1 UM OLHAR SOBRE O DESENVOLVIMENTO HUMANO E DAS COMUNIDADES BASEADO NAS RELAÇÕES ESTABELECIDAS COM O MEIO AMBIENTE Patrícia Costa Arlaque1 Camila Maganha2 Resumo O artigo apresenta reflexões acerca de uma pesquisa caracterizada por um estudo exploratório-descritivo, de abordagem metodológica qualitativa, o qual se desenvolveu através de uma aproximação a uma realidade de vida de uma comunidade carente do Município de Guaíba – RS, com o objetivo de investigar como se dão as relações entre os moradores e destes com o meio onde vivem, como o percebem e o que fazem para preservá-lo, uma vez que a saúde das pessoas está vinculada de forma direta com as atitudes e os cuidados que estas estabelecem na sua relação com o meio ambiente. Para tanto, foram entrevistadas onze pessoas representantes de famílias que residem em uma comunidade carente do município de Guaíba, utilizando-se um roteiro contendo nove questões abertas. Os dados levantados por intermédio deste instrumento foram analisados através da análise categorial do método de análise de conteúdo (BARDIN, 2000). Os resultados pertinentes ao estudo ressaltaram a extrema carência destas pessoas, não somente referente à situação material, mas principalmente a de se ver, conhecer e se valorizar enquanto ser humano, o que repercute na permanência de seu estado de precariedade de vida, resignados e acomodados a situações indignas e sem vislumbrar perspectivas de um futuro, quem sabe, mais digno e humano. Com isso, torna-se urgente uma intervenção que venha a desenvolver uma consciência ecológica nesta comunidade, através de ações interdisciplinares que possibilitem o resgate de sua auto-estima, como prioridade para o autodesenvolvimento, além da necessidade de informar e educar a respeito dos cuidados que as pessoas devem ter com a sua saúde e com a preservação do ambiente onde vivem. Palavras-chave: desenvolvimento humano, comunidade, meio ambiente Introdução Os estudos relacionados às questões ambientais vêm aumentando consideravelmente nas últimas décadas. Isso se deve às grandes preocupações relacionadas às catástrofes direcionadas à natureza de ordem ecológica, no seu mais amplo entendimento. Preocupanos como o homem vem lidando com o meio em que vive, já que sua influência e relações 1 2 Mestre em Psicologia Social e da Personalidade, professora do Curso de Graduação em Psicologia da ULBRA – Guaíba. Psicóloga Formada pelo Curso de Psicologia da ULBRA – Guaíba. 2 que mantém com este são recíprocas ao seu desenvolvimento e dos demais seres vivos que o habitam. Pensando por este ângulo, sabe-se que a espécie humana possui uma grande capacidade cooperativa e sem ela provavelmente nossos antigos antepassados da préhistória dificilmente teriam conseguido sobreviver, através da caça e enfrentamento de animais selvagens, pois para isso os homens tinham que formar grupos e unirem-se entre si (GEWANDSZNAJDER, 2001). Desta forma, Bauman (2003) entende que a comunidade é aquele lugar em que as pessoas buscam proteção e interação, porém atualmente vem sendo repensado este entendimento, devido aos tipos de relações que os homens vêm estabelecendo entre si e com o ambiente que o circunda. Também sabemos que a espécie humana é dotada de um cérebro bem desenvolvido, o que lhe confere uma grande capacidade de aprender, de raciocinar e de optar em como vai proceder em determinadas situações, avaliando as conseqüências de suas ações. Pensando neste grande potencial humano, uma incógnita paira no ar: por que motivos a espécie humana vem degradando continuamente com o ambiente onde vive, uma vez que é este mesmo meio que lhe mantém viva? Talvez estas respostas estejam em algum lugar no qual nem mesmo o próprio homem possa alcançá-las, mas de alguma maneira ele possa transformá-las. Para isso, Gewandsznajder (2001) acredita que a educação seja um dos caminhos mais seguros para a conscientização acerca da vida e de como cuidá-la e preservá-la, evitando as guerras e as atitudes violentas. É pela educação que se faz possível a erradicação de preconceitos e a valorização do respeito ao ser humano e à vida no mundo. Hutchison (2000) acredita que a educação ambiental deva criar nas pessoas uma consciência ecológica, ou seja, além de conhecimentos e informações é necessária uma mudança de postura do homem nas suas atitudes para com o meio ambiente, de forma consciente e ética. Sendo assim, avaliamos o quanto é importante conhecermos a realidade do homem, inserido no seu contexto cultural e social, no que diz respeito aos cuidados que este tem de si e com o seu ambiente, pois só ele é o agente transformador desta realidade. É apostando neste homem e acreditando na educação que poderemos caminhar para uma conscientização a respeito da preservação da vida em suas mais diversas formas. 