PROJETO DE LEITURA TECNOLOGIA NOSSA DE CADA DIA: UM
BREVE RELATO DE EXPERIÊNCIA
TORRES, Marília Camponogara – UTFPR
[email protected]
OLIVEIRA, Fernanda Alves de – UTFPR
[email protected]
Eixo Temático: Práticas e Estágios nas Licenciaturas
Agência Financiadora: Programa Institucional de Bolsa de Iniciação (Científica) à Docência
Resumo
A prática de leitura leva o sujeito à reflexão, à compreensão do mundo e à ampliação de
conhecimentos e experiências. A promoção e a valorização dessa prática são essenciais para a
construção de leitores aptos a participarem das diversas esferas de interação na sociedade.
Devido à importância da leitura e às inúmeras dificuldades envolvendo-a no Brasil, o presente
relato de experiência surgiu, a partir do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação
(Científica) à Docência, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, campus Curitiba.
Nesse programa estivemos em contato com uma escola pública, localizada em Curitiba, na
qual desenvolvemos um projeto de leitura, na turma do 1º ano do Ensino Médio. Com base
nas Diretrizes Curriculares de Língua Portuguesa para os anos finais do Ensino Fundamental
e Ensino Médio, nos pressupostos de Costa (2009), acerca da prática de leitura e da formação
do leitor, e na realidade dos alunos e da escola, desenvolvemos o projeto de leitura A
Tecnologia nossa de cada dia, a fim de auxiliar e mediar os alunos na leitura e na
interpretação de diferentes gêneros discursivos, proporcionando discussões e reflexões com o
objetivo de apoiar a formação de um leitor/cidadão crítico na sociedade. Em todas as aulas
desenvolvidas foram levados textos de diferentes gêneros, entre eles, tirinhas, cartuns,
entrevistas e artigos de opinião, sendo que todos eles estavam relacionados com a vivência
dos alunos, versavam sobre o tema escolhido e eram encontrados nas diferentes esferas
sociais. Ao final, de certa forma, cumprimos nosso objetivo, com alguns erros e acertos,
restando-nos algumas reflexões do quanto ainda a leitura na escola não é considerada uma
prática social.
Palavras-chave: Leitura. Projeto de leitura. Gêneros.
Introdução
Durante as aulas de Língua Portuguesa, em grande parte das escolas, nota-se o
predomínio do ensino de gramática, deixando um pequeno espaço para o trabalho com a
leitura, a oralidade e a escrita, sendo que essas práticas, ainda hoje, são vistas e ensinadas por
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um viés menos eficiente que o tradicional. Corroborando para esse panorama, as atividades de
leitura, inclusive, muitas vezes, são utilizadas como um pretexto para o ensino de elementos
gramaticais, além de apenas tratarem de questões superficiais, não abrangendo as múltiplas
relações que um texto pode trazer.
Foi justamente no meio desse ensino mais gramatical que nos deparamos ao
observarmos algumas aulas do primeiro ano do Ensino Médio, em uma escola estadual de
Curitiba, vinculada ao Programa Institucional de Bolsa de Iniciação (Científica) à Docência
(PIBID), da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), campus Curitiba. Por
meio da observação dos jovens alunos, percebemos o contato e o interesse deles em relação
aos recursos tecnológicos, como redes sociais, computadores, celulares, entre outros. Dessa
forma optamos por desenvolver um projeto de leitura com o tema tecnologia, a fim de
despertar o interesse dos envolvidos.
Sob o título A Tecnologia nossa de cada dia, nosso projeto de leitura objetivou
auxiliar os alunos na leitura de diferentes gêneros discursivos, proporcionando discussões e
reflexões
sobre
o
tema,
intenções,
aceitabilidade
dos
textos,
intertextualidade,
informatividade, situacionalidade, temporalidade, vozes sociais e ideologia. Para isso,
escolhemos textos que circulassem na sociedade e proporcionassem para os alunos uma visão
que perpasse o conhecimento prévio deles sobre a tecnologia, seus benefícios e malefícios,
atentando-nos para o que iríamos proporcionar para os alunos com o nosso projeto.
