Universidade do Sul de Santa Catarina Patrimônio Cultural e Turismo I Disciplina na modalidade a distância Palhoça UnisulVirtual 2007 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 1 27/11/2006 17:34:15 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 2 27/11/2006 17:34:44 Apresentação Este livro didático corresponde à disciplina Patrimônio Cultural e Turismo I. O material foi elaborado visando a uma aprendizagem autônoma, abordando conteúdos especialmente selecionados e adotando uma linguagem que facilite seu estudo a distância. Por falar em distância, isso não significa que você estará sozinho. Não esqueça que sua caminhada nesta disciplina também será acompanhada constantemente pelo Sistema Tutorial da UnisulVirtual. Entre em contato sempre que sentir necessidade, seja por correio postal, fax, telefone, e-mail ou Ambiente Virtual de Aprendizagem. Nossa equipe terá o maior prazer em atendêlo, pois sua aprendizagem é nosso principal objetivo. Bom estudo e sucesso! Equipe UnisulVirtual. patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 3 27/11/2006 17:34:44 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 4 27/11/2006 17:34:44 Antônio Manoel Elíbio Júnior Karen Christine Rechia Patrimônio Cultural e Turismo I Livro didático Design instrucional Carmen Maria Cipriani Pandini Ligia Maria Soufen Tumolo 2ª Edição Revista e Atualizada Palhoça UnisulVirtual 2007 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 5 27/11/2006 17:34:44 Copyright © U nisulVirtual 2007 N enhum a parte desta publicação pode ser reproduzida por qualquer m eio sem a prévia autorização desta instituição. 338.4791 E41 Elíbio Júnior, Antonio Manoel Patrimônio cultural e turismo I: livro didático / Antonio Manoel Elíbio Júnior, Karen Christine Rechia ; design instrucional Carmen Maria Cipriani Pandini, Ligia Maria Soufen Tumolo. – 2. ed. rev. e atual. – Palhoça : UnisulVirtual, 2007. 134 p. : il. ; 28 cm. Inclui bibliografia. ISBN 978-85-7817-031-8 1. Turismo. 2. Patrimônio cultural. I. Rechia, Karen Christine. II. Pandini, Carmen Maria Cipriani. III. Tumolo, Ligia Maria Soufen. IV. Título. Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca U niversitária da U nisul Créditos Unisul - Universidade do Sul de Santa Catarina UnisulVirtual - Educação Superior a Distância Cam pus UnisulVirtual Rua João Pereira dos Santos,303 Palhoça - SC - 88130-475 Fone/fax:(48) 3279-1541 e 3279-1542 E-mail:[email protected] Site:www.virtual.unisul.br Reitor Unisul Gerson Luiz Joner da Silveira Vice-Reitor e Pró-Reitor Acadêm ico Sebastião Salésio Heerdt Chefe de gabinete da Reitoria Fabian Martins de Castro Pró-Reitor Adm inistrativo Marcus Vinícius Anátoles da Silva Ferreira Cam pus Tubarão e Araranguá Diretor:Valter Alves Schmitz Neto Diretora adjunta:Alexandra Orseni Cam pus Grande Florianópolis e Norte da Ilha Diretor:Ailton Nazareno Soares Diretora adjunta:Cibele Schuelter Cam pus UnisulVirtual Diretor:João Vianney Diretora adjunta:Jucimara Roesler Equipe UnisulVirtual Adm inistração Renato André Luz Valmir Venício Inácio Bibliotecária Soraya Arruda Waltrick Coordenação dos Cursos Adriano Sérgio da Cunha Ana Luisa Mülbert Ana Paula Reusing Pacheco Charles Cesconetto Diva Marília Flemming Elisa Flemming Luz Itamar Pedro Bevilaqua Janete Elza Felisbino Jucimara Roesler Lauro José Ballock Luiz Guilherme Buchmann Figueiredo Luiz Otávio Botelho Lento Marcelo Cavalcanti Mauri Luiz Heerdt Mauro Faccioni Filho Nélio Herzmann Onei Tadeu Dutra Patrícia Alberton Patrícia Pozza Rafael Peteffi da Silva Raulino Jacó Brüning Design Gráfico Cristiano Neri Gonçalves Ribeiro (coordenador) Adriana Ferreira dos Santos Alex Sandro Xavier Evandro Guedes Machado Fernando Roberto Dias Zimmermann Higor Ghisi Luciano Pedro Paulo Alves Teixeira Rafael Pessi Vilson Martins Filho Equipe Didático-Pedagógica Angelita Marçal Flores Carmen Maria Cipriani Pandini Carolina Hoeller da Silva Boeing Cristina Klipp de Oliveira Daniela Erani Monteiro Will Dênia Falcão de Bittencourt Elisa Flemming Luz Enzo de Oliveira Moreira Flávia Lumi Matuzawa Karla Leonora Dahse Nunes Leandro Kingeski Pacheco Ligia Maria Soufen Tumolo Márcia Loch Patrícia Meneghel Silvana Denise Guimarães Tade-Ane de Amorim Vanessa de Andrade Manuel Vanessa Francine Corrêa Viviane Bastos Viviani Poyer Logística de Encontros Presenciais Caroline Batista (Coordenadora) Aracelli Araldi Graciele Marinês Lindenmayr José Carlos Teixeira Letícia Cristina Pinheiro Kênia Alexandra Costa Hermann Marcia Luz de Oliveira Priscila Santos Alves Logística de M ateriais Jeferson Cassiano Almeida da Costa (coordenador) Eduardo Kraus M onitoria e Suporte Rafael da Cunha Lara (coordenador) Adriana Silveira Caroline Mendonça Edison Rodrigo Valim Francielle Arruda Gabriela Malinverni Barbieri Gislane Frasson de Souza Josiane Conceição Leal Maria Eugênia Ferreira Celeghin Simone Andréa de Castilho Vinícius Maycot Serafim Produção Industrial e Suporte Arthur Emmanuel F. Silveira (coordenador) Francisco Asp Projetos Corporativos Diane Dal Mago Vanderlei Brasil Secretaria de Ensino a Distância Karine Augusta Zanoni (secretária de ensino) Djeime Sammer Bortolotti Carla Cristina Sbardella Grasiela Martins James Marcel Silva Ribeiro Lamuniê Souza Liana Pamplona Maira Marina Martins Godinho Marcelo Pereira Marcos Alcides Medeiros Junior Maria Isabel Aragon Olavo Lajús Priscilla Geovana Pagani Silvana Henrique Silva Secretária Executiva Viviane Schalata Martins Tecnologia Osmar de Oliveira Braz Júnior (coordenador) Ricardo Alexandre Bianchini Rodrigo de Barcelos Martins Edição – Livro Didático Professor Conteudista Antônio Manoel Elíbio Júnior Karen Christine Rechia Design Instrucional Carmen Maria Cipriani Pandini Ligia Maria Soufen Tumolo Projeto Gráfico e Capa Equipe UnisulVirtual Diagram ação Alex Sandro Xavier Revisão Ortográfica B2B Im pressão Post Mix Sumário Apresentação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .3 Palavras dos professores conteudistas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .9 Plano de estudo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11 UNIDADE 1 – Patrimônio Cultural e Histórico no Brasil . . . . . . . . . . . . . . . . 15 UNIDADE 2 – Interfaces do Patrimônio Cultural . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39 UNIDADE 3 – Patrimônio cultural e turismo: Usos e Abusos . . . . . . . . . . . 77 UNIDADE 4 – Práticas preservacionistas e a noção de restauração . . . . 113 Para concluir o estudo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 125 Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 127 Sobre o professor conteudista . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 129 Respostas e comentários das atividades de auto-avaliação . . . . . . . . . . . . 131 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 7 27/11/2006 17:34:44 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 8 27/11/2006 17:34:45 Palavras dos professores As atividades que envolvem o Turismo vêm apresentando desdobramentos ambientais, econômicos, sociais, paisagísticos e culturais. Os impactos decorrentes do fluxo turístico são complexos e dinâmicos, diversos e contínuos. O acervo patrimonial de um país ou localidade tornaram-se objetos de investimento discursivo e simbólico, tanto por parte do poder público quanto dos agentes privados. A diversidade e a riqueza do Patrimônio Cultural Brasileiro demanda e requer uma legislação e políticas públicas suficientemente capazes de garantir a pesquisa, a preservação e a continuidade dessa herança histórica. Tanto o patrimônio de natureza material quanto o imaterial, classificados pelo IPHAN e pela UNESCO, são importantes instrumentos que podem assegurar a sobrevivência de indícios do passado ou a permanência de fazeres e práticas cotidianas. Assim, esse livro visa sistematizar os principais conceitos que chancelam a preservação daquilo que é considerado único/singular e representativo de um grupo, povo ou país. Pretende-se ainda, analisar a relação da indústria do turismo com o Patrimônio Cultural Brasileiro, percebendo, com isso, os impactos e a necessidade de gestar a atividade turística de forma equilibrada e consciente. Bons estudos, Antônio Manoel Elíbio Karen Christine Rechia patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 9 27/11/2006 17:34:45 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 10 27/11/2006 17:34:45 Plano de estudo O plano de estudos visa a orientar você no desenvolvimento da Disciplina. Ele possui elementos que o ajudarão a conhecer o contexto da Disciplina e a organizar o seu tempo de estudos. O processo de ensino e aprendizagem na UnisulVirtual leva em conta instrumentos que se articulam e se complementam, portanto, a construção de competências se dá sobre a articulação de metodologias e por meio das diversas formas de ação/mediação. São elementos desse processo: O Livro didático. O EVA (Espaço UnisulVirtual de Aprendizagem). Atividades de avaliação (complementares, a distância e presenciais). Ementa Conceito de cultura. Cultura material e simbólica. Conceito de patrimônio. Cultura global e cultura local. Preservação e Conservação. O turismo como fator de valorização do patrimônio. Patrimônio de Santa Catarina. Museus, monumentos, prédios históricos. Restaurantes e hotéis temáticos. Carga horária 60 horas-aula. patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 11 27/11/2006 17:34:45 Objetivos da disciplina Geral Analisar a Gestão do Patrimônio Cultural Brasileiro em sua interface com as atividades do Turismo. Específicos Estudar o conceito e a chancela de Patrimônio Histórico no Brasil. Problematizar os usos do Patrimônio Histórico Brasileiro, material e imaterial, e os impactos do Turismo. Conteúdo programático/objetivos Veja, a seguir, as unidades que compõem o Livro Didático desta Disciplina e os seus respectivos objetivos. Estes se referem aos resultados que você deverá alcançar ao final de uma etapa de estudo. Os objetivos de cada unidade definem o conjunto de conhecimentos que você deverá possuir para o desenvolvimento de habilidades e competências necessárias à sua formação. Unidades de estudo: 4 Unidade 1 – Patrimônio Cultural e Histórico no Brasil Nesta unidade você vai estudar como se constituiu na Europa e no Brasil, entre o século XIX e princípio do século XX a noção de Patrimônio Cultural. Nesse sentido, você irá perceber a formulação do conceito de Patrimônio ligada a formação dos Estados Nacionais, ou seja, a importância desse instrumento de pertencimento, na construção da nacionalidade. 12 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 12 27/11/2006 17:34:45 Unidade 2 – Interfaces do Patrimônio Cultural Nesta segunda unidade você irá estudar as diferenças da noção de bens culturais e suas formas de classificação. Além disso, podemos ressaltar que nessa unidade você vai poder acompanhar as interfaces entre as atividades turísticas e o patrimônio cultural, sobretudo no que diz respeito às cidades históricas. Unidade 3 – Patrimônio Cultural e Turismo: Usos e Abusos Na penúltima unidade do livro, destacaremos a relação entre o Patrimônio Cultural e o Turismo. Assim, você poderá analisar os mecanismos de construção de cenários turísticos que se configuram a partir da idéia de não-lugar. Unidade 4 – Práticas preservacionistas e a noção de restauração Nesta última unidade do livro, retomaremos o conceito de Patrimônio pensado pelo crítico de arte austríaco Alois Riegl, bem como sua interpretação quanto a idéia de intervenção e preservação dos bens patrimoniais. 13 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 13 27/11/2006 17:34:45 h Agenda de atividades/ Cronograma Verifique com atenção o “EVA”, organize-se para acessar periodicamente o espaço da Disciplina. O sucesso nos seus estudos depende da priorização do tempo para a leitura, da realização de análises e sínteses do conteúdo e da interação com os seus colegas e tutor. Não perca os prazos das atividades. Registre no espaço a seguir as datas com base no cronograma da disciplina disponibilizado no EVA. Use o quadro para agendar e programar as atividades relativas ao desenvolvimento da Disciplina. Atividades h Avaliação a Distância 1 Avaliação a Distância 2 Avaliação Presencial Avaliação Presencial de 2ª chamada Avaliação Final (caso necessário) Demais atividades (registro pessoal) patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 14 27/11/2006 17:34:45 UNIDADE 1 Patrimônio cultural e histórico no Brasil 1 Objetivos de aprendizagem Identificar implicações históricas relativas as diferentes noções de patrimônio. Contextualizar a atuação dos modernistas frente às políticas patrimoniais. Compreender a trajetória do IPHAN no interior de políticas públicas para a área de cultura. Conhecer as principais ações e regulamentações do IPHAN e da UNESCO referentes ao patrimônio cultural. Seções de estudo Seção 1 A formação da idéia de patrimônio no século XIX Seção 2 Os modernistas e as políticas para o patrimônio Seção 3 A criação do IPHAN Seção 4 Classificações e definições do Patrimônio Cultural e Histórico brasileiro patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 15 27/11/2006 17:34:46 Universidade do Sul de Santa Catarina SEÇÃO 1 – A formação da idéia de patrimônio no século XIX O termo patrimônio histórico nasceu na Europa, especificamente na França, após o advento da Revolução Francesa e estava em consonância com a afirmação de um estado nacional. “(...) toda nação e todo estadonação são fundamentados em uma cultura específica de um grupo dominante que sob a justificativa de que seus valores são os verdadeiramente “nacionais”, de que são os que melhor representam o estado e o território ao qual pertencem, exclui todas as outras culturas também existentes em seu território.” (Extraído do verbete Nação, em SILVA, Kalina V. e SILVA, Maciel H. Dicionário de Conceitos Históricos. São Paulo: Contexto, 2005). Jacques Le Goff atribui algumas características aos monumentos: são herança do passado, e assim o evocam, ligando-se ao poder de perpetuação voluntária ou involuntária das sociedades históricas e apresentam uma intencionalidade. LE GOFF, Jacques. Memória. In: Enciclopédia Einaudi. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda,1984) Dessa forma, o debate acerca do legado às gerações futuras, incrementado a partir da Revolução Francesa, no tocante à memória relacionada à nação e seus heróis, como também da Revolução Industrial, caracterizava o vínculo com a cultura material em seu aspecto arquitetônico e também sua vinculação com o conceito de monumentohistórico: O termo patrimônio histórico teve por base o conceito de monumento histórico gestado na Europa a partir da segunda metade do século XIX, de onde difundiu-se progressivamente. A Revolução Industrial emprestou a esse conceito uma abrangência universal. Enquanto um processo irreversível, a industrialização, com seu constante movimento transformador, tornou necessário guardar o passado que se esvaía rapidamente. (KERSTEN, 2000, p. 32-33). Partindo-se dos pressupostos apontados, objetivava-se a consolidação de um estado nacional, cuja discussão acerca do patrimônio e dos monumentos apresentava-se como um dos matizes, no sentido de materializar uma identidade nacional, com a qual o cidadão compactuasse e na qual se reconheceria. Então, dentro de da concepção de estado nacional, cria-se a necessidade de um passado comum, cuja noção de patrimônio histórico-cultural está aí inserida. No arcabouço desta noção, atribuem-se valores e hierarquias que nortearão as políticas patrimoniais deste mesmo estado. “Todavia, não se deve exagerar nem fazer crer que durante aquela última década do século XVIII, seriam estabelecidas legislações e políticas consistentes, de forma a classificar, preservar e restaurar sistematicamente os ‘monumentos históricos’, denominação corrente dos bens patrimoniais durante o século XIX até meados do século XX”. 16 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 16 27/11/2006 17:34:46 Patrimônio Cultural e Turismo I s Para saber mais acesse: http://www.unisantos.br/pos/revistapatrimonio/ artigos A idéia de patrimônio no Brasil estava associada à concepção européia, notadamente francesa. Desta forma, a realidade colonial mostrava-se desalentadora, com bens insuficientes ou pouco significativos, de acordo com esta ótica. Com a chegada da família real, em 1808 iniciaram-se ações preservacionistas, cujo alvo, porém, eram os bens referentes à colonização portuguesa ou relativos a ela. Após a Proclamação da Independência, durante o período monárquico, não há referências, por parte do império, a esta temática. s Você sabia? Portugal vivia a ameaça iminente de invasão por parte da França, sob o comando de Napoleão Bonaparte durante o chamado Bloqueio Continental à Inglaterra. Assim, todos os países do continente europeu deveriam boicotar o comércio com este país. A situação tornava-se complexa, pois Portugal era, a algum tempo, aliado da Inglaterra. Em 1808, com a ajuda dos ingleses, o rei de Portugal, Dom João VI decidiu transferir a corte portuguesa para o Brasil. Desembarcou em Salvador e depois partiu para o Rio de Janeiro, em março do mesmo ano, estabelecendo ali a sede da corte Portuguesa. Neste contexto histórico, o que pode se destacar é a criação do IHGB (Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro) em 1838 e do Arquivo Público. Elas eram instituições voltadas à seleção, organização e difusão da História do Brasil vinculada à construção de uma identidade nacional e calcada nos ditames da civilização, notadamente a européia. “O IHGB tinha por finalidade fazer a história do Brasil, recompondo o passado da nação, a partir de uma visão oligárquica e palaciana, que o habilitasse a fazer parte das chamadas nações civilizadas. Sua ação, orientada pela idéia evolucionista de progresso, esteve baseada na urgência de congelar e armazenar o passado, sob a forma de patrimônio histórico.” (KERSTEN, Márcia S. de Andrade. Os rituais do tombamento e a escrita da História. Curitiba: ed. da UFPR, 2000, p.62.) Partindo-se do pressuposto de civilização e lembrando-nos que o modelo para tal era o europeu, associou-se um conceito de cultura no qual as artes e a arquitetura eram termômetros deste grau civilizacional. Como esta noção estava relacionada aos países Unidade 1 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 17 17 27/11/2006 17:34:46 Universidade do Sul de Santa Catarina O que se pode deduzir é que o Instituto Histórico e Geográfico, ao se dedicar ao conhecimento do passado brasileiro, acabou por lançar os parâmetros do que se passou a definir como patrimônio. de maior avanço tecnológico e industrial, observou-se no Brasil, com a criação do IHGB, uma noção de patrimônio vinculada à preservação de documentos escritos, pois a preocupação ainda era a construção de uma origem fundante para a nação brasileira. É importante lembrar que a discussão sobre o que é ou não é brasileiro, fez-se somente nas primeiras décadas do séc. XX. É Importante notar que as teorias cientificistas do século XIX traduziam-se em reformulações urbanas, com o que, no Brasil, alteraram-se os traçados e o conjunto arquitetônico das principais cidades. Isto nos interessa, pois como já vimos não havia se consolidado uma política de identificação e preservação na virada para o século XX e, no entanto, um outro conceito europeu, o de modernidade, já iniciava as suas ramificações por aqui. Os artistas franceses chegaram ao Brasil em 1816, contratados pelo governo imperial brasileiro, encarregados de fundar a Academia de Belas Artes (1826). Na arquitetura nota-se a introdução do estilo neoclássico no Brasil. http://www.historiadaarte.com.br/ missaofrancesa.html e http://www. funceb.org.br/revista7/05.pdf De uma maneira geral, no século XIX observou-se uma abertura à cultura européia em geral, notadamente à francesa. Podemos citar inclusive a Missão Francesa que contou com o patrocínio do governo imperial. Ao final do século, valores culturais europeus e princípios de modernidade e de civilização estavam associados, ao menos na concepção, às elites brasileiras. Estes valores estavam expressos na moda, nos hábitos, na arte e na arquitetura, no sentido de negar o passado colonial, tendo como slogan a civilização e o progresso. Um dos exemplos mais significativos desta mudança foram as reformas urbanas na cidade do Rio de Janeiro, empreendidas pelo prefeito da época, Pereira Passos (1902-1906). s Para saber mais Consulte informações e imagens acerca da administração de Pereira Passos e do movimento “bota abaixo”, consultar inicialmente http:// www2.prossiga.br/ocruz/riodejaneiro/reforma/ reformaurbana.htm e http://www.marcillio.com/rio/ enceribr.html Como símbolos da negação do passado colonial, podemos citar a abertura da Avenida Central, que implicou na demolição do antigo núcleo colonial da cidade e a construção de edifícios ecléticos nos moldes europeus. 18 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 18 27/11/2006 17:34:46 Patrimônio Cultural e Turismo I AVENIDA Central, c.1910. Coleção Gilberto Ferrez. Foto: Marc Ferrez. In: PARENTE, José Inácio e MONTE-MÓR, Patrícia (Orgs.). Rio de Janeiro: Retratos de Cidade. Rio de Janeiro: Interior Produções, c.1994. 176p. http://www2.prossiga.br/Ocruz/imagens/Rj/avenida.html Desapropriação e destruição de casarios coloniais e do Império, abertura de avenidas, um saneamento que também tinha como alvo os cortiços e demais habitações populares, numa clara expulsão e exclusão geográfica e social das camadas populares. De toda forma, foi somente a partir dos anos 20, do século passado, que a noção de patrimônio cujas características abarcavam uma noção mais ampla de cultura, voltadas inclusive à produção e manifestação das classes populares e da diversidade regional, foi trazida à tona nos círculos intelectuais e políticos. Unidade 1 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 19 19 27/11/2006 17:34:47 Universidade do Sul de Santa Catarina SEÇÃO 2 – Os modernistas e as políticas para o patrimônio A discussão sobre patrimônio para algo além das obras arquitetônicas e das obras de arte eruditas, sem desconsiderá-las, foi inaugurada pelos modernistas, na década de 20 do século passado. É importante que você perceba que o período inicial da República caracterizou-se pelo descaso com a preservação do que até então se considerava patrimônio, geralmente documentos escritos e monumentos históricos. Para você ter uma idéia, em 1920 a Sociedade Brasileira de Belas Artes elaborou um anteprojeto de lei com destaque para os bens arqueológicos. Tal anteprojeto não teve o alcance desejado no Congresso Nacional, tendo em vista a necessidade de desapropriações referentes à propriedade privada, considerada intocável naquele momento. De toda forma, as parcas ações patrimoniais norteavam-se pelas questões já enunciadas pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, capitaneadas pelos conceitos de progresso e civilização o que, como já falamos, priorizava a recuperação da memória de uma elite. Observe que ao contrário de uma identidade nacional calcada num passado evidenciado por uma história oficial, os modernistas propunham a busca de outros parâmetros estéticos, que traziam consigo a crítica à cultura e à sociedade em questão. O evento eleito como marco do movimento modernista foi a Semana de Arte Moderna em 1922, em São Paulo, protagonizado por intelectuais e artistas da elite paulistana. Em que pese toda sua complexidade, o movimento modernista reivindicava, por um lado, certas experimentações estéticas, em consonância com movimentos culturais e artísticos que estavam ocorrendo no exterior e, por outro, a busca de uma possível identidade nacional, estabelecendo outros parâmetros, que passaram a ser identificados como cultura brasileira. 20 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 20 27/11/2006 17:34:50 Patrimônio Cultural e Turismo I s Para compreender melhor as proposições dos modernistas acerca de uma “cultura brasileira” é importante ler sobre o Movimento Antropofágico: http://www.itaucultural.org.br/index.cfm?cd_ pagina=1985; http://www.suapesquisa.com/ artesliteratura/semana22/ http://www.mac.usp.br/projetos/seculoxx/modulo2/ modernismo/artistas/monteiro/index.htm http://epoca.globo.com/especiais_online/2002/02/ especial22/evento.htm No que se refere ao patrimônio, o poeta Mário de Andrade teve atuação especial. Na esteira da discussão sobre uma “cultura brasileira”, o poeta e alguns modernistas, realizam viagens para várias regiões brasileiras, num movimento denominado “Viagem da redescoberta do Brasil”. s Os relatos destas viagens foram escritos por Mário de Andrade sob a forma de crônicas, que se encontram reunidas no livro O turista aprendiz. Sobre a obra e seu autor consulte os seguintes sites: http://www.historiaecultura.pro.br/ modernosdescobrimentos/desc/mario/frame.htm http://www.releituras.com/marioandrade_bio.asp http://www.speculum.art.br/module.php?a_id=393 Outros modernistas como Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade, além do escritor francês Blaise Cendrars, que visitava o país em 1924, percorreram algumas cidades de Minas Gerais e perceberam o descaso com edificações coloniais mineiras e com as obras do Aleijadinho, significativas no conjunto do barroco mineiro. Aleijadinho, como ficou conhecido, chamava-se Antônio Francisco Lisboa. Ele Recebeu este codinome porque ficou leproso aos 40 anos de idade e esculpia suas obras com um cinzel atado aos punhos. Nasceu em Minas Gerais em 1730 e faleceu no ano de 1814. O poeta empreendeu ainda uma viagem ao norte do país, mas é notadamente na visita ao nordeste do país, em 1929, que procurou encontrar indícios de um passado que possibilitasse a compreensão deste Brasil “moderno”, de um país que pudesse Unidade 1 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 21 21 27/11/2006 17:34:51 Universidade do Sul de Santa Catarina ser compreendido como projeto, portador de uma multiplicidade de referências sobre as quais se pudesse construir uma idéia de cultura nacional. Aproximou-se então do Folclore, da Antropologia e da literatura popular, no sentido de registrar e sistematizar os dados recolhidos, levando em conta outros temas nacionais e as expressões culturais de parcelas da população brasileira até então excluídas de uma identidade nacional forjada por grupos dominantes. Pode-se perceber então que a concepção de cultura nacional que ia se configurando entre os modernistas não era consensual entre o próprio grupo. Desta forma fundou-se o movimento Verdeamarelo e Anta, que agregava nomes como Plínio Salgado e Menoti del Pichia, cuja busca por um tipo brasileiro original, notadamente o indígena, era o mote principal. Mário de Andrade aproximava-se do movimento Pau-brasil e Antropofagia, tendo à frente Oswald de Andrade, que também realizava uma redescoberta das origens, porém levando em conta os elementos europeus neste amálgama cultural. O que se pode concluir disso? O que se pode deduzir a partir destas considerações é que a intensa participação política e intelectual de Mário de Andrade contribuiu para a noção de patrimônio ao trazer a pauta outras referências como as manifestações de grupos até então marginalizados, a culinária, a língua, as expressões religiosas, considerando, desta forma, os aspectos imateriais da cultura. Tais ações propiciaram o debate sobre o conceito de cultura, preservação e patrimônio, ampliando a perspectiva clássica, calcada no modelo de civilização do século XIX. A partir da revolução de 1930, liderada por Getúlio Vargas e apoiada por setores da classe média e do exército brasileiro, o estado tentou, por meio de intervenções no campo da cultura, constituir um patrimônio nacional. Vargas aglutina e criou tradições calcadas numa memória histórica ufanista. 