Introdução Este trabalho surgiu no âmbito da disciplina de Introdução à Filosofia e tem, como principal objectivo, reflectir sobre o tema “Liberdade”, observando a sua evolução ao longo da História. Para isso, escolheram-se dois filósofos que, pertencentes, cada um deles, a um contexto histórico e cultural diferente, nos vão dar a conhecer posições e ideias bem distintas em relação ao tema referido. Assim, o desenvolvimento deste trabalho divide-se em quatro partes fundamentais: - Apresentação de cada um dos filósofos (contexto histórico e cultural). - Clarificação do conceito de Liberdade para cada um deles. - Estabelecimento de comparações entre as opiniões dos dois filósofos. - Apreciação crítica e pessoal das posições dos dois autores. Os dois filósofos escolhidos foram Immanuel Kant (1724-1804) e Jean-Paul Sartre (1905-1980). O primeiro nasceu em Königsberg, onde viveu durante toda a sua vida como professor universitário. Teve uma educação extremamente religiosa, o que veio a influenciar, sem dúvida, algumas das suas ideias. Por sua vez, Sartre leccionou numa universidade parisiense, tendo sido um dos líderes da resistência contra os alemães, durante a Segunda Guerra Mundial. Considera-se que foi um dos maiores filósofos existencialistas deste século. Kant chama Liberdade à capacidade que cada um de nós tem de agir de acordo com leis objectivas, determinadas, unicamente, pela razão. Kant distingue dois usos da Liberdade: um negativo (que consiste na nossa capacidade de agir independentemente de quaisquer outras causas para além da nossa própria vontade) e um positivo (que diz respeito ao poder causal da razão em se autodeterminar, isto é, a determinação de um livre arbítrio pela simples forma legisladora do Universo). Assim, segundo Kant, pode-se considerar livre todo o ser moralmente responsável. Para Sartre não pode ser estabelecido nenhum limite para a Liberdade, excepto a própria Liberdade, isto é, nós não somos livres para deixar de ser livres, daí a sua famosa afirmação estou condenado a ser livre. Para este filósofo, por ter o poder da escolha, o ser humano é completamente livre e a única coisa que este não pode escolher é renunciar à própria escolha! Escolher não agir é, ainda, uma escolha e é este o grande dilema existencial. É, ainda, importante referir o porquê da escolha deste tema. Escolhi a Liberdade uma vez que estou a viver um período da minha vida (adolescência) que me leva constantemente a debruçar-me sobre determinadas questões, as quais nunca havia colocado a mim mesma. Assim, ao realizar este trabalho, tenho, ainda, como objectivo alcançar a minha própria concepção de Liberdade a partir das teses dos dois filósofos escolhidos, parto em busca da maneira correcta segundo a qual devo orientar as minhas acções para que, um dia, também eu a possa alcançar... parto em busca da minha própria Liberdade!.... Liberdade, essa palavra Que o sonho humano alimenta Que não há ninguém que explique E ninguém que não entenda Cecília Meireles A Liberdade Etimologicamente, a palavra Liberdade vem do Latim Libertas, e era usada pelos Romanos com o objectivo de distinguir os prisioneiros e escravos dos cidadãos, ou seja, aqueles cuja vontade não dependia de outros eram considerados os cidadãos livres. Nos dias de hoje, a mesma palavra vem definida nos dicionários como a condição do ser que pode agir livremente, isto é, consoante as leis da sua natureza, da sua fantasia e da sua vontade; poder ou direito de agir sem coerção ou impedimento1. Mas será o conceito de Liberdade tão linear assim? 1 – Contexto histórico e filosófico dos autores e o seu projecto filosófico Em primeiro lugar temos de considerar que o conceito de liberdade não é fixo, tendo vindo a sofrer alteração ao longo da história mundial. Com efeito, a questão da liberdade já vem desde os tempos mais remotos da nossa história. Acontecimentos marcantes como a escravatura, as guerras mundiais, a inquisição, as ditaduras, etc... têm vindo a contribuir para que haja momentos de reflexão sobre esta questão. Também do ponto de vista filosófico, muitos pensadores dedicaram o seu tempo a reflexões sobre este tema. No entanto, se analisarmos algumas das suas teses e teorias, verificamos que este conceito não se tem mantido fixo e que, pelo contrário, tem vindo a sofrer muitas alterações a nível de conteúdo. Estas mudanças estão, muitas vezes, intimamente relacionadas com o contexto histórico e filosófico em que o filósofo em questão está inserido. Com efeito - dando agora um exemplo - uma pessoa que viveu toda a sua vida debaixo de um regime ditatorial dará muito mais valor à liberdade do que uma outra que tenha nascido num país democrático onde os cidadãos se podem considerar relativamente livres. Immanuel Kant2 viveu entre 1724 e 1804, numa cidade da antiga Prússia denominada Könisberg. Revelou-se