Insper Instituto de Ensino e Pesquisa
Programa de Mestrado Profissional em Economia
Paulo Gomes Freitas
POUPANÇA PRECAUCIONAL NO BRASIL: UMA ANÁLISE
COM MICRODADOS DA POF
São Paulo
2010
i
Paulo Gomes Freitas
Poupança precaucional no Brasil: uma análise com
microdados da POF
Dissertação apresentada ao Programa de Mestrado
Profissional em Economia do Insper Instituto de
Ensino e Pesquisa, como parte dos requisitos para a
obtenção do título de Mestre em Economia.
Área de concentração: Finanças e Macroeconomia
Aplicadas
Orientador: Prof. Dr. Fábio Augusto Reis Gomes –
Insper
São Paulo
2010
ii
Freitas, Paulo Gomes
Poupança precaucional no Brasil: uma análise com
microdados da POF/ Paulo Gomes Freitas; orientador Fábio
Augusto Reis Gomes – São Paulo: Insper, 2010.
39 f.
Dissertação (Mestrado – Programa de Mestrado
Profissional em Economia. Área de concentração: Finanças
e Macroeconomia Aplicadas) – Insper Instituto de Ensino e
Pesquisa.
1. Teoria do Consumo 2. Renda Permanente 3.
Macroeconomia
iii
FOLHA DE APROVAÇÃO
Paulo Gomes Freitas
Poupança precaucional: uma análise de microdados para o Brasil
Dissertação apresentada ao Programa de Mestrado
Profissional em Economia do Insper Intituto de
Ensino e Pesquisa, como requisito parcial para
obtenção do título de Mestre em Economia.
Área de concentração: Finanças e Macroeconomia
Aplicadas
Aprovado em: Junho/2010
Banca Examinadora
Prof. Dr. Fábio Augusto Reis Gomes
Orientador
Instituição: Insper
Assinatura: _________________________
Prof. Dr. Eurilton Alves Araújo Junior
Instituição: Insper
Assinatura: _________________________
Prof.Dr. Cleomar Gomes da Silva
Instituição:FGV-SP
Assinatura: _________________________
iv
DEDICATÓRIA
Aos meus pais que possibilitaram e me auxiliaram no caminho que tracei.
v
AGRADECIMENTOS
Gostaria de agradecer aos professores do Insper que me auxiliaram nessa
jornada de quase dois anos e meio do mestrado. Em especial, gostaria de agradecer
ao meu orientador Professor Dr. Fábio Gomes, que apesar de sua restrição de
tempo sempre me apoiou e orientou durante o processo da dissertação de mestrado.
vi
RESUMO
FREITAS, Paulo Gomes. Poupança precaucional no Brasil: uma análise com
microdados da POF 2010. 39 f. Dissertação de Mestrado – Insper Instituto de
Ensino e Pesquisa, São Paulo, 2010.
O objetivo deste trabalho é testar a existência de poupança precaucional por
parte das famílias no Brasil. A estimação empírica foi possível com os microdados
de duas pesquisas – POF e PME, ambas realizadas pelo IBGE no período de 2002
– 2003.
Como resultado final, as evidências empíricas comprovaram a existência de
poupança precaucional. O impacto marginal estimado no consumo devido ao risco
de perda de renda do trabalho foi de R$ 7,64 para cada R$ 1,00 de expectativa de
perda de renda.
Palavras-chave: poupança precaucional; consumo; macroeconomia; microdados
vii
ABSTRACT
FREITAS, Paulo Gomes. Precautionary saving in Brazil: a microdata analysis
with POF data 2010. 39 f. Dissertation for the degree of master of science – Insper
Instituto de Ensino e Pesquisa, São Paulo, 2010.
The target of this paper is to test whether there is precautionary saving in
Brazilian households behavior. The empirical estimation was possible due to the
microdata available from IBGE researches POF and PME in 2002 and 2003.
The final figures show that there are empirical evidences of the precautionary
saving behavior. The marginal impact on consumption due to the jobless risk was
estimated in R$ 7,64 for each R$ 1,00 of expected loss in income.
viii
Keywords : precautionary saving; consumption; macroeconomics; microdata
LISTA DE TABELAS
Tabela 1 – Resultado Logit Probabilidade de Desemprego . . . . . . . . . . . 17
Tabela 2 – Estatísticas Descritivas da Base de Dados. . . . . . . . . . . . . . . . 18
Tabela 3 – Resultados Regressão Final . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . 20
Tabela 4 – Grupos Econômicos IBGE . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . 27
ix
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 – Gráfico 1 – Consumo x Utilidade Marginal do Consumo . . . . . . . . . . . . 9
Figura 2 – Gráfico 2 – Consumo x Utilidade Marginal do Consumo . . . . . . . . . . . 10
x
SUMÁRIO
1) Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 01
2) Teoria e Revisão Bibliográfica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .03
3) Descrição dos Dados . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13
4) Modelo e Resultados . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16
5) Conclusão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .23
6) Referências Bibliográficas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .24
7) Apêndices . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .27
xi
1. INTRODUÇÃO
Modelos que incorporam a existência de poupança precaucional concluem
que as famílias possuem ativos de reserva quando se deparam com incerteza no
fluxo de renda futura. Essa idéia de que as pessoas acumulam reservas para
encarar períodos de queda na renda tem suas origens no trabalho de Friedman
(1957). Desde então, há uma vasta literatura sobre o efeito da incerteza na renda
sobre o consumo. Os trabalhos de Leland (1968) e Sandmo (1970) consideram que
a poupança precaucional em função do risco na renda está associada à
convexidade da utilidade marginal do consumo, ou seja, a uma terceira derivada
positiva para uma função utilidade do tipo von-Neumann-Morgenstern. A análise de
poupança precaucional é, notadamente, centrada em como a incerteza na renda
afeta o consumo.
