Para que serve a terapia? Por Matias José Ribeiro Para um número cada vez maior de pessoas, fazer terapia tem sido uma maneira de superar suas angústias existenciais e conquistar um pouco mais de felicidade. Quatro psicólogos, de linhas terapêuticas diferentes, discutem aqui o que é uma psicoterapia e mostram como ela pode ajudar as pessoas. Nem todas as pessoas precisam de terapia. E nem mesmo a terapia é o único caminho possível de autoconhecimento, auto-realização, felicidade. Mas, para que alguém veja em si mesmo a necessidade de fazer – ou não – uma terapia, é preciso ter a coragem de constantemente se auto-avaliar. E, se for o caso, a coragem ainda maior de perceber que alguma coisa não vai bem e de reconhecer a impossibilidade de superar os problemas sem ajuda. O que não é nada fácil. A cultura nos ensina a conviver com todas as dificuldades, a encará-las como “naturais”. Todos nós já ouvimos alguém dizer: “Eu sou assim. O que é que eu posso fazer?” Isso, porém, só vale como verdade quando o indivíduo se cobra mais do que é capaz de dar, não se aceita dentro de suas limitações, decorrendo daí suas insatisfações. É o que Rachel Rosenberg chama “uma diferença entre o eu ideal e o eu real”. Mas, quantas vezes se vê uma pessoa infeliz, conformada. Negando admitir, para si mesma, que sua vida está emperrada. Buscando preencher o seu vazio interior com a falsa alegria vendida na tevê, por exemplo. Para “precisar” de terapia não é necessário ter problemas esotéricos, descomunais, sobre-humanos. Não. Basta “sentir-se infeliz”, sintetiza Maly Delitti. Ou, o que é exatamente a mesma coisa, “perceber-se como numa armadilha, sem condições de sair do lugar”, como coloca Maria Alice Franciosi. Ou ainda, mais explicitadamente, “identificar dificuldades na vida afetiva ou na vida profissional”, acrescenta Rachel Rosenberg. 1 Maria de Melo Azevedo sugere que a pessoa marque um encontro consigo mesma – “e compareça!” – e faça uma avaliação de como está com ela própria e com a vida. Uma das perguntas-chave é: “Quanto estou obtendo de satisfação naquilo que faço?”. Ela chama a atenção especialmente daqueles que dizem “estou bem” mas no fundo sentem que a vida “tem gosto de palha”. E indica como sintomas indicadores de uma possível necessidade de terapia: depressões (“falta de vontade para tudo”), imobilidade física, excesso de cansaço, vontade de morrer – ou pouca vontade de viver, impotência (sexual, afetiva, amorosa, profissional). Medo do sofrimento Uma vez identificada a necessidade é preciso superar os medos e outros tipos de dificuldades, e procurar alguém – um terapeuta – “com quem se possa falar das próprias aflições”, no dizer de Maria Alice. Esse é um passo complicado e difícil, e segundo Rachel quem dá “já começou o processo terapêutico”. Resolver começar uma terapia, no entanto, exige necessariamente que você tenha esperança. Diz Maria de Melo Azevedo: “Se você acha que sua casa não agüenta reforma, você fica nela do jeito que está. Mas se acredita que é possível uma reforma e que vai melhorar bastante a casa...” Um dos medos mais comuns para que uma pessoa vá adiando começar a terapia é o medo do sofrimento. Uma terapia é sempre um processo doloroso, sofrido, e pelo menos isso parece que todo mundo sabe. Mas o que se esquece é que “a gente tem tanto medo de descobrir coisas ruins como coisas boas”, observa Rachel, dizendo ainda que “as fantasias distorcem muito a dimensão dos problemas, coisas dentro de você que durante muito tempo você não encarou, e por isso há muito sofrimento. Mas depois que você encara vê que não havia razão para tanto medo. E fica com a recompensa, sempre muito gratificante, de ter superado uma barreira que lhe dificultava a vida”. Outra resistência típica é o medo de ficar “dependente” do terapeuta. “Não é por medo da dependência que não se deve começar uma terapia”, adverte Maria de Melo Azevedo. Para ela, essa seria uma razão a mais para buscar a terapia, porque se a pessoa tem problemas sérios com dependências eles aparecerão e poderão ser resolvidos. Maria Alice Franciosi diz, 2 igualmente, que “a dependência pode acontecer, e até faz parte do processo, e terapeuta e cliente devem estar atentos a ela para tratá-la”. Rachel Rosenberg, por seu lado, observa que não se deve confundir “a valorização do terapeuta e a necessidade que a pessoa sente de comparecer sistematicamente às sessões com uma