“O SERTÃO NÃO É MAIS O MESMO”: O REGIONALISMO E A PROSA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA Patrícia Rufino de Carvalho1; Juliana Santini2 1 Bolsista PBIC/UEG, graduandas do Curso de Letras, UnU São Luís M. Belos - UEG. 2 Orientador, docente do Curso de Letras, UnU São Luís de Montes Belos – UEG. RESUMO A vertente regionalista da literatura brasileira, definidora do movimento pendular entre local e universal que fundamenta o processo de formação de nossa literatura desde o Romantismo, ocupou uma espécie de posição suspensa nas letras nacionais desde fins da década de 60 e meados da década de 70 do século XX. Francisco J. C. Dantas reacende o fogo aparentemente extinto dessa literatura com o romance Coivara da memória, de 1991, seguido por Os desvalidos, de 1993, e Cartilha do silêncio, de 1997. Se a surpresa causada por uma prosa de temática regional trouxe novamente a lume a palavra regionalismo, a recusa da designação não deixou de fomentar um debate crítico em torno da natureza dessa produção em relação aos moldes de representação estética que inserem em um mesmo campo de atuação obras como as de José Lins do Rego e Guimarães Rosa. A existência de traços comuns que unem essas produções faz avultar a interrogação que cerca os processos de ficcionalização empregados na transfiguração estética de realidades regionais. Partindo da análise do volume de contos de Ronaldo Correia de Brito, intitulado Livro dos homens (2005), este trabalho desenvolve uma reflexão que procura definir o lugar ocupado por essa prosa de feição regionalista no conjunto da literatura brasileira contemporânea. Palavras-chave: literatura brasileira, regionalismo, contemporaneidade Introdução Em pleno século XXI, o regionalismo não se perdeu, pelo contrário ressurgiu em diversas manifestações. Ronaldo Correia de Brito escritor cearense, publicou três livros o primeiro em 2003, intitulado Faca, uma coletânea de doze contos; em 2004, a história infanto-juvenil O pavão misterioso; e o mais recente é Livro dos Homens, de 2005, composto por treze contos. Nos dois livros de contos de Ronaldo Correia de Brito, observam-se traços da prosa regionalista, seja na construção do espaço e dos personagens; seja no imaginário recuperado pela narrativa, seja na ambientação. Estas observações colocam-nos diante de uma 1 problemática, essa criada tanto pela crítica literária quanto pelo escritor em questão. A não aceitação da palavra “regionalismo” na contemporaneidade e, conseqüentemente, a recusa de que as obras da atualidade sejam classificadas como regionalistas são questões que precisam ser revistas pelos estudiosos da nossa literatura. Em entrevista concedida juntamente com Ronaldo Correia de Brito o escritor Antônio Carlos Viana ao jornal O Estado de São Paulo, afirma que “[...] regionalismo é conceito de país subdesenvolvido.” (GONÇALVES FILHO, 2005, p. 4). Explicitamente, o autor faz referência aqui ao crítico Antonio Candido e ao seu ensaio “Literatura e Subdesenvolvimento” (1989), para quem a escrita regionalista representa o atraso de um país e de uma determinada região. Em relação ao Brasil, autor afirma que “O regionalismo foi uma etapa necessária, que fez a literatura, sobretudo o romance e o conto, focalizar a realidade de local.” (CANDIDO, 1989 p.159). O Romantismo foi a fase introdutória do regionalismo, José de Alencar foi o seu precursor. Posteriormente no final do século XIX, apareceram os pré-modernistas, e em meados do século XX, mais especificamente 1928, novamente os problemas locais incomodaram alguns escritores, esses usaram a literatura como manifestação da insatisfação em relação aos problemas políticos e sociais. Nesse ensaio, o crítico afirma que essa fase não representou senão um momento de “[...] pré-consciência do subdesenvolvimento, ali pelos anos de 1930 e 1940, tivemos o regionalismo problemático, que se chamou de “romance social”, “indigenismo”, “romance do Nordeste”, [...] (CANDIDO, 1989, p. 160). O diferencial na utilização da temática regionalista, para Antonio Candido, só aconteceu nas obras de Guimarães Rosa, este foi considerado pelo crítico como “super-regionalista”. Diante dessa problemática, a recusa do uso da palavra “regionalismo” na contemporaneidade, para que se compreenda melhor os diferentes fases do regionalismo contemporâneo, fez-se necessário aprofundar no estudo da obra do escritor Ronaldo Correia de Brito, e para isso selecionamos o livro de contos Livro dos Homens. Considerando a pluralidade dos temas inseridos no volume optamos por explorar aqui, um único eixo temático, relativo à tradição de um povo e sua incorporação nas narrativas. Material e Métodos O presente trabalho teve como principal objetivo, analisar os traços que compõem a prosa regionalista na literatura brasileira contemporânea, por meio da análise do volume de contos Livro dos