Os trabalhos de Caballero (1990) e Weil (1990) foram os primeiros a utilizar
um modelo de multiperíodos e estimar como a poupança precaucional aumenta em
resposta a um aumento na variância dos choques no processo gerador de renda e
no seu grau de persistência. Além disso, Kimball (1990) demonstrou que se as
pessoas apresentam nível de prudência decrescente, a poupança precaucional
diminui à medida que a riqueza aumenta. Assim, a reação aos choques na renda
depende da riqueza do indivíduo.
A poupança precaucional possui muitas implicações para políticas públicas. A
incerteza, ao impactar o comportamento dos agentes econômicos, pode ser foco de
políticas públicas como programas de seguro e impostos por parte dos governos
para melhorar o bem-estar dos indivíduos. Além disso, Zeldes (1989) indica que a
poupança precaucional pode explicar alguns “puzzles” como excesso de
sensitividade do consumo a flutuações antecipadas na renda, o crescimento do
consumo mesmo na presença de baixas taxas de juros e a baixa taxa de
despoupança das pessoas mais idosas.
Há muitos estudos teóricos sobre o assunto bem como trabalhos com testes
empíricos. Apesar de úteis, ambas as metodologias possuem pontos negativos –
enquanto os trabalhos teóricos dependem de parâmetros assumidos ad hoc, os
trabalhos com testes empíricos se deparam com o problema de como medir o valor
1
subjetivo da incerteza sobre a renda futura. Como essa variável não pode ser
observada, as pesquisas resumem-se em simulações ou a utilizações de proxies
para o risco, como no caso do trabalho de Skinner (1988) em que as taxas de
poupança foram estimadas para indivíduos com diferentes ocupações ordenadas
pelo autor de acordo com a sua percepção de probabilidade de perda da renda do
trabalho, uma vez que na maioria da vezes os indivíduos não conseguem obter
seguros completos contra esse tipo de risco.
O presente estudo visa estimar os impactos do risco da renda sobre o
consumo e, por conseguinte, sobre a poupança no Brasil utilizando a metodologia
adotada por Skinner (1988) porém diferentemente do trabalho original em que o
risco de perda da renda do trabalho era definido de maneira ad hoc pelo autor, ele
será estimado com dados empíricos através de um modelo de probabilidade logit.
A estimação da relação entre incerteza na renda do trabalho e consumo leva
em conta ainda o possível problema gerado por endogeneidade, uma vez que
agentes mais avessos ao risco podem selecionar empregos mais estáveis. É
utilizada a metodologia de variáveis instrumentais para expurgar esse o efeito.Os
dados para a estimação foram obtidos com o Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE) sendo os microdados da pesquisa de orçamento familiar (POF)
realizada pelo IBGE em 2002 - 2003 e os microdados das pesquisas mensais de
emprego (PME) realizadas no ano de 2003. Da POF foram extraídos os dados de
renda e consumo enquanto que na PME foram obtidos os dados para a estimação
de incerteza na renda.
Os resultados obtidos pela estimação comprovaram a existência de poupança
precaucional no Brasil, sendo o impacto marginal no consumo de R$ 7,64 para cada
R$ 1,00 de perda de renda do trabalho esperada.
O presente trabalho está organizado em uma primeira parte na qual é
apresentada a teoria e revisão bibliográfica seguido da descrição dos dados
utilizados e por fim o modelo utilizado e os resultados obtidos com as estimações.
2
2. TEORIA E REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
O estudo do consumo das famílias é importante para o entendimento do
crescimento e das flutuações macroeconômicas. A divisão dos recursos da
sociedade entre consumo e investimento em várias áreas é central na determinação
dos padrões de vida no longo prazo. Essa divisão é determinada pela interação da
alocação da renda das famílias entre consumo e poupança dadas às taxas de
retorno e restrições a que se deparam.
Na década de 50 Mondigliani e Friedman utilizaram uma hipótese para o
consumo: a idéia fundamental é a de que os agentes econômicos decidem o quanto
consumir e poupar levando em conta todos os períodos da vida e toda a informação
disponível incluindo a riqueza e renda corrente, a taxa de juros e a expectativa de
renda futura. Com isso, os indivíduos acabam por suavizar o consumo, tentando
manter um padrão de consumo estável ao longo de sua vida. O modelo pode ser
formalizado, conforme a demostração feita em Romer (2005), para T períodos da
seguinte maneira:
(1)
em que U é o bem-estar do agente econômico ao longo da vida. Esse indivíduo vive
T períodos e decide o quanto consumir e poupar em cada período. A função u(C t) é
a sua utilidade instantânea de consumir no período t. A riqueza inicial A0 e a renda
do trabalho Yt são dadas e para simplificação a taxa de juros é igual a zero e a taxa
de desconto intertemporal igual a um. Ainda por hipótese, u’(.) > 0 e u’’(.) < 0.
O indivíduo pode aplicar ou tomar emprestado recursos a uma taxa exógena
(no caso por simplificação zero) sujeito apenas à restrição de ter que repagar todos
os empréstimos no final de sua vida. Sendo assim, a restrição orçamentária tornase:
(2)
Assim o problema do consumidor torna-se:
(3)
3
sujeito à restrição orçamentária:
Resolvendo o problema, tem-se:
(4)
Desta forma, o consumo é constante em todos os períodos do tempo sendo
igual à razão entre todos os recursos do indivíduo e o número de períodos de vida.
O termo à direita foi denominado por Friedman (1957) como renda permanente. A
diferença entre a renda permanente e a renda corrente é denominada como renda
transitória. Assim:
(5)
Sendo Y a renda média tem-se que a poupança é alta quando a renda é alta
relativamente à sua média, ou seja, quando a renda transitória é alta. De forma
análoga, quando a renda corrente é baixa, o indivíduo utiliza sua poupança ou toma
empréstimos para suavizar a sua trajetória de consumo. Porém, como mostra a
equação 5, a teoria orginal da renda permanente não leva em conta as eventuais
incertezas na renda, mesmo quando em vez de um modelo determinístico se utiliza
um modelo probabilístico.