dependência no sentido de perder o referencial e precisar do terapeuta como referencial para todas as ações”. Na mesma linha, há quem adie o início de uma terapia, alegando a duração do processo. No caso da análise freudiana, Maria Alice argumenta que “a duração prolongada é um fato, e tem a ver com a extrema dificuldade desse tipo de trabalho”. Por duração prolongada entendam-se até oito, dez ou mais anos, em geral com várias sessões semanais. Mas Rachel Rosenberg observa que, se a duração normalmente está relacionada com o método – o processo seria mais curto nas chamadas “terapias breves” e nas terapias comportamentais – , não se deve generalizar: “cada caso é um caso.” E Maly comenta que “curto” e “longo” são termos relativos. Uma duração média entre um e meio e três anos, como a que ela observa em sua experiência, seria muito ou pouco tempo? Relação de confiança Vencidas as resistências, e tomada enfim a decisão de se começar uma terapia, surge um problema a mais: como saber qual, e como encontrar, o terapeuta certo? A primeira coisa a saber – afirmam todos os profissionais ouvidos – é que a linha de abordagem não é o mais importante, embora, ao menos teoricamente, se possa dizer que “em determinados momentos há linhas mais indicadas para uma certa pessoa”, como coloca Maria de Melo Azevedo. O que é de fato essencial é que exista uma “relação de confiança, o que se pede, aliás, na escolha de qualquer profissional de saúde”, diz Maly Delitti. Por isso, acrescenta ela, deve-se procurar um terapeuta a partir da indicação de uma pessoa conhecida. Rachel propõe como ideal a procura de um “aconselhamento psicológico”, através do qual seria determinada “a necessidade de fazer terapia e o tipo, em função dos objetivos e possibilidades da pessoa”. Mas isso no Brasil praticamente não existe, completa. Assim, para minimização dos riscos, além da procura de profissionais recomendados ela sugere que se procurem vários – dois ou três – para um contato inicial para, só 3 depois, ter uma definição por um deles (ou por nenhum, com a conseqüente procura de outro). De qualquer modo, como diz Maria Alice, “é preciso pensar na escolha do terapeuta um pouco em termos de um casamento. Não existe marido ou esposa ideal, e não é preciso experimentar todos os homens ou mulheres para escolher um. Mas a qualquer momento a pessoa dever ter liberdade de dizer este não me serve”. Encontrado o terapeuta certo e iniciada a terapia, aos poucos – mais rapidamente uns, outros menos – a pessoa começa a se modificar. Porque, na medida em que se defronta com seus problemas e vai percebendo como funcionam seus jeitos de lidar com a realidade, passa a buscar outros jeitos mais eficientes. Começa a usar melhor os recursos de sua personalidade. É necessário enfatizar, porém, que não é o terapeuta que modifica o cliente. “O terapeuta não coloca nada em ninguém, apenas facilita o aparecimento do que já existe”, observa Maria de Melo Azevedo. E ainda: todos os passos têm sempre de ser dados pelo cliente. “O terapeuta está junto, dá direções, mas não pode fazer por você. Assim como também não pode garantir que as coisas vão dar certo, embora acredite nisso”, completa Maria. Essas palavras remetem a uma questão fundamental: como saber se a terapia está indo bem? Adotando uma postura bastante realista, Rachel Rosenberg coloca que “uma terapia tem três resultados possíveis: pode ser inócua, ajudar muito ou piorar a vida do terapeutizado”. Por isso, recomenda: “é essencial que o paciente continuamente faça uma avaliação honesta do que está ganhando, de como está sendo beneficiado na terapia – independente de passar por momentos críticos e difíceis”. E explica que “numa terapia bem sucedida a pessoa tem que perceber onde e como o processo está ajudando. Seja em termos de sentir-se e perceber-se melhor, seja em termos de conseguir evidências externas disso”. As várias linhas de análise Muita gente evita dizer abertamente que está fazendo terapia. De um lado, por achar que “os outros não vão entender”. De outro, por isso significar assumir, agora para os outros, que “eu não sou perfeito, tenho problemas a resolver”. As duas justificativas, que se confundem, têm origem no mesmo fato: embora bem menor do que no passado, há ainda muito preconceito em 4 relação às psicoterapias. Quem faz terapia já superou (ou, caso raro, nunca teve) preconceitos. Mas percebe que eles existem ao