3 1 Objetivos 1.1 Objetivo Geral - Entender o desenvolvimento do ser humano e das comunidades a partir de suas relações com o meio ambiente. 1.2 Objetivos Específicos - Investigar qual a concepção de meio ambiente e suas implicações práticas que os moradores de uma comunidade carente do Município de Guaíba (RS) têm. - Pesquisar a existência de uma preocupação direcionada à autopreservação em moradores de uma comunidade carente; - Analisar se a condição sócio-cultural de moradores de uma comunidade carente influencia no seu modo de agir quanto à preservação individual e do meio; - Investigar como os moradores de uma comunidade carente lidam com a preservação/o cuidado do meio em que vivem; - Verificar se os moradores de uma comunidade carente possuem informações pertinentes aos cuidados com o meio ambiente. 2 Revisão Bibliográfica 2.1 Meio Ambiente, Educação Ambiental e Ecologia O conhecimento e o entendimento do meio ambiente é condição indiscutível para a existência de atividades direcionadas à educação ambiental. Para tanto, é necessária a apropriação de alguns conceitos básicos que constituem esse ambiente. Em primeiro lugar, precisamos entender o que é biosfera. Esta significa a região onde a vida pode ocorrer, ou seja, é uma fina camada da Terra na qual a vida se desenvolve. Nela há um grande número de distintos ambientes, em que se desenvolvem os mais variados tipos de organismos, sendo que qualquer que seja o lugar considerado da biosfera, sempre haverá componentes vivos (bióticos – plantas, animais, microrganismos), além de componentes não-vivos (abióticos – água, ar, solo, radiação solar). Tudo aquilo que existe 4 na biosfera está interligado, isto é, todos os componentes do ambiente relacionam-se entre si, desenvolvendo uma rede complexa de intercâmbios, sendo praticamente impossível isolar um ser e tratá-lo separadamente dos demais (MATTOS, MAGALHÃES e ABRÃO, 1997). Denomina-se de ecossistema ao conjunto de componentes vivos e não-vivos que interagem num determinado ambiente, bem como todas as relações entre esses elementos; sendo formado pela comunidade e pelo que chamamos de meio físico ou ambiente físico, sendo comunidade entendida a união de todos os seres vivos de determinado lugar que mantêm relações entre si (GEWANDSZNAJDER, 2001). Assim, pode-se denominar a existência de distintos ecossistemas, conforme pesquisas do site AMBIENTEBRASIL (2003): Ecossistema Indivíduo: uma pessoa é composta de elementos vivos e elementos físicos e necessita ter seu próprio ecossistema, devendo ter alguns cuidados como conservar a higiene pessoal através de determinados hábitos que ajudam a prevenir doenças (tomar banho todos os dias, escovar os dentes, lavar as mãos com sabão antes de comer, não cuspir no chão, nem tossir ou espirrar sem colocar a mão na boca) e realizar um planejamento familiar com vistas a atingir um equilíbrio populacional. Ecossistema Casa: a casa é o menor habitat do ser humano, podendo começar a preservar o meio por este. Neste habitat é importante a utilização da reciclagem como um processo que permite reaproveitar materiais que antes eram considerados inúteis. Em relação à economia de energia, cada cidadão deve ter a consciência dos danos que causam à natureza o gasto em excesso de energia. Outro hábito não saudável é a poluição da casa, devendo-se evitar fumar dentro de casa. O barulho em excesso também pode prejudicar a saúde, além de importunar as pessoas ao redor. Os poços, reservatórios, fontes e chafarizes de água são necessários que se mantenham limpos, assim como os sistemas de esgoto serem verificados se estão adequados, uma vez que estes costumam ser proliferadores de doenças. Já em relação aos animais domésticos, estes devem ser levados periodicamente ao veterinário e alimentados com ração. Para