22 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 22 27/11/2006 17:34:51 Patrimônio Cultural e Turismo I Uma das primeiras medidas oficiais do governo de Getúlio Vargas em 1933, foi o decreto que erige Ouro Preto como Monumento Nacional, lembrando que em 1931 já havia sido elaborada a Carta de Atenas. De toda forma o que estava em jogo era a construção de uma memória histórica relacionada a heróis e lugares, que por sua vez eram selecionados como representativos para a História do Brasil. Na Constituição de 1934 a proteção dos bens culturais e naturais foi definida como dever do estado, incluindo Crédito: prof. Piccinato a nacionalização do subsolo e a saída de obras de arte do país. No mesmo texto aprovou-se a criação de um serviço de proteção aos monumentos e obras de arte, anexo ao Museu Histórico Nacional, restringindose, a princípio, às cidades mineiras. Deve-se ressaltar também, do ponto de vista jurídico, a amenização da propriedade privada, para fins de desapropriação, quando comprovada sua função social. http://www.braziltour.com/site/ Veja que nesta época, Mário de Andrade foi convidado Fonte: pl/galeria_multimidia/lista.php?it_nome a assumir a direção do Departamento de Cultura =&estados=1221&cidades=7362 do município de São Paulo (1935-1938). Durante a gestão de Gustavo Capanema à frente do Ministério da Educação e Saúde Pública, foi convidado a elaborar um anteprojeto para a criação de um órgão que fosse responsável pelos bens patrimoniais. No texto havia também a proposição de um inventário e classificação de bens que deveriam constar nos livros-tombo. Este foi o documento usado nas discussões preliminares sobre a estrutura e os objetivos do SPHAN criado afinal por decreto presidencial assinado em 30 de novembro de 1937. Mário de Andrade compreende patrimônio, neste anteprojeto, como a paisagem e o folclore, abarcando manifestações como a música, culinária, lendas, vocabulário, entre outras, presentes na chamada cultura popular. Apesar de estar envolvido com o estado novo, Mário era um crítico do discurso nacionalista do governo brasileiro, cujo culto à pátria e aos regionalismos, calcado em elementos pitorescos Unidade 1 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 23 As inscrições nos livrostombo deveriam obedecer a oito categorias: arte arqueológica; arte ameríndia; arte popular; arte histórica; arte erudita nacional; arte erudita estrangeira; artes aplicadas nacionais e artes aplicadas estrangeiras. (LEMOS, Carlos A. C. O que é patrimônio histórico. Brasiliense: São Paulo, 2000. p. 39). 23 27/11/2006 17:34:51 Universidade do Sul de Santa Catarina e artificiais, recriava e inventava tradições para a “grandeza nacional”. s Para ficar por dentro do panorama histórico deste período da História do Brasil sob o governo de Getúlio Vargas (1930 a 1945), você pode acessar http:// www.cpdoc.fgv.br/nav_fatos_imagens/htm/fatos/ EstadoNovo.htm e http://www.historianet.com.br/ conteudo/default.aspx?codigo=53 Nota-se a presença de bens patrimoniais materiais e imateriais em no levantamento de Mário de Andrade, cuja classificação não será aplicada em todos os seus princípios pelo estado novo de Vargas. O estado populista atuava no sentido de criar símbolos de identidade nacional. Como exemplo pode-se citar o decreto-lei 25, de 1937, que criava o tombamento, porém com foco nos bens materiais. SEÇÃO 3 – A criação do IPHAN Em 1937, no início do período político chamado de estado novo, criou-se o SPHAN (Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Na origem do órgão envolveram-se intelectuais e artistas brasileiros identificados com o movimento modernista dos anos 20, conforme falamos anteriormente, especialmente Mário de Andrade. O então SPHAN, de acordo com o decreto presidencial no. 378, ficaria subordinado ao Ministério da Educação e Saúde, sob o comando do Ministro Gustavo Capanema. A direção do SPHAN foi legada a Rodrigo Melo Franco de Andrade, que o dirigiu por 32 anos, até sua morte, em 1969. Sob a sua orientação, o projeto original de Mário de Andrade recebeu modificações significativas ao longo do tempo em que esteve à frente do SPHAN. Durante esse período, os bens culturais classificados como patrimônios deveriam trazer uma relação com o passado, calcados nos heróis nacionais e em fatos “importantes” para a História do Brasil. Esta apropriação do patrimônio com vistas a uma unidade nacional, constituindo um passado e presente harmônicos. 24 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 24 27/11/2006 17:34:52 Patrimônio Cultural e Turismo I É sintomático também deste período, a proibição de manifestações consideradas contrárias a uma imagem positiva do país. No entanto, o estado se apropria e institucionaliza outras expressões populares como os desfiles de carnaval e a capoeira, na perspectiva da exaltação e da grandeza nacional. No texto do decreto da criação do SPHAN, em 1937, assim definiu-se o conceito de Patrimônio Histórico e Artístico: Constitui o patrimônio histórico e artístico nacional o conjunto de bens móveis e imóveis existentes no país e cuja conservação seja de interesse público, quer por sua vinculação a fatos memoráveis da História do Brasil, quer por seu excepcional valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico. (decreto-lei 25/37, art. 1º.) Perceba que esta visão ainda denota uma forte vinculação ao passado, um passado entendido como tradição e circunscrito a uma noção de memória e identidade únicas, de um passado sem conflitos e harmônico, numa referência ao conceito de civilização do século XIX. Na prática, priorizou-se a preservação do patrimônio edificado e arquitetônico (“pedra e cal”), identificado com o interesse público e a “vinculação a fatos memoráveis da História do Brasil”. Desta forma, boa parte dos bens tombados estavam relacionados à memória de grupos dominantes, preservando-se, assim, igrejas barrocas, fortes militares e sobrados coloniais, entre outros. s Você sabia? Atualmente, o tombamento é um ato administrativo realizado pelo Poder Público, nos níveis federal, estadual ou municipal. Os tombamentos federais são da responsabilidade do Iphan e começam pelo pedido de abertura do processo, por iniciativa de qualquer cidadão ou instituição pública. Tem como objetivo preservar bens de valor histórico, cultural, arquitetônico, ambiental e também de valor afetivo para a população, impedindo a desnutrição e/ou descaracterização de tais bens. Pode ser aplicado aos bens móveis e imóveis, de interesse cultural ou ambiental. É o caso de fotografias, livros, mobiliários, utensílios, obras de arte, edifícios, ruas, praças, cidades, regiões, florestas, cascatas etc. Somente é aplicado aos bens materiais de interesse para a preservação da memória coletiva. (in: http://portal. iphan.gov.br/). Unidade 1 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 25 25 27/11/2006 17:34:52 Universidade do Sul de Santa Catarina Ao longo das décadas em que Rodrigo Melo Franco de Andrade e seu grupo estiveram à frente do SPHAN, os tombamentos em sua maioria, referiam-se a arte e a arquitetura barrocas concentradas em Minas Gerais, principalmente nos monumentos religiosos católicos. O Rio de Janeiro e o que restou do traçado urbano colonial e imperial também se tornaram alvos de reformas, nesta primeira fase, porém o foco eram as cidades históricas de Minas Gerais. Tal momento ficou conhecido como “período da mineiridade”, devido à ênfase no restauro e conservação de lugares e prédios considerados como símbolos de uma nacionalidade centrada nas lutas pela Independência e na relação com personagens heróicos da história brasileira. Congonhas do Campo Crédito: Marcio Vianna Fonte: http://www.degeo.ufop.br/Portugues/OuroPreto/congonha/congonha.htm Ana Carolina Fernandes/Folha Imagem 26 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 26 27/11/2006 17:34:53 Patrimônio Cultural e Turismo I Vista aérea do Paço Imperial, no centro do Rio de Janeiro. Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/sinapse/ult1063u175.shtml No texto constitucional de 1946, após o período de Getúlio Vargas à frente do estado brasileiro, ratifica-se a responsabilidade do estado pelos bens culturais e há referências claras a sua proteção. Nos anos 50, assistiu-se a constituição de um discurso nacionalista, calcado no desenvolvimento econômico e na industrialização. A entrada de novas influências artísticas e de uma cultura de massa, caracterizaram a cena cultural, marcada por um certo otimismo, em consonância com o panorama político e econômico. Um marco deste período foi a construção de Brasília, nos cânones do Modernismo, projetada pelos arquitetos Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. Congresso Nacional: anos 50 Unidade 1 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 27 27 27/11/2006 17:34:54 Universidade do Sul de Santa Catarina Congresso Nacional: hoje Crédito: Augusto C. B. Areal Fonte: http://www.geocities.com/augusto_areal/minis_p.htm Durante o período dos governos militares, inaugurado com o golpe de 1964, os movimentos culturais e artísticos sofreram com as perseguições político-ideológicas do estado. No entanto, no campo do patrimônio, não houve alterações significativas. No final da década de 60, Rodrigo de Melo Franco de Andrade afastou-se da chefia do SPHAN, assumindo Renato Soeiro. O arquiteto manteve as diretrizes anteriores e o então DPHAN passou por uma reestruturação, passando a chamar-se IPHAN. O que se pode ressaltar da sua administração à frente do órgão, entre outras coisas, foi a elaboração do Compromisso de Brasília (1970). Neste documento ressaltou-se a necessidade de criação de órgãos municipais e estaduais nesta área, a inclusão de matérias relacionadas ao patrimônio, do ensino fundamental ao superior e a formação de mão-de-obra especializada. Também considerouse a salvaguarda de construções históricas e artísticas e seu uso por repartições culturais, bem como o controle do comércio de obras antigas. No ano seguinte, em Salvador, além de se reiterar os princípios do Compromisso de Brasília, os debates tiveram como foco a relação entre turismo e preservação, calcada em aspectos legais e financeiros que viabilizassem esta preservação. De uma maneira geral, as propostas e ações nesta área estavam em consonância com os encontros e documentos internacionais. O IPHAN passou por denominações e reestruturações administrativas, mas sempre esteve sob a égide dos projetos culturais governistas, ora nacionalistas, ou nacional- 28 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 28 27/11/2006 17:34:55 Patrimônio Cultural e Turismo I desenvolvimentistas, da emergência da indústria cultural, dos vários encontros internacionais sobre a temática, da abertura política e do redimensionamento da política do patrimônio. O órgão tornou-se, ao longo do tempo, Departamento, Instituto, Secretaria e, atualmente, é o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) vinculado ao Ministério da Cultura – MINC (1985). s Para compreender melhor as mudanças na legislação, funções e vinculações do órgão, acesse: http://www. minc.gov.br/merco_WEB/leis/ex-orgao.htm SEÇÃO 4 – Classificações e definições do Patrimônio Cultural e Histórico brasileiro O Patrimônio Cultural e Histórico brasileiro segue as normas e diretrizes da UNESCO, órgão da ONU responsável pela Educação, Ciência e Cultura em nível mundial. O órgão específico responsável pelo patrimônio mundial, ou da humanidade, também em Paris, é o ICOMOS (International Council On Monuments and Sites), situado em Paris e para processos de conservação e restauro, o ICCROM, situado em Roma. Neste sentido, um primeiro grupo de diretrizes diz respeito às cartas patrimoniais. A primeira carta data de 1931, em Atenas, quando existia a Sociedade das Nações, um órgão anterior a ONU, mas com os mesmos princípios e a última foi em 2003, onde se discutiu a preservação do Patrimônio Cultural Imaterial, em Paris. A orientação até os anos 70, era de tombamento da chamada “pedra e cal”. Nessa década são prolíficos os encontros sobre a temática. Na Conferência Geral de Genebra em 1972, definiu-se a categoria Patrimônio Cultural da Humanidade, que passou a contemplar em sua classificação os monumentos de “excepcional valor histórico, artístico ou científico”. É relevante salientar que foi a partir desta conferência e da solicitação de países do terceiro mundo que a UNESCO realizou estudos mais sistemáticos no sentido de salvaguardar as Unidade 1 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 29 São cartas, documentos e recomendações referentes à proteção e preservação do patrimônio cultural, elaboradas em encontros em diferentes épocas e partes do mundo. Sobre as cartas patrimoniais, ver: http://portal.iphan. gov.br/. Segundo o assessor internacional da UNESCO, naquele momento, Hugues de Varine-Boham, o patrimônio cultural podia ser classificado em três categorias: • Meio ambiente: recursos naturais, clima, paisagens; • Elementos não tangíveis: conhecimento, técnicas, saber fazer; • Bens culturais: objetos, artefatos, construções. 29 27/11/2006 17:34:57 Universidade do Sul de Santa Catarina manifestações da cultura tradicional e popular como elemento constitutivo do Patrimônio Cultural da Humanidade. Na perspectiva das conferências mundiais e nacionais sobre patrimônio, a Constituição Brasileira de 1988 tem a seguinte definição de patrimônio cultural brasileiro: Art. 216, Seção II – DA CULTURA: Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem: I - as formas de expressão; II - os modos de criar, fazer, viver; III - as criações científicas, artísticas e tecnológicas; IV - as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais; V - os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico. Neste sentido, o Brasil garante em seu texto constitucional, além da distinção entre patrimônio cultural e ambiental, a consonância com as discussões internacionais sobre a noção de patrimônio, o que de certa forma já havia sido levantado por Mário de Andrade nos anos 30. Dentre outros aspectos, incentiva a valorização e divulgação das manifestações culturais aqui entendidas como populares, indígenas, afro-brasileiras e de outros grupos que compõem o panorama étnico-cultural do país. O IPHAN classifica o patrimônio cultural em duas grandes categorias, material e imaterial. O Patrimônio Material protegido pelo IPHAN, com base em legislações específicas é composto por um conjunto de bens culturais classificados segundo sua natureza nos quatro Livros do Tombo: arqueológico, paisagístico e etnográfico; histórico; belas artes; e das artes aplicadas. Eles estão divididos em bens imóveis como os núcleos urbanos, sítios arqueológicos e paisagísticos e bens individuais; e móveis como coleções arqueológicas, acervos museológicos, documentais, bibliográficos, arquivísticos, videográficos, fotográficos e cinematográficos. Como patrimônio material o Brasil possui os seguintes bens na lista do Patrimônio Mundial da Unesco: 30 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 30 27/11/2006 17:34:57 Patrimônio Cultural e Turismo I Ouro Preto Olinda São Miguel das Missões Salvador Parque Nacional do Iguaçu Brasília Costa do Descobrimento Pantanal Mato-grossense Diamantina Parque Nacional da Capivara Centro Histórico de São Luis Reserva Mata Atlântica Reservas do Cerrado Centro Histórico de Goiás Ilhas Atlânticas Parque Nacional do Jaú Congonhas do Campo Crédito: C. Goldgrub/ Costa do descobrimento Crédito: Zig Koch/ Parque Nacional do Iguaçu Unidade 1 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 31 31 27/11/2006 17:34:57 Universidade do Sul de Santa Catarina Crédito: C. Knepper/ São Luís do Maranhão s Para ver a localização geográfica destes bens culturais, assim como de outros tombados em nível nacional, acesse http://portal.iphan.gov.br/ Por outro lado, Patrimônio Cultural Imaterial são as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas e também os instrumentos, objetos, artefatos e lugares que lhes são associados e as comunidades, os grupos e, em alguns casos, os indivíduos que se reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural. Esta categoria foi criada pela UNESCO em 1997, com o título Obra-prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade, e tem como objetivo chamar a atenção para certas manifestações e sua proteção, que representam a diversidade cultural mundial. Tal distinção, do ponto de vista normativo, está presente no decreto no. 3.551, que instituiu o “Programa Nacional do Patrimônio Imaterial”. Tal programa visa a fomentar projetos de identificação, reconhecimento, salvaguarda dos aspectos imateriais do patrimônio cultural. Neste ínterim, almeja parcerias com instituições dos governos federal, estadual e municipal, universidades, organizações não-governamentais, agências de desenvolvimento e organizações privadas ligadas à cultura, à pesquisa e ao financiamento. O anúncio das Obras-Primas do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade é realizado a cada dois anos, pela Unesco, através das candidaturas oferecidas pelos países e que são selecionadas por um júri internacional. Em 2003, 28 itens foram 32 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 32 27/11/2006 17:34:57 Patrimônio Cultural e Turismo I acrescentados à lista das Obras-primas da Humanidade, entre eles a Arte Kusiwa – Pintura Corporal e Arte gráfica Wajãpi, preparada pelo Museu do Índio, um registro da cosmologia e a linguagem gráfica dos índios Wajãpi, do Amapá. Em novembro de 2005, o Brasil foi novamente contemplado, com a inclusão do Samba de Roda do Recôncavo Baiano. Fotos: Dominique Gallois Crédito: desconhecido Crédito: Jamy (ilustração) Crédito: Luiz Santos Da mesma forma que o patrimônio material, o IPHAN instituiu quatro livros para seu registro: Livro dos Saberes, Livro das Unidade 1 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 33 33 27/11/2006 17:34:58 Universidade do Sul de Santa Catarina Celebrações, Livro das Formas de Expressão e Livro dos Lugares. Como se trata de uma categoria recente, em termos de regulamentação de leis (identificação, registro e salvaguarda), o Brasil possui poucos além dos dois citados acima, o Ofício das Paneleiras de Goiabeiras, no Espírito Santo e Ofício das Baianas do Acarajé, ambos no Livro de Registro dos Saberes; o Jongo, que envolve canto, dança e percussão de tambores afrobrasileiros; o Modo de Fazer Viola-de-Cocho, na Região CentroOeste do Brasil e a Festa do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, de Belém do Pará, no Livro de Registro das Celebrações. Como você já viu no início da unidade, o conceito de patrimônio surgiu no contexto ocidental de afirmação dos estados nacionais. Como vimos também, ele estava associado à representação física e monumental dos bens culturais. Desta forma, este modelo foi se tornando ineficaz para dar conta dos aspectos intangíveis da cultura, principalmente de lugares e grupos que não se encaixavam nesta tradição ocidental. A reação a este modelo pode ser identificada a partir da Convenção da Unesco de 1972. Nela alguns países de terceiro mundo solicitaram à Unesco formas de proteção e estudos que levassem em consideração expressões da cultura popular e tradicional, como parte do patrimônio cultural da humanidade. De certa forma, esta preocupação já se fazia notar em nosso país nos anos 50, com a Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro. Nos anos 70, a criação do Centro Nacional de Referência Cultural (CNRC) e da Fundação Nacional Pró-memória, que teve à frente o advogado Aloísio Magalhães, contribuiu para ampliar o conceito de patrimônio histórico e artístico nacional, para além do seu aspecto material. Atualmente, mesmo com o consenso sobre a importância deste componente do patrimônio, há discussões em torno da complexidade de alguns casos. Podemos citar como exemplo o tombamento da Casa Branca e o terreiro mais antigo de Salvador, nos anos 80. Ao ser tutelado pelo estado, uma vez que é registrado no Livro do Tombo do IPHAN, isto pode implicar numa “cristalização” deste espaço, o que iria de encontro com a própria mobilidade dos terreiros, posto que os rituais do candomblé se modificam, são dinâmicos. 34 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 34 27/11/2006 17:34:59 Patrimônio Cultural e Turismo I Apesar do debate em torno do que e de como proteger os elementos imateriais da cultura suscitar polêmicas, o Brasil avançou ao contemplar estes aspectos no texto constitucional de 1988, como já vimos. Por fim, no tocante ainda ao papel do estado brasileiro, cria-se o decreto no. 3.551, em 4 de agosto de 2000, que institui o registro dos bens culturais de natureza imaterial e o Programa Nacional do Patrimônio Imaterial. Por outro lado, a responsabilidade no tocante à valorização ou aos descasos com o patrimônio não se restringe ao papel do estado. As discussões acerca do patrimônio na atualidade têm se calcado pelos debates em torno da diversidade social e cultural, além do entendimento de que todos têm direito à memória, individual e coletiva, direito a conhecer os seus bens culturais e de outros povos e, por conseguinte, de participar nas decisões que afetam estes mesmos bens, vistos como parte integrante no processo de construção da cidadania. Síntese Nesta unidade você aprendeu que o conceito de patrimônio nos séculos XVIII e XIX está associado à consolidação do estado nacional, principalmente após a Revolução Francesa. Fica evidenciado o caráter material do patrimônio e a sua vinculação com a noção de monumento, cujo objetivo era criar um passado calcado em feitos heróicos e em símbolos, com vistas a uma identidade nacional. No Brasil Monárquico as discussões sobre patrimônio alinhavam-se à concepção européia, ressaltando-se a fundação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (1838), cuja preocupação era a de criar uma “origem” comum à nação brasileira. Os debates acerca de uma “cultura brasileira” empreendidos pelo Movimento modernista na década de 20 do século XX, contribuem significativamente para a ampliação da noção de patrimônio. Unidade 1 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 35 35 27/11/2006 17:34:59 Universidade do Sul de Santa Catarina O poeta Mário de Andrade e outros modernistas tiveram papel importante na criação do SPHAN (Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) em 1937, que foi o primeiro órgão voltado às políticas patrimoniais. Atualmente é vinculado ao ministério da Cultura e denomina-se IPHAN. Na década de 70, do século XX, proliferam-se os encontros internacionais sobre a temática e o Brasil, através do IPHAN, orientou-se pelas classificações e programas da UNESCO, órgão vinculado à ONU. Atualmente as ações e programas patrimoniais relativos ao conceito de Patrimônio Cultural têm-se pautado por duas grandes classificações: Patrimônio Cultural Material e Imaterial, tendo como princípio o debate atual acerca da importância da diversidade cultural e social e do acesso dos cidadãos aos bens culturais da humanidade. Atividades de auto-avaliação 1. Faça um levantamento, inventário e classificação de possíveis bens culturais na sua cidade. Utilize as informações e classificações da UNESCO e do IPHAN acerca do patrimônio cultural. 36 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 36 27/11/2006 17:34:59 Patrimônio Cultural e Turismo I 2. Compartilhe com o grupo uma reportagem num periódico estadual ou nacional, denunciando o descaso com o patrimônio cultural. 3. Com base no que foi estudado, registre sua opinião acerca da importância da preservação do patrimônio material e imaterial. 4. Compare o conceito de patrimônio do século XIX com o da atualidade. Estabeleça diferenças e semelhanças a partir do que foi estudado na unidade. Unidade 1 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 37 37 27/11/2006 17:35:00 Universidade do Sul de Santa Catarina Saiba mais Para aprofundar seus conhecimentos leia: ABREU, Regina e CHAGAS, Mário (orgs.). Memória e patrimônio: ensaios contemporâneos. Rio de Janeiro: DP&A, 2003. CAMARGO, Haroldo Leitão. Patrimônio Histórico e Cultural. 2ª. ed. São Paulo: Aleph, 2002. (Coleção ABC do Turismo). FUNARI, Pedro Paulo e PINSKY, Jaime (orgs.). Turismo e patrimônio cultural. 3ª. ed. São Paulo: Contexto, 2003. KERSTEN, Márcia Scholz de Andrade. Os rituais do tombamento e a escrita da História. Curitiba: ed. da UFPR, 2000. LEMOS, Carlos A. C. O que é patrimônio histórico. Brasiliense: São Paulo, 2000. (Coleção Primeiros Passos). 38 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 38 27/11/2006 17:35:00 UNIDADE 2 Interfaces do Patrimônio Cultural 2 Objetivos de aprendizagem Estudar a definição e classificação de bens culturais, tanto materiais como imateriais. Compreender a relação dos monumentos e museus no processo de conservação do patrimônio histórico. Analisar a invenção da cidade histórica e sua interface com as atividades do turismo. Seções de estudo Seção 1 Bens culturais: definições, classificações e chancela Seção 2 Qual o papel dos monumentos e museus Seção 3 A cidade histórica Seção 4 Conservação e preservação patrimonial patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 39 27/11/2006 17:35:00 Universidade do Sul de Santa Catarina Para início de estudo Com o estudo da unidade 1 você pôde observar a formação da idéia de patrimônio histórico no Brasil no século XIX e, como nas primeiras décadas do século XX foi criado o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Também pôde identificar como esse órgão do Governo Federal instituiu e definiu uma noção de patrimônio histórico. Nesta unidade, você terá continuidade dessa discussão aprofunda-se em quatro importantes questões em relação ao Patrimônio Histórico. Primeiramente, você terá a oportunidade de estudar Organização das Nações Unidas para Ciência e Cultura (UNESCO), Este órgão é ligado às Nações Unidas (ONU) e, além de desenvolver políticas de desenvolvimento na área da educação patrimonial, também atua na promoção e proteção das manifestações culturais e dos bens culturais materiais espalhados pelo mundo. Estudará ainda nesta unidade como se classificam, no Brasil, os bens materiais e imateriais e quais as políticas públicas que orientam esta área. Além disso, você poderá verificar que papel desempenha os monumentos e os museus, no processo de construção da nacionalidade brasileira, ou mesmo na construção de identidades regionais. O terceiro item a ser discutido nesta unidade, relaciona-se ao tombamento de sítios urbanos e a constituição do patrimônio histórico nas cidades. Com a tendência turística dos sítios históricos e arqueológicos, bem como a necessidade de manutenção das características estéticas e artísticas dos lugares históricos, na última seção você irá estudar como e quais são os mecanismos de preservação do patrimônio histórico. Com esses instrumentos conceituais, você poderá identificar a dinâmica que se pode estabelecer entre o patrimônio histórico e as atividades do turismo. Ao estudar essa unidade, você será capaz de compreender, além das classificações e definições sobre o patrimônio Histórico, a importância desse recurso na economia do turismo. Vamos lá, então? 