O Sentido do Trabalho para os Indivíduos que estão na Iminência de se Aposentarem Autoria: Suellen Melo do Monte, Danielle de Araújo Bispo Resumo O presente artigo se propôs a analisar o sentido do trabalho para indivíduos que estão na iminência de se aposentarem. Fez-se uso da pesquisa qualitativa, da história oral para coleta de dados e da análise de conteúdo para sua compreensão. As conclusões apontam para aspectos interessantes como o fato de dois respondentes não se identificarem subjetivamente com o trabalho que realizam e um deles, apesar de se identificar, não ter seu trabalho reconhecido. Neste contexto, a aposentadoria ganha conotação de libertação, mas traz arraigada, ao mesmo tempo, a percepção de inutilidade, decorrente da ausência de trabalho na forma de emprego. 1 1. Introdução O trabalho sempre ocupou lugar central na vida dos indivíduos. Desde o mundo primitivo, ele foi essencial para o estabelecimento de relações que fundaram o ser social. Segundo Antunes (2009, p. 165), o trabalho é uma categoria fundante do ser social, considerado como “fonte originária, primária, de realização do ser social, protoforma da atividade humana, fundamento ontológico básico da omnilateralidade humana”. O mundo do trabalho sofreu modificações significativas ao longo dos anos, tais como a reestruturação produtiva e o avanço tecnológico, somados à globalização. Nessa nova fase, chamada de capitalismo flexível, nova expressão utilizada para enfatizar a flexibilidade, exige-se do trabalhador moderno maior agilidade, disposição para assumir riscos constantes, mudanças a curto prazo e requer que sejam desprendidos das leis e dos procedimentos formais. Essa nova ordem de capitalismo flexível não elimina as regras do passado, apenas impõe novos controles, que muitas vezes são difíceis de entender (SENNETT, 2012). Como consequência dessas mudanças, que atingiram as estruturas concretas de organização da sociedade e as dimensões subjetivas, o trabalho assumiu aspectos de precariedade, temporariedade, informalidade e obrigou o trabalhador a mudar o seu modo de ser. De acordo com Coutinho et al (2007), esses aspectos somados a vulnerabilidade e a fragmentação, estabelecem dificuldades para as identificações por intermédio do desenho do trabalho e para que se construam identidades profissionais. Mesmo com essa nova disposição do mundo do trabalho, autores como Bendassolli (2007) entendem que o trabalho continua sendo uma atividade central na vida dos indivíduos, mas que o elo que existe entre o trabalho e a identidade foi enfraquecido, tornando-o uma narrativa identitária entre tantas outras quando se refere ao fato do indivíduo falar sobre sua subjetividade. Neste sentido, Bendassolli (2007) apresenta cinco narrativas referentes ao sentido e ao valor do trabalho na atualidade para os indivíduos. Essas narrativas também são chamadas de ethos e são classificadas em: moral-disciplinar, romântico-expressivo, instrumental, consumista e gerencialista. Quando são questionados sobre seu trabalho, os indivíduos tendem a construir narrativas para explicar sua relação com ele e essas narrativas podem fazer parte de um ou mais desses ethos. De acordo com Lima et al (2013), homens e mulheres expressam suas ações e revelam suas subjetividades a partir do ingresso nas organizações e pelas atividades no trabalho. A inserção social também é possível a partir do trabalho, pois é um local de encontro com outros indivíduos e isso gera uma forma de ralação social. Diante dessa discussão teórica, surgiu a curiosidade de entender mais profundamente o mundo do trabalho para indivíduos que estão na iminência de se aposentarem. Para esta pesquisa, considerou-se estar na iminência de se aposentar os indivíduos que consolidarão a aposentadoria em até um ano. Esses indivíduos dedicaram parte considerável das suas vidas ao mercado de trabalho e por motivos compulsórios ou não se veem saindo desse mercado. Neste contexto, este trabalho se propõe a responder a seguinte questão de pesquisa: qual o sentido do trabalho para indivíduos que estão na iminência de se aposentarem? 2 2. Referencial Teórico 2.1 O trabalho enquanto categoria fundante do ser social O trabalho foi tratado de modo diferente a depender do seu contexto histórico. Ele existe desde a era primitiva, onde os grupos se reuniam em prol de uma atividade para o benefício individual ou comum. A partir dessas relações percebeu-se a importância do trabalho para a transformação do indivíduo em um ser social. Foi a partir da busca do homem em satisfazer suas necessidades que teve início a história do trabalho. Essa busca está relacionada a toda ação humana para a sobrevivência do homem. Satisfeitas as necessidades iniciais, estendem-se as necessidades a outros indivíduos e é criada as relações sociais determinante da condição histórica do trabalho (OLIVEIRA, 1991). Na sociedade primitiva, a economia, a arte, a religião, a moral e a magia mantinham uma interdependência funcional. No entanto, a que mais se aproxima da relação com o trabalho é a economia. Ambos, economia e trabalho, se desenvolvem até a