Estratégias de Comercialização e Reprodução Camponesa no Sudeste Paraense: a participação do Assentamento Palmares II na Feira do Produtor Rural de Parauapebas/PA. Fernando Michelotti Haroldo de Souza Ana Paula de Oliveira Almeida Introdução Hurtienne (1999) apresenta um debate sobre a ocupação camponesa na Amazônia, contrapondo dois tipos de visão. Uma, representada pela idéia de existência de um ‘ciclo de fronteira’, caracterizado pela migração recorrente em conseqüência da impossibilidade de permanência do campesinato, no médio/longo prazo, na mesma área em função da insustentabilidade de seus sistemas de produção. Outra, referendada a partir de vários exemplos de ‘estabilização relativa’ do campesinato amazônico, diretamente relacionados a processos de complexificação dos sistemas de produção, combinando extrativismo, cultivos perenes, cultivos anuais e criações de pequenos e grandes animais. Este autor fez uma comparação entre as trajetórias da agricultura camponesa de diversas zonas de ocupação no estado do Pará e concluiu que a diversidade existente não permite uma homogeneização das análises em torno da tese do ‘ciclo da fronteira’ ou da ‘estabilização relativa’. Ao contrário, “... essas duas tendências presentes em qualquer fronteira entrelaçam-se entre si, predominando sempre uma delas, dependendo da história da ocupação, das políticas públicas e das condições agroecológicas” (Hurtienne, 1999: 82). Ainda segundo esse autor, a Meso-região Sudeste Paraense foi uma das áreas onde houve uma predominância de um ‘ciclo de fronteira’ no processo de ocupação entre as décadas de 1960-70, com a presença de um campesinato com sistemas de produção muito simplificados, baseados na trajetória mataroçapasto. Uma combinação de fortes conflitos de terra, ausência de uma política de colonização organizada pelo Estado e regularização tardia da posse da terra teriam sido determinantes para esta situação (Hurtinenne, 1999: 88). Embora esse processo de ocupação camponesa na região tenha gerado uma predominância de sistemas de produção pouco diversificados, ele levou a uma grande capacidade de mobilização para a luta pela terra através da organização em sindicatos e movimentos sociais. Essa capacidade de luta pela terra, associada a conjunturas específicas do agrário regional e nacional ao longo das décadas de 1980-90, levou ao que em outros artigos chamamos de ‘territorialização da luta pela terra’ com a conquista de inúmeros projetos de assentamentos implantados pelo INCRA (Michelotti et. al., 2006 ; Michelotti et. al., 2007). Segundo dados do INCRA, até 2007, na área de abrangência da sua Superintendência Regional 27, que compreende aproximadamente a Meso-região Sudeste Paraense, haviam sido criados 481 Projetos de Assentamento, ocupando uma área de 4,4 milhões de hectares com 64,8 mil famílias assentadas. Nesta região, conforme reforçam Oliveira et al. (2005), a partir da segunda metade da década de 1990, o Estado passou a ter uma ação mais contundente no que se refere ao apoio à agricultura familiar, promovendo e implementando políticas públicas direcionadas a esse público, o que provocou modificações significativas no contexto regional. Além da criação de assentamentos, foram implementadas pelo governo federal outras políticas de fortalecimento da agricultura familiar1 que, embora seguindo tendências nacionais, nesta região ganharam destaque, tanto em termos do volume de recursos aplicados, como do engajamento por parte de instituições do Estado e de movimentos sociais do campo. Essas modificações foram de diversas ordens, como infra-estrutura em estradas e habitação, crédito produtivo e de apoio à instalação, fortalecimento das organizações e movimentos sociais do campo, complexificação do quadro institucional, busca e fortalecimento de mercados. Houve uma clara reconfiguração no agrário regional, desde a investida na regularização fundiária até a disputa por espaços político-institucionais e recursos, configurando o que Leite et al. (2004) chamaram de um ‘redesenho do espaço rural’. A questão