Bari, 30 de janeiro de 2012 Relatório sobre a conservação e o reforço do património cultural no Mediterrâneo CdR 386/2011 rev. 1 PT -1- O presente relatório da ARLEM foi elaborado por Asim Güzelbey, presidente do município de Gaziantep (Turquia). Foi debatido pelos membros da Comissão para as Questões Económicas, Sociais e Territoriais (ECOTER) da ARLEM, em 8 de julho, adotado na terceira reunião plenária da ARLEM, em Bari, Itália, em 30 de janeiro de 2012. INTRODUÇÃO E ABORDAGEM GERAL As cidades históricas de todos os países e regiões do Mediterrâneo possuem um património cultural único, tesouro precioso que não é pertença exclusiva destes países e nações mas de toda a humanidade. Mercê das vicissitudes da história e da influência das atividades humanas, há demasiados bens culturais que se têm vindo a degradar pela corrosão do tempo ou pela mão do Homem, quase todos necessitando de proteção. As experiências humanas, lentamente apuradas pelo longo passar dos séculos, neles perduram, de algum modo impregnando aquilo a que damos o nome de «património cultural». Não poderemos resolver os problemas reais do presente nem construir um futuro sólido e sustentável se não formos capazes de obter todo o tipo de «dados», «documentos», «factos» e «provas» corretos, fidedignos e verdadeiros do passado. A destruição de todo e qualquer elemento do passado tem de ser considerada uma perda de saber valioso. Encarar o património cultural e natural como um tesouro e uma fonte de informação implica assumir um pesado fardo de responsabilidade. Temos absolutamente de aprender a lê-lo, interpretá-lo, conservá-lo e transmiti-lo às gerações vindouras. Perante a ameaça do tempo, dos desastres naturais, dos conflitos humanos, do roubo, do tráfico ilegal e das pilhagens, a transmissão do património cultural às gerações futuras afigura-se incerto. Por esse motivo, a proteção e a conservação do património para as gerações futuras no Mediterrâneo coloca imperativos éticos assentes numa série de instrumentos normativos reforçados pelo princípio da responsabilidade coletiva de todos os atores do Mediterrâneo. O presente relatório visa destacar os problemas reais e determinar em conjunto o que urge fazer para os resolver. CdR 386/2011 rev. 1 .../... -2- CONTEXTO A diversidade cultural é um trunfo indispensável para reduzir a pobreza e conseguir um desenvolvimento sustentável. A Conferência Mundial sobre as Políticas Culturais (Cidade do México, 6 de Agosto de 1982) definiu o Mediterrâneo como uma ponte entre pessoas e culturas e um meio de comunicação entre as culturas europeia e islâmica, recomendando que fosse proclamado como «mar da civilização humana». Desde então, a Unesco desenvolveu, planeou e realizou diversos estudos e programas. A partir de 1995, estes programas foram reunidos sob o nome de «Programa para o Mediterrâneo», a fim de promover o Mediterrâneo como um espaço ecocultural. A Parceria Euro-Mediterrânica (ou Processo de Barcelona) iniciou-se em 1995 com a Conferência Euro-Mediterrânica de Barcelona, estabelecendo os primeiros princípios de cooperação: «A declaração tem em vista estabelecer uma parceria global euro-mediterrânica, a fim de tornar o Mediterrâneo um espaço comum de paz, estabilidade e prosperidade através do reforço do diálogo político e de segurança, de uma parceria económica e financeira e de uma parceria social, cultural e humana.» Em resultado da Parceria Euro-Mediterrânica, foi lançado o programa Euromed Património. Este programa está em vigor desde 1998 e tem sido conjugado com outros programas para identificar o património cultural dos países do Mediterrâneo, promover a sua conservação e dar a conhecer à população dos países parceiros o seu próprio património cultural. Desde então, para além da União Europeia, outros atores – sobretudo a Unesco e a Herimed (Associação para a Documentação, Conservação e Fomento do Património Cultural EuroMediterrânico), assim como muitas outras organizações governamentais e não-governamentais – têm multiplicado esforços neste domínio. A Parceria Euro-Mediterrânica tornou-se em 2008 na União para o Mediterrâneo (UM). A UM dispõe de um secretariado permanente em Barcelona, mas, infelizmente, a proteção do património cultural não é diretamente referida em nenhuma das seis áreas de projeto. A responsabilidade cultural passou, em vez disso, a ser assumida pela Fundação Anna Lindh para o Diálogo entre Culturas e pela Aliança das Civilizações das Nações Unidas. CdR 386/2011 rev. 1 .../... -3FACTOS GEOGRÁFICOS E HISTÓRICOS O termo «Mediterrâneo» é derivado do vocábulo latino «mediterraneus» – no «interior» ou no «meio» da terra (de medius, «meio» e terra, «terra»). Abrange uma área aproximada de 2,5 milhões de quilómetros quadrados e tem 46 mil quilómetros de faixa costeira. Atualmente, calcula-se que nos países da orla mediterrânica vivam mais de 500 milhões de pessoas. Com uma combinação única de clima ameno, costas magníficas, uma história rica e uma cultura variada, a região do Mediterrâneo é o destino turístico mais popular do mundo, atraindo aproximadamente um terço do total de turistas das mais diversas paragens. Todos os anos, cerca de 200 milhões de turistas visitam as costas do Mediterrâneo. Historicamente, constituiu uma via importante