianças e jogos de interesses. “Somos uma barricada de Abelardos! Um cai, outro o substitui, enquanto houver imperialismo e diferença de classes...” (p.103) Continua 2 Todos os trechos e referências à obra O Rei da vela foram retirados de: ANDRADE, Oswald. O Rei da vela. São Paulo: Globo, 2004. 29 Continuação do quadro 1 Teatro surrealista Liberação da linguagem Maiákovski Revolução cênica e intervenção do público Piscator Teatro proletário O arsenal de recursos da linguagem de que dispõe Oswald vão desde o uso da ironia e da paródia, passando pela alusão e pela intertextualidade, até a construção de personagens circenses e farsescos, o que mostra uma rica exploração e extrapolação dos dispositivos da própria escrita. “Mas esta cena basta para nos identificar perante o público.” (p.43), “Sou o primeiro socialista que aparece no Teatro Brasileiro.” (p.50), “Vou atear fogo às vestes (longa hesitação. Oferece o revólver ao Ponto e fala com ele) Por favor, seu Cirineu... vê se afasta de mim esse fósforo.” (p.99) são alguns exemplos de como o conceito de encenação foi revisto por Oswald ao quebrar o ilusionismo comum aos espetáculos. Ao colocar o diálogo com o público, há a quebra do pacto mágico entre público e atores, enriquecendo a composição teatral com novos recursos até mesmo narrativos. Assumidamente, Oswald faz de seu teatro um libelo em favor do Socialismo. Toda a peça analisada traz esse tom através das revelações que faz acerca das relações que são estabelecidas entre as personagens, dos costumes e da nítida falência do sistema capitalista (sobretudo internacional, representado na figura de Mr. Jones) que mantém sob seu jugo poderosos (Abelardo I) e trabalhadores, mas que irá sucumbir frente ao proletariado, como revela o trecho “Será a revolução social...os que dormem nas soleiras das portas se levantarão e virão aqui.” (p.105) Quadro 1: Influências sofridas por Oswald de Andrade. Fonte: Elaboração da autora a partir de Helena, 1985. Percebe-se que a “a concepção tradicional do teatro é derrubada.” (HELENA, 1985, p.109) e dá lugar a um texto repleto de experimentação. Apesar de o texto dramático não receber grande foco durante o florescer das ideias modernistas, Oswald de Andrade encarregou-se de preencher tal lacuna atrelando as vanguardas européias e as novas concepções de teatro existentes a uma construção do teatro nacional. Nesta amálgama da problemática social brasileira municiada por experimentos vanguardistas, o teatro de Oswald veio revolucionar o painel da dramaturgia brasileira, estagnada numa linha ora melodramática herdeira dos dramalhões românticos, ora naturalista e voltada à patologia social [...] Vê-se o quanto vai se distinguir a produção oswaldiana do que encontra em derredor, o seu contexto mais próximo, antecipando nossa modernidade cênica. (HELENA, 1985, p.113) Dessa forma, a construção da identidade cênica oswaldiana vai se delineando na confluência das inúmeras perspectivas artísticas que, de certo modo, chegaram até ele Assim contornam-se as características chaves da peça “O Rei da vela” e das outras produções cênicas de Oswald: um desejo de apresentar não só os questionamentos das relações interhumanas, mas também de trazer à tona os determinantes sociais dessas relações, a fim de, com propósitos muitas vezes didáticos, revelar ao público a necessidade de refletir e, por conseguinte, mudar a realidade social que o cerca. 30 Contudo, é necessário lembrar que, apesar de as vanguardas instalarem um contexto criativo na produção cultural da época, o Brasil parecia não estar completamente preparado para as rupturas estéticas provenientes da Europa, de forma que a publicação efetiva da peça revelará profundas resistências, como será mostrado no tópico seguinte. 2.2 SOBRE A RECEPÇÃO E A ENCENAÇÃO DA PEÇA Apesar de passados 70 anos da publicação, a peça “O Rei da vela” ainda insufla discussões, no meio acadêmico, sobre aspectos de sua produção, recepção e encenação. Mesmo não sendo o foco do trabalho neste momento, julga-se importante entender, dentre outros aspectos, os mecanismos que fizeram com que o texto não fosse encenado no momento de sua publicação (1937) e ficasse à espera dos palcos por 30 anos, já que só fora montado em 1968, pelo Grupo Oficina. Parece que há um contraste entre o silêncio gerado à época da publicação da peça e a repercussão fruto da encenação, ocorrida em São Paulo anos depois. A primeira situação pode ser facilmente explicada pela própria conjuntura política do período em que o texto veio à tona, já que trazia críticas cáusticas à forma de composição da sociedade. Como pontua Pereira (1995, p.170), “À primeira vista, o que impediu o texto de Oswald de Andrade de se transformar no primeiro espetáculo reconhecidamente moderno no teatro brasileiro foi a abrangência e o tom com que fazia a crítica política.” Além disso, o campo intelectual brasileiro, as tradições teatrais a que estavam submetidos e os padrões de gostos ligados, sobretudo, às montagens estrangeiras, agravaram a dificuldade de aceitação da peça. De acordo, ainda, com o teórico citado (PEREIRA, 1995, p. 170), A publicação de O Rei da Vela ocorreu no mesmo ano da decretação do Estado Novo, o que tornava quase certa a censura pelos mecanismos implantados oficialmente, caso a peça fosse encenada, e dificultava até mesmo a boa acolhida da crítica especializada ao texto da peça. No entanto, além disso, tornava-se improvável uma recepção favorável ao texto pela intelectualidade, porque já se delineara a adesão clara ou velada de um contingente expressivo de produtores de cultura ao projeto modernizador autoritário que se estava delineando como ideologia oficial desde a Revolução de 30. Oswald de Andrade seria encarado, sem dúvida, como uma voz discordante do regime. Uma voz que obviamente não poderia ser divulgada por um canal de tanto poder de penetração como detinha o teatro, naquela época, na capital do país. Havia certa naturalidade, entre os escritores de teatro da época, em publicar as peças ou no idioma francês ou com temas que se ligassem à Europa. Salvo alguns exemplos como “Adão, Eva e outros membros da família”, de Álvaro Moreyra, escrita em 1925, que se 31 propunha a fazer uma incipiente crítica aos padrões e costumes da época. As demais peças restringiam-se a temas menos polêmicos. Como agravante da repulsa à peça oswaldiana, percebe-se, entre os modernistas participantes da Semana de 22, uma espécie de ojeriza ao texto dramático. Tal situação lançou os olhos da crítica à prosa e à poesia, negligenciando as poucas peças imbuídas com o espírito de 22, como “O Rei da Vela”. Desse modo, a acolhida ao texto se pautava em um processo de silenciamento da voz, que se levantava aos brados em uma platéia catatônica pelos processos de exploração, dos quais, em certa medida, era vítima. Essa voz dissonante foi relegada a um plano secundário e a peça encontrou os palcos trinta e um anos após sua publicação, através do Grupo Oficina, liderado por José Celso Martinez. Neste sentido, Sábato Magaldi (2004, p. 170) revela que “O teatro de Oswald estava adiantado, em relação ao estágio que atravessava o palco brasileiro. “O Rei da Vela” assustava a pacata ideologia vigente e outros textos que fugiam às possibilidades práticas das companhias. Daí a sua rica solidão em uma época sem grandes peças nacionais.” Somente em 1968, “O Rei da Vela” mereceu uma montagem digna, pelo grupo de teatro Oficina, liderado por José Celso Martinez Corrêa. Em “O rei da vela: manifesto do Oficina” (2004), o diretor da companhia afirma que “O Oficina procurava um texto para inauguração de sua nova casa de espetáculos que ao mesmo tempo inaugurasse a comunicação ao público de toda uma nova visão do teatro e da realidade brasileira [...] E o „aqui e agora‟ foi encontrado em 1933 n‟O Rei da Vela de Oswald de Andrade” (p. 21). “O Rei da Vela” ficou sendo, para o Oficina, a síntese inimaginável da realidade brasileira que, imersa em monotonia e em falta de criatividade, desmorona o país semicolonial; as concepções teatrais de Oswald estavam em sintonia com as do grupo, que levou, até as últimas consequências, a montagem ousada, permitindo que obra ressurgisse ainda forte e contundente. Como a peça, apresentava-se, de modo, até certo ponto esquemático, uma análise dos mecanismos de exploração econômica no Brasil, elaborando através do texto dramático, um modelo das relações sociais que garantiram a manutenção do país sob a tutela e o poder decisório dos grandes centros metropolitanos. (PEREIRA, 1995, p.166) Não foi difícil para o Grupo Oficina, ao ler a peça, encontrar consonância ao período histórico que atravessavam. A metáfora antropofágica é revivida em 1967 com a montagem de O Rei da Vela. A metáfora permanece, em grande parte, intacta em seus objetivos estéticos e nacionalistas. O diretor José Celso percebe que a linguagem da antropofagia é uma resposta apropriada às circunstâncias culturais, políticas e econômicas de 1967, pois 32 acha que há um paralelo com os anos 30. Essa convicção pretende ser em si uma afronta aos dirigente políticos da Brasil, que renovaram a repressão do Estado Novo. E, também, uma afronta às classes médias urbanas que achavam ter o Brasil alcançado o progresso. A montagem de O Rei da Vela tem o nítido intento de refutar essa idéia. O Rei constitui também uma versão atualizada da devoração antropofágica dos mais recentes modelos teatrais estrangeiros que então predominavam no teatro brasileiro. Finalmente, o Rei renova a metáfora antropofágica ao intentar lançar as bases de um modo brasileiro de fazer teatro, com a incorporação de formas culturais populares e folclóricas. (GEORGE, 1985, p.18) A tônica da montagem centrou-se, assim, na retratação do imobilismo da história nacional, pois, apesar de passados trinta anos de sua publicação, a sua atualidade era espantosa, em meio a um período obscuro para a construção da nacionalidade: a ditadura militar (e sua censura). A montagem de O Rei da Vela surgiu em 1967 como uma assunção tropical do Brasil – um grito de revolta contra a estagnação da nossa cultura, um desabafo para não identificar-se com o „imenso cadáver cangrenado‟ que lhe parecia ser o País. O Oficina encenou O Rei da vela para protestar contra a realidade de um Brasil de 1967 idêntico ao de 1937. (MAGALDI, 2004, p. 177) As peças de Oswald, apesar da enorme importância para a consolidação do teatro moderno, no Brasil, não foram enfocadas com tanta dedicação pelas companhias teatrais da época. Esse fato, como mencionado anteriormente, deu-se por inúmeros motivos, dentre eles: o amadorismo de algumas companhias nacionais, que eram formadas, em sua maioria, por atores estrangeiros, faltando o comprometimento com o próprio teatro brasileiro; o fato de os palcos serem dominados mais por atores do que por diretores-montadores; a censura da época, que brecava qualquer tipo de manifestação artística mais vital; e, a própria impossibilidade de dar à montagem tudo aquilo que era exigido pelas rubricas do autor. “Tudo isso não cabia no teatro da época, apto somente para exprimir os sentimentos brejeiros luso-brasileiros. Era preciso reinventar o teatro. E Oswald reinventou” (CORREA, 2004, p. 3) José Celso buscou sublinhar as orientações do texto, desde o cenário até o figurino, entremeando as cenas com músicas de Vila-Lobos e Carlos Gomes, entre outros. Os três atos da peça foram encenados em três diferentes estilos: o circo, a revista e a ópera, que ampliara ao máximo a mordacidade viva do texto. A primeira apresentação se deu em meados de 1968, causando grande impacto no público, que momentaneamente o definiu como “pornográfico e ridículo”, diferindo daqueles que consideraram a montagem “arrojada e cheia de realidade”. O que se sabe de fato é que ninguém permaneceu indiferente à encenação. A companhia viajou o mundo com a peça, obtendo grande êxito. Foi à França, Alemanha e Itália, auto-afirmando a dramaturgia brasileira como uma das mais profícuas da época; relembrando o poder de destruição (ou reconstrução?) do modernismo de anos atrás. 33 “O humor grotesco, o sentido da paródia, o uso de formas feitas, de teatro no teatro, literatura na literatura, faz do texto uma colagem do Brasil de 30. Que permanece uma colagem ainda mais violenta do Brasil de trinta anos depois, pois acresce a denúncia da permanência e da velhice destes mesmos e eternos personagens. (CORREA, 2004, p. 25) É imprescindível relembrar que a primeira encenação se deu nos anos de chumbo da ditadura e que por isso a peça sofreu muitos cortes. Dessa forma, um pouco do teor corrosivo de Oswald foi perdido, deixando muitas vezes o espectador com a sensação de lacuna entre as ações. Depois do Ato Institucional nº 5, “O Rei da Vela” foi interditada; contudo, mediante um acordo com a “censura”, a apresentação foi liberada desde que fossem cortadas partes do texto, óbvio que as alterações visavam sempre atenuar a carga política da peça, deturpando o sentido. O crítico Bernard Dort, em um ensaio intitulado “Uma comédia em transe” sentenciou, após observar a encenação do Oficina, em Nancy, que O rei da vela é um espetáculo que desconcerta, que irrita, que vocifera uma realidade que continua a viver, a reviver, até a exaustão . Trinta anos após a escritura da peça, o Oficina não a utiliza para levantar bandeira em favor das lutas de classes. Ao contrário, quer mostrar face a face o mesmo cadáver gangrenado do passado, só que mais podre. Nós somos muito subdesenvolvidos para reconhecer a genialidade da obra de Oswald. Nosso ufanismo vai mais facilmente para a badalação do óbvio, sem risco, do que para a descoberta de algo que mostre a realidade de nossa cara verdadeira. [...] Sua peça está surpreendentemente dentro da estética mais moderna do teatro e da arte atual. A superteatralidade, a superação mesmo do racionalismo brechitiano através de uma arte teatral síntese de todas as artes e não artes, circo, show, teatro de revista, etc. (MAGALDI, 2003, p.25) Sem dúvidas, a execução da peça encontrou inúmeros entraves para consolidar-se. A própria concepção inovadora, que exigia do grupo recursos cênicos ainda não vivenciados e aceitos pela intelectualidade, e a censura, fizeram da montagem do Oficina um marco do teatro nacional. Assim, “O Rei da Vela”, de Oswald, guardada em livro por mais de trinta de anos, não pôde exercer a influência imediata e direta oriunda dos palcos. A espera pelo momento de encenação faz da dramaturgia de Oswald um monumento isolado na história do teatro brasileiro, surgida cedo demais para que formasse raízes duradouras. Seu vanguardismo a distanciou do que se produzia e do que se produziu nos últimos anos no país. Diante de as questões expostas, é possível afirmar que as condições de produção da peça esboçam um período conturbado, mas, ao mesmo tempo, rico em experimentação e tentativa. Com isso, constitui-se a revolução necessária para que Oswald projetasse uma peça símbolo das dicotomias do primeiro vintênio do século XX. 34 Posteriormente, quando do aprofundamento da análise da peça (capítulo 03), serão retomados alguns destes pontos, já que não é possível traçar a constituição do discurso da peça, apartada dos aspectos históricos que a envolvem. No capítulo que segue, terá início o esboço da teoria que servirá de suporte a este trabalho, a AD, remontando sua conjuração até chegar aos dispositivos de análise necessários à proposta. 35 3 BREVE HISTÓRICO DA ANÁLISE DO DISCURSO “Quem vê de perto não vê. É necessário horizonte, distância, perspectiva” (Oswald de Andrade) O termo Linguística foi usado pela primeira vez em meados do século XIX, para distinguir as novas diretrizes para o estudo da linguagem, em contraposição ao enfoque filológico mais tradicional, a Linguística Histórica, cuja preocupação principal era a evolução histórica das línguas, tal como se manifestavam nos textos escritos e no contexto literário e cultural associado. Nesse novo enfoque, do final do século XIX, ao invés de se estudar a linguagem para fazer filosofia ou para fazer crítica literária, como nos séculos anteriores, passa-se a estudar a linguagem pensando-se um „fazer ciência‟. A área a que se deu mais atenção foi à Linguística Comparativa, com a qual se pretendia estabelecer a relação genética entre línguas. No entanto, apesar desse período constituir um grande avanço para a Linguística, o início do século XX é reconhecidamente o marco da mudança de paradigmas. Atribui-se a Saussure a instauração dos “fundamentos” da Linguística e do “corte epistemológico” efetivado em seu interior: a emergência da autonomia de um objeto e o advento da positividade científica de uma teoria e de um método. Sai de cena a Linguística Histórica e com ela a diacronia; entra a Linguística Descritiva trazendo consigo a sincronia. Quando concebe sua teoria linguística, Saussure intenta construir um pensamento científico-experimental. Para ele, era necessário analisar a vida de um idioma já constituído, situando a natureza do signo linguístico através das conhecidas dicotomias – língua/ fala, diacronia/ sincronia, significante/ significado, paradigma/ sintagma –, num plano mais excludente do que includente. Ele concebia o signo linguístico e a própria língua como estáticos e abstratos, de forma que não receberiam influência do sujeito, encarado como ideal. Durante muito tempo, tal visão serviu de base para as concepções em relação à linguagem e à língua, esta última vista como um subproduto do pensamento, existente única e exclusivamente através dele. A apreensão da língua, como parte estruturante de um sistema fechado em si mesmo, vigorará com o crescimento do método estruturalista. Ao falar do Estruturalismo é necessário compreender que, dentre os inúmeros programas de pensamentos originários da França, ele foi o que obteve maior repercussão entre os anos 50-60. Tal desenvolvimento encontra um conjunto múltiplo de razões, dentre as quais 36 se destacam a ruptura com os modelos de concepção científica vigentes na época e a proposta de 'englobamento' de aspectos da realidade e da cultura, que até então haviam sido renegados pelo academicismo predominante em toda a Europa. O programa de pensamento proposto pelo Estruturalismo é decisivo para a constituição das ciências humanas, já que sugere uma reflexão crítica sobre o próprio modo de se fazer ciência. Se antes a concepção histórico-comparativa predominava no meio acadêmico e orientava a produção científica em uma tendência à temporalidade ativa. Com o advento do pensamento estrutural houve a possibilidade de se encarar o objeto dentro das suas próprias condições de constituição, a partir de um “método rigoroso que podia ocasionar esperanças a respeito de certos progressos decisivos no rumo da ciência” (DOSSE, 1993, p. 13). Esse momento se constitui pela indagação da completitude do método histórico, que se via questionado diante das novas feições adquiridas nas ciências humanas. Assim, a ruptura com tal modelo se vê no centro da discussão e da ascensão do Estruturalismo. Além disso, percebe-se, na proposta estruturalista, “uma certa” dose de auto-aversão, de rejeição à cultura ocidental tradicional, “de apetite de modernismo em busca de novos modelos” (DOSSE, 1993, p.13), o que culminou na opção pela contra-cultura. Coube ao Estruturalismo abarcar saberes que até então se viam proscritos das instituições canônicas, materializando-se pela bandeira dos modernos em sua luta contra os antigos e pela inserção do que se considerava marginal, recalcado da cultura. É inegável que a abertura dada pelos estruturalistas do início do século foi importante para a constituição dos estudos linguísticos, sobretudo nas incipientes inquietações teóricas que envolviam o discurso. No entanto, não houve uma reflexão e uma revisão de conceitos mais ampliadas (permanece o pensamento de língua fechada em si mesma, de estrutura isolada), fato que só se dará a partir da década de 50 quando, diante da necessidade de aprofundamento teórico e do „esgotamento‟ das conceituações vigentes, os estudiosos começam a encarar a língua como elemento constitutivo de um processo mais amplo. Dessa forma, percebe-se que a primeira metade do século XX foi marcada pela aplicação, às línguas, do conceito de estrutura, o que provocou a produção de muitos trabalhos sob variados recortes, e fatalmente a descoberta de pontos impossíveis de dar conta por esse modelo. Assim, o Estruturalismo saussuriano acumulou “excluídos” e entreabriu vertentes que não podia explorar. Tal acúmulo, provavelmente, levou o seu modelo à „crise‟ e a segunda metade do século XX explodiu em “novas teorias” ou, ao menos, novas abordagens para o estudo da língua. 