40 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 40 27/11/2006 17:35:00 Patrimonio Cultural e Turismo I SEÇÃO 1 – Bens culturais: definições, classificações e chancela Você já visitou algum espaço arquitetônico ou participou de algum evento folclórico como o carnaval, boi de mamão, terno de reis, a congada, tambor de crioula, festa dos bois encantados ou caprichoso no Amazonas? Certamente, se não esteve em todos estes acontecimentos, teve oportunidade de ter alguma forma de contato, não é mesmo? Se nunca viu pessoalmente, pela televisão com certeza já presenciou este tipo de manifestação. Pois bem, é importante que você saiba que, tanto esses lugares, como estas manifestações são consideradas bens culturais. Segundo Cleide Cristina Caldeira os “bens culturais” são “produtos concretos do homem, resultantes da sua capacidade de convivência com o meio ambiente, tais como objetos artísticos e/ ou históricos, por exemplo: construções, obras plásticas, literárias e musicais.” (CALDEIRA, 2006, p.91) Estes bens culturais, ao se tornarem importantes para uma comunidade, região ou país, são investidos de valorização e significação. Em outras palavras, a iniciativa pública e/ou privada passa a conceber esses bens como evidências que caracterizam grupos ou nações. A partir deste momento, quando podemos identificar a ocorrência desse processo de valorização, tem-se um investimento pelo cadastramento, conservação e preservação deste bem, sejam eles materiais como igrejas, sítios arqueológicos, fortalezas e museus, ou sejam eles imateriais como danças, músicas, rituais ou saberes. Uma das primeiras iniciativas no processo de valorização e proteção desses bens ocorre através de um inventário, que consiste no levantamento e na identificação do bem cultural. Esta pesquisa procura divulgar e garantir a preservação através de ações de proteção como o tombamento. Unidade 2 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 41 41 27/11/2006 17:35:00 Universidade do Sul de Santa Catarina No Brasil, como teve oportunidade de ver na unidade 1, o órgão competente para avaliação dos bens nacionais é o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o IPHAN. Em âmbito mundial o órgão que chancela os bens culturais é a Organização das Nações Unidas para Ciência e Cultura – UNESCO, fundada em 1945. Hoje a instituição reúne mais de 191 Estados Membros, que se reúnem a cada dois anos, em sua Conferência Geral, para discutir e deliberar sobre importantes questões relacionadas as suas funções. Este órgão desempenha um importante papel que não se restringe à área de preservação do patrimônio cultural e natural. Ele também promove pesquisa, reflexões e reuniões com os governos, dirigentes e especialistas dos países que o integram com o objetivo de aprofundar o exame de temas vitais para o futuro das sociedades e da proteção da diversidade cultural mundial. Quando foi criada, logo após a II Guerra Mundial em 1945, a UNESCO tinha como finalidade acompanhar o desenvolvimento mundial e auxiliar os países em desenvolvimento. Todavia, a complexidade do mundo contemporâneo exigiu que a UNESCO ampliasse seu campo de atuação e se envolvesse com ações como: Educação, Ciências Naturais, Humanas e Sociais, Cultura, Comunicação e Informação. No que diz respeito ao Patrimônio Mundial, a UNESCO, a partir de 1972, com a Convenção, passou a definir, classificar e proteger o patrimônio mundial cultural e natural. Nessa carta conhecida como Convenção, podemos verificar o conceito de Patrimônio Cultural instituído pela UNESCO. Para a Instituição, o “Patrimônio cultural é composto por monumentos, grupos de edifícios ou sítios que tenham valor histórico, estético, arqueológico, científico, etnológico ou antropológico”. Como “Patrimônio Mundial” a UNESCO define todos os bens que possuam um caráter excepcional. Ao considerarmos o “Patrimônio” como um bem herdado do passado, investimos ele com um significado de “referência”. Em outras palavras, tornamos o “Patrimônio” insubstituível para nossa identidade, portanto cabe a nós a efetiva defesa na preservação e divulgação deste legado cultural. 42 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 42 27/11/2006 17:35:01 Patrimonio Cultural e Turismo I Pelo seu caráter único, o “Patrimônio Mundial” é um bem que pertence a todos os povos do mundo, independentemente do território em que estejam localizados. Todavia, esta característica não infringe a soberania dos estados em que se localizam estes sítios históricos ou as manifestações humanas, mas torna a proteção uma responsabilidade da comunidade internacional que deve cooperar no processo de salvaguarda do bem (hipertexto – explicar). Dentre os bens considerados “Patrimônio Mundial da Humanidade”, localizados no Brasil, podemos citar a Cidade Histórica de Outro Preto, incluída em 1980, a Cidade Histórica de Olinda em 1982, Brasília em 1987 e o Parque Nacional da Serra da Capivara, em 1991. Na vizinha Argentina estão incluídos na lista do “Patrimônio Mundial da Humanidade” o Parque Nacional do Iguaçu em 1984 e a Caverna de Las Manos, Rio Pinturas, em 1999. Nos Estados Unidos são considerados bens da humanidade, entre outros, a Estátua da Liberdade, incluída em 1984, e o Parque Nacional do Grande Canyon inscrito em 1979. No Egito, país onde o turismo histórico é uma das principais fontes de divisas, há apenas cinco sítios inscritos e considerados “Patrimônio Mundial da Humanidade”. Todavia, estes bens incluem conjuntos ou cidades inteiras que perfazem uma extensa região. Alguns exemplos são: uma das antigas capitais do Império Egípcio, Tebas e sua necrópole inscritos em 1979, o Cairo Islâmico incluído em 1979, Menfis e sua necrópole que compreende as Pirâmides de Guizé incluída em 1979. Além destes lugares conhecidos mundialmente, os Monumentos Abou Simbel e Abou Mena foram inscritos como “Patrimônio Histórico da Humanidade”. Todos os bens listados foram inscritos e avaliados por comissões técnicas da instituição, formadas por representantes de 21 países. Ainda que sejam considerados “Bem Mundial”, a responsabilidade de proteção e conservação é uma competência do país onde se localizam. Todavia, a instituição UNESCO pode apoiar ações de proteção e divulgação, bem como pesquisa e financiamentos para ações de preservação. Unidade 2 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 43 43 27/11/2006 17:35:01 Universidade do Sul de Santa Catarina Porém, a ação do tempo, da poluição ambiental causada pelo homem, das guerras e, sobretudo, de ações predatórias decorrentes da atividade turística vêm gradativamente ameaçando esta herança do passado. O IPHAN, por sua vez, mantém, desde 1997, uma lista dos“Bens Culturais Procurados”. O objetivo do Instituto é devolver aos lugares de origem as obras de arte furtadas ou desviadas de forma ilegal. A UNESCO acompanha através da Lista do Patrimônio Cultural ou Natural em Perigo, os bens que podem ser excluídos do “Patrimônio Mundial”. A conservação, portanto, deve administrar e atuar no sentido de manter as características e qualidades que justificam a permanência de determinado bem na lista do Patrimônio Mundial. Além disso, existem medidas adotadas para preservá-los e também esforços realizados para aumentar o conhecimento e, conseqüentemente, o interesse do público pelo patrimônio cultural e natural. No caso do Brasil, diversas localidades como a Cidade Histórica de Outro Preto já foram ameaçadas de terem suas inscrições canceladas no “Patrimônio Mundial”. Algumas medidas de proteção exigem esforços coordenados dos órgãos públicos e das agências não governamentais. Ações de preservação podem incluir: a limitação de visitação, a proibição do uso de equipamentos eletrônicos, a proibição de circulação de transporte no entorno do sítio ou mesmo a substituição dos conjuntos originais por cópias reproduzidas, como no caso das estátuas dos Profetas de Aleijadinho na Igreja em Congonas do Campo. A UNESCO define “Patrimônio Cultural Imaterial” os usos, as representações, expressões, conhecimentos e técnicas, objetos e artefatos da cultura humana. Este amplo conceito da UNESCO afirma ainda que estas configurações são expressas através das tradições, da cultura oral, dos usos sociais, dos rituais, das festas e dos conhecimentos sobre a natureza e sobre mundo transmitidos pelas gerações. Assim como o IPHAN, que veremos mais adiante, a UNESCO também classifica “bens imateriais”. A definição de “Obra-prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade”, incluída em uma nova classificação patrimonial da UNESCO em 1997, considera “bens imateriais” os espaços ou locais onde são regularmente produzidas expressões culturais e manifestações da cultura tradicional e popular. Essa distinção objetiva alertar a comunidade internacional para a importância dessas manifestações e a necessidade de sua salvaguarda, uma vez que compõem a diversificada herança cultural da humanidade. (incluir bens brasileiros considerados mundiais). O Brasil teve em 2003 a Arte Kusiwa - Pintura 44 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 44 27/11/2006 17:35:01 Patrimonio Cultural e Turismo I corporal e Arte gráfica Wajãpi inscrita à lista das Obras-primas da Humanidade. Além deste, em 2005, o país foi contemplado com a inscrição do Samba de Roda no Recôncavo Baiano. Estes bens, além de serem divulgados internacionalmente, tornam-se objetos de estudo e de políticas de preservação. Nesse sentido, a cooperação da UNESCO no Brasil e no mundo deve privilegiar atividades no âmbito da pesquisa científica, da valorização local desses bens, da integração das comunidades envolvidas no processo de revitalização e preservação do bem cultural e, por fim, do desenvolvimento do turismo cultural. Como você teve oportunidade de estudar, a compreensão de patrimônio cultural se estende também à memória e as manifestações culturais. Estes bens intangíveis, criados e recriados em um processo constante de interação e influências, devem ser entendidos como elementos de ligação em uma comunidade ou mesmo em um país. Para grupos em que o registro da história não se efetua através de suportes materiais como a imprensa e os livros, a salvaguarda dos bens imaterais torna-se de fundamental importância na constituição de uma vida comunitária. Entre as minorias étnicas e os povos indígenas, por exemplo, a inscrição e registro de expressões culturais como “Patrimônio Imaterial da Humanidade” é uma oportunidade que se abre a todos para conhecer esses bens. E, é claro, a inscrição assegura a criação de mecanismos e políticas públicas para a defesa da diversidade cultural e da pluralidade étnica e lingüística. Evidentemente, não basta a inscrição sem qualquer ação que assegure a continuação e transmissão destas manifestações. A UNESCO criou um sistema de catalogação chamado “Tesouros Humanos Vivos” com o objetivo de estimular os países a identificar pessoas que representem os aspectos essenciais da vida cultural de uma comunidade e de seu respectivo patrimônio cultural. De certa forma, a concepção de patrimônio se aproxima daquela apontada por Néstor Garcia Canclini que define o termo a partir da seguinte reflexão: Unidade 2 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 45 45 27/11/2006 17:35:02 Universidade do Sul de Santa Catarina (...) patrimônio não inclui apenas a herança de cada povo, as expressões ‘mortas’ de sua cultura - sítios arqueológicos, arquitetura colonial, antigos objetos em desuso -, mas também os bens culturais, visíveis e invisíveis: novos artesanatos, línguas, conhecimentos, documentação e comunicação do que se considera apropriado através das indústrias culturais. (CANCLINI, N. G. 1994, p. 95). No Brasil, desde agosto de 2000, a criação do Programa Nacional do Patrimônio Imaterial visa a fomentar e estabelecer parcerias com os governos federal, estadual e municipal, além de organismos não governamentais para o desenvolvimento de pesquisa e promoção da dimensão imaterial do patrimônio cultural. Mais especificamente, o programa tem como objetivos: a) implementar política de inventário, registro e salvaguarda de bens culturais de natureza imaterial; b) contribuir para a preservação da diversidade étnica e cultural do país e para a disseminação de informações sobre o patrimônio cultural brasileiro a todos os segmentos da sociedade; c) captar recursos e promover a constituição de uma rede parceiros com vistas à preservação, valorização e ampliação dos bens que compõem o patrimônio cultural brasileiro; d) incentivar e apoiar iniciativas e práticas de preservação desenvolvidas pela sociedade. Para o IPHAN, os bens de natureza imaterial são compreendidos da seguinte forma: a) os saberes ou modos de fazer são atividades desenvolvidas por atores sociais conhecedores de técnias e de matériasprimas que identificam um grupo social ou uma localidade; b) as celebrações são ritos e festividades associados à religiosidade, à civilidade e aos ciclos do calendário, que participam fortemente da produção de sentidos específicos de lugar e de território; 46 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 46 27/11/2006 17:35:02 Patrimonio Cultural e Turismo I c) as formas de expressão são formas não-linguísticas de comunicação associadas a determinado grupo social ou região, traduzidas em manifestações musicais, cênicas, plásticas, lúdicas ou literárias; d) lugares são espaços onde ocorrem práticas e atividades de naturezas variadas, tanto cotidianas quanto excepcionais, e constituem referência para a população. e) no Brasil apesar de toda a diversidade cultural entre as regiões há apenas 7 registros de bens imateriais. São eles: Arte Kusiwa Círio de Nazaré Jongo Modo de Fazer Viola-de-Cocho Ofício das Baianas de Acarajé Ofício das Paneleiras de Goiabeiras Samba de Roda no Recôncavo Baiano Por sua vez, como o registro e a pesquisa de bens materiais já ocorrem no Brasil desde a década de 1930, a proteção e a preservação destes bens culturais contam com uma política de salvaguarda bastante dinâmica. Como bem de natureza material o IPHAN considera o conjunto de bens culturais classificados de acordo com a sua natureza em quatro Livros Tombo, a saber: Patrimônio Arqueólogico, Paisagístico e Etnográfico (119 Bens Tombados); Patrimônio Histórico (557 Bens Tombados); Belas Artes (682 Bens Tombados); Artes Aplicadas (4 Bens Tombados). Esta classificação ainda se divide em bens imóveis como os núcleos urbanos, sítios arqueológicos e paisagísticos e bens individuais; e móveis como coleções arqueológicas, acervos museológicos, documentais, bibliográficos, arquivísticos, videográficos, fotográficos e cinematográficos. Evidentemente, além da legislação específica que protege o diversificado e valioso acervo do Patrimônio Nacional, a preservação requer ainda o processo de tombamento do bem material que consiste em um ato administrativo realizado pelo poder público, nos níveis federal, estadual ou municipal, por Unidade 2 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 47 47 27/11/2006 17:35:02 Universidade do Sul de Santa Catarina meio do IPHAN e começa pelo pedido de abertura de processo, por iniciativa de qualquer cidadão ou instituição pública. O tombamento objetiva preservar bens de valor histórico, cultural, arquitetônico, ambiental e também de valor afetivo para a população, impedindo a destruição e/ou descaracterização de tais bens. É claro que a política de conservação além de impedir o processo natural de deterioração dos bens materiais, como sítios arquitetônicos e arqueológicos, visa ainda a tornar possível a investigação científica através do mapeamento e estudo concernente àquele acervo. O tombamento pode ainda ser aplicado aos bens móveis e imóveis, de interesse cultural ou ambiental. Em outras palavras, ele não se restringe a grandes sítios, mas também a fotografias, livros, mobiliários, utensílios, obras de arte, além de edifícios, ruas, praças, cidades, regiões, florestas, cascatas etc. Com efeito, o tombamento somente ocorre quando determinado bem é compreendido como sendo de interesse para a preservação da memória coletiva. Segundo o IPHAN, o processo de tombamento, após avaliação técnica preliminar, é submetido à deliberação dos órgãos responsáveis pela preservação. Caso seja aprovada a intenção de proteger um bem cultural ou natural, é expedida uma notificação ao seu proprietário. Onde o bem já se encontra protegido legalmente, até que seja tomada a decisão final. O processo termina com a inscrição no Livro Tombo e comunicação formal aos proprietários. (http://portal.iphan.gov.br) É interessante você saber que o Brasil possui uma das mais ricas coleções de Sítios Urbanos que data do início da colonização portuguesa. Estes locais apresentam uma diversidade de estilos arquitetônicos que revelam singularidades regionais e diferenças na ocupação territorial. O uso de diferentes padrões de construção, a irregularidade dos calçamentos, o detalhamento ou a austeridade nas fachadas, a sinuosidade das ruas são algumas características desses lugares que no passado tiveram um uso determinado. Com o crescimento das cidades provocado, sobretudo, pela migração e pela industrialização nos anos de 1950 e 1960, estes Sítios Urbanos passaram por diversas intervenções no plano arquitetônico. 48 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 48 27/11/2006 17:35:03 Patrimonio Cultural e Turismo I Nesse sentido, o tombamento desses lugares representa uma possibilidade de assegurar ao futuro uma rica herança no que diz respeito as diferentes formas de construção. Segundo a definição do IPHAN, os Sítios Urbanos devem ser compreendidos como “bens patrimoniais autônomos que demandam instrumentos próprios de análise e critérios de intervenção adequados a essa especificidade”. Diferentemente das artes plásticas, por exemplo, estes bens não são obras de arte prontas e concluídas num determinado período. Os Sítios Urbamos possuem natureza dinâmica e mutante típica das áreas urbanas em constantes intervenções. Por região, encontramos os seguintes Sítios Urbanos tombados: Sudeste Nordeste Centro-Oeste Sul Norte Belo Horizonte (MG) Caeté (MG) Cataguazes (MG) Congonhas (MG) Diamantina (MG) Itaverava (MG) Mariana (MG) Nova Era (MG) Ouro Preto (MG) Piranga (MG) São João del Rey (MG) Serro (MG) Tiradentes (MG) Angra dos Reis (RJ) Cabo Frio (RJ) Nova Friburgo (RJ) Niterói (RJ) Paraty (RJ) Petrópolis (RJ) Rio de Janeiro (RJ) Vassouras (RJ) Carapicuiba (SP) Jundiaí (SP) São Paulo (SP) Penedo (AL) Piranhas (AL) Andaraí (BA) Cachoeira (BA) Ilha de Itaparica (BA) Lençóis (BA) Monte Santo (BA) Mucugê (BA) Porto Seguro (BA) Rio de Contas (BA) Salvador (BA) Santa Cruz de Cabrália (BA) Aracati (CE) Icó (CE) Sobral (CE) Viçosa (CE) Alcântra (MA) São Luís (MA) Igarassu (PE) Olinda (PE) Recife (PE) Laranjeiras (SE) São Cristóvão (SE) Brasília (DF) Goiânia (GO) Goiás (GO) Pilar de Goiás (GO) Pirenópolis (GO) Cuiabá (MT) Corumbá (MS) Lapa (PR) Antônio Prado (RS) Porto Alegre (RS) Laguna (SC) São Francisco do Sul (SC) Belém(PA) Natividade (TO) Como você pode identificar no quadro acima, encontramos espalhados por quase todos os estados brasileiros, um farto número de Sítios Urbanos com valor histórico segundo a classificação do IPHAN, seja por sua singularidade arquitetônica como no caso de Brasília, por sua antigüidade como por exemplo Laguna ou por seu rico e exuberante valor arquitetônico como Ouro Preto. Unidade 2 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 49 49 27/11/2006 17:35:03 Universidade do Sul de Santa Catarina SEÇÃO 2 – Qual o papel dos monumentos e museus? Não é novidade para você que o museu é o local que guarda a história dos povos, não é mesmo? Ele protege em seu interior a gênese, as raízes e o simbolismo dos acontecimentos memoráveis das civilizações. Como promotor da cultura das nações, os museus com sua incomensurável massa de dados históricos, inspiram o homem a uma reflexão retrospectiva do seu passado histórico em perspectiva com o seu futuro. O curador de um museu deve ter a vocação do historiador para poder transmitir aos apreciadores desses relicários, o significado e a importância de cada peça no contexto histórico, despertando curiosidades às gerações que seguem seu curso. Logo, você há de concordar que são os museus os centros mais representativos da educação dos povos. São as salas de recepção cultural de uma cidade ou de uma localidade. Desprezá-los implica em desconsiderar aqueles testemunhos que foram selecionados e catalogados para a exposição. Segundo Cristina Caldeira “no século XVIII, grandes descobertas arqueológicas aconteceram (como as de Herculano em 1738, de Pompéia em 1748 e de inúmeras tumbas egípcias). Em função dessas descobertas, diversas pilhagens ocorreram – principalmente por parte da Inglaterra, da França e da Alemanha. Com essas pilhagens várias coleções de museus foram acrescidas a diversos museus foram criados.” (CALDEIRA, 2006, p.92) Por sua vez, Isis Baldini.Elias destaca que “o primeiro museu a ser fundado, com o produto dessas pilhagens, foi o British Museum (1753), em Londres, para onde foram transportados todos os mármores do Parthenon, seguido pelo Museu do Prado (1787) em Madri e pelo Museu do Louvre (1793), em Paris, onde se encontram expostas várias esculturas que foram apropriadas indevidamente por Napoleão, durante a ocupação francesa em Roma (ELIAS, 2002, p. 20-21).” O Conselho Internacional de Museus (ICOM) assim se expressou na conferência de Haia, em 1989: 50 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 50 27/11/2006 17:35:03 Patrimonio Cultural e Turismo I O Museu é urna instituição permanente, sem fins lucrativos, a serviço da sociedade e de seu desenvolvimento, aberta ao público, que realiza pesquisas referentes aos testemunhos materiais do homem e de seu meio ambiente, adquirindo-os, conservando-os, comunicando-os e, principalmente, expondo-os com fins de estudo, educação e deleite. De acordo com o ICOM, o museu é uma instituição permanente, sem finalidade lucrativa a serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, aberta ao público que realiza pesquisas, com a finalidade de educação e usufruto. Nesta definição estão inclusos institutos de preservação; galerias de exposição permanente; bibliotecas e centros de documentação; sítios e monumentos arqueológicos, etnográficos e culturais; sítios e monumentos históricos que tenham natureza de museu. Sobre isto, também o historiador inglês Eric Hobsbanwm escreveu: A destruição do passado é um dos fenômenos mais lúgubres do final do século XX. Há uma preocupação generalizada com esse sintoma de destruição indícios da cultura. A evidência disto é o fato de que os países mais ricos há alguns anos investem consideráveis somas na pesquisa, catalogação e acodincionamento apropriada dos acervos museológicos. Essas medidas de preservação visam garantir o acesso universal aos documentos do passado. Os museus não são valorizados em seu conjunto, além de faltar recursos e pessoal especializado para o desenvolvimento das tarefas. Exemplo disso são os últimos assaltos e roubos que tem acontecido em diversas instituições, como na Biblioteca Nacional e o caso das fotos históricas do Rio de Janeiro de Marc Ferrez. Além disso, em fevereiro de 2006, o Museu Chacará do Céu, no Rio de Janeiro, teve valiosas peças do seu acervo roubadas, entre as quais: A Dança, de Pablo Picasso; Dois Balcões, de Salvador Dali; Marina, de Claude Monet; e Jardim de Luxemburgo, de Henri Matisse (fotos abaixo), além do livro Toros, com poemas de Pablo Neruda e ilustrações de Picasso. Outra particularidade dos museus brasileiros é a transitoriedade do pessoal responsável, normalmente pessoas que ocupam estes Unidade 2 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 51 51 27/11/2006 17:35:03 Universidade do Sul de Santa Catarina cargos por indicação política, tendo mandados efêmeros, que não contribuem para a cultura nem para a preservação destes locais. E na antiguidade, existiam locais que se preocupavam em manter locais que guardassem a história dos povos? Durante a antigüidade clássica grega já existiam locais que guardavam a história. Eles eram chamados de Museion e agregavam peças, mas sua função nunca foi bem definida. Por muitos séculos coleções particulares de vários tipos de objetos foram as formas que o homem encontrou para preservar a memória material. A primeira construção com a finalidade de museu foi a galeria Ufizzi, em Florença, que previa um andar térreo para os escritórios administrativos da cidade e um primeiro andar para as obras de arte da família Médici, no século XVI. Os primeiros museus no Brasil surgem no século XIX. De fato, o país, ainda colônia, passou a se desenvolver apenas com a chegada da família real, em 1808. Entre as primeiras medidas impostas pelo regente D. João VI está a criação de um jardim botânico no Rio de Janeiro e, alguns anos depois, a criação da primeira universidade. Durante este período, o país recebera a visita de muitos naturalistas. Eram homens da ciência que estudavam, sobretudo, a história natural através da biologia e botânica. Mas ao redor do mundo, a partir da segunda metade do século XIX, descobremse os tesouros do Egito e uma nova ciência é discutida: a arqueologia e com ela a necessidade da preservação dos indícios de culturas já extintas ou da própria cultura, como forma de manter e estudar o passado histórico. Você sabia? Que o próprio rei D. Pedro II era um apreciador de arte e de peças históricas, tendo viajado ao Egito e recebido presentes históricos daquela cultura, que hoje estão em museus no Rio de Janeiro? 