para os mercadores e viajantes de outrora, permitindo trocas comerciais e culturais entre os povos emergentes da região, incluindo as civilizações da Mesopotâmia, os egípcios, os fenícios, os cartagineses, os iberos, os gregos, os macedónios, os trácios, a cultura levantina, os gauleses, os romanos, os árabes, os berberes, os judeus, os eslavos e os turcos. A história da região do Mediterrâneo é crucial para compreender as origens e a evolução de muitas sociedades modernas. Muitas civilizações notáveis, desde as antigas cidades gregas e passando pelos impérios romano, bizantino, árabe e otomano, dominaram a região e deixaram um legado da maior importância. TERMINOLOGIA, CONCEITOS E DEFINIÇÕES A conservação é um processo extremamente complexo que deve ser encarado numa perspetiva muito mais dinâmica do que qualquer outra disciplina. Requer, com efeito, uma abordagem interdisciplinar. As experiências acumuladas neste domínio põem em relevo uma série de questões, a saber: − − − − − decisões políticas, normas e legislações, princípios gerais, abordagens técnicas, instrumentos de aplicação. Todos estes elementos têm de ser reconsiderados em conjunto, reequacionados e reavaliados no Mediterrâneo, sem prejuízo, como é evidente, dos princípios subjacentes a normas e quadros científicos. Há que reavaliar com cuidado e em profundidade as definições e os conceitos desenvolvidos nestes últimos anos no tocante à conservação do património material e imaterial. Muito sucintamente, a expressão «património cultural» inclui bens culturais materiais , como edifícios, monumentos, paisagens, livros, obras de arte e artesanato, bens culturais imateriais, como CdR 386/2011 rev. 1 .../... -4o folclore, as tradições, as línguas e o conhecimento, e o património natural, que inclui paisagens culturalmente relevantes e a biodiversidade. Estes diferentes bens também podem ser classificados como património «móvel» ou «imóvel». Ao ato deliberado de preservar o atual património cultural para a posteridade dá-se o nome de conservação. Constata-se igualmente que os diferentes tipos e modos de intervenção necessária para a proteção do património cultural e natural são definidos e designados de modos muitos distintos em diferentes âmbitos e domínios, nomeadamente: proteção efetiva, proteção integrada, proteção sustentável, proteção na forma original, proteção autêntica, limpeza, manutenção, reparação, restauro, restauro simples, restauro limitado, incentivo ambiental, paisagismo, melhoria da qualidade ambiental, consolidação, libertação, reintegração, modernização, revitalização, alteração, reconstrução, reconstituição, reprodução, etc. PROBLEMAS CONCRETOS A conservação do património cultural apresenta múltiplas facetas e coloca inúmeras questões de ordem filosófica, técnica e política. Globalmente, podemos referir os problemas mais comuns observados no Mediterrâneo. 1. Problemas a nível político e jurídico De um modo muito geral, a conservação é fundamentalmente uma ação pública. Por esse motivo, há que aceitar que as decisões adotadas neste domínio constituem basicamente uma abordagem em prol dos cidadãos e da sociedade. A aceitação de algumas normas e regulamentos é necessária para a proteção do património cultural contra interesses privados. Estas normas deverão ser objeto de debate adequado e de aprovação por consenso (repatriação, gestão, propriedade, etc.). Na maior parte dos países do Mediterrâneo, os textos jurídicos não são suficientes para, por exemplo, forçar proprietários privados de bens culturais e históricos a efetuarem os investimentos e as intervenções necessários à sua proteção. Na maior parte dos casos, não é claro de que modo é que o Estado deve proceder quando os proprietários privados não realizam as intervenções devidas. Há uma óbvia necessidade de cooperação internacional nesta matéria, para além dos esforços empreendidos por governos nacionais. 2. Problemas financeiros Também é evidente que, na maioria das vezes, em particular a nível local e regional, o maior obstáculo a projetos de conservação é a falta de financiamento. Se é certo que, em relação aos últimos anos, houve um aumento dos fundos afetados pelos governos, são ainda grandes as necessidades e as carências neste âmbito. Isso deve-se sobretudo à maior sensibilização das coletividades locais para a proteção e a conservação, graças à qual há cada vez mais projetos de conservação requerendo mais recursos financeiros. A procura está a aumentar muito mais rapidamente do que os fundos CdR 386/2011 rev. 1 .../... -5efetivamente atribuídos pelos poderes públicos para a conservação de bens culturais. Além disso, deveria haver legislação que estabelecesse incentivos para o setor privado, encorajando-o a investir em projetos ligados ao património cultural. Também poderia ser útil a ratificação de cartas internacionais por parte de alguns países. 