Segundo Costa (2009, p.123), os projetos realizados nas escolas são uma ação
assumida por um conjunto de pessoas que, trabalhando em rede, buscam concretizar os
conhecimentos em diversas formas, avaliando o processo dessa construção e alterando o meio
em que vivem, modificando a si próprios. Desse modo, com o projeto de leitura Tecnologia
nossa de cada dia,buscamos, por meio do tema relacionado ao cotidiano dos alunos, dar uma
nova forma ao comportamento e ao modo de tanto os alunos, como a professora da turma,
verem a leitura, visto que, inicialmente, em uma conversa com a educadora, ela havia nos
relatado que os aprendizes não gostavam de ler e o livro didático utilizado continha muitos
textos ‘’chatos’’ e desinteressantes, informação essa que justificava ainda mais a realização de
um projeto de leitura nessa escola.
A prática de leitura
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No Brasil, pesquisas e projetos referentes à leitura até meados do século XX estavam
restritos à noção de aprender a ler, à metodologia para a aprendizagem das letras e à análise
dos obstáculos e facilidades para compreender um texto. Não havia, nesse sentido, reflexões
significativas acerca da função da leitura e da formação do leitor. Somente no final do século,
estudos e pesquisas de diferentes linhas teóricas começaram a surgir e refletir teoricamente a
respeito da importância da leitura. A partir desse momento, disseminou-se a preocupação com
o estado da leitura no Brasil, principalmente a situação nas escolas. Desde então, inúmeros
projetos de incentivo à leitura foram estimulados e realizados em todo o país, crescendo os
estudos e pesquisas acerca da valorização, da qualidade da leitura e da formação do leitor.
Diante desse quadro, cabe-nos, porém a seguinte pergunta: afinal, o que é leitura?
Segundo Jouve (2002, p.61) apud Costa (2009, p.39), a premissa primeira de leitura consiste
em um processo de interação produtiva entre o texto e o leitor, isto é, é um movimento
dinâmico constante: sai do leitor, vai ao encontro do texto (e de outro sujeito, o autor, que se
manifesta nas palavras do texto) e retorna ao leitor, que dá significação ao texto segundo seu
conhecimento de mundo. Ou seja, como nas palavras da pesquisadora: “na produção de
sentidos para o texto, o leitor se utiliza de conhecimentos prévios, adquiridos sobretudo em
leituras anteriores, e da memória, da qual se serve para produzir uma interpretação do texto
lido” (COSTA, 2009, p.48).
Por meio da leitura, entra-se em contato com diversas realidades, interage-se com
sujeitos históricos e ideológicos e aprendem-se novas formas de ver o mundo e o ser humano.
Dessa forma, o leitor necessita de orientação e de uma grande carga de leitura para reconhecer
e refletir acerca de diferentes formas de textos vinculados na sociedade, justamente o que
tentamos proporcionar em nosso projeto – os alunos perceberem-se como verdadeiros leitores,
orientando-os nas leituras dos textos sobre um mesmo tema, de diferentes perspectivas.
A leitura, ainda segundo Costa (2009, p.52), é um ato complexo, uma vez que exige
diversos procedimentos, posturas, conexões físicas e mentais, a fim de proporcionar sentidos
coerentes para o que foi lido. Para produzir sentido, por sua vez, necessita-se, primeiramente,
de um reconhecimento do código em que o objeto de leitura encontra-se. Em segundo lugar,
além do código, o leitor precisa saber as regras desse código, para que o sentido não
permaneça apenas no primeiro plano de significação, iniciando-se assim o processo de leitura,
em outras palavras, o momento de interpretação, da construção de sentidos coerentes. Desse
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modo, a leitura ocorre em quatro etapas1, nas quais o leitor atua de modo diferente em cada
uma delas, desde o reconhecimento de aspectos gráficos e valores semânticos das palavras até
a seleção de possibilidades e pressupostos a fim de obter uma coerência para o texto.
