ÁGORA – Revista Eletrônica
ISSN 1809 4589
Página 71 - 75
RESENHA
A CONDIÇÃO URBANA: O FUTEBOL E SUA DIMENSÃO ESTÉTICA1
Rodrigo Janoni Carvalho2
Paulo Gomes descreve o futebol e sua dimensão estética lida por intermédio da geopolítica,
observando o campo, as arquibancadas (espaços para torcidas) e a cidade nos momentos imediatos aos
jogos. Para o autor, o futebol consiste num espetáculo que metaforiza os embates por territórios. Utiliza-se um
vocabulário bélico para se analisar jogadas: tiro, bomba, míssil, canhão etc. Quanto à cidade, o autor referese a uma apropriação tão expressiva, que leva os torcedores organizados em grupos a desrespeitar regras do
cotidiano, de modo que a afinidade do grupo substitui a cidadania institucional.
De modo geral, podemos considerar este texto como material de trabalho para diversos segmentos
profissionais, seja no âmbito da pesquisa seja na educação. O público-alvo principal é a academia e seus
diversos cursos nas áreas de humanidades, como geografia, história, ciências sociais, políticas, dentre
outras. Além disso, por intermédio do profissional da educação, alunos de ensino básico podem ter acesso à
produção com base numa adaptação realizada pelo professor àquela realidade.
Análise crítica e pontos de destaque
O futebol pode ser considerado “arte” ou “de resultados”. Ao primeiro associa-se a beleza do
espetáculo, o prazer lúdico do jogo; ao segundo, a frieza dos objetivos, que podem transformar este esporte
num antiespetáculo, sacrificando a beleza do jogo em favor de resultados finais. Todavia, é possível
pensarmos outra perspectiva sobre as relações deste esporte e sua dimensão estética. Para Gomes,
podemos ver essa atividade como uma arte, na medida em que ela produz uma estetização correspondente a
uma atitude comum a várias dinâmicas sociais: a disputa territorial (GOMES, 2002, p. 232).
1 Resenha elaborada na disciplina Geografia Política com intuito de analisar um dos capítulos da obra A condição
urbana, de Paulo César da Costa Gomes. O capítulo analisado neste trabalho é intitulado: Entre a geopolítica da bola e
a geopolítica dos torcedores.
2 Graduando em História pela Universidade Federal de Uberlândia-MG. Contato: [email protected].
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quaisquer, do/a(s) seu/sua(s) autor/a(es).
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O autor descreve estas relações de combate dentro do campo, onde duas equipes em igual número
de jogadores se dividem num terreno simetricamente disposto por dois lados. Neste ambiente observamos
limites e movimentos sob frentes de ataque e defesa, em que a bola constitui, à primeira vista, o elemento
central de disputa. Seu controle demonstra o domínio de uma equipe sobre a outra.
A bola também pode ser considerada um instrumento de agressão e de imposição perante um tipo de
disputa pelo espaço. Uma partida de futebol instala assim uma dinâmica de grupo, na qual são seguidas
estratégias de combate, respeitando-se regras estabelecidas, onde a violência deve permanecer controlada
(GOMES, 2002, p. 233). Nesse sentido, para o autor, o futebol metaforiza os combates territoriais que
ocorrem no mundo. Todavia, neste último, as regras nem sempre são estáveis e a violência não é controlada.
Podemos imaginar este tipo de análise com base em alguns conceitos-chave apreendidos ao longo
de discussões dentro da Geografia Política. Como apontado, o campo, detalhadamente dividido e organizado
apresenta zonas de tensão eminentes. Esta situação nos aproxima da interpretação de fronteiras de Camille
Vallaux, no que diz respeito à concepção de fronteiras para além das linhas formais. Pela sua natureza
complexa, as fronteiras constituíram antes de tudo uma “zona viva”, sejam elas “naturais” ou “artificiais”
(COSTA, 1992, p. 52). Em outras palavras, representam um campo de contato onde se elevam o alto grau de
tensão vital de forças organizadas. Aproximando a discussão sobre enfrentamento e disputa de territórios,
relembremos Hobsbawm, que destaca o papel do esporte, no início do século passado, nas rivalidades entre
potências.