homens, de Ronaldo Correia de Brito, publicado em 2005. De um lado, 2 realizou-se uma revisão bibliográfica acerca do desenvolvimento diacrônico do regionalismo ao longo da literatura brasileira e dos modelos de interpretação da crítica literária em torno dessa produção; de outro, realizou-se uma pesquisa bibliográfica a respeito da recorrência da prosa regionalista na contemporaneidade, trabalho que se articulou à leitura de textos teóricos acerca das principais características da narrativa contemporânea no Brasil. Resultados e Discussão O conto “A peleja de Sebastião Candeia” tem como diegese a narrativa da vida do personagem principal que dá título ao conto, um homem escolhido dentre muitos outros, pela Virgem Senhora da Penha para intermediar a relação dela com os homens em um determinado povoado. Sebastião Candeia resolveu passar para os filhos as responsabilidades na preparação do ritual. Observa-se, nesse conto, que a tradição religiosa é um fenômeno fomentador de um determinado povo: religião e histórias fantásticas andam juntas. A narrativa é iniciada com a voz do narrador heterodiegético, aquele que detém todo conhecimento da diegese, é ele também quem nos fornece a imagem: “Atenta aos mais sutis movimentos, a Serpente-dragão vigia o jacaré e a Virgem-com-o-menino-nos-braços.”(BRITO, 2005, p. 58). Nessa fala do narrador, percebe-se que, outra tradição foi incorporada a do catolicismo, que é a de histórias fantásticas, cujos personagens também são monstros marinhos, “O Jacaré acordará um dia, destruindo o mundo dos homens.” (BRITO, 2005, p. 58). Todos no povoado de Sebastião Candeia temem que isso aconteça. O medo que têm vem dos primeiros habitantes do Brasil – os índios - chamados no conto de os cariris. Antes do processo de colonização no Brasil, os habitantes naturais possuíam um sistema de vida completamente diferente dos portugueses. Para Alfredo Bosi (1992, p. 15), “A colonização é um projeto totalizante cujas forças motrizes poderão sempre buscar-se no nível do colo: ocupar um novo chão, explorar os seus bens, submeter os seus naturais.” Se antes as práticas politeístas eram aceitáveis no meio indígena, com a presença do europeu passaram a ser práticas abomináveis, “Aculturar um povo se traduziria, afinal, em sujeitá-lo ou, no melhor dos casos adaptá-lo tecnologicamente a um certo padrão tido como superior.” (BOSI, 1992, p. 17). Os povos indígenas aos poucos foram perdendo sua cultura, sua terra e a própria vida. No conto a representação do princípio de uma tradição religiosa se dá quando os homens negros já tinham sido trazidos para serem escravizados. A peleja de Sebastião 3 Candeia começou quando os lusitanos resolveram construir uma igreja para a virgem Senhora da Penha, o lugar escolhido da construção não era onde ela gostaria de permanecer “Mas, por razões que só a santa e os cariris conheciam, ela voltava à sua pedra, onde era cultuada pelo povo nativo e os da África.” (BRITO, 2005, p. 58). Por um longo tempo, os homens fizeram o trajeto entre a pedra para a igreja, enquanto isso Sebastião tocava instrumento para animar os homens, estes já não suportavam o cansaço. Teve fim esse processo de transporte da santa, ela por conta própria teria permanecido na pedra, desta até a igreja foram colocados mastros de bandeira, o que simbolizava o ligamento entre o céu e a terra. Este episódio tornou-se um ritual e a família de Candeia era responsável por garantir sua continuidade. Como afirma (BOSI, 1992, p. 16), “Cultura é o conjunto das práticas, das técnicas, dos símbolos e dos valores que se devem transmitir às novas gerações para garantir a reprodução de um estado de coexistência para garantir a reprodução de um estado de coexistência social.” Já em “Milagre em Juazeiro” outro conto do mesmo autor e da mesma coletânea, o que se percebe é que o autor tentou representar uma tradição já consolidada em Juazeiro. Temos então nesse conto a narrativa de Maria Antônia Praxedes, personagem principal, que numa conversa com seu pai num hospital fica sabendo que sua avó paterna pode estar viva, provavelmente more nas proximidades da cidade de Juazeiro. O pai conta que a avó foi abandonada pelo marido, como não sabia o que fazer escreveu uma carta para o padre Cícero pedindo conselho, mas ele não respondeu a carta; a avó decidiu ir para Juazeiro com os filhos. No relato de Jonas à filha, ele conta que o padre aconselhou sua mãe a ir para o Amazonas. Assim ela fez foi para o porto esperar o navio, enquanto isso Jonas se afastou de sua mãe e de seus irmãos nunca mais se viram. No final do relato, Jonas fez um pedido à filha “Gostaria que você procurasse minha mãe. Mesmo acreditando que ela está morta, não posso deixar de lhe pedir isso.” (BRITO, 2005, p. 77). Encontrar a avó significava satisfazer um último desejo do pai, mas acima de tudo encontrar a própria identidade “Olhe-se num espelho – pediu Jonas Praxedes à filha –, e verá o rosto de sua avó.” (BRITO, 2005, p. 70). Através deste conto percebe-se uma semelhança entre esta narrativa e o tema recorrente na prosa de Milton Hatoum no que diz respeito à utilização da memória como fonte de procura, e partir dela se inicia uma busca. Para Maria Antonia, procurar a avó significava, também, passar por todo sofrimento que aquela passara, “Corria o caminhão no sol quente de fim de outubro, envolvendo-os em ondas de calor. E as vozes das mulheres não paravam nunca, apressando o motorista para o destino final.”