37 Nesse momento, torna-se evidente que uma Linguística de cunho imanentista que se limita a um estudo interno da língua não pode dar conta da relação desta mesma língua com o social e o ideológico. Como revela Mussalin (2001, p.105), “Uma Linguística saussureana, uma Linguística da língua, não seria suficiente; só uma teoria do discurso, concebido como lugar teórico para o qual convergem componentes linguísticos e socioloideológicos, poderia acolher esse projeto.”. Há, nesse período, condições de produção (a própria conjuntura política e cultural da Europa da segunda metade do século XX e as discussões acadêmicas sobre os limites da ciência no mundo) que reclamam a emergência de uma disciplina capaz de abarcar a quantidade de produções discursivas da época, atrelando a isso um olhar analítico e, ao mesmo tempo, interpretativo. Teóricos, envolvidos com debates que colocavam em conexão teses marxistas, psicanalíticas e epistemológicas passam a constituir um terreno capaz de fecundar uma teoria, uma metodologia e uma análise para os discursos. Surgem os trabalhos de Harris (Discourse analysis, 1952), os de R. Jakobson e E. Benveniste. Eles marcam o início de uma reflexão que passa a conceber a língua em uma concepção discursivizada. Apesar de marcadamente diferentes, já que o primeiro autor estendeu procedimentos já consolidados da Linguística Distribucional americana aos enunciados, encarando o texto em sua forma mais redutora na busca pelo sentido em suas unidades linguísticas; e, os segundos abarcaram uma perspectiva que deu ênfase ao sujeito construtor de enunciados dentro da enunciação, ressaltando a relação entre o locutor, o enunciado e o mundo exterior, tais pesquisas foram crucias e ajudaram a apontar para a diferença de perspectiva que vai marcar uma postura teórica de uma Análise do Discurso de linha mais americana, de outra mais européia. A linha anglo-saxã (ou americana) se preocupava em estabelecer um contato maior com a Sociologia, enquanto que a Análise do Discurso de linha francesa voltava-se para a relação do discurso com a História. A primeira enfocava a intenção dos sujeitos numa interação verbal/oral, já a segunda propunha uma análise dos textos escritos sob a perspectiva de uma relação ideológica. O que diferencia a Análise do Discurso de origem francesa da Análise do Discurso anglo-saxã, ou comumente chamada de americana, é que esta última considera a intenção dos sujeitos numa interação verbal como um dos pilares que a sustenta, enquanto a Análise do Discurso francesa não considera como determinante essa intenção do sujeito; considera que esses sujeitos são condicionados por uma determinação ideológica que predetermina o que poderão ou não dizer em determinadas conjunturas histórico-sociais. (MUSSALIN, 2001, p.113) 38 Dessa forma, o enfoque assumido pela tendência linguística, que brota na França na década de 60, encara a língua e a linguagem como lugares de conflito, de confronto ideológico, que não podem ser compreendidas fora da sociedade, já que os processos constituintes dessa mesma língua e dessa mesma linguagem são histórico-sociais. Esta última vertente, em uma visão mais ampla, será intitulada de Análise do Discurso (AD) e começará a “abrir um campo de questões no interior da própria Lingüística, operando um sensível deslocamento de terreno na área, sobretudo nos conceitos de língua, historicidade e sujeito, deixados à margem pelas correntes em voga na época.” (FERREIRA, 2005, p.14). A vertente francesa buscará condições de consolidação em um tripé, formado pela Linguística, pelo Marxismo e pela Psicanálise. Na vertente linguística, busca os conceitos de enunciação, palmilhados por Benveniste; de discurso, por Foucault, além de propor uma revisão ao método saussureano e ao Estruturalismo. Em Althusser, traz a questão dos Aparelhos Ideológicos do Estado e do materialismo histórico, de vertente marxista; na Psicanálise, busca a noção de sujeito clivado entre consciente e inconsciente. Em outras palavras, a Linguística trouxe ao projeto de gênese da AD a materialidade da língua para, a partir daí, construir o lugar privilegiado em que a ideologia se manifesta, o discurso. Althusser e sua teoria dos Aparelhos Ideológicos do Estado (AIE) postula que as ideologias têm existência material e que, portanto, não devem ser analisadas enquanto ideias, mas como um conjunto de práticas que reproduzem as relações de força e de produção, constituindo o que comumente se chama de materialismo histórico. Já a Psicanálise, através de Lacan, traz a ênfase na constituição do conceito de sujeito clivado, cindido, divido, mas estruturado a partir da linguagem, interpelado por um exterior e por um inconsciente. É difícil precisar quando se deu essa mudança de paradigma teórico na Europa (de língua/fala para língua/ discurso), já que não há um ato fundador, especificamente, nem um pai declarado, mas pode-se afirmar que as movimentações de maio de 68, na França, que deram ao sujeito um lugar mais destacado, fizeram com que o excesso do formalismo linguístico da época fosse revisto e, até mesmo, questionado. Além disso, atribui-se a emergência da AD às práticas escolares de leitura e interpretação de textos, consideradas como insuficientes. Diante desses argumentos, Dubois, linguista, e Pechêux, filósofo marxista, envolvidos em movimentos sociais, política, luta de classes, marxismo e História configuram os primeiros passos do que se chamaria AD. Neste contexto, Pêcheux, apesar de não ter rotulado tais pesquisas, torna-se o responsável pela elaboração teórica e pela territorialização da disciplina, sendo considerado o 39 mais representativo teórico da AD, para alguns, e o próprio iniciador da linha francesa de Análise do Discurso, conforme afirma Maldidier (2003). Ao propor o deslocamento dos estudos, antes focados na língua abstrata, o teórico francês precisou definir os campos de atuação dessa disciplina e os pressupostos básicos de uma teoria que batizou de Teoria do Discurso. Alicerçado em uma formação filosófica, Pêcheux desenvolve questões críticas sobre a própria Linguística e postula que, para haver um olhar crítico sobre os processos discursivos é necessário operar uma ruptura epistemológica, que coloca o discurso em um espaço onde intervêm questões relativas à ideologia e ao discurso. Para tanto, recorreu aos conceitos de discurso e formação discursiva, palmilhados por Foucault; ideologia, tributários de Althusser; além de redefinir o conceito de língua – antes considerada em transparência, agora vista sob a opacidade do discurso –, e o conceito de sujeito. Nestes pontos, as reflexões de Pêcheux se mostram de suma importância, já que o discurso, por exemplo, passa a ser encarado como um ponto de articulação entre o ideológico e o linguístico, um mediador necessário entre o homem, a realidade e os outros homens. Em “Semântica e Discurso” (1975), livro síntese das ideias iniciais e ponderações pechetianas sobre o discurso, Pêcheux lança, através do pensamento filosófico, as bases para a constituição da sua teoria. Focado na especificidade do discurso, o teórico proporá, nesse livro, uma reflexão sobre os conceitos de formação discursiva, de ideologia, de sujeito (ou no dizer de Pêcheux, de forma-sujeito e interpelação do sujeito) e, em uma primeira reflexão, trará o conceito de interdiscurso, hoje percebido como nodal, no processo de compreensão da Análise do Discurso. A partir de uma „revisitação‟ às bases da Linguística (Pêcheux se revela arguto leitor de Saussure) e ao pensamento filosófico, busca ordenar os conceitos para, enfim, propor uma teoria materialista do discurso, que se ancorava na tese althusseriana de interpelação do indivíduo em sujeito do discurso, através da ideologia. Para tanto, ele propõe um redimensionamento da própria noção de língua vigente na época. Para ele, O sistema da língua é, de fato, o mesmo para o materialista e para o idealista, para o revolucionário e para o reacionário, para aquele que dispõe de um conhecimento dado e para aquele que não dispõe desse conhecimento. Entretanto, não se pode concluir, a partir disso, que esses diversos personagens tenham o mesmo discurso: a língua se apresenta, assim, como a base comum de processos discursivos diferenciados. (PÊCHEUX, 1997, p. 91) As noções trazidas pela Linguística, segundo o autor, vão além de seu campo de atuação, sendo possível aliá-las aos conceitos filosóficos e psicanalíticos, em voga na época, 40 em busca de uma teoria menos subjetiva acerca da linguagem. Criar o instrumental para isso será o foco de Pêcheux, durante sua trajetória como filósofo-linguísta. Assim, ele repensa a noção de sujeito encarada como „sempre-já-dado‟ e não reflexivo, em contraponto com a noção de ideologia, mostrando como esse mesmo sujeito se constitui através de um processo de autonomia ilusória, no interior de formação discursiva à qual se filia, sendo sempre atravessado pelo discurso do outro, pelo interdiscurso que constitui o seu próprio discurso. O estudo entre as condições de produção dos discursos e seus processos de constituição ganhou destaque através de análises que buscavam, sobretudo, os textos políticos da época. Caberia à AD “trabalhar seu objeto (o discurso) inscrevendo-o na relação da língua com a história, buscando na materialidade lingüística as marcas de contradições ideológicas.” (BRANDÃO, 2004, p. 50), marcando, desta forma, a linguagem como lugar de conflito, de confronto, que não pode ser estudada nem concebida fora da sociedade, já que seus processos de constituição são histórico-sociais. Nesse momento, há uma retomada de alguns conceitos propostos por Bakhtin, em meados de 30, que já traziam o símbolo da ruptura. A chegada dos escritos de Bakhtin à Europa, por questões de tradução somente foi possível muitos anos depois (no fim da década de 60), o que, de certa forma, trouxe à tona pesquisas realizadas há mais de trinta anos, mas que continham um teor de novidade assombroso para os pesquisadores da época. Apesar de não ser um retorno metodológico, o que o teórico russo havia proposto há alguns anos em suas obras “Problemas da Poética de Dostoievski” (1997) e em “Marxismo e filosofia da linguagem” (1986), principalmente, parecia estar de acordo como o que as novas perspectivas teóricas propunham: um olhar diferenciado sobre o discurso. Nesse contexto, ao afirmar que a especificidade das ciências humanas reside no fato de ter como objeto o discurso, muitas vezes materializado em textos, Bakhtin empreende um caminho contrário ao dos estudos linguísticos praticados até então. Estudos que desconsideravam o caráter social e ideológico das produções escritas, por exemplo. Ressaltando o caráter dialógico da linguagem, que, para ele, seria princípio constituinte do sujeito e, por conseguinte, da condição de existência do sentido e do discurso, ele parte do pressuposto que todo discurso reside em uma relação com outro discurso. As inúmeras contribuições que a AD foi buscar em Bakhtin (longe de afirmar que Bakhtin é AD ou que a AD se constrói em Bakhtin) não se limitam a esse conceito. Analisando, inicialmente, o discurso literário, ele propõe conceitos como polifonia, vozes, além de retomar a questão do gênero sob outra ótica, a discursiva. Desta forma, o terreno aberto por Pêcheux, 41 outrora, é vastamente enriquecido, possibilitando uma feição de descoberta e elaboração constante, dentro do campo da AD. Buscando uma interface com as áreas afins, a AD, com todos os seus conceitos e formulações teóricas, configura-se como uma disciplina de entremeio, que busca dar subsídios consistentes àqueles que intentam apreender as várias nuances do texto e do discurso e suas relações com o social e o ideológico. Ela serviu de redirecionamento a outros campos do saber que também se debruçavam sob a linguagem, mas não a percebiam em suas especificidades, e hoje é uma disciplina institucionalizada e abalizada pelos teóricos. Como pontua Charaudeau (2006, p.46), a existência de uma disciplina como a AD é um fenômeno importante já que é “primeira vez na história, (que) a totalidade dos enunciados de uma sociedade, apreendida na multiplicidade de seus gêneros, é convocada a se tornar objeto de estudo.” Assim, esses novos estudos postulam que é através do discurso que o sujeito se constitui e se revela, pois “a palavra é o signo ideológico por excelência.” (BAKHTIN, 1986, p. 16) e é a partir dela que se pode identificar as formações ideológicas/discursivas dentro de uma situação de enunciação. Passa-se a arquitetar o sujeito, não como um indivíduo que fala, mas que expressa o falar de uma instituição ou de uma ideologia. Desta forma, “Todo dizer é ideologicamente marcado. É na língua que a ideologia se materializa [...] O sentido não existe em si, mas é determinado pelas posições ideológicas colocadas em jogo no processo sóciohistórico em que as palavras são produzidas.” (ORLANDI, 2006, p. 38-42) A ideia de que nenhuma palavra é propriedade de alguém, já que traz em si a perspectiva de outra voz, abriu diversas possibilidades de entendimento, sobretudo na Literatura, que há muito conhece o poder da palavra, perfazendo uma espécie de ritual, em que um sujeito se enuncia, partilhando com os interlocutores, um mundo de possibilidades. Seria o que se pode chamar de ação da linguagem, com a veiculação de representações, de conhecimentos outros, tais como os de gerações anteriores e/ou contemporâneas, em interface com o espaço discursivo do interlocutor. Mostra-se, aí, o fato de que a compreensão é sempre dialógica, pois é imprescindível a presença do outro para entender e interferir no sentido que se construirá. Através de sua preocupação com o método e de suas discussões sobre o acontecimento e sobre o estatuto do sujeito na linguagem, Pêcheux trouxe contribuições fundamentais para a constituição da AD. Ao conceber o discurso como uma instância histórica e social, ele rompe com o paradigma da estrutura, demonstrando que a linguagem, enquanto discurso, não pode 42 ser compreendida como uma unidade significativa, mas como um efeito de sentido entre os sujeitos que a utilizam. Ao analista, cabe localizar os recursos de combinação e transmissão dos discursos, observando de que forma a confluência significa a interpretação do discurso de outrem, a manipulação da argumentação autoritária ou a subversão desse discurso. Buscam-se as relações entre as condições de produção de um discurso e ele mesmo, analisando as condições de emergência de um efeito de sentido e não de outro, no interior de um discurso e de um interdiscurso. Para entender como a AD chegou a tais formulações e se construiu neste constante repensar de suas bases, cabe agora traçar o caminho de consolidação da disciplina (item 2.1) e traçar também as características mais importantes dos conceitos básicos da AD (item 2.2). 3.1 ETAPAS DE CONSOLIDAÇÃO DA ANÁLISE DO DISCURSO Em uma tentativa de problematizar e, ao mesmo tempo consolidar, os pressupostos básicos da disciplina a qual aqui se filia, faz-se necessário analisar sucintamente as três fases por que passou a Análise do Discurso. O primeiro momento, intitulado de Análise Automática do Discurso (AAD-69) caracteriza-se pela noção de “maquinaria discursiva”, em que o sujeito acredita ser o produtor de seu discurso, mas é apenas assujeitado às formas discursivas circulantes e produtoras de seu dizer. Nessa 1ª fase (AD1), os analistas exploram discursos mais estabilizados (manifestos, por exemplo) que eram produzidos dentro de condições mais fechadas e, portanto, menos polêmicos. Havia um grau maior de silenciamento de outros discursos e, por isso mesmo, uma variação de sentido menor. Para se construir uma análise, nessa época, cabia ao analista seguir etapas bem definidas, a saber: seleção de um corpus fechado (um texto pertencente a determinado partido político, por exemplo); análise linguística das sequências; construção de blocos de identidade a partir das relações linguísticas percebidas; e, por fim, comparação desses resultados, tentando mostrar que são pertencentes a uma mesma estrutura (ou, uma mesma máquina discursiva). O segundo momento da AD é marcado pela revisão do conceito de maquinaria, a partir da incorporação do conceito de formação discursiva e de interdiscurso (conceitos que serão detalhados mais adiante). A partir disso, o foco de estudo passa a ser as relações empreendidas entre as chamadas máquinas discursivas definidas na primeira fase. Na AD2 o 43 conceito de formação discursiva (FD) é responsável pela mudança na concepção do objeto da AD; se, antes a análise, valia-se de discursos mais estabilizados (AD1), nesta fase os discursos produzidos em situação menos homogênea eram objetos de análise (ex. debates). O papel do analista seria descrever as regras de formação de cada FD no interior do discurso. O terceiro momento (AD3), de retomada e reconceituação para a AD, é marcado pelas noções de interdiscurso, já cotejadas, mas não aprofundadas na segunda fase e de heterogeneidade constitutiva do discurso, desconstruindo a noção de maquinaria fechada inevitavelmente. Na chamada AD3, a estrutura de uma FD se concretiza a partir de um interdiscurso. Adota-se a perspectiva segundo a qual os diversos discursos que atravessam uma FD não se constituem independentes uns dos outros. Por isso, o procedimento por etapas, com ordem fixa, explode definitivamente. A partir dessas pesquisas é possível afirmar que, hoje, há o primado do interdiscurso sobre o discurso. Nesta esteira, entende-se que um trabalho que manuseie o texto teatral encontra terreno fecundo nas relações interdiscursivas que o movem e o constituem, enquanto objeto discursivo, como propõe a 3ª fase da disciplina 3.2 ALGUNS CONCEITOS CHAVES PARA A ANÁLISE DO DISCURSO 3.2.1 Sujeito Algumas tendências marcaram, inicialmente, os estudos da linguagem no século XX, bem como o conceito de sujeito. Uma primeira, que, a partir da retomada de estudos postulados por Platão, considerava a língua como representação. A essa noção filiava-se, por exemplo, à escola de Saussure, considerando a língua e, por sua vez, o sujeito, como abstratos e ideais. Uma segunda tendência toma o domínio da subjetividade para compor a noção de sujeito e língua. A este quadro filia-se Benveniste e seus trabalhos sobre a enunciação. Para esse teórico, a língua seria apenas uma possibilidade que ganha corpo no ato de enunciação. Contudo, tal noção passa a ser considerada restritiva, quando se percebe que ela se fecha ao ato enunciativo, ou seja, sujeito seria apenas aquele que diz „eu‟. Redutor, tal postulado não poderia abarcar muito da natureza enunciativa, já que há uma complexidade de discursos produzidos por um sujeito que não se outorga o „eu‟. Para Benveniste, o sujeito seria „eu‟ 44 homogêneo que interage com um „tu‟ opondo-se ambos a não pessoa (ele). Haveria assim um equilíbrio entre o „eu‟ e o „tu‟. Uma noção posterior – e é nela que se firmará a noção de sujeito para a AD – situaria a constituição do sujeito em relação ao discurso do outro, já que passa a ser situado num tempo e orientado socialmente. É nesse ponto que se constitui a noção de interdiscurso, com Pêcheux. Para o francês, pensar em uma teoria do discurso seria colocar a questão da constituição do indivíduo em sujeito a partir da interpelação da ideologia e dos outros discursos que se encontram com esse sujeito. Para ele, é a ideologia que fornece as evidências pelas quais „todo mundo sabe‟ o que é um soldado, um operário, [...] evidências que fazem com que uma palavra ou enunciado „queiram dizer o que realmente dizem‟ e que mascarem, assim, sob „a transparência da linguagem‟, aquilo que chamaremos o caráter material do sentido das palavras e dos enunciados. (PÊCHEUX , 1997, p.160) Nesse momento, a noção de sujeito ego, uno, é contraposta à noção de um sujeito que se faz na intersecção do discurso do outro. Chega-se ao descentramento do