um dos mais importantes pensadores dos tempos modernos. O contexto filosófico em que este pensador se encontrava inserido, e pelo qual orientou o seu trabalho entre 1747 e 1781, era uma forma modificada do racionalismo3 dogmático de Woff com fundamento em Leibniz. No entanto, a observação das conclusões a que Hume havia chegado, assim como a descoberta de contradições aparentes nas ciências físicas, alertaram-no para a urgente necessidade de revisão de toda a experiência humana do conhecimento. Com efeito, na opinião de Kant, os elementos não empíricos (a priori) do conhecimento haviam tido grande relevo no velho racionalismo mas, por outro lado, a filosofia empirista4 de Hume tinha sido demasiado redutora, restringindo o conhecimento a elementos empíricos (a posteriori). 1 2 Diciopédia 2001; 2001 Para mais referências biográficas consultar o Glossário. Consultar o Glossário para mais informações sobre o racionalismo. 4 Consultar o Glossário para mais informações sobre o empirismo. 3 O projecto de Kant, ou seja, aquilo que ele se propôs a fazer na sua condição de filósofo, foi realizar uma revisão de todo o conhecimento tendo como objectivo transformá-lo, de modo a que não figurassem dele apenas elementos a priori ou elementos a posteriori, mas sim uma mistura equilibrada dos dois. Por sua vez, Jean-Paul Sartre5 (1905-1980) viveu num período completamente distinto daquele em que Kant viveu. De facto, Sartre presenciou e viveu momentos de grande importância para a história mundial, dos quais resultaram grandes transformações a todos os níveis. Sartre tinha nove anos quando, em 1914, começou a I Guerra Mundial o que o terá marcado certamente. No entanto, foi a II Guerra Mundial, que começou em 1939, e na qual Sartre participou, que o marcou profundamente. Além da fraca preparação que os franceses possuíam, não dispunham dos mesmos recursos bélicos que as forças alemãs tendo sofrido grandes derrotas. Sartre foi, então, feito prisioneiro de guerra em 1940, e enviado para um campo de concentração alemão do qual acabou, mais tarde, por ser libertado. Regressou à sua terra Natal, a França, e, ao mesmo tempo que leccionava, tornou-se um dos líderes da Resistência. Como se pode observar, Sartre foi um cidadão que participou activamente nos acontecimentos políticos e sociais da França. Todo este enquadramento histórico influenciou, sem dúvida, a maneira de Sartre ver o mundo e, consequentemente, toda a sua filosofia. A sua filosofia, essa, tem um estilo bastante próprio e denomina-se de existencialista6. Com efeito, esta corrente filosófica na qual Jean-Paul Sartre estava inserido foi fundada por Sören Kierkegaaed e, sinteticamente, defendia que o Homem deve viver numa busca constante do sentido da sua existência e do destino da sua alma. 2 – Posição dos autores em relação ao tema “Liberdade” Como se sabe, apenas o Homem é um ser racional, isto é, é o único ser que possui e sabe dar uso à razão. Para Kant tudo na natureza age segundo leis objectivas as quais são determinadas pela razão. Assim, apenas um ser racional, isto é, o Homem tem a capacidade de agir de acordo com essas leis ou princípios. Para que, a partir das leis, o Homem possa realizar determinada acção vai recorrer ao uso destes princípios, ou seja, vai recorrer à razão. Assim, pode-se afirmar que o Homem é o único ser que possui razão prática. A razão prática, ou vontade, é a passagem de leis a acções dando, para isso, uso à razão ou, como Kant escreveu, a vontade é a faculdade de escolher só aquilo que a razão, independentemente da inclinação, reconhece como praticamente necessário7, quer dizer como bom. O que isto quer dizer é que, enquanto a razão que nos diz o que está bem e o que está mal, é através da vontade que o Homem determina se quer agir bem ou se quer agir mal. Segundo este filósofo, quando agimos apenas de acordo com a nossa 5 Para mais referência biográficas consultar o Glossário. Para mais informações sobre o existencialismo consultar o Glossário. 7 KANT a); s.d. 6 vontade, as nossas acções são, além de objectivamente necessárias, subjectivamente necessárias. É esta a importância da razão na concepção de liberdade de Kant, já que este só vê como inteiramente livre, aquele que seja dotado de razão. No entanto, Kant distingue dois usos da liberdade: um negativo (que consiste na nossa capacidade de agir independentemente de quaisquer outras causas para além da nossa própria vontade) e um positivo (que diz respeito ao poder causal da razão em se autodeterminar, isto é, a determinação de um livre arbítrio pela simples forma legisladora do Universo). Em Kant, a liberdade funciona como obediência à lei moral e é a determinação objectiva (racional/universal) da vontade, ou seja, o sujeito determina a sua vontade através de leis que são postuladas pela razão, portanto válidas universalmente. A