central que se coloca a partir dessa observação é: em que medida esse processo de ‘territorialização da luta pela terra’ e ‘redesenho do espaço rural’ tem 1 São diversas as ações de programas e políticas públicas voltadas para a região e para o âmbito nacional como um todo, valendo destacar: o estabelecimento de uma linha de crédito produtivo específica aos agricultores familiares assentados: Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar - PRONAF “A”; a criação do primeiro programa de assistência técnica e extensão rural em 1998 e extinto em 2001, o Programa Lumiar, que posteriormente no ano de 2004 findou no programa de ATES – Assessoria Técnica, Social e Ambiental aos assentamentos de reforma agrária e perdura até hoje; o grande montante de recursos financeiros aplicados na recuperação e abertura de estradas vicinais nas áreas do campo; a criação de programas de fomento à comercialização aos pequenos agricultores, as ARCOS – Agências Regionais de Comercialização; em 1998 inaugura-se uma política de educação do campo específica aos beneficiários da reforma agrária, o PRONERA – Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária, dentre outras. permitido, na região, a reversão da tendência de sistemas produtivos muito simplificados e baseados no desmatamento total dos estabelecimentos para implantação de pastagens? A tese que embasa este artigo é que, pelo menos em alguns casos particulares, a conquista do assentamento tem originado um conjunto de situações que tem favorecido uma tendência de maior complexificação dos sistemas produtivos, em função da maior segurança na posse da terra, no maior acesso aos benefícios das políticas públicas, na ampliação da capacidade dos assentamentos de organizar sua produção e nos resultados econômicos obtidos com a diversificação. Há que se ficar claro que esses itens não são resultados diretos e necessários da criação do assentamento, mas sim decorrências possíveis dessa conquista, relacionada a múltiplos outros fatores. O objetivo deste artigo é apresentar um estudo de caso que ilustra essa situação, focando nos estímulos à diversificação produtiva oriundos do acesso à comercialização direta de produtos agropecuários numa feira de produtores rurais no município de Paraupebas, Sudeste do Pará. Com isso, não espera-se apenas comprovar a possibilidade de existência dessas novas trajetórias, mas sobretudo indicar quais fatores têm sido relevantes para sua existência. Breve Contextualização do Município de Paraupebas e PA Palmares Inúmeros estudos já mostraram como os estímulos pelo Estado, através de obras de infra-estrutura, incentivos fiscais e creditícios, bem como a ocupação territorial pelos chamados “Grandes Projetos” impactaram a região a partir dos anos 1960-70 (Assis, et al., 2008 ; Costa, 2000 ; Diegues, 1999 ; Ozório de Almeida, 1992). Os elevados índices de violência, conflitos de terra, desmatamento e apropriações desiguais de recursos, decorrentes desse modelo de ocupação, passaram a caracterizar negativamente a região e tornaram-se amplamente ilustrativos das contradições do modelo industrialista de desenvolvimento da Amazônia. Por isso, mais do que a disputa pela posse da terra e dos recursos naturais subjacentes, conformou-se na região uma disputa entre dois projetos de desenvolvimento regional. Um deles conformado em torno da mineração-siderurgia associada aos grandes empreendimentos agropecuários patronais, voltados sobretudo à pecuária extensiva; o outro ligado à reforma agrária e a uma produção agroflorestal diversificada. A ação dos movimentos sociais ligados à luta pela terra passou cada vez mais a ampliar seu foco de ação, da mera luta por terra para a disputa por um projeto contra-hegemônico de desenvolvimento. Sem desconsiderar essas disputa e a oposição entre as principais características dos respectivos projetos de desenvolvimento, Costa (2008) tem mostrado que há uma inter-relação entre essas trajetórias distintas de desenvolvimento que complexifica a análise. Para demonstrar essa situação, o autor construiu matrizes