O espaço entre as esferas privada e pública também foi preenchido pelos esportes. Entre as duas
guerras, o esporte como um espetáculo de massas foi transformado numa sucessão infindável de
contendas, onde se digladiavam pessoas e times simbolizando Estados-nações [...] como rivalidade
amistosa entre suas nações reforçava o sentimento de que todos pertenciam a uma unidade, pela
institucionalização de disputas regulares, que proviam uma válvula de escape para as tensões grupais.
(HOBSBAWM, 1990, p. 171).
Retomando a discussão acerca da disputa dentro do futebol, Gomes ressalta que o apelo desta
dinâmica se constrói pela existência de dois grupos, bem definidos que entram numa “arena para lutar”. Esta
arena é mais do que um campo de luta, ela é o que está em jogo. Assim, o campo de futebol é um território,
pois é a partir do seu controle e domínio que uma equipe impõe seu prestígio, superioridade e poder sobre a
outra. Como lembramos anteriormente, com base em Hobsbawm, os esportes sempre foram elementos
fundamentais nas disputas de identidade e na construção de referências territoriais. Podemos afirmar que se
trata de um jogo ideológico de dissimulação de problemas reais ou ainda uma tensão real mascarada.
Observamos que a busca de prestígio e uma posição hierárquica fundamentam a superioridade de
um time. Isto representa uma dramatização de todo um conjunto de lutas que ocorrem na cidade pelas
disputas de território. A televisão possui um papel decisivo neste contexto através das transmissões e
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popularização do futebol; o rádio foi percussor neste sentido, mediante as locuções e amplificação deste
esporte.
Gomes delimita aspectos geopolíticos presentes na nomenclatura oficial que distingue os jogadores
de uma equipe. “Todos são identificados por posições que ocupam no campo, podendo receber a
denominação de armadores, pontas-de-lança, centroavantes [...] valorizando a idéia de ocupação do campo
como um todo e uma indicação de movimento sobre o terreno na consecução de seu objetivo” (GOMES,
2002, p. 240). Há também uma série de qualificativos, lembrados pelo autor, que distinguem atributos, como
artilheiro, capitão, matador, etc. De maneira geral, as descrições da equipe como um todo, seguem a mesma
apelação militar: esquadra, armada, formação, dentre outros.
A bola também recebe denominações bélicas: tiro, canhão, bomba, foguete, etc., sendo vista sob a
idéia de armamento, podendo ser interceptada, neutralizada, dividida, disputada, etc. Além disso, temos as
situações de defesa e ataque: flancos, avanços, desarmes, contra-ataques, etc., como em manobras
militares. Todo este movimento se resume a uma palavra-chave: a tática. Esta é toda a dinâmica de
localização, combate e conquista no jogo.
Um ponto positivo na análise de Gomes é sua percepção de um fato cotidiano, que é o futebol, sob a
perspectiva de aspectos geopolíticos. O que chama atenção na produção é pensar tal disputa de territórios de
forma reconfigurada em outras esferas da vida social, por onde o futebol ganha o mundo e a cidade se
metaforiza. Os espectadores não assistem ao embate passivamente; se envolve na disputa e recriam arenas
de combate. Da mesma forma que a idéia de tática é determinante dentro das “quatro linhas”, esta também é
fundamental para a organização de torcidas.
As bandeiras desenroladas, os gritos de guerra, as músicas, os fogos e os deslocamentos de grupos
seguem assim um comando, uma estratégia, ou, para empregar uma terminologia mais próxima da
geografia, uma territorialidade. A torcida promove o seu próprio espetáculo e reinventa os conflitos.
(GOMES, 2002, p. 239).
A violência, como mencionamos, dentro de campo é contida sob a penalização de regras. No meio
das torcidas, ela ganha autonomia em relação ao espetáculo, como por exemplo, o fenômeno dos hooligans
durante as décadas de 1960, 70 e 80 na Inglaterra. Por outro lado, os acessos aos estádios são também
controlados pelas torcidas, onde o enfrentamento com o poder público, principalmente com a polícia, é
evidente.
Os meios de transporte se tornam objeto de apropriação pelas torcidas. Todo espaço se torna objeto
de disputa, em que, unidos em grupos, torcedores tendem a não respeitar a ordem vigente. Dessa forma, a
cidade passa a participar do circuito simbólico do futebol, sobreposta pela geopolítica das rivalidades. Gomes
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denomina este processo como suspensão da cidadania, em vista da supressão do direito de ir e vir livremente
e pela suspensão de regras básicas do respeito social.