lei moral é, segundo Kant, a lei à qual todos devemos obedecer para que nos possamos considerar verdadeiramente livres. Pode-se dizer ser uma lei “formal” já que precede qualquer experiência. A lei moral é válida para todos os homens, em todas as sociedades e épocas. Não se aplica a situações concretas, simplesmente diz-nos como nos devemos comportar em todas as situações. Daí Kant designá-la de “imperativo categórico”: “imperativa” uma vez que funciona como uma ordem; “categórica” já que se aplica a todas as situações. Kant defendia, ainda, que, ao agirmos, devemos fazê-lo de modo a que desejemos que a lei segundo a qual agimos se torne lei universal, ou seja, numa situação idêntica àquela com a qual me deparo desejo que todos ajam como eu agi. Com efeito, quando agimos por reflexão racional, ou seja, possuímos responsabilidade para perceber o que a moralidade requer de nós e a nossa determinação para não agir imoralmente, estamos a agir moralmente, isto é, obedecendo à lei moral (autonomia da vontade). Quando, pelo contrário, não agimos segundo os princípios da razão, mas sim por outras quaisquer causas (por exemplo, eu não quebro determinada regra não porque ache moralmente correcto, mas sim porque tenho medo das consequências que possam daí advir) a nossa acção fica, automaticamente, sem qualquer valor moral (heteronomia da vontade). Assim, Kant vê como livres aqueles que agem de uma forma autónoma, no sentido anteriormente referido. Assim, só é verdadeiramente livre quem é moralmente responsável (age segundo a lei moral) e só usa a liberdade de modo positivo aquele que agir obedecendo à lei moral e não satisfazendo, apenas, a sua vontade. Daí Kant dizer que a liberdade é apenas uma causalidade8, ou seja, o homem é um ser racional (causa) e, por isso, tem vontade (efeito), característica que, como já foi referido, faz dele um ser livre. Nas suas teses, Kant fala-nos, ainda, da liberdade de pensar! A grande maioria de nós, acredita que ninguém pode retira-nos a liberdade de pensar, já que o ser humano é um ser racional e, por isso, pensa incondicionalmente e independentemente da vontade dos outros. No entanto, Kant opõe-se, de certa forma, a esta ideia já que afirma que apenas poderemos pensar bem se pensarmos em diálogo com os outros que nos fazem fazer parte dos seus pensamentos e a quem comunicamos os nossos9. Seguindo esta linha de pensamento, Kant afirma que à liberdade de pensar opõe-se o constrangimento civil, 8 Todo o fenómeno tem uma causa, a qual, nas mesmas condições produz o mesmo efeito. 9 KANT b), s.d. uma vez que, se este nos limita a liberdade de comunicar, limita-nos, também, (pelas razões já referidas) a liberdade de pensar. Sartre foi um defensor da doutrina existencialista, segundo a qual a existência precede a essência, isto é, as coisas (conhecimento sensível) são anteriores às ideias (conhecimento intelectual). Existencialista e ateu pois, para ele, não existe um Deus criador, logo não há natureza humana, mas sim pelo menos um ser que existe antes de poder ser definido por qualquer conceito, e esse ser é o homem, ou a realidade humana. Isto significa que a sua ideia de Deus não se reduz ao Deus religioso, mas sim a qualquer outro ser inteligível superior ao homem. O facto de não existir Deus implica, assim, que o homem nasça sem valores pré-estabelecidos, isto é, não existe qualquer entidade superior que lhe imponha determinados valores. Dando o exemplo de uma criança a quem, durante a sua infância, a família, sociedade, etc... impõem determinados valores morais, os quais vai questionar quando adquirir consciência moral, concordando com uns e discordando de outros, criando a sua orientação moral (essência), pode-se, então, dizer que o homem cria a sua própria essência, o homem será aquilo que tiver, para si, projectado. Como o próprio Sartre afirmou o Homem primeiramente existe, surge no mundo, só depois se define, isto é, o homem quando nasce não é nada e só depois será alguma coisa, tal como a si próprio se fizer. O homem nasce, portanto, livre, responsável e sem desculpas10 uma vez que se encontra no mundo e, sozinho (visto não existir Deus), terá de “construir” a sua consciência moral, a qual irá orientar as suas acções. Ao afirmar que o existencialismo é um humanismo11, Sartre coloca o homem no centro da sua filosofia e dá-lhe todas as possibilidades de tornar a vida humana possível. Para Sartre, não existem limites para a liberdade, excepto a própria liberdade, ou seja, nós não somos livres para deixar de ser livres. Ser humano é ser completamente livre para ter o poder da escolha, mas a única coisa que não podemos escolher é renunciar à própria escolha porque, ao não escolher, estamos a escolher. Logo, e segundo o que o próprio Sartre afirmou, o Homem está condenado a ser livre12. No entanto, para Sartre, ser livre não é