insumo-produto que permitem a observação da interdependência entre os diferentes componentes da economia regional, bem como seus transbordamentos externos e sua capacidade de retenção local. Analisando a evolução das matrizes insumo-produto entre 1995 e 2004, Costa (2008) mostra que na base de exportação da economia regional, fortemente influenciada pela atividade ligada à mineração, tem prevalecido a ação de forças centrífugas (transbordamento econômico) em relação às forças centrípetas (retenção local). No entanto, mesmo frente a esse quadro geral negativo para a região, tem ocorrido um crescimento lento e continuado da capacidade de retenção da base de exportação, ligadas à complexificação e elevação da produtividade rural, inclusive a camponesa. O estudo em tela reforça essa perspectiva. O Projeto de Assentamento Palmares II, constituído a partir da luta do Movimento dos Trabalhadores Rurais – MST na região e criado pelo INCRA em 1995 tem uma longa história de tensões e enfrentamentos com a mineradora VALE (antiga Companhia Vale do Rio Doce – CVRD), cuja ferrovia atravessa a sua área. Paralelamente, os assentados têm conseguido aproveitar o crescimento populacional e econômico do município de Parauapebas, onde se localiza parte significativa da mineração da companhia na região, para comercializar seus produtos em uma feira de produtores rurais. A participação na feira pode ilustrar o que Costa (2008) chamou de capacidade de retenção local de parte da renda da mineração, influenciando positivamente não apenas na composição da renda camponesa, mas também no estímulo ao aumento da sua produtividade em função da diversificação e complexificação da produção. Parauapebas nasceu como uma vila, no pé da Serra de Carajás em função da atividade minerária que se instalou na região. Foi emancipada como município em 1988, a partir do desmembramento do município de Marabá. Entre 1996 e 2007 sua população cresceu de 63.563 a 133.298 habitantes (6,96% a.a.), graças à forte migração atraída pela mineração. Seu PIB em 2007, de cerca de 3,069 bilhões de reais a coloca como a 7ª economia municipal da região Norte (Pará, 2008). São números que ilustram o dinamismo econômico desse município e que ajudam a entender a importância da comercialização de alimentos através da Feira Municipal. A Feira de Parauapebas A Feira do Produtor Rural em Parauapebas foi criada em fevereiro de 1992, pela Prefeitura Municipal, com o intuito de favorecer a venda de produtos agrícolas de pequenos produtores. A feira teve início com cerca de 20 produtores cadastrados e hoje possui 403 feirantes cadastrados, além de produtores em espera e vendedores não cadastrados, vindos de 17 localidades diferentes, sendo 4 delas, assentamentos de reforma agrária. Esta feira é mantida pela Prefeitura de Parauapebas, através da SEMPRORSecretaria Municipal de Produção Rural. Cabe à secretaria a manutenção do local de comercialização, como limpeza e confecção das bancas onde o produto é exposto, transporte dos produtos e feirantes e hospedagem dos produtores. Para transporte são disponibilizados doze caminhões, que durante três vezes na semana percorrem diferentes rotas para conduzir os agricultores até a feira. Estes ficam hospedados na casa de apoio ao agricultor, localizada em frente à feira. Além disso, a SEMPROR oferece incentivos à produção, fornecendo serviços de mecanização agrícola e assistência técnica para uma parte dos agricultores. Atualmente a feira funciona quatro dias na semana: terça feira pela tarde, quarta feira pela manhã, sexta pela tarde e sábado pela manhã. Os períodos de maior movimento são quarta e sábado, sendo as de sábado as mais procuradas pelos consumidores, pois apresentam a maior diversidade de produtos. Ilustração 1: Disposição da Feira Municipal de Parauapebas. Fonte: Almeida, 2009. A ilustração 1 mostra a disposição dos feirantes e produtos na Feira Municipal. Esta conta com dois galpões para comercialização, porém apenas um está em uso. No interior deste galpão, os feirantes vindo das diversas localidades se