O IMPACTO DO SISTEMA POLÍTICO-INSTITUCIONAL PARA AS REFORMAS NEOLIBERAIS NA ARGENTINA, CHILE E MÉXICO Renata Peixoto de Oliveira RESUMO Neste trabalho, analisa-se o papel da esfera político- sistemas presidencialistas. O processo envolveu institucional nos processos de reforma econômica a ascensão de grupos tecnocráticos ao núcleo do em três países: México, Argentina e Chile, com o poder e, ao mesmo tempo, o isolamento da esfera propósito de identificar nexos e pautas de interação econômica face às pressões políticas. Com esse fim, entre as características dos regimes políticos e as serão consideradas as características e faculdades reformas neoliberais realizadas nas últimas déca- decisórias da esfera presidencial, o tipo de regime das. Como fator decisivo no processo das reformas político e seu grau de coesão, e o papel do sistema neoliberais, tem-se o acúmulo de poder decisório partidário nos processos de reforma econômica em no âmbito executivo – um traço estrutural dos cada um dos países. PALAVRAS-CHAVE reformas econômicas neoliberalismo presidencialismo sistema político TEORIA E SOCIEDADE nº 16.2 – julho-dezembro de 2008 p. 182-207 INTRODUÇÃO É quase um consenso na literatura sobre as reformas na América Latina a idéia de que a adoção generalizada da agenda neoliberal teria ocorrido, na maior parte dos países, como resposta a pressões externas, decorrentes do processo de globalização. Fatores internacionais, como a crise da dívida que afetou as economias da região, levando-as à recessão econômica, teriam diminuído a margem de manobra dos governos, fazendo das reformas de inspiração neoliberal praticamente a única via para prosseguir na trilha da modernização. No entanto, o México, a Argentina e o Chile realizaram reformas econômicas sob condições político-institucionais marcadamente diferentes. As variantes principais referem-se ao caráter do regime e ao formato constitucional. No que tange ao primeiro aspecto; o Chile implementou as reformas na vigência de um regime profundamente autoritário, a Argentina tentou implementá-las na ditadura militar, mas obteve êxito apenas na fase democrática; e o México implantou a nova agenda no fim do regime ditatorial e como parte essencial, do próprio processo de transição política para a democracia. Do ponto de vista do sistema político, México e Argentina processaram suas reformas a partir de seus respectivos formatos federativos. O primeiro, bem mais centralizado e com um forte sistema presidencialista; enquanto o Chile, unitário, o fez sob um executivo forte que exacerbou uma tendência presente já bem antes do golpe de 1973. Em contraste com perspectivas generalizantes, o presente trabalho analisa o alcance e as especificidades dos planos de reforma estrutural, adotados em decorrência de pressões sistêmicas, com o objetivo de, primeiro, identificar variações significativas entre os países em foco e, segundo, avaliar a importância da esfera 1 político-institucional na produção de tais diferenças . 1 Agradeço as críticas e sugestões feitas pelo professor Antônio Fernando Mitre, orientador da dissertação que deu origem a este trabalho; a Magna Inácio e a Renato Boschi, Marcelo Coutinho e Eli Diniz, pelas observações e críticas proferidas no seminário DCP-UFMG/IUPERJ 183 A aparente dicotomia existente entre “fatores internos” e “fatores externos”, presente neste trabalho, não representa, contudo, a valorização de um desses aspectos e nem tampouco a não imbricação desses dois níveis de análise, que são extremamente relevantes para a compreensão do fenômeno das reformas. O presente trabalho apenas mantém seu foco em aspectos institucionais, em fatores domésticos, que foram determinantes para a maneira como as reformas econômicas foram implementadas nesses países. Isso se deve ao fato de que é comum encontrar, na bibliografia referente ao tema, o tratamento dos fatores exógenos como determinantes do processo de reformas econômicas no continente. A maior atenção conferida a aspectos institucionais permite a comparação entre as diferentes experiências latino-americanas e demonstra a relevância desses fatores como determinantes dos rumos e da intensidade das reformas em diferentes áreas, até mesmo a despeito dos ditames do receituário proposto pelos organismos internacionais. 1. TIPO DE REGIME E GRAU DE COESÃO Inicialmente, é possível supor que, sob um regime democrático, necessitar-se-ia de mais consenso para a implementação de políticas, posto que existam mais pontos 2 institucionais e não institucionais de veto . Quanto à implementação de reformas com amplo impacto para diversos setores, como é o caso dessas reformas, também não seria diferente. Já em um regime autoritário haveria, presumivelmente, maior facilidade para a implementação da agenda do governo, pelo próprio caráter repressor do regime e pela grande concentração de poder no Executivo. O Chile foi o primeiro país do mundo a realizar esse tipo de reforma durante o período ditatorial (1973–1990). Em sua primeira fase, até 1976, esse regime caracterizou-se pelo alto grau de repressão, que desmobilizou a sociedade civil e a oposição política através do uso da força. Em sua segunda fase, o regime lançou uma nova Carta Constitucional, a de 1980, abrindo caminho para sua própria institucionalização. em Dezembro de 2006, no Rio de Janeiro. Aproveito para salientar que este trabalho cuida estritamente da relação estabelecida entre alguns condicionantes ou variáveis dos sistemas políticos desses três países e como isso pode ou não ter facilitado a implementação das reformas neoliberais. Considerações acerca da influência de fatores estritamente econômicos, de fatores externos e até mesmo a forma como essas reformas foram processadas em diferentes áreas (previdência, privatizações e marco trabalhista) foram contempladas de maneira mais substantiva em outros capítulos de minha dissertação de mestrado. 2 184 Congresso, partidos políticos, federações de comércio, sindicatos, movimentos sociais e etc. TEORIA E SOCIEDADE nº 16.2 – julho-dezembro de 2008 Essa institucionalização do regime foi responsável pela oficialização de um 3 executivo forte e do novo modelo econômico que estava sendo implementado. Isso não apenas permitiu a realização das reformas econômicas propostas, como também a sua perpetuação, mesmo após a transição democrática, pelas dificuldades de se reformar a Constituição chilena. Na Carta de 1980, percebe-se a institucionalização do modelo econômico no Artigo 19, Incisos 21, 22 e 23 que, em conjunto, garantiram a proteção à liberdade econômica do indivíduo, e pelos Artigos 60,62 e 98, em que ao Estado só era permitida a intervenção na economia, se uma lei, aprovada por maioria qualificada no Congresso, assim o autorizasse A Carta de 1980 foi o maior legado do período autoritário à democracia Chilena, tendo em vista que foi mantida, mesmo após a transição, tendo até mesmo reforçado o seu viés antidemocrático, por meio de reformas como a de 1989, que procurou reforçar esse caráter e constituir obstáculos ao governo democrático, e a de 1997, realizada pelo governo democrático, que procurou contornar os mesmos obstáculos concentrando poder no executivo. Em 1980, a aprovação da Constituição se deu por via plebiscito que, apesar de fraudulento, conseguiu garantir à Carta a legitimidade que o governo precisava para institucionalizar uma série de medidas antidemocráticas, como a existência dos senadores vitalícios e de senadores institucionais ou designados, não eleitos por voto direto. De igual maneira, a lei eleitoral constituiu-se em um enclave, já que foi desenhada de maneira a favorecer os Estados minoritários, favoráveis ao regime do Presidente Pinochet. Dentre outros traços do sistema político delineados por essa carta, destacam-se, também, a não remoção dos chefes das forças armadas, a composição e as importantes atribuições conferidas a órgãos conservadores e detentores de grande influência política, como o Conselho de Segurança Nacional, e Suprema Corte, composta por membros nomeados pelo Presidente da República. Além da Carta de 1980, o Regime chileno possuía outra distinção marcante, se comparado a outros regimes militares latino-americanos, que “efetivamente” possuíam uma Junta militar: concentrou poderes nas mãos de um único membro da junta, o General Augusto Pinochet. Não menos importante para o estudo desse caso, é o alto grau de coesão do regime que, sem dúvidas, foi essencial para as reformas. Destaca-se, dentre as iniciativas