sujeito falante. Sujeito que tem a ilusão de ser dono do seu discurso, quando na verdade é assujeitado às condições de surgimento do seu discurso e da sua formação discursiva (autonomia ilusória). O sujeito seria um efeito de linguagem, já que seria atravessado pelo seu avesso, o inconsciente. A interpelação do indivíduo em sujeito de seu discurso se efetua pela identificação (do sujeito) com a formação discursiva que o domina (isto é, na qual ele é constituído como sujeito): essa identificação, fundadora da unidade (imaginária) do sujeito, apóia-se no fato de que os elementos do interdiscurso (sob sua dupla forma [...] enquanto pré-construído e processo de sustentação) que constituem, no discurso do sujeito, os traços daquilo que o determina, são re-escritos no discurso do próprio sujeito. (op. cit. p.163) A ideia básica da AD seria postular que o sentido e o sujeito não são dados a priori, são constituídos no discurso. Resultado da relação com a “linguagem” e a “história”, o sujeito do discurso não é totalmente livre, nem totalmente determinado por mecanismos exteriores. O sujeito é constituído a partir da relação com o outro, estabelecendo, assim, uma relação ativa no interior de uma FD. Para a Análise do discurso, é essa concepção de sujeito – que vai perdendo a polaridade ora centrada no eu ora centrada no tu e se enriquecendo com uma relação dinâmica entre identidade e alteridade – que vai ocupar o centro de suas preocupações atuais. Para ela, o centro não está nem no eu nem no tu, mas no espaço discursivo criado entre ambos. O sujeito só constrói sua identidade na interação com o outro. E o espaço dessa interação é o texto. (BRANDÃO, 2004, p. 76) Para a AD, é um sujeito assujeitado (submetido ao esquecimento, segundo Pêcheux) à medida em que seu discurso é predeterminado pela sua formação discursiva e pela sua herança histórica. Tal conceito, assim, modifica-se a partir das fases da AD: 1ª fase – 45 assujeitado à maquinaria, ou seja, submetido totalmente a regras específicas que determinam e delimitam o seu discurso; 2ª fase – desempenhando diferentes papéis através da posição que ocupa, ou seja, o sujeito se constitui a partir do lugar que se enuncia; na 3ª fase o sujeito aparece como clivado, heterogêneo, dividido, construído no espaço entre o eu e o tu. Nas três concepções que constituíram o conceito de sujeito para a AD podemos perceber que em todas elas o sujeito aparece como não sendo dono de seu dizer e senhor de sua vontade, e sim construído no interior do próprio discurso. Contudo, há uma espécie de contradição no interior desse mesmo sujeito: ele não é nem totalmente livre nem totalmente submetido, pois ao mesmo tempo em que é interpelado pela ideologia, ele ocupa, na formação discursiva que o determina, com sua história particular, um lugar que é essencialmente seu. Constituir-se-ia, nesse ponto, a suposta consagração da „liberdade‟ do sujeito falante, que é interpelado pela ideologia, até certo ponto manipulado por ela, mas tem a ilusão de ser dono de suas palavras. A essa concepção de sujeito, Pêcheux denomina forma-sujeito, que seria o sujeito interpelado pela ideologia. Concebe, assim, o conceito de ilusão discursiva, a partir das postulações sobre o efeito do esquecimento que regeriam a seleção e as formas de dizer, no interior de uma formação discursiva. Nomeia de esquecimento nº 1, o esquecimento de natureza inconsciente e ideológica, que traria ao sujeito a ilusão de ser dono de seu dizer. Por esse esquecimento tem-se a ilusão de ser a origem do que se diz quando na verdade retomamse discursos pré-existentes. De esquecimento nº 2 designa a seleção das formas de dizer, no interior de uma determinada FD, sendo, portanto, da ordem da enunciação e de natureza linguísticaideológica. Esse esquecimento lança a impressão de realidade do pensamento, ou seja, há uma ilusão referencial que faz acreditar que há uma relação direta entre o pensamento, a linguagem e o mundo, de tal modo a pensar que o que se diz só pode ser dito com aquelas palavras e não outras. Em resumo, Sob o termo de esquecimento que Michel Pêcheux arranca de sua acepção psicológica, tenta pensar a ilusão constitutiva do efeito sujeito, isto é, a ilusão para o sujeito em estar na fonte do sentido [...] A zona de esquecimento nº1 é por definição inacessível ao sujeito. O esquecimento nº2 designa a zona em que o sujeito enunciador se move, em que ele constitui seu enunciado colocando as fronteiras entre o dito e o rejeitado, o não-dito. Enquanto o segundo esquecimento remete aos mecanismos enunciativos analisáveis na superfície do discurso, o primeiro deve ser posto em relação com as famílias parafrásticas constitutivas dos efeitos de sentido. (MALDIDIER, 2003, p.42) 46 Através de tais contribuições, o sujeito para Análise do Discurso perde o seu centro e passa a se caracterizar pela dispersão (no dizer de Foucault), por um discurso heterogêneo que incorpora, que assume diferentes vozes sociais e que se constitui nesse jogo de força, instalado em seu discurso, no interior de determinada FD e na relação com a história e a ideologia. 3.2.2 Discurso Para organizar a especificidade do termo discurso, dentro da Análise do Discurso, parte-se do pressuposto de Maingueneau (1997): a noção de discurso não é estável e, acrescenta-se, nem fechada. Foucault, em “A ordem do discurso”, inicia seu texto afirmando que diante da palavra discurso sempre houve certo temor de definições e que “parece que o pensamento ocidental tomou cuidado para que o discurso ocupasse o menor lugar possível entre o pensamento e a palavra.” (2007, p. 46). Remontando à questão do discurso, ele diz que “há uma inquietação diante do que é discurso em sua realidade material de coisa pronunciada ou escrita.” (2007, p. 8), revelando que tratar desse conjunto de conceitos imbricados é tarefa árdua. Para o filósofo, deve-se “restituir ao discurso seu caráter de acontecimento.” (2007, p. 51), ou seja, considerálo como analisa Michel Pêcheux (2006) em “O discurso: estrutura ou acontecimento?” Pêcheux parte da indagação do título para traçar um caminho, na Análise do Discurso, sobre o seu próprio objeto. Ele vai da Escolástica aristotélica à Ontologia marxista, a fim de traçar a natureza do discurso dentro de uma teoria materialista do sentido, concluindo que mais do que realidade estruturada, do que proposição estabilizada, o discurso é um acontecimento localizado em um espaço. Ele parte da análise do enunciado “On a gagné”, das eleições francesas de 1981, para mostrar que no interior da AD há uma tensão que considera o discurso como realidade pronunciada, como acontecimento e como uma questão filosófica analisada no interior da própria estrutura. Partindo também do “Dicionário de Análise do Discurso” (2006, p. 170), de Charaudeau e Maingueneau, discurso pode ser definido como uma forma de apreender a linguagem. Tais teóricos propõem características básicas que podem ajudar no desenho desta definição: a) “o discurso supõe uma organização transfrástica”, ou seja, ele mobiliza estruturas de outras ordens para se constituir. Como diz Pêcheux (1997), ele é um acontecimento muito maior do que sua própria estrutura supõe, de modo que sua constituição 47 se dá pela conjuração de situações outras, como uma experiência a cada situação que não dura muito; b) “o discurso é orientado”, isto é, desenvolve-se no tempo; c) “o discurso é uma forma de ação” a partir do que a teoria dos atos de fala propõe; d) “o discurso é interativo”, ele busca o seu outro, uma instância, presente ou não, a qual se dirige e se constrói o próprio discurso; e) “o discurso é contextualizado”, não assumindo contexto como moldura, mas como um todo situado dentro de uma condição de produção; f) “o discurso é assumido e regido por normas” por sua própria natureza social; e, por fim, g) “o discurso é assumido em um interdiscurso”, ou seja, os sentidos são adquiridos em um universo de outros discursos. Das características assumidas na obra citada, a última merece um destaque maior, dentro do quadro da Análise do Discurso hoje. É através da noção de interdiscurso, ponto nodal da teoria pechetiana e da constituição da Análise do Discurso, que o conceito de discurso relaciona-se com a materialização da ideologia, da história e do sujeito. O discurso se constituiria na interseção com outros discursos e, em uma retomada às ideias de Foucault, pela dispersão constituinte das relações discursivas. Para compreender essa dispersão, cabe a noção de formação discursiva que, de certa forma, regularizaria o discurso. O discurso seria o ponto de articulação entre os fenômenos linguísticos e os processos ideológicos. Alicerçada no materialismo histórico, a AD, portanto, considera o discurso como uma materialização da ideologia. 3.2.3 Formação discursiva De maneira mais ampla, pode-se considerar uma formação discursiva como a manifestação, no discurso, de uma determinada formação ideológica, em uma situação de enunciação especifica. A formação discursiva (FD) é a matriz de sentidos que regula o que o sujeito pode e deve dizer e, também, o que não pode e não deve ser dito, definida através de um interdiscurso. Tal noção “permite compreender o processo de produção dos sentidos, a sua relação com a ideologia e também dá ao analista a possibilidade de estabelecer regularidades no funcionamento do discurso.” (ORLANDI, 2006, p.43) Em linhas gerais, uma FD determina o que pode e deve ser dito a partir de um determinado lugar social, assumido pelo sujeito no interior do discurso. Ela é marcada por certas „regularidades‟, encaradas como mecanismos de controle, que determinam o que pertence (o interno) e o que não pertence (o externo) a ela. Desta forma, a FD não se constitui independentemente, mas no interior de uma relação com outras FDs, outros discursos e, 48 principalmente, no interior de uma formação ideológica (FI) específica. Como FI entende-se os elementos capazes de intervir em relação ao sentido em uma posição dada em uma conjuntura histórica dada, ou, no dizer de Pêcheux (1997, p.160), O sentido de uma palavra, de uma expressão, de uma proposição, não existe em si mesmo (isto é, em sua relação transparente com literariedade do significante), mas, ao contrário, é determinado pelas posições ideológicas que estão em jogo no processo sócio-histórico no qual as palavras, expressões e proposições são produzidas (isto é, reproduzidas). Poderíamos resumir essa tese dizendo: as palavras, expressões e proposições mudam de sentido segundo as posições sustentadas por aqueles que as empregam, o que quer dizer que elas adquirem seu sentido em referência a essas posições, isto é, em referências às formações ideológicas nas quais essas posições se inscrevem. A FD seria um dos componentes de uma FI específica. Mas tais limites se revelam instáveis, pois há o caráter ideológico que inscreve embates e posições antagônicas. Deste modo, traçar os limites de uma FD, de maneira definitiva, torna-se tarefa complexa, já que uma FD se inscreve entre diversas outras FDs, em uma constante troca interdiscursiva, em que a presença do Outro confere ao discurso o seu caráter heterogêneo constituinte. Uma FD, no dizer de Maingueneau (1997), não seria, portanto, um bloco compacto e fechado, e sim um todo constituído na incessante relação com o Outro, afirmando o primado do interdiscurso sobre o discurso. Desta forma, uma palavra ou expressão não possui sentido em si mesma, mas constitui um sentido ou um efeito de sentido nas relações que estabelece com outras palavras ou expressões, no interior da formação discursiva a que faz parte. De forma análoga, o próprio sujeito se constituiria no interior de uma formação discursiva específica, que representa, através da linguagem, as formações ideológicas que lhes são correspondentes. Assim, a formação discursiva seria parte constituinte, também, do sujeito. É através da FD, portanto, que se articula o assujeitamento e a interpelação do indivíduo como sujeito ideológico (forma-sujeito). Há uma identificação imaginária do sujeito com a FD que o domina, apoiada na noção de interdiscurso (articulado sob a forma de préconstruído ou de processos de articulação e sustentação mais amplos), de forma que o discurso do sujeito se reescreve no interior de um outro discurso. 3.2.4 Interdiscurso A noção de interdiscurso tornou-se chave para a consolidação da AD à medida em que se postula que hoje esta sob a égide do interdiscurso (ou na expressão de Maingueneau, no primado do interdiscurso). Essa noção, introduzida por Pêcheux em “Semântica e discurso” 49 (1997), encontra ampla utilização nos trabalhos de Maingueneau, que parte dela para construir a sua semântica global. Em “Semântica e discurso” (1997), Pêcheux conceitua formação discursiva para revelar que o interdiscurso pode ser considerado como o conjunto de FDs que se inscrevem no nível da constituição do discurso, na medida em que trabalham com a re-significação do sujeito sobre o que já foi dito, o repetível, determinando os deslocamentos promovidos pelo sujeito na fronteira de uma formação discursiva. Para ele, “Toda formação discursiva dissimula, pela transparência do sentido que nela se constitui, sua dependência com respeito ao „todo complexo com dominante‟ das formações discursivas, intrincado no complexo das formações ideológicas” (PECHEUX, 1997, p. 162), de modo que o interdiscurso é considerado como esse todo complexo das formações discursivas. Acrescenta ainda que essa noção se assenta no fato de que “algo fala, sempre antes, em outro lugar, independentemente.”. Para se compreender a interpelação do indivíduo em sujeito do seu discurso, o conceito de interdiscurso é basilar, pois é através dele que o sujeito encontra a realidade de coisas percebidas, aceitas, experimentadas sob a forma de um sistema de evidências e significações confrontadas. Desta forma, o interdiscurso, sob as formas de pré-construído e de processos de articulação/sustentação, institui no discurso do sujeito traços daquilo que o determinam e estão, por sua vez, re-escritos no seu próprio discurso. Assim, o interdiscurso, para Pêcheux, estaria „diluído‟ no interior do próprio discurso (que ele chama de intradiscurso), de modo que o sujeito, afetado pelos esquecimentos 1 e 2, não teria total conhecimento das determinações que o colocam no lugar que ele ocupa, já que o pré-construído, base do interdiscurso, “remete simultaneamente „àquilo que todo mundo sabe‟, isto é, aos conteúdos de pensamento do „sujeito universal‟ suporte da identificação e àquilo que todo mundo, em um „situação dada‟ pode ser e entender, sob a forma de evidências do „contexto situacional‟”. (PECHEUX, 1997, p.171). Como pontua Orlandi (2006, p. 54), O interdiscurso – a memória discursiva – sustenta o dizer em uma estratificação de formulações já feitas, mas esquecidas e que vão construindo uma história de sentidos. É sobre essa memória, de que não detemos o controle, que nossos sentidos se constroem, dando-nos a impressão de sabermos do que estamos falando. Como sabemos, ai se forma a ilusão de que somos a origem do que dizemos. A partir dos pressupostos de Pêcheux e de um aprofundamento, através de Foucault, Maingueneau propõe, em “Gêneses dos discursos” (2007), uma ampliação do conceito que para ele subjaz à implementação da tese: o interdiscurso tem precedência sobre o discurso. 50 Essa ideia propicia, de certa forma, um deslocamento teórico à medida em que a unidade de análise pertinente, passa do discurso para o espaço de trocas entre vários discursos, escolhidos pelo analista convenientemente. No capítulo “Primado do interdiscurso”, o autor coloca o interdiscurso como base de qualquer processo discursivo, mesmo quando este não está marcado na superfície textual. Ele parte da hipótese de que como no discurso a heterogeneidade constitutiva é ponto pacífico, seria o interdiscurso que vincularia, em “uma relação inextricável, o Mesmo do discurso e seu Outro.” (PÊCHEUX, 2007, p.33) Para construir a noção de interdiscurso, considerando-a como inscrita na base de qualquer discurso, Maingueneau julga necessário entender as noções de universo discursivo, campo discursivo e espaço discurso, já que, por si só, a ideia de interdiscurso é muito ampla, sendo importante entender o seu próprio funcionamento. Denomina de universo discursivo o conjunto das mais diversas formações discursivas que interagem em uma dada conjuntura. Essa noção não é considerada de grande valor ao analista, já que a AD busca trabalhar as relações estabelecidas entre as mais diversas formações e as mesmas formações que se entrecruzam, em estado de concorrência ou aproximação. A noção de campo discursivo, desta forma, é um ponto chave para o analista, já que ela pode ser entendida como “um conjunto de formações discursivas que se encontram em concorrência e delimitam-se reciprocamente em uma região determinada do universo discursivo.” (PÊCHEUX, 2007, p. 35). Estabelecer esta inter-relação entre os campos discursivos constitui, de certa forma, o trabalho do analista, que faz escolhas individuais a partir de questionamentos suscitados pelo próprio objeto. A partir da construção dos cortes operados nesses campos discursivos, emerge o discurso. No interior dos campos, isolaram-se os espaços discursivos de análise, ou seja, subconjuntos de formações discursivas que o analista avalia importantes para os propósitos assumidos em suas hipóteses iniciais. Nesses termos, a conjugação dos espaços discursivos também é configurada através de seleções do próprio analista. Tendo em vista tais princípios, é nas relações estabelecidas que emergem as posições assumidas pelo discurso no interior do interdiscurso. Optar por este processo de análise viabiliza a percepção das relações de polêmica que se configuram entre os discursos no interior de uma mesma FD, já que a atitude responsiva/dialógica é condição sine qua non de qualquer enunciação. Além disso, amplia-se a percepção do interdiscurso, em relação ao seu exterior, para a relação do interdiscurso como constitutivo em si mesmo e no intradiscurso, sem haver a necessidade prévia de uma inscrição 51 marcada, do primeiro sobre o segundo, como queriam alguns analistas da escola francesa na década de 60. Como todo enunciado do discurso tem o caráter essencialmente dialógico, não é possível dissociar a interação dos discursos do próprio funcionamento intradiscursivo. Assim, No espaço discursivo, o Outro não é nem um fragmento localizável, nem ma citação, nem uma entidade exterior; não é necessário que seja localizável por alguma ruptura visível da compacidade do discurso. Encontra-se na raiz de um Mesmo sempre já descentrado em relação a si próprio, que não é em momento algum passível de ser considerado sob a figura de uma plenitude autônoma. (MAINGUENEAU, 2007, p. 39) Partindo de tais considerações, pode-se afirmar o primado do interdiscurso sobre o discurso, à medida em que, em uma relação de concorrência, polêmica ou concordância, os discursos se auto-delimitam e delimitam aos outros através do interdiscurso, configurando a interdiscursividade constitutiva. 3.3 CONSTRUÇÃO TEÓRICA DE UM DISPOSITIVO DE ANÁLISE De forma geral, a Análise do Discurso propõe-se a construir um dispositivo de interpretação para o discurso selecionado enquanto objeto analisável. Dessa forma, cabe ao analista, no confronto com o seu corpus, lançar um dispositivo de análise que possa abarcar as especificidades de seus objetivos para aquele momento da pesquisa. A partir do reconhecimento do seu objeto e dos seus objetivos momentâneos, o analista irá cotejar o discurso que pretende analisar, aos conceitos teóricos. Trata-se de uma seleção individual, como afirma Maingueneau (2007, p. 26), “Onde houver enunciados, enunciados sobre esses enunciados, ad libitum, cada um tem sempre o direito de traçar os limites de um terreno de investigação conforme seja conveniente.” Desta forma, há uma ligação entre a descrição do corpus e a construção do arcabouço teórico que irá ancorar os gestos de interpretação possíveis para aquele recorte. Não é possível, desta forma, uma compreensão do analista que não seja mediada constantemente pela intermitência entre a descrição e a teoria que constituem o processo de estudo. Para esta pesquisa, escolheu-se apresentar os conceitos iniciais que irão constituir o dispositivo de análise; contudo, não se pretendeu, e nem seria possível, esgotar tais elementos, pois entende-se que, através da leitura do corpus, os conceitos ganham força e vida. Acreditase, porém, ser necessário um breve panorama destes conceitos, já que adentrar no corpus propriamente será aprofundá-los. 52 Assim, além dos conceitos-chave em AD, que já foram elencados anteriormente (sujeito, discurso, FD e interdiscurso), somam-se os conceitos de ethos e polifonia, que na nossa concepção auxiliarão na identificação e análise das estratégias de construção de sentido e de constituição dos múltiplos sujeitos na peça “O Rei da vela”, como proposto inicialmente. 