apenas optarmos por aquilo que acharmos correcto, ou por aquilo que, porventura, nos poderá apetecer mais. Na verdade, Sartre acredita existir uma consciência do bem, isto é, o homem, ao optar, tem consciência de que o bem existe e conhece as diversas opções que existem e qual o seu significado. Só assim, poderá optar livremente. Mas não basta optar livremente para sermos livres! É necessário, ainda, possuir uma outra característica: a responsabilidade. Esta é a capacidade que o homem tem de responder pelos seus actos, assumindo-os, e reconhecendo-os como seus. O ateísmo de Sartre, o qual já foi referido, teve uma grande influência na sua concepção de responsabilidade. Ao fazer as suas escolhas, sem ter como referência valores pré-estabelecidos, o homem tem que assumir a responsabilidade das suas opções, e tem, portanto, a total 10 SARTRE c), s.d, p. 227-229 Para mais informações sobre o humanismo consultar o glossário. 12 SARTRE c), s.d, p. 227-229 11 responsabilidade da sua existência. E é esta responsabilidade que gera angústia, pois, assim, o homem não é só responsável pela sua restrita individualidade, mas também responsável por todos os homens, isto é, ao realizar uma acção, o homem está a optar livremente (usando a consciência de bem). Assim, se essa acção é boa para ele, será também boa para todos os outros homens, ou seja, ao realizar uma acção, o homem tem de ser responsável não só por esta mas também pela imagem que essa acção possa eventualmente provocar. Ao admitir que as nossas acções são uma prova da nossa liberdade, Sartre chega ainda mais longe afirmando o homem nunca deve sentir remorsos pois, ao tê-los, está a admitir que, se pudesse voltar atrás, não realizaria determinada acção, ou seja, estaria a negá-la. E ao negar uma acção estaria, também, a negar a sua liberdade. E o homem que fingir escolher, sem na verdade escolher, é um homem de má fé, pois aceita que o seu destino está traçado e simula ser autor dos seus actos. O homem é, portanto, o único ser responsável pela sua liberdade. A realidade humana não é mais do que o acto de assumir o ser, existir é assumir o ser. O homem encontra-se na consciência da liberdade e é, antes de mais, o seu projecto, existindo porque se realiza no conjunto dos seus actos. A partir da subjectividade existencial, o homem atinge-se a si e aos outros homens. Através da intersubjectividade, o homem decide, ainda, o que é e o que são os outros, sendo que, neste processo, o projecto de vida de um indivíduo, pode colidir com o projecto dos outros. Para Sartre não existe, portanto, natureza, mas condição humana. O homem é sempre situado e datado, embora o contexto da situação varie no tempo e no espaço. O existencialismo de Sartre, tem como projecto dominar o mundo, no qual também existem factores negativos, daí que, para dominá-los, também é necessário arriscar o mal, donde a liberdade de decisão inclui a liberdade de fazer o mal. O homem, sem qualquer apoio e sem qualquer auxílio, está condenado a cada instante a inventar o homem13. 3 – Comparação dos dois filósofos Após a clarificação de qual o conceito de Liberdade para cada um dos autores escolhidos pretendo, agora, comparar as suas teorias focando as principais diferenças e semelhanças. Primeiramente vou começar por referir a característica que, na minha opinião, marca certamente a grande diferença entre as teorias de Kant e Sartre. Quando um homem nasce, Kant acredita existir uma lei moral, isto é, uma série de valores prédefinidos segundo os quais esse mesmo homem, se quiser ser livre, deverá orientar as suas acções. Neste caso o homem não escolhe, limita-se a racionalizar estes valores previamente determinados, os quais são os mesmos para todos os homens. Por oposição, Sartre acredita na liberdade absoluta; para ele o homem nasce livre e, apesar de, também ele, orientar as suas acções segundo aquilo a que Sartre chamou consciência moral, a diferença, em relação a Kant, reside no facto de ser o próprio homem a criar a sua 13 SARTRE c), s.d, p. 227-229 orientação moral através da escolha dos valores com que se depara no processo de formação da sua consciência moral, isto é, Sartre defende que é o homem que cria o seu projecto e faz as suas escolhas. Assim, como será referido de seguida, em ambos acaba por existir algo segundo o qual o homem guiará a sua vida diferindo, no entanto, no facto de que, enquanto para Kant esse algo é a lei moral a qual já está previamente definida e decidida, em Sartre é o homem que cria a sua orientação moral não havendo quaisquer valores definidos. No entanto as teorias de Kant e Sartre não diferem apenas neste ponto. Com efeito, Kant concebe o homem como um ser racional, o qual age segundo leis determinadas pela razão, as quais possuem um carácter aceite universalmente. Em Sartre observamos o contrário visto que este acredita