que permitiram ao regime militar chileno um elevado grau de coesão e estabilidade, o fato de que Pinochet soube se aproveitar do 3 Percebe-se, também, que é justamente a partir desse momento que esse regime passa a ser muito mais um regime autoritário do que propriamente um regime militar. O regime chileno caracterizou-se, então, por ser um regime “presidencialista autoritário”. Ver: Kirby, 1997. O IMPACTO DO SISTEMA POLÍTICO-INSTITUCIONAL... – Renata Peixoto de Oliveira 185 alto grau de disciplina e obediência de uma instituição forte, como eram as Forças Armadas chilenas, colocando-se não apenas como chefe do governo, mas também como chefe das forças armadas. Pinochet apoiou-se na hegemonia do exército sobre as outras armas, eliminando do governo seus opositores e delegou aos militares funções que não tinham caráter “político”, que ficaram a cargo de tecnocratas do governo, conferindo-lhe uma feição supostamente neutra e cientificista. Contrariamente ao caso argentino e até mesmo chileno, as reformas mexicanas realizaram-se sob um regime político bem particular e sem precedentes na América Latina. Alguns de seus principais aspectos foram: 1) forte centralização política; 2) corporativismo; 3) realização de eleições periódicas e hegemonia do partido oficial; e, 4) não personificação do poder. Detalhando-se esses fatores, temos que: 1) Destacam-se, as funções quase “imperiais” do Executivo, evidenciadas em suas inúmeras prerrogativas, as quais acarretavam a centralização das decisões políticas mesmo no âmbito estadual. 2) Outra importante característica deste regime foi o exercício de sua autoridade através de organizações nacionais centralizadas que, por sua vez, mantinham o corporativismo e os laços de patronagem entre o governo e os setores populares, organizados em duas principais “centrais”: a Central dos Trabalhadores Mexicanos, 4 5 CTM , e a Central dos Trabalhadores do Campo, CTC . 3) Durante os mais de 70 anos em que vigorou o regime, o sistema político mexicano pós-revolucionário caracterizou-se pela presença hegemônica de um partido no poder: o PRI, ou Partido da Revolução Institucionalizada. 4) E, finalmente, um aspecto interessante do sistema político mexicano é a não personificação do poder vislumbrada na proibição da reeleição para a presi6 dência da República, e reforçada pela grande rotatividade dos cargos públicos . A não reeleição impedia a perpetuação de um determinado grupo no poder, o que, juntamente a manutenção de mecanismos eleitorais, levava os atores políticos a 4 Certamente, a CTM foi o mais importante pilar do regime e no, momento em que as reformas neoliberais foram implementadas, o seu apoio às políticas governamentais foi imprescindível. Esta central chegou a ir de encontro aos interesses de sua própria base, os trabalhadores, favorecendo o governo, por conta dos fortes laços corporativos que os uniam, quanto a decisões referentes à política salarial. Ver: Carvalho, 1997. 5 Além do apoio das centrais, as próprias alianças construídas com o empresariado, principalmente o setor financeiro foram fundamentais para facilitar o caminho das reformas. Ver: Oliveira, 85:2005. 6 Durante o período que se estende dos anos 1940 aos anos 1970, o regime estimulava uma intensa rotatividade de pessoal nos cargos públicos. Um exemplo disto é que ao término de um mandato presidencial, 1/3 dos “servidores” deveria ser substituído e 2/3 não poderiam mais voltar ao poder caso já exercessem um cargo público por um período de 12 anos (Haggard & Kaufman,1995). 186 TEORIA E SOCIEDADE nº 16.2 – julho-dezembro de 2008 aderirem às regras operantes no sistema e a não tentarem alternativas golpistas, freqüentes em outros contextos nacionais.Esta grande rotatividade de cargos públicos também se deve ao grande número de cargos de livre nomeação ou nomeação política que permitiam trocas clientelistas. Percebemos que no México ao contrário do caso chileno, um traço marcante do regime político é a manutenção de sua estabilidade e permanência através do fortalecimento de certas instituições e não da personificação do regime na figura de seu governante. Embora o regime mexicano e o chileno fossem altamente institucionalizados, neste último, verifica-se a personificação do regime na figura de Pinochet. A garantia da durabilidade da ditadura mexicana tinha como condição o fortalecimento de instituições como o partido oficial, o executivo e as centrais sindicais e, também, a grande rotatividade nos cargos públicos. Com isto, apesar dos desafios enfrentados, o presidente Miguel De la Madrid, que deu o “pontapé inicial” nas reformas, pôde contar com a renovação da tecnocracia governamental. Dessa forma, pôde inserir pessoas de sua confiança e que, compartilhavam da mesma orientação econômica, na máquina estatal. Em 1982, mesmo desagradando aos seus tradicionais setores nacionalistas, o PRI preferiu lançar a candidatura de Miguel De la Madrid, e com isso garantiu a ascensão de um grupo muito coeso: a tecnocracia neoliberal. De la Madrid, exministro das Finanças do governo Lopez Portillo (1976–1982), trouxe consigo diversos companheiros do antigo ministério para compor seu próprio gabinete, o que conferiu a seu governo uma maior homogeneidade e coesão em relação aos assuntos econômicos. Este grupo de tecnocratas com orientação neoliberal ganhou grande espaço no governo, chegando ao ministério das finanças, assim como a organizações financeiras públicas como o próprio Banco Central (Heredia 1992:17). Da mesma forma, por também fazer parte da tecnocracia neoliberal, o governo de Carlos Salinas de Gortari, que assumiu em 1988, primou pela coesão e pelo consenso em torno das reformas estruturais iniciadas por seu antecessor. Distintamente ao caso chileno, o processo de reformas no México se deu em um momento em que declinava a legitimidade do regime e este perdia o controle da situação política de maneira gradativa, tendo em vista o iminente processo de transição política (Loaeza 1992:60). Mesmo assim, os dois governos que realizaram as reformas mexicanas lançaram mão de recursos ainda disponíveis como, por exemplo, o grande controle exercido sobre as centrais sindicais, a contestada, mas ainda hegemônica força política do partido oficial, a força do poder executivo e a recorrência às fraudes eleitorais para garantir a sua permanência no poder e também instituir sua nova agenda econômica. Questões a serem analisadas de maneira mais cuidadosa nas próximas seções. O IMPACTO DO SISTEMA POLÍTICO-INSTITUCIONAL... – Renata Peixoto de Oliveira 187 Na Argentina, a realização das reformas neoliberais só foi possível, durante o segundo governo civil, após o fim da ditadura (1976–1982). Como entender o fracasso dos militares neste país mesmo estando em vigor um regime ditatorial? Comparativamente aos outros dois tipos de regimes políticos apresentados, a principal característica do regime militar argentino foi a falta de coesão interna, o maior complicador para as reformas econômicas e para sua continuidade. De fato, a falta de consenso, mesmo dentro da junta militar e das forças armadas, quanto ao novo modelo econômico impossibilitaram a implementação das reformas. Inicialmente, o consenso e a unidade dos militares argentinos remontavam aos chamados “objetivos defensivos” como, por exemplo, o combate às guerrilhas. Mas com o passar do tempo, os militares passaram a divergir praticamente quanto a tudo, desde a hierarquia militar até a própria condução do regime. Além do mais, as forças armadas estavam muito divididas entre exército, marinha e aeronáutica, impedindo uma maior coesão da instituição militar. Todas as tentativas de se implementar a agenda neoliberal durante a ditadura militar foram frustradas, conforme veremos a seguir. Em 1981, quando o General Viola chegou à presidência do país, foi adotada uma estratégia econômica mais protecionista não se colocando em prática, as metas estabelecidas pelos próprios militares no Plano de Reorganização Nacional (1978), que incluíam a liberalização da economia. Em dezembro do mesmo ano, um General “linha dura”, Galtieri, derrubou o governo Viola anunciando um plano econômico liberal ortodoxo. No Entanto, mais uma vez a agenda neoliberal não foi implementada por falta de consenso entre os militares quanto aos rumos a serem tomados pelo governo na área econômica. A falta de consenso quanto à política econômica e até mesmo a falta de coesão interna evidenciada pela ocorrência de um contragolpe ainda em 1981 impediram a realização das reformas a despeito do contexto autoritário. Fica então evidente que em meio a pequenos avanços e grandes retrocessos seria impossível, em tão pouco tempo, de 1976 a 1982, a implementação de uma nova agenda. Apenas com a redemocratização do país foi possível a implementação das reformas na Argentina, por uma série de fatores dentre os quais se destaca o papel desempenhado pelo poder executivo. O caráter presidencialista da “nova democracia” argentina, é, sem dúvida, um aspecto crucial, já que uma maior concentração de poderes nas mãos do executivo acaba por imprimir, até mesmo, um caráter mais conservador e centralizador ao governo, mesmo sob a vigência de um regime democrático. 