Alimentos fortificados para ingestão recomendada de Publicação destinada aos Profissionais de Saúde • ano 6 • nº 17 • dezembro 2012 • São Paulo • ISSN 2176-8463 cálcio 17 nutrição baseada em evidência utilidade e limitações cirurgia bariátrica um novo tratamento para diabetes? Por que gostamos tanto de gordura? o papel da língua editorial A ciência como ferramenta de transformação O universo dinâmico das descobertas científicas encerra a possibilidade, e também o desafio, de traduzir conhecimento em práticas que possam melhorar a qualidade de vida das pessoas. É ao redor desse eixo que gravita grande parte dos artigos desta edição da Nestlé Bio. Por um lado, os doutores Raul Manhães de Castro e Carol Virgínia Gois Leandro, Professores do Programa de Pós-graduação em Nutrição da Universidade Federal de Pernambuco, avaliam como a Nutrição Baseada em Evidência pode beneficiar a prática cotidiana de profissionais de saúde. Juan Carlos Marroquín Presidente da Nestlé Brasil Por outro, os doutores Marco Aurélio Santo e Daniel Riccioppo, acadêmicos da Disciplina de Cirurgia do Aparelho Digestivo da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, discutem criticamente o emprego da cirurgia bariátrica como forma de tratamento para pacientes obesos com diabetes do tipo II. Já no artigo assinado pelo doutor Claudio Galperin, Editor da Nestlé Bio, podemos apreciar como a descoberta de um receptor para gordura na língua pode impactar a maneira como lidamos com a epidemia de obesidade no mundo. Nesta edição, ainda, sentimos orgulho de apresentar iniciativas da Nestlé que, a um só tempo, geram conhecimento e contribuem ativamente para a promoção da saúde e do bem-estar da população. Como a parceria com a International Osteoporosis Foundation, organização que atua na prevenção e combate à osteoporose, e o Programa de Estágio Jovens Nutricionistas, no qual estudantes do quarto ano de Nutrição ganham uma bolsa de estudos da Nestlé para que possam aprofundar seu aprendizado em ambiente hospitalar. nestlé A todos, uma boa leitura Direção Editorial: Juan Carlos Marroquín, Izael Sinem Jr. e Célia Suzuki Consultor Editorial: Claudio Galperin Colaboradores: Juliana Lofrese, Maria Helena Sato, Mariana Kanki, Henrique Vianna, Silvia Araujo, Roseli Borghi, Hélvio Kanamaru Editor: Claudio Galperin Jornalista-responsável: Flávia Benvenga (MTb 17.339) Assistente Editorial: Maria Fernanda Elias Llanos Assistente de Redação: Betina Galperin Edição de Arte e Pré-Media: D’Lippi Comunicação Integrada — (11) 3031.2900 — Direção de Arte: Rosalina Sasaki Arte-final: Ricardo Lugo Fotografia: Egydio Zuanazzi, Thinkstock e Shutterstock Capa: Shutterstock Revisão: Maeve Faiani Impressão: Matavelli Tiragem: 30.000 exemplares A revista Nestlé Bio é um produto informativo da Nestlé Brasil destinado a promover pesquisas e práticas no campo da ciência da nutrição realizadas no país e no exterior, sob os cuidados de um criterioso processo editorial. Alinhada ao histórico papel da Nestlé no apoio à difusão da informação científica, a revista abre espaço para a diversidade de opiniões, que consideramos ser essencial para o intercâmbio de ideias e conceitos inovadores. As declarações expressas na revista não refletem necessariamente o posicionamento institucional da companhia com relação aos temas tratados. nestlé íNDICE intercâmbio Trabalho no SAE DST/Aids Campos Elíseos da Prefeitura de São Paulo. Recebo a Revista nestlé bio Nutrição e Saúde, que considero excelente. Parabéns pela qualidade da mesma. Janice São Paulo/SP Sou nutricionista do SESI de Leme (SP) e utilizo muito a nestlé bio em atividades de educação nutricional que realizo com os alunos. Gostaria de saber da possibilidade de a revista ser enviada em nome da escola, para consulta na Biblioteca. Marília leme/SP Sou profissional da área de Ciência e Tecnologia de Alimentos. Recebi um exemplar da revista nestlé bio Nutrição e Saúde e fiquei muito interessada em seu conteúdo, já que os temas são tão relevantes para minha vida pessoal e profissional. Maynara Mariana/Mg Aguardamos seus comentários e sugestões no e-mail [email protected], com seu nome completo, registro profissional, local de trabalho e cidade de origem. Trechos das mensagens poderão ser eventualmente publicados. 