atualidade, de maneira interdependente. Há dois aspectos importantes da economia que devem ser destacados: a ideia do lucro e a concepção do trabalho (RAMOS, 2008). Na era primitiva, a ideia do lucro não existia. O processo de produção e de criação de bens é orientado pela tradição e pelo costume. A produção era feita estritamente para satisfazer as necessidades de nível elementar. Nesse período esse tipo de economia foi denominado de subsistência. Na produção dos bens, as tarefas eram divididas de acordo com o sexo e a idade: atividades femininas, masculinas, da juventude, da maturidade e da velhice (RAMOS, 2008). Na atualidade, o trabalho é tratado sob diferentes óticas. Para Albornoz (2008), tratase de “um esforço coletivo, no contexto do mundo industrial, na era da automação”. Ou seja, na era industrial, onde o número de máquinas é significativo, o trabalho é desenvolvido de forma coletiva e cada indivíduo conhece uma parte do processo, sendo o trabalho final resultado de um esforço coletivo. Já Gorz (2003) afirma que o trabalho na atualidade é “uma atividade que se realiza na esfera pública, solicitada, definida e reconhecida útil por outros além de nós e, a este título, remunerada”. Percebe-se que o trabalho foi definido pelo autor como uma atividade necessária, uma espécie de satisfação à sociedade, e realizada mediante remuneração. Lessa (2007) entenden o trabalho como atividade fundamental para os homens desde sua fundação, pois é por meio do trabalho que o homem garante seu sustento. Além disso, a atividade gera ao homem novas possibilidades sociais e individuais, podendo ser objetivas ou subjetivas. Portanto, para o autor: O trabalho é pois, a categoria fundante do mundo dos homens porque em primeiro lugar, atende à necessidade primeira de toda sociabilidade: a produção dos meios de produção e de subsistência sem os quais nenhuma vida social poderia existir. Em segundo lugar, porque o faz de tal modo que já apresenta, desde o seu primeiro momento, aquela que será a determinação ontológica decisiva do ser social, qual seja, a de que, ao transformar o mundo natural, os seres humanos também transforma a sua própria natureza, o que resulta na criação incessante de novas possibilidades e necessidades históricas, tanto sociais como individuais, tanto objetivas quanto subjetivas. (LESSA, 2007, p. 142) O trabalho tornou-se uma atividade essencial à vida das pessoas. Fôlha e Novo (2011), argumentam que o trabalho possui uma marca significativa na história da humanidade, pois assumiu grande importância com modificações drásticas ao longo dos séculos. Atualmente, a 3 relação das pessoas com o trabalho vai além do interesse financeiro. O local de trabalho é também onde se estabelecem vínculos sociais, que podem se estender a vida particular dos indivíduos. Referindo-se a dimensão do trabalho como realidade social, Lima et al (2013 apud DJOURS, 2004), afirmam que o trabalho “é essencial à atividade humana, contribuindo para a satisfação de necessidades não apenas econômicas, mas também psicológicas e sociais”. Ou seja, para a maioria dos indivíduos o trabalho é visto hoje como um meio para as relações sociais, para manter a saúde mental e para suprir as necessidades para a sua sobrevivência. Camboim et al (2011), asseguram que, para um indivíduo, pertencer a um grupo é importante a partir do momento em que seu ego é elevado com algum tipo de participação em movimentos e atividades, seja em um grupo familiar, no trabalho ou mesmo com amigos informais. Significa que, os indivíduos sentem satisfação quando percebem que podem ser útil no grupo ao qual pertence. De acordo com Bitencourt et al (2011), “o trabalho é um meio essencial para a integração social e a autorrealização do indivíduo”. Isso explica porque para alguns indivíduos que estão na iminência do seu aposento, o desligamento da atividade a qual ocupa pode gerar grandes transtornos. Esse desligamento pode significar a exclusão de um meio onde o indivíduo se sente útil e é reconhecido socialmente. Levando-se em consideração as diferentes visões sobre trabalho, entende-se que seu valor, sentido e importância sofreram alterações ao longo da história. Tais mudanças se refletem também na subjetividade dos indivíduos, fazendo com que estes atribuam diferentes sentidos ao trabalho que desenvolvem. A seguir, estabelece-se a relação entre trabalho e subjetividade. 