as casas que possuem área verde, é imprescindível o cuidando do terreno, podendo fazer um jardim com plantas, para ornamentar, ou mesmo uma horta com hortaliças para usar nas refeições diárias. Ecossistema Rua: as árvores que se encontram nas ruas são públicas, trazendo benefícios a todos, portanto é necessário ajudar a preservar as que já tem e plantar na sua rua caso não tenha. A limpeza da rua é indispensável, não colocando o lixo na rua muito antes do lixeiro passar, bem como não jogá-lo no chão enquanto estiver caminhando, procurando uma lixeira, cuidar as instalações de esgotos, chamando a prefeitura para 5 revisá-lo ou faça isso você mesmo se possível, pois estes podem provocar doenças e atrair insetos indesejados. Ainda deve-se ter o cuidado com animais perdidos na rua, procurando quando possível o seu dono ou chamando a Sociedade protetora de animais, ou a Prefeitura. Ecossistema Cidade: é preciso que as pessoas se unam para diminuir a poluição sonora, hídrica ou eólica. O cuidado das áreas verdes da sua cidade conta com a participação da comunidade, a qual ajuda a zelar pelas praças e parques. O incentivo nas escolas a ensinarem Educação Ambiental propicia a educação do seu povo, que é a melhor forma de melhorar o país. As cidades devem ser limpas e arejadas, com boa estrutura, que atenda as necessidades elementares (áreas verdes, parques, lazer e saúde). Ecossistema Município e Estado: é necessário preservar as nascentes de água doce e potável. Na agricultura realizar o cuidado dos produtos agrotóxicos utilizados, pois precisa ser utilizado com moderação. Na utilização dos solos alertar-se para não provocar a sua poluição e erosão. Em relação à destruição das florestas, o desmatamento expõe o solo aos ventos e chuvas, prejudicando o solo e afetando o ecossistema. Já as queimadas geralmente geram problemas devido a falta de cuidados das pessoas. Pode-se reverter estes quadros de forma preventiva, levando informação à população. Ecossistema País: todos estados devem ser atuantes na sua política de meio ambiente, envolvendo as suas populações, tendo políticos engajados nestes processos de cuidado do meio ambiente. Para isso é necessário que todos entendam o que realmente é ecologia e educação ambiental, assim como o que podem fazer para ajudá-la na preservação do meio onde vivem. A ecologia é denominada como a ciência que estuda como os seres vivos se relacionam com o ambiente em que vivem, contribuindo para aumentar o respeito à natureza e alertar a consciência de que é fundamental lutar para preservar as condições que garantem a vida na Terra. A ecologia estuda as relações existentes numa população, numa comunidade, num ecossistema ou na biosfera, uma vez que a atividade humana vem provocando mudanças nesta. A origem da palavra “ecologia” vem de oikos, que em grego quer dizer “casa” ou ‘ “ambiente”, e logos significa “estudo” (GEWANDSZ NAJDER, 2001). Um campo de estudo amplo e as informações ajudam a melhorar o ambiente em que vivemos, diminuindo a poluição, conservando os recursos naturais e protegendo nossa saúde e das gerações futuras (GEWANDSZ NAJDER, 2001). 6 Ecossistema Terra: todas as nações juntas, utilizando de forma consciente os recursos naturais e o desenvolvimento científico-tecnológico em prol do meio ambiente, beneficiaria muito o planeta. Para viabilizar o entendimento e a prática das situações acima expostas, recorre-se ao desenvolvimento e aplicação de um processo chamado de educação ambiental, uma vez que a relação que a humanidade tem com a natureza teve seu início com um pequeno ecossistema, o que na atualidade culmina numa grande pressão exercida sobre os recursos naturais. Hoje assistimos à contaminação dos cursos de água, à poluição atmosférica, ao desmatamento de florestas, à caça indiscriminada e à redução ou até à destruição de habitats de animais, bem como outras formas de agressão ao meio ambiente. Neste contexto há uma emergente necessidade de transformar o comportamento do homem no sentido de promover a compatibilização de propostas conservacionistas que tenham reflexos positivos na qualidade de vida de todos, tudo isso sob um enfoque de desenvolvimento sustentável. O desenvolvimento sustentável é o processo responsável pelo cuidado dos recursos do planeta de forma a