organizam em bancas para comercialização de produtos de origem vegetal. Nas laterais do galpão há comercialização de produtos agropecuários vindo de outros estados, bem como artesanato. À frente do galpão está situada a Secretaria Municipal de Produção Rural, onde se encontram os registros de comercialização e cadastro dos agricultores. Na parte externa há uma feira fixa, que funciona todos os dias da semana, onde há comercialização de confecções e em menor quantidade revenda de produtos agrícolas por terceiros. Carnes e pescados são comercializados na lateral desta feira, expostos ao ar ou armazenados em caixas térmicas. Segundo os arquivos da Secretaria da Feira do Produtor, entre os meses de julho e setembro de 2009, houve uma venda mensal da ordem de R$ 237.886,92, apenas por parte dos 403 agricultores cadastrados, ou seja, na parte ‘Produtos Locais’ da ilustração 1. O assentamento Palmares II, com 22,33% dos agricultores cadastrados, foi o responsável por 18,2 % desse movimento de vendas, configurando-se como a principal localidade participante da Feira (cf. Tabela 01). Tabela 01: Localidades Presentes na Feira, Número de Agricultores Cadastrados pela SEMPROR/Parauapebas e Média de Vendas no Trimestre jul – set / 2009. Localidade N° de Agricultores Vendas Mensal* abs. % R$ % Palmares II 90 22,3% 43.234,42 18,2% Cedere e VS 48 11,9% 39.523,67 16,6% APA II 23 5,7% 38.634,00 16,2% Gameleira 34 8,4% 18.253,50 7,7% Rio Branco 41 10,2% 16.967,17 7,1% Palmares I 45 11,2% 16.622,50 7,0% APA I 27 6,7% 15.422,33 6,5% Paulo Fonteles 25 6,2% 12.196,33 5,1% Brasil Novo 16 4,0% 10.309,33 4,3% Zona Urbana 23 5,7% 9.809,83 4,1% Carajás 8 2,0% 6.175,83 2,6% Ilha do Gelado 5 1,2% 5.798,67 2,4% Terra Roxa 7 1,7% 2.599,83 1,1% Tapete Verde 6 1,5% 921,50 0,4% Carlos Fonseca 1 0,2% 713,33 0,3% Taboqueira 2 0,5% 568,67 0,2% Valentim Serra 2 0,5% 136,00 0,1% TOTAL 403 100,0% 237.886,92 100,0% Fonte: Secretaria Municipal de Produção Rural de Parauapebas/PA. Organização dos autores. * média dos meses jul a set de 2009 Comercialização na Feira e Diversidade da Produção Para além das questões do abastecimento e comercialização de produtos, as feiras são reconhecidas pela sociabilidade e transformações na espacialidade urbana (Mascarenhas, 2008) e por apresentarem muitos elementos da cultura local, expressa na forma de artesanatos, comidas típicas, músicas, danças e sotaques (Sousa, 2000). Numa região de migração recente, a feira expressa muito bem essa diversidade de origens culturais do campesinato local e se apresenta com um local de síntese de uma identidade regional em construção. Por todos esses aspectos, econômicos e sócio-culturais, a importância das feiras vem ganhando destaque no cenário político-institucional e acadêmico envolvido com a produção familiar. Em uma sociedade globalizada e hegemonizada por mercados universalizados e impérios agroalimentares, baseados em altos índices de produtividade e tecnologia, faz-se necessário a busca da construção, por parte do sistema produtivo familiar, de estratégias próprias de comercialização. Conforme destaca Wilkinson (1997), a reprodução e o futuro dos sistemas produtivos familiares dependem menos da competitividade fincada nos estreitos limites tecnológicos e organizacionais do que no surgimento de atores comprometidos com a redefinição das prioridades econômicas regionais a partir do reconhecimento dos sistemas produtivos familiares e suas potencialidades como propulsores do desenvolvimento. As feiras podem ser um bom exemplo disso. No caso em tela, a participação de agricultores do Projeto de Assentamento Palmares II na comercialização direta através da Feira Municipal de Parauapebas, mostra sinais importantes de estímulo a diversificação e complexificação da produção, parte fundamental da ‘estabilização relativa’ do campesinato na Amazônia. Numa região cuja simplificação dos sistemas de produção teve sua maior marca na pecuarização, a produção da Palmares II apresentou uma elevada diversidade e importância de produtos não ligados à pecuária bovina. O quadro 