Diante dessas quatro fases por que passam os leitores, ao entrarem em contato com um
texto, notamos que nem sempre o trabalho com a leitura em sala de aula abarca todos esses
aspectos. Professores consideram, muitas vezes, a leitura em voz alta como sendo uma forma
de trabalhá-la, ou, como geralmente ocorre, optam pelo ensino da gramática, como o ocorrido
nas aulas de observação da escola em que desenvolvemos o nosso projeto de leitura.
Atentando para a professora dessa escola, notamos que a leitura não tem o espaço que
realmente deveria ter, simplesmente pelo fato de, na maioria de suas aulas, haver ela uma
abordagem mais gramatical, a qual utiliza o texto como pretexto para o ensino de gramática,
deixando, dessa forma, a leitura para um segundo plano, justamente por a educadora
considerar o livro didático utilizado com textos muito grandes e atividades de compreensão de
texto muito difíceis para os alunos. Ademais, segundo ela, era preferível trazer filmes para a
sala de aula, ou músicas, pois os estudantes eram “preguiçosos” e não gostavam muito de ler.
Da mesma forma que a professora via a leitura de uma forma errônea, os alunos
também possuíam uma concepção de leitura. Para eles, as atividades que apresentamos
pareciam ser algo desagradável – eles hesitavam e reclamavam, afirmando não haver tempo
disponível para a leitura e para realização das atividades propostas em sala. Corroborando
para esse comportamento, a escola também assumia um posicionamento sobre o ato de ler,
uma vez que não proporcionava aos alunos um ambiente favorável ao estímulo da leitura.
Além disso, os próprios alunos não tinham acesso aos livros da biblioteca, já que essa
permanecia fechada e sem um bibliotecário. Como consequência disso, os educandos não
tinham também oportunidade de buscar um material de seu interesse, nem condições de
comprar um livro, não eram motivamos a ler, bem como os professores mostravam
desconhecimento e falta de preparo em relação ao seu papel na formação do aluno leitor.
Todos esses fatores influenciam na aprendizagem e concepção de leitura do aluno. É
importante que tanto a escola como os professores promovam atividades para desenvolver o
gosto pela leitura, mediando e interagindo com os alunos, trocando e confrontando ideias,
reconhecendo a importância dos conhecimentos adquiridos no processo de leitura, pois
1
Conforme classificação de Costa (2009, p. 53)
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ambos, juntamente com a família, vão direcionar e o orientar o aluno na sua trajetória de
leitura, fazendo com que esse leve a atividade além dos muros da escola, compreendendo a
importância dela na sua formação como sujeito.
O projeto de leitura
O projeto foi desenvolvido em Maio e Junho de 2011, após um período de observação
de um mês, momento esse em que foi possível conhecer a prática de ensino da professora
supervisora, o cotidiano da escola e a realidade dos alunos. Nosso trabalho ocorreu com 25
alunos do 1º ano do Ensino Médio, sendo as atividades realizadas toda a semana, em uma aula
de 50 minutos.
Na primeira aula do projeto apresentamos nossa proposta e discutimos um pouco sobre
o tema da tecnologia. Para isso, a fim de ativar o conhecimento prévio dos alunos, mostramos
algumas imagens de aparelhos eletrônicos, fazendo uma reflexão de como a tecnologia está
presente em nossa vida, porém, muitas vezes, de modo supérfluo, principalmente quando o
produto oferece muito mais do que realmente precisamos. Logo em seguida, discutimos a
diferença entre tirinha, charge e cartum, para logo em seguida, analisarmos uma tirinha
segundo três níveis de leitura e, também, conforme as características de produção do gênero.
A tirinha escolhida foi escrita por Adão e publicada na Folha de São Paulo, seção Ilustrada,
no dia 05 de maio de 2011, a qual versava sobre a tecnologia, englobando assuntos como
consumismo, educação (substituição do livro pelos e-books e em quais medidas eles facilitam
o aprendizado) e dependência. Para a leitura e análise da tirinha, dividimo-la em três partes,
entregando e analisando uma parte de cada vez: primeiro quadrinho; primeiro e segundo
quadrinhos; e, por fim, primeiro, segundo e terceiro quadrinhos sem a fala do último, para os
alunos o completarem. Logo após a leitura da tirinha e das respostas, revelamos a verdadeira
fala do personagem do terceiro quadrinho, a fim de realizarmos uma discussão do todo da
tirinha e dos temas que a englobavam. Por fim, entregamos uma proposta de escrita, na qual
eles deveriam comparar a tirinha trabalhada em sala e outra escrita por Duke e escrever um
parágrafo sobre a importância da tecnologia no cotidiano.