2.2 Trabalho e subjetividade Desde as últimas décadas do século XX são perceptíveis as mudanças que estão ocorrendo, em amplitude mundial, nos aspectos sociais, tecnológicos, econômicos e geopolíticos. As organizações estão se expandindo com rapidez e isso está mudando a realidade do mercado (COUTINHO; KRAWULSKI; SOARES, 2007). Entende-se que diante disso, a relação das pessoas com o seu trabalho também está mudando. Se no início da industrialização, ele era visto apenas como fonte para ter uma remuneração e suprir as necessidades primordiais; hoje, o trabalho é considerado também um meio fundamental para as relações sociais e a descoberta da identidade dos indivíduos. A contemporaneidade acarretou mudanças, com implicações relacionadas ao modo de ser dos indivíduos e ao seu comportamento na sociedade (COUTINHO; KRAWULSKI; SOARES, 2007). E essas implicações também tiveram efeito dentro das empresas, onde os indivíduos exercem suas atividades. É possível perceber um indivíduo mais seguro e realizado com seu trabalho quando ele se identifica com o que faz e é reconhecido. As mudanças nos processos de trabalho estão impondo mudanças na subjetividade dos indivíduos. Conforme Silva; Nascimento e Moraes (2009), os indivíduos tem que pensar sobre uma nova construção da sua subjetividade de forma que se adapte a essas mudanças no processo de trabalho. De acordo com os autores, essas mudanças alteram “as práticas de trabalho, o perfil das ocupações, o emprego e a renda; alteram-se as identidades políticas e ideológicas do trabalho, as imagens e o próprio sentido do trabalho; alteram-se as relações entre capital e trabalho em cada organização, nas cadeias produtivas e na sociedade” (SILVA; NASCIMENTO; MORAES, 2009; p. 4). De acordo com Bendassolli (2007), o trabalho se apresenta através de narrativas, também chamadas de ethos. Essas narrativas, construídas pelos indivíduos ao longo dos anos de vida, são a expressão da subjetividade de cada um. A narrativa é um tipo de linguagem 4 coerente cujo objetivo é fornecer um meio para que o indivíduo possa construir e organizar o significado da sua existência e lidar com seus relacionamentos sociais (BENDASSOLLI, 2007). Para Bendassolli (2007), na pós-modernidade, a relação do sentido do trabalho com a identidade dos indivíduos é enfraquecida e os ethos são utilizados para explicar essa relação. Os ethos são diferenciados em 5 (cinco) tipos: o moral-disciplinar, o romântico, o instrumental, o consumista e o gerencialista. No ethos moral-disciplinar, segundo Bendassolli (2007, p. 234), “é realçado o caráter reprodutivo e o sentido social do trabalho”. Nesse ethos o trabalho era visto com rigidez, onde as normas, horários e produção deveriam ser obedecidos e cumpridos fielmente. Não havia prazer no trabalho. As atividades eram realizadas independente de dar ou não prazer aos indivíduos (BENDASSOLLI, 2007). Ou seja, no ethos moral-disciplinar, o indivíduo que realiza o trabalho é visto pelos outros como uma pessoa de bem. A identidade dele está ligada somente à família e não ao trabalho. O ethos romântico “realça a natureza expressiva do trabalho, seu potencial de concretizar a verdadeira essência humana por meio do domínio sobre a obra. Aqui a ênfase é na dimensão ‘pericial’ do trabalho, isto é, em algo que alguém domina ou executa com maestria” (BENDASSOLLI, 2007, p. 236). Esse ethos possui algumas características que o diferencia dos outros. Uma delas é o fato do trabalho ser realizado para si mesmo. Os indivíduos não dependem de outros para realizarem suas atividades, elas são feitas pelas próprias mãos. E a outra característica desse ethos está relacionada ao reconhecimento pelo seu talento em realizar o trabalho com grande habilidade e não o reconhecimento remunerado (BENDASSOLLI, 2007). Nesse ethos, o que importa ao indivíduo é a realização do trabalho por ele mesmo e o reconhecimento pela sua aptidão em realizá-lo. O terceiro ethos, o instrumental, de acordo com Bendassolli (2007, p. 237-238), “enfatiza a dimensão liberal do trabalho, quer dizer, sua característica de emprego; pode-se dizer que esse ethos é resultado da matriz de pensamento econômico na qual trabalho é uma troca, submetido à lógica capitalista de eficiência e produtividade”. De acordo com Bendassolli (2007), o trabalho é visto pela empresa como uma função onde o indivíduo deve ter bom desempenho, mesmo dependendo do crescimento da empresa para conseguir continuar exercendo suas atividades. Nesse ethos, o trabalho é visto pelos indivíduos apenas como um meio para conseguir uma remuneração e suprir suas necessidades. No ethos consumista, “o trabalho é descrito como meio para obtenção da satisfação. [...] Acredita-se que, quanto maior a satisfação, maior a chance de o profissional alcançar altos níveis de desempenho e produtividade” (BENDASSOLLI, 2007, p. 243). A satisfação do indivíduo no trabalho é o que o motiva a ter um desempenho cada vez melhor dentro da empresa. A sua própria realização com a atividade que exerce é o ponto fundamental para continuar desempenhando seu trabalho. O quinto e último ethos, o gerencialista, está ligado aos discursos do management ou gestão empresarial, difundidos pelos gestores, empreendedores e gurus. Esse ethos insiste sobre as características individuais do profissional, afirmando que o indivíduo deve “constituir uma empresa de si mesmo, sem dependência de instituições, apenas confiante em seu próprio capital social, humano ou intelectual” (BENDASSOLLI, 2007, p. 250). Uma crença disseminada por esse ethos é a de que os indivíduos não devem mais buscar empregos, pois o trabalho não existe mais da forma como era antes, ou seja, com estabilidade ou relativamente estável. “O conceito de emprego é substituído pelo de projeto. Trabalhar é, portanto, ter um projeto pessoal no qual o profissional reflita seus gostos, necessidades, desejos, competências e potenciais” (BENDASSOLLI, 2007, p. 252). Uma característica significativa desse ethos é a individualidade. Cada um deve valorizar-se e ter confiança em si mesmo, sem depender do reconhecimento externo para exercer um bom trabalho. 