redor, sabe que passará a “ser olhado diferente” se disser, por exemplo para um colega de trabalho, que está fazendo terapia. Esse mesmo preconceito explica, igualmente, por que muitos simplesmente se recusam a considerar, para si, a possibilidade de vir a fazer uma terapia. “Para muitas pessoas, a idéia de precisar de terapia está associada a uma incapacidade, ou deficiência, ou doença. Seria como que uma diminuição da pessoa”, diz a psicóloga Rachel Lea Rosenberg. Mais objetivamente, o principal componente do preconceito continuaria sendo a vinculação da necessidade de terapia com um “estar louco”. É uma visão que decorre, como observa a psicanalista Maria Alice Franciosi, de um entendimento restrito (e também preconceituoso) da palavra loucura, que conduz logo à imagem do sujeito preso numa camisa-de-força ou confinado num hospício. “O povo diz que de louco a gente sempre tem um pouco, e é verdade”, afirma ela. E complementa: “Ë preciso coragem para admitir, não só para os outros, mas para nós mesmos, que se tem um pedaço louco. Para perceber que, em certos momentos, essa loucura está sendo obstrutiva, está nos aprisionando”. Vivência afetiva Preconceitos se combatem com informação. Inicialmente, o que seria então uma terapia? Segundo Rachel Rosenberg, o conceito não é único, está ligado à linha de abordagem seguida pelo profissional. No caso dela, psicóloga de linha existencial- humanista (mais especificamente rogeriana – de Carl Rogers), a terapia é “uma relação pessoal facilitadora, na qual, o cliente, é visto como uma pessoa capaz de descobrir e usar melhor seus próprios recursos. A postura do terapeuta é sempre de aceitação, nunca de crítica. Não se estabelecem diretrizes ou categorias. Mas, a partir da relação pessoal – o ingrediente terapêutico – ,criam-se condições para que a pessoa encontre seu próprio caminho de autoconhecimento. É uma relação de ajuda, não de cura”. Já a chamada terapia comportamental pressupõe que os problemas trazidos pela pessoa são o resultado de um “aprendizado errado”, e tem por 5 objetivo corrigir os padrões inadequados de comportamento, substituindo-os por novos. A psicóloga Maly Delitti, seguidora dessa linha, observa que, no caso, “cabe ao cliente, só a ele e a mais ninguém, determinar o que é inadequado. O terapeuta deve ter a preocupação de ser neutro, de não passar valores, e apenas ajudar o cliente a superar os problemas”. Diz ainda que a psicologia comportamental nasceu da prática experimental, em laboratórios, onde todas as variáveis podem ser controladas, e que no consultório isso não acontece. “Ninguém é estritamente comportamental”, afirma. “E, independente de linhas de abordagem, qualquer terapia é sempre a vivência de uma relação afetiva, um processo de aprendizado.” Além dessas linhas, existem ainda as chamadas psicoterapias dinâmicas, onde se incluem a psicanálise ortodoxa (ou terapia freudiana – de Sigmund Freud) e suas derivadas, com vários e diferentes métodos. Segundo a psicanalista Maria Alice Franciosi, a distinção fundamental entre a análise e as demais abordagens é que a primeira não tem, essencialmente, o caráter de tratamento. “O analista coloca-se com a disposição de conhecer o analisando”, explica, “adotando uma postura científica diante dele, sem forçar um resultado e, ao contrário, esperando que o resultado aconteça”. Ela diz ainda que, na relação psicanalítica, “cria-se um campo onde se dá um conhecimento que, muito comumente, resulta numa modificação dos dois, analisando e analista”. Para Maria de Melo Azevedo, terapeuta corporal – uma das abordagens ditas dinâmicas –, a terapia deve ser entendida como “um processo no qual a pessoa busca se conhecer melhor, na suposição de que esse conhecimento a levará a lidar de forma mais eficiente com a realidade, com a vida”. Esse processo, acrescenta, é necessariamente feito a dois: “Ë como se a terapia fosse uma espécie de safári ao interior da África. Numa viagem dessas sempre há perigos a enfrentar, e é preciso que você contrate um guia que já tenha feito a viagem várias vezes e vá indicando os caminhos. O terapeuta é esse guia; é uma pessoa que faz terapia e conhece bem o seu próprio inconsciente.” Texto publicado no jornal Shopping News - City News, 25/08/1985. " Maria de Melo é psicóloga formada pela USP e psicoterapeuta pós-reichiana, com cerca de trinta anos de experiência em clínica individual e grupo." 6