que o homem, ao fazer as suas próprias escolhas é, também, responsável por todos os outros homens já que, ao optar, estará a reproduzir determinada imagem a qual poderá influenciar todos os outros homens. Ainda referindo a lei moral, é de salientar que enquanto esta, para Kant, precede qualquer experiência (é formal), servindo de “voz interior” que diz ao homem como agir, em Sartre primeiro o homem nasce e experiencia e só depois é que escolhe os seus valores, formando a sua orientação moral. Enquanto que, para Kant, a lei moral segundo a qual o homem orienta as suas acções, se aplica a todos os homens, sociedades e épocas, dando, por isso, a ideia de que todos os homens, perante esta, são iguais, Sartre defende que o homem é sempre datado e situado, embora, como já foi referido, o contexto da situação varie no tempo e no espaço. Relativamente às diferenças, e para concluir, posso referir que, enquanto Kant dá especial relevo às leis, as quais o homem vai utilizar enquanto ser racional, Sartre faz todo o seu pensamento girar em torno do homem, o qual, no seu trajecto, é que vai definir as suas escolhas. Apesar de tão diferentes, as teorias de Kant e Sartre aproximam-se, também, nalguns pontos essenciais. Embora pareça um paradoxo, o que é facto é que ambos admitem a existência de uma consciência moral, mais evidente em Kant e mais contraditória em Sartre. Para concluir, e independentemente das diferenças e semelhanças já apontadas, existe algo comum aos dois autores: cada um deles, melhor ou pior, e embora por caminhos diferentes, tentou orientar o homem na busca da sua liberdade! Conclusão Após a realização de qualquer trabalho é conveniente que haja um momento de reflexão, no qual o autor do mesmo poderá verificar quais os conhecimentos que adquiriu ao longo da realização do trabalho, objectivos que atingiu, etc... Assim, pretendo, agora, sintetizar as principais conclusões a que cheguei. Para se perceber o que é a Liberdade é, igualmente, necessário compreender que esta é um conceito muito subjectivo, o qual não possui uma definição concreta e fixa. Isto deve-se, principalmente, ao facto da Liberdade ser um valor. Como se sabe, os valores, devido à sua multiplicidade e grande complexidade são, sempre, difíceis de definir. No entanto, muitos filósofos dedicaram parte do seu tempo a este tema e foi através das ideias desenvolvidas por Immanuel Kant e Jean-Paul Sartre que se realizou este trabalho. Estes dois filósofos inserem-se em períodos que, embora não muito distantes, são, em termos de produção filosófica, muito distintos. Com efeito, Kant acreditava na existência de leis, as quais tinham como base a razão. Uma dessas leis chamava-se lei moral. A lei moral é a lei que se baseia em valores aceites universalmente e que se aplica a todos os homens e situações, guiando as nossas acções, dizendo ao homem o que deve, ou não, fazer. Kant via a Liberdade como uma obediência à lei moral, isto é, quando nascemos existem já valores pré-definidos e só se pode considerar verdadeiramente livre aquele que agir segundo estes, ou seja, segundo a lei moral. Quando o Homem, na passagem de lei moral a uma acção, dá uso à razão diz-se que está a exercer a sua vontade. Assim, fazendo uso desta sua vontade o homem é já um ser que se pode considerar livre. No entanto, para que esteja a usar a Liberdade de um modo positivo é necessário que esteja, também, a recorrer à lei moral, daí Kant dizer que só é livre que é, também, moralmente responsável. O outro filósofo escolhido, Jean-Paul Sartre, acreditava que todos os homens nascem livres! Para ele não existia Deus nem qualquer outra coisa superior ao homem, logo não existiam valores pré-estabelecidos. O homem encontrava-se sozinho no mundo e tinha de criar as suas opções, escolher o seu caminho, traçar aquilo a que Sartre chamava projecto. Todos os homens eram livres para criar a sua essência, perceber que valores queriam adoptar como seus, criando a sua orientação moral (segundo a qual iriam, depois, orientar as suas acções)... Livres para serem o que tivessem, para si mesmos, projectado! No entanto este homem tem, também, de ser responsável para que possa assumir os seus actos e, ao realizar uma acção, tem de conhecer e perceber quais as opções com que se depara e qual o seu significado. Só assim poderá optar livremente! Apesar de conhecer apenas as teorias destes dois filósofos em relação a este tema e, mesmo assim, não tendo estudado exaustivamente todas as suas ideias é agora altura de formar a minha opinião pessoal e crítica sobre as suas teses. Relativamente a Kant discordo da sua opinião num ponto que, para mim, pareceme fundamental. Kant defendia que a lei moral se aplica a todos os homens, em todos os períodos da nossa história. Parece-me a mim impossível que, com as mudanças tão significativas do ponto de vista