188 TEORIA E SOCIEDADE nº 16.2 – julho-dezembro de 2008 2. PLENOS PODERES: O EXECUTIVO E AS REFORMAS ECONÔMICAS Na América Latina, os sistemas presidencialistas têm um caráter ultrapresidencialista, ou seja, concentram muitos poderes nas mãos do executivo em detrimento do legislativo. O executivo geralmente possui uma ampla capacidade discricionária e, também, amplos poderes legislativos. E isto, sem a menor dúvida, teve um grande peso para a adoção da via neoliberal nos nossos três casos. É fato marcante para o processo de reformas na região, o peso do executivo para a garantia da aprovação de uma nova agenda, independentemente de outros fatores. No caso chileno, percebemos que o aumento de poderes nas mãos do executivo vem ocorrendo desde a Constituição de 1925. Essa tendência consolidou-se em 1959, quando o controle sobre o orçamento passou às mãos do Executivo. Um referendum constitucional em 1970 autorizou o uso de decretos presidenciais em matérias relativas a ajustes salariais, seguridade social, reduzindo ainda mais o papel da arena parlamentar para a conciliação de interesses. A partir de então e, principalmente, no governo de Salvador Allende, o poder executivo se fortaleceu. Entretanto, os presidentes chilenos nunca contavam com maiorias parlamentares, não conseguindo formar ampla base no Congresso. A existência de governos minoritários incentivava o uso de prerrogativas discricionárias por parte dos presidentes. Mesmo o ultrapresidencialismo sendo uma característica marcante do sistema político há décadas, Pinochet teve poderes sem precedentes se comparado a outros presidentes chilenos. Logo após a instauração do golpe, o poder deveria ser exercido por uma junta de “comandantes em chefe das Forças Armadas”, o que acabou não acontecendo, devido ao rápido aumento do poder pessoal de Pinochet dentro da própria junta militar. O fortalecimento de Pinochet só foi possível graças a algumas de suas iniciativas políticas. Dentre elas destacam-se, a manobra eleitoral de 1978 quando foi proposta a realização de plebiscito para decidir se Pinochet deveria ser o chefe do governo; a eliminação de qualquer dissidência dentro da coalizão militar (exemplificado pela destituição do General Gustavo Leigh da Força Aérea, crítico às manobras de Pinochet); e, finalmente, a convocação de plebiscito para ratificar a constituição de 1980 que permitia a Pinochet a permanência no poder por mais oito anos até a realização de um plebiscito sucessório em 1988, na condição de líder da coalizão governista. Este fortalecimento do poder executivo também se verificou em manobras políticas anteriores, como as atas constitucionais de Dezembro de 1975 e de Setembro de 1976, quando da criação do Conselho de Estado em que foram ditadas as novas bases da constitucionalidade chilena, por meio das quais a tomada de decisões se concentraria no líder da coalizão governista, ou seja, o presidente. O IMPACTO DO SISTEMA POLÍTICO-INSTITUCIONAL... – Renata Peixoto de Oliveira 189 7 Na constituição de 1980 verifica-se o aumento das prerrogativas do executivo (artigo 32), o debilitamento das atribuições legislativas e fiscalizadoras das duas Câmaras (artigos 48,49 e 62), o aumento do número de matérias reservadas ao 8 presidente no que se refere à seguridade social (artigo 60), a prerrogativa de se 9 poder dissolver a Câmara (artigo 32, inciso 5), também a prerrogativa, recebida pelo Congresso, de poder legislar sobre quase todas as matérias por um período de até um ano (artigo 61). Além disto, o executivo possuía a faculdade de legislar apoiado em apenas 1/3 dos parlamentares e, finalmente, contava com a prerrogativa de poder designar parte dos membros da Câmara alta. 10 Em contrapartida, após a transição democrática, apesar de suas amplas prerrogativas, o executivo, enfrentou diversos problemas para a implementação de sua própria agenda política face aos entraves autoritários presentes na Constituição. Imaginemos então os problemas que enfrentaria se pretendesse modificar a agenda econômica implementada por Pinochet. Enquanto grave obstáculo institucional para o novo regime configura-se a designação de senadores e a criação do cargo de senador vitalício, como já salientado. Estes fatores levaram à necessidade de uma maior negociação do governo com a oposição dentro do congresso e até mesmo ao aumento das prerrogativas do executivo através da reforma constitucional de 1997. O forte caráter presidencialista do país reforçado sob o autoritarismo permitiu uma série de manobras políticas que garantiram a estabilidade política do regime e as condições para a implementação da agenda econômica liberal. No entanto, no limiar da transição política percebemos a “perda” de poder do executivo perante o fortalecimento da Câmara alta e a existência de consideráveis pontos de veto às iniciativas do executivo. Mas, foram justamente estes obstáculos ao novo regime democrático que permitiram a perpetuação do modelo econômico neoliberal. O México também pode ser tido como um grande exemplo de país com forte tradição presidencialista. Mas, contrariamente à personificação que se adverte no Chile sob Pinochet, no México não é a figura do presidente que é forte, mas sim a instituição presidencial cujas prerrogativas foram estabelecidas pela constituição de 1917. O artigo 71 dessa carta magna determinava que o presidente da república 7 Ressalta-se, no entanto, que com o advento da reforma constitucional de 1989, que antecedeu a transição democrática, o governo encontraria maiores obstáculos para aprovar algumas medidas no congresso tendo em vista a sobre-representação da direita no Senado e as dificuldades para se reformar a constituição. 8 9 10 Ponto que sofreu grandes transformações por conta das reformas neoliberais. Quanto a este ponto, apenas durante a vigência do regime militar. Por conta destas nomeações, ocorreu um aumento da distorção quanto à representação política dentro do senado, que favoreceu o regime. 190 TEORIA E SOCIEDADE nº 16.2 – julho-dezembro de 2008 também poderia iniciar leis ou decretos, o artigo 73 declarava que o governo do Distrito Federal também ficaria a cargo do presidente; o artigo 89, que cuidava das faculdades e obrigações do presidente, confere-lhe a capacidade de nomear e remover secretários assim como, o controlador geral da república, os magistrados do Tribunal Superior de Justiça do Distrito Federal (submetido à aprovação da assembléia do D.F), e os ministros da suprema corte. Dentre a década de 1940 e 1980 fica evidente o grande poder exercido pelo poder executivo no México. Durante todo este período, a existência de certos mecanismos permitiu ao presidente o estabelecimento de vínculos diretos com diversos setores sociais através de patronagem. Também vigoravam: 1) o controle de competências das elites políticas, 2) a intervenção governamental em grêmios e associações e 3) o controle da criação e do acesso a canais da arena decisória (Garza 1998:208). O presidente da república sempre contou com amplas bases de apoio, fossem elas institucionais ou não. Isto também por conta do “manejo” da política social, mediado pelo próprio partido oficial, que garantia um maior consenso em relação ao regime. Sempre existiu certa aglutinação de forças políticas em torno do executivo, o que manteve certo equilíbrio de forças, garantindo a estabilidade e governabilidade do regime. Isto se deu pela estreita relação entre o presidente, na figura de uma liderança partidária, e o partido oficial (PRI – Partido de la Revolución institucionalizada) que era maioria no congresso. Assim, através do controle partidário o presidente garantia o controle também sobre o congresso. O amplo poder discricionário do executivo, na realidade não encontrava limites na existência de um sistema