01 mostra que, ao longo de um levantamento da comercialização pela feira entre os meses de novembro de 2007 e outubro de 2008, os agricultores-feirantes dos Assentamentos Palmares I e II2 levaram à feira um total de 62 produtos diferentes, sendo 05 produtos de origem animal, 05 tipos de grãos, 26 tipos de frutas (in natura ou processadas; obtidas em cultivos ou extrativismo), 21 produtos olerícolas e 05 derivados da mandioca. A maior parte desses produtos são obtidos em sistemas de produção terraintensivos, ou seja, geram uma elevada renda agrícola por unidade de área o que pode ser um fator importante também face às preocupações ambientais decorrentes dos desmatamentos em áreas de assentamento. 2 No período citado, novembro de 2007 a outubro de 2008, os dados da Secretaria da Feira Municipal não diferenciavam os dados de comercialização dos agricultores desses dois assentamentos vizinhos, uma vez que eles correspondem às mesmas rotas de transporte. Quadro 01: Diversidade de itens comercializados na Feira do Produtor Rural de Parauapebas entre Novembro de 2007 e Outubro de 2008. Tipos de Produtos Produtos Animais Grãos Quantidade e Variedade de Itens Produzidos 05 Frango, ovos, queijo cozido, queijo cru, requeijão. 05 Amendoim, fava, feijão seco, feijão verde, milho seco. Abacate, abacaxi, açaí, acerola, azeite de babaçu, bacaba, banana, cajá, cajá manga, caju, carambola, coco seco, coco verde, cupuaçu, jaca, lima, limão, mamão, manga, maracujá, melancia, melão, murici, palmito, pocan, polpa de fruta. Abóbora, abobrinha, alface, batata doce, berinjela, cheiro verde, corante, couve, inhame, jambú, jiló, maxixe, milho verde, pepino, pimenta de cheiro, pimentão, quiabo, rúcula, tomate, vagem, vinagreira. Farinha branca, farinha puba, mandioca, tapioca, tucupi. 26 Frutas Olerícolas Mandioca e Derivados 21 05 Fonte: Secretaria Municipal de Produção Rural de Parauapebas/PA. Organização dos autores. Tabela 02: Diversidade de Tipos de Produtos Comercializados por Agricultor Quantidade de Tipos de Produtos Comercializados pelo Mesmo Agricultor Quantidade de Agricultores que Comercializam Cada Tipo de Produto de Origem Vegetal N° Agricultores Mandioca e Olerícolas Frutas Grãos Derivados 1 tipo 19 4 2 13 0 2 tipos 12 4 7 10 3 3 tipos 8 8 4 8 4 4 tipos 1 1 1 1 1 Total 40 17 14 32 8 1 tipo 47,5% 10,0% 5,0% 32,5% 0,0% 2 tipos 30,0% 10,0% 17,5% 25,0% 7,5% 3 tipos 20,0% 20,0% 10,0% 20,0% 10,0% 4 tipos 2,5% 2,5% 2,5% 2,5% 2,5% Total 100,0% 42,5% 35,0% 80,0% 20,0% Fonte: Secretaria Municipal de Produção Rural de Parauapebas/PA. Organização dos autores. Um desdobramento dessa observação da diversidade de produtos comercializados pela localidade refere-se à diversificação de cada unidade familiar de produção. Conforme a tabela 02, uma amostra de 40 agricultores-feirantes dos Assentamentos Palmares I e II, que comercializaram entre novembro de 2007 e outubro de 2008, mostrou que 47,5% se especializaram em apenas um tipo de produto, enquanto 52,5% se dedicaram a mais de um tipo. Assim, para cerca de metade do grupo, a diversificação produtiva da localidade está sendo acompanhada também por uma maior diversificação do sistema de produção familiar. Em todas essas situações, o tipo de produto que mostrou-se mais importante foi ‘mandioca e seus derivados’, sendo que 80% de todo o grupo de agricultores comercializou produtos desse tipo. 13 agricultores (32,5%) se especializaram apenas nesse tipo de produto, enquanto outros 19 (47,5%) associaram esse tipo de produto com outros. A mandioca e seus derivados é um produto da roça tradicionalmente praticada na região, sendo que por ser mais rústica que os demais itens (arroz, milho e feijão) pode ser produzida em situações de piores condições de fertilidade e estrutura física do solo. Na Palmares II, a importância da mandioca vem sendo reforçada através de uma parceria com a Secretaria Municipal de Produção Rural que tem disponibilizado máquinas e implementos agrícolas para retirada do capim de áreas de pastagens com aração e gradagem e posterior plantio agrícola, sobretudo da mandioca. Além da sua rusticidade, os produtos derivados da mandioca têm se mostrado vantajosos do ponto de vista econômico. O gráfico 01 mostra que os produtos do tipo ‘Mandioca e seus derivados’ representaram 48,3% do valor total das vendas no período de novembro de 2007 a outubro de 2008. Seguindo, por grau de importância, aparecem Olerícolas (21,6%) e Frutas (21,2%). Gráfico 01: Importância econômica relativa dos tipos de produtos comercializados. 