3.3.1 O conceito de ethos Os anos 80 marcaram uma reflexão aprofundada, em relação ao discurso, ocasião em que Maingueneau (1997, 2001, 2006) traz a problemática do ethos retórico, empreendido por Aristóteles, na Grécia antiga, aliada a uma perspectiva da Pragmática e da Análise do Discurso, traçando o que se veio a conhecer por ethos discursivo. Esse empenho encontra justificativa com o avanço das mídias visuais, sobretudo, a publicidade, que se vale dessa elaboração de um corpo imaginário, através do discurso como estratégia, e do crescente interesse trazido pela AD em confrontar língua, sujeito, história e ideologia, percebendo, através do discurso, como há a constituição de uma imagem de si. Trabalhado por Aristóteles, o ethos retórico estava ligado à enunciação do locutor em face a um auditório, sendo a designação de uma “imagem de si que o locutor constrói em seu discurso para exercer uma influência sobre seu alocutário.” (CHARAUDEAU, 2006, p. 220). Assim, essa construção se daria porque o auditório atribuiria certas características ao locutor, através de seu discurso. Nesta concepção, A prova pelo ethos consiste em causar uma boa impressão por meio do modo como se constrói o discurso, em dar de si uma imagem capaz de convencer o auditório ao ganhar sua confiança. O destinatário deve assim atribuir certas propriedades à instância apresentada como fonte do evento enunciativo. (MAINGUENEAU, 2006b, p. 267) A fim de conseguir tal feito, na Retórica, o orador deveria articular três características básicas: phronesis, ou prudência, areté, ou virtude, e eunóia, ou benevolência. O importante seria a imagem que o auditório formaria de seu orador, em relação aos seus traços de caráter, revelados no momento da enunciação. Inúmeros estudiosos trouxeram pontos somatórios para a concepção do ethos, mas a “integração desse termo às ciências da linguagem encontra uma primeira expressão na teoria polifônica da enunciação de Oswald Ducrot” (AMOSSY, 2005, p. 14). Partindo da enunciação, tal teórico expropõe que há uma distinção entre o locutor, enquanto enunciador, e o locutor enquanto ser no mundo, que diferenciaria também o mostrar e o dizer. É o enunciado que revela os autores da enunciação, por isso era necessário não confundir as 53 instâncias internas do discurso com o ser empírico que se situaria fora da linguagem. A pragmático-semântica, disciplina à qual Ducrot estava vinculado, se interessava por essa instância discursiva que se revelava através do seu discurso, formando uma imagem, no entanto, Ducrot não aprofundou essa reflexão sobre o ethos. Neste contexto, Maingueneau (2001) começa elaborar essa noção atrelada à construção da imagem de si no discurso, em seus trabalhos de Pragmática e Análise do Discurso. Ainda numa perspectiva interativa entre locutor (enunciador) e público (coenunciador), ele coloca que o ethos se constrói em uma imagem passada e, também, apreendida pelo público. Deste modo, É insuficiente ver a instância subjetiva que se manifesta por meio do discurso apenas como estatuto ou papel. Ela se manifesta também como voz, e, além disso, como corpo enunciante, historicamente especificado e inscrito em uma situação, que sua enunciação ao mesmo tempo pressupõe e valida progressivamente. (MAINGUENEAU, 2005, p. 70) Seria necessário, para tanto, a construção de uma espécie de quadro, através da enunciação, para legitimar o discurso que se constrói nessa interação, o que Maingueneau chamou de cena da enunciação. Para ele, enunciar não seria apenas expressar seu discurso, mas também tentar construir e legitimar o seu dizer através deste quadro chamado de cena da enunciação. O locutor deve dizer construindo o quadro desse dizer, elaborar dispositivos pelos quais o discurso encena seu próprio processo de comunicação, uma encenação que é parte integrante do universo de sentido que o texto procura impor. A situação de enunciação não é, com efeito, um simples quadro empírico, ela se constrói como cenografia por meio da enunciação. [...] O discurso implica uma certa situação de enunciação, um ethos, código linguageiro através dos quais se configura um mundo que, em retorno, os valida por seu desenvolvimento. (MAINGUENEAU, 2006b, p.47) Maingueneau não descarta, contudo, que essa noção é um tanto problemática, já que, por estar ligada à enunciação, por exemplo, não se pode descartar as imagens prévias que o público tem antes mesmo de entrar em contato com o enunciador. Ele coloca em jogo a questão do ethos discursivo e do ethos pré-discursivo, e cita exemplos específicos que desestabilizariam as possíveis certezas, como no caso de um romance de autor desconhecido pelo grande público. Ele coloca, também, a relação entre os gêneros escolhidos e os posicionamentos ideológicos, já que, por ser uma noção que interage com diversos fatores, pode-se falar em indução. Além disso, ele traz a questão dos elementos exteriores, que podem contribuir para esta noção, e também a ideia de que muitas vezes o ethos visado não corresponde ao produzido. 54 Diante disso tudo, Maingueneau (2006b, p. 60) afirma que “Não é de forma alguma possível estabilizar definitivamente uma noção desse tipo, que é mais adequado apreender como núcleo gerador de uma multiplicidade de desenvolvimentos possíveis.”, mas que é importante se traçar as características básicas dessa noção, a saber: é uma noção discursiva, ou seja, é construída por intermédio do discurso; é um processo interativo de influência sobre o outro; é uma noção híbrida que não pode ser apreendido fora da situação de comunicação. A formação de uma imagem positiva de si, através do discurso, articula-se à noção de adesão, por meio da qual o co-enunciador se sente impelido a manter uma relação de confiança com o locutor. Instaura-se, ai, uma noção de fiador do discurso, que seria uma espécie de tom específico, que permitiria relacionar a uma caracterização de corpo do enunciador (discursivo) que atesta o que é dito. Esse fiador incorporaria um caráter – comportamento em relação ao espaço social – e uma corporalidade específicos, a partir do ato enunciativo. Seria esse tom específico que tornaria possível traçar uma dimensão da identidade e do posicionamento discursivo. De acordo com Maingueneau (2001, p. 99), O poder de persuasão de um discurso consiste em parte em levar o leitor a se identificar com a movimentação de um corpo investido de valores socialmente especificados. A qualidade de ethos remete, com efeito, à imagem desse fiador que, por meio de sua fala, confere a si próprio uma identidade compatível com o mundo que ele deverá construir em seu enunciado. A opção que Maingueneau faz, portanto, é por um ethos encarnado, que se constrói na dimensão verbal, que ganha um corpo e um caráter através da imagem desse fiador, que o articula às representações coletivas. Essa articulação a estereótipos faz com que o leitor ultrapasse a simples identificação a uma personagem e chegue ao mundo ético. A construção do ethos se dá, assim, por meio de um apoio recíproco entre a cena da enunciação (da qual o ethos participa) e do conteúdo apresentado, que se articula a fim de montar uma imagem acerca do enunciador. A maneira de dizer, segundo Amossy (2005), possibilita a construção de uma verdadeira imagem de si a partir do momento em que articula a inter-relação entre o locutor e seu parceiro através de diversos índices discursivos. 3.3.2 O conceito de Polifonia Em meados de 30, pensar a língua, a linguagem e a própria comunicação, reduzia-se, muitas vezes, a seguir os caminhos já palmilhados por Saussure e os formalistas. Em meio a uma linguística imanente, que percebia a língua como um sistema abstrato e ideal, distante da 55 interação real da comunicação, Bakhtin (1929), pensador russo, junto a Voloshinov e Medvedev, começou a refletir sobre a linguagem a partir de outros pressupostos: a interação e a enunciação. Partindo de uma ideia de que a abordagem da língua e do discurso não pode se dar de forma interna, exclusivamente, como os tributários do chamado objetivismo abstrato acreditavam, e nem de maneira exclusivamente externa, como pregavam os partidários do subjetivismo idealista, Bakhtin propõe uma abordagem mediativa entre essas duas dimensões, como uma forma de conhecer o homem e sua condição de sujeito múltiplo, bem como seu lugar na História, na cultura e na sociedade, através da linguagem. Em um contexto histórico conturbado, dialogando com estudiosos das áreas da Sociologia, Antropologia e Literatura, Bakhtin começa a perceber a língua em seu aspecto discursivo, e, desta forma, “influenciou ou antecipou as principais orientações teóricas dos estudos sobre o texto e o discurso desenvolvidos, sobretudo, nos últimos trinta anos.” (BARROS, 1997, p. 27). Ele iniciou, desse modo, uma reflexão sobre alguns conceitos da Linguística moderna ao passar a perceber a língua como um fato social, reflexo ideológico, bojo da interação entre os sujeitos. É em uma percepção de alteridade, própria das ciências humanas, que o teórico russo irá conceber que a linguagem é dialógica por natureza, já que o outro é imprescindível no processo de construção de sentido. Passa-se a uma visão da linguagem como interação, em que o outro desempenha um papel basilar na constituição dos significados, integrando-se o ato de enunciação individual a um contexto mais amplo, trazendo à tona as relações estreitas entre o linguístico e o social. Todo signo, como sabemos, resulta de um consenso entre indivíduos socialmente organizados no decorrer de um processo de interação. Razão pela qual as formas do signo são condicionadas tanto pela organização social de tais indivíduos como pelas condições em que a interação aparece. [...] Realizando-se no processo da relação social, todo signo ideológico, e portanto também o signo linguístico, vê-se marcado pelo horizonte social de uma época e de um grupo social determinados. (BAKHTIN, 1981, p.44) Como característica essencial da linguagem, o princípio dialógico traria a perspectiva de que nenhuma palavra é totalmente propriedade de alguém, por trazer em si a presença de outra voz, percebida, às vezes, de forma anônima, distante. Considera-se, assim, que o dialogismo é a condição de existência do próprio discurso, pois ele constitui o texto como um conjunto de muitas vozes ou de muitos textos ou discursos, que se entrecruzam. A palavra passa a ser o lugar privilegiado para as manifestações da ideologia, uma espécie de arena de 56 vozes, onde haveria o confronto entre aquelas vozes que querem ser ouvidas por outras e querem demonstrar suas visões de mundo. Como afirma Brait (2003, p. 15): Tanto as palavras quanto as ideias que vêm de outrem, como condição discursiva, tecem o discurso individual de forma que as vozes – elaboradas, citadas, assimiladas ou simplesmente mascaradas – interpenetram-se de maneira a fazer-se ouvir ou a ficar nas sombras autoritárias de um discurso monologizado. Um discurso encontra o discurso de outrem e estabelece uma relação viva e intensa com ele, constituindo o sujeito que se enuncia em sujeito do discurso. Assim, a palavra veicula, de maneira privilegiada, a ideologia, sendo a língua a representação das relações e das lutas sociais. A palavra seria, então, construída através de uma multidão de fios ideológicos, que representariam as relações sociais, no processo de interação com o outro. Deste modo, “As relações dialógicas são um fenômeno quase universal, que penetram toda a linguagem humana e todas as relações e manifestações da vida humana, em suma, tudo o que tem sentido e importância” (BAKHTIN, 1997, p. 42), sendo o ponto articulatório entre sujeito, história e ideologia. Apesar de muitas vezes serem usadas como sinônimas, as palavras dialogismo e polifonia diferenciam-se no ponto em que esta última se instaura como uma estratégia discursiva, em um texto em que é possível perceber claramente a presença de muitas vozes. O diálogo é a condição da linguagem e do discurso, mas há textos polifônicos e monofônicos, segundo as estratégias discursivas acionadas. No primeiro caso, o dos textos polifônicos, as vozes se mostram. No segundo, o dos monofônicos, elas se ocultam sob aparência de uma única voz. Monofonia e polifonia de um discurso são, dessa forma, efeitos de sentido decorrentes de procedimentos discursivos que se utilizam em textos, por definição, dialógicos. Os textos são dialógicos porque resultam do embate de muitas vozes sociais: podem, no entanto, produzir efeitos de polifonia, quando essas vozes ou algumas delas deixam-se escutar, ou de monofonia, quando o diálogo é mascarado, e uma voz, apenas, faz-se ouvir. (BARROS, 2003, p. 6) Trazida por Bakhtin, a partir da análise dos romances de Dostoiévski, a noção de polifonia se liga à ideia de realidade em formação, de não acabamento, de uma natureza multifacetada que traduz a multiplicidade social, cultural e ideológica representada. Para ele, o autor de um romance polifônico não definiria os personagens apenas, mas deixaria que estes, através de suas enunciações, se revelassem num processo interativo muitas vezes não concordante com apenas uma voz. É a polifonia o ponto alto de um discurso, que se constrói através do diálogo de muitas vozes, que se olham de posições sociais e ideológicas diferentes, construindo o discurso no cruzamento desses pontos de vista. Como pontua Bezerra (2008, p. 198), “Polifonia é aquela multiplicidade de vozes e consciências independentes e imiscíveis 57 cujas vozes não são meros objetos [...] , mas os próprios sujeitos desse discurso, do qual participam mantendo cada uma sua individualidade caracterológica, sua imiscibilidade.” Tal noção abre a possibilidade de encarar a linguagem como esse processo interativo de diálogo, constante entre as diversas vozes, e suas cosmovisões em um dado momento histórico e um dado contexto social. O discurso passa a ser percebido não como um produto individual, mas como fruto de uma interação, antes de tudo, ideológica. A palavra seria, então, o fenômeno ideológico por natureza, demonstrando de forma pura e sensível as relações sociais. Por isso que, realizando-se no processo da relação social, todo signo ideológico, e, portanto também o signo linguístico, vê-se marcado pelo horizonte de uma época e de um grupo social determinado [...] A palavra revela-se, no momento de sua expressão, como produto da interação viva das forças sociais. (BAKHTIN, 1981, p. 66) A busca pela literatura, inicialmente com o gênero romanesco, se dá porque o teórico russo acredita que esta concentra um tipo especial de linguagem, que possibilita a visão de elementos obscurecidos por outros tipos de discurso. Buscando o texto, concebido como tecido organizado, unidade discursiva estruturada e contextualizada sócio-historicamente, ele percebe os diálogos que são travados entre o enunciador e o enunciatário, na interação verbal do espaço textual e nota que o sentido só é atingido através de diversas vozes que dialogam e/ou polemizam dentro do texto. Desta forma, nota-se que os textos são, em sua maioria, polifônicos, já que, como afirma Bronckart (1999) “nele se fazem ouvir várias vozes distintas”. As vozes aqui mencionadas seriam entidades que tomam para si (ou às quais são atribuídas) a responsabilidade do que é enunciado. A polifonia seria, pois, a realização mais concreta do posicionamento ideológico, pois é nela que as vozes dialogam e polemizam entre si, olhando de posições sociais diferentes. E é no cruzamento entre estes pontos de vista, que se delinea o discurso. “O discurso, forma histórica e falante, faz-se ouvir através de suas inúmeras vozes, dirige-se a um interlocutor e impõe uma atitude dialógica, a fim de que os vários sentidos, distribuídos entre as vozes, possam aflorar.” (BRAIT, 2003, p. 15) A ideia de que nenhuma palavra é propriedade de alguém, já que traz em si a perspectiva de outra voz, abriu diversas possibilidades de entendimento, sobretudo na Literatura, que há muito conhece o poder da palavra, perfazendo uma espécie de ritual, em que um sujeito se enuncia partilhando com os interlocutores um mundo de possibilidades. Seria o que se pode chamar de ação da linguagem, com a veiculação de representações, de conhecimentos outros, tais como os de gerações anteriores e/ou contemporâneas, em interface 58 com o espaço mental do interlocutor. Mostra-se aí o fato de que a compreensão é sempre dialógica, pois é imprescindível a presença do outro para entender e interferir no sentido. Segundo Bronckart (1999), as vozes assumem as formas mais concretas da realização do posicionamento e podem ser subdivididas em três categorias, quando se trata de um texto literário: vozes de personagens, vozes de instâncias sociais e vozes do autor empírico. Dessas, a primeira se definiria como sendo as vozes procedentes de seres humanos, ou de entidades humanizadas, envolvidos, na qualidade de agentes, nos acontecimentos ou ações que constituem o eixo temático de um segmento de texto. Sendo, portanto, a materialização de discursos reais, ou pelo menos verossimilhantes, aos que se configuram no mundo não literário. A segunda formulação do teórico propõe as vozes sociais, que seriam as “procedentes de personagens, grupos ou instituições sociais que não intervêm como agentes no percurso temático de um segmento de texto, mas que são mencionadas como instâncias externas da avaliação de alguns aspectos desse conteúdo.” (BRONCKART, 1999, p. 327) É importante ressaltar que, em alguns textos, como o objeto deste estudo, as vozes sociais são responsáveis por intervenções tão profundas que dissociá-las seria perder em muito a essência da mensagem. As vozes sociais seriam os “espectros” importantes que dão subsídios à construção dos temas, dos personagens, das falas. Como já foi citado, o homem, enquanto sujeito social carrega em si sua herança histórica e cultural; o personagem, como personificação desse homem, também a trará, sendo, portanto, impossível não reconhecer sua importância. As vozes sociais, que estão dispostas no texto, dão a possibilidade ao leitor de reconstruir um panorama histórico partindo do discurso. É no texto que se reconhecem os embates ideológicos de uma época, que talvez se perderiam se não houvesse a preocupação constante do autor de buscar externar essa vivência. É aí que se configura a última definição de voz proposta: a voz do autor. É ela que intervém comentando e avaliando aspectos que são enunciados e que, em muitos momentos, irá outorgar-se a responsabilidade do dizer, quebrando o ilusionismo, como propôs Oswald de Andrade. Através dessas vozes, que geram um compósito polifônico, o discurso se fará em luta direta na construção do sentido. A palavra seria “a arena onde se confrontam valores sociais contraditórios” (BAKHTIN, 1981, p. 14) e entendê-la em suas multifaces seria compreender também um sistema social. A língua, como expressão das relações de lutas de classes, seria o instrumento e o material para construção do sentido dentro do texto. 59 Nessa arena de vozes que é o texto, pode-se observar o caminhar das mudanças ideológicas, analisando as relações de forças, já que “cada signo ideológico é não apenas um reflexo, uma sombra da realidade, mas também um fragmento da realidade” (BAKHTIN, 1981,, p. 33). Desta forma, para o analista do discurso localizar os recursos linguísticos e nãolinguísticos da combinação e transmissão das vozes discursivas, observando de que forma a confluência significa a interpretação do discurso de outrem ou a manipulação da argumentação autoritária ou a subversão desse discurso, é bastante esclarecedor. Além de construir, através dos conceitos de ethos e polifonia, o arcabouço teórico mais específico para esta análise, é de extrema importância traçar, também, a especificidade do objeto sob o qual se debruça. Entender a natureza do texto teatral torna-se urgente, uma vez que é a partir deste entendimento que os elementos estruturais e estruturantes do discurso irão emergir, também configurando o quadro necessário ao analista. Sendo assim, escolheu-se o tópico a seguir para compor a especificidade do texto teatral. 