04 21 palavra ponto de vista Dr. Bruno Muzzi Camargos, presidente da Sociedade Brasileira de Densitometria Clínica, fala sobre a pesquisa realizada recentemente pelo IBOPE sobre prevenção, conhecimento e tratamento da osteoporose. Nutrição baseada em evidência: utilidade e limitações. A opinião dos doutores Raul Manhães de Castro e Carol Virgínia Gois Leandro, da Universidade Federal de Pernambuco. resultado 22 10 foco Laranja: o que sabemos sobre a história e as virtudes nutricionais desta fruta ancestral. 16 conhecer A parceria entre o Programa Nestlé Nutrir Crianças Saudáveis e o Instituto Fernanda Keller transforma a rotina e o futuro das crianças de Niterói (RJ). 36 tristan tan / Shutterstock.com Sou nutricionista da área clínica e aproveito para parabenizar a toda a equipe pela excelência da nestlé bio. Sempre com assuntos atuais sendo discutidos e apresentados de forma completa e com muita qualidade. Parabéns! cibele São Paulo/SP nutrição e cultura Em tempos de e-mail e SMS, selos ilustrados por comidas e pratos típicos de países cruzam fronteiras ao redor do mundo. 28 Programa de Estágio Jovens Nutricionistas: formação profissional e assistência nutricional hospitalar, patrocinadas pela Nestlé. 42 sabor e saúde A descoberta de um receptor para gordura na língua adiciona uma nova peça ao quebra-cabeça da obesidade. capa Conheça a variedade de produtos fortificados com cálcio da Nestlé, que contribui para a ingestão adequada do mineral no dia a dia. 31 dossiê bio As nutricionistas Márcia Regina Vitolo e Fernanda Rauber, da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, escrevem a segunda parte do artigo Nutrição e Gestação. 46 leitura crítica Cirurgia bariátrica: uma nova modalidade de tratamento para o diabetes em pacientes obesos? palavra por _Claudio Galperin foto _Egydio Zuanazzi palavra 5 OSTEOPOROSE: O GRAU DE CONHECIMENTO DA POPULAçãO BRASILEIRA A palavra do Dr. Bruno Muzzi Camargos – Presidente da ABRASSO Os números falam por si. No Brasil, cerca de 10 milhões de pessoas sofrem de osteoporose. No entanto, somente uma a cada três pessoas com a doença é diagnosticada e dessas, apenas uma, em cada cinco, recebe algum tipo de tratamento. Estima-se em 121 mil o número de fraturas de fêmur ao ano no País. Valor que deve subir para 140 mil em 2020 e 160 mil em 2050. Em 1999 ocorriam 153 fraturas de fêmur por 100.000 pessoas maiores de 50 anos. Em 2004, este número mais do que dobrou, atingindo a cifra de 343 fraturas de fêmur por 100.000 pessoas maiores de 50 anos. Ao olharmos para estes dados, há que se levar em conta, ainda, o fato de que a osteoporose não é uma doença de notificação compulsória. Deste modo, apenas as fraturas de fêmur são capturadas. Embora graves, estas fraturas representam apenas a ponta de um iceberg que encerra fraturas em corpos vertebrais, membros superiores e outras partes do esqueleto. Como vimos na edição de número 15 da Nestlé Bio, até 2010 não havia nenhuma ferramenta validada, em amostragem consistente, para identificar indivíduos com maior risco para osteoporose e fraturas por fragilidade, visando a prevenção. Esta realidade passou a mudar com a realização de importantes estudos epidemiológicos como o Brazilian Osteoporosis Study (BRAZOS). Agora, em 2012, uma pesquisa encomendada ao Ibope pela Associação Brasileira de Avaliação Óssea e Osteoemetabolismo — ABRASSO — soma-se a estas iniciativas, na tentativa de se obter informações detalhadas sobre o grau de conhecimento das mulheres brasileiras com relação à prevenção, diagnóstico e tratamento da osteoporose. A convite da Nestlé Bio, o Dr. Bruno Muzzi Camargos, médico ginecologista e obstetra, Presidente da ABRASSO, compartilha conosco os principais resultados desta pesquisa. 