ideológico, social e cultural que se têm vindo a observar ao longo da nossa história possa existir uma lei, a qual é imutável e aplicável a todos os homens. Por exemplo, será legítimo afirmar que um homem que tenha vivido na Idade Média e um outro que viva agora, na actualidade, possam ser igualmente livres, seguindo a mesma lei moral se o que se passa no mundo à sua volta é tão diferente? Penso que não... É verdade que todos os homens nascem com uma mesma razão, mas esta pode ser aplicada de maneiras muito diferentes. Por sua vez, Sartre desenvolveu, na minha opinião, uma excelente teoria sobre o conceito de Liberdade, muito bem fundamentada nalguns aspectos essenciais... No entanto, pessoalmente, acho que esta tem tendência para se tornar contraditória. Com efeito, Sartre defende que todos nascemos livres, segundo ele, estamos mesmo condenados a sê-lo e, contra isso, nada podemos fazer. No entanto, ao traçar o seu percurso, ao realizar o seu projecto o homem estará, também a adoptar para si determinados valores, ou seja, começar-se-á a formar nele uma consciência moral. Ora se o homem passa, desde então, a possuir uma consciência moral a qual lhe murmura baixinho o que tem de fazer, qual a melhor opção a tomar, etc... deixa automaticamente de ser livre, segundo a perspectiva de liberdade absoluta que Sartre primeiramente tinha referido. O que eu quero dizer é que, a meu ver, é impossível um homem ser totalmente livre se acaba por ter de se submeter a uma consciência moral. Para suportar esta minha teoria posso mencionar o facto de Sartre ter prometido debruçar-se sobre a moral e, na realidade, nunca o ter feito... Tirando estes pequenos pontos, concordo com as posições dos autores em relação ao tema e, embora tendo concepções diferentes, ambos os filósofos fundamentam bem as suas ideias, atribuindo-lhes credibilidade. Assim, nada mais há a referir. Para concluir, gostaria de, baseando-me nas teorias de Kant e Sartre e no próprio contexto histórico que vivo, nos acontecimentos de que tenho conhecimento, os quais Kant e Sartre não presenciaram, de tentar formular a minha própria opinião sobre a liberdade. Na minha opinião, a liberdade é algo de muito importante na vida de qualquer pessoa. Se considerarmos existir nas nossas vidas um nível microscópico (o qual compreende o Homem como ser humano único e individual o qual sente, experiência e valora o mundo de uma forma própria da qual não existe igual) e um nível macroscópico (o qual compreende o homem como ser inserido, primeiramente numa família, depois numa sociedade, num país, num continente e assim sucessivamente...) facilmente posso afirmar que, a nível microscópico, todos nascemos livres, tendo a oportunidade de optar pelo que acharmos que é correcto, tendo a oportunidade de escolher o nosso caminho e de realizarmos as nossas próprias escolhas e que, a nível macroscópico, é impossível falar da palavra “Liberdade” no verdadeiro sentido da palavra pois ninguém é totalmente livre: existem sempre as condicionantes e os limites que a família, sociedade e mundo em que estamos inseridos nos impõem, condicionando, muitas vezes, as nossas escolhas e atitudes. É por nos sentirmos condicionados que a liberdade tem vindo a ser, desde sempre, um dos valores que todos desejam alcançar. Todos os homens, todos nós, queremos ser livres e isso verifica-se desde os tempos mais remotos. Quantas guerras e quantas lutas foram travadas ao longo da nossa história para que a liberdade fosse conquistada? Quantas discussões se travam todos os dias em casa de milhares de adolescentes que, como eu, se sentem, por vezes, condicionados pelos limites que os pais tentam impor relativamente a uma saída com os amigos? Porquê? Porquê esta constante procura de liberdade presente em cada segundo das nossas vidas? Penso que faz parte da própria Natureza humana... O uso da liberdade é, na minha opinião, aquilo que nos dá valor e que confere ao nosso ser dignidade uma vez que, através das escolhas que cada pessoa faz, (e para escolher é necessário ser-se livre) podemos aprender muito sobre o carácter dessa mesma pessoa. Para concluir, gostaria de salientar que a realização deste trabalho contribuiu, sem dúvida, para uma melhor compreensão do que é afinal a Liberdade e da complexa rede de significados que se relacionam com este tema. Creio que, se antes de ter tido a oportunidade de realizar este trabalho, me tivessem perguntado o que era a liberdade teria, com certeza, caído no mesmo erro em que muitos continuam a cair respondendo que a liberdade não é nada mais do que “fazer-se aquilo que se quer”. No entanto, este trabalho permitiu-me aprofundar a questão e perceber que a liberdade é, sem dúvida, muito, mas muito mais do que isso.... 