52 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 52 27/11/2006 17:35:04 Patrimonio Cultural e Turismo I Durante o século XX, o conceito de museu passou por uma revisão. Começou a questionar-se o papel desta instituição na sociedade, que por séculos foi a guardiã dos tesouros da classe dominante, principalmente obras de arte e objetos exóticos obtidos em saques de guerra ou em viagens de conquista. A partir da década de 50 do século XX, os museus começaram a procurar um futuro útil para si mesmos e para a sociedade. Destacam-se aqui estudiosos franceses, como Georges Bazin e Marcel Evrard que questionaram os museus e sua função. É importante notar que as modificações se manifestaram, sobretudo, a partir da década de 1970. A instituição museu passou a enxergar o homem em seu contexto histórico-cultural, tecendo considerações sobre a cidadania, a autonomia do homem enquanto agente ativo das produções históricas, e não mais como sendo o grande personagem da história. As inovações buscaram uma ruptura com o museu tradicional e suas imagens, intensificando a relação com o público. Você Sabia? A partir do aprimoramento dos conceitos de restauro consolidaram-se os procedimentos advindos da responsabilidade social do mundo pós Segunda Guerra com referência à conservação preventiva. Após a Segunda Guerra Mundial a comunidade de conservadores e restauradores era suficientemente numerosa para estabelecer suas próprias organizações. (ELIAS, 2002, p. 39). Foram criadas várias associações de classe internacionais, nacionais, regionais, municipais, de materiais específicos, tais como o International Institute for Conservation of Historic Objects and Works of Art (IIC), em 1950, e o United Kingdom Institute for Conservation (UKIC), em 1953. Os museus de arte foram os primeiros a despertar para a necessidade de educar, através de experiências inovadoras. Durante a década de 1980, no Brasil, após vários congressos sobre patrimônio cultual, a imagem do museu sobressaiu ainda. Esta imagem passou a ser mais ativa na busca de novos objetivos, utilizando-se novos espaços e aprimorando-se a visão Unidade 2 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 53 53 27/11/2006 17:35:04 Universidade do Sul de Santa Catarina entre sistema e ambiente, de uma maneira total, englobandose o artificial e o natural, ou seja: a história e a natureza, respectivamente. Os museus e o turismo: qual a relação? Na Europa as visitas aos museus fazem parte de um roteiro obrigatório do turismo. É quase uma tarefa sagrada visitar Paris e conhecer o Louvre. Observe que no Brasil, embora o museu não seja um objeto utilizado de forma completa, seja para a educação, para a comunidade ou para o lazer, sua importância cresce a cada dia dentro do planejamento turístico. Durante o século XX o conceito de museu evoluiu, deixando a idéia geral de ser um depósito de coisas velhas para se tornar um exemplo e demonstrativo da memória cultural de um povo. Com o apoio da tecnologia, muitos museus investiram em multimídia, alcançando assim um público maior. Logo, as atividades ligadas à documentação, exposição, conservação e transportes de acervos e segurança, passaram a conviver com softwares e redes internas para sistemas de museus. Na Europa os museus e o patrimônio histórico em geral são um atrativo turístico por excelência. Logo, o museu passou a ser um complemento necessário do turismo, fonte de renda econômica, superando preconceitos. Esta idéia propiciou a disseminação da idéia do museu aberto, não no sentido arquitetônico, mas na concepção de que ele aproxima as causas sociais. Podemos afirmar, também, que nos últimos anos também se compreende o valor que museus menores e menos consagrados possuem. Se anteriormente os museus mais famosos eram incluídos nos roteiros turísticos, hoje é possível investir em museus menores. Além do mais, os museus concentram no 54 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 54 27/11/2006 17:35:04 Patrimonio Cultural e Turismo I turismo uma fonte de sustentação com a venda de ingressos, souvenires, catálogos, reproduções e réplicas de obras expostas. Mas esta foi uma dura tarefa. Diretores e curadores de museus permaneceram por algum tempo irredutíveis em suas concepções e com dificuldade as novas transformações foram aceitas. A este respeito, complementa Barreto (2001). Para o turista consumidor de cultura, assim como para a população local, esse processo de integração do museu ao cotidiano nas formas de exposição só tem trazido ganhos, já que nos museus podese ter acesso a informações de cunho científico baseadas em pesquisas, que podem se contrapor às informações veiculadas pela mídia ou pela propaganda (BARRETO, 2001, p.55). A partir da década de 80, novas instituições uniram-se a museus e são reconhecidas pelas suas funções: zoológicos, centros de cultura, arquivos, bibliotecas, memoriais, fazendas históricas, parques temáticos, parques safári e muitos deles estão incluídos na definição da ICOM de museu, vista anteriormente. Assim, a palavra museu adquiriu novo significado e “é provável que seja um termo chave dentro deste debate que levanta o significado de viver em um continente velho e um novo. Não o museu no sentido estreito de um prédio ou uma instituição em particular, mas como uma metáfora potente e com um meio por onde as sociedades representam as suas relações com sua própria história e desta com outras culturas”. (http://www.revistamuseu.com.br/artigos/art_ .asp?id=1117). Unidade 2 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 55 55 27/11/2006 17:35:05 Universidade do Sul de Santa Catarina SEÇÃO 3 – A cidade histórica O conceito de cidade é relativamente recente. Em meados do século XVIII com o lançamento da Enciclopédia de Diderot e D’Alambert, o verbete “cidade” traz uma parca explicação ao descrever as cidades existentes como um conjunto de várias casas dispostas em ruas e cercadas por uma cinta comum, composta em geral por muros e fossas. Sobre sua construção, o verbete dá apenas a instrução de que deveriam ser belas, que todas as ruas conduzissem às portas e que as ruas fossem paralelas, de modo que as suas esquinas formassem ângulos retos. De fato, após o terremoto de Lisboa em 1755, a reconstrução da cidade obedece a alguns destes preceitos. Durante o século XIX, os planos para as cidades adquirem aspectos mais funcionais, relacionados aos problemas sociais e com a intenção de conciliar a industrialização com o processo crescente. Mas é somente no início do século XX que o urbanismo encontra a sua configuração completa. E neste ínterim existe a necessidade de relacionar o novo com o antigo, de integrar aquilo que é velho na nova paisagem. No Brasil, como visto anteriormente, este processo é marcado em 1937 com a lei sobre o tombamento. Neste processo onde o novo substitui o velho, os pesquisadores admitem que exista um processo de abandono dos núcleos urbanos criados, transferindo as ações do antigo para o novo núcleo. Exemplos simples e interessantes são a Avenida Paulista e o Pelourinho. Estes casos serão tratados mais adiante, mas foram locais que em determinado período serviram como local de moradia das elites agro-exportadoras e que sofreram um momento de abandono e degradação. Assim sendo, nesta idéia de núcleos urbanos, abandono e criação de novos espaços, as cidades históricas podem ser divididas em cinco tipologias, definidas pela pesquisadora Bárbara Freitag: 56 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 56 27/11/2006 17:35:05 Patrimonio Cultural e Turismo I cidades históricas que foram abandonadas, descuidadas ou estão em ruínas, como Alcântara no Maranhão e São Miguel (dos 7 Povos das Missões) no RS; cidades históricas esquecidas, que sobrevivem intocadas às intempéries do tempo e à margem da fúria modernista. Estas cidades estão sendo descobertas recentemente e estão se transformando em paradouros do turismo. Exemplos: Parati, Tiradentes, Olinda; cidades históricas construídas no período colonial, sitiadas, invadidas, destruídas e revitalizadas pela modernidade. São as grandes cidades do país, representadas pelas capitais de Salvador, Recife, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre; cidades sem história, projetadas em territórios vazios por arquitetos e urbanistas; cidades normalmente jovens sem passado histórico e caracterizadas pela inventividade e originalidade. Exemplos: Marília, Belo Horizonte, Brasília. cidades utópicas, ao contrário das cidades sem história, Cujos projetos urbanísticos não saíram do papel. Exemplos como as modernizações propostas nos grandes centros urbanos e que nunca tomaram corpo. Destas tipologias, os modelos que merecem maiores comentários são os três primeiros. Os dois últimos modelos por não terem um passado histórico ou por não terem saído do passado não merecem ser citados. No primeiro caso, as cidades mortas receberam atenção apenas recentemente. É o caso de São Miguel dos Sete Povos, abandonada e destruída após a Guerra Graranítica. Nas ruínas das missões existe hoje um museu projetado por Lúcio Costa que abriga o maior acervo de peças produzidas por indígenas na América Colonial. Em 1750 espanhóis e portugueses assinaram o “Tratado de Madri”. Ele era um tratado de limites territoriais em que a Província Cisplatina (de colonização portuguesa), hoje o Uruguai, foi trocada pelo atual Estado do Rio Grande do Sul, colonizado pelos padres jesuítas espanhóis durante o século XVII, com a criação das missões ou reduções indígenas. Por imposição do tratado, essas reduções deveriam ser dissolvidas e transferidas para território uruguaio e paraguaio. Os guaranis associados aos jesuítas não quiseram submeter-se a esta arbitrariedade e resolveram lutar contra as tropas portuguesas e espanholas. Da antiga redução fundada no início do século XVIII somente restaram as ruías da nave principal e algumas celas de padres. No segundo caso, de cidades históricas esquecidas, foi o processo de enriquecimento e desenvolvimento destas cidades que acarretou seu esquecimento. Estas cidades foram em sua maioria fundadas devido às descobertas de jazidas de pedras preciosas e metais durante o século XVIII. No caso de Unidade 2 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 57 57 27/11/2006 17:35:05 Universidade do Sul de Santa Catarina Minas Gerais, levas de aventureiros, escravos, comerciantes e administradores da coroa portuguesa passaram a povoar a região. Com o esgotamento das minas ou a decadência de sua produção, muitas destas cidades foram esquecidas, mas nunca totalmente abandonadas. As cidades sobreviveram vegetando, praticamente intocadas, sendo redescobertas hoje e exploradas pelo turismo. No terceiro caso, de cidades históricas que continuaram a sua evolução e modernidade, existe o problema da integração dos centros históricos e sua revitalização. Atualmente a revitalização dos centros históricos promove uma intensa discussão que se polariza em dois opostos: de um lado a revitalização é vista como forma de revalorização e preservação de malhas urbanas abandonadas, através da sua identidade histórica; por outro, é vista como um processo econômico, que visa apenas à transformação dos centros históricos em simulacros, expulsando a população historicamente enraizada. Também a questão do tombamento de imóveis causa conflito entre proprietários e poder o público: os primeiros sentem-se prejudicados e acreditam que este processo inviabiliza o desenvolvimento local. Mas existem exemplos de projetos bem sucedidos na questão da valorização: as cidades européias de Bologna, Barcelona e Londres nos últimos trinta anos investiram nas iniciativas de proteção e reconfiguração dos centros urbanos históricos. Estes centros, considerados decadentes, foram revalorizados, através de projetos desenvolvidos por arquitetos renomados, incluindo estas áreas no roteiro turístico, como forma de torná-las um ‘cartão de visitas’ das respectivas cidades. O próprio conceito de centro histórico não ganhou atenção senão antes da Segunda Grande Guerra. Neste período, os centros passaram a receber a atenção de profissionais em busca de uma possível revitalização e revalorização. O conceito desenvolveuse a partir da necessidade de criar novos espaços de moradia 58 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 58 27/11/2006 17:35:05 Patrimonio Cultural e Turismo I e conveniência, além da transformação do papel do centro: As cidades conheceram, a partir de década de 50, a descentralização dos centros comerciais, com a criação de shopping centers em setores mais afastados da área central. O centro urbano passou então a ser definido como o caracterizador de uma comunidade expressando as suas raízes históricas e culturais. Desta forma, surge a necessidade de sua revitalização e conservação. O próprio conceito de centro passou a significar não só a área central de uma cidade, mas aglomerados urbanos que signifiquem algo dentro da história e cultura da comunidade, como o Centro Histórico de Salvador. Como foi possível observarmos, ao atribuirmos um sentido valorativo aos sítios históricos, torna-se, necessário assegurar garantias de preservação e acesso a esses lugares. Assim, poderemos verificar nos itens seguintes a importância de uma legislação patrimonial em que deve ser objetivado a pesquisa, a manutenção do acervo, o envolvimento da comunidade do entorno e o acesso administrado de forma sustentável. Recomendação de Nairóbi: O que é? A Recomendação de Nairóbi, oficializada pela Unesco em 1976, destaca-se pela iniciativa da definição de centros e a preservação do tecido histórico urbano. A carta fala especificamente da preservação de conjuntos históricos e que ela deve ser compatível com as exigências do mundo contemporâneo, apoiada pela administração local e municipal e pelos moradores das respectivas comunidades. A carta deixa claro que “conjuntos históricos ou tradicionais (...) onstituem a presença viva do passado que lhes deu forma, asseguram ao quadro da vida a variedade necessária para responder à diversidade da sociedade e (...) constituem através das idades os testemunhos mais tangíveis da riqueza e da diversidade das criações culturais (...) diante dos perigos da uniformização e da despersonalização que se manifestam constantemente em nossa época”. Unidade 2 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 59 59 27/11/2006 17:35:06 Universidade do Sul de Santa Catarina A história da Avenida Paulista está ligada ao desejo da elite cafeeira de possuir uma residência fixa na cidade que não estivesse localizada imediatamente próxima às regiões centrais da cidade. A Avenida foi aberta seguindo padrões urbanísticos relativamente novos para a época: seus palacetes possuíam regras de implantação que, como conjunto, caracterizaram uma ruptura com os tecidos urbanos tradicionais. Os novos palacetes incorporavam muitos elementos de arquitetura, tornando cada casa única e fazendo com que a Avenida ocupasse uma configuração espacial inédita na cidade. Durante a década de 50, os palacetes foram substituídos por lojas de comércio e escritórios. Mais tarde, iniciou-se o processo de construção dos “espigões” (edifícios com 30 andares em média), tornando o local perfeito para a especulação imobiliária. Atualmente, restam poucos casarões por toda a avenida Os conjuntos ou centros definidos pela Recomendação podem ser sítios pré-históricos, cidades históricas, bairros urbanos antigos, aldeias e lugarejos, bem como conjuntos monumentais. O documento também reserva um papel especial às características destes centros, como a comunidade local e a cultura estabelecida. As características devem ser consideradas em sua globalidade, como aquilo que traz equilíbrio e caráter especifico ao centro. Desta forma, todos os elementos são válidos, incluindo as atividades humanas que tem relação com o conjunto, ressaltando a necessidade do respeito. No Brasil, a descaracterização do centro urbano em relação às políticas de preservação é superior, ao passo que Recomendações como as de Nairóbi encontram pouca acolhida, já que o poder municipal é frágil e suas rendas provêm, sobretudo, dos impostos territoriais e prediais. O Tombamento Por falta de informação, o tombamento de imóveis é visto por muitos proprietários como uma forma de desapropriação pelo poder público. Assim, são freqüentes os casos de destruição de imóveis de alto valor, cujos proprietários não querem o tombamento. No entanto, é possível juntar patrimônio e lucro. A dificuldade que se encontra, no caso do tombamento, está relacionada também com a falta de divulgação do mecanismo, embora, como veremos a seguir, seja uma lei de 1937. Um dos casos mais famosos relativos a este processo foi a decisão do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo de realizar um levantamento com fins de tombamento na Avenida Paulista Ao divulgar seus resultados, muitos proprietários iniciaram a demolição dos imóveis, restando apenas poucos casarões de fato. A falta de informação é um dos fatores mais preocupantes nas ações de preservação do patrimônio cultural e arquitetônico. A exemplo da Avenida Paulista, diversas outras construções de valor histórico e cultural foram demolidas quando os proprietários descobriram que órgãos responsáveis estavam realizando levantamentos. Aqui fica claro que é necessário ver 60 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 60 27/11/2006 17:35:06 Patrimonio Cultural e Turismo I o tombamento com maior flexibilidade. Ele não pode mais ser visto como um instrumento que impossibilita ações no local protegido. Os proprietários devem e podem fazer intervenções a fim de melhorar a condição do imóvel, desde que elas sejam sujeitas à avaliação dos órgãos de preservação. Um exemplo que vem ocorrendo nas grandes cidades atualmente é contrapor o patrimônio histórico com locais destinados ao lazer. Muitos bairros antigos das capitais transformaram seus casarões em restaurantes, lojas e centros culturais, a fim de melhor aproveitar o imóvel tombado. Além de proporcionar a preservação do local, estas ações contribuem com a identidade da cidade e sua memória local. Outro exemplo ligado ao lazer é a criação de design hotéis. Este conceito surgiu numa área deteriorada e essencialmente urbana e foi resultado da reforma de um antigo hotel da Broadway, em Nova Iorque. Esta região no início dos anos 1990, enfrentou sérios problemas de degradação. Em São Paulo, no chamado centro velho, um hotel dos anos 40 foi reformado e é o primeiro estabelecimento brasileiro a entrar para esta categoria. Estes hotéis têm por princípio três características: possuir uma arquitetura radicalmente moderna, disponibilizar toda tecnologia hoteleira para o hóspede e oferecer um serviço personalizado. O resultado é um ambiente diferente dos hotéis convencionais, aliado à história da cidade e à preservação do patrimônio arquitetônico. Logo, o objetivo do tombamento não é congelar os imóveis, mas preservar alguns exemplos de um período importante no desenvolvimento histórico de uma cidade. Na maior parte dos casos, como dito através de exemplos, é possível harmonizar o uso moderno com a preservação. As cidades históricas preservadas e revitalizadas como Tiradentes e Parati, precisam estar atentas a seus futuros, para que não corram o risco de serem degradadas e destruídas pelos fluxos do turismo cada vez mais intensos. Além do mais, as cidades precisam tomar muito a sério o conceito de revitalização como forma de proteger o seu patrimônio da destruição e do esquecimento. Os locais históricos devem ser utilizados como Unidade 2 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 61 61 27/11/2006 17:35:06 Universidade do Sul de Santa Catarina museus, casas de cultura e locais de lazer, que possibilitem à população uma interação com o patrimônio e com a história do passado histórico que eles representam. SEÇÃO 4 – Conservação e preservação patrimonial Você já deve ter percebido até aqui que a preservação, a restauração e a revitalização dos centros e núcleos históricos têm sido nos últimos anos objetos de estudos e debates. Estes estudos têm abordado o problema, não só com uma visão mais direta, a da preservação e valorização dos acervos paisagísticos e arquitetônicos destes núcleos, como também em relação à disposição destes acervos na paisagem urbana e com a população, dentro de um contexto urbano-social. Nestes últimos anos muitas medidas legislativas e regulamentações específicas têm sido adotadas em muitos países. Resoluções e documentos de recomendações têm sido elaborados e divulgados. Organismos como a UNESCO - em âmbito internacional - e como o IPHAN e o próprio Ministério da Cultura em âmbito nacional têm tomado medidas representativas. No Brasil muitas cidades e algumas áreas urbanas estão, há muitos anos, legalmente protegidas como sendo de valor cultural ou paisagístico. No entanto, nestes núcleos vêm ocorrendo alguns problemas como o da desagregação progressiva de edificações, causados pelo envelhecimento e pela falta de manutenção, ou então pelo desuso ou uso inconveniente das características físicas da edificação. Por outro lado, a súbita exploração destes monumentos, seja pelo turismo ou pela população local, tem trazido uma série de problemas, que serão discutidos com maior atenção na Unidade III. 62 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 62 27/11/2006 17:35:07 Patrimonio Cultural e Turismo I O problema da preservação dos centros históricos não pode se constituir encargo exclusivo de um único órgão. Existe uma urgência de ações coordenadas com organismos privados, que promovam o financiamento da cultura através de ações de preservação de monumentos históricos. Consciente desta realidade, o órgão responsável pela preservação vem trabalhando a fim de construir esta parceria com investimentos privados. Neste sentido, pode-se ressaltar a participação de entidades de financiamento internacionais como o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) em ações de destaque, como a revitalização do Pelourinho na Bahia. Veja, a seguir, qual a legislação protege os bens históricoculturais. A proteção jurídica De acordo com a constituição de 1988, os bens sócio-ambientais diferem-se em culturais, históricos, artísticos, arqueológicos, etnográficos e paisagísticos. Ele são bens que têm a característica de estarem vinculados à história, memória ou cultura do país. Os bens culturais podem ser singularizados desde 1937 com o procedimento do tombamento, como visto anteriormente. A proteção começa com a sua singularização, para que ele possa ser exatamente localizado, tornado público e reconhecido como bem cultural preservável. Pela leitura da lei e constituição de 88, bem cultural é aquele bem jurídico que, além de ser objeto de direito, está protegido por ter uma qualidade identificadora de uma expressão cultural. Assim, uma nova qualidade jurídica é agregada ao bem, sem que isto altere a sua propriedade. A constituição cria formas novas de proteção como o inventário, o registro, a vigilância e possibilita ao poder público a criação de outras formas de proteção. Ela considera tombados automaticamente todos os documentos e sítios ligados aos quilombos dos escravos. Unidade 2 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 63 63 27/11/2006 17:35:07 Universidade do Sul de Santa Catarina As leis federais de proteção cultural são: Lei de tombamento Lei dos sambaquis Exportação de bens culturais A seguir, você terá a oportunidade de ver um pouco mais destas leis e suas formas de proteção. Veja o que determina cada uma delas: a) Lei de tombamento: qual a sua importância? É a lei mais antiga e o mais importante instrumento de proteção. O decreto lei n° 25/37, de 30 de novembro de 1937, dispõe sobre o conjunto de bens móveis e imóveis existentes no país e cuja conservação é de interesse público. Interesse público aqui se refere à vinculação dos bens a fatos memoráveis da história do Brasil ou ao excepcional arqueológico, etnológico, bibliográfico ou artístico. Porém, esta concepção difere bastante daquela adotada na Constituição de 88, que considera o conjunto de bens tudo aquilo que se refere à identidade da nação e dos diversos segmentos formadores da identidade brasileira. Logo, a nova Constituição liga a história à expressão de uma cultura popular, sendo muito mais nacionalista e popular neste sentido. Esta é uma característica desenvolvida em países que consideram como patrimônio todo o conjunto de fatores ligados à identidade. No Brasil, país de diversidade cultural incontestável, é realmente discutível que o decreto de 37 considere apenas bens arqueológicos, etnológicos, bibliográficos e artísticos. O decreto lei n° 25/37 é deficiente quanto aos bens culturais locais, porque não está entre os seus objetivos a proteção de manifestações diretas da cultura brasileira. Desta forma, as legislações mais modernas introduzem conceitos mais concretos, sempre ligados à realidade social. Mas não basta apenas a 64 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 64 27/11/2006 17:35:07 Patrimonio Cultural e Turismo I presença do poder público, é necessária uma parceria do poder civil e privado para garantir a real proteção dos monumentos. Logo, o decreto lei n° 25/37 é de fato um código de tombamento, pois não legisla sobre outras formas de proteção dos bens culturais. Pela lei de 37, para ser tombado, um imóvel necessita ter seu nome registrado no Livro do Tombo. No entanto, a constituição revoga este artigo, pois considera o tombamento um instrumento de proteção que deve ser aliado a outros. b) Lei do Sambaquis Assim como os sítios históricos, todos os sítios arqueológicos também são definidos e protegidos pela Lei nº 3.924 de 26 de julho de 1961, sendo considerados bens patrimoniais da União. O tombamento de bens arqueológicos é feito excepcionalmente por interesses científicos ou ambientais. Com certeza, esta é a lei mais importante após o decreto-lei n° 25/37, pois preenche uma lacuna dentro da política de proteção dos bens brasileiros até então homologada. A lei põe sob a guarda e proteção do poder público os monumentos arqueológicos ou históricos e todos os elementos neles existentes. O artigo 2° define quais são esses monumentos: as jazidas de cultura paleoameríndia, os sítios com vestígios de ocupação paleoameríndia, sítios com vestígios humanos de interesse arqueológico ou paleoetnográfico, as inscrições rupestres ou locais com sulcos de polimento de utensílios. Segundo a classificação do IPHAN, são considerados “sítios arqueológicos, as jazidas de qualquer natureza, origem ou finalidade, que representem testemunhos da cultura dos paleoameríndios; os sítios nos quais se encontram vestígios positivos de ocupação pelos paleomeríndios; os sítios identificados como cemitérios, sepulturas ou locais de pouso prolongado ou de aldeamento “estações” e “cerâmicos; e as inscrições rupestres ou locais e outros vestígios de atividade de paleoameríndios. ”. Unidade 2 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 65 65 27/11/2006 17:35:07 Universidade do Sul de Santa Catarina [hipertexto] do guarani sambaqui significa amontoado de conchas. A cultura de sambaquis se desenvolveu em todo o litoral brasileiro, do norte do país às praias do Rio Grande do Sul. Com datações de até 1500 A.C, a sua principal característica é o vestígio arqueológico que o nomeia: um amontoado de conchas e restos de comida e utensílios, misturados à areia da praia, formando pequenos montes de até 25m de altura. Os principais sambaquis se estendem do estado do ES até SC e estas populações não eram ceramistas. Os arqueólogos não sabem ao certo qual o significado das montanhas de conchas e restos de comida e quais as suas funções. Tampouco se sabe do porquê de seu desaparecimento. Provavelmente a cultura sambaqui tenha se misturado com as populações do interior, que já utilizavam a cerâmica, pois não existem traços que relacionem a população sambaquiana a possível cultura guerreira. Um outro importante bem classificado pelo IPHAN como patrimônio cultural é o conjunto de imagens e fotografias que registram as diversidades e mudanças nos modos de representação da figura humana, da natureza e das cidades. Esta classificação recebe o nome de Acervo Iconográfico. A lei presta atendimento especial aos sambaquis, cujo nome dá alcunha à lei. Assim, para os pesquisadores que desejam escavar ou pesquisar o local de um provável sítio é necessária a autorização do proprietário, caso esteja em propriedade privada. Todos os achados devem ser comunicados ao órgão competente. É proibida a exportação de qualquer bem que apresente valor arqueológico, etnológico, antropológico ou artístico sem o conhecimento do estado. As descobertas fortuitas também são propriedades do estado. No caso de obras publicas ou privadas, é necessário ainda o levantamento arqueológico com o fim de salvamento. O caso da duplicação da BR-101 é um exemplo, já que possuía muitos sítios ao longo de sua margem. As obras só puderam começar após laudo e estudo de profissionais aprovados pela instituição competente. É o caso também de barragens e hidroelétricas, por exemplo. As populações pré-históricas costumavam acampar próximos a cursos d’água. Hoje existem cerca de 10 mil sítios arqueológicos identificados pelo Iphan. São tombados: Sambaqui do Pindaí, em São LuisMA; Parque Nacional da Serra da Capivara, em São Raimundo Nonato-PI; Inscrições Pré-Históricas do Rio Ingá, em IngáPB; Sambaqui da Barra do Rio Itapitangui, em Cananéia-SP; Lapa da Cerca Grande, em Matozinhos-MG; Quilombo do Ambrosio: Remanescentes, em Ibiá-MG; e Ilha do Campeche, em Florianópolis-SC. Lamentavelmente, muitas peças do patrimônio cultural brasileiro guardadas as vezes sem qualquer segurança ou cuidado no acondicionamento, se perdem devido a roubos, furtos e tráfico ilícito. Este motivo levou a Polícia Federal/Interpol em conjunto com o Conselho Internacional de Museus e o Iphan, em 1997, a desenvolver uma campanha de Luta Contra o Tráfico Ilícito de Bens Culturais. O objetivo é devolver aos lugares de origem as obras de arte furtadas ou desviadas de forma ilegal. O diversificado e fabuloso acervo artístico nacional, pertencente, sobretudo, a igrejas antigas - geralmente crucifi xos imagens de santos e de Nossa Senhora, são constantemente traficados e vendidos em leilões internacionais. Este será o próximo item a ser discutido. 