3.4 O TEXTO TEATRAL E SUA ESPECIFICIDADE Alguns estudiosos consideram árdua a tarefa de ler o teatro, já que em sua gênese a representação seria um elemento necessário à completude dos sentidos, lacunar em sua própria essência. Supõem que a chave para o entendimento do texto teatral estaria fora dele, pois seria necessário estar familiarizado com técnicas de performance teatral ou com uma aguçada imaginação, para ativar a leitura e a construção dos sentidos. Entretanto, entende-se que, por ser uma prática textual muito específica, é necessário, antes de tudo, constituir um arcabouço teórico que dê conta de um compósito de linguagem tão particular. Dessa forma, recorre-se aos pressupostos da Linguística moderna, que possibilitam analisar o texto teatral enquanto prática de linguagem e não como prática de representação. Como pontua Ubersfeld (2005, p. XIII), A complexidade da prática teatral se situa na encruzilhada das grandes querelas modernas que permeiam a Antropologia, a Psicanálise, a Linguística, a Semântica e a História. [...] A Linguística é privilegiada no estudo da prática teatral, não apenas por causa do texto, principalmente o diálogo – uma vez que e a substância da expressão verbal, evidentemente – mas também por causa da representação. Assim, ativar os sentidos do texto seria compor uma leitura que se bastasse a si mesma, fora de qualquer representação, pois o texto em si seria o responsável por dar pistas na construção de mundos imaginários. 60 Ler o texto de teatro é uma operação que se basta a si mesma, fora de qualquer representação efetiva, estando entendido que ela não se realiza independentemente da construção de um palco imaginário e da ativação de processos mentais como em qualquer prática de leitura, mas aqui ordenados num movimento que apreende o texto „a caminho‟ do palco. (RYNGAERT, 1995, p. 25) Entender os mecanismos que compõem o texto dessa arte paradoxal tornou-se necessário àqueles que, de alguma forma, se enveredam pelos caminhos do dramático. Mas, afinal, como reconhecer a especificidade do texto de teatro? Será que reduzi-lo a um quadro de características não seria obscurecer a complexidade que envolve a composição de uma peça? É razoável considerar o texto teatral como uma extensão da conversação apenas? Texto literário e objeto representável; seria ilusão conceber que o texto possui a mesma composição que a interpretação. Em ambas, há a mobilização de diferentes linguagens que se combinam num todo e, por isso, é necessário estabelecer o que pertence a cada domínio. A especificidade do texto dramático passa pela combinação dos elementos de teatralidade, matizes textuais: os diálogos (falas) e as didascálias (textos que não se destinam a ser pronunciados nos palcos, mas que ajudam o leitor a compreender e a imaginar a ação e as personagens). Para distinguir esses elementos é necessário recorrer ao conceito de enunciação. Nas didascálias, quem se enuncia, marcadamente, é o autor. Nos diálogos, marcadamente as personagens. Desta forma, o texto teatral é passível de análise como qualquer outro objeto linguístico, a partir das regras da Linguística e do processo de comunicação. As didascálias, consideradas como metatexto, são responsáveis pela construção imaginária das cenas, das personagens, das ações, enfim, da atmosfera que permeia o texto. Na representação, são auxiliares importantes da cenografia e do figurino; na leitura, constituem um verdadeiro texto sobre o texto. Partindo do pressuposto de que “O teatro é antes de tudo diálogo, ou seja, nele a palavra do autor é mascarada e partilhada entre vários emissores. Essas palavras em ação assumidas pelas personagens constituem o essencial da ficção.” (RYNGAERT, 1995, p.12), analisa-se, neste momento, as características do diálogo teatral. Este assume a consistência de uma conversação orientada. Neste simulacro da conversação, um elemento característico e fundador do texto teatral seria a dupla enunciação, como revela Ubersfeld (2005, p.84) Todo discurso no teatro possui dois sujeitos na enunciação, a personagem e o eu que escreve (do mesmo modo que possui dois receptores, a outra personagem e o público). Esta lei do duplo sujeito da enunciação é um elemento capital do texto de teatro: é ai que se situa a fenda inevitável que separa a personagem de seu discurso e a impede de se constituir em sujeito verdadeiro de sua fala. Uma personagem, cada 61 vez que fala, não fala sozinha, pois o autor fala ao mesmo tempo por sua boca; daí um dialogismo constitutivo do texto de teatro. Partindo disso, uma análise dos diálogos teatrais não pode deixar de mencionar a dupla enunciação do seu texto, definida como a relação entre os eixos internos e externos da composição. Quando um personagem fala, faz isso em seu estatuto de personagem, ou seja, o faz em seu próprio nome, mas através do processo de dupla enunciação o faz porque o autor o faz falar. Assim, A comunicação teatral não opera exclusivamente no eixo interno da relação entre os indivíduos, mas também, ou principalmente, no eixo externo entre o Autor e o Leitor/ público, através de uma cadeia de emissores. O que é chamado de dupla enunciação no teatro. Na comunicação mais imediata, um ator fala a um ator, assim como na vida ordinária um emissor conversa com um receptor. Mas esses atores são apenas a expressão de uma troca situada desta vez ao nível da ficção, em que uma personagem conversa com outra personagem. Por trás das personagens encontra-se o verdadeiro emissor de todas essas falas, o autor, que se dirige ao público. O público tem, portanto, o estatuto de destinatário indireto, pois é a ele, em última instância, que todos os discursos são dirigidos, ainda que raramente o sejam de maneira explícita. (RYNGAERT, 1995, p.109) De forma esquemática, seria: Dupla enunciação eixo interno (entre personagens) + eixo externo (entre autor/ leitor-público) 1) Comunicação imediata Ator Ator Emissor receptor 2) Ficção Personagem Personagem (destinatário direto) Autor Público (destinatário indireto) Tudo o que é dito é destinado a produzir sentido e no texto teatral não é diferente. Ele busca, na fala, seu alimento, a partir de estratégias de informação, ou seja, na seleção e organização do autor em prol de um destinatário maior: o público. Assim, é através da enunciação, como se concebe em Benveniste, que se estrutura uma peça que, fora da situação de comunicação não possui sentido, só esta situação, ao permitir o estabelecimento das condições de enunciação, confere ao enunciado seu sentido. 62 Deste modo, “Ler o discurso teatral é, à falta da representação, reconstruir imaginariamente as condições de enunciação, as únicas que permitem promover sentido.” (UBERSFELD, 2005, p. 158). Pode-se, assim, considerar que há um jogo nos diálogos que imputam a necessidade de atribuir um lugar aos parceiros da enunciação, através do compartilhamento dos rituais de comunicação. Na constituição do discurso teatral haveria, portanto, “duas camadas textuais distintas (dois subconjuntos do conjunto textual): uma que tem como sujeito imediato da enunciação o autor e que compreende a totalidade das didascálias, outra que investe o conjunto do diálogo e que tem como sujeito mediato da enunciação uma personagem.” (UBERSFELD, 2005, p.159), ligadas a diferentes situações de comunicação, uma concreta (a situação cênica) e outra imaginária. Na medida em que o discurso teatral é o discurso de um sujeito scriptor, ele é o discurso de um sujeito imediatamente destituído de seu Eu, de um sujeito que se nega como tal, que se afirma como quem fala pela voz de um outro, de muitos outros, como quem fala sem ser sujeito: o discurso teatral é um discurso sem sujeito. Discurso sem sujeito, mas que investem duas vozes, dialogando: é a primeira forma, rudimentar, de dialogismo no interior do discurso teatral. (UBERSFELD, 2005, p. 168) O falar no teatro não pode ser igualado ao falar ordinário, já que este não se organiza a partir de uma instancia maior, o autor, mas o que é possível é percebê-lo em suas nuanças enunciativas, como um simulacro da conversação ordinária. Pode-se, portanto, afirmar que neste processo de dupla enunciação que é o texto teatral, o discurso seria um canal privilegiado, por onde trafegam ideologias, já que o mascaramento dessa mesma ideologia se dá apenas no plano ilusório. É no texto teatral, através do simulacro, que é a fala do personagem e as didascálias, que a instância enunciadora, o autor, se utiliza deste espaço privilegiado na construção do seu dizer. O autor do discurso teatral, neste processo de dupla enunciação, se confunde com o eu enunciador personagem. 63 4 CONSTRUÇÃO DOS BLOCOS DE ANÁLISE Ao se trabalhar com o discurso, é necessário, antes de construir a análise, traçar os caminhos que levaram ao objeto e que permitiram colocá-lo em seu lugar de recorte analisável. Essa manobra consiste em pôr o elemento linguístico à distância e fixar os instrumentos e os recortes de análise de acordo com um itinerário único, concernente à formação do pensamento linguístico que se almeja. Como diz Charadeau (2008, p.15), “essa herança passa pelo sujeito que produz a teoria ou a fala, o que significa reafirmar que há tantos percursos históricos quanto forem os sujeitos que teorizam” Com isso claro, sabe-se que, ao propor uma análise está se produzindo um novo texto a respeito de outro texto que depende, por sua vez, de outro texto e assim infinitamente, de forma que a análise que se inicia é apenas uma escolha, diante de tantas possibilidades do “território-lugar-do-meu-pensamento-lugar-no-qual-eu-vou-me-construir” (CHARADEAU, 2008, p. 16). Buscando Barthes, ele diz em S/Z (2003) que produzir uma análise de um texto é entender que esse eu que se aproxima do texto, já é, ele mesmo, uma pluralidade de outros textos. Assim, ao buscar o texto teatral, enquanto objeto de estudo, tenta-se encará-lo como realidade discursiva, fruto de condições de produção específicas, as quais já foram definidas em capítulos anteriores. Tentar-se-á, portanto, uma nova leitura. Quando setrabalha com o texto literário e se afasta de uma análise estritamente literária, sem excluí-la, obviamente, está se traçando caminhos, pelos meandros da linguagem e do discurso, que auxiliarão a compor um novo texto, um novo olhar. Partindo dessa realidade, buscar-se-á compor os blocos de análise da peça “O Rei da Vela” a partir de duas escolhas distintas, porém imbricadas: o primeiro caminho será tecer um recorte a partir do personagem Abelardo I. Essa opção se justifica por considerar Abelardo I como personagem síntese e também porque seu discurso, em forma de suas falas/enunciações, podem ser considerados porta-vozes de discursos múltiplos, que trafegam no interior da peça. Basicamente, as análises que se fincam em tal personagem terão como base o 1º ato, pois considera-se que neste momento da peça o foco é descrevê-lo e construir sua imagem. Como já esboçado anteriormente, a peça não possui um protagonista, propriamente (suspeita-se, inclusive, que os discursos da peça sejam o principal), mas percebe-se que, o fato de Abelardo I circular em todos os momentos da peça e por ser ele, muitas vezes, elemento de desestabilização, pode-se considerá-lo como nodal. Desta forma, serão recortados alguns 64 trechos em que Abelardo I se enuncia, a fim esboçar as estratégias discursivas mobilizadas para a construção desse sujeito enunciador e de seu ethos. A composição dos outros blocos de análise se dará em torno da recorrência temática nas falas das personagens. Este cotejamento será parte do processo de construção da identificação das representações sociais que são refletidas e refratadas na peça. Desta forma, serão recortados em dois grandes temas: instituição familiar e luta de classes, pois julga-se serem representações bastante marcadas ao longo da peça. Tais análises se fincarão, respectivamente, no 2º e no 3º atos. Como traçado no primeiro capítulo, “O Rei da Vela” traz, em seu bojo, uma relação estreita com os acontecimentos da São Paulo de 30 e do mundo, de modo que falar de revolução proletária e as novas configurações da sociedade se tornam uma constante na obra. Antes de iniciar a leitura de Abelardo I e dos outros pontos recortados da peça, julgase necessária uma breve análise de alguns elementos marcados, sobretudo, pelas didascálias. Como já dito em tópico anterior, são as didascálias que constroem o universo ao redor da ação dos personagens, destinadas ao público leitor. Elas tornam-se responsáveis também pelas múltiplas leituras possíveis de “O Rei da Vela”. São elementos externos e físicos que proporcionam um panorama visual de algumas relações sociais, ideológicas e artísticas, que compreendem a criação da atmosfera e do cenário da peça. É interessante retomar que a peça deve ser vista como parte de um processo de desconstrução das máscaras que compõem o nacionalismo econômico dos anos 30. Chama-se de máscaras a construção de um nacionalismo econômico, como uma ideologia voltada para o futuro, comum na Era Vargas, em que o incremento econômico está estreitamente ligado aos interesses de classe e não aos ideais verdadeiramente nacionais, com o se propõe a ideia de nacionalismo. O programa de Vargas, no Estado Novo, assumiu os argumentos do nacionalismo econômico como parte de sua política oficial, em particular, no que diz respeito à estatização e à intervenção na economia. Percebe-se, com estas referências, que a estrutura interna da peça relaciona-se com as condições históricas e sócio-econômicas, mas que o fazem, principalmente, por meio de um amplo processo de técnicas vanguardistas, como a paródia escancarada e a caricatura. Ela trata de um tempo e de um lugar específicos – São Paulo e Rio de Janeiro na década de 30 –, mas sem esgotá-los, pois a peça não consegue ser confinada em seu tempo, uma vez que quando ganha corpo, na década de 60, torna-se precursora de concepções próprias da teoria da dependência, num raro processo de atualização. 65 Analisando o primeiro cenário, há o escritório de agiotagem de Abelardo I, que constitui o primeiro extrato do que, depois, irá cristalizar-se numa hierarquia de exploraçãodominação estrangeira sobre a burguesia local, e esta sobre o proletariado local (urbano e rural), evidenciando setores totalmente degradados pela crise. Os elementos de cena percebidos no primeiro ato incluem, entre outros elementos, um retrato da Gioconda, um divã futurista, uma secretária Luis XV, um telefone, um castiçal de latão e um mostruário de velas de todos os tipos e tamanhos. Essa perspectiva leva a “ler” o retrato de um Brasil que tem os olhos voltados para o futuro (como a marcação do divã futurista, elemento representativo das novas teorias freudianas e da conflagração da aristocracia com o novo), enquanto permanece no passado (como mostra a secretária Luis XV). Há também um elemento utilizado para representar o encarceramento do Brasil ao capitalismo externo e interno – uma sala de espera em forma de jaula, onde ficam os devedores. Já o segundo ato, transcorre numa ilha tropical na Baía de Guanabara, perto do Rio de Janeiro. Há pássaros exóticos, palmeiras, uma praia e “personagens que se vestem pela mais furiosa fantasia burguesa e equatorial” (ANDRADE, 2003, p. 65). Há ainda barulho de lanchas, móveis mecânicos e uma bandeira norte-americana hasteada. Tais elementos constituem uma paródia dos costumes brasileiros marcados por um exotismo, atrelados a uma tecnologia e a um pensar, muitas vezes norte-americano. Com elementos cênicos de um hospital, o terceiro ato se desenrola no mesmo cenário do primeiro. Este ponto simboliza a queda de um rei da vela e ascensão de outro (no caso Abelardo II). A vela, constante nos cenários e no próprio título da peça, pode ter variados valores simbólicos. Inicialmente, o valor da vela é econômico. Em virtude da crise do café, a companhia de eletricidade se viu em quase falência e a vela voltou a ser utilizada. Abelardo I abasteceu o mercado de velas tornando-se o rei da vela. Nesta mesma análise, a vela estaria associada às ideias de regressão ao feudalismo, ao semicolonialismo e ao subdesenvolvimento. Abelardo representaria, neste contexto, o pequeno especulador, que se situa perto da base na hierarquia de exploração. No vértice, estaria o imperialismo. A vela seria síntese de uma visão radical de um período marcado por profundas crises econômicas. Passando dessa análise, baseada no fundamento econômico, pode-se considerar a vela como sugestivo de temas ligados às classes sociais. Abelardo I, graças ao dinheiro adquirido em seu comércio de velas e em sua casa de usura, irá se casar com Heloisa, representante da 66 aristocracia cafeeira, e é tratado, nessa mesma família, como o rei da vela. Contudo, também é considerado arrivista, intruso. Mais adiante, este novo rico é destruído pelo próprio sistema de exploração que ajudou a manter. Assim, a vela torna-se símbolo de morte, velório e por fim vala, que é o destino final de Abelardo I, no último ato: ABELARDO II – Está morrendo. A minha vida começa! ABELARDO I – A val...a.. ABELARDO II – Compreendo. A vala comum... Não ficou nada. Nem para o enterro nem para a sepultura. A casa ia mal há um tempo. Coitado! ABELARDO I – A val...a.. ABELARDO II – O quê! Quer alguma coisa? Que dê o sinal do crime? Não, é cedo ainda. ABELARDO I – Não... (Mostra com sinais alguma coisa que deseja) ABELARDO II – O telefone! Não. Um copo d‟água? ABELARDO I – (num esforço enorme) A vela! ABELARDO II – Ahn! Quer morrer de vela na mão? O Rei da Vela. Tem razão. (Abre o mostruário. Tira uma velinha de sebo, a menor de todas. Acende-a) Não quer perder a majestade. Vou pôr naquele castiçal de ouro! A vela é o símbolo da morte individual, mas também passa a ser símbolo da morte coletiva dos ideais de uma classe. É a vela com valores cíclicos, já que com a morte do I, o Abelardo II passa a ocupar todo o espaço deixado pelo seu antecessor, inclusive com direitos sobre a noiva, Heloisa. Constitui-se um ciclo imutável da história dos países que vivem sob o jugo do imperialismo e das classes arrastadas pela correnteza dessa nova conjuntura dada pelos norte-americanos. Percebe-se, neste trecho, como há a construção do discurso a partir de traços interdiscursivos, pois ultrapassam-se os limites do individual e passa-se a entender as colocações como parte da marcação ideológica de um período. Como revela o próprio Abelardo I, em diálogo com a noiva Heloisa: ABELARDO I – [...] Descobri e incentivei a regressão, a volta à vela...sob o signo da capital americano. HELOÍSA – E ficaste o Rei da Vela! ABELARDO I – Com muita honra! O Rei da Vela miserável dos agonizantes. O Rei da Vela de sebo. E da vela feudal que nos fez adormecer em criança, pensando nas histórias das negras velhas... Da vela pequeno-burguesa dos oratórios e das escritas em casa... As empresas elétricas fecharam com a crise... Ninguém mais pode pagar o preço da luz... A vela voltou ao mercado pela minha mão previdente. Veja como eu produzo de todos os tamanhos e cores (indica o mostruário). Para o mês de Maria das cidades caipiras, para os armazéns do interior onde se vende e se joga à noite, 67 para a hora de estudo da crianças, para os contrabandistas no mar, mas a grande vela é a vela da agonia, aquela pequena velhinha de sebo que espalhei pelo Brasil inteiro... Num país medieval como o nosso, quem se atreve a passar nos umbrais da eternidade sem uma vela na mão? Herdo um tostão de cada morto nacional. (2º ATO, p.63) Ao listar as inúmeras utilizações de suas velas, Abelardo constrói uma imagem de que o Brasil continua imerso em atraso profundo. Reforça esta ideia através das marcações lexicais “feudal”, “interior”, “cidades caipiras”. Ele conclui com a própria constatação “Num país medieval como o nosso” sobre o uso da vela de maneira que se formula a hipótese de atraso. Além disso, estabelece a relação de explorador-explorado, ao afirmar que seu negócio se ergueu sobre a desgraça daqueles que ainda se ligam às tradições de outrora. Há, como se pode perceber, um deslizamento do discurso do capitalista burguês para os elementos que marcam um homem passadista. De forma análoga, Abelardo se vê adiante do seu tempo (“mãos previdentes”), mas preso a um passado colonial. 