efetivo de “Freios e Contrapesos” e sim na proibição à reeleição ao cargo. E por último, no que tange as características patrimonialistas do sistema, temos como ponto máximo, o fato do presidente poder indicar o seu sucessor sem levar em conta outras autoridades políticas do país. Assim, “O presidente da república dispõe da administração e das funções públicas como se dispusesse de um patrimônio próprio” (Susarrey 1991:34). Miguel de La Madrid, que deu início às reformas, procurou se beneficiar destes amplos poderes de presidente da República para, em um momento de instabilidade, manter o centralismo e não liberalizar o regime, o que, por sua vez, lhe permitiu dar início às reformas econômicas. As características de um sistema político marcado por um executivo forte, também foram importantes para que o sucessor de Miguel de La Madrid, indicado pelo mesmo, desse prosseguimento ao processo reformista. Percebe-se que mesmo quando o PRI perdeu espaço eleitoral, o governo Salinas de Gortari conseguiu aumentar sua base no Congresso, através de uma aliança com o Partido de la Acción Nacional (PAN), facilitando as relações entre O IMPACTO DO SISTEMA POLÍTICO-INSTITUCIONAL... – Renata Peixoto de Oliveira 191 o executivo e legislativo. Com isto, o regime priista contou com um maior apoio do legislativo para aprovar as reformas no Congresso Nacional. A partir disto, podemos considerar enquanto traços marcantes do presidencialismo mexicano: 1) o fato do presidente também ser o chefe do partido oficial, 2) a vigência de poderes legislativos e 3) patrimonialismo. Estas características possibilitaram a aprovação das reformas, até mesmo por que, facilitaram as relações entre executivo e legislativo através do controle exercido pela presidência no congresso. Ao contrário dos casos analisados até então, a Argentina implementou suas reformas sob o regime democrático não contando, portanto, com a associação entre autoritarismo e executivo forte para conseguir implementar as reformas. Neste caso, a forte tradição presidencialista, traço marcante do sistema políticoinstitucional do país, foi fator decisivo na implementação da nova agenda. Primeiramente, destacam-se enquanto características centrais do sistema presidencialista argentino, o eminente avanço dos poderes presidenciais em detrimento dos poderes do Congresso e também, a conversão da figura do presidente da república em uma espécie de “condutor político do povo”, o que é um demonstrativo da força desta instituição política no país. O presidente Menem, responsável pela adoção das políticas neoliberais, aproveitou-se do sucesso do partido peronista nas urnas, o Partido Justicialista 11 (PJ), e desta forte tradição presidencialista e “plebiscitária” do país para se colocar, não apenas como um representante de um movimento histórico como o peronista, mas também para se colocar na condição de verdadeiro líder da nação. A grande popularidade e força política de Menem também repousavam em sua credibilidade internacional no momento em que se iniciam as reformas econômicas e pela grave crise que marcou o governo dos radicais anteriormente. Alguns fatores podem ter favorecido historicamente o gradativo e considerável fortalecimento do executivo argentino, seriam eles: a) aceitação social do papel central e ativo desempenhado pelo Estado argentino; b) ruptura do princípio federal na esfera dos poderes legislativos no congresso (Rojo 1998:96); c) ruptura do princípio de separação dos poderes quanto às relações executivo-legislativo e também às faculdades legislativas do presidente, principalmente no que se refere aos decretos de necessidade e urgência; d) Personalismo da vida política, agravadas pelas freqüentes rupturas da ordem constitucional a partir de 1930, com a consagração de práticas políticas autoritárias 11 O partido Justicialista foi criado por Perón, chegando ao poder em 1946 através das eleições que o levaram a presidência e a partir daí consolidaram este como um dos principais partidos políticos do país, tendo por principal adversário a União Cívica Radical. 192 TEORIA E SOCIEDADE nº 16.2 – julho-dezembro de 2008 Em meio à deterioração da vida econômica do país, o presidente Menem lançou mão de seus poderes de legislar por decreto e também conseguiu aprovar no congresso duas leis: a lei de emergência administrativa e a de emergência econômica para dar início às reformas. Estas medidas possibilitaram, logo no início de seu mandato, a realização de uma série de privatizações e vendas de serviços públicos como as linhas aéreas estatais, as empresas energéticas e de telecomunicações, além de permitir que o governo prosseguisse com as reformas em outros setores, como o financeiro, o comercial e quanto à legislação trabalhista. Para se ter uma idéia, durante o mandato anterior, Alfonsín lançou mão dos decretos de urgência e de veto raríssimas vezes. Só no primeiro mandato de Menem, o presidente emitiu centenas de decretos de urgência e necessidade, e recorreu ao veto por diversas vezes. A maior parte da legislação emitida pelo executivo referia-se à matéria econômica (Haggard & Kaufman 1995:220). A combinação entre crise econômico-financeira, forte tradição presidencialista e retorno do peronismo por meio de esmagadora vitória eleitoral, legitimaram a concentração de poderes nas mãos do presidente. Ao contrário do caso mexicano, não se tratava apenas do fortalecimento da instituição presidencial e sim da afirmação de Carlos Menem como um dos maiores líderes políticos argentinos desde Juan Domingues Perón. Também o 12 estabelecimento de uma aliança entre Menem e os magistrados só fez aumentar o apoio necessário à implementação da plataforma peronista. Menem inclusive chegou a contar com o apoio do Senado para a nomeação de juízes ligados a ele, o que permitia certo controle do judiciário pelo poder executivo. A ligação que se estabeleceu entre estes dois poderes favorecia tanto o aumento das prerrogativas do executivo como seu uso quase indiscriminado por parte do presidente. Para evitar que o processo de reformas sofresse reversão em decorrência de contestações feitas pela via legal, Menem modificou a composição do Poder Ju12 Durante o período do regime militar e também durante o governo radical de Raul Alfonsín existia uma grande instabilidade institucional quanto a Suprema Corte, tendo em vista o fato de que os magistrados eram constantemente destituídos e substituídos. Durante este período que compreende o regime militar e o primeiro governo civil, as relações entre judiciário e executivo foram mais hostis. A suprema corte tinha uma posição antigovernista visível. Suas normas, em 36% dos casos, foram contrárias ao governo militar e em 46% dos casos foram contrárias ao governo Alfonsín, principalmente em seu período mais crítico, que foram os últimos dois anos de seu mandato. Com a administração Menem a situação se inverteu, à medida que o presidente se tornava mais popular e a sua reeleição se tornava iminente, as decisões antigovernistas, por parte da Suprema Corte diminuíram, chegando a um patamar de 25% dos casos. O controle exercido sobre a Suprema Corte, por parte de Menem, também é visível no momento em que suas prerrogativas sobre o judiciário aumentaram e que este passou a indicar seis dentre os nove magistrados que compõem a Corte. Ver. Helmke, 2002:299. O IMPACTO DO SISTEMA POLÍTICO-INSTITUCIONAL... – Renata Peixoto de Oliveira 193 diciário de modo a torná-lo dócil aos desígnios do executivo (Helmke 2002:296). A estratégia utilizada para esse efeito foi aumentar o número de cinco para nove os membros da Suprema Corte, e assegurar a maioria indicando a Nazareno, Mariano Cavagna Martinez, Rodolfo Barra e a seu próprio irmão, Eduardo Menem, para as novas vagas. Desse modo, processos contra o Plan Bonex, e privatizações como a das Aerolíneas Argentinas foram julgados favoravelmente ao governo. Durante os dois mandatos consecutivos dos peronistas, as relações entre o presidente Menem e o Congresso foram mais fáceis do que o observado durante o governo Alfonsín já que o PJ tinha maioria no congresso. O domínio do congresso por peronistas e seus aliados, sem dúvida alguma, proporcionou o ambiente institucional ideal para a aprovação das medidas necessárias à implementação da agenda econômica proposta pelo governo. Em um regime democrático, o poder legislativo possui efetivamente instrumentos fiscalizadores do poder executivo. Na Argentina, um destes instrumentos é a Auditoria Geral da Nação, cujo