preservar os interesses das gerações futuras em tempo, atendendo também as necessidades das gerações atuais (AMBIENTEBRASIL, 2003). Neste sentido, entende-se a educação ambiental como uma forma abrangente de educação, direcionada ao desenvolvimento da cidadania através de um processo pedagógico participativo permanente, possibilitando a consciência crítica sobre a problemática ambiental. Ela é subdividida em formal e informal. A primeira refere-se a um processo institucionalizado, que ocorre nas unidades educacionais, enquanto que a segunda se caracteriza por se realizar fora das escolas, envolvendo movimentos e atuações flexíveis assim como um público-alvo variável em suas características de faixa etária, nível sócioeconômico, escolaridade, conhecimento a respeito da problemática ambiental, entre outras (AMBIENTEBRASIL, 2003). Segundo Palos e Mendes (2001, p. 56), A educação ambiental apresenta-se como unanimidade nas diversas propostas de solução para a crise ambiental com que nos deparamos, suscitando o debate sobre conscientização, cidadania, participação, e informação, dentre outros. Essa preocupação se evidencia na aplicação de investimentos na área ambiental. 7 2.2 Preservação e Cuidados com o Ambiente: a Saúde da Comunidade em Jogo No atual momento em que vivemos as questões relacionadas ao ambiente apresentam-se como desafios, não só deste momento, mas como para o próximo milênio também (PALOS e MENDES, 2001). Existem fatores que são importantes no cuidado e na conservação ambiental. Dentre eles destacamos o acompanhamento e a participação em atividades que levem à proteção deste ambiente. Do mesmo modo, há que se analisar permanentemente a atuação do homem como um agente modificador das condições ambientais. Também se faz necessário conhecer o ambiente onde estamos inseridos, compreendendo as diversas relações entre os seus elementos. Todos estes aspectos constituem os fatores e as condições básicas para a existência da vida (MATTOS, MAGALHÃES e ABRÃO, 1997). Conforme o grupo sociocultural, existem formas específicas de perceber e explicar as noções de saúde e doença, que variam segundo sua visão de mundo, de vida e morte, seu sistema de valores e crenças, sua relação com o desenvolvimento e o universo relacional. Estas noções mudam com o tempo, são dinâmicas, afetando mentalidades e estruturas sociais (JUNQUEIRA apud VEIGA, 1998, p. 49). Salienta-se sempre a importância de viver harmoniosamente com o meio em que vivemos, podemos considerar a Educação Ambiental como um processo de despertar e conscientizar o homem da importância que tem o meio em sua vida (CARVALHO, 2002). É necessário resgatar a dignidade humana para todos, diminuir as desigualdades econômicas, de classes sociais e nações. Ativar um processo de melhoria da qualidade de vida comunitária, resultado da utilização por seus membros de instrumentos e estratégias frente aos desafios e necessidades humanas e sociais que a comunidade se depara (CARVALHO, 2002). ... A educação pode ser entendida como um dos mais poderosos instrumentos, paradoxalmente tanto de estabilização como de mudança das pessoas e da ordem sócio-econômica e cultural. E a educação, nesse sentido, torna-se um processo de intervenção psicossocial eticamente aceitável, porque, em principio, promove os valores de liberdade e de responsabilidade (ALMEIDA JÚNIOR e BELLONI, 1992, p. 71). 8 3 Problema de Pesquisa De que forma as relações estabelecidas com o meio ambiente podem auxiliar no entendimento do desenvolvimento humano e das comunidades? 4 Questões Norteadoras - Que concepção de meio ambiente e quais suas implicações práticas têm os moradores de uma comunidade carente do Município de Guaíba (RS)? - Existe uma preocupação direcionada à autopreservação em moradores de uma comunidade carente? - A condição sócio-cultural de moradores de uma comunidade carente influencia no seu modo de agir quanto à preservação individual e do meio? - Como os moradores de uma comunidade carente lidam com a preservação/o cuidado do meio em que vivem? - Os moradores de uma comunidade carente possuem informações pertinentes aos cuidados com o meio ambiente? - Qual a concepção de saúde e de doença de moradores de uma comunidade carente? 