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Pode ainda ser o sentido de moralidade ou dever. Empirismo O empirismo é uma corrente filosófica que considera, como fonte única de conhecimentos, a experiência (seja esta externa - sensações - ou interna - sentimentos). Podemos encontrar o empirismo ao longo de toda a história da civilização ocidental. Com efeito este estava já presente na Grécia antiga apesar de só podermos falar no verdadeiro sentido da palavra a partir do século XVII. No entanto é necessário salientar que o empirismo, ao tentar ser objectivo, torna-se, muitas vezes, demasiado redutor. Essência A palavra essência pode ser entendida de várias formas. Para alguns filósofos, a essência, é o que faz com que uma coisa seja o que é, e não outra coisa. São as características que esse determinado objecto ou ser possuem e que nos permitem identificá-los e defini-los. Por exemplo, dizer que o Homem é um ser racional é uma definição essencial pois expressa determinada característica que nos permite não confundir o Homem com nenhuma outra classe de indivíduos. A palavra essência pode ainda aparecer como o movimento próprio, infinito, do ser. A essência é o ser em e para si mesmo, ou seja, o ser em si absoluto; é o lugar intermédio entre o ser e o conceito. É ainda importante referir que existem dois tipos de essência – essência material ou formal – sendo que a diferença entre estas se funda no raio da sua aplicação. Existência A existência pode ser entendida como a substância, isto é, como a entidade. Designa-se de substância primeira quando é aquilo de que pode dizer-se algo e onde residem as propriedades. Para alguns filósofos, nomeadamente Aristóteles, quando a existência se une à essência obtemos um ser. Para outros, como Sartre, a existência é a fase que precede a essência. 14 O presente glossário pretende esclarecer o sentido dos conceitos que nele figuram, não apenas em relação aos autores Immanuel Kant e Jean-Paul Sartre mas sim, procurando um significado comum a todos os filósofos. Existencialismo Com início na primeira metade do século XX, o existencialismo, é uma corrente filosófica que se debruça, essencialmente, sobre o Homem, o qual sofre, ama, vive feliz ou infeliz e se depara com o inevitável problema da morte, vivendo numa procura constante do sentido da sua existência. Assim, o existencialismo é uma antropologia, ou seja, uma reflexão filosófica sobre o ser do homem enquanto existente. O existencialismo conta com os momentos de crise social para se manifestar. Como exemplo, temos a II Guerra Mundial em que o homem se confrontou com a morte em larga escala. Isto levou-o a questionar-se sobre determinadas questões que, até aí, pareciam esquecidas e inquestionáveis. Podem-se distinguir dois tipos de existencialismo: o cristão (cujos representantes acreditam em Deus identificando-o como criador, o qual fez o Homem em função de determinada concepção e utilizando, para isso, determinadas técnicas) e o ateu (cujos apoiantes não acreditam em Deus, afirmando que o Homem é o único ser capaz de ser definido antes de qualquer conceito). No entanto existe um factor comum a todos os filósofos existencialistas o qual é o assumir radical da consciência individual, a qual se encontra mergulhada nas condições reais da existência humana. Humanismo Designa-se de Humanismo a corrente filosófica que surgiu na Europa em meados do século XVI, a qual se pode definir como sendo um conjunto de valores estéticos, éticos, pedagógicos e filosóficos que variam de autor para autor; um novo estilo de vida. O Humanismo não é nada mais que a exaltação do Homem e das suas obras, quer estas sejam individuais ou colectivas; o Homem deve ser o centro de interesse já que é concebido como um ser supremo e único no qual reside a verdade. Kant, Immanuel Immanuel Kant, filósofo alemão, considerado um dos mais influentes pensadores dos tempos modernos, nasceu no dia 22 de Abril de 1724, em Könisberg (actual Kalinigrado, na Rússia). Não casou nem teve filhos, tendo-se fixado permanentemente na cidade onde nasceu. Os seus pais eram pessoas humildes pertencentes, ambos, ao ramo pietista da Igreja Luterana o que, só por si, exigia dos fiéis uma vida simples e ainda integral obediência à lei moral. Com efeito, durante todo o seu crescimento, Kant foi diversas vezes influenciado pelas ideias religiosas, no seio das quais havia sido criado. O seu percurso académico começou por influência do seu pastor, numa escola pietista, na qual estudou durante oito anos e meio. Aos dezasseis anos, entrou na faculdade de Könisberg onde esteve durante cinco anos. Começou a interessar-se por matemática e física tendo, em 1744, começado a escrever o seu primeiro livro. Kant estava, assim, decidido a seguir uma carreira académica, desejo este que veio a ser posto de parte durante algum tempo, em 1746, aquando da morte de seu pai. Para se manter, Kant suspendeu os estudos tendo trabalhado, durante nove