Em 1978, o trabalho de Hall tomou como base um indivíduo representativo
“forward-looking” e obteve como resultado a conclusão de que o consumo segue um
passeio aleatório. A intuição deste resultado é que, uma vez que há a expectativa de
mudança no consumo futuro, o indivíduo pode melhorar seu bem-estar suavizando o
4
consumo hoje. Assim qualquer variação no consumo deve ocorrer somente por
causa de choques aleatórios.
Partindo-se para um modelo com infinitos períodos, tem-se a formalização do
problema do consumidor que será resolvido por programação dinâmica:
(6)
sujeito a:
(7)
em que
,
e
são, respectivamente, riqueza, renda e consumo no período t,
é a taxa de juros esperada para o período t+1,
intertemporal e
é o fator de desconto subjetivo
é a esperança condicional ao conjunto de informações ( ) do
consumidor no período t. Assume-se ainda que
’(.) > 0,
’’(.) < 0 e
’(0)=
(condição de Inada).
As variáveis de controle são
objetivo é
e
e a variável de estado é
. A função
, dependendo apenas da variável de controle. A restrição
é a lei de movimento da riqueza. Para resolver o problema, é
preciso construir a equação de Bellman:
(8)
sujeito a:
(9)
sendo obtida a equação de Euler do consumidor:
(10)
Assim, a utilidade marginal do consumo no presente é igual ao valor presente
esperado da utilidade marginal do consumo no próximo período. Hall utilizou a
hipótese de que
e
. Assim, a equação (10) fica da seguinte forma:
5
(11)
em que
. Da equação (11) conclui-se que a utilidade marginal do
consumo é um passeio aleatório. Após isso, Hall assumiu uma função de utilidade
quadrática da forma:
(12)
Desta forma a equação de Euler torna-se:
(13)
com
E, assim
=
(14)
A equação (14) mostra que a hipótese do passeio aleatório significa que o valor
esperado da variação do consumo é zero. Desta forma, qualquer variação do
consumo se deve a um novo conjunto de informações, uma vez que toda a
informação já foi utilizada para sua suavização.
Para efeito ilustrativo basta supor um aumento de consumo no futuro. Isso
implicaria em uma utilidade marginal do consumo atual maior do que uma utilidade
marginal do consumo esperada e, portanto, o indivíduo teria maior bem-estar se
aumentasse o consumo atual. Desta forma, os indivíduos ajustam seu consumo de
maneira a não terem mais variações esperadas.
O trabalho de Hall (1978) tem como resultados empíricos que, para uma
primeira aproximação, os dados para os Estados Unidos da América no pós-guerra
são consistentes com a hipótese de passeio aleatório. Dessa forma, a previsão de
6
seu crescimento com base em crescimentos anteriores ou outras variáveis como a
renda futura seriam infrutíferas.
Os estudos posteriores passaram a incluir outras funções de utilidade,
diferentes da inicialmente proposta por Hall como a CRRA. Nesse caso hipóteses
adicionais para a linearização do modelo como por exemplo a log-normalidade ou
por expansão de Taylor de primeira e segunda ordem, tornam o consumo uma
função da taxa de juros. Mas, a idéia básica de suavização do consumo e a
irrelevância do fator risco permanecem.
Para testar a hipótese de renda permanente, o estudo de Campbell e Mankiw
(1989) utilizou a um modelo heterogêneo no qual uma fração dos agentes consome
segundo a teoria da renda permanente e a outra parte consome a renda corrente, o
que em geral se atribui a restrição ao crédito. Sob a hipótese de teoria de renda
permanente, o coeficiente da parte da população que consome a renda corrente
deveria ser zero, pois toda a informação relevante para o consumo já deveria ter
sido considerada na renda permanente. Usando os dados da economia americana,
o trabalho de Campbell e Mankiw concluiu que aproximadamente 50% da população
americana consumiam sua renda corrente em vez de sua renda permanente.
Sarantis e Stewart (2003), estimaram para o modelo de Campbell e Mankiw (1989)
para os países da OCDE e investigaram como o percentual de pessoas que
consomem de acordo com sua renda corrente está relacionado com variáveis que
medem o grau de restrição de crédito e a existência de poupança precaucional.
Como conclusão, foram encontradas evidências de que esse percentual de restrição
de crédito depende do percentual da dívida do setor privado em relação ao PIB, do
nível e da variação do desemprego, da taxa de crescimento da renda, da taxa de
crescimento da população e da taxa de juros.
Para o Brasil, Reis et alli (1998) estudaram séries anuais de consumo e renda
per capita de 1947 a 1994, bem como séries trimestrais de janeiro de 1975 a abril de
1994. Os resultados de seus estudos sugerem que as séries de renda e consumo
são cointegradas e aproximadamente 80% da renda no Brasil pertencem a
consumidores que estão restritos a consumir apenas a sua renda corrente. Além
disso, os autores estimaram o efeito na taxa de crescimento do consumo em
decorrência
da
poupança
precaucional
gerada
devido
as
incertezas
macroeconômicas em 1,6% ao ano para o período estudado, um valor
7
quantitativamente importante uma vez que o crescimento total do consumo
observado no período foi de 2,7%.
Carrol e Summers (1991) apresentam extensa evidência de que as previsões
obtidas com os modelos de renda permanente - nos quais a variação do consumo é
imprevisível ou depende apenas dos juros - são incorretas. Por exemplo, indivíduos
em países nos quais o crescimento da renda é alto, tipicamente apresentam um alto
crescimento do consumo ao longo da vida, ao passo que indivíduos em países de
baixo crescimento da renda apresentam baixo crescimento do consumo.
Analogamente, os padrões de consumo ao longo da vida de indivíduos de diferentes
ocupações tendem a seguir o padrão de renda desses indivíduos, sendo um dos
principais fatores que podem explicar a correlação entre o crescimento da renda e
do consumo a poupança precaucional.