4.1 ABELARDO I Como já pontuado anteriormente, considera-se Abelardo I como elemento nodal para o entendimento da peça. Ele, que será analisado nesse momento, é um agiota, dono de uma casa de usura, e um novo rico, em ascensão, em meados de 30. Seu poder financeiro não lhe concedeu acesso ao mundo aristocrático ainda predominante na São Paulo do início do século. Para tanto, busca, através do casamento com Heloisa, filha de um latifundiário falido, uma posição social de destaque. É um exemplo bastante representativo da busca burguesa pelo poder do status quo no contato com os nobres depostos. Percebe-se, e isso é um ponto constituinte da análise, que o nome de Abelardo I, ligado ao de Heloisa, faz reconhecer uma famosa história de amor medieval do Ocidente, em que a impossibilidade do amor faz o casal superar barreiras sociais e culturais para viver sua história. Na famosa história de amor medieval, o casal era marcado pela tragédia de castração e morte. Nesta história de agora, o casal também é marcado pela tragédia, mas surge em uma tragédia atualizada aos moldes do Brasil de 30: um novo rico, que precisa de uma posição social, somente dada pela possibilidade de um casamento por interesse, com uma representante da oligarquia cafeeira paulista. Um casamento sem amor, em que os cônjuges, 68 abertamente, sabem fazer parte de um negócio. Ao se referir ao casamento, no momento de sua derrocada, Abelardo I sentencia a Heloisa: “ABELARDO I – Terás que procurar outro corretor... Você sabe... Nos casávamos para você pertencer mais à vontade ao Americano [...] A impossibilidade do amor, que é vital na primeira história, realiza-se em “O Rei da Vela” pelo fato de Abelardo I morrer e deixar Heloísa, como parte de suas posses, para Abelardo II, seu sucessor, e este, por sua vez, por conceder o „direito da pernada‟ ao americano Mister Jones. Em um processo paródico, há a desconstrução do amor romântico da primeira história e ascensão de um casamento fincado no interesse mútuo. Nesta relação intertextual, ressoam as vozes da antiga história, quando Abelardo sentencia: “Heloisa sempre pertencerá a Abelardo. É clássico!” (p. 97), este processo de ativação da memória discursiva leva ao processo de desmoronamento dos ideais do amor. Sabe-se que a AD introduz, por meio da noção de sujeito, a noção de ideologia e de situação sócio-histórica como reflexões sobre as relações sociais, mostrando o discurso não só como transmissor de informações, mas como efeito de sentido entre locutores. Desse modo, aquilo que é dito não é resultado apenas da intenção de um indivíduo em informar o outro, mas da relação de sentido estabelecida por eles num contexto social e histórico. Como se adotou como referência esta linha de pensamento, entende-se como primordial a relação da linguagem com a exterioridade, entendida como condição de produção do discurso. A partir disso, percebe-se como a paródia, construída sob o amor romântico, funciona como elemento de desconstrução de paradigmas arraigados no imaginário de todo um grupo social: o casamento – instituição sagrada e célula da família – passa a ser concebido como elemento de valor de troca, em negócios rentáveis para grupos distintos: a família de Heloisa lucrará, pois mesmo diante da falência trazida pela quebra da Bolsa de 29, não abandonará o luxo e a riqueza a que se acostumou; Abelardo I, arrivista social, lucrará também, pois conseguirá, enfim, o brasão que tanto deseja para poder, sem receios, fazer parte de uma elite. É a derrocada do amor romântico e a ascensão do amor dinheiro. Maingueneau (2006, p. 266), ao destacar que “O texto não se destina à contemplação, sendo em vez disso uma enunciação ativamente dirigida a um co-enunciador que é preciso mobilizar a fim de fazer aderir „fisicamente‟ a um certo universo de sentido.”, traz à tona algumas noções discursivas importantes para a construção desta análise e a busca em torno da constituição dos múltiplos sujeitos, como ethos e adesão. Adentrando a peça “O Rei da Vela”, percebe-se que a construção de Abelardo I é tecida sobre elementos que se imbricam e se afastam mutuamente, construindo-o enquanto 69 homem que se faz na confluência das divergências do seu próprio tempo. Ele é múltiplo, apesar de considerar e se „enunciar‟ uno. Observando trechos em análise, pode-se perceber que isso se materializa, claramente, na enunciação de Abelardo I, quando este, ao revelar-se e construir-se identitariamente tenta, também, mobilizar o leitor em sua visão de mundo. Partindo do pressuposto de que “Também no discurso literário o ethos desempenha um papel de primeiro plano, dado que, por natureza, visa a instaurar mundos que ele torna sensíveis por seu próprio processo de enunciação.” (MAINGUENEAU, 2005, p. 88), é perceptível como o discurso de Abelardo I e a imagem construída de si, na sua própria enunciaçã, alia-se à constituição da identidade de um homem atrelado aos valores de sua época e atento ao seu tempo. No primeiro ato, que é reservado para mostrar como esse personagem opera seus negócios, as primeiras cenas revelam o contato com os seus credores, um cliente de nome Manoel Pitanga de Moraes, outros marcados pelo nome de vozes, clientes representados por suas nacionalidades (um italiano, uma francesa, um russo branco, um turco); com o seu fiel auxiliar Abelardo II e com um padre que lhe faz uma ligação. Na primeira cena, o cliente Manoel Pitanga recorre, novamente, aos serviços de empréstimos oferecidos pela casa de Abelardo I. Ele pede que o usurário reconsidere a dívida que mantém há anos com o escritório. Abelardo I, por sua vez, argumenta a impossibilidade disso. Após analisar a situação do cliente, inicia a conversa. É na confluência desse diálogo com o cliente que se inicia o delineamento dos múltiplos sujeitos através de Abelardo I. a) Trecho 01 (página 39/40) ABELARDO I - Traga o dossiê desse homem ABELARDO II - Pois não! O seu nome? O CLIENTE (Embaraçado, o chapéu na mão, uma gravata de corda no pescoço magro)- Manoel Pitanga de Moraes. ABELARDO II - Profissão? O CLIENTE - Eu era proprietário quando vim aqui pela primeira vez. Depois fui dois anos funcionário da Estrada de Ferro Sorocabana. O empréstimo, o primeiro, creio que foi para o parto. Quando nasceu a menina... ABELARDO II - Já sei. Está nos IMPONTUAIS. (Entrega o dossiê reclamando e sai) – ABELARDO I (Examina) - Veja! Isto não é comercial, seu Pitanga! O senhor fez o primeiro empréstimo em fins de 29. Liquidou em maio de 1931. Fez outro em 70 junho de 31, estamos em 33. Reformou sempre. Há dois meses suspendeu o serviço de juros... Não é comercial... O CLIENTE - Exatamente. Procurei o senhor a segunda vez por causa da demora de pagamento na Estrada, com a Revolução de 30... Foi um mau sucesso que complicou tudo... – ABELARDO I - O senhor sabe, o sistema da casa é reformar. Mas não podemos trabalhar com quem não paga juros... Vivemos disso. O senhor cometeu a maior falta contra a segurança do nosso negócio e o sistema da casa... O CLIENTE - Há dois meses somente que não posso pagar juros. – ABELARDO I - Dois meses. O senhor acha que é pouco? O CLIENTE - Por isso mesmo é que eu quero liquidar. Entrar num acordo. A fim de não ser penhorado. Que diabo! O senhor tem auxiliado tanta gente. É o amigo de todo mundo... Por que não há de fazer um acordo? – ABELARDO I - Aqui não há acordo, meu amigo. Há pagamento! Analisando esta primeira passagem, é possível delinear duas faces que se mesclam na constituição do ethos da Abelardo I: de um lado, alguém compreensivo apto a ajudar, que se traveste da instituição que representa a fim de justificar seus atos; de outro, alguém pouco amistoso, preocupado apenas com o valor do capital. São essas duas faces que, de forma amalgamada, comportam a justificativa quase dramática (“O senhor sabe, o sistema da casa é reformar. Mas não podemos trabalhar com quem não paga juros... Vivemos disso”) e a sentença assertiva (“Aqui não há acordo, meu amigo. Há pagamento!”) lado a lado até o final da cena. Observa-se, através das marcações linguísticas, como na palavra “dossiê”, que a relação que se estabelece entre os sujeitos é de crime, uma vez que o cliente nega-se a pagar. Há uma espécie de armadilha discursiva porque quem se constrói como bom é Abelardo I, que empresta, que serve, que negocia, e não o cliente que está ali para um golpe. O sobrenome do cliente (Pitanga) guarda também uma significação interessante, pois dentro do nome (Pitanga), guarda-se a palavra “tanga” que, na época, era uma gíria para indicar a situação de quem era devedor. Como acredita-se que “Um sujeito ao enunciar presume uma espécie de „ritual social da linguagem‟ implícito, partilhado pelos interlocutores.” (MAINGUENEAU 1997, p.30), percebe-se que a construção da imagem de Abelardo I se dá também através da fala do cliente, que o julga “amigo de todo mundo”, por ser este o agiota mais procurado em toda a cidade e ser este o mais útil, nos momentos de angústia econômica por que passaram boa parte dos paulistas da década de 30. 71 Avançando um pouco mais na cena, o cliente solicita a Abelardo I uma pequena redução do capital; neste momento Abelardo argumenta, trazendo uma reflexão que deixa o cliente sem palavras. Neste pedaço da obra observa-se, inclusive, um léxico inquisitorial (executar), mas com certo tom de modernidade (fuzile). Pode-se entender tal processo como atualização da pena dos devedores. b) Trecho 02 (página 42) ABELARDO I – Me diga uma coisa, seu Pitanga. Fui eu que fui procurá-lo para assinar este papagaio? Foi o meu automóvel que parou diante do seu casebre para pedir que aceitasse o meu dinheiro? Com que direito o senhor me propõe uma redução no capital que eu lhe emprestei? O CLIENTE (Desnorteado) - Eu já paguei duas vezes... ABELARDO I - Suma-se daqui! (Levanta-se) Saia ou eu chamo a polícia. É só dar o sinal de crime neste aparelho. A polícia ainda existe... O CLIENTE - Para defender os capitalistas! E os seus crimes! ABELARDO I – Para defender o meu dinheiro! Será executado hoje mesmo. (Toca a campainha) Abelardo! Dê ordens para executá-lo! Rua! Vamos. Fuzile-o. É o sistema da casa. Como o “O ethos é fundamentalmente um processo interativo de influência sobre o outro.” (MAINGUENEAU, 2006b, p. 60), é através da imagem estereotipada de um agiota que a imagem de Abelardo e de seu discurso são ancorados. Para ele, seu trabalho é digno e limpo já que não houve uma tentativa de sedução por sua parte a fim de influenciar o homem a pedir dinheiro. Isso mostra como a construção de um mundo discursivo se apóia substancialmente em mundos já construídos, já alicerçados socialmente. No dizer de Foucault (2007), o discurso não é transparente nem neutro, ele é um reflexo do momento em que foi constituído, já que em toda a sociedade a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que têm por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu acontecimento aleatório, esquivar sua pesada e temível materialidade. (FOUCAULT, 2007, p. 9). Assim, é através da instituição, que Abelardo I representa (o universo dos usurários), que ele se enuncia e valida seu argumento. Não há possibilidade de ser diferente. Na relação que estabelece com o capital, Abelardo I, em um processo de argumentação sólida, vale-se do discurso da prestação de serviço e da oferta e procura, para convencer o devedor sobre a responsabilidade que este tem em relação à sua derrocada de dívidas. Ao 72 questionar o cliente, Seu Pitanga, Abelardo I constrói seu discurso sobre o discurso do capitalismo, já que um das bases de tal forma de manutenção econômica é a lei de mercado: se o cliente procurou, não há justificativa para não aceitar as condições estabelecidas pelo escritório de usura. Como no trecho em que questiona “Fui eu que fui procurá-lo para assinar este papagaio?”. Isso revela como o discurso de Abelardo, em consequência a sua construção, enquanto sujeito, está ancorado na premissa maior do discurso capitalista: a lei de mercado. Na cena subsequente, da qual participam apenas Abelardo I e seu empregado Abelardo II, o agiota revela como, para ele, a instituição familiar deve ser percebida e aceita e como encara seu casamento com Heloísa de Lesbos, filha de um aristocrata falido, vítima da crise de 29, ambos fincados nos ideais do capitalismo: c) Trecho 03 (página 43/44) ABELARDO I – [...] Não confunda seu Abelardo! Família é uma coisa distinta. Prole é de proletariado. A família requer a propriedade e vice-versa. Quem não tem propriedades deve ter prole. Para trabalhar, os filhos são a fortuna do pobre [...] Seu Abelardo, a família e a propriedade são duas garotas que frequentam a mesma garçonnière, a mesma farra...quando o pão sobra...Mas quando o pão falta, uma sai pela porta e a outra voa pela janela [...] Para nós, homens adiantados, que só conhecemos uma coisa fria, o valor do dinheiro, comprar esses restos de brasão ainda é negócio, faz vista num país colonial como o nosso! O senhor sabe que São Paulo só tem dez famílias? ABELARDO II - E o resto da população? ABELARDO I - O resto é prole. O que eu estou fazendo, o que o senhor quer fazer é deixar de ser prole para ser família, comprar os velhos brasões, isso até parece teatro do século XIX. Mas no Brasil ainda novo. Ethos de um homem de negócios, prático e calculista, Abelardo I sabe que precisa de uma posição social que ainda não possui, por ser um burguês ascendente, para se legitimar socialmente. Homem difuso, tem consciência do atraso, ao passo que se revela à frente do seu tempo, justamente por essa percepção. A metáfora do atraso anda lado a lado com uma imagem de um homem empreendedor que compreende plenamente o papel que quer e que deve assumir. Como se sabe, para a Análise do Discurso, “Assujeitar-se é condição indispensável para ser sujeito. Ser assujeitado significa antes de tudo ser alçado à condição de sujeito” (FERREIRA, 2005, p. 18), é assim que Abelardo I se constrói sujeito. Ao falar dos desvios sexuais atribuídos à família de Heloísa e a ela mesma, Abelardo encontra, na própria instituição familiar e na tradição aristocrática, uma justificativa, mostrase, assim, tendencioso, como revela seguinte passagem: 73 d) Trecho 04 (página 43) ABELARDO I – Coisas que se compreendem e relevam numa velha família! Heloísa, apesar dos vícios que lhe apontam. Você sabe, toda gente sabe. Heloísa de Lesbos! Fizeram piada quando comprei uma ilha no Rio, para nos casarmos. Disseram que era na Grécia. Apesar disso, ela ainda é a flor mais decente dessa velha árvore bandeirante. Uma das famílias fundamentais do Império. A diminuição do fato, perante a importância da tradição familiar, como mostra o trecho, coaduna com um trecho anteriormente dito por Abelardo I, quando afirmava que uns restos de brasões ainda faziam vista num país colonial, confirmando a construção de uma identidade permissiva e volúvel que se faz na confluência de um jogo de interesses. e) Trecho 05 (página 49/51) ABELARDO II (atendendo)- Alô! É o padre! Aquele da entrevista! Está, reverendo! Vem já... ABELARDO I - Mas você marcou? ABELARDO II - Não marquei nada. ABELARDO I (toma o fone) - Bom dia, reverendo! Sou eu mesmo, Abelardo... Ah! Com muitíssima honra... Esperarei vossa reverendíssima. Pode ser às quatro horas? Então... sem dúvida... Beijo-lhe as mãos! Sempre às suas ordens. (Depõe o telefone) Este padre é engraçado... Não me larga... Eu não sou eleitor... Ele não quer dinheiro... ABELARDO II - Quer sua alma... ABELARDO I - Evidentemente é um caso raro. Um homem preocupar-se comigo sem ser logo à vista... Quanto? ABELARDO II - Ele prefere tratar desde já do seu testamento. ABELARDO I – Inútil. Eu morro ateu e casado. ABELARDO II – É isso mesmo que ele quer. A viúva cuidará bastante de sua alma que terá ido... para o purgatório. ABELARDO I - Diga-me uma coisa, seu Abelardo, você é socialista? ABELARDO II - Sou o primeiro socialista que aparece no Teatro Brasileiro. ABELARDO I - E o que você quer? ABELARDO II - Sucedê-lo nessa mesa. ABELARDO I - Pelo que vejo o socialismo nos países atrasados começa logo assim... Entrando num acordo com a propriedade... 74 ABELARDO II - De fato... estamos em um país semicolonial... ABELARDO I - Onde a gente pode ter ideias, mas não é de ferro. ABELARDO II - Sim. Sem quebrar a tradição. Nesta cena, a ação se passa ao telefone, entre Abelardo I e um padre, seu conhecido. Pode-se perceber dois momentos de Abelardo neste trecho: o primeiro, ao falar com o padre, que gira em torno de conceitos espirituais; e o segundo, que gira em torno de conceitos como a luta de classes. Analisando o primeiro, pode-se perceber que Abelardo constrói um prolongamento de sua visão de mundo para o padre que está ao telefone, pois, ao duvidar das intenções do reverendo ele transpõe a imagem de capitalista, sem medida, também para o padre. Depois da resposta de Abelardo II, há a conclusão que este estava certo: o padre também era movido pelo capital. Esta ancoragem no discurso de outrem faz com que o ethos de Abelardo seja confirmado, pois ele não passa de um produto dessa sociedade capitalista. Ao tecer o comentário crítico sobre o socialismo (“o socialismo nos países atrasados começa logo assim... Entrando num acordo com a propriedade”), Abelardo I, novamente, tenta revelar ao interlocutor sua visão de mundo e, portanto, a imagem que quer construir de si mesmo. Ele se coloca em uma posição estratégica, pois critica a maneira de se fazer oposição em um país dominado pelo capital estrangeiro. De forma visível, seu discurso trabalha em cima da desconstrução e da reconstrução de imagens sedimentadas socialmente, como o usurário capitalista e o empregado engajado com a luta de classes, mostrando que, independente da posição que se assuma, o resultado apontará para o mesmo caminho: a dominação daqueles que detém o poder (o capital) sobre aqueles que são seus subordinados. Tomando como ponto de análise uma discussão transcorrida no 2º ato (p. 70), entre Abelardo I e D. Cesarina (mãe de Heloisa), pode-se perceber como Abelardo insiste em imprimir o ethos de um homem „moderno‟, adiante de seu tempo, em contraposição à referência aristocrática. Percebe-se que essa cena gira em torno de dois personagens que, à primeira vista, se configuram como antitéticos, pois Abelardo I representa o poder burguês, sem nome, e D. Cesarina é a representante mais pura da aristocracia cafeeira, que não aceita a entrada de um alpinista social em sua classe. Contudo, em outras cenas, D. Cesarina, apesar de negar, flerta com Abelardo, em uma simbologia clara ao fascínio que o capital burguês exerce sobre os falidos oligarcas (mais adiante será analisado este tópico). 