anos, como tutor particular. Em 1755, Kant consegui retomar o caminho do qual se havia afastado, perseguindo, assim, o seu desejo de ser docente. Durante quinze anos leccionou como docente livre (sem ordenado) em diversos domínios, como sejam a matemática, ciência, física, metafísica e filosofia moral tendo obtido grande sucesso. Apesar da fama de que usufruía como docente, apenas em 1770 viu reconhecido o seu esforço, tendo-lhe sido atribuída uma cadeira – lógica e metafísica – a qual viria a leccionar durante os 27 anos seguintes. Kant deixou-nos uma vasta obra tendo escrito livros como a Crítica da Razão Pura e Crítica da Razão Prática. No entanto, a sua produção intelectual foi, também ela, influenciada pelas ideias de outros. Com efeito, Kant procurou conferir à Filosofia dignidade, restaurandolhe a credibilidade, à semelhança do que Newton havia feito com a Física. Para isso, Kant tentou superar as posições antitéticas do dogmatismo racionalista e do empirismo céptico, através da análise crítica da metafísica seguindo, assim, os passos de Copérnico. David Hume, filósofo empirista, foi também uma fonte de inspiração para a filosofia de Kant. É, ainda, importante referir que Kant levou uma vida sistemática, mantendo a mesma rotina diária durante toda a sua vida (salvo raras excepções), até que a idade o impediu. Morreu em Könisberg, em 12 de Fevereiro de 1804. Racionalismo Doutrina filosófica que se impões ao empirismo segundo a qual nem todos os conhecimentos (principalmente as ideias normativas e os princípios por meio dos quais raciocinamos) podem ser explicados pela experiência. Os defensores do racionalismo afirmam que a razão humana é capaz de alcançar a verdade visto que as leis do pensamento são, também, as leis das coisas. Assim, devemos confiar na razão e não aceitar sem reconhecer neles qualquer lógica, dogmas religiosos. Razão A razão é a capacidade que o Homem tem de raciocinar, através da qual pode conhecer, compreender e julgar. A razão é a faculdade que distingue o homem do animal. É, ainda, considerada como a norma das nossas acções. Ou seja, devemos agir segundo a razão já que esta é uma boa guia das mesmas. Sartre, Jean-Paul Jean-Paul Sartre, um dos maiores escritores e filósofos existencialistas contemporâneos, nasceu, em Paris, no dia 21 de Junho de 1905. A morte do seu pai, em 1907, obrigou Sartre a mudar-se para casa do seu avô materno, em Meudon. Cresceu em França onde estudou na École Normale Supérieure, desde 1924. Após ter terminado os seus estudos, Sartre leccionou Filosofia durante seis anos, primeiro em Le Harvre e depois no Lycée Pasteur, ambos em Paris. Em 1939, com início da II Guerra Mundial, Sartre foi convocado para o serviço militar, tendo sido enviado para um campo de concentração alemão em 1940, como prisioneiro de guerra. Em 1941 Sartre foi, finalmente, libertado tendo regressado a Paris onde se tornou um dos grandes líderes da Resistência voltando, também, a leccionar. Em 1945, Sartre tinha-se tornado chefe dos grupos existencialistas do bairro de St. Germain-des-Prés. Fundou, ainda nesse ano, a revista Les Temps Modernes tendo, colaborado ainda para o jornal de Paris, Libértacion. Sempre a seu lado, durante os acontecimentos que mais marcaram a sua vida, podemos encontrar Simone de Beauvoir (também filósofa existencialista) que foi a sua companheira de toda a vida. Sartre deixou-nos uma grande obra, tendo sido de grande valor os pensamentos e teorias que desenvolveu ao longo da sua vida. No entanto, também as suas ideias se formaram sob a influência de outros filósofos das quais se destacam as influências das doutrinas de Husserl, Heidegger, Klerkegaard e o método da psicanálise de Freud. Além disso, como já foi referido, Sartre viveu intensivamente a II Guerra Mundial e a ocupação nazista da França, o que afectou fortemente toda a sua produção intelectual. Finalmente, em 15 de Abril de 1980, Jean-Paul Sartre morre, já senil, de ataque cardíaco deixando-nos uma vasta obra da qual se destacam obras literárias como O existencialismo é um humanismo, As moscas, O Ser e o Nada e A Náusea. Vontade A vontade pode definir-se como uma forma plenamente consciente da actividade a qual foi precedida de reflexão e de decisão. A vontade pode ser entendida do ponto de vista psicológico (conjunto de fenómenos psíquicos), eticamente (adoptando a forma de atitude ou disposição moral para querer algo) e ainda metafisicamente (acabando por se converter em substrato de todos os fenómenos). Alguns filósofos consideram que sempre que existe vontade existe, também, um conhecimento, uma finalidade, uma decisão, uma resolução e uma acção. Existem, ainda, os motivos da vontade, os quais que, em determinada situações, fazem com que a vontade se “ponha em marcha” e, noutras, são considerados apenas o incentivo no momento da resolução ou acção.