presidente é designado pelo partido de oposição que possui a maior bancada no Congresso (art.85). Também como fiscalizador do poder executivo existe o cargo de “defensor do povo”, ocupado por um jurista. No entanto, percebe-se que estes instrumentos de controle foram estabelecidos apenas com a reforma da Constituição em 1994, ou seja, quando o período de implementação das reformas neoliberais já estava praticamente concluído. Quando da vigência do primeiro mandato de Carlos Menem existiam menos dispositivos para a fiscalização do poder executivo. Também não devemos nos esquecer que o prestígio político de Menem e de sua agenda econômica neoliberal também se devem ao fracasso das políticas de ajuste implementadas no governo anterior. O fracasso destas políticas adotadas pelo governo radical abriu espaço para uma maior ortodoxia na área econômica (Haggard & Kaufman 1995:200). Também determinante foi o fortalecimento do governo federal em relação às províncias, possibilitando àquela instância, o exercício do controle sobre a formulação de políticas e, por conseguinte, um ambiente mais favorável para a implementação das reformas. Esta grande centralização verificada logo no início do primeiro mandato de Carlos Menem possibilitou, dentre outras coisas, a aprovação da lei de emergência econômica, conforme já verificado, uma das primeiras medidas para conter a crise e implementar a nova agenda econômica. Contudo, após a aprovação desta e de outras iniciativas do executivo no congresso, verificou-se uma gradativa tendência à descentralização do poder, da união para as províncias, da mesma forma como ocorrido no México. Isto pôde ser verificado, quando em 25 de Maio de 1990, Menem ratificou, o “Acordo de Reafirmação Federal”, sem a participação do Congresso. A partir deste acordo 194 TEORIA E SOCIEDADE nº 16.2 – julho-dezembro de 2008 não só seria garantida maior autonomia às províncias, como o aumento de suas competências através da transferência de algumas funções. Esta descentralização deu fim ao caráter centralizador do federalismo argentino e pode ser tida enquanto mais uma das manobras do governo Menem para conseguir apoio das elites políticas locais ao seu governo e conseqüentemente à sua agenda econômica. Dessa forma, durante sua administração, o presidente conseguiu aumentar sua influência e popularidade nas províncias através das reformas políticas articuladas em 1993 e que acabaram por culminar na reforma constitucional de 1994. Isto reforçou os laços de patronagem entre o presidente e as províncias que, em grande parte, eram governadas por peronistas. Também contribuindo para a melhoria das relações entre o governo central e as províncias, destaca-se a modesta recuperação econômica decorrente do Plano 13 Cavallo. O governo passou, então, a gozar de maior popularidade também entre as elites econômicas locais. No caso argentino, percebe-se que em um primeiro momento a grande centralização existente no sistema político favoreceu o governo Menem, quanto às primeiras medidas a serem tomadas no combate à crise econômica. Mas igualmente a descentralização decorrente das reformas políticas serviu como um instrumento de barganha política para se atrair mais aliados às reformas econômicas que estavam em andamento. 3. SISTEMA PARTIDÁRIO-ELEITORAL O objetivo desta seção é analisar as relações existentes entre o quadro partidário e eleitoral e a implementação e continuidade das reformas. Vale à pena lembrar que dos casos estudados só a Argentina realizou as reformas sob regime formalmente democrático. O Chile o fez sob a vigência de um regime militar que congelou o sistema partidário, mas, mesmo assim, a dimensão partidária e a eleitoral foram importantes, tanto para assegurar a continuidade das reformas, como para modificar em parte seu alcance. Já no México o processo das reformas desenrolou-se atrelado ao processo de liberalização e democratização do sistema político. 13 Popularidade esta que deu origem a um movimento político conhecido como menemismo, que se refere à base de apoio do presidente, abarcando desde o eleitorado de classe alta de Buenos Aires, até uma massa peronista nacional. Tratar-se-ia de uma fusão do peronismo histórico – um movimento arraigado na cultura política Argentina, e que tinha no novo presidente o seu mais importante representante, com as elites econômicas representantes do grande capital e, defensoras de uma política econômica mais liberal. Ver: Campos, 1993. O IMPACTO DO SISTEMA POLÍTICO-INSTITUCIONAL... – Renata Peixoto de Oliveira 195 Para o caso chileno, o primeiro a adotar a via neoliberal, será avaliado três momentos referentes à dinâmica partidária-eleitoral: (1) A conformação do sistema partidário antes do golpe militar, com o intuito de identificar o quão institucionalizado era este sistema e como sua polarização acabou influenciando a realização do golpe militar. (2) O período ditatorial no qual ocorreu a interrupção da dinâmica partidário-eleitoral. (3) Por último, a dinâmica do sistema partidário-eleitoral no limiar da transição política e sob o regime democrático. Quando serão estabelecidas conexões entre o sistema partidário-eleitoral e a manutenção e continuidade do modelo econômico neoliberal. A partir da Constituição de 1925, o sistema partidário chileno começou a assumir uma estrutura tripartite, entre a direita, o centro e a esquerda, o que viria a prevalecer como uma de suas principais características. Mas é somente ao final da década de 50 que o sistema partidário, como um todo, passou a se dividir em blocos, obedecendo a estas identidades ideológicas. Uma tendência mais à esquerda tornou-se nítida no início dos anos 70, principalmente pela falta de uma plataforma ideológica própria da direita e pela polarização ideológica decorrente da agenda política do governo democrata cristão de Eduardo Frei de Montalva. Neste governo, os democratas cristãos adotaram uma plataforma mais à esquerda, apesar de o partido ser caracterizado de centro. Dentre as políticas do governo Frei, destacaram-se a nacionalização do cobre, a sindicalização camponesa e a reforma agrária. A direita ficou descontente com estas políticas e a esquerda se viu diante da necessidade de radicalizar sua agenda, tendo em vista que parte dela já tinha sido implementada por um partido de centro. Esta polarização ficou nítida na formulação das coligações partidárias que concorreriam às eleições de 1970, quando se formou uma aliança entre socialistas e comunistas, conhecida como Unidad Popular, que acabou 14 vencendo, derrotando centro e direita que, dessa vez, não se uniram nessas eleições . Mas se de início o sistema partidário foi, até aquele momento, o principal componente da estabilidade do sistema político, a partir de 1973, por conta da instabilidade apresentada durante o governo Allende, os futuros golpistas não hesitaram em culpar o sistema partidário e a elite política chilena pela situação de caos na qual o país se encontrava. A instabilidade política, segundo os militares, é 14 A direita e o Centro não repetiram a velha aliança contra a esquerda pelos conflitos gerados durante o governo de centro dos democratas cristãos por causa da agenda política esquerdista que este apresentou. Talvez este fato tenha contribuído para que, finalmente, a esquerda chegasse ao poder, já que não teve de enfrentar a união dos adversários. 