75 f) Trecho 6 (página 70) D.CESARINA – Me diga uma coisa, seu Abelardo, o senhor não tem ciúmes? ABELARDO I (surpreso) – Ora essa! D.CESARINA – Aquele alemão! ABELARDO I – Alemão? Americano. Americano e banqueiro! D.CESARINA – Ele anda com uns brinquedos brutos com a Heloísa! ABELARDO I – Ah! É boxe. Ela está aprendendo a jogar boxe. De vez em quando uns golpes de luta livre... Ele é campeão de tudo isso em Nova York, Wall Street. D.CESARINA – Pois olhe, seu Abelardo. Eu ficaria roída se alguém que eu amo tivesse aquelas liberdades com um estranho. ABELARDO I – Mas d. Cesarina! Eu me prezo de ser um homem da minha época! A senhora quer que eu perca tempo em ter ciúmes? (Imita dramaticamente um casal em choque) Diga, Heloísa! Quem era aquele homem? – Eu fui lá só para dar um recado. – Foste lá! Confessas! Entrastes naquela casa, naquele antro! Traíste-me, perjura! – Ah, meu amor, que desconfiança também, que injustiça! Um homem feio daquele! Eu fui lá só por causa do recado! – Maldita! Pum! Pum! (Ri) Oh!Oh! Ah! É isso? Essa ridicularia que divertiu e ensanguentou gerações de idiotas. É isso... O ciúme! Analisando os trechos em destaque, percebe-se que Abelardo I se auto-intitula um homem da sua época, que acredita que os sentimentos oriundos da concepção romântica de relacionamentos amorosos foram os responsáveis por atrasos (idiotas). Neste momento, tal discurso ativa uma memória discursiva que retorna aos aspectos literários antecessores ao Modernismo, como uma forma de contraposição clara, principalmente, ao Romantismo. Isso também fica claro pelas escolhas linguísticas do próprio diálogo, forjado por Abelardo I. Percebe-se que a escolha pela segunda pessoa (foste, traíste, entraste) traz, em seu bojo, um tom de formalidade que não faz mais parte do universo dos modernistas. Esta representação, até certo ponto jocosa, estabelece ainda mais o afastamento que Abelardo I julga ter desses elementos antigos e ultrapassados. Percebe-se que a ironia da imitação das vozes é uma ridicularização aos diálogos, impregnados de sentimentalismo. Como forma de negação, a ironia se configura como um ponto de conflito, já que um homem moderno (lê-se, afeito aos ideais capitalistas, segundo o discurso da obra) não pode “perder tempo com ciúmes”. Em contraposição, D. Cesarina afirma que ficaria “roída”. A força do ideal capitalista também está presente quando Abelardo afirma ser o americano campeão de boxe e luta livre em Wall Street e que, por esse motivo, não vê 76 problema em Heloisa ser treinada por ele. É mais uma referência ao que de valoroso interessa ao homem moderno: o capital. Em um trecho posterior, Abelardo I começa a tomar decisões acerca dos clientes que lhe devem e tece os seguintes comentários: g) Trecho 07 (página 46) ABELARDO I – A rua inteira sabe que penhorei porque não me pagaram 200$000. A cidade inteira sabe. Talvez gastasse mais nisso... que importa? Dura Lex, aprendi isso na faculdade de Direito! [...] Linche esse camarada! Ponha flite nele e ascenda o fósforo! Pro pau com esse bandido! Lei contra a usura! Miseráveis! Por isso é que o país se arruína. E há um miserável que quer se aproveitar dessa iniquidade. ABELARDO II – Leis sociais... ABELARDO I – Súcia de desonestos. Intervir nos juros. Cercear o sagrado direito de emprestar o meu dinheiro à taxa que eu quiser! E que todos aceitam. Mais! Que vem implorar aqui! Sou eu que vou buscá-los para assinar papagaios? Ou são eles que todos os dias enchem minha sala de espera. Abelardo I utiliza-se do argumento de “sagrado direito” para justificar suas cobranças de juros perante o capital emprestado. Percebe-se, com isso, que ele tenta imprimir um ethos de um homem digno e ético, pois é apenas mais um prestador de serviço, mas seu discurso desliza para a construção de um homem impiedoso e cruel ao revelar como consegue manter seus negócios. Ele constrói um discurso de que não gostaria de proceder dessa forma, mas que não vê alternativa, diante da “Súcia de desonestos” que todos os dias batem a sua porta. Este afastamento é construído, novamente, pela ativação da memória discursiva de que, aos usurários, no caso representado por Abelardo I, não cabe nenhuma culpa, pois este deve ser considerado como um bom homem que empresta seu dinheiro a miseráveis falidos. A adesão é feita através da argumentação de que, na necessidade, todos aceitam sorridentes as condições estabelecidas pelo usurário, para ele isso é o “sagrado direito”, portanto maus são aqueles que não pagam. É como se o discurso de Abelardo I construísse uma espécie de armadilha, capaz de trancafiar as possibilidades de contra-argumentação dos clientes. Nesta inversão, Abelardo I assume o papel de bom homem, coadunando com a imagem já construída em trechos anteriores, quando este foi intitulado de “amigo de todos”. Mas, percebe-se que, mais adiante, Abelardo I abandona tal ethos e se deixa perceber quando vocifera contra os clientes, afirmando que, para eles, o melhor era a morte (trecho a seguir). O fato de ter que agir dessa forma o afasta dos sentimentos de pena e caridade, construídos pelas lamentações dos inúmeros clientes, no mesmo trecho: 77 h) Trecho 08 (página 46) UMA VOZ DE MULHER – Meu marido bebeu estricnina. OUTRA – Minha mãe tomou Lisol. OUTRA – meu pai se jogou do viaduto. ABELARDO I – Lisol! Estricnina! Viaduto! É do que vocês precisam, canalhas! Neste instante, o bom homem retorna para o ethos de homem frio e impiedoso, como quando ordena que fuzile os clientes. Com isso, pode-se dizer que, da mesma forma que se constrói na intersecção do antigo e do moderno, ele se constrói enquanto sujeito na dicotomia bom/mal. Na página 63, diálogos depois e próximo ao término do primeiro ato, Abelardo I retoma tal construção em conversa com sua noiva Heloisa, como se vê: i) Trecho 09 (página p.46) ABELARDO I – Estamos de fato num ponto crítico em que podem predominar, aparentemente e em número, as pequenas lavouras. Mas nunca como potência financeira. Dentro do capitalismo, a pequena propriedade seguirá o destino da ação isolada nas sociedades anônimas. O possuidor de uma é um mito econômico. Senhora minha noiva, a concentração do capital é fenômeno que eu apalpo com as minhas mãos. Sob a lei da concorrência, os fortes comerão sempre os fracos. Desse modo é que desde já os latifúndios paulistas se reconstituem sob novos proprietários. HELOISA – Formidável trabalho o seu! ABELARDO I – Não faça ironia com sua própria felicidade! Nós dois sabemos que milhares de trabalhadores lutam de sol a sol para nos dar farra e conforto. Com a enxada nas mãos calosas e sujas. Mas eu tenho tanta culpa como o papa-níquel bem colocado que se enche diariamente de moedas. É assim a sociedade em que vivemos. Regímem capitalista que Deus guarde... HELOISA – E você não teme nada? ABELARDO I – Os ingleses e americanos temem por nós. Estamos ligados ao destino deles. Devemos tudo, o que temos e o que não temos. Hipotecamos palmeiras...quedas d‟água. Cardeais! HELOISA – Eu li no jornal que devemos só à Inglaterra trezentos milhões de libras, mas só chegaram até aqui trinta milhões... ABELARDO I - É provável! Mas compromisso é compromisso! Os países inferiores têm que trabalhar para os países superiores como os pobres trabalham para os ricos. Você que acredita que Nova York teria aquelas babéis vivas de arranhacéus e as vinte mil pernas mais bonitas da Terra se não se trabalhasse para Wall Street de Ribeirão Preto a Cingapura, de Manaus a Libéria? Eu sei que sou um simples feitor do capital estrangeiro. Um lacaio se quiserem! Mas não me queixo. É por isso que possuo uma lancha, uma ilha e você... 78 Neste trecho, há uma espécie de síntese do discurso sobre a visão do capitalismo que permeia a personagem. Para Abelardo I, ele tem tanta culpa quanto a máquina de caçar níqueis colocada no lugar correto. Essa comparação revela o quanto o personagem se percebe engrenagem do universo da exploração, e tem consciência disso, pois é apenas o recolhedor do dinheiro. O capital não pertence a ele, ele é apenas o “feitor” de um processo maior que é o imperialismo norte-americano e seu capitalismo. Como o primeiro ato, marcadamente, funciona como uma apresentação de Abelardo I, ao fim se dá a síntese sobre a construção desse personagem enquanto sujeito, e pode-se perceber como está bem representado, em sua ideologia, a roda viva à qual faz parte. De modo que não é possível estabelecer qualquer espécie de contra-argumentação, nem irônica, como faz Heloisa, diante da lógica que ele constrói como necessária para se mover uma estrutura cujas bases se assentam na mais pura exploração consentida. E a aceitação está alicerçada na realidade de privilégios a que tem acesso. O alto custo pago por Abelardo I para se tornar o afamado Rei da vela parece irrisório diante de tudo que possui. Abelardo I tem uma misteriosa consciência de que joga com cartas escuras, mas não se arrepende, pois é apenas uma parte do processo de exploração que ajuda a construir e que será seu ponto de derrocada. Baseando-se em Magaldi (2004, p. 70), que diz que “Abelardo I, em todos os campos em que atua, representa uma situação-limite, um exagero lucidamente calculado para ilustrar com didatismo uma verdade.”, pode-se perceber que o personagem Abelardo I funciona como um elemento desencadeador de verdades obscurecidas. Ele, através da total consciência da exploração a que faz parte traz, em seu discurso, a projeção dos sacrifícios necessários ao avanço e a completa lucidez sobre os prejuízos de tal aceitação. Mergulhado nesses ideais, transpõe o discurso do capitalista para seu discurso e se constrói de forma dicotômica: ele é um bom homem mau. 4.2 INSTITUIÇÃO FAMILIAR Oswald de Andrade, em “O Rei da Vela”, mostra a crise de 1929 por meio de uma aliança despudorada entre a aristocracia rural falida, representada por Heloísa de Lesbos e o novo rico, burguês, representado por Abelardo, agiota e dono de uma fábrica de velas. O casamento de Abelardo e Heloísa é um negócio que interessa a ambos e, principalmente, a Mister Jones, o americano. 79 j) Trecho 10 (página 43/44) ABELARDO I – [...] Não confunda seu Abelardo! Família é uma coisa distinta. Prole é de proletariado. A família requer a propriedade e vice-versa. Quem não tem propriedades deve ter prole. Para trabalhar, os filhos são a fortuna do pobre [...] Seu Abelardo, a família e a propriedade são duas garotas que frequentam a mesma garçonnière, a mesma farra...quando o pão sobra...Mas quando o pão falta, uma sai pela porta e a outra voa pela janela [...] ABELARDO II - E o resto da população? ABELARDO I - O resto é prole. O que eu estou fazendo, o que o senhor quer fazer é deixar de ser prole para ser família, comprar os velhos brasões, isso até parece teatro do século XIX. Mas no Brasil ainda novo. Pode-se observar que Abelardo I compara, ressaltando as diferenças, família e prole. Para tanto, vale-se da própria palavra, „prole‟, para chegar à ideia de proletariado. Em seu discurso revela que família, por ser um conceito superior, necessita do capital (evidenciado pela palavra „propriedade‟). Ao usar a metáfora da garçonnière evidencia ainda mais a concepção de que os mais abastados têm privilégios que só a classe e o poder lhe concebem. Mas que, ao despertar da crise, ambos não podem coexistir. Há um novo deslizamento do discurso de Abelardo, que ultrapassa os ideais de sua classe, a ponto de perceber que a forma de manutenção econômica, encarada pela sociedade como vital, não trará a sorte que todos acreditam. Enquanto sujeito dicotômico, vislumbra uma realidade por muitos não aceita e deixa entrever o interdiscurso que constrói a obra: buscando teses marxistas, só a verdadeira revolução libertará. Mais adiante, concretiza-se a visão estabelecida acerca da família quando Abelardo I e Abelardo II iniciam um diálogo sobre a família de Heloisa: l) Trecho 11 (página 45) ABELARDO I – Você sabe que não há outro gênero no mercado (referindo-se a Heloisa). Eu não ia me casar com a irmã mais moça que chamam por ai de garota da crise e de João de Divãs. Nem com o irmão menor que todo mundo conhece por Totó-fruta-do-conde! ABELARDO II – Um degenerado... ABELARDO I – Coisas que se compreendem e relevam numa velha família! Heloisa, apesar dos vícios que lhe apontam...você sabe, toda a gente sabe. Heloisa de Lesbos! Fizeram piada quando comprei uma ilha no Rio, para nos casarmos. Disseram que era na Grécia. Apesar disso, ela ainda é a flor mais decente dessa velha árvore bandeirante. Uma das famílias fundamentais do Império. ABELARDO II – O velho está de tanga, entregou tudo aos credores. 80 ABELARDO I – Que importa? Para nós, homens adiantados, que só conhecemos uma coisa fria, o valor do dinheiro, comprar esses restos de brasão ainda é negócio, faz vista num país colonial como o nosso! O senhor sabe que São Paulo só tem dez famílias? A degeneração sexual da família de Heloisa torna-se um pequeno detalhe, pelo fato de pertencer a uma família aristocrática. Esse discurso reforça a ideia de que o poder concedido pelo status quo e pelo dinheiro são fatores preponderantes à moral. Para Abelardo I, que se considera “homem adiantado”, o casamento arranjado lhe concederá o livre acesso ao brasão que tanto deseja, para deixar de ser prole e tornar-se família. Com isso, há a sedimentação de uma imagem, de um ethos, de um homem que transpõe os padrões considerados éticos socialmente para chegar a um espaço dominado pelo poder do nome, “comprar esses restos de brasão ainda é negócio, faz vista num país colonial como o nosso!”. Ele ainda se vale da ideia de atraso para transfigurar a construção de um sujeito adiantado e atento às necessidades do seu tempo. Mais adiante há a sedimentação deste discurso, em um tom mais irônico, quando Abelardo I retoma a descrição da família de Heloisa: m) Trecho 12 (página 88) ABELARDO I – Um é o Totó-Fruta-do-Conde. O outro, este bêbedo perigoso. Virou fascista agora. Minha cunhada veio sentar de maiô em meu colo para eu coçar-lhe as nádegas...com cheques naturalmente. A sogra caída...a outra velha...E eu é que devo me sentir honradíssimo...por entrar em uma família digna, uma família única. Se no primeiro ato é possível construir a imagem de Abelardo I, em sua relação mais direta com o capitalismo (haja vista que a cena se passa em seu escritório), o segundo ato é um espaço cujo tema instituição familiar é recorrente. Este ato, como já pontuado anteriormente, passa-se em ilha adquirida por Abelardo. Nessa ilha estão os familiares de Heloisa (Coronel Belarmino, pai, D. Cesarina, mãe, D. Poloca, tia, Totó, irmão, João dos Divãs, irmã, Perdigoto, o outro irmão, e o americano. Como já revelado, Abelardo I constrói seu ethos de homem avançado relevando e compreendendo alguns vícios da família de Heloisa. Ele constrói a imagem de que, para ele, família significa posse e poder e que, portanto, faz parte da necessidade do homem contemporâneo, sentir-se incluso nesse processo de degeneração sexual. Agora, no segundo ato, Abelardo I irá reforçar este ethos na medida em que também fará parte da construção e da representação social do conceito de instituição familiar da São Paulo, década de 30. 81 n) Trecho 13 (página 74) ABELARDO I – Por que é que a senhora há de ser tão simpática quando estamos a sós. E tão infame na frente dos outros? D. POLOCA – Mas como é que o senhor quer que eu proceda em sociedade? ABELARDO I – Quero que proceda humanamente. D. POLOCA – Desde quando que a humanidade é um pedaço de marmelada seu Abelardo? Eu defendo o meu ponto de vista de tradição e de família? Intransigentemente. Sou sua melhor amiga (carinhosa) em segredo. Mas não posso dar confiança em público a um novo rico, a um arrivista, a um Rei da Vela! ABELARDO I – E se eu a fizesse Rainha do Castiçal? D. POLOCA – Prefiro ser a neta da Baronesa de Pau-Ferro. A neta pobre e inválida que sempre viveu do pão dos irmãos e cujo resto de família foi salvo por um...intruso! ABELARDO I – Por um intruso... D. POLOCA – Que nos tira das ruínas mas tem que reconhecer as diferenças sociais que n os separam. Tenho sessenta e dois anos. Vi as poucas famílias que restam do Império se degradarem com alianças menores! [...] Sei que é esse o destino da minha gente. Mas resisto me opondo às relações fáceis e equívocas da sociedade moderna. ABELARDO I – Me diga ma coisa, D. Poloca, se não fosse esse avacalhamento, permita-me a expressão, é de Flaubert! D. POLOCA – Diga decadência, soa melhor! ABELARDO I – Bem! Se não fosse essa decadência. É realmente, é mais suave...Como é que vocês, permita a expressão, comiam? D. POLOCA - Seu Abelardo, a gente não vive só de comida! ABELARDO I – Está ai um ponto em que eu discordo profundamente de Vossa Majestade! Não podemos mais nos entender. A senhora vive de aragens...Eu de bifes. Basicamente neste ato, há uma espécie de conflito entre os ideais da burguesia ascendente (representada por Abelardo I) e da aristocracia falida (representada por D. Poloca, tia de Heloisa e exemplar típico desta classe). Essa dicotomia, aparentemente insolúvel, se constrói a partir da relação tensa que se estabelece entre essas duas personagens. Mas, percebe-se que esta antítese é apenas imaginada, pois D. Poloca, que antes se mostrava irredutível, se rende aos encantos do capitalismo, personificado em Abelardo. O embate ideológico das vozes dissonantes, que se constrói em vários momentos em que se tem a instituição familiar como foco, tece a representação de que a aristocracia cafeeira, falida na São Paulo de 30, vê-se seduzida pela possibilidade de continuar poderosa 82 aliando-se à burguesia ascendente. Apesar de tentar negar, não consegue resistir, construindo, assim, a imagem de que o valor da tradição não é válido em um momento cujo capital estrangeiro domina. Há um cruzamento interdiscursivo neste trecho que remonta à ideia de que os aristocratas constroem-se de maneira alheia à realidade, deslocados do mundo, por isso Abelardo I afirma que vive de bifes e D. Poloca de aragens. Na cena final do segundo ato, isso se torna bastante nítido, quando D. Poloca e Abelardo planejam uma noite de amor: o) Trecho 14 (página 91) ABELARDO I (Ajoelhando-se) – Deixe-lhe beijar os pés! Santinha! O maiô pelo menos! (Levanta-se). Pois olhe, há de ser comigo. Eu lhe dou uma viagem a Petrópolis! Tomaremos nós dois sozinhos a lancha. Sulcaremos baía. Jantaremos no Rio num grande restaurante. Mas à noite... À noite... D. POLOCA – Uma noite de amor!Nesta idade! ABELARDO I – A primeira... Diga que aceita... D. POLOCA – Olhe que eu não sou de ferro. ABELARDO I – Vou mandar preparar a lancha... E uns bolinhos... D. POLOCA – Uns pés-de-moleque. A-ba-fa. ABELARDO I – Abafa! (saindo pela direita. Atira um beijo...dois...) Ao luar! Esta noite. (TELA) Neste trecho final, pode-se entender a noite de amor entre as personagens como uma construção metafórica da rendição da aristocracia aos apelos da burguesia. D. Poloca, cujo nome funciona como uma desconstrução do nome „polaca‟ – alcunha dada às prostitutas da época –, que se mostrava firme aos propósitos da tradição e da moral, aceita ter sua primeira noite com Abelardo I. Em troca, Abelardo lhe concederá pequenos agrados (uma viagem, um jantar, doces), mostrando como a sedução entre as classes se dá por meio de trocas. Essa cena pode ser considerada síntese da representação social que a peça quer construir acerca da instituição familiar em meados dos anos 30, simbolizando a degradação de um conceito de família para ascensão de outro advindo de uma nova conjuntura econômica. 