No segundo encontro, continuando com o foco no tema tecnologia, trabalhamos o
conflito de gerações envolvendo-a. No primeiro momento, lemos duas propagandas, uma
sobre o Twitter e a outra, Facebook, sendo que ambas versavam sobre temais atuais, em um
formato de propaganda antiga. Ou seja, representavam um conflito entre gerações. Logo em
13587
seguida, lemos um cartum relacionado com a temática e os alunos tiveram que refletir e
responder às seguintes questões, para uma posterior discussão: 1) qual a visão que os
redatores de papel têm dos redatores de internet?; 2) qual a visão que os redatores de internet
têm sobre os redatores de papel?; 3) quais os elementos do cartum que ajudaram você a
chegar a essa conclusão?
Na terceira aula do projeto, demos continuidade à aula anterior, com a leitura de um
relato de opinião, intitulado Brincando de Facebook, escrito por Rui Castro, publicado na
Folha de São Paulo, seção Opinião. Após a leitura, discutimos brevemente sobre cada
parágrafo, para, em seguida, entregarmos um cartum, objetivando a comparação entre os dois
textos. Por fim, ainda nessa aula, os alunos realizaram em sala uma prática de escrita, baseada
em uma das propostas de vestibular da Unicamp de 2010. Assim, solicitamos que
escrevessem uma narrativa que abordasse os conflitos de um jovem que vai estudar em outra
cidade e passa a morar com os avôs, sendo que a história seria publicada no blog da sala que
criamos2.
A atividade realizada na quarta aula do projeto, por sua vez, teve início com uma
conversa acerca das funções das redes sociais, dando ênfase ao Twitter, mostrando para os
alunos que, além de sua utilidade habitual – a de entretenimento –, ela também pode ser usada
como via de informações. Por isso, assistimos a um vídeo, intitulado Tecnologia e Esperança,
do programa Vila Velha News, apresentado pelo colunista Luciano Döll. O vídeo serviu como
introdução ao fato de as redes sociais terem servido como fator impulsionador para a queda
do ditador Mubarak, no Egito. Logo em seguida, foi lida uma página do twitter Brasileiro no
Egito3, a qual abordava justamente sobre o que estava ocorrendo no Egito na época do auge
da derrota do ditador, via um correspondente brasileiro que fazia uso de uma rede social, ou
seja, via tecnologia, para se comunicar com o Brasil. Em seguida, trabalhamos com mais um
texto, retirado da Folha de São Paulo, publicado em 15 de fevereiro de 2011, intitulado Mídia
Social faz do Egito janela para jovens, o qual continha uma entrevista com Andy Carvin, um
“curador” de notícias durante os 18 dias de revolta do Egito.
Na aula seguinte, a quinta aula, realizamos uma atividade em grupo, a turma foi
dividida em cinco grupos, os quais ficaram responsáveis pela leitura e discussão de cinco
posts retirados de blogs, sendo que todos estavam relacionados ao tema tecnologia: dois posts
2
3
O blog está disponível em: josebusnardo.blogspot.com
A página encontra-se disponível em http://twitter.com/#!/diretodoegito
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sobre a revolução do Egito, um considerando a tecnologia como um fator de impulso na
queda do ditador, enquanto o outro defendendo que a queda do ditador, na verdade, foi
impulsionada pelo povo mesmo. Os outros três textos, por sua vez, continham os seguintes
títulos: Rede social é boa ou ruim para as empresas?, O lado ruim das redes sociais e
Vantagens e desvantagens da internet. Cada grupo foi responsável por ler seus textos e
discuti-los, a fim de formar uma opinião favorável ou desfavorável ao que estava sendo
defendido no post. Após a leitura, cada grupo expôs o seu texto e a sua opinião, e logo após
cada apresentação, um grupo teria que fazer perguntas para aqueles que estavam
apresentando.