196 TEORIA E SOCIEDADE nº 16.2 – julho-dezembro de 2008 que teria levado à “inevitabilidade” de uma intervenção política das forças armadas. Para os militares a responsabilidade pelos problemas políticos e econômicos enfrentados pelo Chile remontava às decisões erradas e à “fraqueza” das elites políticas, ou seja, dos atores políticos tradicionais. Daí a percepção de que seria necessária uma mudança radical e estrutural na sociedade. O país precisava de estabilidade política e ordem e, ademais, de uma economia equilibrada. Isto só seria possível, na visão dos militares, com a instauração de um regime forte com uma economia mais eficiente, principalmente se comparada às políticas expansivas características dos governos populistas. Segundo os militares, seria a partir deste regime que se alcançaria a “verdadeira” democracia. A partir do golpe de 1973 e durante todo o período do regime militar, o sistema partidário chileno foi enfraquecido e desarticulado pelo governo Pinochet, que impôs um “recesso” aos partidos políticos. É a partir deste ponto que entenderemos não somente o papel do sistema partidário como também o posicionamento dos partidos, inicialmente na clandestinidade, durante o regime Pinochet e de como estes se constituíram ou não em instâncias de veto para a implementação das reformas e para a sua continuidade após a redemocratização. O governo Pinochet procurou destruir as bases do sistema político anterior dando a este um caráter mais tecnicista e menos ideológico e até mesmo, procurando dar à sociedade chilena um perfil “apolítico”. O primeiro golpe sofrido pelos partidos, após a derrubada de Allende, foi dado em 20 de Novembro de 1973, quando todos os partidos de esquerda foram considerados ilegais. Durante esta fase inicial do regime militar, os partidos que compunham a bancada oposicionista ao governo Allende apoiaram os militares. Dentre estes partidos, destaca-se o Partido Democrata 15 Cristão . Mas, conforme estes partidos percebiam que os ataques dos golpistas se direcionavam a toda classe política e não apenas à esquerda e de que o projeto de permanência dos militares no poder não era transitório, centro e direita passaram a fazer oposição ao regime militar. Isto ficou ainda mais visível depois de 12 de Março de 1977, quando o decreto-lei de número 1967 proibiu todas as atividades políticas e públicas e declarou enquanto ilegais todos os partidos políticos. 15 Este inicialmente recebeu dos militares o mesmo tratamento dado aos partidos de direita que tinham sido oposição ao governo Allende. Os democratas cristãos se posicionaram de forma ambígua quanto ao regime militar já que, de início, apoiaram veladamente o golpe, mas, com o passar do tempo este partido se assume na condição de oposição, por conta do alijamento dos partidos do poder, pelo seu papel sem importância dentre aqueles que apoiavam o regime, pelas perseguições políticas, violações dos direitos humanos, pela crise econômica dos anos 80 e pelos altos custos sociais das políticas econômicas do governo. O IMPACTO DO SISTEMA POLÍTICO-INSTITUCIONAL... – Renata Peixoto de Oliveira 197 Durante a ditadura, os partidos políticos não conseguiram unir-se nem mesmo para formar uma frente de oposição ao governo militar, que garantisse senão o retorno da democracia, pelo menos a legalidade dos partidos. Isto se explica, primeiramente, pela grande distância ideológica que os separava, e depois pelo fato de o regime saber se valer destas diferenças para jogar os partidos uns contra os outros, impedindo, portanto, o surgimento de uma força suprapartidária de oposição. Setores da direita e da esquerda culpavam-se uns aos outros pelo golpe, assim como a esquerda mais radical culpava os mais moderados pela ocorrência do mesmo. Em meio à tamanha fragmentação, a oposição partidária não foi efetiva, pelo menos até inícios dos anos 80. A Igreja foi o único segmento que realmente conseguiu fazer frente ao governo militar. Ao contrário de outros partidos políticos chilenos, como o Partido Nacional (PN), de direita, o Partido Democrata Cristão (PDC), sustentáculo do sistema partidário, conseguiu manter sua rede partidária mesmo na clandestinidade. Mesmo assim, quando decidiu fazer frente ao governo militar, diante das constantes violações dos direitos humanos (denunciadas pelo PDC principalmente quando se tratavam de seus militantes), o PDC não conseguiu formar uma grande frente opositora. Decisivo foi o fato dos democratas cristãos não poderem contar com o Partido Comunista (PC) para este fim e, também, o trauma sofrido em 1982, com a morte de seu maior líder, o ex-presidente da república, Eduardo Frei de Montalva. Diante de um cenário em que os principais e potenciais opositores do regime militar, os partidos políticos, se encontravam enfraquecidos, o governo Pinochet encontrou menores dificuldades para governar, institucionalizar o regime e lançar um novo modelo econômico para o país. Assim, mesmo sabendo-se do descrédito já visível dos partidos políticos antes mesmo do golpe e da grande polarização ideológica existente, é nítida a extrema importância do sistema partidário chileno para a dinâmica política deste país. Quando pensamos no sistema partidário chileno até inícios da década de 70, percebemos inúmeras diferenças em relação aos demais sistemas partidários latino-americanos que geralmente apresentavam e continuam a apresentar um alto grau de fragmentação, um baixo grau de institucionalização e pouca identificação ideológica em relação ao eleitorado. Daí a relevância da análise do sistema partidário chileno e de seu impacto para as reformas, mesmo se tratando de um contexto em que os partidos estavam, durante muito tempo, na ilegalidade. Caso se tratasse de um sistema partidário fraco, com orientações ideológicas pouco definidas, talvez isso não fizesse diferença alguma no momento das reformas. Talvez neste momento, surgisse uma pergunta: mas, então, o que facilitou as reformas no Chile não foi o “não funcionamento” do sistema partidário e sim a causa 198 TEORIA E SOCIEDADE nº 16.2 – julho-dezembro de 2008 disto, o fato de se tratar de um regime autoritário que impediu o seu funcionamento. Acontece que os partidos políticos, no Chile, não estiveram em “recesso”, durante todo o período ditatorial. Na década de 80 voltaram à cena, tendo um importante papel para a transição democrática. Assim, se esses atores estavam alijados da arena política no momento em que o governo iniciou o shock neoliberal, estes voltaram a assumir um papel relevante, principalmente como oposição ao regime, no momento em que este dava prosseguimento às reformas econômicas. Os partidos políticos voltaram à cena em 1981, com a reativação da política partidária no país. Tiveram papel fundamental no momento em que o regime enfrentou protestos populares (protestas) no início desta década e, também, na formação de uma aliança partidária, o Comando por el No, que enfrentou o regime no plebiscito sucessório de 1988. Na fase de transição foi aberto o caminho para a participação dos civis no governo, até que finalmente, na fase de consolidação, o poder passou a ser exercido diretamente pelos civis. A chamada “Normalidade Constitucional” só começou em 1985. Nessa fase, dois terços da Câmara Legislativa eram eleitos por sufrágio popular direto e um terço sob indicação do governo. No que se refere ao sistema partidário-eleitoral do pós-autoritarismo, é importante destacar a existência de normas institucionais mantenedoras de importantes prerrogativas aos setores que apoiavam a ditadura e seu modelo econômico. Um exemplo claro disso é a existência de Senadores designados por algumas instituições políticas conservadoras, como a Suprema Corte e o Conselho de Segurança Nacional. Além disso, tanto o Comando por el no, que enfrentou Pinochet no plebiscito sucessório em 1988, quanto sua nova configuração no período democrático, a concertación, não defendeu amplas mudanças econômicas. Primeiramente, pela impossibilidade de tal fato diante de dispositivos constitucionais que facilitavam a vigência de uma economia de mercado com pouca regulamentação estatal, e, em segundo lugar, pela vigência de normas eleitorais e partidárias que favorecem os partidos de direita, defensores do modelo econômico em vigor. Também é preciso levar em conta que uma mudança no modelo econômico poderia comprometer o processo recente de transição política gerando o descontentamento de setores que relacionavam diretamente a estabilidade e a retomada do crescimento econômico às reformas realizadas por Pinochet. De uma forma geral não houve uma maior contestação acerca do modelo neoliberal pelos partidos políticos após o fim do período autoritário. Ao manter a agenda econômica do regime autoritário, o primeiro governo civil, o do democrata cristão Patrício Aylwin, contou até mesmo com o apoio de O IMPACTO DO SISTEMA POLÍTICO-INSTITUCIONAL... – Renata Peixoto de Oliveira 199 um setor da coalizão oposicionista de direita Unión Independiente, a chamada Renovación Nacional, em muitas votações, até mesmo naquelas que previam o aumento de gastos públicos com políticas sociais. Já no México a competição partidária nunca deixou de ocorrer a despeito do tipo de regime em vigor. Mas, como entender, em meio ao autoritarismo, o impacto de um sistema partidário-eleitoral operante? Conforme salientamos anteriormente, o sistema partidário mexicano se caracterizava pela presença de um partido hegemônico e pelo fato das eleições não ocorrerem de forma limpa e transparente. Ao final dos anos 70 o partido oficial começou a perder sua hegemonia, com o avanço da crise