5 Metodologia O processo de desenvolvimento desta pesquisa se deu de forma investigatória em uma comunidade do Município de Guaíba/RS, próxima à ULBRA, com ênfase à população carente, o que foi facilitado visto que a Universidade encontra-se em intercâmbio com estes moradores através de outros projetos que vêm sendo desenvolvidos. A amostra foi constituída por onze mulheres, representantes de famílias da comunidade, que participam de um grupo semanal desenvolvido pela Capelania da ULBRA. A faixa etária das 9 entrevistadas foi de 18 a 57 anos, na época uma delas era analfabeta, uma possuía o ensino fundamental completo e nove o ensino fundamental incompleto. Naquela ocasião todas encontravam-se desempregadas, estando ocupadas com os cuidados de filhos e casa; uma delas era separada, outra mãe solteira, três delas viviam com um companheiro e as outras sete eram casadas. O número de filhos variou de dois a dez nestas famílias. O instrumento da pesquisa foi constituído por uma entrevista semidirigida, de caráter exploratório, com o intuito de conhecer o sujeito e sua relação com o meio ambiente. Também foram realizadas observações da comunidade com foco dirigido ao meio ambiente circundante, seu estado e conservação, manutenção e seus recursos. As entrevistas foram realizadas através de visitas a comunidade, sendo os participantes informados e convidados a participar de acordo com a sua disponibilidade. Os dados foram analisados de forma qualitativa através da Técnica da Análise de Conteúdo, proposta por Bardin (2000). 6 Resultados Após a análise dos dados coletados junto à comunidade, os resultados pertinentes ao estudo estão demostrados abaixo na forma de categorias e respectivas subcategorias: Tabela 1 – Categorias e subcategorias de análise CATEGORIAS DEFINIÇÃO DE SAÚDE DEFINIÇÃO DE DOENÇA SUBCATEGORIAS - Ausência de violência; Ausência de doença; Possuir recursos financeiros; Cuidados com o corpo e a mente; Cuidados com as crianças; Busca de tratamento preventivo; Ter higiene; Não usar drogas. Sentimentos de tristeza, sofrimento e dor; Busca de ajuda médica; Falta de autonomia; Doença física; Ausência de recursos financeiros; Doença associada ao psíquico; Dependência química; Má alimentação; Falta de cuidados pessoais. 10 MEIOS DE PREVENÇÃO NA FAMÍLIA CAUSAS DE DOENÇAS NA FAMÍLIA SENTIMENTOS EM RELAÇÃO À COMUNIDADE CUIDADOS PARA MANTER A SAÚDE OPINIÃO SOBRE O BAIRRO ORIENTAÇÃO E INFORMAÇÃO SOBRE CUIDADOS COM O AMBIENTE CUIDADOS COM O AMBIENTE 7 Discussão e Considerações Finais - Tratamento médico; Cuidados com os alimentos; Cuidados com o lixo; Cuidados pessoais; Higiene na casa; Cuidados com as crianças; Cuidados com o corpo. Falta de cuidados com os alimentos; Uso de drogas; Aspectos naturais; Animais e microorganismos do ambiente; Poluição do ambiente; Relacionamentos interpessoais; Aspectos psicológicos. Falta de recursos; Falta de infra-estrutura; Gostam – sentem-se seguros; Não gostam – não sentem-se seguros; Relacionamento com os vizinhos; Preocupação com a educação e escola das crianças. Cuidados com as crianças; Prevenção; Cuidados e higiene com o corpo; Higiene e limpeza das roupas; Cuidados com os alimentos; Limpeza e higiene do ambiente em que vivem; Cuidados com o lixo; Cuidados com os animais do ambiente. Tranqüilidade; Relacionamento com os vizinhos; Limpeza; Situação do lixo; Estrutura física precária; Presença de animais. Recebem informação, Não recebem informação; ULBRA; Hospitais; Televisão; Escola dos filhos e livros; Família; Órgão público (Secretaria da Saúde). Preservar a natureza, Não poluir; Responsabilidade pública; Cuidados consigo e com a família; Manter a limpeza do ambiente; Respeito ao próximo; Necessidade de receber orientação. 