5 Esses cinco ethos são vocabulários nos quais as narrativas identitárias podem se basear. Os indivíduos, na construção da identidade no trabalho, circulam em mais de um desses ethos ou são a eles expostos. Eles têm contato com suas várias narrativas e, consequentemente, a situação pode gerar confusão, perplexidade ou ansiedade. Em quem acreditar? No padre (ou equivalentes) que ainda afirma que o trabalho dignifica o homem? Ou no “guru” que diz a receita pronta para o sucesso certo e seguro, bastando assistir a seus cursos de fim de semana? (BENDASSOLLI, 2007, p. 260). Bendassolli (2007) também afirma que nenhum dos ethos precisa ou seria capaz de dizer a verdade última sobre os indivíduos. Eles apenas funcionam como narrativas, oferecendo uma rede de crenças e desejos mais ou menos coerentes com a imagem que o indivíduo faz de si mesmo. A pesquisa que está dando fundamento a este trabalho tem foco nos indivíduos que estão na iminência de se aposentarem e na sua relação com o trabalho. Desse modo, o próximo tópico será dedicado a uma breve contextualização acerca dessa relação e de dados sobre a aposentadoria. 2.3 Aposentadoria: se desligando do mundo do trabalho O direito à aposentadoria só se tornou possível após a instituição da seguridade social, que está regulamentada pela Lei n. 8.212/1991. A expressão seguridade social foi adotada pela Constituição Federal de 1988, e está normatizada, no caput do art. 194, como “um conjunto integrado de ações de iniciativa dos poderes públicos e da sociedade, destinados a assegurar os direitos relativos à saúde, à previdência e à assistência social”. O financiamento da seguridade social é feito por toda a sociedade, de forma direta e indireta, nos termos da lei, mediante recursos provenientes dos orçamentos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, conforme o caput do art. 195, da CF. Para ter direito a aposentadoria, o trabalhador precisa estar inscrito na previdência social. De acordo com o que estabelece o Decreto nº 3.048/99, a previdência social é composta pelo Regime Geral de Previdência Social – RGPS; o Regime Próprio de Previdência Social – RPPS dos servidores públicos e militares; e ainda, conforme o art. 201 da CF, o Regime de Previdência Complementar. Segundo Ibrahim (2012), o RGPS é administrado pelo Instituto Nacional do Seguro Social – INSS e é o regime de previdência social obrigatório para o trabalhador que exerça atividade remunerada. A exceção é para as atividades que geram filiação a regime próprio de previdência. Para aposentar-se, o indivíduo precisa ter tempo de contribuição e/ou atingir a idade mínima estabelecida por lei. Segundo Ibrahim (2012), para a concessão da aposentadoria por tempo de contribuição, o homem deve contribuir durante trinta anos e a mulher, vinte e cinco anos. Vale salientar que esse tempo sofre variação para professores sendo reduzido em cinco anos para ambos os sexos. O tempo de contribuição é contado a partir da data do início até o pedido do requerimento ou do desligamento de atividade compreendida pela previdência. Já a aposentadoria por idade é concedida aos homens quando completam sessenta anos de idade e para as mulheres ao completar cinquenta e cinco anos. O limite dessa idade é diminuída em cinco anos para os trabalhadores rurais homens e mulheres e também para professores (IBRAHIM, 2012). 6 Além da aposentadoria por idade, há também a aposentadoria por idade compulsória. Conforme Ibrahim (2012), esse tipo de aposentadoria ocorre quando o indivíduo completa setenta anos de idade, se homem e sessenta e cinco anos, se mulher e a empresa solicita o requerimento da aposentadoria ao INSS. Ou seja, o indivíduo é aposentado independente da vontade, compulsoriamente. No entanto, como afirma Ibrahim (2012), é possível que o indivíduo permaneça trabalhando após a aposentadoria compulsória ainda que na mesma empresa. Mas isso só é válido no serviço público, para os indivíduos regidos pelo RPPS. Esta seção é de suma importância para a pesquisa, pois delimita as características dos indivíduos que serão investigados, qual seja: estarem na iminência de se aposentarem. Antes de abordá-los na análise dos dados, na seção a seguir, abordam-se os procedimentos metodológicos utilizados. 