O autor lembra o papel das torcidas organizadas, com destaque às do Flamengo e Palmeiras,
utilizando exemplos de até onde este envolvimento se dá. Elas coordenam as ações de torcedores e são
responsáveis pelo fornecimento do material necessário para os enfrentamentos. Podem chegar até oferecer
cursos de artes marciais e são reguladas por meio de uma rígida hierarquia. Outra manifestação ligada a este
fenômeno são as pichações como marca de domínios ou presença de determinada torcida sobre um território.
Desta forma, a análise do autor é fundamental para pensarmos em que sentido a cidade está sendo
sobreposta pela disputa de territórios e conflitos, no caso, ligados ao futebol e suas ramificações,
principalmente representadas pelas torcidas organizadas. A cidade, tema tão caro para as análises do autor,
passa a ser vista como um território aberto para luta e conquista. Como aponta Gomes, a superposição de
diversos “mapas” projetados por essas movimentações demonstra uma imagem diferente da cidade
democrática e pacífica. É neste ponto que o sentido da cidade se torna frágil, uma vez que estes espaços,
principalmente as grandes metrópoles, são objetos de disputa e palco de muitas guerras perante a geopolítica
do futebol.
Sobre o autor
Paulo César da Costa Gomes é graduado em Geografia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro,
mestre em Geografia pela mesma instituição e Doutor em Geografia pela Sorbonne – Université de Paris IV.
Professor convidado em diversas Universidades da França (La Rochelle, Pau, Lyon e Reims), bolsistapesquisador na Universidade de Ottawa, Canadá, Pós-Doutorado na Université de Paris, atualmente é
professor associado na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Tem experiência nas áreas de Teoria e
Métodos em Geografia, com ênfase em História do Pensamento Geográfico, Epistemologia da Geografia e
Geografia Política, atuando principalmente nos seguintes temas: espaço público, território, epistemologia da
geografia, cidadania e cultura.
A obra
Autor do livro A condição urbana, Paulo César Gomes reúne numa só publicação contribuições que
contemplam temas nas áreas de Território e Cidadania e Teoria da Geografia. Suas publicações anteriores
tratam principalmente de aspectos do espaço público, cidadania e modernidade, em especial seu livro
Geografia e Modernidade. Outros trabalhos compõem seu currículo, como publicações periódicas e
participações na produção e organização de coletâneas no Brasil e no exterior.
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A condição urbana sintetiza os esforços do autor em contribuir para a construção teórica da
Geografia. Para exposições com este teor de preocupação devemos lembrar o nome de Milton Santos, por
quem foi cunhada esta perspectiva de construção teórica no Brasil. Santos inspira Gomes em diversos
momentos da obra, apesar de que o raciocínio deste flui de forma bastante independente, trazendo outros
olhares. Sobre a formulação do livro, Gomes expõe que ele foi esboçado em 1997; portanto demandou
alguns anos, dedicados a ampla pesquisa, cujos resultados se encontram expressos ao longo da obra.
Embora distintas, as realidades analisadas ganham afinidade na interpretação do autor quanto ao referencial
teórico por ele proposto e aplicado. Nosso objetivo nesta resenha é focarmos na análise de um de seus
capítulos que traz a problemática da geopolítica do futebol sob diversos aspectos dentro e fora de campo.
Referências bibliográficas
COSTA, Wanderley Messias da. Geografia Política e Geopolítica: Discursos sobre o Território e o Poder.
São Paulo: HUCITEC: Editora da Universidade de São Paulo, 1992.
ELIAS, Norbert e DUNNING, Eric. Deporte y ocio en el proceso de la civilizacion. México: Fondo de
Cultura Econômica, 1995.
GOMES, P. C. C. O futebol e sua dimensão estética: Entre a geopolítica da bola e a geopolítica dos
torcedores. In: A condição urbana. 1. ed. Rio de janeiro: Bertrand Brasil, 2002, 304p.
HOBSBAWM, Eric J. O apogeu do nacionalismo: 1918-1950. In: Nações e nacionalismo desde 1780:
programas, mito e realidade. Tradução de Maria Célia Paoli e Anna Maria Quirino. Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 1990, p. 159-194.
TOLEDO, Luiz Henrique de. Lógicas no futebol. São Paulo: Hucitec: Fapesp, 2002.
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