83 4.3 LUTA DE CLASSES O terceiro ato da peça, como já explanado anteriormente, gira em torno da derrocada de Abelardo I. Em uma cena que tem como pano fundo os restos de um hospital, instalado no escritório do usurário, Abelardo I sucumbe, vítima da própria engrenagem que ajudou a mover. Seu alter-ego, Abelardo II, toma seu lugar, inclusive com direitos sobre sua noiva, evidenciando o imobilismo a que estávamos submetidos: a exploração apenas passa de uma mão a outra, que não deixa de ser a representação da mesma mão. Neste ato, Abelardo começa a vislumbrar a luta marxista, o socialismo e os ideais de uma revolução em que a classe operária irá tomar as ruas e promover uma mudança. Para este personagem, só uma mudança radical no último ato promoverá a transformação necessária para os avanços de que tanto necessita o país. Contudo, como homem dicotômico que é, morre afirmando que se pudesse continuaria a servir o imperialismo norte-americano. Na peça “O Rei da Vela”, a revolução, embora nomeada e definida, também não vai além de seu anúncio e conta apenas com a certeza de sua vinda. A revolução confunde-se com o próprio futuro e é tratada como uma inevitabilidade. Essa inevitabilidade parece depender muito mais da vontade, da fé, do que da práxis (como no trecho “Onde a gente pode ter ideias, mas não é de ferro”) p) Trecho 15 (página 50) ABELARDO I – Diga-me uma coisa, seu Abelardo, você é socialista? ABELARDO II – Sou o primeiro socialista que aparece no teatro brasileiro. ABELARDO I – E o que é que você quer? ABELARDO II – Sucedê-lo à mesa. ABELARDO I – Pelo que vejo o socialismo nos países atrasados começa logo assim... Entrando num acordo com a propriedade... ABELARDO II – De fato... estamos num país semi-colonial... ABELARDO I – Onde a gente pode ter ideias, mas não é de ferro. ABELARDO II – Sim. Sem quebrar a tradição. A afirmação de Abelardo I, de que o socialismo, nos países atrasados, inicia-se entrando em acordo com o capitalismo, faz perceber uma espécie de descrença em relação à 84 mudança de sistema político. Essa descrença pode estar alicerçada na ideia de imutabilidade do país e na ideia de impossível liberdade. Neste diálogo, percebe-se uma espécie de confluência de vozes, que se admitem parceiras, de modo que Abelardo II é o alter-ego do I. Em concordância, revelam-se uma só quando o tema é luta de classes. q) Trecho 16 (página 103) ABELARDO II – São todos assim como você, passam para o outro lado quando estão arruinados! ABELARDO I – É um erro teu! Se todos fossem como o oportunista cínico que sou eu, a revolução social nunca se faria! Mas existe a fidelidade à miséria! Eu estou saindo da luta de classes. [...] ABELARDO II – Me matas? ABELARDO I – Para quê? Outro abafaria a banca. Somos...uma barricada de Abelardos! Um cai, outro o substitui, enquanto houver imperialismo e diferença de classes. [...] O cálculo frio é a nossa honra. O sistema da casa! Não morro como convertido. Se sarasse ia de novo lutar pela nota. Ia ser pior do que fui. E mais precavido. A neurose do lucro! Quem a conhece não a larga mais. É a mais bela posição do homem sobre a terra! Nenhuma militância a ela se compara. Nenhuma religião. Se vejo com simpatia, neste minuto da minha vida que se esgota, a massa que sairá um dia das catacumbas das fábricas... é porque ela me vingará ...de você. Abelardo revela, nesses momentos que antecedem a sua morte, a conclusão de que só a luta por um mundo mais igualitário poderia solucionar a situação discrepante que separa ricos de pobres. Ele, portanto, desmascara o oportunismo, o procedimento da burguesia, que havia sido também o seu, por uma conduta conscientemente cínica. r) Trecho 17 (página 103) ABELARDO I – Ah! Ah! Moscou irradia no coração dos oprimidos de toda a Terra. ABELARDO II – Sujo! Demagogo! ABELARDO I – Calma! Não é parecido com o Jujuba, senão no físico. Vou te contar a história de Jujuba. Era um simples cachorro! Um cachorro de rua... Mas um cachorro idealista! Os soldados de um cachorro adotaram-no. Ficou sendo o mascote do batalhão. Mas o Jujuba era amigo dos seus companheiros de ruas! Na hora da bóia, aparecia trazendo dois, três. Em pouco tempo, a cachorrada magra, suja e miserável enchia o pátio do quartel. Um dia, o major deu o estrilo. Os soldados se opuseram à saída do seu mascote! Tomaram o Jujuba nos braços e espingardearam os outros... A cachorrada vadia voltou para a rua. Mas quando o Jujuba se viu solto, recusou-se a gozar o privilégio que lhe queriam dar. Foi com os outros! 85 ABELARDO II – Demagogia. ABELARDO I – Não. Ele provou que não! Nunca mais voltou para o quartel. Morreu batido e esfomeado como os outros, na rua, solidário com sua classe! Solidário com sua fome. O soldaram ergueram um monumento ao Jujuba no pátio do quartel. Compreenderam o que não trai. Eram seus irmãos. Os soldados são da classe do Jujuba. Um dia também deixarão atropeladamente os quartéis. Será a revolução social... os que dormem nas soleiras das portasse levantarão e virão aqui procurar o usurário Abelardo! E hão de encontrá-lo... No trecho, há o discurso narrativo que envolve o cão Jujuba – que se manteve solidário com os outros cachorros e que não aceitou as vantagens que só o beneficiariam – e aponta para a seguinte tese: Abelardo I acreditava que a sociedade fosse uma cidadela, que só poderia ser tomada por dentro, quando a união daqueles que estão lá fora é que permitir, um dia, a quebra dos privilégios. Os soldados são da classe de Jujuba e acabarão por deixar, atropeladamente, os quartéis, realizando a revolução social. Paralelamente às revelações que tece sobre a natureza da exploração imperialista, há, na parábola do cão Jujuba, uma espécie de sugestão de alternativa. Pode-se considerar, a partir da história contada, que há uma visão romântica da luta de classes, alicerçada na fidelidade do proletariado e na união das classes oprimidas. Nesta perspectiva, a burguesia urbana é tida como corrupta, voraz e cruel, sendo o imperialismo a raiz primeira do sofrimento, do caos e da miséria. Jujuba representa, na solidariedade com a classe, uma solução alternativa para a dependência. Analisando as condições de emergência desse discurso e os acontecimentos subsequentes pode-se, inclusive, admitir tratar-se de uma visão ingênua. 86 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Chegar a esse momento derradeiro é tentar, em certa medida, reconstruir o caminho percorrido. Em outro momento, ficou latente nos escritos o envolvimento que com a peça. Mas, é importante reforçar que, para poder recompor os caminhos da leitura pretendida, precisa-se afastar de sensações e partir para a recombinação de elementos que possibilitariam lançar a análise em solo mais seguro. Para chegar a esse ponto, inicialmente, propôs-se a uma leitura, um olhar, dentre as inúmeras possibilidades de olhares que possuía. Escolheu-se os olhos da Análise do Discurso. Para tanto, recompôs-se as condições de emergência da peça e do discurso. Guardou-se um bom tempo para isso, pois entende-se que as possibilidades de construção de sentidos se dão por esse caminho em primeiro plano. Ao fazer isso, ficou evidentemente claro que a peça “O Rei da Vela” se constrói através dos meandros do seu próprio tempo e que as vozes que ali circulam são vozes que trazem o discurso e a ideologia de uma época. Uma época de transformações, marcada por profundos antagonismos: de um lado a crise e a derrocada de uma classe inteira, do outro a entrada do capital estrangeiro e suas inúmeras explorações. Nesta simbiose das relações de classe, os interesses, os conceitos de moral e ética passam por uma revisão, por isso concluise, ao fim da análise da personagem Abelardo I, que ele era um bom homem mau. Dentro da formação discursiva a que o personagem estava submetido (o capitalismo), ele se vê impossibilitado de agir de outra forma. Constitui-se sujeito através dos indícios que marcam sua identidade, enquanto servidor do imperialismo e do capitalismo. Suas atitudes encontram justificativa neste pressuposto e sua argumentação, baseada na premissa maior deste sistema econômico (lei de oferta e procura), torna-se cada vez mais sólida. Abelardo I se constrói, enquanto sujeito, de forma tão enraizada nestas premissas de exploração que, até no momento de sua morte, reafirma que faria tudo outra vez, apesar de ter uma consciência cínica de que a luta de classes e a revolução proletária estão por vir. Como já afirmado anteriormente, ele está à frente do seu tempo ao mesmo tempo em que se liga aos valores tradicionais que reafirmam a família ser importante para a consolidação do status quo. Dicotômico por si, conjura o discurso de uma classe social ao passo em que dá vazão às inúmeras vozes dissonantes da sua realidade. Dentro dos caminhos que a própria obra suscitou, sentiu-se a necessidade de construir um quadro de referência dentro da AD para poder cotejar a obra. Traçou-se, para tanto, os 87 conceitos básicos que auxiliariam até este momento. Recortaram-se os blocos de análise, também, a partir de uma recorrência temática que possibilitou lançar um olhar sobre as estratégias de composição das representações sociais que se viam refletidas e refratadas na peça. Ao tentar articular uma análise discursiva das estratégias de construção de sentido da peça, buscou-se analisar as inúmeras representações que transitavam e o ethos do personagem Abelardo I. Como tentou-se proceder a uma inspeção linguística, analisaram-se os múltiplos sujeitos que se locomoviam e construíam os discursos da obra a partir de marcas que levam a universos de sentidos textuais. Chegou-se ao tema instituição familiar e percebeu-se como este ponto também se via ligado ao tema maior, que é a relação burguesia x aristocracia. O discurso e a representação que se tem deste tema coadunam com a imagem de subserviência ao capital, já que, apesar de não ser aceito totalmente pela família de Heloisa, Abelardo transita livremente nesta classe social, por que sabe seduzi-la. A família é vista como parte de um negócio lucrativo que garante acesso ao universo do poder do nome. Em “O Rei da Vela”, percebe-se o ataque direto ao conjunto da sociedade capitalista. O autor critica com vigor certos expedientes de classe e a exploração econômica; caracteriza de modo burlesco o estelionatário de elite, o subserviente e o rufião. Exibe facetas amargas da luta pela sobrevivência, situando personagens subjugadas por agiotas, banqueiros que, desesperadas, negociam dívidas para sobreviver. Nesta obra, o autor pôs a nu as mazelas da sociedade capitalista, movendo em muitas camadas de sujeição e perversão. Mostrou as faces da economia, que desmoronou com a bancarrota do café, destronando a aristocracia rural, que passa a se submeter aos interesses da emergente burguesia urbana. Dentro dos inúmeros conflitos indissolúveis que a peça apresenta torna-se latente o ethos de homem frio e calculista de Abelardo, que se contrapõe aos ideais de luta de classes. Para ele, que se considera um homem de seu tempo, ignorar o proletariado e a exploração constróem-se como condições iniciais para a sobrevivência. Contudo, ao fim, próximo a sua morte, como um ser reflexivo, ele se mostra mais aberto à realidade que está por vir. Perceber-se-á, enfim, como se articulam, em uma só personagem, elementos que podem ligálo ao discurso de uma aristocracia falida pela crise de 29 e ao discurso de um burguês ascendente da São Paulo dos anos 30. Através da formação de seu ethos é possível perceber tais polaridades que se ligam, antes de tudo, ao discurso do avanço do capital estrangeiro tão presente nesta nação. 88 Abelardo é, sem dúvida nenhuma, um homem de seu tempo, conhece o poder “da nota” ao mesmo tempo em que reconhece o valor “de uns restos de brasões”, já que tudo isso faz vista em um país colonial como o Brasil. Cindido mas, ao mesmo tempo uno, o discurso de Abelardo é um retrato de um período de redefinições em todos os campos de atuação do homem; e tal possibilidade de leitura encontra concretude na imagem que ele tenta projetar de si mesmo, através de seu discurso, através do seu ethos Como um representante do seu tempo, a personagem central vê-se imerso em um sistema voraz, que o devora, mas que, ao mesmo tempo, é desejado por ele. A sua relação com a instituição familiar, por exemplo, é uma representação do atraso e do avanço da sociedade paulista da década de 30, assumindo para si o papel de elemento identificador do homem „moderno‟ em um país colonial. O quadro que ora se apresenta não se pretende conclusivo nem totalmente abrangente. Destacam-se apenas os elementos e as dimensões mais evidentes no interior do espaço discursivo constituído, intentando, em primeira instância, construir uma possibilidade de leitura de obra tão rica. Tem-se absoluta convicção que inúmeras possibilidades poderiam ter sido construídas que não essa, mas acredita-se também ser, o trabalho que ora se encerra, uma contribuição para a construção de sentidos de leitura de uma obra singular. 89 REFERÊNCIAS ALTHUSSER, Louis. Aparelhos ideológicos de Estado. 7. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1998. AMOSSY, Ruth. (Org.) Imagens de si no discurso: a construção do ethos. São Paulo: Contexto, 2005. ANDRADE, Oswald de. A utopia antropofágica. São Paulo, Globo, 1995. ______. Oswald de. O rei da vela. São Paulo: Globo, 2004. BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem. 2. ed. São Paulo: Hucitec, 1986. ______. Problemas da poética de Dostoiévski. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1997. ______. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003. BARROS, Diana Luz Pessoa de. Contribuições de Bakhtin às teorias do discurso. In: BRAIT, Beth (Org.) Bakhtin, dialogismo e construção do sentido. Campinas: UNICAMP, 1997. ______. & FIORIN, José Luiz (Orgs). Dialogismo, polifonia e intertextualidade em torno de Bakhtin. 2. ed. São Paulo: USP, 2003. BARTHES, Roland. S/Z: uma análise da novela Sarrasine. São Paulo: Nova Fronteira, 2003. BERTHOLD, Margot. História mundial do teatro. São Paulo: Perspectiva, 2000. BEZERRA, Paulo. Polifonia. In: BRAIT, Beth (org). Bakhtin: conceitos-chave. São Paulo: Contexto, 2008. BRAIT, Beth (Org.). Bakhtin, dialogismo e construção de sentido. Campinas, SP: Unicamp, 1997. ______. Bakhtin: outros conceitos-chave. São Paulo: Contexto, 2003. ______. Bakhtin: conceitos-chave. São Paulo: Contexto, 2008. BRANDÃO, Helena H. Nagamine. Subjetividade, argumentação, polifonia: a propaganda da Petrobrás. São Paulo: Fund. UNESP, 1998. ______. Introdução à análise do discurso. Campinas, SP: Unicamp, 2004. BRITO, Mário da Silva. Introdução à peça "O rei da vela". In.: ANDRADE, Oswald de. Obras completas de Oswald de Andrade: volume 08 de teatro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1976. BRONCKART, Jean Paul. Atividades de linguagem, textos e discursos: por um interacionismo sócio-discursivo. São Paulo: Educ, 1999. CANDIDO, Antonio (et. all.). A personagem de ficção. São Paulo: Perspectiva, 1998. 90 CHARAUDEAU, Patrick; MAINGUENEAU, Dominique. Dicionário de análise do discurso. São Paulo: Contexto, 2006. D‟ONOFRIO, Salvatore. Literatura ocidental: autores e obras fundamentais. São Paulo: Ática, 2000. DOSSE, François. História do estruturalismo: 1 o canto do signo, 1945-1966. São Paulo: Ensaios, 1993. DUCROT, O. O dizer e o dito. Campinas: Pontes, 1987. EGGS, Ekkehard. Ethos aristotélico, convicção e pragmática moderna. In.: AMOSSY, Ruth. (Org.) Imagens de si no discurso: a construção do ethos. São Paulo: Contexto, 2005. FERREIRA, Maria Cristina Leandro & INDURSKY, Freda (Orgs.). Michel Pêcheux e a análise do discurso: uma relação de nunca acabar. São Carlos: Claraluz, 2005. FIORIN, José Luiz. Elementos de análise do discurso. São Paulo: Contexto, 1997. ______. Linguagem e ideologia. São Paulo: Ática, 2003. FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. 15. ed. São Paulo: Loyola, 2007. GARCIA, Silvana. Odisséia do teatro brasileiro. São Paulo: Senac, 2002. GASSNER, John. Mestres do teatro I. São Paulo: Perspectiva, 1997. ______. Mestres do teatro II. São Paulo: Perspectiva, 1997. GEORGE, David. Teatro e antropofagia. São Paulo: Global, 1985. GUINSBURG, Jacó et al.. Dicionário do teatro brasileiro. São Paulo: Perspectiva, 2006. HELENA, Lúcia. Totens e tabus da modernidade brasileira: símbolo e alegoria na obra de Oswald de Andrade. Rio de Janeiro/Niterói: Tempo Brasileiro/UFF, 1985. JACOBBI, Ruggero. Teatro de Oswald de Andrade. In: ANDRADE, Oswald de. A morta. São Paulo: Globo, 1991. MAGALDI, Sábato. O texto no teatro. São Paulo: Perspectiva, 1989. ______. A mola propulsora da utopia. In: O homem e o cavalo. São Paulo: Globo, 1976. ______. Panorama do teatro brasileiro. 5. edição. São Paulo: Global, 2001. ______. Teatro de ruptura: Oswald de Andrade. São Paulo: Global, 2004. MAINGUENAU, Dominique. Elementos de linguística para o texto literário. São Paulo: Martins Fontes, 1996. ______. Pragmática para o discurso literário. São Paulo: Contexto, 1996b. 91 ______. Novas tendências em análise do discurso. Tradução Freda Indurski. 3. ed. Campinas, SP: Pontes/Universidade Estadual de Campinas, 1997. ______. Termos-chave da análise do discurso. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1998. ______. Análise de textos de comunicação. São Paulo: Contexto, 2001. ______. O contexto da obra literária. São Paulo: Martins Fontes, 2001b. ______. Diversidade dos gêneros de discurso. In: MACHADO, Ida Lucia; MELLO, Renato de. (Orgs.) Gêneros: Reflexões em análise do discurso. Belo Horizonte: NAD/FALE/UFMG, 2004. ______. Ethos, cenografia e incorporação. In: AMOSSY, Ruth. (Org.) Imagens de si no discurso: a construção do ethos. São Paulo: Contexto, 2005. ______. Gênese dos discursos. Curitiba, PR: Criar, 2007. ______. Cenas da enunciação. 1. ed. São Paulo: Criar edições, 2006. ______. Discurso literário. São Paulo: Cortez, 2006b. ______. A propósito do ethos. In: MOTTA, Ana Raquel; SALGADO, Luciana (Orgs). Ethos discursivo. São Paulo: Contexto, 2008. MALDIDIER, Denise. A inquietação do discurso: (re)ler Michel Pêcheux hoje. Tradução Eni Orlando. Campinas, Pontes, 2003. MELLO, Renato de. Inter-subjetividade e Enunciação. In: Análise do discurso: fundamentos e práticas. Belo Horizonte: NAD/FALE/UFMG, 2001. ______. Análise discursiva do(s) silêncio(s) no texto literário. In: MELLO, Renato de. et al. Ensaios em análise do discurso. Belo Horizonte: NAD/FALE/UFMG, 2002. ______. Formação Discursiva/Ideológica e Condições de Produção na Carta-Testamento de Getúlio Vargas. Caligrama. Belo Horizonte: FALE/UFMG, v. 7. jul. 2002b.. ______. Os múltiplos sujeitos do discurso no texto literário. In: MELLO, Renato de. et al. Análise do discurso em perspectiva. Belo Horizonte: NAD/FALE/UFMG, 2003. ______. Teatro, gênero e análise do discurso. In: MACHADO, Ida Lucia; MELLO, Renato de. (Orgs). Gêneros: reflexões em análise do discurso. Belo Horizonte: NAD/FALE/UFMG, 2004. ______. Análise do Discurso e Literatura: uma interface real. In: MELLO, Renato de. et al. Análise do discurso e literatura. Belo Horizonte: NAD/FALE/UFMG, 2005. MOTTA, Ana Raquel; SALGADO, Luciana. Ethos discursivo. São Paulo: Contexto, 2008. MUSSALIN, Fernanda. Análise do Discurso. In: BENTES, Ana Christina (Org.) Introdução a linguística: domínios e fronteiras. v. 02. São Paulo: Cortez, 2001. ORLANDI, Eni Puccineli. As formas do silêncio. Campinas: UNICAMP, 1994. 92 ______. Interpretação; autoria; leitura e efeitos do trabalho simbólico. Petrópolis: Vozes, 1996. ______. Discurso e texto: formulação e circulação dos sentidos. Campinas, SP: Pontes, 2001. ______. Análise do Discurso: princípios e procedimentos. Campinas, SP: Pontes, 2006. PAULIUKONIS, Maria Aparecida Lino (Org.). Texto e discurso: mídia, literatura e ensino. Rio de Janeiro: Lucerna, 2003. PÊCHEUX, Michel. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Tradução Eni Pulcinelli, et al. 3. ed. Campinas, SP: UNICAMP, 1997. ______. O discurso: estrutura ou acontecimento. Tradução Eni Orlandi. 4. ed. Campinas, São Paulo: Pontes, 2006. PEREIRA, Victor Hugo Adler. O Rei e as revoluções possíveis. In: TELES, Gilberto de Mendonça. Oswald plural. Rio de Janeiro: UERJ, 1995. POSSENTI, Sírio. Os limites do discurso. Curitiba: Criar, 2004. PRADO, Décio de Almeida. O teatro brasileiro moderno. São Paulo: Perspectiva: Editora da Universidade de São Paulo, 1988. RYNGAERT, Jean-Pierre. Introdução à análise do teatro. Tradução: Mônica Stahel. São Paulo: Martins Fontes, 1995. ______.Ler o teatro contemporâneo. Rio de Janeiro: Martins Fontes, 1998. (Coleção Leitura e Crítica). UBERSFELD, Anne. Para ler o teatro I. Tradução: José Simões. São Paulo: Perspectiva, 2005. Livros Grátis ( http://www.livrosgratis.com.br ) Milhares de Livros para Download: Baixar livros de Administração Baixar livros de Agronomia Baixar livros de Arquitetura Baixar livros de Artes Baixar livros de Astronomia Baixar livros de Biologia Geral Baixar livros de Ciência da Computação Baixar livros de Ciência da Informação Baixar livros de Ciência Política Baixar livros de Ciências da Saúde Baixar livros de Comunicação Baixar livros do Conselho Nacional de Educação - CNE Baixar livros de Defesa civil Baixar livros de Direito Baixar livros de Direitos humanos Baixar livros de Economia Baixar livros de Economia Doméstica Baixar livros de Educação Baixar livros de Educação - Trânsito Baixar livros de Educação Física Baixar livros de Engenharia Aeroespacial Baixar livros de Farmácia Baixar livros de Filosofia Baixar livros de Física Baixar livros de Geociências Baixar livros de Geografia Baixar livros de História Baixar livros de Línguas Baixar livros de Literatura Baixar livros de Literatura de Cordel Baixar livros de Literatura Infantil Baixar livros de Matemática Baixar livros de Medicina Baixar livros de Medicina Veterinária Baixar livros de Meio Ambiente Baixar livros de Meteorologia Baixar Monografias e TCC Baixar livros Multidisciplinar Baixar livros de Música Baixar livros de Psicologia Baixar livros de Química Baixar livros de Saúde Coletiva Baixar livros de Serviço Social Baixar livros de Sociologia Baixar livros de Teologia Baixar livros de Trabalho Baixar livros de Turismo