3. Procedimentos metodológicos Neste trabalho, a pesquisa é caracterizada pela abordagem qualitativa, pois esse tipo de abordagem permite compreender melhor a natureza do fenômeno em estudo. A pesquisa qualitativa também possibilita trabalhar com significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes (MINAYO, 2009). A coleta de dados foi realizada através da história oral por entender que é o método mais adequado para encontrar os resultados almejados. Cassab e Ruscheinsky (2004), afirmam que esse tipo de metodologia “se ocupa em conhecer e aprofundar aspectos sobre determinada realidade, como os padrões culturais, as estruturas sociais, os processos históricos ou os laços cotidianos”. Para obter os dados com esse método de pesquisa é necessário ter conversas com pessoas onde possam relatar suas lembranças e sua visão concreta acerca do assunto abordado. A utilização da entrevista na história oral, de acordo com Portelli (1997), é de grande relevância, pois possui um elemento fundamental que é a subjetividade de quem fala. Portelli (1997), ainda afirma que a fonte oral descreve o que os indivíduos fizeram, o que gostariam de ter feito, o que acreditavam estar fazendo e o que hoje pensam que fizeram. Busca-se entender, nesta pesquisa, a relação dos indivíduos, que estão a poucos meses da sua aposentadoria, com o trabalho. Dessa forma, optou-se por fazer uma entrevista semiestruturada com os entrevistados. Foram entrevistados três indivíduos: um homem e duas mulheres. No decorrer do trabalho, preferiu-se manter seus nomes em sigilo. Por isso, chamase Indivíduo 1 (homem), Indivíduo 2 (mulher) e Indivíduo 3 (mulher). A análise de dados da pesquisa se deu através da análise de conteúdo. Esse tipo de análise é caracterizada pela mensagem, podendo ser verbal, silenciosa, figurativa, gestual, documental ou diretamente provocada. Essa mensagem transmite sentido e significado (FRANCO, 2005). De acordo com Godoy (1995), a utilização da análise de conteúdo prevê três fases, que são: a pré-análise, a exploração do material e o tratamento dos resultados. A primeira fase pode ser reconhecida como a fase da organização; a segunda é colocar em prática a primeira, ou seja, depois de organizar o material, começar a ler e organizar a leitura através de categorias, códigos e classificação; e a terceira fase é dar sentido ao resultado bruto. Nas fases de exploração do material e tratamento dos resultados, fez-se a interpretação dos dados a partir do referencial teórico e selecionaram-se como categorias de análise os ethos trabalhados por Bendassolli (2007): o moral-disciplinar, o romântico, o instrumental, o consumista e o gerencialista. A seguir, a análise dos resultados obtidos após a realização das entrevistas. 7 4. Descrição e análise dos dados A presente pesquisa foi realizada com três indivíduos: um homem e duas mulheres. A motivação de escolhê-los como informantes-chave foi o fato de estarem há, no máximo, um ano da sua aposentadoria. Entende-se que a vivência desses indivíduos com o seu trabalho pode explicar a relação deles com a aposentadoria. 4.1 O sentido do trabalho para Indivíduo 1 O primeiro entrevistado, Indivíduo 1, nasceu em uma cidade no interior de Pernambuco e atualmente reside em Mossoró, Rio Grande do Norte. Possui cinquenta e seis anos, é casado e tem quatro filhos. Começou a trabalhar aos nove anos de idade, com o pai, em uma salina. Anos mais tarde, trabalhou como mecânico em uma oficina durante muito tempo e depois conseguiu emprego em uma distribuidora de alimentos, que, segundo ele, não existe mais: “Fiquei lá 10 (dez) anos como mecânico, mas aí tive que sair porque a empresa fechou” (INDIVÍDUO 1, entrevista, 25/01/2014. Ao ficar sem emprego, conseguiu outro, também como mecânico, em 1989. Completará 25 (vinte e cinco) anos em abril deste ano que está no mesmo emprego. De acordo com o respondente, ele sempre teve uma boa relação com as pessoas em todos os locais onde trabalhou. “Sempre me dei bem com as pessoas que trabalhei. Apesar de ter a cara fechada. (Risos) Mas sempre fiz amigos por onde passei” (INDIVÍDUO 1, entrevista, 25/01/2014). De acordo com Camboim et al (2011), pertencer a um grupo é importante para autoestima de um indivíduo, mesmo que esse grupo seja no trabalho. Quando questionado sobre quanto tempo faltava para a aposentadoria, o entrevistado sorriu e respondeu: “faltam só 3 (três) meses pra eu me aposentar. Se Deus quiser!” (INDIVÍDUO 1, entrevista, 25/01/2014). Mesmo aparentando alívio por está perto de se aposentar, ele quer voltar ao mercado de trabalho, pois trabalhar o faz se sentir útil. Ainda não sei o que vou fazer quando aposentar, mas não ficarei em casa, se não a mulher me deixa. (Risos) Ninguém iria me aguentar em casa direto. Quando tô de férias já ficam me perguntando quando vou voltar a trabalhar. Já pensei em abrir um negócio com minhas ferramentas mesmo, mas desisti. Penso em vender cerveja. (Risos) Mas ainda não sei o que vou fazer. Só sei que vou fazer alguma coisa que eu goste e me faça bem. Em casa, parado, que não vou ficar. Me sentiria um inútil. (INDIVÍDUO 1, entrevista, 25/01/2014) O Indivíduo 1 quer encontrar alguma coisa que goste e que lhe traga prazer, lembrando um trabalho com características do ethos romântico-expressivo, tal como o fato do trabalho ser realizado para si mesmo, com suas próprias ferramentas, como explicado por Bendassolli (2007). Já quando questionado sobre as causas que o levaram a querer se aposentar, já que ele vai se aposentar por tempo de contribuição e não por idade, a resposta foi a que segue: Vou me aposentar por causa do meu gestor. Talvez se eu tivesse outro gestor não me aposentaria agora. Ficaria mais tempo trabalhando lá. Quando a pessoa não é reconhecida no trabalho fica insatisfeita e desanimada para continuar trabalhando, né? Me dou muito bem com os colegas de trabalho e isso me faria continuar trabalhando lá e se o gestor fosse alguém que reconhecesse meu trabalho (INDIVÍDUO 1, entrevista, 25/01/2014). 