66 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 66 27/11/2006 17:35:07 Patrimonio Cultural e Turismo I c) Exportação de bens culturais Tanto o decreto-lei n° 25/37 quanto a lei n° 3.924/61 proíbem a exportação de bens culturais que não estejam devidamente autorizados pelo órgão competente. Para preencher eventuais lacunas outras leis foram lançadas ainda na década de 60. Quanto a isto, também o código penal brasileiro possui artigos em defesa do patrimônio. São eles respectivamente os artigos 165 e 167 do código penal. Contudo, ainda que tenhamos uma legislação bastante condizente com a realidade nacional, podemos verificar a necessidade contínua de políticas públicas que envolvam a pesquisa e manutenção do patrimônio nacional. É preciso, de fato, maiores investimentos e um envolvimento mais comprometido do poder público da iniciativa privada no que tange esses aspectos. O Programa MONUMENTA, tratado a seguir, é um exemplo de parceria e de gestão sustentável e responsável do Patrimônio Cultural. Programa MONUMENTA No Brasil, partindo desse objetivo foi criado o programa Monumenta que é realizado organizado pelo Ministério da Cultura e pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), em parceria com a UNESCO. Este programa, executado com recursos de empréstimo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), da União, Estados e Municípios, tem o objetivo de revitalizar os principais conjuntos patrimoniais urbanos do país. Segundo o Programa Monumenta, por “recuperação sustentável entende-se um conjunto de ações que vão desde as intervenções de conservação e restauro até a implementação de medidas educativas, gerenciais e administrativas, capazes de ampliar o retorno econômico e social dos investimentos públicos aplicados na conservação do patrimônio cultural brasileiro”. O Monumenta visa a uma ação permanente e compartilhada entre os três níveis do setor público, a comunidade e a iniciativa privada, para manter conservados e socialmente apropriados os bens tombados nos municípios atendidos pelo programa. A manifestação social, pelo desejo de preservação, Unidade 2 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 67 67 27/11/2006 17:35:08 Universidade do Sul de Santa Catarina é um dos principais mecanismos de revitalização das peças e do imobiliário urbano. Todo o processo de planejamento é realizado em parceria com os escritórios o IPHAN, onde se realizam “oficinas de planejamento participativo, nas quais a maioria dos representantes é originária da comunidade e da iniciativa privada.” Esta iniciativa proporciona um envolvimento direto entre os moradores e o projeto de recuperação dos bens materiais do município, pois são eles os principais interessados na continuidade do projeto e na dinamização econômica, turística e imobiliária do local. As atividades que são previstas pelo programa são: conservação e restauro de monumentos e conjuntos tombados; educação patrimonial e promoção da importância do patrimônio cultural e dos benefícios de sua preservação; promoção do turismo cultural e de eventos culturais nos locais abrangidos; formação, treinamento e capacitação de mão-de-obra para a conservação e o restauro; fortalecimento das instituições do campo do patrimônio, eo fortalecimento institucional do IPHAN; estudos e projetos multidisciplinares para a estruturação do programa e durante sua execução. O Monumenta é gerenciado pelo Ministério da Cultura e a UNESCO. Ele contribui alocando os consultores responsáveis pelas atividades de gerenciamento, além de monitorar e avaliar os resultados do programa. Ao IPHAN compete a fiscalização e a orientação técnica da recuperação dos bens tombados. Quando criado em 2000, foram selecionadas as áreas tombadas das seguintes cidades: Ouro Preto, Olinda, Recife, Rio de Janeiro, Salvador, São Luís e São Paulo. Posteriormente outras cidades foram inseridas no programa a partir da seleção de especialistas em patrimônio histórico. Atualmente integram o Programa Monumenta do Ministério da Cultura as seguintes cidades: 68 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 68 27/11/2006 17:35:08 Patrimonio Cultural e Turismo I Alcântara (MA) Brasília (DF) * Cachoeira (BA) Congonhas (MG) * Corumbá (MS) Diamantina (MG) * Goiás (GO) * Icó (CE) Laranjeiras (SE) Lençóis (BA) Manaus (AM) Mariana (MG) Natividade (TO) Oeiras (PI) Olinda (PE) * Ouro Preto (MG) * Paraty (RJ) Pelotas (RS) Penedo (AL) Porto Alegre (RS) Porto Seguro (BA) Recife (PE) Rio de Janeiro (RJ) Salvador (BA) * São Francisco do Sul (SC) São Paulo (SP) * Cidades incluídas na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO. Unidade 2 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 69 69 27/11/2006 17:35:08 Universidade do Sul de Santa Catarina O Monumenta em Salvador Em 1993 a primeira etapa de intervenção no Pelourinho foi concluída, comandada por Antônio Carlos Magalhães, governador do estado da Bahia na época. Percebeu-se naquele momento a necessidade de uma intervenção no Centro Histórico de Salvador justificada pela ação cada vez maior do turismo na cidade. O programa Monumenta chegou à cidade em 2000, através do governo estadual que se encarregou da retirada das famílias de baixa renda do pelourinho. A maior parte das famílias aceitou a realocação para regiões periféricas da cidade, mas uma pequena parcela de moradores permaneceu, criando um movimento contra a política de desocupação. Por conta desta mobilização, o Monumenta em 2003 ainda estava paralisado. Houve uma negociação entre os governos e o Ministério Público, para que as famílias remanescentes fossem incluídas no processo de revitalização. Em 2003, iniciou-se então a sétima etapa de revitalização do Centro Histórico de Salvador. A proposta mudara então, desviando o foco principal do turismo para a questão da habitação dos 89 casarões localizados numa área de cerca de 10 quarteirões próximos à Praça da Sé e ao Elevador Lacerda. A restauração, portanto, destes casarões não será ‘cenográfica’, restrita apenas à fachada dos casarões. Criar-se-á espaços importantes solicitados pela comunidade local, como forma de inserção da população ao projeto de revitalização do espaço histórico. Érica Diogo, coordenadora da área de financiamento de imóveis privados do Monumenta, afirma: “O Monumenta em Salvador é importante porque ele muda completamente a forma de intervenção no Pelourinho tal como ela vinha sendo praticada pelo governo estadual, com o foco apenas no uso comercial, voltado para o turismo. Agora, os imóveis vão ser recuperados para estarem adequados para o uso habitacional”. 70 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 70 27/11/2006 17:35:08 Patrimonio Cultural e Turismo I Quais as outras formas de Patrimônio? Como você já deve ter compreendido, o patrimônio cultural não diz respeito apenas a imóveis oficiais isolados, igrejas ou palácios, mas na sua concepção contemporânea refere-se também a imóveis particulares, trechos urbanos e até ambientes naturais de importância paisagística, passando por imagens, mobiliário, utensílios e outros bens móveis. Em outras palavras, o entendimento que devemos ter sobre o patrimônio hoje é bastante amplo, diferente daquele conceito elitista em que somente as expressões de cultura de um determinado grupo social deveriam ser preservadas nos museus. Possivelmente, partindo desta definição, podemos afirmar que o patrimônio cultural, sendo ele diferente das outras modalidades da cultura restritas apenas ao mercado cultural, apresenta relações significativas com outros setores da economia como o turismo e a construção civil, ampliando, com isso, exponencialmente o potencial de investimentos. O Decreto-lei nº 25, de 30 de novembro de 1937, equipara o patrimônio natural ao patrimônio histórico e artístico nacional, tornando monumentos naturais jardins e paisagens, bem como os bens agenciados pela indústria humana, como os parques, passíveis de tombamento, uma vez que o objetivo é conservar e proteger a feição notável que possuam. Segundo o Decreto nº 25, “um jardim histórico é uma composição arquitetônica e vegetal que, do ponto de vista da história ou da arte, apresenta, um interesse público e como tal é considerado monumento”. Unidade 2 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 71 71 27/11/2006 17:35:08 Universidade do Sul de Santa Catarina Síntese Nesta unidade, você estudou a relação do patrimônio cultural e sua preservação. Em continuidade ao estudo proposto na unidade I, onde foi visto o processo de construção do patrimônio brasileiro, a partir de criação do SPHAN, nesta unidade aprofundamos este estudo, relacionando a proteção do patrimônio com organismos e recomendações internacionais. Estudamos também a criação das cidades históricas e suas diversas tipologias, bem como funções. Foi analisado o processo de tombamento, que não deve ser visto como uma ação de desapropriação do governo, mas como forma de preservação de um aspecto significativo da história da sociedade. Vimos também, através de exemplos, como é possível mesclar interesses econômicos e preservação. Na última unidade, estudamos o processo de proteção dos bens culturais, sua proteção jurídica e programas governamentais como o projeto MONUMENTA. Cabe ressaltar a importância destes projetos para a revitalização de centros históricos e locais de importância arquitetônica e cultural. Assim, é necessário perceber o bem cultural como um bem integrante da comunidade e de sua modernização. Através dele é possível investir no turismo e em ações culturais, como forma de atrair atenção para a história e a interação do monumento com a sociedade. 72 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 72 27/11/2006 17:35:08 Patrimonio Cultural e Turismo I Atividades de auto-avaliação 1) Quando foi criada, logo após a II Guerra Mundial em 1945, a UNESCO tinha como finalidade acompanhar o desenvolvimento mundial e auxiliar os países em desenvolvimento. Em que medida suas ações auxiliam a preservação do patrimônio cultural mundial? 2) Identifique a relação dos museus com o turismo. Unidade 2 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 73 73 27/11/2006 17:35:09 Universidade do Sul de Santa Catarina 3) Em que medida as recomendações internacionais como a de Nairóbi poderiam ajudar países como o Brasil na revitalização de seus centros históricos? 4) Indique as principais leis de preservação cultural do Brasil. 74 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 74 27/11/2006 17:35:09 Patrimonio Cultural e Turismo I Saiba mais Para aprofundar os conhecimentos sobre os conteúdos estudados, pesquise em: BARRETTO, Margarita. Turismo e legado cultural: as possibilidades do planejamento. Campinas: Papirus, 2001 CALDEIRA, Cleide Cristina. Conservação preventiva em bibliotecas públicas da cidade de São Paulo: estudo de campo. 2004. Dissertação (Mestrado) – Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo. ELIAS, Isis Baldini. Conservação e restauro de obras de arte em suporte de papel. 2002. 143 f. Dissertação (Mestrado) – Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo. SOUZA FILHO, Carlos Frederico Marés de. Bens culturais e Proteção Jurídica. 2 ed. Porto Alegre: Unidade Editorial, 1999. SOUZA FILHO, Carlos Frederico Marés de. Bens culturais e Proteção Jurídica. 2 ed. Porto Alegre: Unidade Editorial, 1999. http://www.labjor.unicamp.br/iphan/secao.php?id=1&ds=16 http://www.revistamuseu.com.br/artigos/art_.asp?id=1117 http://www.unb.br/ics/sol/urbanidades/barbarafreitag.htm Unidade 2 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 75 75 27/11/2006 17:35:09 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 76 27/11/2006 17:35:09 UNIDADE 3 Patrimônio cultural e turismo: usos e abusos 3 Objetivos de aprendizagem Compreender a relação entre os processos de invenção da tradição, cenarização e o ‘não-lugar’ como fatores econômicos da indústria do turismo. Estudar o desenvolvimento do processo histórico de invenção das tradições, bem como a cenarização e sua intervenção na indústria turística. Compreender a relação da indústria do turismo e o patrimônio cultural, através do uso e da exploração deste patrimônio e os impactos resultantes deste uso. Seções de estudo Seção 1 A invenção das tradições Seção 2 A criação dos cenários do turismo Seção 3 Patrimônio cultural e turismo Seção 4 Patrimônio cultural e histórico na era da indústria cultural patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 77 27/11/2006 17:35:09 Universidade do Sul de Santa Catarina Para início de estudo Observando atualmente como se configura o turismo e sua expressão, percebemos a constante invocação do patrimônio histórico e cultural da humanidade como justificativa para a venda de pacotes turísticos. Atualmente, a procura cada vez maior pelo turismo cultural tem determinado o investimento de setores públicos e privados em monumentos, cidades históricas ou na cultura de um local. Este investimento é determinante, muitas vezes, para o desenvolvimento da economia local de uma comunidade. Ele é resultado da possibilidade de atração turística que determinado local pode oferecer, e com isto, trazer mais ganhos a uma série de setores da economia. Nesta unidade, você terá a oportunidade de estudar como se formaram, historicamente, alguns conceitos como a invenção das tradições e a “cenarização” de cenários turísticos. Estas análises são importantes para que se possa compreender todo o processo que envolve a indústria turística atual. Vamos ao estudo da unidade. SEÇÃO 1 - A invenção das tradições Para início de estudo poderíamos perguntar: você sabe qual a origem e o significado da palavra tradição? Certamente você, a partir de suas experiências, poderia dar algumas respostas, mas, etimologicamente podemos dizemos que a palavra tradição,de origem latina, tem por significado o ato de transmitir ou entregar algo, assim como de transmitir hábitos, costumes e doutrinas durante um determinado período de tempo. Deste modo, algumas tradições que parecem antigas são, na realidade, bastante recentes e até mesmo inventadas. Concorda? Vamos aos argumentos? 78 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 78 27/11/2006 17:35:09 Patrimônio Cultural e Turismo I O termo tradição é utilizado num sentido amplo, mas nunca indefinido. Ele inclui tanto as tradições realmente inventadas, construídas e formalmente institucionalizadas, quanto as que surgiram de maneira mais difícil de localizar num período de tempo limitado e determinado. Muitas vezes, as tradições inventadas surgem em poucos anos e se estabelecem com enorme rapidez. Por tradição inventada entende-se um conjunto de práticas normalmente reguladas por regras implícitas ou abertamente aceitas. Estas práticas que podem ser de natureza ritual ou simbólica, visam a impor certos valores e normas de comportamento através da repetição, o que implica uma continuidade em relação ao passado. Aliás, este é o objeto de grande parte das tradições inventadas: manter um vínculo com o passado histórico. E este passado histórico não precisa, necessariamente, estar perdido no tempo. Esta referência ao passado, quando existe, acaba de certa forma sendo artificial, pois são reações a situações novas que possuem um ponto de referência em situações anteriores. Elas estabelecem o seu próprio passado através da repetição quase que obrigatória. Aqui é necessário fazer algumas distinções entre tradição e costume e tradição e convenção. Observe atentamente quais são: a) Tradição X costume Por costume entende-se o uso habitual ou a prática de determinado preceito. O costume, nas sociedades tradicionais, tem a dupla função de motor e volante. Não impede as inovações e pode mudar até certo ponto, embora seja tolhido pela exigência de que deve parecer compatível ou idêntico ao anterior. Sua função é dar a qualquer mudança desejada a sanção da anterior, continuidade histórica e direitos naturais conforme o expresso na história. A tradição, mesmo a inventada, se caracteriza pela invariabilidade (são fi xas) e pela repetição do passado real ou forjado ao qual ela se refere. O costume não pode ser invariável, porque a própria vida não é assim. Unidade 3 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 79 79 27/11/2006 17:35:09 Universidade do Sul de Santa Catarina Um bom exemplo está no direito: costume é o que fazem os juízes; a tradição é a peruca, a toga e os demais acessórios rituais que cercam a ação do magistrado. É como numa universidade: o costume é se formar após o término do curso; a tradição é jogar o barrete para o alto. b) Tradição X convenção A palavra convenção é derivada do latim e se entende por um acordo, um convênio, um pacto ou ainda o que se aceita nas relações sociais. Perceba que a convenção, diferente da tradição, não possui nenhuma função simbólica ou ritual. A convenção está associada à rotina e à transmissão do costume, na medida em que é uma prática social repetida à exaustão. A convenção não é uma tradição inventada por não ter características ideológicas e sim técnicas. Ela é criada para facilitar as operações práticas, como o trabalho de um piloto de avião, por exemplo. Quando transformada em hábito, procedimentos automáticos ou até reflexos, a convenção se torna um procedimento fi xo, conhecido sob a forma da burocratização. Assim, consideramos que a invenção da tradição é essencialmente um processo de formalização e ritualização, caracterizado por referir-se ao passado, mesmo que apenas pela imposição da repetição. Provavelmente não há lugar nem tempo investigado pelos historiadores onde não haja ocorrido a invenção de tradições. Contudo, ela deve ocorrer com mais freqüência quando: Uma transformação rápida da sociedade debilita ou destrói os padrões sociais para os quais as velhas tradições foram feitas. As velhas tradições perdem sua capacidade. Quando são eliminadas. Nos últimos 150 anos, o fenômeno das tradições inventadas surgiu com mais freqüência nas sociedades modernas. Vejamos a ocorrência de algumas manifestações. 80 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 80 27/11/2006 17:35:10 Patrimônio Cultural e Turismo I Em muitos países e por vários motivos, praticou-se entusiasticamente a invenção das tradições, praticamente uma produção em massa. Nos últimos 150 anos, elas foram realizadas oficialmente e extra-oficialmente. O primeiro caso pode ser chamado de invenções políticas: criadas a partir de movimentos políticos e sociais organizados. O segundo caso pode ser denominado de invenções sociais: associadas a grupos como grêmios e clubes onde o objetivo não é específico. No caso oficial, os novos feriados, cerimônias, heróis e símbolos oficiais públicos passaram a fazer parte da vida do agora cidadão, bem como a padronização da administração e das leis, juntamente com a educação oficial que transformou as pessoas em cidadãos de um determinado país. Mas qual seria o objetivo dessa política? Ora, o principal objetivo desta política é fazer com que o estado seja reconhecido como o fruto das ações coletivas dos cidadãos. A política do século XIX tinha dimensões nacionais, com mobilização das massas, religião, consciência de classe e nacionalismo. Na política, a expressão mais contundente foi o voto, mesmo este não seja universal e nem tão democrático assim em certos lugares. Mas foram estes processos - a aparição da política de massas e a democracia eleitoral - que dominaram a invenção das tradições oficiais no período. s Destacam-se, assim, o caso francês e o americano. Durante a terceira república francesa, a invenção da tradição garantiu a manutenção da república e salvaguardou-a do socialismo e da extrema direita. A invenção de cerimônias públicas, como o Dia da Bastilha, reunia manifestações oficiais e não-oficiais, confirmando anualmente à França a condição de nação no qual todo homem, mulher e criança poderia fazer parte. As exposições nacionais – mais esporádicas - deram à republica a legitimidade da prosperidade e do progresso técnico. Unidade 3 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 81 81 27/11/2006 17:35:10 Universidade do Sul de Santa Catarina Marianne é a personificação da República Francesa. As primeiras representações de uma mulher com o barrete [ou gorro] frígio, alegoria da liberdade e da república, surgem durante a Revolução Francesa. A origem do nome Marianne não é conhecida com exatidão. Nome muito difundido no século XVIII, Marie-Anne representava o povo. Mas os contra-revolucionários também chamavam assim, como forma de zombaria, a República. Símbolo de liberdade, o barrete frígio era usado pelos escravos libertos na Grécia e em Roma. Um gorro deste tipo era utilizado também pelos marinheiros e condenados das galés do Mediterrâneo e teria sido copiado pelos revolucionários vindos do sul. (http://www.ambafrance.org. br/14%20julho/marianne.html) Outra novidade foi a produção em massa de monumentos públicos. Na forma da estatuária, milhares de imagens da república – na pessoa de Marianne – espalharam-se por todas as províncias francesas, bem como figuras civis do patriotismo local das cidades e comunidades rurais. No caso dos Estados Unidos da América, o problema político estava em assimilar uma massa de imigrantes que não eram americanos de nascença. As tradições inventadas nos EUA, neste período, eram destinadas à construção do cidadão americano. Desta forma, os imigrantes foram incentivados a aceitar rituais que comemoravam a história da nação (como o 4 de julho, a revolução e seus fundadores) e o dia de ação de graças. O sistema de educação foi transformado também num sistema de socialização política, através da veneração da bandeira que, desde 1880, tornou-se um ritual básico nas escolas. Mas também entra em cena o uso de elementos antigos na elaboração de novas tradições inventadas. No passado de qualquer sociedade encontram-se estes elementos, que servirão de base à concepção das novas tradições. É como o caso do regime nazista, que buscou nas antigas ruas germânicas, elementos que lhe valessem a tradição de guerreiros. Deste modo, muitas instituições políticas, grupos e movimentos ideológicos (entre eles o nacionalismo) tornaram necessária a invenção de uma continuidade histórica como a criação de um passado antigo. Também é óbvio que símbolos e acessórios inteiramente novos foram criados para fazer parte das novas tradições, como o hino nacional e a bandeira nacional. A personificação das nações foi sendo criada por intermédio de imagens nacionais que exemplificavam estes propósitos – como a figura do Tio Sam norte-americano e a de Marianne. Observe que no nacionalismo, o ato de se levantar para cantar o hino nacional, o hasteamento de bandeiras em prédios públicos e assim por diante, são rituais que simbolizam a prática da tradição. O elemento crucial aqui foi a invenção de sinais que contêm toda uma carga simbólica e emocional. A frase abaixo, citada pelo historiador Eric Hobsbawn simplifica a importância que é dada aos sinais simbólicos e rituais da tradição: 82 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 82 27/11/2006 17:35:10 Patrimônio Cultural e Turismo I A bandeira nacional, o hino e as armas nacionais são os três símbolos através dos quais um país independente proclama sua identidade e soberania. Eles em si já revelam todo o passado, pensamento e toda a cultura de uma nação. No destaque acima fica claro o caráter da tradição de manter um vínculo com um passado histórico recente ou antigo. Também o processo de cidadania se insere neste contexto onde a maioria das pessoas só toma consciência de sua condição de cidadã por esta permanecer associada a símbolos, práticas semi-rituais, como as eleições – e que são livremente inventadas, por meio de bandeiras, música e imagens. As tradições parecem se classificar em três categorias, segundo o historiador Eric Hobsbawn: aquelas que se estabelecem ou simbolizam a coesão ou admissão de um grupo; aquelas que estabelecem ou legitimam instituições; aquelas cujo propósito é a socialização, a imposição de idéias e valores. Os dois últimos itens, na análise do historiador, certamente são inventados. Mas o primeiro tipo é o que prevalece, no sentido de se sobrepor as outras funções que derivam de um sentido de identificação com a comunidade ou com as instituições que representam ou simbolizam, como a nação. c) A invenção das tradições na cidade Atualmente, com a freqüente transformação dos espaços urbanos, percebe-se um movimento de recuperação de locais e tradições que compõem a história de determinada cidade e seu povo. Tenta-se, deste modo, recuperar o passado ou a tradição através da recuperação e revitalização de espaços e prédios antigos, dotando-os de uma nova função. Com estas estratégias de valorização de espaços antes abandonados, suas novas