Uma maneira de visualizar o efeito da poupança precaucional sobre consumo
é por meio da utilização da função CRRA que possui a terceira derivada positiva.
Assim
torna-se uma função convexa de
maior do que
é maior do que
, sendo desta forma
. Se, em algum momento,
e
e, logo, uma redução marginal de
são iguais,
aumentaria a
utilidade esperada. Portanto, uma combinação de terceira derivada positiva e
incerteza sobre a renda futura diminuem o consumo presente gerando uma
poupança precaucional.
As figuras 1 e 2 mostram a relação entre
relação entre as duas é decrescente uma vez que
e
. Como se pode ver, a
é negativa, porém a função
decresce cada vez mais devagar na margem devido ao fato de
ser positiva.
8
Figura 1 – relação entre consumo e utilidade marginal do consumo
u‘(C)
u ' (Cbaixo )
u' (Cbaixo)  u' (Calto )/ 2
u' Cbaixo  Calto / 2
u ' (Calto )
Cbaixo
Cbaixo  Calto  / 2
Calto
C
Na figura 1 foram atribuídos dois estados da natureza – consumo alto ou
consumo baixo, ambos com probabilidade de 50% de ocorrência. A utilidade
marginal do consumo sob essas condições é a média da utilidade marginal dos dois
valores, que devido à convexidade é maior do que utilidade marginal da média do
consumo.
Já na figura 2 pode-se ver que um aumento na incerteza, ainda que com uma
média de consumo constante, leva a um aumento na poupança precaucional. Isso
ocorre porque a queda de utilidade marginal do consumo no estado da natureza de
consumo alto decorrente da variação de Calto para C’alto é menor do que a variação
de utilidade marginal no estado da natureza de consumo baixo decorrente da
variação de Cbaixo para C’baixo, efeito esse devido à terceira derivada negativa.
9
Figura 2 – relação entre consumo e utilidade marginal do consumo
u‘(C)
u' (C'baixo )  u' (C'alto )/ 2
u' (Cbaixo)  u' (Calto )/ 2
u ' (Calto )
C'baixo
Cbaixo
Cbaixo  Calto  / 2
Calto
C'alto
C
Desta forma a hipótese de que o crescimento do consumo não depende do
crescimento da renda e somente é determinando pela taxa real de juros e as taxas
de desconto não é compatível com a existência de poupança precaucional.
A existência de poupança precaucional indica que os indivíduos possuem um
estoque de poupança adicional em virtude da incerteza na renda, uma vez que não
há nenhum tipo de seguro para esse tipo de incerteza. Trabalhos como os de
Skinner (1988), Zeldes (1989) e Caballero (1990) mostraram que com parâmetros
realistas, a incerteza na renda pode gerar um substancial valor de poupança e
riqueza precaucional com base em simulações de modelos teóricos. Por exemplo,
Skinner (1988) e Caballero (1990) identificaram que a incerteza na renda
corresponde a 56% e 60% do patrimônio líquido das famílias, respectivamente.
Skinner (1988) também tenta analisar o comportamento da taxa de poupança
segmentando os indivíduos tipos de profissão. A sua conclusão diverge, no entanto
do que seria esperado teoricamente: indivíduos em profissões como autônomos e
fazendeiros possuem uma taxa de poupança menor do que a média geral. O autor
identifica como causa desse problema um possível viés de seleção que não foi
corrigido. Indivíduos mais avessos ao risco podem selecionar profissões menos
arriscadas.
10
Outros trabalhos tentam estimar os efeitos da poupança precaucional com
proxies indiretas para o risco, porém são suscetíveis a algumas críticas. Trabalhos
de séries temporais em nível agregado tendem a refletir o risco agregado apenas,
mas como citado por Kimball (1990) os riscos individuais que são os principais
determinantes da poupança precaucional tendem a desaparecer em nível agregado.
Em dados de cross-section, as proxies para o risco tendem a sofrer do problema de
auto-seleção, uma vez que indivíduos em profissões mais arriscadas podem ter
escolhido a categoria simplesmente por serem menos avessos ao risco e, ainda
assim, possuir um nível de poupança menor ou igual de indivíduos em profissões
menos arriscadas como citado por Guiso et al. (1992).
Guiso et al. (1992) concluem, usando uma pesquisa na qual as pessoas eram
questionadas sobre o quão incerto elas consideram a sua renda futura, que o nível
de incerteza da renda futura afeta o nível de poupança dos indivíduos de acordo
com a teoria sendo, inclusive, consistente com um nível de prudência decrescente.
Em termos gerais, o estoque de poupança precaucional representa 2% do total do
patrimônio líquido dos indivíduos na Itália. Guiso et al. (1992) encontra evidência de
que exista uma correlação negativa entre a incerteza na renda e a proporção de
ativos com risco em carteira dos indivíduos na Itália. Ele sugere que esse efeito
juntamente com a restrição ao crédito representa 25% do equity premium puzzle
observado na Itália entre 1907 e 1993.
Guiso e Jappelli (1992) concluem que a incerteza na renda é positivamente
correlacionada com seguros contra acidentes, um tipo de risco que pode ser
segurado. O mais importante é observar que todos esses trabalhos corroboram a
hipótese de que as preferências dos consumidores são caracterizadas por um nível
de prudência absoluta decrescente.
Os trabalhos mais recentes utilizam como arcabouço teórico um modelo de
“buffer-stock”, no qual os indivíduos que são ao mesmo tempo avessos ao risco e
impacientes com relação ao consumo possuem um estoque de poupança
precaucional. Carroll (1997) e outros autores resolveram versões sofisticadas desses
modelos. Embora os detalhes dos modelos possam diferir - existência ou não de
restrições à liquidez e a probabilidade da realização de um cenário de queda na
renda - eles possuem previsões semelhantes: os indivíduos possuem um nível ótimo
de estoque de poupança que é função de sua aversão ao risco, de seu nível de
11
renda e de seu nível de impaciência. Como citado por Carroll, os poupadores
possuem uma meta de estoque de riqueza com relação à renda permanente tal que
se esse nível estiver abaixo de sua meta, o motivo precaucional prevalecerá sobre a
impaciência e o consumidor poupará mais. Por outro lado, se o nível estiver acima
de sua meta, a impaciência dominará a prudência e o consumidor diminuirá sua
poupança.