8 O relato transparece insatisfação pela falta de reconhecimento do trabalho executado. A relação com o gestor parece ser o que o desanima para o trabalho e não o trabalho em si. Mas, afirma que sentirá falta do contato com os colegas de trabalho quando se aposentar: “o que mais sentirei falta será dos amigos. Conheço muita gente lá na empresa e me dou muito bem . Isso será ruim de deixar” O Indivíduo 1 gosta da atividade de mecânico e muito embora desempenhe sua atividade pelo salário (ethos instrumental) e também como um papel social (ethos moraldisciplinar), o que fica mais evidente na sua narrativa é que ele realiza um trabalho no qual se identifica, com ferramentas que sabe manusear, indicando domínio sobre a atividade. Por isso, o sentido que ele dar ao seu trabalho perpassa, sobretudo, o ethos românticoexpressivo. Como explica Bendassolli (2007, p. 236), nesse ethos “a ênfase é na dimensão ‘pericial’ do trabalho, isto é, em algo que alguém domina ou executa com maestria” (BENDASSOLLI, 2007, p. 236). Como se viu na sua narrativa na seção 4.2, ele cogita a ideia de depois de aposentar-se abrir um negócio com suas próprias ferramentas, o que supõe que há uma identificação entre sua subjetividade e o trabalho que realiza. A sua própria realização com a atividade que exerce é o ponto fundamental para continuar desempenhando seu trabalho. No caso do respondente supracitado, a falta de reconhecimento no trabalho foi o que o motivou a pedir sua aposentadoria e sair do trabalho, mesmo gostando muito do que faz e da relação que tem com os colegas da empresa. 4.2 O sentido do trabalho para Indivíduo 2 A segunda entrevistada nasceu na cidade de Upanema, Rio Grande do Norte e mudouse para Mossoró, no mesmo estado, com mais ou menos doze anos de idade. Atualmente tem sessenta e um anos de idade, é casada, tem três filhos e cinco netos. Aos quinze anos começou a trabalhar. De acordo com ela, entrou no mercado de trabalho bem cedo, motivada pela necessidade financeira: “Mamãe precisava dar de comer a mim e a minhas irmãs e eu sou a mais velha. Então, tive que ir logo trabalhar” (INDIVÍDUO 2, entrevista, 05/02/2014). Fica evidente que o trabalho na sua vida surge como uma obrigação, um dever a ser cumprido, em troca de um salário que a ajudasse a satisfazer suas necessidades. Lembra, portanto, características dos ethos moral-disciplinar na medida em que nesse ethos, conforme explica Bendassolli (2007), as atividades são realizadas independente de trazer ou não prazer aos indivíduos, sendo um papel social a ser desempenhado. Lembra também característica do ethos instrumental, onde trabalho é entendido pelos indivíduos como um meio para conseguir uma remuneração e suprir suas necessidades (BENDASSOLLI, 2007). Seu primeiro emprego foi em uma sapataria. Trabalhou lá alguns anos e teve que sair, porque casou e foi morar em outra cidade. Só voltou a trabalhar novamente quando retornou à Mossoró. Começou a trabalhar em uma escola estadual, como Assistente de Serviços Gerais (ASG). Mudou de emprego e passou a trabalhar em outra escola, só que agora na secretaria, onde está há doze anos. Ela afirma que está contando os dias para a aposentadoria, mas sentirá falta das colegas de trabalho. Não vejo a hora de poder ficar em casa sem ter a obrigação de ir pra aquela escola todos os dias. Só vou sentir falta das colegas que trabalham comigo, dos momentos de distração com elas, mas o resto será um alívio. (grifo meu, INDIVÍDUO 2, entrevista, 05/02/2014) Como se pode notar no trecho acima, o trabalho para Indivíduo 2 ganha o sentido de obrigação, lembrando aqui o ethos moral-disciplinar, que ressalta que o trabalho é visto com rigidez, onde as normas, horários e produção devem ser obedecidos e cumpridos fielmente 9 (BENDASSOLLI, 2007). Embora se perceba que há prazer nas relações estabelecidas no ambiente de trabalho, parace não existir prazer no trabalho propriamente. A entrevistada foi questionada sobre quanto tempo falta para ela se aposentar. De acordo com o relato dela: “daqui a alguns meses eu dou entrada. Acho que em janeiro ou, no máximo, fevereiro eu estarei aposentada” (INDIVÍDUO 2, entrevista, 05/02/2014). Afirma que depois a aposentadoria, sua vida seguirá do seguinte modo: “Quando eu me aposentar, vou só ficar em casa descansando e saindo pra visitar a família e as amigas. Mas o que eu gosto mesmo é de ficar em casa assistindo televisão” (Indivíduo 2, entrevista, 05/02/2014). Entende-se que por estar no mercado de trabalho há muitos anos, quer aproveitar a vida agora para se dedicar aos amigos, a família e a si mesma, o que nos possibilita inferir que sua relação com o trabalho foi estressante e não há identificação subjetiva com ele. Quando questionada sobre as causas que a levaram a