4,3% 4,6% 21,2% 48,3% Produtos Animais Grãos Frutas Olerículas Mandioca e Derivados 21,6% Fonte: Almeida, 2009. A importância do grupo de produtos ‘Mandioca e seus derivados’ pode ser mais bem compreendida nos gráficos 02 e 03. Seu valor de venda, além de elevado no total, é pouco sujeito a variação de safra ao longo do ano, podendo ser comercializado o ano todo. Outros tipos de produtos, como olerícolas e frutas, já apresentam maiores flutuações anuais, seja por efeito de variação na produção, seja por efeito de variação no preço. De qualquer forma, o gráfico 03 mostra que a combinação de diferentes tipos tem garantido certa estabilidade na receita total das vendas ao longo do ano, o que reforça a importância da diversificação também dos sistemas de produção para cada família e não apenas no conjunto agregado da Feira. Uma família com um sistema de produção diversificado tende a ter uma receita mais estável ao longo do ano. Gráfico 03: Receita agregada obtida com a comercialização do conjunto de produtos. 160,00 60,00 140,00 50,00 120,00 100,00 Produtos Animais Olerículas Mandioca e Derivados Produtos Animais Grãos Olerículas ou t/0 8 se t/0 8 ju l/ 0 8 ag o/ 08 ai /0 8 Frutas ju n/ 08 m ar /0 8 m v/ 07 no se t/0 8 ou t/0 8 ju l/ 0 8 ag o/ 08 ai /0 8 Frutas ju n/ 08 m ar /0 8 m Grãos ab r/0 8 0,00 fe v/ 08 20,00 0,00 ja n/ 08 40,00 10,00 ab r/0 8 80,00 60,00 20,00 fe v/ 08 30,00 ja n/ 08 40,00 de z/ 07 mil reais 70,00 no v/ 07 de z/ 07 mil reais Gráfico 02: Receita obtida com a comercialização de cada tipo de produto. Mandioca e Derivados Fonte: Secretaria Municipal de Produção Rural de Fonte: Secretaria Municipal de Produção Rural Parauapebas/PA. Organização dos autores. de Parauapebas/PA. Organização dos autores. Considerações Finais Uma primeira consideração a ser reforçada e já anunciada pelos próprios dados apresentados ao longo do texto diz respeito à diversidade de categorias e produtos comercializados na Feira do Produtor Rural de Parauapebas pelos agricultores (as) dos assentamentos Palmares I e II. Foram catalogados 62 itens diferentes, agrupados em cinco tipos de produtos: produtos animais, grãos, frutas, olerícolas e mandioca e derivados. Em sua grande maioria, são pouco vinculados a pecuária de corte e leite, que representa a maior tendência de homogeneização da produção local. Outra questão não menos importante é o reconhecimento do papel estratégico desempenhado pela Feira, tanto pelos rendimentos econômicos e financeiros, como por se constituir num espaço de reprodução social, cultural e política do campesinato no município. A Feira contribui positivamente com o reconhecimento social do campesinato ao legitimar a produção de base familiar como fonte de abastecimento local e alternativa concreta de desenvolvimento rural para o município e região. Além dessas conclusões mais gerais sobre a Feira como um todo, é necessário ressaltar a importância econômica do Assentamento Palmares II frente às outras localidades que participam da Feira. Tomando esse caso emblemático como exemplo, pode-se analisar quais são os principais fatores e tendências que estariam estimulando e estruturando a possibilidade de um diversificação produtiva entre esses agricultores, com ênfase na adoção de sistemas de produção terra-intensivos, com destaque para mandioca e seus derivados, olerícolas e frutas. No caso em tela, destacam-se três grupos de fatores fundamentais para a viabilidade da participação dos agricultores do Assentamento Palmares na Feira Municipal: um locacional, um econômico e um político. Do ponto de vista locacional, a proximidade