12
3. DESCRIÇÃO DOS DADOS
Em conformidade com Skinner (1988) o modelo econométrico adotado parte
do pressuposto que diferentes tipos de ocupação possuem diferentes níveis de
risco, então, levando em conta outros fatores relevantes, o nível de consumo deve
ser menor para indivíduos de setores mais arriscados. Para testar essa hipótese,
foram usados os microdados de duas pesquisas realizadas pelo Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística (IBGE) – a Pesquisa Mensal de Emprego (PME) e a
Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF).
A POF visa medir as estruturas de consumo, de gastos e de rendimentos das
famílias e, portanto, possibilita assim identificar um perfil da população brasileira a
partir da análise de seus orçamentos domésticos. Além das informações referentes à
estrutura orçamentária, várias características associadas às despesas e rendimentos
dos domicílios e famílias são investigadas, o que viabiliza o desenvolvimento de
estudos sobre a composição dos gastos das famílias segundo as classes de
rendimentos, a extensão do endividamento familiar e a dimensão do mercado
consumidor para grupos de produtos e serviços.
A POF é realizada por amostragem, na qual são investigados os domicílios
particulares permanentes. No domicílio, por sua vez, é identificada a unidade básica
da pesquisa – Unidade de Consumo - que compreende um único morador ou
conjunto de moradores que compartilham da mesma fonte de alimentação ou
compartilham as despesas com moradia. Os dados utilizados foram obtidos
nacionalmente entre julho de 2002 e junho de 2003 para propiciar a estimação de
orçamentos familiares que contemplem as alterações a que estão sujeitos ao longo
do ano, as despesas, as quantidades de bens adquiridos e os rendimentos.
Para calcular as despesas da unidade de consumo com base nos dados da
POF foram consideradas todas as despesas monetárias realizadas na aquisição de
produtos, serviços e bens. Estão incluídas também despesas não-monetárias com
produtos e bens, além do serviço do aluguel que foi atribuído para unidades de
consumo que possuíam residência própria. Foram excluídos deste item os valores
de aumento do ativo – aquisição de imóveis, bens de consumo duráveis, títulos de
capitalização, títulos de clube, aquisição de terrenos e outros – e a diminuição do
13
passivo - pagamentos de débitos com empréstimos pessoais e carnê de
mercadorias, dívidas judiciais, prestação de imóvel e outros.
Para o rendimento, considerou-se qualquer tipo de ganho monetário e não
monetário recebido durante o período de referência de 12 meses anteriores à data
de realização da coleta das informações. O rendimento foi pesquisado para cada um
dos moradores que constituiu uma unidade de orçamento. Para facilitar a análise, os
rendimentos foram divididos em três grupos: rendimentos do trabalho, rendimento
proveniente de aluguel imputado ao domicílio próprio e outros rendimentos que
incluem aposentadoria de previdência pública ou privada, bolsas de estudo, pensões
e outros tipos de transferências transitórias. Foram excluídos os valores de
diminuição de ativos – resgates de poupança, fundos de investimento, venda de
bens duráveis e imóveis e outros – e aumento de passivos – em geral obtenção de
qualquer tipo de empréstimo. Foram descontados todos os valores pagos em
impostos do total de rendimentos brutos.
Tanto os dados de rendimento quanto os de despesa foram deflacionados
para a correção dos valores, uma vez que a POF foi realizada ao longo de um ano.
Foram excluídos da base os domicílios com mais de uma unidade de consumo e
unidades de consumo cuja pessoa de referência tivesse menos de 20 e mais de 55
anos (para evitar problemas de despoupança de indivíduos mais idosos à medida
que se aproximam da aposentadoria). Foram excluídas também unidades de
consumo com taxa de poupança maior que |60%| do total de rendimentos, obtendose uma base com 22,530 observações. Todos esses procedimentos são similares
aos adotados por Skinner (1998).
Já a PME produz indicadores mensais sobre a força de trabalho que
permitem avaliar as flutuações e a tendência, a médio e longo prazo, do mercado de
trabalho. Abrange informações referentes a condição de atividade, condição de
ocupação, rendimento médio nominal e real, posição na ocupação, posse de carteira
de trabalho assinada, entre outras, tendo como unidade de coleta os domicílios.
A pesquisa foi iniciada em 1980, sendo submetida a duas revisões parciais
em 1988 e 1993 e duas completas em 1982 e 2001 sendo esta última um amplo
processo de revisão metodológica visando não só à captação mais abrangente das
características de trabalho, como também sua adequação às mais recentes
recomendações da Organização Internacional do Trabalho. Para o presente
14
trabalho, foram utilizados os dados mensais dos indivíduos colhidos entre janeiro e
dezembro de 2003 para tornar o período de análise semelhante ao da POF de
maneira a poderem ser comparados.
Foram excluídos da base da PME todos os indivíduos que não faziam parte
da população economicamente ativa (PEA), ou seja, que não estavam ocupados e
não haviam tomado nenhuma atitude para procurar emprego nos últimos 30 dias.
Com isso, a base obtida possui 469.840 observações.
15
4. MODELO E RESULTADOS
Para a estimação do impacto da incerteza na renda sobre a poupança, foi
necessária a criação da uma variável que consolidasse o risco de todos os
indivíduos pertencentes a uma unidade de consumo. Foi criada uma variável para
medir a perda esperada de renda do trabalho de uma unidade de consumo, a saber:
(15)
Ou seja, a perda esperada de renda do trabalho de uma unidade de consumo
j é a consolidação da renda de todos os indivíduos que trabalham i multiplicado
pelas suas respectivas probabilidades de desemprego i. A partir dessa variável
pode-se estimar o seguinte modelo:
(16)
Se o coeficiente
for estatísticamente menor do que zero, então, conclui-se
que há o efeito de poupança precaucional devido à incerteza na renda futura.