querer se aposentar, ela revela que está preocupada com a saúde e já trabalha há muito tempo: Porque... eu já estou cansada, já trabalhei muitos anos. [...] Sinto muitas dores. Tenho problema nos ossos, artrose. Tem dias que quase não consigo levantar de tanta dor que eu sinto. E quando eu estiver aposentada vou poder descansar mais e me cuidar. (INDIVÍDUO 2, entrevista, 05/02/2014) Indivíduo 2 também sentirá falta das relações estabelecidas no ambiente de trabalho, mas não do trabalho em si: “só das colegas mesmo, das conversas, das risadas. Do trabalho mesmo, não vou sentir falta”. Infere-se que o trabalho constou como uma obrigação, que não lhe trouxe prazer, a não ser pelo convívio social. Conforme Fôlha e Novo (2011) explicam, ao longo dos anos o trabalho tornou-se um meio para o estabelecimento de relações sociais. De um modo geral, entende-se que para a entrevistada 2, o trabalho foi desempenhado ao longo da sua vida pela necessidade financeira e também por ser necessário desempenhar um papel social. Logo, o sentido do trabalho para ela perpassa os ethos instrumental e moraldisciplinar. Tendo trabalhado a vida inteira, por conta de uma retribuição financeira e um papel social, a entrevistada, embora tenha encontrado momentos de satisfação no trabalho, não se identifica subjetivamente com ele. Isso pode ser considerada uma das causas que a leva a optar pela aposentadoria assim que permitido. 4.3 O sentido do trabalho para Indivíduo 3 A terceira e última respondente é natural da cidade de Assu-RN, mas mora em Mossoró-RN desde muito pequena. Possui cinquenta e cinco anos de idade, é casada há trinta e um anos e tem três filhos. Ela relatou que entrou no mercado de trabalho aos quatorze anos de idade e foi motivada pela necessidade financeira. Seu primeiro emprego foi em uma sapataria, na qual adorava ir trabalhar, pois gostava de vender, conversar com as pessoas e ainda ganhava o dinheiro dela. Mesmo tendo que entregar todo o dinheiro para a mãe, ela se sentia feliz em poder ajudar: “Mesmo não ficando com nenhum centavo, porque eu tinha que dá todo a mamãe, eu ficava feliz em poder ajudar” (INDIVÍDUO 3, entrevista, 06/02/2014). Infere-se que a necessidade financeira foi o que motivou a entrevistada a começar a trabalhar, assumindo, portanto, que seu trabalho adquiriu um sentido instrumental, como explica Bendassolli (2007). Depois de alguns anos, ela saiu da sapataria e foi trabalhar em outra sapataria. Ficou lá durante cinco anos. De acordo com ela, nem todas as lembranças são boas e isso marcou bastante a sua vida. No entanto, teve vários momentos bons. 10 Todo mundo era muito amigo. Quando os donos não estavam, a gente ficava conversando, dávamos muitas risadas. Mas quando o dono chegava a gente tinha que ficar todo mundo sério e prestar atenção se tinha alguém entrando na loja pra comprar (INDIVÍDUO 3, entrevista, 06/02/2014). Como se vê a presença do dono inibe a relação informal entre os funcionários, o que dar a entender que esse ambiente de trabalho era tenso para a entrevistada e por isso justifica o fato das lembranças não serem somente agradáveis. Dessa sapataria, a respondente, foi trabalhar em uma escola do Estado. Ficou nessa escola durante 3 (três) anos e foi transferida para outra escola estadual, a qual permanece até hoje trabalhando na área administrativa. Está lá há 14 (quatorze) anos. E já teve momentos bons e ruins, conforme relatou. Já me chatiei muito com algumas pessoas. Pensei em mudar pra outra escola, mas desisti. Sei que em todo lugar sempre vai ter problemas. [...] Gosto de ir pra lá, porque é a hora que eu me distraio e esqueço os problemas. Fico conversando com as colegas, dando risada. Nessas horas é bom ter um trabalho. (INDIVÍDUO 3, entrevista, 06/02/2014) O trecho acima evidencia que é no trabalho que a entrevistada se distrai, esquece dos problemas e interage socialmente. Quando afirma “nessas horas é bom ter um trabalho”, parece que o maior benefício que o trabalho lhe trouxe foi a convivência com outras pessoas, ou seja, parece que seu prazer não está no trabalho propriamente, mas na interação que ele lhe proporciona. Bitencourt et al (2011) explica sobre a essencialidade do trabalho para a integração social. Quando questionada se já houve momento em que pensou em não se aposentar assim que permitido, um dos respondentes afirmou: Já. Porque não sei se vai ser bom ficar em casa sem fazer nada. Gosto de sair, ver gente, conversar. [...] Fico pensando como vai ser quando eu parar de trabalhar fora. E lá na escola eu desestresso. Mas já decidi que vou me aposentar esse ano (INDIVÍDUO 3, entrevista, 06/02/2014). Sobre quanto tempo falta para se aposentar, a entrevistada responde: “daqui há, no máximo, um ano eu me aposento”. (INDIVÍDUO 3, entrevista, 06/02/2014). Embora ela não saiba o que irá fazer depois de aposentar-se, percebe-se que associa o trabalho com a ideia de utilidade, como segue: Ainda não sei o que vou fazer depois que me aposentar, mas não quero ficar em casa parada. [...] Pior que não sei fazer nada manual, nem sei cozinhar. Tenho que pensar o que eu posso fazer ainda. Só não quero nada muito trabalhoso. Quero apenas me sentir útil (INDIVÍDUO 3, entrevista, 06/02/2014). De acordo com suas próprias palavras, não sabe fazer nada manual. Entende-se por manual, algum trabalho que fosse feito por suas próprias mãos e portando, resultado de um talento, como seria um trabalho caracterizado pelo ethos romântico-expressivo. Diante de não ter essa propriedade, a terceira entrevistada parece querer apenas manter um vínculo com o trabalho, aparentando entendê-lo como o trabalho é visto no ethos moral-disciplinar, ou seja, como um papel social a ser cumprido que não está associado a subjetividade (BENDASSOLLI, 2007). 