11 A pesquisa de campo em comunidades proporciona ao pesquisador um contato enriquecedor com um contexto que traz, em sua “singela” bagagem de vida, o afã pelo suprimento de necessidades tão básicas que na nossa realidade passam desapercebidas, pois sanadas estão, além da profunda carência afetiva, afeto este que tem o poder de erguer as pessoas e dar forças para continuarem suas batalhas. Não diferente encontramos nesta comunidade pesquisada. As pessoas são dignas, mas carecem de recursos afetivos, materiais, culturais e educacionais, parecendo que encontram-se “abandonados” pela dignidade que todo ser humano tem direito. Não diferente é o ambiente em que vivem, que não possui em grande parte da comunidade qualquer tipo de saneamento básico, água, luz, segurança, saúde e lazer dignos a qualquer pessoa. Pensando-se acerca destas constatações, consideramos importante o ponto de vista de Bauman (2003) quando coloca que as pessoas buscam nas comunidades além da proteção a integração entre as pessoas e o meio, no entanto tal entendimento atualmente vem sendo repensado. Acreditamos que um fator preponderante nesta reflexão seja o entendimento daquilo que se costuma conceituar como comunidade. Comunidade não é somente o espaço físico e objetivos compartilhados entre pessoas. Talvez seu entendimento transcenda tal conceituação, uma vez que muitas são as diferenças existentes entre as situações, os objetivos e o nível de desenvolvimento sócio-cultural das pessoas. Isto tudo são fatores que irão permear os tipos de relações estabelecidas com o meio ambiente, fazendo com que os indivíduos reflitam neste ambiente externo como estão enquanto ambiente interno (saúde emocional/psicológica). Por falar em saúde, sabemos que a promoção desta está baseada na aceitação de que as relações nas quais nos envolvemos e as circunstâncias em que vivemos têm impacto sobre a saúde e que as mudanças destas relações e circunstâncias, de forma adequada, podem melhorar a saúde. Bennett e Murphy (1999) apontam que a promoção da saúde está calcada em resultados de uma complexa interação entre fatores biológicos, sociais, ambientais e psicológicos, chamando-os de determinantes psicossociais da saúde. Neste ponto de vista, é necessário que intervenções, projetos e programas públicos ou não que visem a saúde como um todo da população esteja direcionado para a transformação na forma como a sociedade está organizada e no modo como seus recursos são distribuídos. É um processo complexo, determinado por interesses políticos, econômicos e sociais, mas que tem como base a educação. Daí vê-se a necessidade de se repensar e articular qual sociedade queremos, pautada por quais princípios éticos e como as distintas áreas do 12 conhecimento podem colaborar para tal. Este entendimento reporta-nos a supor que a promoção da saúde está baseada também num processo de desenvolvimento comunitário. Souza (2000) acredita que o desenvolvimento de comunidade é um processo sistêmico, pedagógico-educacional de ações junto às comunidades. A autora aponta que as populações se identificam com seus espaços de moradia e que esta identificação possui elementos comuns que propiciam condições de desenvolvimento de diversos processos e relações sociais. Entre estes elementos aponta as ações comunitárias como uma força significativa de promoção da organização e transformação social dos grupos. Aí está então um dos pontos que os pensantes das políticas de promoção da saúde, públicas ou não, devem considerar quando repensam acerca do compromisso e responsabilidade que possuem para com a sociedade, seja qual for a peculiaridade da comunidade a ser atingida. Relevando as peculiaridades e, de acordo com os objetivos da pesquisa, observamos que, apesar da precariedade e de não receberem muitas informações, as pessoas possuem algum tipo de informação em relação aos cuidados com a saúde de sua família, bem como com o meio em que vivem, valorizam a comunidade em que moram e mantêm de forma amistosa bons relacionamentos com a vizinhança, sendo muitas vezes críticos quanto aos deveres que dizem respeito aos órgãos públicos darem conta. Os moradores sabem que necessitam receber mais informações, até muitas vezes fazem a sua parte, mas a falta de infra-estrutura desanima, o que preocupa ainda mais quanto toca às questões de saúde. Mesmo assim, com todo este discurso, ao observarmos a comunidade, as casas, os pátios, os animais, a aparência e higiene das mães e seus filhos, parece que nada daquilo comentado pelas entrevistadas é levado como hábito e/ou condição para a manutenção da saúde da família. A contradição existente entre o discurso e a prática é muito forte e visível, levando-nos a pensar: Até que ponto existe uma consciência ecológica? O simples fato de saber o que fazer, ter a informação, não é condição para a mudança de postura e de hábitos frente ao ambiente e às relações estabelecidas com ele. Cremos que em