Como primeiro passo, um modelo logit foi estimado para a determinação da
probabilidade condicional de desemprego. Para o modelo completo foram utilizados
os seguintes regressores:
X1: dummy de sexo feminino;
X2: idade do indivíduo;
X3: idade do indivíduo ao quadrado;
X4 a X6: dummies de condição do indivíduo no domicílio – chefe de família, cônjuge,
filho e outros;
X7 a X10: dummies de raça – branco, negro, amarelo, pardo e indígena;
X11 a X14: dummies de escolaridade – até 1 ano de estudo, entre 1 e 3 anos de
estudo, entre 4 e 7 anos de estudo, entre 8 e 10 anos de estudo, acima de 11 anos
de estudo;
X15 a X68: dummies de setor econômico definido pelo IBGE (tabela anexa 01)
16
A tabela 1 mostra os coeficientes estimados com base na PME bem como os
efeitos marginais calculados na probabilidade média de desemprego. As 54 variáveis
dummies de setor econômico foram omitidas da tabela para facilitar a leitura e
compreensão dos resultados.
Tabela 01 – Logit probabilidade de desemprego
Logit Probabilidade Desemprego
Coeficiente Ɨ
Efeito Marginal
constante
-0.5652***
(0.072)
-
idade
-0.0574***
(0.003)
-0.0027***
(0.000)
idade*idade
0.0002***
(0.000)
0.0000***
(0.000)
0.3080***
(0.016)
0.3358***
(0.021)
-0.1246
(0.096)
0.0148***
(0.001)
0.0180***
(0.001)
-0.0056
(0.004)
dummy sexo feminino
dummies anos de estudo
dummies de
condição na
família
dummies raça
negro
amarelo
0.1736***
(0.014)
0.2513
indígena
(0.165)
-0.0178
cônjuge
(0.020)
0.3790***
filho
(0.019)
0.3255***
outros
(0.025)
-0.1216**
1 < anos estudo <= 3
(0.044)
-0.1624***
3 < anos estudo <= 7
(0.038)
-0.1660***
7 < anos estudo <= 10
(0.039)
-0.3483***
anos estudo > 10
(0.039)
dummies de setor econômico omitidas
pardo
Observações
469,840
2
Pseudo R
Razão de Verossimilhança c2
0.0084***
(0.001)
0.0133
(0.010)
-0.0008
(0.001)
0.0194***
(0.001)
0.0175***
(0.002)
-0.0055**
(0.002)
-0.0074***
(0.002)
-0.0075***
(0.002)
-0.0162***
(0.002)
(68)
/c2
(7)
6.08%
13,176.47
P-Valor
0.00%
y* médio
4.97%
Ɨ As 54 dummies de setores econômicos foram omitidas
Desvios-padrão em parênteses
* p<0.05, ** p<0.01, *** p<0.001
17
O termo da constante representa um indivíduo do sexo masculino, branco,
chefe de família, com até um ano de estudo e trabalhador do setor de construção
civil. O teste de razão de verossimilhança rejeita a hipótese de que todos os
coeficientes são iguais a zero e dentre os 68 regressores, apenas 4 – as dummies
das raças amarela e indígena e as dummies dos setores econômicos 02 (silvicultura
e serviços relacionados) e 16 (fabricação de produtos de fumo) – não são
estatisticamente significantes a 5%.
A partir dos coeficientes do modelo logit, foi gerada a variável latente de
probabilidade de desemprego para os indivíduos da POF assumindo que as
previsões feitas com os dados da PME representam satisfatoriamente a
probabilidade de desemprego a que os indivíduos entrevistados pela POF estão
expostos. Esta hipótese pode ser adotada uma vez que as variáveis do questionário
da PME, como por exemplo, setor econômico em que trabalha o inidivíduo, são as
mesmas da POF pois ambas seguem o padrão adotado pelo IBGE. Além disso,
foram admitidas duas hipóteses adicionais: a probabilidade de desemprego de
indivíduos do setor público foi considerada como zero e as probabilidades de perda
das outras rendas não são relevantes para a decisão de poupança. Com as
probabilidades de desemprego estimadas, a variável perda esperada da renda do
trabalho da unidade de consumo foi então calculada. Com isso foi obtida uma base
de dados única cujas estatísticas estão descritas na tabela 3.
Tabela 2 – Estatísticas descritivas em R$
Estatísticas
Consumo Total
Média
12,577
Desvio Padrão
15,729
Mediana
7,735
Mínimo
202
Máximo
250,992
Renda Total
16,153
20,839
9,778
347
450,365
Perda Esperada
466
536
313
0
14,877
% Poupado
17.0%
28.9%
22.6%
-60.0%
60.0%
Em conformidade com Skinner (1988), busca-se encontrar uma relação
positiva (negativa) entre risco de perda de renda do trabalho, um tipo de risco para o
qual não há seguro completo, e nível de poupança (consumo). Assim, foram
utilizadas categorias de trabalho admitindo-se que para cada uma há um nível
diferente de risco de desemprego e, por conseqüência, de perda na renda. Porém,
diferentemente de Skinner (1988) que definiu a priori os setores tidos como mais
18
arriscados, neste trabalho foram utilizadas as probabilidades de desemprego
descritas anteriormente. Com isso, é esperado que as unidades de consumo com
maior probabilidade de desemprego devam consumir menos e, por conseqüência,
poupar mais.
A partir disso, foram estimadas três formas funcionais:
Modelo 1:
(17)
Modelo 2:
(18)
Modelo 3:
(19)
No primeiro modelo foi considerada somente a variável perda esperada de
renda do trabalho. O segundo modelo inclui as variáveis de controle demográfico e
de ciclo de vida. O terceiro modelo inclui também a variável dummy de acesso ao
crédito que apresenta valores um para as unidades de consumo que possuem ou
cheque especial ou cartão de crédito. Ela será utilizada como proxy para controlar o
efeito da restrição ao crédito sobre o consumo e poupança.