Finalizando o projeto de leitura, optamos por uma atividade com micro-contos
retirados do Twitter. Para isso, primeiramente, colamos no quadro quatro micro-contos de até
no máximo 140 caracteres4. Por meio desses textos, os alunos perceberam que eles, em vez de
contar, muito mais sugerem, além de conterem uma linguagem mais formal e objetiva,
contendo muitos elementos narrativos. Após essa breve explicação e análise, foi a vez de eles
produzirem os seus próprios micro-contos. Para a nossa surpresa, os alunos realmente se
entusiasmaram e realmente escreveram ótimos textos, sendo que, à medida que eles
terminavam sua pequena produção escrita, iam expondo-a no quadro-negro.
Nosso projeto de leitura mostrou-se interessante e instigante aos alunos, destacando a
importância da temática nesses resultados. No primeiro encontro, inclusive, os alunos bateram
palmas ao final, o que comprova que a escolha do tema foi satisfatória. O projeto
proporcionou leituras de diferentes gêneros de textos, estimulando a reflexão, a leitura nas
entrelinhas, além das linhas, as ideologias implícitas, objetivando direcionar os alunos para
novas experiências de leitura, fazendo com que estes ampliassem seus conhecimentos,
experiências e horizontes. Os participantes do projeto demonstraram grande interesse pelos
conteúdos apresentados, participaram das atividades em sala, respondendo às propostas,
muitas vezes debatendo e questionando, adquirindo novos conhecimentos e tomando
consciência do seu papel de construtores de significados na leitura. Todavia, quando tínhamos
que ler textos um pouco mais compridos, ou vários pequenos textos em sala, eles, a princípio,
não eram muito receptíveis à proposta, fato que, com o desenrolar do projeto, foi mudando.
4
Disponíveis em: http://twitter.com/#!/hs_micro_contos
13589
Ao utilizarmos os gêneros em nosso projeto de leitura, consequentemente,
proporcionamos aos jovens um trabalho com textos autênticos com suas condições de
produção, de circulação e de recepção, tendo em vista as esferas de comunicação, às quais
esses textos pertencem. Além disso, as diferentes práticas discursivas estão presentes nos
gêneros, os quais fazem parte do cotidiano dos aprendizes e os levam a fazerem parte de um
processo interativo. Nesse sentido, concebendo os gêneros como práticas sociais, não há
espaço para um trabalho fragmentado entre a língua e a vida do aluno, como ocorre nos textos
didatizados e no ensino somente de gramática. Ademais, o trabalho com os gêneros não
permite apenas uma resposta pronta e acabada, que limita o aluno apenas àquela leitura
possível, ao contrário, são múltiplas leituras e inter-relações com outros textos e, inclusive,
com acontecimentos da vida cotidiana.
Com esses diferentes textos em nosso projeto, procuramos sempre analisá-los nos três
níveis de leitura, a saber: leitura das linhas, das entrelinhas e além das linhas. Ao lermos um
texto a partir desses três níveis de leitura, conseguimos, primeiramente, identificar sobre o que
o texto está se referindo (leitura das linhas), depois, apurar os pressupostos, as implicaturas e
os subentendidos do texto, por fim, ler para além das linhas, quando a atribuição de sentidos
dá-se fora do texto, com outros textos ou com experiências do próprio leitor. Passando por
essas três fases de leitura, o leitor consegue gerar sentidos para o texto, transforma-se
enquanto leitor, no próprio processo e interação da leitura, para gerar mais sentidos e produzir
um “outro” texto, a partir de sua leitura, afinal, conforme Costa (2009, p.40), ler é aplicar
sentido às palavras de acordo com o significado de mundo do sujeito-leitor, segundo as
experiências desse mesmo sujeito. E foi exatamente esse fenômeno que ocorreu durantes
nossos encontros: os alunos iam atribuindo sentidos, fazendo relações com outros textos ou
experiências próprias à medida que íamos lendo e analisando.