casos de pobreza tão extrema, as necessidades do comer e do ter o mínimo necessário para a sobrevivência estão numa escala tão primordial, que o alimento para o “ser”, sentido de pertencer, significar algo para alguém, se comprometer e se responsabilizar pelo outro e pelo que faz parte da vida sua e do outro aparece numa escala tão distante. Isto acaba por refletir nas atitudes que as pessoas estabelecem nas suas relações de convivência com as pessoas e com o ambiente, ou seja, primeiro garantir a necessidade do “ter” - realidade concreta e básica - e depois, caso haja chance, ou alguém me ajude a 13 conduzir, quem sabe investir no “ser”, em último plano a garantia da dignidade. Aí já entramos num outro enfoque, que diz respeito ao aspecto de desacomodação das pessoas para saírem da situação assistencialista a qual foram reforçadas a estar, o que também ajuda na colaboração das atitudes que estas estabelecem ao longo do seu desenvolvimento. Desta maneira, vê-se como primordial a autopromoção das pessoas desta comunidade, investindo numa educação ecológica e ambiental que favoreça o desenvolvimento da consciência nestas pessoas de que o “ter” é uma conseqüência natural do “ser”. Hutchison (2000) refere que é somente através de uma conscientização, a qual chama de consciência ecológica, que o indivíduo pode, além de entender a sua essência, o ser e estar no mundo, transformar sua postura frente às relações que estabelece com o ambiente em que vive, desenvolvendo mudanças baseadas em princípios éticos e responsáveis socialmente. Estas transformações sobremaneira não são fáceis de se desenvolver, pois lidar com conscientização visa lidar com questões éticas e políticas, as quais são calcadas em valores sociais construídos desde uma matriz muito primitiva, que é a família precedida de relações que vão se estabelecendo ao longo da vida. Portanto, para esta mudança de paradigma retratada acima a intervenção deve se dar a partir de distintas áreas do conhecimento, que necessitam desenvolver relações interdisciplinares, quem sabe chegaremos ao nível da transdisciplinaridade, e para isso é imprescindível buscar refletir acerca de uma base teórica que contemple os princípios da educação ambiental, já que seu enfoque se norteia no entendimento do desenvolvimento humano dentro de uma visão ecológica. Referências Bibliográficas ALMEIDA JÚNIOR, José Maria G.; BELLONI, ISAURA. Educação como instrumento de transformação. In: Desenvolvimento e Educação Ambiental. Brasília: Ministério da Educação/Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, 1992. (Séries Encontros e Debates, n. 6). AMBIENTEBRASIL. Educação Ambiental. http://www.ambientebrasil.com.br/ Acesso em: 21 abr. 2003. BARDIN, Laurence. Análise de Conteúdo. Lisboa: Edições 70, 2000. Disponível em: 14 BAUMAN, Zygmunt. Comunidade: a busca por segurança no mundo atual. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003. BENNET, Paul; MURPHY, Simon. Psicologia e promoção da saúde. Lisboa: CLIMEPSI, 1999. (Manuais Universitários nº 14). GEWANDSZNAJDER, Fernando. O Planeta Terra. São Paulo: Ática, 2001. HUTCHISON, David. Educação Ecológica: Idéias sobre consciência ambiental. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000. MATTOS, Neide Simões de; MAGALHÃES, Nícia Wendel de; ABRÃO, Salete Maria Antônia Moons. Nós e o ambiente. 11. ed. São Paulo: Scipione, 1997. (Série O Universo da Ciência) MINAYO, Maria Cecília de Souza (org.). Pesquisa social: teoria, método e criatividade. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 1999. CARVALHO, Vilson Sérgio de. Reflexões sobre a dinâmica entre educação ambiental e desenvolvimento comunitário: o lado verde da linha amarela. In: PEDRINI, Alexandre de Gusmão (org.). O contrato social da ciência: unindo saberes na educação ambiental. Rio de Janeiro: Vozes, 2002. PALOS, Cássia Maria Carraco; MENDES, Rosilda. Problematização da Educação Ambiental através de oficinas. In: RIBEIRO, Helena; VARGAS, Heliana Comin (orgs.). Novos Instrumentos de Gestão Ambiental Urbana. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2001. SOUZA, Maria Luiza de. Desenvolvimento de Comunidade e Participação. 7. ed. São Paulo: Cortez, 2000. VEIGA, José Eli da Silva (org.). Ciência ambiental: princípios mestrados. São Paulo: FAPESP, 1998.