19
Tabela 03 – Resultados poupança precaucional
Consumo
Constante
Perda Esperada de Renda do
Trabalho
Renda Trabalho
Renda Atribuída Aluguel
Outros Rendimentos
Idade Pessoa de Referência
Idade Pessoa de Referência
ao Quadrado
Quantidade de Filhos
Dummy Acesso ao Crédito
n
R
2
Teste Wald (P-Valor)
Teste de Sargan (P-Valor)
Modelo 1
Modelo 2
Modelo 3
OLS
GMM
OLS
GMM
OLS
GMM
720.45***
2311.61***
355.44
8295.30***
616.02
8219.03***
(150.53)
(419.57)
(697.03)
(1853.16)
(687.97)
(1804.43)
0.47
-7.58***
0.52
-7.92***
0.45
-7.64***
(0.35)
(1.69)
(0.36)
(1.87)
(0.35)
(1.81)
0.64***
0.85***
0.63***
0.86***
0.62***
0.83***
(0.02)
(0.04)
(0.02)
(0.05)
(0.02)
(0.05)
1.41***
1.32***
1.41***
1.34***
1.39***
1.31***
(0.06)
(0.07)
(0.06)
(0.07)
(0.06)
(0.07)
0.53***
0.50***
0.52***
0.50***
0.51***
0.49***
(0.03)
(0.03)
(0.03)
(0.03)
(0.03)
(0.03)
-
-
11.36
-313.44***
-22.12
-332.68***
-
-
(39.26)
(79.20)
(38.43)
(78.07)
-
-
0.03
3.65***
0.44
3.92***
-
-
(0.51)
(0.94)
(0.51)
(0.93)
-
-
-62.12*
201.95***
-
-
(29.94)
(62.00)
(167.57)
(199.33)
-
-
-
-
-9.92***
243.76***
-
-
-
-
(28.45)
(62.10)
22,530
22,530
22,530
22,530
22,530
22,530
84.130%
80.210%
84.140%
79.930%
84.320%
80.470%
0.00%
0.00%
0.00%
0.00%
0.00%
0.00%
-
6.49%
-
3.78%
-
12,16%
1588.82*** 1758.93***
Desvios-padrão em parênteses
* p<0.05, ** p<0.01, *** p<0.001
Com base no resultado obtido por mínimos quadrados ordinários (OLS) os
coeficientes
não são estatisticamente significantes em todos os três modelos
estimados. Os valores obtidos, além de não serem estatisticamente significantes são
positivos, o que contradiz o modelo teórico apresentado anteriormente.
Porém, para que a estimação do modelo através do método de mínimos
quadrados ordinários seja consistente, os regressores precisam ser todos exógenos
de maneira que não sejam correlacionados com o erro do modelo. Há um forte
indício de que isso não ocorra para os modelos apresentado nas equações 17, 18 e
19, pois indivíduos com maior aversão ao risco podem trabalhar em setores com
menor probabilidade de desemprego, o que diminui a sua perda esperada de renda.
Mas, ainda assim, estes indivíduos podem poupar mais, simplesmente por
possuírem maior aversão ao risco. De forma análoga, indivíduos menos avessos ao
20
risco podem trabalhar em setores econômicos com grande probabilidade de
desemprego e, ainda assim, pouparem pouco devido a sua menor aversão ao risco.
O problema da endogeneidade é corrigido com a utilização de variáveis
instrumentais, sendo os instrumentos correlacionados com a variável endógena e
não correlacionados com a variável dependente. Para o problema em questão foram
considerados como instrumentos além das variáveis exógenas do modelos original,
as dummies de raça dos indivíduos de referência do domicílio uma vez que estas
podem alterar a probabilidade de desemprego, e por consequência a perda de renda
do trabalho esperada, sem afetar a decisão de poupar.
Com base nisso, foram estimados os três modelos utilizando o método
generalizado dos momentos (GMM). O modelo 3, que inclui todas
variáveis de
controle, indica que para um aumento do R$ 1,00 na perda esperada da renda do
trabalho, deve haver uma redução de consumo no total de R$ 7,64. Este resultado
está em linha com a hipótese de poupança precaucional, pois a incerteza na renda
diminui o consumo presente, sendo todos os coeficientes estatisticamente
significantes a 1%. Para os outros dois modelos, todos os coeficientes também se
mostraram estatisticamente significantes e os valores de
são negativos.
O resultado obtido com o estimador de GMM corrobora a idéia de que a
aversão ao risco faz os indivíduos pouparem mais quando se deparam com
incertezas na renda futura, sendo bem grande a sua diferença com relação aos
estimadores obtidos com o uso de OLS.
Como os modelos são sobreidentificados, é possível estimar a validade dos
instrumentos com o teste J. O teste não rejeita a hipótese nula de validade da
condição de momento a 1% para os três modelos, sendo assim válidos os
instrumentos. Um teste usual para checar a endogeneidade de uma variável é o
teste de Hausman, em que sob H0 ambos os estimadores são consistentes porém
um é mais eficiente (no caso OLS e GMM são eficientes porém OLS é mais
eficiente) e sob HA, somente um dos estimadores é eficiente. A estatística de teste é:
Porém, este teste só é válido sob a hipótese forte de que os resíduos do modelo são
independentes e homocedásticos. Uma possível variação deste teste que é
21
consistente mesmo sob a hipótese de heterocedasticidade e autocorrelação entre os
resíduos é o teste de Durbin-Wu-Hausman. A idéia essencial do teste é estimar em
um primeiro estágio uma regressão da variável tida como endógena contra todos os
instrumentos e , com base nos resíduos da regressão, que são utilizados como
proxy para os erros, estimar a seguinte regressão:
(20)
em que
são as variáveis dos respectivos modelos. Sob H0 de exogeneidade da
variável, o coeficiente
na regressão deve ser zero. A estimação acima deve utilizar
o estimador com variância robusta. Os testes dos coeficientes e
para os modelos
1, 2 e 3 tiveram como P-Valor em ambos os casos aproximadamente zero, sendo
desta forma a hipótese nula de exogeneidade da variável rejeitada a 1% em todos
os modelos.