atribuições voltam-se, sobretudo, para o lazer ou consumo cultural. Unidade 3 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 83 83 27/11/2006 17:35:10 Universidade do Sul de Santa Catarina A própria idéia de patrimônio e sua conservação significa a tentativa de contar o passado, trazendo-o a nova linguagem do presente. Como dito anteriormente, esta recuperação do passado através da revitalização do patrimônio não significa repetir o tempo, mas reinventá-lo. Deste modo, cria-se um vínculo com o passado histórico da cidade e, de fato, uma tradição. É interessante você notar um indicativo deste fato: os centros da maioria das cidades brasileiras estão sendo remodelados ou sendo alvos de restauração e transformação de prédios antigos. Estes prédios são recuperados, mas sua função torna-se outra: uma casa de cultura, por exemplo. Busca-se assim deter a marcha destrutiva da expansão da máquina urbana. As velhas praças e lugarejos que foram herdados de uma tradição cultural acabam sendo reativados. Desta forma, antigas referências associativas são recompostas, acompanhadas da modernidade que torna a cidade funcional e competitiva. Perceba que a invenção das cidades, portanto, está intimamente ligada à invenção de tradições. Cidades de fundação recente necessitam de um passado histórico que remonte suas origens. Isto se dá através da estruturação do patrimônio histórico e da criação de um espaço urbano que expresse a relação entre o passado e o presente. - Nas seções seguintes se irá compreender como essa remodelação ou invenção do espaço urbano serve também como fonte de exploração às atividades turísticas. Conseguiu compreender até aqui? O que achou do conteúdo? Interessante, não é? Mas depois de toda esta exposição, confrontamo-nos com a seguinte pergunta: O que os historiadores ganham ou o que pretendem com o estudo das tradições inventadas? O que você acha? 84 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 84 27/11/2006 17:35:10 Patrimônio Cultural e Turismo I Independentemente do que você pensou, podemos ainda selecionar três razões/motivos para o estudo do fenômeno das tradições inventadas. Vamos a eles? As tradições inventadas são sistemas importantes e, portanto, indicadores de problemas que de outra forma não seriam detectados nem localizados no tempo; O estudo das tradições esclarece as relações humanas com o passado, o próprio assunto e o ofício do historiador; O estudo das tradições é interdisciplinar. Assim como outros estudos, ele pode agregar pensadores e pesquisadores de antropologia, sociologia e quaisquer outras ciências que achem importantes o estudo desse fenômeno. Que tal fazer uma discussão dessa natureza no Fórum? Discutir a importância das tradições e a relação com o turismo. Certamente teríamos muitas questões a abordar e aprender com os colegas, não é mesmo? Lembre-se que você também pode propor fóruns de discussão. Seja protagonista do seu aprendizado! Mas vamos adiante, ainda temos muito a estudar! SEÇÃO 2 - A criação dos cenários do turismo O processo de desenvolvimento da globalização e as transformações acarretadas por ele, como percebemos ao nosso redor, destroem barreiras e ultrapassam obstáculos. Nele, o espaço tem papel fundamental entrando na negociação como mercadoria. Isto significa que áreas inteiras do planeta agora são divididas, participando desta forma do processo de comercialização. E o que esse desenvolvimento e o espaço têm a ver com o turismo? Unidade 3 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 85 85 27/11/2006 17:35:11 Universidade do Sul de Santa Catarina O espaço é cada vez mais produzido por setores da atividade econômica como o turismo, por exemplo, onde praias, cenários paradisíacos ou outros tipos de cenários tornam-se áreas de lazer para quem possa usufruí-las. Você deve ter percebido ao longo dos seus estudos que a palavra turismo carrega sempre um ar envolvente. O homem realiza deslocamentos e viagens desde a pré-história, mas o fenômeno conhecido como turismo é muito mais recente. O turismo de massa, sobretudo após a década de 70, e o avanço dos meios de transporte, tornou-se um dos negócios mais importantes e de maior crescimento nos últimos anos. Com tantas transformações, o lazer também muda de sentido passando a ser agregado à sociedade de consumo, onde tudo se transforma em mercadoria, tornando o homem um elemento passivo. Desta forma, cidades inteiras se transformam com o objetivo de atraír turistas, gerando dois sentimentos distintos: o sentimento de estranhamento, expressado pela população local que vive nas áreas que se volta para o turismo e o sentimento de espetáculo, que é expresso pelo turista e o transforma em espectador passivo. O sentimento de estranhamento foi expresso claramente, por exemplo, pelos moradores da Riviera Italiana, quando a área foi incorporada na rota do turismo. A alteração do lugar como forma de agradar ao turista e chamá-lo, e as mudanças ocorridas neste processo, fizeram com que muitos moradores percebessem a morte da cidade verdadeira, tornando-se um simulacro que substitui tudo aquilo que já acabou. Esta idéia de simulacro e de criação de cenários será discutida em breve. O turista é passivo porque se deixa levar por um programa ou pelas mãos de um guia. Os pacotes turísticos desempenham um papel importante ao homogeneizar o comportamento, direcionando a escolha do turista e o tornando um consumidor. É delimitada a hora, o lugar a ser visto, o que deve e o que não deve ser feito, além do tempo que cada atração necessita. Esta relação acaba por fazer o turista ignorar a identidade do lugar, sua história, sua cultura e seu modo de vida, tornando-os banais. 86 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 86 27/11/2006 17:35:11 Patrimônio Cultural e Turismo I O turismo é assim uma indústria que, como dito anteriormente, sobretudo após a década de 70, desenvolveu-se e tornou-se um dos negócios mais importantes e de maior crescimento nos últimos anos. A transformação do setor do turismo em indústria e a necessidade de se venderem marcas, imagens e serviços, fizeram com que simples viajantes se tornassem turistas e suas experiências foram convertidas em mercadorias e bens consumíveis. Logo, o produto turístico é consumido em seu próprio local, já que quem se desloca é o consumidor, o turista. Segundo Carlos (1999), A indústria do turismo transforma tudo o que toca em artificial, cria um mundo fictício e mistificado de lazer, ilusório, onde o espaço se transforma em cenário para o espetáculo para uma multidão amorfa mediante a criação de uma série de atividades que conduzem à passividade, produzindo apenas a ilusão da evasão e, desse modo, o real é metamorfoseado, transfigurado, para seduzir e fascinar. (CARLOS, 1999, p.26). Os mecanismos responsáveis por agregar valor e desejo ao produto turístico podem ser os mais diversos possíveis, dependendo apenas do tipo de segmento que determinado produto quer abordar. Uma infinidade de aspectos pode ser trabalhada pela atividade turística, permitindo aos consumidores criarem no seu imaginário o tipo ideal de produto a ser usufruído ou consumido, num mundo de irrealidade e fantasia. Por um lado, a produção das paisagens turísticas envolve os meios de comunicação que veiculam imagens e descrições dos lugares; por outro, a construção de cenários de lazer pelas intervenções urbanísticas e através da arquitetura. s Para aprofundar seus conhecimentos consulte: Carlos, Ana Fani Alessandri. O turismo e a produção do não lugar in Yázigi, Eduardo (org.).Turismo: espaço, paisagem e cultura. 2. ed. São Paulo: HUCITEC, 1999. Unidade 3 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 87 87 27/11/2006 17:35:11 Universidade do Sul de Santa Catarina Assim, reais ou mitificados, os lugares para o desfrute do lazer são produtos de uma mescla entre a natureza e a cultura do território e de imagens associadas a ele. Para o turismo, tratase de ressaltar aspectos visuais particulares e significativos para a composição de imagens capazes de induzir o consumo. Este é o papel desempenhado pela produção de cenários turísticos como estratégia de desenvolvimento para a atividade turística. O cenário turístico acaba sendo representado como uma oposição aos lugares do cotidiano e do trabalho. Para Maria da Glória Lanci da Silva, Os lugares turísticos geralmente são escolhidos e admirados por suas paisagens. Neles os panoramas da natureza e a visão do homem e sua cultura inseridos no território são prazeres a serem desfrutados, e na maioria das vezes constituem o motivo condutor do viajante. Admiradas como cenários, as paisagens são testemunhos visuais de elementos estéticos e simbólicos construídos historicamente e que, quando identificados e apropriados pelo viajante despertam um renovado interesse no lugar visitado. (SILVA, 2004, p. 27). s Se tiver interesse em ler sobre isso, consulte: Silva, Maria da Glória Lanci. Cidades Turísticas identidades e Cenários de lazer: São Paulo: Aleph, 2004. Carlos (1999), traz o exemplo de Honolulu, no Hawaí. Para o autor, todo o lugar é cenarizado e onde mais se pode perceber o fenômeno é na área de hotéis, destinados exclusivamente aos turistas estrangeiros. Os hotéis são decorados com belíssimos jardins tropicais, totalmente simétricos sem uma única folha caída no chão, sem nem tampouco folhas amarelecidas, fontes de água corrente, lagos com peixes coloridos, tochas, poltronas confortáveis e bancos, e muitas lojas. (CARLOS, 1999, p. 26). Outro fato que chama a atenção, ainda referente à cenarização de Honolulu, é a dança de hula, realizada em cenários cinematográficos com passos bem ensaiados e pausas para fotografias entre o espetáculo e em seu final. Logo, barracas estratégicas vendem souvenires por todos 88 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 88 27/11/2006 17:35:11 Patrimônio Cultural e Turismo I os lados, tudo perfeitamente organizado como o sonho de um paraíso tropical. Desta forma, os cenários turísticos são intencionalmente criados, com um objetivo especifico não apenas pela apropriação visual de panoramas, mas também pela reprodução de padrões de beleza e qualidade culturalmente estabelecidos. Esta tendência da reprodução de cenários é aleatória, sem qualquer vínculo com a cultura, identidade, história ou com a paisagem original dos lugares. Alguns autores afirmam que se trata da produção de não-lugares ou falsos lugares. Desta forma, cidades como Las Vegas, onde diversos ícones turísticos, como Veneza ou a Torre Eifell são reproduzidos, são conseqüências deste turismo industrial onde há a necessidade de um cenário que envolva o turista e desperte seu interesse. Este exemplo atesta o modelo de desenvolvimento do turismo através do grande capital e a produção de espaços representados, que serão chamados de ‘não-lugares’. O conceito de não-lugar Os dois processos comentados anteriormente de estranhamento e espetáculo apontam para o fato de que a venda de espaço dentro da indústria do turismo faz com que se produza uma não-identidade e com isto surge o conceito de não-lugar. Para Marc Augé os lugares que apresentam alguma semelhança ou reproduzem a aparência real de algo são os não-lugares. Estes lugares tentam reproduzir ou representar outros locais, embora eles só existam na aparência, como uma imitação. O mundo de faz-de-conta do turismo reproduz simulações de lugares famosos, como uma clonagem, tanto em espaços tangíveis quanto não-tangíveis. O grande exemplo é Las Vegas, que recebe um fluxo anual de 35 milhões de pessoas e é uma cidade que reproduz bairros de Nova York ou as pirâmides do Egito. Nos grandes hotéis da Flórida ou ainda no maior Resort do mundo, na África do Sul, podemos encontrar exemplos semelhantes de não-lugares. Mas a construção buscando a similaridade pode ser utilizada apenas na referência verbal, como no caso de Recife “a Veneza Brasileira”. Unidade 3 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 89 89 27/11/2006 17:35:11 Universidade do Sul de Santa Catarina As sociedades pós-modernas estão fascinadas pelo consumo imediatista, no qual as aparências representam muito mais do que o real. As identidades sociais estão sendo construídas por meio do valor de marcas. O conceito de realidade parece tornar-se irrelevante: o turista sabe que o lugar visitado é uma cópia, mas a capacidade de ver o falso é talvez a grande atração. Deste modo, o que é falso acaba sendo mais real que o verdadeiro. Neste contexto, o turismo como indústria envolve muitas organizações na criação de sua imagem, desde o pequeno hoteleiro às empresas aéreas. Todos participam da idealização da imagem turística. Ycarim Barbosa (2001, p.58) apresenta a proposta de viagem de uma empresa inglesa, onde os turistas britânicos poderiam visitar Bangkok (“a Veneza do leste”), Hong Kong (“onde os britânicos encontram a china“) e Macau (“a mais antiga colonização européia na Ásia”). Diversos exemplos no mesmo sentido são enumerados, como o início da exploração turística da Tailândia, referida como a mais nova “Ilha do Caribe”. Propagandas assim confirmam a tendência dos criadores de imagens turísticas de produzirem a troca de lugares tendo em vista o consumo do turista. Estes destinos são o irreal ou os nãolugares. Logo, o espaço produzido pela indústria do turismo perde o sentido, tornando-se um espaço sem história e identidade. Isto porque o lugar é uma produção humana, que estabelece uma relação entre o espaço e a sociedade e que cria uma identidade entre comunidade e lugar. Assim, o lugar é um produto das relações humanas, entre o homem e a natureza que possui um significado e um sentido que produz uma identidade. Portanto, o não-lugar não é a simples negação do lugar, mas um produto da indústria turística que produz simulacros através de uma não-identidade. Mas o efeito produz também comportamentos e modos de apropriação desses lugares. Pode-se perceber a necessidade e a importância das palavras utilizadas deste modo. A utilização de ícones como Veneza ou o Caribe nos traz uma idéia pré-concebida destes lugares e uma certa noção de familiaridade. 90 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 90 27/11/2006 17:35:12 Patrimônio Cultural e Turismo I Desta forma, certos lugares só existem pelas palavras que os evocam, sendo assim não-lugares, utopias e clichês. Estes lugares invadem as agências de turismo por meio da propaganda, exibindo fotos magníficas que conduzirão o turista para além de sua imaginação. É como se o turista viajasse por um mundo irreal e cheio de fantasias. É preciso ressaltar que o jogo de palavras exerce um fascínio muito grande e o turista torna-se um grande consumidor de imagens. Outro exemplo citado por Ycarim Barbosa (2001:62) diz respeito ao Hotel Praia do Forte, na Bahia. Em seu folder, o hotel é definido como um lugar atraente como a Polinésia, acolhedor como o Tahiti, charmoso como as Bahamas. Assim sendo, quem não puder se deslocar até a Polinésia ou as Bahamas pode satisfazer-se com o seu charme dentro do próprio país. Esta falsa identidade, que acaba por criar um não-lugar, tem sido utilizada pelo setor do turismo para atrair consumidores. Logo, perceba que o turismo passa a criar (ou recriar) e produzir (ou reproduzir) tudo que está no desejo e no imaginário do seu consumidor potencial: a tranqüilidade, a segurança, bem-estar, sossego, garantia de diversão, lazer e entretenimento para ele e sua família. Segundo Augé, citado por Ycarim (2001:63): Há não-lugar em todo o lugar e em todos os não-lugares os lugares podem se recompor. Podemos dizer isso de outro modo: lugares e não-lugares correspondem aos espaços muito concretos, mas também a atitudes, a posturas, à relação que os indivíduos entretêm com os espaços onde eles vivem ou percorrem. Desse ponto de vista, a viagem turística é constitutiva de não-lugares: quem viaja não faz senão passar de um lugar a outro. O exemplo, talvez, que mais expressa essa definição de não-lugar como um local sem identidade, é a Disney. Para muitos estudiosos, a Disney é uma alegoria da sociedade de consumo, um lugar de imaginário absoluto e de passividade. Unidade 3 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 91 91 27/11/2006 17:35:12 Universidade do Sul de Santa Catarina Assim, o imaginário da Disney é uma máquina de dissuasão encenada, onde a realidade não existe além do perímetro do parque, artificial. Completa CARLOS (1999, p. 29) ao dizer que a era da simulação vai desse modo eliminando quaisquer referencias ligadas à vida humana. Aqui a indústria turística criou um lugar que só existe pela ausência. Assim, os lugares fabricados são voltados ao consumo dos turistas, onde os valores incorporados são como fetiches. A indústria do turismo passa a alterar as condições geográficas do mundo, deslocando referenciais como num passe de mágica: o oceano pacífico ocupa o lugar do atlântico e Veneza empresta seu nome para várias outras localidades. Tudo em prol da satisfação do turista numa sociedade que consome cada vez mais imagens de uma irrealidade. E no Brasil? Como situá-lo na discussão dos “nãolugares”? Dois casos bem discutidos no Brasil referentes à produção de não-lugares são Recife e Búzios. Como referido anteriormente, um não-lugar não precisa, necessariamente, reproduzir outro de forma literal, mas apenas evocá-lo, através da verbalização. É o caso de Recife, “A Veneza Brasileira” e Búzios, comparada com a Côte d’Azur francesa. E você saberia dizer por que a cidade de Recife foi intitulada a “Veneza brasileira”? E Búzios? Bem, talvez ela foi chamada de a “Veneza Brasileira” por possuir dois rios que cortam a cidade e diversas pontes. A verdadeira Veneza, na Europa, é rodeada por uma infinidade de ilhas e ficou notadamente conhecida por seus canais, pelos passeios de gôndolas e pelo ar romântico que suas pontes acrescentam ao cenário. É o ícone das pontes e rios que confere à capital pernambucana o símbolo ou a tradição inventada de ser a “Veneza Brasileira”. Apesar de não possuir a arquitetura de influência bizantina que toma lugar na verdadeira Veneza 92 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 92 27/11/2006 17:35:12 Patrimônio Cultural e Turismo I nem as obras do período renascentista, ao nos referirmos à “Veneza Brasileira” transferimos para Recife o poder de uma imagem carregada de magia e sedução que foi incorporada pelo senso comum. Ela acaba sendo representada como um lugar romântico e sensual, cheio de canais por onde trafegam gôndolas, passando a ser uma mercadoria do consumo imaginário, carregada de fetiches. Então, concorda com isto? Interessante pensar nisto, não é? Ycarim Barbosa (2001, p.61) também cita o modelo da Côte d’Azur brasileira, representada pela cidade de Búzios. O nome é proveniente do litoral francês no mediterrâneo, famoso pelas águas de um azul translúcido. Fala-se que a origem do nome de Búzios veio de uma famosa frase de Brigitte Bardot, quando visitou o Brasil na década de sessenta. Apesar da comparação, com certeza Búzios não tinha a sofisticação das praias da Côte d’Azur européia. Cria-se, desta forma, outro exemplo para o mundo do faz-de-conta do turismo. Quais os cenários do turismo no Brasil? O turismo cultural tem sido um grande segmento explorado pelo mercado do turismo, oferecendo novas oportunidades para a revitalização de cidades e objetos históricos. Porém, torna-se também uma ameaça às fontes culturais através do processo de padronização na tentativa de vender o espaço. A necessidade da venda do espaço impõe importantes transformações no plano de uso e consumo do espaço. Os cenários turísticos são intencionalmente criados, com um objetivo especifico não apenas pela apropriação visual de panoramas, mas também pela reprodução de padrões de beleza e qualidade culturalmente estabelecidos. Logo, esta tendência da reprodução de cenários é aleatória, sem qualquer vínculo com a cultura, identidade, história ou com a paisagem original dos lugares. Merecem destaque no Brasil dois cenários, criados intencionalmente para atrair o turismo: o Pelourinho e o Recife antigo. Unidade 3 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 93 93 27/11/2006 17:35:12 Universidade do Sul de Santa Catarina O Pelourinho em Salvador, Bahia, ganhou atenção especial do governo estadual a alguns anos. O projeto contou com a participação do Ministério da Cultura e recebeu recursos do Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID - além da Caixa Econômica Federal e da iniciativa privada (Barbosa 2001:88). Para isto, o governo estadual tratou de revitalizar o lugar, considerado um dos mais perigosos da capital baiana. A partir das reformas, inclusive sociais, turistas foram atraídos pelas campanhas publicitárias que anunciavam um Pelourinho limpo, bonito, seguro e repleto de atrações. Mas, que história guarda o Pelourinho? O esvaziamento do Pelourinho se deu principalmente: pela crise deflagrada pela abolição da escravatura, pela ascensão de uma nova classe de comerciantes ricos e o conseqüente surgimento de novos bairros em Salvador, mais nobres e afastados do centro urbano. A história do Pelourinho data dos séculos XVIII e XIX, época do apogeu do bairro como local de residência da elite da Bahia. Esta elite habitou ali até o último quartel do século passado, quando se deslocou gradativamente para outros bairros de Salvador. O interesse em constituir o Pelourinho como patrimônio histórico repousa na idéia de estarmos preservando a memória de um monumento importantíssimo na história do mundo e do Brasil. A ida ao Pelourinho faz parte dos roteiros turísticos da capital baiana. Através da revitalização, o local tornou-se cenográfico, palco para os turistas desfrutarem de um cartão postal que representa um símbolo da idéia de Bahia. O bairro tornou-se uma vitrine apresentada para turistas do mundo inteiro. As cores fortes utilizadas na revitalização dos prédios antigos servem para chamar a atenção, é o valor de novidade, o culto ao belo. Fortes, chamativas e de apelo pictórico, estas cores não têm nenhuma relação com o passado histórico da cidade: a maior parte das casas em séculos anteriores era pintada de branco ou de cores cinzentas, respeitando os padrões vigentes na época. O certo é que esse empreendimento aliado ao incentivo financeiro dos governos estadual, federal e organizações internacionais 94 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 94 27/11/2006 17:35:12 Patrimônio Cultural e Turismo I tornou Salvador uma cidade mais conhecidas internacionalmente e o Pelourinho um dos sítios urbanos tombados mais visitados do Brasil. Perceba que novamente nos deparamos com a noção de que os cenários turísticos são intencionalmente criados, fugindo de todo o vínculo com a realidade histórica que os cerca. O que ocorre neste tipo de revitalização é que o velho se reveste de novo e se torna um produto turístico, que será consumido pelo turista. Como afirma Barbosa (2001, p. 87), o passado como um objeto de consumo, retorna, agora como uma mercadoria renovada, apropriada para seduzir o turista. Em Recife, o processo de revitalização do antigo centro histórico, chamado de Recife Antigo, seguiu os mesmos passos do Pelourinho. Incentivados pelas medidas tomadas na Bahia, a partir de 1993 inicia-se um processo de restauração de casarões antigos como forma de revigorar o espaço antigo e torná-lo uma atração turística. O uso de cores fortes nos casarões, a exemplo do Pelourinho, predomina como forma de chamar a atenção dos turistas. A imprensa nacional também desempenha um papel de destaque nestes lugares. Conforme você viu, existe a necessidade de se venderem marcas, imagens e serviços. Cita-se como exemplo os grupos afro-baianos de música que se disseminaram no país como o Olodum e a Timbalada, freqüentemente veiculados com imagens do Pelourinho. O que concluir disso? Veja que o turismo de massa contemporâneo exige este constante esforço de concepção, adaptação e construção de novos espaços. Logo, implica uma transformação mais ou menos radical da paisagem existente. Este processo pode ser atestado nos espaços urbanos que são cada vez mais determinados pela cenarização, criando uma tensão entre funções urbanas e o espetáculo. Unidade 3 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 95 95 27/11/2006 17:35:13 Universidade do Sul de Santa Catarina Assim, o crescente aumento da demanda do mercado turístico é um dos fatores responsáveis pela produção e pelo consumo da paisagem urbana, seja no seu aspecto cultural, seja no aspecto natural. Para Maria da Glória Lanci da Silva (2004): Tal processo é sustentado pela formação e pela consolidação de imagens e lugares como os “paraísos tropicais”. Considerando o aspecto visual como principal elemento de atração turística, tanto poder público como mercado esforçam-se em enfatizar belezas naturais e produzidas. Trata-se, portanto, não só de mostrar o que existe, mas reproduzir e criar novos espaços segundo critérios estéticos. (SILVA, 2004, p.177) Desta forma, a cenarização de cidades turísticas tem como objetivos: reforçar e estabelecer antíteses entre o lugar de trabalho e o lugar de lazer; enaltecer as qualidades ambientais e paisagísticas naturais; corresponder às imagens veiculadas pelos meios de comunicação; adequar-se aos planos e projetos oficiais e ao discurso quanto à melhoria da qualidade de vida urbana; marcar o lugar, procurar uma identidade visual na homogeneização de fachadas e estilos arquitetônicos que possam ser reconhecidos pelo turista. O que mais surpreende nos lugares do turismo, no entanto, é o caráter simbólico de aglomeração e reunião de pessoas que pode ser observado no consumo dos espaços transformados. A paisagem turística é, antes de tudo, uma paisagem com turistas. Solitários, em grupos organizados ou em multidões anônimas, os turistas fazem do uso do espaço um espetáculo maior que a própria cenarização planejada dos lugares. 