6 palavra Qual foi a motivação para encomendar a pesquisa ao Ibope? A ABRASSO queria entender com maior profundidade o grau de consciência das mulheres brasileiras e da população em geral sobre a osteoporose. Esta informação é fundamental para que as futuras ações da Campanha de Conscientização Popular Seja Firme e Forte Contra a Osteoporose possam levar informações relevantes ao público. Nosso objetivo é conscientizar as pessoas de que a prevenção da doença começa na infância. Qual foi a amostra e o perfil dos entrevistados? O Ibope realizou duas pesquisas: uma quantitativa, com 1.008 mulheres com idade a partir dos 45 anos nas principais regiões metropolitanas do País; a outra, também quantitativa, com 2.002 entrevistados em todo o País numa amostra representativa nacional, com homens e mulheres acima de 16 anos de idade. Vale dizer que a estratégia de coleta de dados do Ibope é a mais representativa da população brasileira. Por esta razão, investimos na qualidade de seus serviços. Apesar de a maioria da população brasileira consumir leite e derivados diariamente, a quantidade recomendada para prevenir a osteoporose não é habitualmente alcançada. O que a pesquisa revelou em relação à prática de atividade física? Em relação à atividade física, a pesquisa revelou que, entre as mulheres com mais de 45 anos, somente 26% praticam exercícios regularmente. Consideramos este número muito baixo para estratégia de prevenção em massa. Embora haja iniciativa do setor público na abertura de academias ao ar livre, o fator motivacional, eventualmente desempenhado por um instrutor ou educador físico, poderia aumentar a prática regular de exercícios físicos. E em termos de hábitos alimentares? Apesar da maioria da população brasileira consumir leite e derivados diariamente (67%), a quantidade recomendada para se prevenir a osteoporose não é habitualmente alcançada. Cada porção de alimentos ricos em cálcio, como por exemplo o leite e seus derivados, deve conter de 250 a 350 mg de cálcio. O ideal seria que uma mulher adulta após os 50 anos consumisse 1.200 mg de cálcio ao dia. palavra Apenas 30% das entrevistadas com mais de 45 anos de idade já fizeram o exame de desintometria óssea. Qual foi o nível de conhecimento da osteoporose no que diz respeito às suas causas? Mais da metade dos entrevistados (58%) acreditam que a principal causa da osteoporose seja a dieta pobre em cálcio; seguida pelo sedentarismo (24%) e idade (24%). Outras causas da doença, no entanto, como uso de certas medicações, por exemplo, permanecem pouco conhecidas. A menopausa foi relacionada à osteoporose apenas em 10% dos casos, demonstrando desconhecimento da associação entre a falência hormonal e a perda óssea. A maioria, contudo, consome apenas uma porção (29%) ou duas porções (31%). Menos de 20% das mulheres com mais de 45 anos de idade consome três ou mais porções de leite e derivados diariamente. Entre as mulheres adultas jovens (abaixo dos 45 anos), o quadro é ainda mais grave: menos de 10% das mulheres nessa faixa etária consomem leite e derivados nas proporções recomendadas pela Organização Mundial da Saúde. Qual foi o grau de conhecimento dos alimentos que são fonte de cálcio? A maioria das entrevistadas com mais de 45 anos de idade (mais de 70%) reconhecem as principais fontes de cálcio como brócolis, leite integral, sardinha, salmão, queijo branco e iogurte. Entre a população em geral, 90% dos entrevistados consideraram leite e seus derivados como fonte de cálcio e 80% citaram as verduras verdes escuras e peixes como fontes não lácteas de cálcio alimentar. Qual a percepção sobre o impacto da osteoporose na qualidade de vida? Mais da metade das mulheres (62%) que já sofreram alguma fratura após os 40 anos, relatam piora da sua qualidade de vida após a ocorrência da fratura. Apesar das fraturas reduzirem a qualidade de vida, 36% das entrevistadas, com mais de 45 anos de idade, relatam que a qualidade de vida melhorou muito após o tratamento e 30% que melhorou um pouco. A melhora com o tratamento parece ser uma constante, mesmo que em graus diferentes. O que aponta a pesquisa em termos da realização de