econômica e conseqüente perda de credibilidade do regime. Neste período, os partidos de oposição cresceram e o próprio regime influenciou neste 16 crescimento através de uma reforma política em 1977 , permitindo a reorganização dos partidos de oposição. Isto pode ser visto como uma manobra do governo para conter as exigências crescentes por maior liberalização política, sem, no entanto, realizar um processo de liberalização ou, democratização pleno. O governo teve que passar a se preocupar com seu até então incontestável domínio eleitoral, diante do crescimento da oposição. Dentre os principais partidos opositores destacaram-se o PAN, de direita e o Partido de la Revolución Democrática, uma dissidência nacionalista do próprio PRI. Um partido de princípios católicos de direita, fundado em 1939, e, representante das classes médias urbanas, o Partido del Acción Nacional, passou a fazer forte oposição ao partido oficial. Mais à esquerda, situa-se o PRD, uma dissidência do próprio PRI, fundado em 1987, por Cuaunhtémoc Cárdenas, filho do ex-presidente do México Lázaro Cárdenas. O surgimento deste partido demonstrou claramente a cisão existente dentro do Partido da Revolução Institucionalizada 16 Em 1963 para projetar uma fachada democrática se introduziram pequenas mudanças no sistema de representação. Nessa oportunidade, foram asseguradas cinco cadeiras para cada partido que alcançassem 2,5% do voto nacional, e uma cadeira a mais por cada 0,5% adicional. A idéia era estimular a formação da oposição, mas sem, no entanto, embarcar em um processo de liberalização ou democratização pleno. Mais importante foi a reforma de 1977 que flexibilizou o registro dos partidos pequenos e aumentou o número de cadeiras no congresso para 400, reservando um quarto para os partidos de oposição, através do sistema proporcional. Em 1982 a oposição foi permitida participação na elaboração das listas e se constituiu o Tribunal Eleitoral que, mais tarde, seria transformado em Instituto Eleitoral Federal, sob a direção de nove conselheiros e fora do controle do Executivo. A partir dessas medidas pode-se verificar o crescimento gradual da oposição e a preocupação do governo com a possibilidade de perder seu antes incontestável domínio eleitoral. 200 TEORIA E SOCIEDADE nº 16.2 – julho-dezembro de 2008 nos momentos que antecederam as eleições presidenciais de 1988 e, também, os confrontos políticos existentes entre as elites governamentais e locais que tentavam libertar-se do controle do PRI. A ruptura entre o PRI e Cárdenas ocorreu no momento da escolha do candidato oficial à presidência da República no pleito eleitoral de 1988. Cárdenas foi preterido por Salinas de Gortari. A justificativa para este veto seria a relação estreita de Cárdenas com a administração Echeverría (1970–1976) que se utilizou de estratégias nacionalistas e expansivas na condução econômica do país. Além do mais, durante este governo os primeiros indícios da crise dos anos 80 começaram a aparecer. Lembremo-nos de que a nova “tendência” de presidentes tecnocratas pretendia romper com este passado nacionalista do partido. Por isso, Cárdenas não seria mais uma escolha natural. Diante disso, Cuaunhtémoc Cárdenas constituiu, inicialmente, a Frente democrática Nacional, FDN, herdeira da Corriente Democrática, também criada por ele e constituída por vários partidos de esquerda. A corriente Democrática ganhou apoio de setores que viam com desconfiança o sistema partidário vigente pelo grande controle exercido pelo partido oficial. Posteriormente, Cárdenas formou o PRD, que mudaria seu nome para partido da Frente Cardenista Renovación Nacional, PFCRN, 17 contando com o apoio de partidos como o PPS, o PARM e o PST. O PRD defendia uma ampla reforma do sistema eleitoral, além de propor uma via nacionalista para o país, conseguindo um apoio expressivo, muito embora insuficiente, contra o PRI. A partir das eleições de 1988, com o crescimento destes dois partidos de oposição (PRD e PAN), o PRI deixou de ser hegemônico, perdendo eleições em cinco estados. Em outros cinco venceu por menos de 50% dos votos, algo inimaginável anteriormente. O crescimento da oposição se tornou um complicador para o governo posto que este perdeu espaço junto ao eleitorado, o que se refletiu em uma significativa perda política. Porém, mesmo em meio à crise o regime conseguiu implementar as reformas estruturais de cunho neoliberal. Mas como o governo conseguiu transpor estes obstáculos? Em 1987, ano das campanhas eleitorais, uma nova legislação eleitoral ratificou o princípio de tutela das eleições pelo Estado, permitindo, também a formação de comitês técnicos e de vigilância para que todos os partidos políticos pudessem exercer maior fiscalização sobre o processo eleitoral. Mas o principal órgão competente, a Comissão Federal Eleitoral, deixou as suas principais funções nas mãos 17 Muito embora posteriormente voltassem a apoiar o governo, por conta do extremismo e radicalismo das propostas de Cárdenas. O IMPACTO DO SISTEMA POLÍTICO-INSTITUCIONAL... – Renata Peixoto de Oliveira 201 do partido do governo, por este ter apresentado um bom desempenho eleitoral nas eleições federais antecedentes. Dessa forma, o partido oficial ficou em situação privilegiada dentro deste órgão, passando a ter grande representatividade e peso político podendo recorrer mais facilmente às fraudes. O que é indicativo do quão controladas pelo regime foram as eleições presidenciais de 1988. Até mesmo, esta aparente perda de eleitorado do PRI só não foi maior porque muitos eleitores se abstiveram de votar como forma de protesto contra o regime, o que acabou por surtir um efeito contrário, já que a oposição deixou de ganhar mais votos, beneficiando, dessa forma, o regime. Assim sendo, a vitória do PRI confirmou-se mais uma vez, apesar de seu razoável desempenho eleitoral. O candidato vencedor, Salinas de Gortari, chegou a reconhecer que o candidato do maior partido de oposição, o PAN, tinha vencido as eleições nas urnas, mas, mesmo assim, o candidato da situação tomou posse. Naquele momento, a imagem do regime não poderia estar mais arranhada, tanto no país, quanto no exterior. O país ainda enfrentava os altos custos sociais das políticas de ajuste do governo de Miguel De la Madrid, assim como os efeitos da crise da dívida. Nem mesmo poder-se-ia contar com algum resultado positivo do programa de reformas econômicas, já que estas se encontravam em pleno processo de implementação. (Carvalho, 1997:108). Durante seu mandato, Salinas de Gortari reforçou seu domínio sobre o próprio partido e ampliou sua base eleitoral, ao recompor alianças com o empresariado e com setores do partido através de práticas clientelistas. O presidente chegou a propor a “democratização” da política nacional como forma de evitar o êxodo partidário, diminuir a oposição e compensar a falta de maioria no congresso. Mas, um dos aspectos mais importantes referentes à dimensão partidária foi a aliança política realizada entre o PRI e um de seus principais adversários, o PAN. Para o partido oficial, a aprovação de medidas relacionadas à reforma do Estado só se daria por meio desta aliança, posto que o Partido da Ação Nacional, já era a segunda maior força política do país, apresentando um desempenho eleitoral cada vez mais satisfatório. Isto pode ser percebido quando este partido venceu o PRI nas eleições para o governo do estado da Baixa Califórnia em 1989. Foi a primeira vez que o PRI perdeu uma eleição para governador. E, ao contrário do que se poderia imaginar, o partido oficial não utilizou meios fraudulentos para modificar os resultados das eleições. O reconhecimento da vitória panista por parte do governo permitiu o apoio necessário no Congresso para aprovação das reformas constitucionais no período que se estendeu, principalmente, de 1988 a 1991 (Carvalho 1997:102). O ainda forte controle partidário exercido pelo partido oficial juntamente a aliança entre este e o principal partido de direita do país, garantiram as condições necessárias para a realização das reformas. 