96 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 96 27/11/2006 17:35:13 Patrimônio Cultural e Turismo I Seção 3 - Patrimônio cultural e turismo O patrimônio cultural tem sido bem explorado, tornando-se um componente essencial da indústria turística, com implicações econômicas e sociais evidentes. No Brasil, a revitalização do patrimônio histórico procura transformá-los em espaços turísticos com o uso de cores fortes buscando um apelo visual. É como vimos na seção anterior ao tratarmos da cenarização e transformação de lugares como o Pelourinho, sem a necessidade de uma continuidade histórica. O turismo fascina, traz o encantamento como forma de seduzir o turista, mesmo que seja com cenários e não-lugares. A noção moderna de patrimônio cultural não se restringe mais à arquitetura, mesmo sendo indiscutível que a presença de edificações é um ponto alto da realização humana. Deste modo, o significado de patrimônio cultural é muito mais amplo, incluindo diversos produtos do sentir, do pensar e do agir humano. Já o termo turismo cultural existe para classificar os indivíduos que se deslocam com objetivos principais de conhecer as diversas manifestações culturais de uma localidade, sejam materiais ou imateriais. Assim, o turismo cultural seria aquele que não tem como atrativo principal um recurso natural: aquele que tem como objetivo conhecer os bens materiais e imateriais produzidos pelo homem, como oferta cultural. Logo, os elementos do turismo cultural são os mesmos que resultam da produção humana. Alguns exemplos básicos: Arquitetura História local Folclore Religião Unidade 3 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 97 97 27/11/2006 17:35:13 Universidade do Sul de Santa Catarina Os monumentos históricos ocupam o primeiro lugar da lista, pois possuem um valor enorme dentro dos atrativos culturais. No entanto, as possibilidades de exploração do patrimônio cultural como atrativo turístico, a exemplo do folclore e do artesanato de uma cultura local, vêm sendo cada vez mais exploradas. Logo, o turismo cultural e sua conseqüente valorização, surgem como uma forma de diferenciação, aspecto fundamental na qualidade do produto turístico. Na atualidade, quando o processo de globalização atinge todas as atividades humanas, isto é um fator de necessidade da indústria turística. Além do mais, as atividades turísticas geram mecanismos de sustentabilidade e espaços propícios às expressões culturais. Para alguns pesquisadores, o turismo cultural não deve ser visto apenas como recurso econômico, mas também, como uma expressão do gosto pela cultura e pelo modo de vida de outros povos. O que você acha disto? Concorda? Para outros, a cultura local deve ser valorizada para que possa servir como atrativo turístico. Esta valorização fortalece o sentimento de pertencimento tido como indispensável para a afirmação de uma cultura local. A exploração turística destes recursos permite inverter a forte tendência de concentração turística junto ao litoral ou centros urbanos, dispersando assim o turismo para o interior. Desta forma, favorecendo a economia local de pequenas cidades, o fluxo de turistas acaba por distribuir seus benefícios às comunidades locais. Os locais de turismo criam assim a possibilidades para a revitalização da identidade cultural, da preservação dos bens culturais e das mais ricas tradições. O turista, por sua vez, precisa desenvolver um sentimento de tolerância e respeito pela cultura do outro, bem como pela cultura local. Os fluxos de turistas podem promover uma interação entre culturas que terá condições de beneficiar a população e servir como fonte de entendimento entre diferentes manifestações. Além do mais, o fluxo turístico pode gerar novos comportamentos e estilos de vida nos locais visitados, sem suplantar, todavia, a cultura local e suas especificidades. 98 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 98 27/11/2006 17:35:13 Patrimônio Cultural e Turismo I j A utilização do patrimônio e o impacto do turismo em massa estão em constante discussão e argumentação já que muitos pesquisadores ressaltam os aspectos negativos desta interação desenfreada. O que você acha desta afirmação? O que você considera importante ser feito quando se trata de patrimônio, desenvolvimento e turismo? Use o espaço a seguir para registrar suas impressões. Os turistas culturais podem ser classificados em três tipos, de acordo com seus interesses e conhecimentos, além da freqüência de suas viagens. 1. Os especialistas, que são aqueles turistas que viajam sistematicamente e de forma regular. Normalmente, conciliam suas atividades profissionais e as práticas turísticas que realizam; 2. Os turistas muito motivados que, entre outras razões de viagem, a principal é a cultural; 3. Os turistas ocasionais, aqueles que durante sua viagem turística desenvolvem atividades culturais de forma irregular e este não é o motivo principal da viagem. Representam a grande maioria do fluxo turístico mundial. Unidade 3 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 99 99 27/11/2006 17:35:13 Universidade do Sul de Santa Catarina Como é de se esperar, estes turistas têm diversos comportamentos a respeito do patrimônio cultural que visitam. Os considerados especialistas e muitos dos considerados motivados freqüentemente estão informados previamente do que irão visitar, compreendendo o valor estético, histórico e cultural do patrimônio a ser visitado. Esta informação prévia irá favorecer sua atitude em relação ao patrimônio. Quanto à população local, esta é vista freqüentemente como elemento exóticos, bem como pessoas que se ocupam a facilitar os serviços da indústria turística. Ainda, segundo a classificação, a maior parte dos turistas pertence ao terceiro grupo, o de viajantes ocasionais, onde o interesse cultural é apenas uma alternativa a férias variadas, sem constituir, no entanto, objetivo principal. Muitas vezes, estes indivíduos têm pouca informação sobre os lugares e estão pouco interessados em desfrutar da cultura local. Portanto, se não existe interesse pelo patrimônio, pouco se preocupam por seu significado e valor, não desenvolvendo talvez respeito pelo seu sentido. O patrimônio histórico como produto turístico No Brasil, a valorização do patrimônio se deu a partir de medidas do estado ainda no período varguista, com a criação do SPHAN, mais tarde transformado em IPHAN, como você pôde estudar na unidade 2. A junção de patrimônio histórico como produto turístico no Brasil passou a dar, desta forma, maior atenção às regiões Nordeste e Sudeste, onde ocorreram ciclos econômicos do período colonial – como o café e o ouro – valorizando sobremaneira as construções e manifestações culturais do período barroco, entre os séculos XVI ao XVIII. Esta valorização excessiva do barroco como produto cultural e das construções do período colonial, deixou passar por vezes o século XIX, com sua arquitetura neoclássica. Apesar de ser um estilo europeu, acabou adquirindo suas próprias feições no Brasil. Quanto à restauração e revitalização destes centros, no Brasil, o estado se viu obrigado a melhorar a infra-estrutura local com obras de melhorias urbanas para manter a atratividade local. 100 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 100 27/11/2006 17:35:14 Patrimônio Cultural e Turismo I Estas melhorias urbanas voltam-se tão somente para o mercado turístico e possuem caráter embelezador, de construção de um lugar que chame atenção e ative o imaginário dos turistas, como mencionado anteriormente. Assim, o tombamento de prédios históricos se faz presente, como forma de atender a esta necessidade de valorização do patrimônio frente ao mercado turístico. Existem diferentes opiniões sobre a questão do tombamento e restauração ou revitalização destes monumentos. Nestes casos, o conflito envolve situações de restaurações, cujas transformações levam um edifício, por exemplo, a perder completamente a sua identidade inicial. Para muitos pesquisadores, qualquer restauração é uma violação e uma impostura porque faz o monumento parecer diferente do que na realidade é. Outras opiniões apóiam a utilização deste patrimônio como fonte de captação de renda, ao passo que as adaptações nos prédios são necessárias para atender melhor o turista e a população local, como formas ligadas ao lazer. Segundo BARRETTO (2001), O tombamento de prédios de valor histórico pressupõe apenas que eles não poderão ser alterados em sua aparência externa. Dentro, podem ser realizadas modificações, pode ser colocado ar-condicionado ou podem ser construídos banheiros. (BARRETO, M. 2001, p.34). s Para saber mais Consulte a obra: BARRETO, M. Turismo e legado cultural. 2 ed. Campinas: Papirus, 2001. Mas a discussão sobre o valor do tombamento e da restauração de edifícios históricos vai longe. Para Ycarim Barbosa (2001, p.74), com a exploração turística o patrimônio histórico acaba se transformando em um não-lugar e os exemplos apresentados Unidade 3 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 101 101 27/11/2006 17:35:14 Universidade do Sul de Santa Catarina na seção 2, do Pelourinho ao Recife antigo se enquadram nesta função. Também, são os planos de desenvolvimento turístico que têm determinado com maior freqüência os projetos de pesquisa em determinados sítios, urbanos e arqueológicos. Estudam-se zonas que, depois de descobertas, são restauradas ou reconstruídas com o propósito de serem admiradas pelos visitantes. As críticas da exploração excessiva Caso o turismo interprete o patrimônio apenas como recurso econômico, poderá ocasionar impactos negativos de várias ordens ao local. O consumo turístico fugidio poderá produzir imagens estereotipadas, destruir paisagens e comprometer a estrutura dos bens históricos através de ações depredatórias. Existem casos extremos em que o patrimônio deixa de ser um valor cultural para seus habitantes e passa a ser entendido como um mero cenário de função turística. Desta forma, muitos pesquisadores crêem que a massificação da atividade turística ajuda no efeito de transformação e deterioração dos recursos culturais. Ao estado, o que lhe interessa, é captar mais e mais turistas que proporcionem dividendos. Para esses autores, a cada ano o estado faz projeções do número de turistas e dos valores que estes investirão; calculam a possibilidade de novos empregos ou ainda de novos recursos e a captação de dinheiro para investimento em hotéis, revitalização do patrimônio e roteiros. Na realidade, o estado se preocupa em preservar o patrimônio histórico pela estreita ligação deste aos interesses capitalistas e de legitimação do próprio estado. Normalmente, no meio desse turbilhão, as medidas para proteção dos sítios turísticos e da manifestação dos patrimônios culturais e artísticos são colocadas em segundo plano. De acordo com a experiência, os componentes do patrimônio cultural (atrativos culturais) podem-se agrupar em três grandes segmentos, para análise da forma como cada um deles é afetado pela prática do turismo: 102 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 102 27/11/2006 17:35:14 Patrimônio Cultural e Turismo I zonas e monumentos arqueológicos e históricos, populações e comunidades tradicionais; artesanato e artes populares, línguas, conhecimentos, festas, costumes e valores tradicionais. Assim como na cenarização, a grande arma da indústria turística são os meios de comunicação. A propaganda atrai a atenção do turista em direção aos atrativos do lugar explorado, enfatizando valores e aspectos que devem ser conhecidos pelo turista. Assim se faz homogênea a visão dos visitantes e o êxito do itinerário turístico dependerá da satisfação e constatação das expectativas criadas em cada indivíduo pela informação prévia. Desta maneira, as características mais relevantes de um lugar arqueológico, um povoado tradicional, do artesanato ou da festa popular são reduzidas a símbolos ou estereótipos, descontextualizando os elementos culturais que, ao longo da história, têm formado e seguem formando parte do patrimônio cultural das nações. Os lugares de visitação se convertem em cartazes, chaveiros, lâmpadas, objetos de praia e em uma infinidade de objetos. Logo, o caráter de festas tradicionais, que deveriam ser o momento de encontro e celebração dentro da cultura de um povo, se perde no empenho de comercialização e rentabilidade mercantil. Em se tratando de patrimônio histórico, a afluência em massa de turistas tem outros efeitos. Muitas vezes parte dos turistas que visitam os lugares que contêm algum valor histórico não tem consciência de seu valor, permitindo assim que o vandalismo e ações predatórias, como grifos, atestem sua presença ao local. Também é comum que em lugares de circulação restrita as normas não sejam obedecidas. Unidade 3 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 103 103 27/11/2006 17:35:14 Universidade do Sul de Santa Catarina SEÇÃO 4 - Patrimônio cultural e histórico na era da indústria cultural As noções de monumento e patrimônio arquitetônico esclarecem o modo como as sociedades ocidentais assumiram sua relação com a temporalidade e construíram sua identidade histórica. Durante os séculos anteriores, a descoberta do patrimônio criou um efeito de distância, propiciando um intervalo onde se instalou o tempo referencial da história. Esta descoberta permite às sociedades ocidentais construírem seu tempo histórico e sua conseqüente identidade. O monumento passa a ser um testemunho do passado, contribuindo para o estudo da história e seu desenvolvimento. Este patrimônio seria visto também como objeto de culto de um passado histórico, normalmente glorioso, servindo de referência às tradições locais ou nacionais. Do culto à indústria O culto do monumento histórico sofreu uma grande metamorfose a partir da década de 60. Países como a França reforçaram a política cultural do estado, de modo que esta tendência se espalhou por outros países. A grande expansão dos valores ocidentais em relação ao patrimônio histórico e sua mundialização ocorreu a partir da assembléia geral da UNESCO em 1972. Este texto baseia a noção de patrimônio cultural universal na de patrimônio histórico, isto é, edifícios, sítios arqueológicos ou monumentos em geral que apresentam valor excepcional do ponto de vista da história da arte ou da ciência. Logo, é necessário que cada país tome medidas para valorizar e restabelecer seus monumentos que, além de serem símbolos do passado histórico, se transformarão em ícones da humanidade. Assim, aos países que adotaram esta convenção cabe um esforço internacional e de cooperação mundial para repassar o patrimônio às futuras gerações. 104 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 104 27/11/2006 17:35:14 Patrimônio Cultural e Turismo I É evidente que, frente a isto, o número de monumentos inscritos na lista de patrimônio mundial tende a se transformar num índice de prestígio internacional, além de se tornar objeto de disputa entre os países. Deste modo, a cada ano cresce o número de monumentos inscritos de acordo com CHOAY (2001, p. 208). O maior desenvolvimento do lazer em forma do turismo cultural, discutido na seção 3, está na origem da expansão de público em relação aos monumentos históricos. s De acordo com Choay, o estado francês foi o primeiro estado a promover um rito oficial de culto ao patrimônio histórico, conseqüentemente um culto à cultura. A palavra cultura passa a se desenvolver a partir dos anos 60 e o símbolo de sua fortuna foi a criação de um ministério para assuntos culturais. Este fato logo se espalhou por toda a Europa e de lá para o resto do mundo. Assim, a difusão da cultura resulta em problemas que causam uma mudança em seu significado direto. A cultura perde seu caráter de realização pessoal, tornando-se empresa e, a partir daí,indústria. Em contrapartida, os monumentos históricos adquirem dupla função: são obras que propiciam o lazer e o saber, estando à disposição de todos; e são produtos culturais fabricados, empacotados e que serão distribuídos para o consumo. Todo este processo está relacionado com a seção 2, onde discutimos e aprendemos exatamente o processo de cenarização de um ambiente potencialmente turístico em prol de seu valor dentro da indústria turística. Através de estratégias, como os meios de comunicação - que também já vimos anteriormente - e que causam grande impacto dentro desta indústria, o patrimônio e a cultura acabam se transformando em valor econômico. Assim, a tarefa dos meios de comunicação é de explorar indefinidamente os monumentos de modo a multiplicar cada vez mais seus visitantes. Essencial para se discutir a questão do patrimônio é compreender o sentido da palavra valorização e o que ela significa dentro deste contexto. A palavra valorizar possui dois significados fundamentais que expressam diferentes sentidos: valorizar como forma de aumentar o préstimo de algo; e valor no sentido de Unidade 3 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 105 105 27/11/2006 17:35:14 Universidade do Sul de Santa Catarina custo e preço. Estas diferenças, em breve, serão fundamentais dentro desta discussão. Valorizar é uma palavra mágica que acaba por sintetizar o status do patrimônio histórico edificado. Esta palavra não deve esconder que assim como ontem, a destruição de monumentos continua hoje pelo mundo, a pretexto da modernização e também da restauração. Como visto na seção 3, a restauração é vista por muitos pesquisadores como uma forma de desvalorização do monumento. No entanto, valorizar possui um sentido ambíguo. A palavra-chave que deveria tranqüilizar por expressar o préstimo dos monumentos carrega também o sentido de valor agregado à utilidade, remetendo ao contexto econômico da mais-valia. Como você viu inicialmente, quando falamos pela primeira vez em valorização, a palavra simboliza ao mesmo tempo préstimo e valor na forma de custo e preço. As inovações tecnológicas do presente permitem que os monumentos sejam restaurados e conservados, aumentando o seu valor. No entanto, a tendência mais freqüente diz respeito à rentabilidade do monumento e seu direto valor econômico, por ações que podem mudar o destino de um monumento ou de uma cidade antiga. Entre as múltiplas ações destinadas a valorizar os monumentos históricos e transformá-los em produto econômico, existem algumas formas que se confundem ou se associam. São elas: conservação e restauração: são os fundamentos de toda a valorização. Eles não devem, no entanto, servir apenas como marco econômico e turístico. A restauração deve elevar o monumento ao mais próximo daquilo que era balizado por estudos científicos. A restauração sem estudos ou a reconstituição com fins apenas turísticos deve ser abolida em defesa da conservação dos monumentos; 106 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 106 27/11/2006 17:35:15 Patrimônio Cultural e Turismo I modernização: neste caso, não é dar a impressão de novo, mas colocar no corpo dos velhos edifícios um implante regenerado. A insensibilidade pode ser uma atitude desastrosa; conversão em dinheiro: o patrimônio torna-se um suporte publicitário e é associado à venda de produtos de consumo em geral, como souvenires. A integração dos monumentos à vida contemporânea O processo que reintegra um edifício em desuso à sociedade pela reutilização é a forma mais paradoxal, audaciosa e difícil da valorização do patrimônio. Para Choay (2001), O monumento é assim poupado aos riscos do desuso para ser explorado ao desgaste e usurpação de uso: dar-lhe nova distinção é uma operação difícil e complexa que não deve se basear apenas em uma homologia com sua destinação original. Ela deve, antes de mais nada, levar em conta o estado material do edifício, o que requer uma avaliação do fluxo de usuários potenciais. (CHOAY, 2001, p.219). Os edifícios mais modernos, do século XIX em diante, são em geral, facilmente adaptáveis às formas de utilização atuais e se prestam aos múltiplos usos, públicos e privados. É o caso de muitas cidades brasileiras onde hotéis, velhos edifícios administrativos e fábricas se tornam centros culturais ou econômicos. Em Porto Alegre, por exemplo, o hotel Majestic, construção do início do século XX, transformou-se em casa de cultura que abriga cinemas, salas de teatro e apresentações culturais. Outro exemplo ligado à cultura na mesma cidade é o prédio dos antigos Bancos Nacional do Comércio e Sulbrasileiro, que se transformaram, também, em museus de arte e palcos de apresentações culturais. Na esfera de circulação de pessoas, todo o complexo industrial da cervejaria Bopp do primeiro quartel do século XX transformouse em shopping, também em Porto Alegre. Unidade 3 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 107 107 27/11/2006 17:35:15 Universidade do Sul de Santa Catarina No entanto, quando se trata da reutilização e adaptação de monumentos, grave é o procedimento de “curetagem” onde apenas a casca do edifício – normalmente a parte frontal – é mantida e restaurada. Este é um procedimento inadmissível, pois se resume ao sacrifício das estruturas e do ambiente interno do edifício. De acordo com CHOAY (2001, p. 222), a prática da reutilização deve ser objeto de uma pedagogia especial. Ela deriva de um bom senso e de uma sensibilidade inscrita na vida das tradições urbanas. Considerações Finais Assim, percebe-se que a questão do patrimônio, transformada em indústria, tornou-se muito complexa. Ela significa para muitas nações, de forma direta ou indireta, parte da renda. Para muitos estados, ela significa a sobrevivência e o futuro econômico. E é por isto que a valorização do patrimônio é um investimento rentável. Desta forma, os profissionais do ramo preocupam-se cada vez mais com o enorme fluxo de turistas e visitantes aos monumentos que podem não vencer a força do tempo. Também a conseqüente quantidade de restaurações e de manutenção figura como agravante em potencial. Outro fator ligado à industria do patrimônio é a saturação física do sistema. Para Choay (2001, p. 228), a exploração do patrimônio histórico arquitetônico esta, pois, fadada ao esgotamento, a menos que se reduzam os gastos de manutenção e se regule o fluxo de seus consumidores. Assim, vivemos em uma era caracterizada pela industrialização da cultura, onde o culto ao patrimônio é celebrado e se difunde pelo mundo inteiro em formas mais amenas e em formas mais destrutivas. 108 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 108 27/11/2006 17:35:15 Patrimônio Cultural e Turismo I Síntese Nesta unidade, você estudou o processo histórico do surgimento de tradições e como elas podem influenciar a cenarização de espaços com fim econômico, por meio da indústria do turismo. Você pode observar como estes processos interligam-se e acabam na exploração do patrimônio cultural e histórico como principal fim. É importante destacar também que estas ações de revitalização do patrimônio histórico, apesar de estarem destinadas a um determinado fim, não deixam de valorizar a cultura local. Apesar de muitos autores serem contra os conceitos de revitalização e valorização dos monumentos, estas medidas podem influenciar a economia da sociedade local, gerando um fluxo importante de renda para a comunidade. Você percebeu também como estamos inseridos na era da indústria cultural, onde a cultura, seja através da história ou dos elementos que caracterizam um povo, está sendo explorada de várias formas com finalidades econômicas. Importante ressaltar que no Brasil estes processos também estão ocorrendo. Por intermédio dos exemplos estudados, você viu como é comum a criação de não-lugares, de cenários turísticos e da invenção de tradições dentro do contexto estudado. Enfim, não estamos à margem destes importantes processos que definem de forma organizada a exploração do patrimônio e a transformação do turismo em indústria e a necessidade de se venderem marcas, imagens e serviços. Desta forma, simples viajantes se tornaram turistas, onde as experiências foram convertidas em mercadorias e bens consumíveis. Unidade 3 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 109 109 27/11/2006 17:35:15 Universidade do Sul de Santa Catarina Atividades de auto-avaliação 1) Identifique as características da cenarização de espaços como o Pelourinho e relacione-os com o processo de exploração do turismo. 2) Cite exemplos do impacto do turismo no patrimônio. 110 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 110 27/11/2006 17:35:15 Patrimônio Cultural e Turismo I 3) A invenção das tradições é um processo que cresceu enormemente nos últimos 150 anos. Relacione este processo com os exemplos dados no texto. Saiba mais Para aprofundar seus conhecimentos sobre o conteúdo tratado nesta unidade consulte: AUGÉ, Marc. Não lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. Campinas, SP: Papirus, 1994. BARBOSA, Ycarim Melgaço. O despertar do turismo: um olhar crítico sobre os não-lugares. São Paulo: Aleph, 2001. BARRETTO, Margarita. Turismo e legado cultural: as possibilidades do planejamento. Campinas: Papirus, 2001. CASASOLA, Luis. Turismo e ambiente. São Paulo: Roca, 2003. CHOAY, Françoise. A alegoria do patrimônio. São Paulo: Estação Liberdade, 2001. HOBSBAWN, Eric. A invenção das tradições. 3. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002. SILVA, Maria da Glória Lanci. Cidades Turísticas identidades e Cenários de lazer: São Paulo: Aleph, 2004. YÁZIGI, Eduardo (org.). Turismo: espaço, paisagem e cultura. 