(BRITO, 2005, p. 68) 4 Novamente, estamos diante de uma tradição religiosa. Em relação à romaria para Juazeiro do padre Cícero, conforme o antropólogo Darcy Ribeiro (1995), é uma prática antiga, resultado de um longo processo de aliciamento dos homens sertanejos, estes trabalhavam gratuitamente nas fazendas dos parentes do padre. Para os sertanejos, o simples fato do padre dar conselhos, e fazer boas obras significava milagres; durante anos foi aumentando o número de pessoas que acreditavam que os seus problemas fossem resolvidos pelo padre, situação que deu origem ao fanatismo religioso: “O fanatismo baseia-se em crenças messiânicas vividas no sertão inteiro, que espera ver surgir um dia o salvador da pobreza”(RIBEIRO, 1995, p. 357). Dentro da carroceria, incredulidade (Afonso e sua esposa) e credulidade (romeiros) seguem juntos. Em meio à penúria daquela carroceria de romeiros Afonso ficou doente, a esposa sem saber o que fazer seguiu o conselho de uma senhora “- Fiz uma promessa pra você ficar bom. – um dia de convivência e você age como eles. – Não custa nada. Você se veste de franciscano e se ajoelha aos pés de um altar. Só isso.” (BRITO, 2005, p. 79). No terceiro e último dia de busca em Juazeiro, Maria Praxedes se refugiou numa casa de devotas da Nossa Senhora da Boa Morte, isso porque uma igreja próxima dali pegou fogo. Pela janela da casa, viu um vulto de um homem vestido de franciscano, para ela era o marido. O narrador de Ronaldo Correia de Brito não deixa explícito se o médico Afonso cumpriu ou não a promessa da esposa, a narrativa fica em aberto. No conto “A peleja de Sebastião Candeia” o autor representa as fases de uma tradição até que, se tornasse de fato consolidada. Já em “Milagre em Juazeiro” o que se percebe é a representação de uma tradição religiosa que permanece viva até hoje. O narrador não enfoca o seu início, mas a contraposição que há entre aqueles que são peregrinos do milagre e aqueles que não acreditam no sobrenatural pregado pela religião. Conclusão A obra correiana é permeada de traços da literatura regionalista tradicional, a construção do espaço se dá por meio de um ambiente ainda governado pelo cultivo de costumes tradicionais, seja na economia, na religião e na família a respeito do modo de vida do homem sertanejo diz Darcy Ribeiro (1995, p. 355) “Suas duas formas principais de expressão foram o cangaço e o fanatismo religioso, desencadeados ambos pelas condições de penúria que suporta o sertanejo [...]”. As famílias representadas por Correia ainda conservam 5 a tradição em que a mulher nordestina desempenha o papel de pai e mãe ao mesmo tempo por longos dias ou anos, mulheres que vivem exclusivamente para administração do lar. Observa-se na coletânea Livro dos Homens um recurso estilístico trabalhados pelo autor que é o trabalhar com duas narrativas simultaneamente: “Trabalhar com duas histórias quer dizer trabalhar com dois sistemas diferentes de causalidade. Os mesmos acontecimentos entram simultaneamente em duas lógicas narrativas antagônicas.” (RICARDO, 2004, p. 90) Correia faz isso com muita freqüência em suas narrativas, de forma que a narrativa fique dividida em tempo presente e passado, em alguns contos a divisão dos períodos acontece com a marcação de sinais gráficos como o asterisco. Portanto, observou-se que narrativa regionalista contemporânea é construída na esteira da recuperação de uma temática característica do regionalismo tradicional, de modo que o que se tem em princípio é a retomada de temas que se revestem de uma nova forma, esta sim representativa de tendências contemporâneas. Referências Bibliográficas BOSI, A. Colônia, culto e cultura. In:_____. Dialética da colonização. São Paulo: Companhia das letras, 1992. p.11- 63. BRITO, R. C. Livro dos Homens. São Paulo: Cosac Naify, 2005. CANDIDO, A. A educação pela noite e outros ensaios. São Paulo: Ática, 1989. GONÇALVES FILHO, A. O sertão quer deixar de sertão. O Estado de São Paulo, São Paulo, 08 jul. 2005. Caderno 2 p. 4. PIGLIA, R. Teses sobre o conto. In: Formas breves. Trad. José Marcos Mariani de Macedo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. p.85-94. RIBEIRO, D. O Brasil sertanejo. In: O povo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 339- 363. 6