3. Problemas a nível das organizações (públicas e privadas) Não obstante a maior sensibilização para a proteção do património cultural, persistem problemas importantes a nível das organizações tanto no setor público como no privado. Há tendência para separar as atividades de planeamento, gestão e proteção, colocando-as sob a tutela de diferentes organizações que têm sérias dificuldades em cooperar e colaborar entre si. 4. Problemas de formação e de qualificação No processo de proteção do meio cultural e de promoção de uma consciência pública, há que reconhecer que no Mediterrâneo não é satisfatória a formação neste domínio. É difícil encontrar pessoal formado e qualificado a todos os níveis no âmbito da proteção do património cultural. Também não é nada fácil reter bons especialistas no nível local. A formação neste domínio deveria começar logo na primeira infância. 5. Problemas de documentação e de catalogação A bacia do Mediterrâneo é muito rica em bens culturais e históricos. Na maior parte dos países, ainda não se procedeu a um inventário exaustivo do património existente, o mesmo problema ocorrendo ao nível da documentação e da classificação de dados. Como é evidente, há muitos outros problemas de caráter social e cultural, ao nível do planeamento, da elaboração e da execução de projetos, etc. Infelizmente, os conflitos armados também constituem outra fonte importante e grave de problemas, tanto mais que o património cultural se torna amiúde num alvo durante um conflito. É, por conseguinte, extremamente importante que os profissionais neste domínio possuam a formação devida para intervirem no momento certo, a fim de proteger ou de recuperar o património cultural. CONCLUSÃO A conservação do património cultural é um processo difícil e complexo. Manter o equilíbrio entre a «utilização» e a «conservação» e entre os interesses «públicos» e «privados» não é simples. Conservar, preservar e utilizar os bens culturais requer uma abordagem meticulosa, multidisciplinar e coordenada. Por si só, os governos não conseguem atingir estes objetivos. Tanto os governos como as organizações privadas, comunitárias e não governamentais têm absolutamente de contribuir para este CdR 386/2011 rev. 1 .../... -6processo. A coordenação – incluindo redes e parcerias entre governos, indivíduos e organizações – poderá reforçar as estratégias e as ações. Conhecendo o terreno melhor do que ninguém, os órgãos de poder local e regional necessitam de ser apoiados por normas, leis, princípios e legislações. Há que fornecer instrumentos financeiros mais amplos especificamente destinados a este domínio. Importa promover a cooperação entre redes, seminários, conferências e workshops. Seria igualmente útil elaborar um quadro panorâmico da legislação existente nos diferentes países em matéria de proteção do património cultural. A nível internacional, os projetos de geminação entre cidades do Mediterrâneo também podem contribuir para fomentar os intercâmbios culturais e facilitar a cooperação entre os especialistas das partes envolvidas. Um dos instrumentos mais eficazes para garantir a conservação do património cultural é confiar esta tarefa a técnicos competentes e a equipas especializadas com formação específica nos domínios de intervenção. Em segundo lugar, a conservação do património tem de ser uma prioridade fundamental para a nossa comunidade mediterrânica. Os direitos culturais são parte integrante dos direitos humanos, que são universais, indivisíveis e interdependentes. A sua plena aplicação está definida no artigo 27.º da Declaração Universal dos Direitos do Homem. Por conseguinte, cabe a cada sociedade fomentar o seu desenvolvimento. Há também que dar mais ênfase à necessidade de cooperação norte-sul (turismo cultural) e de educar e formar os jovens para os ajudar a conhecer e a compreender melhor a sua história e o seu património cultural. É preciso reconhecer também a relevância do desenvolvimento e das culturas locais, promovendo uma política cultural ecológica e sustentável que facilite aos jovens o acesso ao mundo real. Uma ênfase reforçada na importância do património cultural imaterial e dos conhecimentos especializados neste domínio, que permita a sobrevivência dos povos do deserto e do próprio deserto, tem de constituir uma preocupação fundamental das populações da Europa e do mundo. No Mediterrâneo, assim como em todas as outras regiões onde as pessoas aspiram à democracia, não se farão progressos se os cidadãos, nos seus países de origem, não usufruírem de benefícios morais e materiais nem tiverem a possibilidade de aceder gradualmente a um nível que lhes permita participar na gestão dos seus próprios recursos. A Europa tem o dever de velar pela coerência entre o pensamento teórico, por um lado, e a prática e o exercício jurídicos, por outro. Os países do Mediterrâneo deveriam começar a pensar num PLANO DIRETOR ou ma carta de caráter global e internacional como um passo fundamental para a conservação e o reforço do património cultural. CdR 386/2011 rev. 1 .../... -7- Este plano diretor é necessário para coordenar e regular todas as partes interessadas, sem esquecer que a riqueza deste património cultural comum assenta na sua diversidade e pluralismo, e que todas as ações se deverão realizar em sintonia com o «espírito mediterrânico». * * CdR 386/2011 rev. 1 * .../... -8ANEXO – Lista de contributos recebidos pelos membros da ARLEM − − − − − − Província (Wilaya) de Constantina (Argélia) Puy-de-Dôme (França) Medcities Regional Monitoring and Support Unit (RMSU) Bruxelas, (Bélgica) Conseil général de l'Aude / Arco Latino Euromed Heritage _____________ CdR 386/2011 rev. 1