exames para o diagnóstico da doença? Apenas 30% das entrevistadas com mais de 45 anos de idade já fizeram o exame de desintometria óssea. Porém, pouco mais da metade das entrevistadas (55%) realizaram esse exame pela primeira vez aos 55 anos. 7 8 palavra Existe uma estimativa de quantos exames de densitometria óssea são feitos por ano na rede pública do País? A maioria das capitais dispõe de densitometria óssea na rede pública, mas em escala muito reduzida. Dos 1850 aparelhos instalados no Brasil, apenas 3% pertencem à rede pública. Na medicina privada, o tempo médio de espera para uma densitometria é de um dia e no serviço público de seis meses. Vale destacar, contudo, que não é somente a densitometria que pode fazer o diagnóstico. A história de fraturas por fragilidade óssea também conferem o diagnóstico de osteoporose. De um modo geral, as medidas preventivas adotadas são adequadas? Como visto acima, a percepção da importância da regularidade na prática de exercício físico e da ingesta de quantidades adequadas de cálcio está abaixo daquilo que é recomendado para preservação da saúde óssea. Grande parte da população acredita que duas porções de leite e derivados são suficientes. A maioria das capitais dispõe de densitometria óssea na rede pública, mas em escala muito reduzida. Dos 1.850 aparelhos instalados no Brasil, apenas 3% pertencem à rede pública. No alto, ilustração de osso saudável. Acima, osso com osteoporose. Para esclarecimento, as medidas de prevenção e combate à osteoporose são: 1) Aporte satisfatório de cálcio e níveis normais de vitamina D a todas as pessoas conforme cada faixa etária. 2) Prática de atividade física regular, segura e orientada por profissional capacitado. 3) Utilização de agentes terapêuticos eficazes quando necessário. 4) Adoção de intervenções domiciliares facilitadoras de acesso e minimizadoras do risco de quedas. palavra Como o senhor interpreta a dicotomia entre o elevado nível de conhecimento da doença e a baixa prática de medidas preventivas? Na minha opinião, a dicotomia demonstra a necessidade da criação de espaços onde os bons hábitos com a saúde sejam colocados em prática. Além das salas de aula e programas de televisão, é necessário conduzir programas de saúde voltados especificamente para a população em risco de sofrer fraturas osteoporóticas, como já existem nos casos de outras doenças crônicas como hipertensão e diabetes. Quais as conclusões mais importantes revelados pela pesquisa da Abrasso / Ibope? Analisando os resultados, percebemos um alto índice de conhecimento sobre a osteoporose, tanto na amostra feminina (mulheres mais velhas e mais jovens), como também entre a população em geral. No entanto, a distância entre conhecimento e prática preventiva é clara: menos de 20% das mulheres com 45 anos ou mais consome pelo menos 3 porções de leite e derivados. Desse modo, tanto em prevenção, como em diagnóstico e tratamento, há um longo caminho a ser percorrido para transformar a consciência sobre a doença em prática efetiva, especialmente quando consideramos o envelhecimento da população. Em que medida o resultado da pesquisa fundamenta a adoção de medidas concretas para melhora da prevenção e do tratamento da osteoporose no País? Os dados levantados pela pesquisa nortearão o planejamento das ações de comunicação da ABRASSO e foram aplicados na confecção do material informativo que está sendo veiculado desde o dia 20 de outubro, escolhido como o Dia Mundial de Prevenção e Combate à Osteoporose. Qual o grau de conhecimento sobre o tratamento da doença? Apenas uma pequena parcela da população recebe o tratamento específico. Muitas vezes, o suplemento de cálcio é confundido com os agentes farmacológicos desenvolvidos especificamente para o tratamento da osteoporose. A Vitamina D é confundida com cálcio que, por sua vez, é confundido com bisfosfonatos e outros agentes. Em resumo: a pesquisa revela que, para a população, as medidas preventivas são confundidas com as medidas terapêuticas em osteoporose. Muitas vezes, o suplemento de cálcio é confundido com os agentes farmacológicos desenvolvidos especificamente para o tratamento da osteoporose. 