do Assentamento Palmares com a sede do Município de Parauapebas, facilita bastante o deslocamento de agricultores e produtos perecíveis à Feira. Ao mesmo tempo indica que a luta pela terra em áreas mais próximas dos núcleos urbanos, embora mais acirrada, pode ter efeitos importantes na fase seguinte de consolidação do assentamento. Do ponto de vista econômico, destaca-se que a economia local em Parauapebas está em expansão, mesmo que, em parte, em função de atividades contraditórias com o projeto de Reforma Agrária na região, em especial a mineração. De qualquer forma, essa situação tem elevado a circulação monetária associada a um crescimento urbano e populacional que constitui um mercado consumidor ativo para os produtos camponeses. Essa interdependência ilustra a existência contraditória de possibilidades de certa retenção local da renda da mineração, apesar da predominância de efeitos de transbordamento econômico dessa atividade e das tensões existentes entre esses distintos projetos de desenvolvimento regional. Do ponto de vista político, em primeira instância ressalta-se a adoção pela Prefeitura Local de programas e subsídios ao funcionamento da Feira, como garantia de transporte, alojamento e instalações para os agricultores. Essa ação só pode ser compreendida num contexto mais amplo da força política acumulada pelo campesinato na região a partir da longa luta pela terra e da constituição de sindicatos e movimentos sociais relativamente fortes. No caso do Assentamento Palmares II, a presença organizativa do MST tem provocado o Estado a garantir diversos programas de apoio à produção familiar, além da Feira em si, tais como: mecanização agrícola para reconversão de áreas de pastagens, assessoria técnica, agroindústrias locais para processamento de produtos de origem animal e vegetal, viveiro de mudas nativas e frutíferas como parte do incentivo ao plantio de espécies perenes. Apesar dos aspectos positivos apresentados, não se pode superestimar o exemplo da Feira Municipal de Parauapebas. Alguns aspectos negativos podem ser apontados, como: (i) o baixo número de agricultores envolvidos, em relação ao universo total dos assentados (517 famílias em Palmares II e 290 em Palmares I) ; (ii) o elevado tempo despendido com a comercialização pelos agricultores que participam da Feira, afinal são gastos praticamente quatro dias na semana longe da unidade de produção, o que estruturalmente pode comprometer a dinâmica de funcionamento do estabelecimento agropecuário e da própria unidade familiar em si, principalmente para as famílias com uma composição menor ; (ii) as condições precárias de transporte dos produtos e dos feirantes, uma vez que vão todos no mesmo caminhão e não há nenhum tipo de acondicionamentos dos produtos ; (iii) a inexistência de investimentos na divulgação da Feira na cidade (fortalecimento do imaginário social), o que poderia reforçar a desmistificação de certas idéias pejorativas a cerca dos movimentos de luta pela terra, dos assentados e assentamentos e da reforma agrária como um todo. Em termos mais gerais, o balanço entre esses vários e complexas aspectos positivos e negativos, mostra a importância de espaços de comercialização direta como as Feiras de Produtores Rurais, do ponto de vista social, econômico e político. No caso específico da participação do Assentamento Palmares na Feira Municipal de Parauapebas, há sinais de que essa possibilidade de comercialização tem sido parte importante de um processos mais amplo de diversificação e intensificação dos sistemas técnico-produtivos, possibilitando uma superação do ‘ciclo de fronteira’ clássico em direção a uma ‘estabilização relativa’ do campesinato na região. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALMEIDA, A. P. de O. (2009) Estudo da Comercialização da Produção Familiar do PA Palmares na Feira Feira Municipal de Parauapebas. Relatório de Pesquisa – Bolsa PIBIC - Interior / CNPq-UFPA. Mimeo. 18 p. ASSIS, W. S. de; HALMENSCHLAGER, F. L.; OLIVEIRA, M. 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