11 Relatou que gosta de ir para o trabalho, mas entre os motivos de querer se aposentar está o fato de se sentir cansada, pois trabalha desde nova. Além disso, também tem medo das gangues que frequentam a escola que ela trabalha. Ela explica o que mais sentirá falta do trabalho após aposentar-se: Vou sentir muita falta das colegas de trabalho. Já me irritei com algumas delas, mas depois ficamos bem. Sentirei falta das conversas, do café e das risadas. Lá é onde tenho meus momentos de distração durante a semana. E vou sentir muita falta quando me aposentar. Apesar das discussões entre algumas, temos uma boa relação. Acho que a convivência diária tem dessas coisas, né? Brigas, discussões, mas depois fica todo mundo bem. É o que importa. (INDIVÍDUO 3, entrevista, 06/02/2014) Já nas narrativas da entrevistada 3, o sentido que ela atribuiu ao seu trabalho permeou os ethos instrumental e moral-disciplinar. Sua relação com o trabalho parece ter sido mais satisfatória do que a relação da entrevistada 2, que em nenhum momento cogitou nas entrevistas voltar ao mercado de trabalho. A entrevistada 3 quer voltar, embora não saiba o que fazer. Para ela, o trabalho lhe torna útil, além de lhe garantir uma convivência social que ela já reconhece que lhe fará falta. Mas, suas condições de saúde e as condições de se trabalhar em um lugar onde tem gangues estão sendo mais decisivas para que busque sua aposentadoria. 5. Conclusões O presente artigo se propôs a analisar o sentido do trabalho para indivíduos que estão na iminência de se aposentarem. Observou-se que os sentidos perpassam principalmente os ethos instrumental e moral-disciplinar, o que é coerente com a trajetória de vida desses indivíduos que começaram a trabalhar na infância ou na adolescência para satisfazer necessidades das famílias e exercer um papel social responsável. Para esses indivíduos, empurrados ao mundo do trabalho por determinações outras que não parecem ter sido o querer próprio, a aposentadoria chega como um momento de libertação, sobretudo para Indivíduos 2 e 3. Indivíduo 1 ainda parece ter se identificado com o trabalho de mecânico, mas a relação com o seu superior, que não reconhece seu trabalho, contribui para que se aposente o quanto antes. Constatou-se também que esses indivíduos, apesar de terem ingressado no mercado de trabalho muito jovens e se sentirem cansados, Indivíduos 1 e 3 possuem interesse em exercer alguma atividade após a concessão da aposentadoria. A razão para esse interesse é a necessidade em relacionar-se com outras pessoas que não sejam da família e também se sentirem úteis à sociedade. Isso reforça, portanto, o caráter social do trabalho. As relações sociais construídas no local de trabalho são importantes para os entrevistados. Embora essas relações tenham mudado ao longo dos anos com a mudança de emprego de cada pesquisado, percebe-se que o simples fato delas terem existido no trabalho foi satisfatória para todos eles. Outro aspecto que chamou atenção foi o fardo da inutilidade, decorrente da ausência de trabalho, sobretudo na forma de emprego, relatado pelos Indivíduos 1 e 3. Isso faz refletir sobre as implicações psicológicas que a aposentadoria pode trazer, associadas ainda com a questão de ser idoso. Idoso e aposentado carregam pejorativamente a conotação de inutilidade, sendo necessário o encaminhamento de ações privadas e públicas para reverter esse quadro que assola o contexto cultural brasileiro. Por fim, apesar da pequena quantidade de pesquisados, sugere-se que outras pesquisas sejam desenvolvidas com indivíduos que estão na iminência de se aposentarem ou já se 12 aposentaram. Entender o que ocorre durante esse processo de desligamento na relação do indivíduo com o seu trabalho pode contribuir para a compreensão do mundo do trabalho, além de gerar reflexões e ações práticas para reduzir os efeitos psicológicos que possam vir a assolá-los, causando sofrimento para além do trabalho. Referências ALBORNOZ, Suzana. O que é trabalho. São Paulo: Brasiliense, 2008. ANTUNES, Ricardo L. C. Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. São Paulo: Boitempo, 2009. BENDASSOLLI, Pedro Fernando. Trabalho e identidade em tempos sombrios: insegurança ontológica na experiência atual com o trabalho. Aparecida: Idéias & Letras, 2007. BITENCOURT, Betina Magalhães; GALLON, Shalimar; BATISTA, Mariana Klein; PICCININI, Valmiria Carolina. 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