Cabe destacar ainda que apesar de a variável perda esperada de renda do
trabalho ser uma variável latente obtida de uma base de dados diferente, as
variâncias dos modelos não foram ajustadas. Wooldridge (2002) demonstra que a
utilização
de
variáveis
e
instrumentos
dessa
natureza
não
gera
viés
assintoticamente, porém os testes de significância devem ser ajustados devido ao
fato de se ter acrescentado variância ao modelo. O fato de serem utilizadas bases
com dados coletados no mesmo período e pelo mesmo instituto minimiza os efeitos,
uma vez que as variáveis necessárias para a estimação da probabilidade de
desemprego presentes na PME eram as mesmas na POF por padrão do IBGE. O
ajuste das variâncias dos estimadores é uma possibilidade para um trabalho
posterior.
22
5. CONCLUSÃO
O efeito da poupança precaucional tem um papel importante nas
determinações de políticas públicas. Se os agentes econômicos poupam visando
garantir o consumo em estados da natureza em que a renda diminui, então políticas
públicas que visam reduzir a incerteza como seguro desemprego e programas de
transferências de renda tendem a reduzir a poupança privada nacional, esta que por
ser notadamente baixa com relação a outros países como os asiáticos tem sido um
gargalo para o aumento de investimentos.
Os microdados utilizados para a estimação empírica foram obtidos da PME
(Pesquisa Mensal de Emprego) e POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares) ambas
do IBGE. O método utilizado para a estimação considerou a endogeneidade
existente na variável perda esperada de renda do trabalho e a correção foi feita com
a utilização de variáveis instrumentais. O instrumento usado em questão foi a raça
do chefe de família, que aumenta a perda esperada de renda do trabalho sem ser
relacionado com a decisão de poupar .
Esse trabalho estimou em R$ 7,64 a redução no consumo para cada R$ 1,00
de expectativa de perda de renda o que se torna significativo quando se pensa em
termos agregados. Com base nos resultados pode-se concluir que o efeito da
poupança precaucional no Brasil é estatisticamente significante e deve ser
considerado nos estudos sobre o comportamento do consumidor brasileiro.
23
6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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ZELDES, Stephen P. Consumption and Liquidity Constraints: An Empirical
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26
7. APÊNDICES
Tabela 04 – setores de atividade economica do IBGE
Código
Atividade Econômica
0
atividades mal definidas ou não declaradas
agricultura, pecuária e serviços relacionados com estas
1
atividades
silvicultura, exploração florestal e serviços relacionados com
2
estas atividades
pesca, aqüicultura e atividades dos serviços relacionados com
5
estas atividades
10 extração de carvão mineral
11 extração de petróleo, gás natural e serviços relacionados
fabricação de coque, refino de petróleo, elaboração de
12
combustíveis nucleares e produção de álcool
13 extração de minerais metálicos
14 extração de minerais não-metálicos
15 fabricação de produtos alimentícios e bebidas
16 fabricação de produtos do fumo
17 fabricação de produtos têxteis
18 confecção de artigos do vestuário e acessórios
preparação de couros e fabricação de artefatos de couro, artigos
19
de viagem e calçados
20 fabricação de produtos de madeira
21 fabricação de celulose, papel e produtos de papel
22 edição, impressão e reprodução de gravações
fabricação de coque, refino de petróleo, elaboração de
23
combustíveis nucleares e produção de álcool
24 fabricação de produtos químicos
25 fabricação de artigos de borracha e plástico
26 fabricação de produtos de minerais não-metálicos
27 metalurgia básica
fabricação de produtos de metal – exclusive máquinas e
28
equipamentos
29 fabricação de máquinas e equipamentos
30 atividades de informática e conexas
31 fabricação de máquinas, aparelhos e materiais elétricos
fabricação de material eletrônico e de aparelhos e
32
equipamentos de comunicações
fabricação de equipamentos de instrumentação médico33 hospitalares, instrumentos de precisão e ópticos, equipamentos
para automação industrial, cronômetros e relógios
27
34
35
36
37
40
41
45
50
53
55
60
61
62
63
64
65
66
67
70
71
72
73
74
75
80
85
90
91
92
93
95
99
fabricação e montagem de veículos automotores, reboques e
carrocerias
fabricação de outros equipamentos de transporte
fabricação de móveis e indústrias diversas
reciclagem
eletricidade, gás e água quente
captação, tratamento e distribuição de água
construção
comércio e reparação de veículos automotores e motocicletas; e
comércio a varejo de combustíveis
comércio a varejo e por atacado e reparação de objetos pessoais
e domésticos
alojamento e alimentação
transporte terrestre
transporte aquaviário
transporte aéreo
atividades anexas e auxiliares do transporte e agências de
viagem
correios e telecomunicações
intermediação financeira, exclusive de seguros e previdência
privada
seguros e previdência privada
atividades auxiliares da intermediação financeira
atividades imobiliárias
aluguel de veículos, máquinas e equipamentos sem condutores
ou operadores e de objetos pessoais e domésticos
atividades de informática e conexas
pesquisa e desenvolvimento das ciências sociais e humanas
serviços prestados principalmente às empresas
administração pública, defesa e seguridade social
educação
saúde e serviços sociais
limpeza urbana e esgoto; e atividades conexas
atividades associativas
atividades recreativas, culturais e desportivas
serviços pessoais
serviços domésticos
organismos internacionais e outras instituições extraterritoriais
28
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Insper Instituto de Ensino e Pesquisa Paulo Gomes Freitas