2. ed. São Paulo: HUCITEC, 1999. Unidade 3 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 111 111 27/11/2006 17:35:15 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 112 27/11/2006 17:35:16 UNIDADE 4 Práticas preservacionistas e a noção de restauração 4 Objetivos de aprendizagem Estudar a noção de patrimônio cultural na obra de Alois Riegl. Contextualizar o debate acerca da restauração e intervenção no patrimônio. Verificar a ampliação das obras consideradas “bens culturais”. Seções de estudo Seção 1 O Patrimônio para Alois Riegl Seção 2 A restauração do patrimônio Seção 3 A gestão pública do patrimônio patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 113 27/11/2006 17:35:16 Universidade do Sul de Santa Catarina Para início de estudo Você percebeu na trajetória dessa leitura, que os elementos que definem patrimônio-preservação e a relação desses temas com a atividade turística foram produzidos historicamente. Todavia, nesta unidade a discussão trata de três elementos fundamentais atinentes à noção de monumento, a problemática da intervenção humana através de ações preservacionistas ou restauradoras e a gestão pública do patrimônio histórico. Portanto, ao concluir seu estudo com essas reflexões e aportes conceituais, você terá qualificações argumentativas para interagir na sua cidade, na sua comunidade, na sua escola no que diz respeito à gestão patrimonial. Ainda que estejamos falando de monumentos de caráter coletivo e de reconhecimento nacional e internacional, cada família, grupo, comunidade deve trabalhar com a idéia de patrimônio possivelmente a partir dos elementos que evidenciamos nessas 4 Unidades. Boa leitura. SEÇÃO 1 - O Patrimônio para Alois Riegl Figura: Alois Riegl. Fonte: http:// www.aeiou.at/aeiou.encyclop. r/r647058.htm Em 1903 o historiador de arte austríaco Alois Riegl escreveu “O culto moderno dos monumentos”. O trabalho fazia parte da reogarnização da legislação referente à conservação dos monumentos austríacos. O texto do Riegl estabelecia os princípios para a preservação histórica com base nos “valores” singulares dos monumentos. Riegl dividia os monumentos a partir das seguintes categorias: valor de antiguidade, valor histórico, valor de rememoração intencional, valor de uso, valor de arte relativo e valor de novidade. Portanto, o intelectual austríaco, no começo do século XX, encarregado pelo governo austríaco, em definir uma política de tutela e preservação, empreendeu naquela ocasião, um “conceito 114 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 114 27/11/2006 17:35:16 Patrimônio Cultural e Turismo I de patrimônio”. Para ele, o valor do monumento é resultado de uma reflexão histórica, portanto temporal e circunstancial. Segundo o autor o monumento é uma obra criada pela mão do homem com o intuito preciso de conservar para sempre presente e viva na consciência das gerações futuras a lembrança de uma ação ou destino. São as condições sociais, políticas e econômicas que definem e chancelam o que deve ser designado como “monumento”. Quando a sociedade moderna se refere e se utiliza do termo, ela está olhando os monumentos artísticos e históricos, ou seja, tratase daqueles monumentos não-intencionais, aos quais, segundo Riegl (1984, p.09), “não é sua destinação original que confere a essas obras a significação de monumentos; somos nós, sujeitos modernos, que a atribuímos”. Assim, o valor do monumento não é intrínseco a ele mesmo, mas uma atribuição histórica, da história da arte, resultado de uma vontade artística. Ao definir as categorias de “valor dos monumentos” Alois afirma: A classe dos monumentos intencionais diz respeito às obras destinadas, pela vontade de seus criadores, a comemorar um momento preciso ou um evento complexo do passado. Na classe dos monumentos históricos, o círculo se alarga àqueles que apresentam ainda um momento particular, mas cuja escolha é determinada por nossas preferências subjetivas. Na classe dos monumentos antigos entram enfim todas as criações do homem, independentemente de sua significação ou de sua destinação original [...] As três classes aparecem assim como três estados sucessivos de um processo de generalização crescente do conceito de monumento. (RIEGL, 1984, p.47) Todavia, Riegl acreditava que o valor de antiguidade estava na própria materialidade do monumento, ou seja, ele se revelava imediatamente através do contraste com aquilo que era contemporâneo. É uma realidade que está na superfície do monumento, em sua aparência, forma e estética. Unidade 4 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 115 115 27/11/2006 17:35:16 Universidade do Sul de Santa Catarina Estas evidências de antiguidade tornavam o monumento objeto de conservação devido ao seu aspecto imediato aos olhos. Tal estética de antiguidade resultaria da ação que exerce o tempo e as forças naturais sobre o próprio objeto, como no Parthenon Grego, nas Pirâmides do Egito ou nas Esculturas dos profetas de Aleijadinho em Congonhas do Campo. Figura: Obras de Aleijadinho- Congonhas-MG. Fonte: http://www.viagensmaneiras.com.br/ viagens/congonhas.htm Seriam os traços de decomposição impostos à obra que fazem aflorar no espectador a sensação da força do tempo. Esses elementos e a percepção da ação do tempo são os atributos que determinam a necessidade conservativa através da não-intervenção. Em outras palavras, para Riegl as sociedades não devem intervir no processo de corrosão das leis naturais, que marcam o objeto através das ações do tempo. Figura: Pirâmide. Fonte: http://www.bluff ton. edu/~sullivanm/egypt/giza/sphinx/distant2. jpg Ainda assim, isso não significa que tenhamos que nos tornar passivos diante da diluição e destruição das coisas do passado. Antes, a apreciação contemporânea dos objetos em ruínas deve se equivaler à percepção da manifestação do ciclo natural das coisas que se submete inelutavelmente toda obra humana, aqui entendida como um organismo natural, o qual deve se desenvolver livremente, protegido apenas de um fim prematuro. (RIEGL, 1984, 78) Fonte Contudo, é preciso tornar claro que, a verificação de um objeto com “valor de monumento histórico” resulta de uma interpretação, uma reflexão sobre seu “verdadeiro valor histórico”. O “valor histórico”, portanto, vem do reconhecimento de que um determinado monumento representa um estado particular e único no desenvolvimento de um domínio da criação humana. O objeto que passa a ser identificado através de uma reflexão científica como documento histórico deveria ser mantido o mais fiel possível ao estado original, como no momento de sua criação, que implicaria a efetivação de um método de conservação. 116 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 116 27/11/2006 17:35:16 Patrimônio Cultural e Turismo I Tal procedimento deveria buscar a paralisação do processo de degradação sofrido pela obra, ainda que admita as transformações já impostas pelo tempo como parte da história do próprio monumento. Em muitos casos, nossa excessiva preocupação em “guardar e condicionar” as coisas do passado acabam por desfigurar as “qualidades artísticas” dos monumentos. Conforme Claudia dos Reis e Cunha (2006, p. 16) “mesmo aos monumentos antigos impõe-se que se apresentem como novos, com seu aspecto acabado e fresco, tal como uma obra recente.” Para ela o patrimônio histórico na sociedade contemporânea, mais do que perpetuar uma memória, presta-se a “reafirmar o desejo humano de imortalidade, de perenidade, em sua constante luta contra a dissolução e a morte.” (CUNHA, 2006, p. 13) Seção 2 - A restauração do patrimônio Como vimos na Unidade 2 deste livro, na concepção contemporânea sobre os bens culturais, a chancela (é importante manter este termo para manter a coerência com os outros capítulos) não mais se restringe apenas às “grandes obras de arte”, como ocorria no passado, mas se volta também às obras “modestas” que com o tempo assumiram alguma significação cultural. Nesse sentido, é necessário dizer que se utiliza a expressão monumentos históricos, não como obras grandiosas aleatórias, mas vinculada ao sentido etimológico de monumento e como interpretada por Riegl, ou seja: como instrumentos da memória coletiva e como obras de valor histórico que, mesmo não sendo “obras de arte”, são sempre obras que possuem uma configuração, uma conformação que lhe é atribuída. Assim, elabora-se um plano de intervenção e restauro resultante de uma análise ou diagnóstico do objeto cultural. É no século XV que as intervenções em obras de épocas passadas deixam de ter como objetivos, questões de ordem essencialmente prática e utilitária e começam a ter motivação cultural. Unidade 4 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 117 117 27/11/2006 17:35:17 Universidade do Sul de Santa Catarina A partir do final do século XVIII a preservação vai se sistematizar, assumindo, de forma gradativa, uma maior autonomia e, somente no século XX consolidase como campo disciplinar autônomo. Com efeito, podemos afirmar que em dois séculos se construíram os preceitos e princípios teóricos que basearam a noção de patrimônio. Segundo a historiadora de arte Beatriz Mugayar Kühl as intervenções projetadas em monumentos já existem ao longo do tempo, voltadas, normalmente, para sua adaptação às necessidades da época e ditadas por exigências práticas e de uso. No entanto, as noções que floresceram, isolada e esporadicamente, a partir do Renascimento e amadureceram entre os séculos XV e XVIII, foram posteriormente conjugadas na formação das vertentes teóricas da restauração: o respeito pela matéria original; a idéia de reversibilidade e distinguibilidade da intervenção; a importância da documentação e de uma metodologia científica; o uso como um meio de preservar os edifícios e não como a finalidade da intervenção; o interesse por aspectos conservativos e de mínima intervenção; a noção de ruptura entre passado e presente. (KÜHL, 2006) Com a Revolução Industrial e com a Revolução Francesa, em pleno Iluminismo, os debates sobre o passado e os vestígios documentais tornaram-se intensos. Assim a preservação de monumentos históricos deveria assumir uma função política para fornecer ao presente os “elementos gloriosos do passado”. Em outros termos, a preservação, pautada nos valores formais, históricos, simbólicos e memoriais, estaria em contraposição às ações de cunho prático. Com a catástrofe gerada em conseqüência das destruições da 2ª Guerra Mundial, na segunda metade do século XX ocorreram novas proposições no campo do restauro. De alguma forma, isso ocorreu evidenciando os reduzidos instrumentos teóricos até então empregados para se entender a realidade figurativa e simbólica dos monumentos. 118 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 118 27/11/2006 17:35:17 Patrimônio Cultural e Turismo I Podemos afirmar que as contribuições da Estética e da História da Arte não haviam sido levadas até então em conta, não sendo empregados os meios teóricos disponíveis para abordar obras e extensas áreas devastadas com a destruição em massa. Em síntese, as intervenções mostravam-se inadequadas, substituindo formas, materiais, elementos arquitetônicos se considerar os conjuntos urbanos como um todo. Com a Carta de Veneza de 1964, deu-se maior ênfase aos valores formais do que no período anterior – em que predominou o valor documental da obra –, sem desrespeito, porém, aos aspectos históricos e às várias fases por que passou o monumento ao longo de sua vida. Conforme analisou Beatriz Mugayar Kühl (p.28), as “variadas experiências contribuíram, através de um lento processo de amadurecimento ao longo dos séculos e de um conjunto de experiências, que não foram nem homogêneas nem lineares, para fundamentar noções ligadas ao restauro que permanecem atuais.” A restauração deveria ser entendida, na definição de Brandi – que fundou o Instituto Central de Restauração (ICR), em Roma, em 1939 e o dirigiu por duas décadas –, como “o momento metodológico do reconhecimento da obra de arte, na sua consistência física e na sua dúplice polaridade estética e histórica, com vistas à sua transmissão ao futuro”(KÜHL, 2006 p. 11). Portanto, a intervenção restauradora deve se basear no reconhecimento que se faz da obra de arte como documento histórico, e, portanto, como dado cultural e que sofreu transformações ao longo do tempo, através de instrumentos de reflexão oferecidos pela filosofia e historiografia da arte, crítica e estética. Podemos mesmo dizer, que o restauro se configura como um momento metodológico do reconhecimento da obra de arte, na sua consistência física e na sua dúplice polaridade estética e histórica, com vistas à sua transmissão ao futuro. Assim reconhecemos a restauração em seu momento crítico e que legitima a própria ação interventora (KÜHL, 2006, p. 26). Unidade 4 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 119 119 27/11/2006 17:35:17 Universidade do Sul de Santa Catarina Excetuando essa ocasião, qualquer intervenção sobre a obra de arte é arbitrária e injustificável. Além do mais, retiramos para sempre a restauração do empirismo dos procedimentos e a integramos na história, como consciência crítica e científica do momento em que a intervenção de restauro se produz. Esse processo de restauro não pode estar submetido à uma avaliação pessoal, sem critérios que considerem a singularidade do objeto. Segundo Beatriz Mugayar Kühl a restauração deve ter três princípios: 1 - Distinguibilidade: a restauração (que é vinculada às ciências históricas) não propõe o tempo como reversível e não pode induzir o observador ao engano de confundir a intervenção ou eventuais acréscimos com o que existia anteriormente, além de dever documentar a si própria. 2- Reversibilidade: pois a restauração não deve impedir, deve facilitar qualquer intervenção futura; portanto, não pode alterar a obra em sua substância, devendo-se inserir com propriedade e de modo respeitoso em relação ao preexistente. 3- Mínima intervenção: a restauração não pode desnaturar o documento histórico nem a obra como imagem figurada. SEÇÃO 3- A gestão pública do patrimônio No Brasil, a partir da década de 1970, observa-se um intenso e caloroso debate acerca da noção conceitual de restauração. Os trabalhos na área envolvem questões teóricas e técnicas e a leitura sobre o patrimônio dos órgãos oficiais. Apesar do avanço analítico produzido por críticos de arte, arquitetos e historiadores os princípios que norteiam a restauração e os fundamentos teóricos da Carta de Veneza ainda não foram incorporados na legislação brasileira. Todavia, não podemos desconsiderar os avanços no que tange a leis de tombamento e uma intervenção mais acentuada do poder público para a preservação de áreas e objetos de bem cultural. 120 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 120 27/11/2006 17:35:17 Patrimônio Cultural e Turismo I Segundo Beatriz Kühl (KUHL, 2006, p.30), na década de 1970, quando o IPHAN já tinha mais de 30 anos de fundação, “houve certa convergência para os princípios amadurecidos nas posturas conceituais, em especial italianas, do século XX, incorporadas na Carta de Veneza, de 1964, documento base do ICOMOS / UNESCO, da qual o Brasil é signatário.” Ainda assim, podemos afirmar que é preciso que os preceitos que norteiam a noção de preservação e restauração sejam adequados aos atuais em nosso meio, oferecendo um quadro mais vasto de referência, pois se verifica uma ampliação crescente e legítima daquilo que é considerado bem de interesse cultural a ser preservado, estendendo-se a um número cada vez maior, a tipos cada vez mais variados e a um passado cada vez mais próximo. Todavia, o alargamento da noção de bem cultural exige uma adaptação nas políticas preservacionistas, pois quantitativamente esse fenômeno irá demandar mais recursos e gestão governamental. E ainda, tal reorganização das políticas públicas preservacionistas não poderá desconsiderar as pressões econômicas, utilitárias e políticas, mas tampouco podem ser as únicas e preponderantes. Em outras palavras, o processo de preservação resulta e é motivado, conforme analisou Kühl, pelo fato de nesses bens ser reconhecido um significado cultural – seu valor estético (ou, mesmo não sendo “obras de arte”, obras que possuem uma configuração) histórico, memorial e simbólico – tornando-os dignos de medidas para serem tutelados para as próximas gerações. Também não se trata de conservar todos os elementos e indícios do passado. Uma ação como esta, sem critério e seleção, não resulta em uma atitude adequada no que diz respeito à valorização do passado. Porém, no que se refere à uma ação propositiva de escolha, cabe uma ressalva da maior importância: não se trata de opinião particular, de capricho pessoal ou político; deve-se tratar de estudo consciencioso, formulado por equipes multidisciplinares, fundamentado na antropologia, na sociologia, na história em geral, e em especial na história da arte e da arquitetura, na estética, nas ciências de Unidade 4 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 121 Figura: Monumento às Bandeiras- São Paulo: Fonte: http://www.citybrazil.com. br/sp/saopaulo/turismo.htm 121 27/11/2006 17:35:17 Universidade do Sul de Santa Catarina modo amplo, e jamais, de modo algum, de ato arbitrário e personalizado. Assim como a destruição também deve ter critérios, a conservação requer a formulação de uma política de integração daquele bem junto à comunidade. Síntese Nesta unidade, você estudou as considerações sobre patrimônio segundo o importante crítico austríaco Alois Riegl. Dando consecução às unidades anteriores, nesta você pôde observar a extensão e a importância do debate acerca da noção de patrimônio. Além disso, foram tratadas as questões que envolvem o delicado tema da restauração. Assim, construímos uma trajetória sobre o patrimônio e o que envolve esse tema, investigando as importantes reflexões e ações pertinentes para a preservação de nosso passado. É relevante enfatizar que o estudo do monumento, conhecê-lo de forma aprofundada, leva ao entendimento, ao respeito e a uma boa restauração. Mas é ainda mais imprescindível recordar que não se trata apenas de conhecer para bem conservar, mas também, e talvez sobretudo, “conservar para conhecer”. 122 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 122 27/11/2006 17:35:18 Patrimônio Cultural e Turismo I Atividades de auto-avaliação Você poderá exercitar seus conhecimentos, realizando as seguintes atividades: 1 - Investigue em sua localidade, cidade ou bairro se houve ou há, algum movimento de mobilização social no que diz respeito à preservação patrimonial. Registre sua experiência. 2 - Identifique e compartilhe com os colegas da turma, as intervenções de restauração de peças, objetos, monumentos do patrimônio histórico em sua cidade. Unidade 4 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 123 123 27/11/2006 17:35:18 Universidade do Sul de Santa Catarina Saiba mais Para aprofundar seus conhecimentos leia: CUNHA, Claudia dos Reis. Alois Riegl e o culto moderno dos monumentos. Revista CPC, São Paulo, v.1, n. 2, p. 6-16, maio/ out. 2006. 124 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 124 27/11/2006 17:35:18 Para concluir o estudo Organizar, dinamizar e promover a atividade turística são atividades que demandam intervenções no plano ambiental e paisagístico de uma localidade. No Brasil as experiências da relação “Turismo-Patrimônio Cultural” não podem ser consideradas sustentáveis e responsáveis. Temos inúmeros relatos de má preservação, destruição de sítios e acervos arqueológicos, históricos e artísticos que demonstram a incapacidade, muitas vezes, de gerir de forma adequada o rico e diversificado acervo nacional. Em abril de 2006, por exemplo, a arqueóloga Niède Guidon, responsável pelas descobertas no mais importante sítio arqueológico das Américas, o do Parque da Capivara, noticiou uma cruel destruição praticada por vândalos, que rabiscarem paredes com inscrições de mais de 10 mil anos. Estas pessoas ameaçam a sobrevivência de importantes patrimônios culturais da humanidade, como é caso deste. Nesse sentido, se torna mais que urgente a articulação de esforços provenientes da sociedade civil organizada, bem como da atuação mais efetiva do poder público em relação a preservação desse bem. O patrimônio cultural deve servir como referência de pesquisa, assim como poderá receber investimentos para se tornarem atrativos turísticos. Finalmente, o que você pôde verificar foi a importância do patrimônio como um bem coletivo e ao mesmo tempo único, que se reveste de significados culturais e que promovem a presença do passado no presente. Professor Antônio Manoel Elíbio. Professora Karen Christine patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 125 27/11/2006 17:35:18 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 126 27/11/2006 17:35:18 Referências ABREU, Regina e CHAGAS, Mário (orgs.). Memória e patrimônio: ensaios contemporâneos. Rio de Janeiro: DP&A, 2003. AUGÉ, Marc. 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Karen Christine Rechia Graduada e Mestre em História pela Universidade Federal de Santa Catarina. É autora, entre outros, do capítulo Mulheres em Santa Catarina: vidas de trabalho, publicado no livro História de Santa Catarina: Estudos Contemporâneos. Professora da Universidade do Vale do Itajaí e da Universidade do Sul de Santa Catarina onde leciona no curso de Pedagogia. patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 129 27/11/2006 17:35:19 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 130 27/11/2006 17:35:19 Respostas e comentários das atividades de auto-avaliação Confira se sua resposta atingiu a expectativa desejada. Se você ficou muito distante da resposta reveja o conteúdo e realize novas leituras para compreendê-lo. UNIDADE 1 1) Faça um inventário (levantamento e identificação) e classificação de possíveis bens culturais na sua cidade. Utilize as informações e classificações da UNESCO e do IPHAN acerca do patrimônio cultural. R: Nesta resposta você (o aluno) deve pesquisar nos sites da Unesco e do IPHAN, as classificações do patrimônio cultural determinada pelos dois órgãos. Depois deve utilizar as características destas classificações para inventariair, na sua cidade, alguns destes bens culturais, de natureza material e imaterial. 2) Compartilhe com o grupo uma reportagem num periódico estadual ou nacional, denunciando o descaso com o patrimônio cultural. R: Aqui, a reportagem selecionada e deve conter uma situação de descaso vinculada ao poder público ou a segmentos da sociedade. Assim podem ser destacadas, como exemplo, matérias que tratem da falta de espaço e incentivo a manifestações culturais de caráter popular, da extinção de certos ofícios transmitidos de geração a geração, da destruição de edificações e locais históricos, de crimes contra o patrimônio natural, entre outros. 3) Com base no que foi estudado, registre sua opinião acerca da importância da preservação do patrimônio material e imaterial. R: Esta é uma resposta na qual você deve exercitar a reflexão e análise acerca do conteúdo estudado. Retome o conceito atual de patrimônio e a classificação da Unesco, considerando a relevância ou não dos bens culturais tombados e preservados no Brasil, por exemplo. Compare os prós e contras e registre sua opinião. patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 131 27/11/2006 17:35:19 Universidade do Sul de Santa Catarina 4) Compare o conceito de patrimônio do século XIX com o da atualidade. Estabeleça diferenças e semelhanças a partir do que foi estudado na unidade. R: O conceito de patrimônio surge no contexto ocidental de consolidação dos Estados Nacionais, nos séculos XVIII e XIX e estava associado à representação física e monumental dos bens culturais. A discussão acerca do patrimônio e dos monumentos era sentido de materializar uma identidade nacional ligada a seleção de acontecimentos considerados memoráveis na história da nação. Após a segunda metade do século XX, a noção de patrimônio abrange os aspectos materiais e imateriais da cultura, valorizando práticas, expressões, lugares e grupos, geralmente desconsiderados na visão anterior. Atualmente as discussões acerca do patrimônio na atualidade têm se calcado pelos debates em torno da diversidade social e cultural e no entendimento de que todos têm direito à memória, individual e coletiva, direito a conhecer os seus bens culturais e de outros povos, vistos como parte integrante no processo de construção da cidadania. UNIDADE 2 1) Quando foi criada, logo após a II Guerra Mundial em 1945, a UNESCO tinha como finalidade acompanhar o desenvolvimento mundial e auxiliar os países em desenvolvimento. Em que medida suas ações auxiliam a preservação do patrimônio cultural mundial? R: O campo de ação da UNESCO é diversificado, mas no que toca ao Patrimônio Mundial, empenha-se em medidas de preservação, na ampliação do conhecimento e no acesso da sociedade ao patrimônio cultural e natural da Humanidade. Acompanha o estado de conservação destes mesmos bens, que podem ser excluídos do registro como Patrimônio Mundial. Ao ampliar a noção de patrimônio permite a salvaguarda da cultura oral, dos rituais e das festas e dos saberes e fazeres sobre a natureza e sobre mundo transmitidos as gerações. A cooperação da UNESCO com outros países é de fundamental importância no âmbito da pesquisa, da valorização local desses bens e da integração das comunidades envolvidas no processo de revitalização e preservação do bem cultural. 132 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 132 27/11/2006 17:35:19 Patrimônio Cultural e Turismo I 2) Identifique a relação dos Museus e o turismo. R: Os museus têm adquirido relevância dentro do planejamento turístico. Na medida em que seu conceito evoluiu, tornando-se exemplo e demonstrativo da memória cultural dos povos, sua relação com o turismo também é redimensionada. Desta forma, os museus também investem nas atividades ligadas à documentação, exposição e conservação, atraindo um público maior. Ao mesmo tempo em que torna o turismo uma fonte de renda com a venda de ingressos, souvenires, catálogos, reproduções e réplicas de obras expostas. 3) Em que medida recomendações internacionais como a de Nairóbi poderiam ajudar países como o Brasil na revitalização de seus centros históricos? R: A Recomendação de Nairóbi, oficializada pela Unesco, fala da preservação de conjuntos históricos e que a mesma deve ser apoiada pela administração local e municipal e pelos moradores das respectivas comunidades. No Brasil a descaracterização do centro urbano é mais acelerada que suas políticas de preservação, no entanto, Recomendações como esta possibilitam financiamentos de organizações nacionais ou mundiais para a revitalização de centros históricos. Da mesma forma que permite o conhecimento e acesso da comunidade local a sua história, devolvendo espaços de sociabilidade, fomenta atividades turísticas responsáveis. 4) Indique as principais leis de preservação cultural do Brasil. R: De acordo com o texto constitucional de 1988, constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira. Neste sentido, a Lei de Tombamento, surgida em 1937 sua é alterada em sua definição de bens culturais, a partir desta nova noção. A Lei dos sambaquis, de 1961, considera os sítios arqueológicos bens patrimoniais da União, reconhecendo sua preservação e o Código Penal brasileiro legisla acerca da proibição da exportação de bens culturais. UNIDADE 3 1) Identifique as características da cenarização de espaços como o Pelourinho e relacione-os com o processo de exploração do turismo. R: Podemos identificar a cenarização dos espaços turísticos a partir dos investimentos e intervenções urbanísticas bem como através da propaganda turística. Nesse sentido, percebemos que a cenarização 133 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 133 27/11/2006 17:35:19 Universidade do Sul de Santa Catarina reconfigura os lugares tornando-os “espaços de visitação”. A exploração turística, ao potencializar as características desses cenários, viabiliza o fluxo de visitantes envolvidos com as imagens e cenários de atratividade. 2) Cite exemplos do impacto do turismo no patrimônio. R: 1- Degradação das características artísticas. 2- Ameaça de fissuras, pichação e roubo. 3- Exploração desordenado do sítio sem controle de visitação. 4- Expropriação das comunidades locais. 5- Tráfico de obras e coleções do patrimônio material. 3) A invenção das tradições é um processo que cresceu enormemente nos últimos 150 anos. Relacione este processo com os exemplos dados no texto. R: A ameaça dispersante das transformações capitalistas tornou práticas cotidianas em rituais de tradição. A modernização tecnológica e industrial alcançou localidades em escala global, reconfigurando as relações entre os saberes “tradicionais” e as novas sensibilidades. Assim, as “tradições inventadas” são produzidas como uma reação ao desaparecimento, bem como uma tentativa de assegurar a continuidade do passado no presente através de uma memória celebrativa. UNIDADE 4 1- Investigue em sua localidade, cidade ou bairro se houve ou há, algum movimento de mobilização social no que diz respeito a preservação patrimonial. Você poderá perceber essa questão através da pesquisa em jornais locais ou mesmo se na sua cidade houver algum departamento de preservação e gestão patrimonial. É possível ainda, encontrar dados no escritório do IPHAN, caso sua cidade tenha esse órgão federal. Converse com as pessoas de mais idade, comerciantes, ou moradores de prédios e casas antigas para saber se há algum projeto de preservação ou conservação em andamento ou já realizado. 2- Identifique e compartilhe com os colegas da turma, as intervenções de restauração de peças,objetos, monumentos do patrimônio histórico em sua cidade. Nessa questão você poderá seguir a mesma sistemática da questão 1, ou seja, conversando com as pessoas de mais idade, com o pároco da Matriz, com professores de História, colecionadores, ou alguém diretamente ligado a Administração Pública Municipal. 134 patrimonio_cultural_e_turismo_I.indb 134 27/11/2006 17:35:19