Acompanhado da leitura e reflexão dos textos apresentados em sala, propomos, na
maioria dos encontros do projeto, a realização de propostas de escrita e atividades
relacionadas ao tema e às discussões, possibilitando aos alunos a prática do discurso, fazendo
com que eles assumissem uma voz na sociedade e reconhecessem seu papel de autores, donos
de suas palavras. Apesar da participação em sala dos alunos, as atividades escritas
dificilmente eram realizadas, inclusive as que eram para serem feitas durante o encontro, e,
mais ainda, as encaminhadas para serem feitas em casa. Dessa forma, percebemos que os
alunos não possuem uma rotina de estudos fora da escola, não realizam atividades, não leem e
13590
mostram desmotivação devido às inúmeras dificuldades, como a falta de tempo e cansaço
devido a muitos estudantes já trabalharem. Tendo em vista essas ocorrências, um dos
possíveis motivos para esse resultado desfavorável pode ter sido o fato de, durante o ano todo,
os professores não proporem esse tipo de atividade. Consequentemente, os alunos, quando
requisitados a fazerem esses exercícios, não aceitam com prontidão e tentam de alguma forma
não fazê-los durante a aula, pois eles sabem de tal exercício não seria cobrado com um
requisito de nota. Outro possível motivo pode ter sido relacionado a nós, enquanto
professoras, no momento da execução do projeto, não termos motivado suficientemente os
participantes, a fim de fazê-los compreenderem a importância da apreensão da informação e a
construção do conhecimento no desenvolvimento da prática de leitura nas várias esferas da
sociedade.
Com o intuito de divulgar os textos e atividades desenvolvidas nas aulas do projeto,
criamos um blog da turma, proporcionando um local onde esses pudessem postar suas
opiniões, interagir com o mundo da tecnologia, reconhecendo sua voz como importante
constituinte da sociedade. Contudo, apesar do tema ser de interesse dos alunos, o blog não
funcionou – os alunos não acessaram o endereço eletrônico e não se sentiram motivados a
produzir material ou comentar no blog. Através da reflexão acerca dos resultados negativos
do blog, notamos que, além da falta de realização das atividades e desânimo por parte dos
alunos, houve também a falta por nossa parte, pois não persistimos o suficiente na proposta,
devido ao pouco tempo de realização do projeto, como também pela falta de interesse dos
alunos e da própria escola não oferecer um laboratório de informática com computadores
suficientes para todos os alunos da turma. Ou seja, apesar de todo um preparo nosso em
planejar aulas e atividades diferentes, na maioria das vezes, é na hora de colocar em prática
que vemos a impossibilidade de tal tarefa realizar-se.
O incentivo à leitura é primordial para a formação do aluno, uma vez que família e
escola deveriam ser ativas nesse processo. Entretanto, os alunos do projeto não contam com
um dos principais apoios à leitura e à formação de um leitor: a biblioteca; pois o local, apesar
de possuir um bom acervo, não possui bibliotecário e a entrada dos alunos na biblioteca é
restrita. A situação é crítica, pois a escola é um importante espaço de desenvolvimento do
leitor, e muitas vezes o aluno não tem acesso a livros fora da escola e não dispõe de
oportunidades de desenvolvimento. Dessa forma, o projeto buscou mostrar à instituição e aos
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docentes que os alunos necessitam da prática de leitura e de uma biblioteca preparada para
suprir o interesse desses, pois é direito de todo aluno o acesso ao conhecimento.
Considerações finais
No decorrer de todo o projeto de leitura, buscamos identificar as necessidades da
escola e dos alunos, a fim de promover a discussão e a reflexão acerca das condições de
aprendizagem e leitura competente. Nosso projeto, nesse sentido, auxiliou os alunos à prática
de leitura de diferentes gêneros, possibilitando reflexões acerca dos diferentes vieses que
discutimos envolvendo o tema tecnologia, como também a capacidade de localização de
informações implícitas e explícitas, posicionamento argumentativo, apresentação de ideias
com clareza, entre outros.
Os alunos em muitos momentos mostraram-se interessados, participaram das
atividades quando solicitados, mas ao final do projeto ainda não se sentiam seguros para
opinar, levantar sugestões e indagações, esperavam respostas prontas, evidenciando uma
atitude passiva e dependente do professor. Por meio das propostas de escrita para casa e
devido à participação de poucos nessas atividades, observamos também que os alunos não se
dedicam aos estudos fora da escola, não há o hábito de fazer atividades ou ler em suas casas.