202 TEORIA E SOCIEDADE nº 16.2 – julho-dezembro de 2008 A seguir, apontaremos quais foram as principais características do sistema partidário argentino. Nossa análise tem como ponto de partida o ano 1983, quando se inaugura o novo regime democrático. O sistema partidário argentino se caracteriza pelo caráter movimentista de seus partidos. Ou seja, quando pensamos, por exemplo, na força dos dois principais partidos nacionais, como a UCR e o PJ, não devemos nos restringir à institucionalização da estrutura partidária, mas, sobretudo pensar na vinculação destes partidos a dois movimentos políticos históricos, a saber, o yrigoyenismo e o peronismo. Um outro aspecto é a tendência à hegemonia partidária exercida por um destes dois partidos quando no poder. Isto se traduz na estratégia de exclusão e marginalização de seu opositor. Quando, no poder, um dentre os dois partidos se coloca na condição de representante da nação de uma forma totalizadora, o que confere um caráter bi-polarizado ao sistema partidário. Alguns complicadores para se atingir o consenso necessário em torno das reformas era a grande fragmentação interna dos partidos políticos e a própria fragmentação do sistema partidário caracterizado pela existência de partidos com representação apenas local. As maiores forças eleitorais nas províncias eram os partidos conservadores. Dentre estes partidos, a UCEDÉ, de direita, foi o grande destaque, já que se tornou o canal de representação do empresariado, que não teve acesso ao governo Alfonsín devido à ocorrência de uma grande centralização política. Cabe ressaltar que a classe empresarial não se identificava do ponto de vista ideológico com os dois partidos históricos argentinos: o PJ, de bases trabalhistas, e a UCR, representante das classes médias. O governo Alfonsín foi marcado pelo isolamento político, exacerbado pela somatória dos fracassos políticos e econômicos (como por exemplo, o Plano Austral) que levaram este governo ao total descrédito e, abriram caminho para que o Partido Justicialista (peronista) voltasse ao poder no pleito de 1989. Para estas eleições, o partido peronista realizou uma votação interna para decidir qual dos dois postulantes à indicação, Menem ou Cafiero, disputaria a presidência da República pelo partido. Menem acabou vencendo com cerca de 53,8% dos votos. Pode-se dizer que Menem era representante do peronismo histórico, claramente um político populista que se aproveitou da ainda incipiente estrutura partidária do peronismo no pós-autoritarismo para se colocar na condição de nova força política do país. Durante o fracassado governo do radical Alfonsín, Menem se aproveitou da situação para se dissociar da classe política tradicional e não se desgastar perante o eleitorado, descontente com a classe política de um modo geral. Isto, com certeza contribuiu para que, em Maio de 1989, Menem com 49% (PJ) derrotasse Angeloz (UCR) com 37% e Alsogaray (UCEDÉ) com 6,5% dos votos. O IMPACTO DO SISTEMA POLÍTICO-INSTITUCIONAL... – Renata Peixoto de Oliveira 203 Também em relação às reformas, devemos ressaltar o fato de que o presidente Menem chegou, a preencher cargos de liderança com pessoas próximas e favoráveis a ele dentro do PJ. Assim, mesmo diante do descontentamento de alguns setores do partido quanto à nova agenda econômica apresentada pelo governo, o presidente conseguiu neutralizar estes setores exercendo forte controle sobre seu partido. Carlos Menem também firmou uma aliança com alguns membros da UCEDÉ, importante partido de oposição com expressivo eleitorado nas províncias. O criador deste partido e seu antigo presidente, Álvaro Alsogaray, que chegou a ser adversário do PJ nas eleições de 1989, foi indicado pelo próprio Menem ao cargo de consultor financeiro para assuntos do governo. O presidente também nomeou outra pessoa da família Alsogaray, Maria Júlia Alsogaray, à presidência da Companhia Nacional Telefônica e mais um membro da UCEDÉ para a Secretaria do Comércio. Esta aliança entre a UCEDÉ e o governo do PJ gerou certa indignação, mas, mesmo assim, a presença de partidários da UCEDÉ no governo Menem só fez aumentar. 18 A importância desta aliança construída por Menem pôde ser observada nas eleições senatoriais de 1989. Nesta ocasião, não houve nenhum vencedor majoritário, portanto a decisão caberia a um colégio eleitoral. Para dar a vitória aos peronistas, Maria Júlia Alsogaray (UCEDÉ), terceira colocada, abriu mão de seus votos em função do candidato peronista, segundo colocado, levando à derrota o candidato da UCR, que até então estava em primeiro lugar. Esta mesma aliança também se repetiu nas eleições presidenciais de 1995, pois a UCEDÉ não lançou candidato próprio apoiando a reeleição de Menem. Assim, pode-se perceber, como o controle do partido da situação por parte do presidente da república e as alianças constituídas entre o governo e um dos principais partidos de oposição acabaram criando um ambiente favorável à aprovação das reformas. Não nos esquecendo também do sucesso eleitoral do partido peronista que sempre lhe garantiu a maioria no congresso. CONCLUSÕES A seguir apresentamos as conclusões mais destacadas que derivam da análise comparativa dos três casos estudados no que tange o impacto do sistema político para as reformas estruturais na América latina. O ponto que fica patente é que, independentemente do contexto democrático ou autoritário dos regimes que 18 É preferível colocar esta aliança nestes termos do que afirmar que esta se deu entre o Partido Justicialista e a UCEDÉ, já que as mesmas eram construídas individualmente. 204 TEORIA E SOCIEDADE nº 16.2 – julho-dezembro de 2008 implementaram as reformas econômicas, o poder acumulado no Executivo viabilizou a realização das reformas num prazo surpreendentemente curto, levandose em conta a magnitude das mudanças. Mais ainda, os recursos à disposição dessa esfera de poder não surgiram no decorrer do processo reformista, mas foram incubados no interior do modelo nacional-desenvolvimentista ao longo de sua trajetória. No México e na Argentina os mesmos partidos – PRI e Partido Justicialista, respectivamente – que implementaram o antigo modelo, realizaram a conversão para o neoliberalismo. Da mesma forma no Chile, o regime de Pinochet, mesmo exacerbando a pauta presidencialista, representou a continuidade de uma tendência que vinha despontado desde muito antes. Paradoxalmente, o hiper-presidencialismo, sob cujo eixo gravitaram as reformas, terminou sendo enfraquecido, em maior ou menor grau, por aquelas. Essa situação verifica-se, sobretudo na experiência mexicana, onde o caráter imperial do cargo de presidente deu lugar a um Executivo equilibrado por um congresso bem mais efetivo no seu papel de representação de interesses. A implementação de planos de descentralização, embora tímidos, e a reativação do parlamento e do sistema partidário diminuíram a margem de manobra do Executivo chileno, enquanto a Argentina é dos três, o que menos parece ter-se afastado da trajetória anterior. Vimos como nestas diferentes esferas as reformas econômicas foram processadas nestes três países e como a combinação de diferentes fatores concernentes ao sistema político de cada país determinou o ritmo e a intensidade das reformas e até mesmo como estas últimas acabaram influenciando algumas tendências e mudanças políticas. Desta forma, fugimos um pouco do mito de que este processo obedeceu essencialmente a fatores externos e estritamente econômicos. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ACUÑA, Carlos; GAMARRA, Eduardo; SMITH, William (editores).1994. latin american political economy in the age of neoliberal reform: theoretical and comparative perspectives for the 1990´s. north-south center. Miami. CAMPOS, Germán J. Bidart. El Federalismo Argentino Desde 1930 hasta la actualidad..1993. In: Carmagnani, Marcelo (Coordenador). Federalismos latinoamericanos: México, Brasil e Argentina. Fondo de Cultura Económica. México. CARVALHO, Nelson Rojas.1997. Do Pri ao sistema plural na Transição Mexicana. 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With this purpose we analyze political regimes and the neo-liberal reforms the role and decision-making faculties of presiden- implemented during the last decades. The main tial power, both the type of political regime and element responsible for the implementation of neo- its consequent level of cohesion, and the electoral liberal reforms has been the power concentrated and party systems within the context of the reform in the executive branch –a structural feature of process in each country. KEY WORDS economic reforms neo-liberalism presidentialism political system RECEBIDO EM fevereiro de 2007 APROVADO EM março de 2008 RENATA OLIVEIRA PEIXOTO Doutoranda e mestre em Ciência Política DCP/UFMG e graduada em Ciências Sociais pela mesma Universidade. O IMPACTO DO SISTEMA POLÍTICO-INSTITUCIONAL... – Renata Peixoto de Oliveira 207