Dessa maneira, evidenciamos que as atividades, nesse contexto escolar, seriam bem
desenvolvidas todas em sala de aula, pois as que solicitamos no projeto não progrediram,
motivo pelo qual o blog da turma também não deu resultados.
Além de atividades em sala, deveríamos, no decorrer dos encontros do projeto,
desenvolver momentos diferentes para modificar a rotina da sala de aula, ou seja, o professor
posicionado na frente da turma e os alunos, por sua vez, sentados na frente do professor, em
uma atitude passiva de esperar a resposta. Sendo assim, se tivéssemos modificado a
disposição das cadeiras em forma de círculo, ou mais trabalhos em grupos, os alunos não
seriam mais apenas aprendizes, mas co-partícipes, expondo suas ideias, propondo outras
possíveis leituras e ainda trazendo outros textos que tivessem uma ligação com o tema
trabalhado.
Aliado a esses momentos diferentes e em virtude dos poucos encontros que tivemos,
em vez de termos trabalhado e lido textos de diferentes gêneros, possivelmente o melhor teria
sido focar em um gênero em específico, talvez o artigo de opinião, que versasse justamente
sobre o tema da tecnologia. Desse modo, como o nosso objetivo era o de fazer com que os
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participantes do projeto se tornassem donos de suas vozes, com opiniões sustentadas com
argumentos, ao trabalharmos com o artigo de opinião, eles teriam uma base melhor para
conseguir desenvolver uma posição a cerca do tema proposto, para, ao final do projeto,
poderem escrever um post no blog que criamos.
Toda a experiência que tivemos nessa escola e no projeto que criamos serviu-nos para
refletirmos sobre a prática de leitura, a formação de leitores e a função da escola e dos
professores no processo de formação de leitores. Dessa forma, como futuros professores,
buscaremos, em nossos momentos em sala de aula, tentar incentivar a leitura e formar alunos
cidadãos conscientes de seu papel de leitor e donos de sua palavra. Afinal, como afirma Costa
(2009, p. 49): “A mais importante função da leitura [...] é a possibilidade que o texto oferece
de servir de ponte entre os sujeitos históricos e ideológicos [...] para expressar modos de ver o
mundo e o ser humano”.
REFERÊNCIAS
ADÃO. Jornal Folha de São Paulo. Seção Ilustrada. 05 de maio de 2011.
CARVIN, Andy. Mídia Social faz do Egito janela para jovens. Jornal Folha de São Paulo.
15 fev. 2011.
CASTRO, Ruy. Brincando de Facebook. Jornal Folha de São Paulo. Seção Opinião. 25 de
mai. 2009.
COLÉGIO HUGO SARMENTO. Contos do Hugo. Abr. 2011. Disponível em:
<http://twitter.com/#!/hs_micro_contos>. Acesso em: 20 jun. 2011.
COSTA, Marta Morais da. Sempreviva, a leitura. Curitiba: Aymará, 2009.
DIRETODOEGITO.
Brasileiro
no
Egito.
Fev.
2011.
<http://twitter.com/#!/diretodoegito>. Acesso em: 01 mai. 2011.
Disponível
em:
DÖLL, Luciano. Tecnologia e Esperança. Vila Velha News. 15 mar. 2011. Disponível em:
<http://www.youtube.com/watch?v=o7l-PrX8sgQ>. Acesso em: 01 mai. 2011.
DUKE. Cartuns. Disponível em: <http://www.dukechargista.com.br/cartuns.html>. Acesso
em: 10 mai. 2011.
SECRETARIA DO ESTADO DA EDUCAÇÃO DO PARANÁ. Diretrizes Curriculares da
Educação Básica. Paraná, 2008.
13593
UNICAMP.
Vestibular
Nacional
UNICAMP
2010.
Disponível
em:
<http://www3.universia.com.br/materia/img/ilustra/2011/mar/artigos/unicampredacao2010.pd
f>. Acesso em: 18 mai. 2011.
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