9 foco por_Maria Fernanda Elias Llanos Na tradução de vários idiomas, as laranjas são consideradas as cobiçadas “maçãs douradas”, que eram protegidas por ninfas e por um dragão de 100 cabeças, no Jardim das Hespérides. L A R A N JA Hércules, filho de Zeus e o maior herói da mitologia grega, lutou incansavelmente para obter as frutas e, consequentemente, cumprir o último de seus doze trabalhos [1]. foco Alguns pesquisadores afirmam que a dúvida existente sobre quais eram as verdadeiras “maçãs douradas” se deve ao fato de os gregos terem informações incompletas sobre as laranjas, que eram cultivadas em regiões longínquas. Referida como fonte da eterna juventude, a fruta surge também em outros momentos da mitologia grega, assim como na mitologia nórdica. Nos contos de fadas europeus, ela é constantemente roubada de um rei por um vilão ou por uma ave, sendo que o papel do herói é resgatá-la [1]. A origem da laranja também é controversa. De acordo com o botânico Manuel Pio Corrêa, o cultivo da fruta remonta a um período de mais de 2.000 anos a.C. e que, assim como as demais espécies do gênero citrus, se originou no continente asiático. Entretanto, o local exato não foi definido, e os historiadores sugerem as regiões que incluem hoje índia, China, Butão, Birmânia e Malásia [2]. Do leste asiático, a laranja teria sido levada para o norte da África e chegado à Europa apenas durante a Idade Média. Os portugueses foram responsáveis por introduzir a fruta no Brasil logo após o Descobrimento, no século XVI. A laranja protagonizou o que se considera o primeiro ensaio clínico da história da medicina. 11 Inicialmente, as plantas eram cultivadas em pomares na Bahia, e em 1502 foram levadas para São Paulo [2]. Os missionários Manuel da Nóbrega e José de Anchieta, em cartas à Companhia de Jesus, mencionaram as condições propícias para o desenvolvimento dos frutos no Brasil [3]: "Nesta terra, se dão bem arvoredos de espinhos, que vieram de Portugal, como laranjeiras, cidreiras, limoeiros, limeiras e todo ano têm frutos bons sem ser regados, porque o céu tem esse cuidado e é a terra fértil dessas árvores que se dão pelos montes e campos ... e deles se fazem conservas, como a laranjada, cidrada, ..." O cultivo dessas espécies também é observado nas obras do pintor Jean-Baptiste Debret e do cientista Charles Darwin, que chegaram ao Brasil depois de 1800. E foi nessa época de navegações e descobrimentos que a laranja protagonizou o que se considera o primeiro ensaio clínico da história da medicina. O médico escocês James Lind, interessado nas patologias que dizimavam as tripulações de marinheiros durante as longas jornadas intercontinentais, conduziu um experimento a bordo do navio HMS Salisbury em 1747. O objetivo de Lind era estudar as causas do escorbuto — deficiência de vitamina C que apresenta como alguns dos sinais clínicos: sangramento das gengivas, perda dos dentes, dor nas articulações e hemorragias [4]. O pesquisador selecionou 12 tripulantes que sofriam de escorbuto e os dividiu em seis pares. Os grupos foram orientados a seguir a dieta básica do navio e a IMPORTÂNCIA ECONÔMICA Na década de 80, o Brasil tornou-se o maior produtor mundial de plantas cítricas, com mais de 1 milhão de hectares plantados. Segundo o Instituto de Economia Agrícola, a produção atual de laranja no Estado de São Paulo é estimada em cerca de 400 milhões de caixas por ano e representa 70% do volume nacional. Junto com a Flórida (EUA), segundo maior produtor, os dois Estados são responsáveis por 40% da produção mundial de laranja. 12 foco O composto ativo, ácido ascórbico, foi isolado em 1932 por uma equipe de pesquisadores húngaros. consumirem um item adicional, exclusivo a cada par, que poderia incluir: cidra, água do mar, uma mistura de temperos, vinagre ou laranjas e limões. A dupla que recebeu as laranjas e os limões se beneficiou de um rápido restabelecimento físico [4,5]. Lind publicou seu trabalho em 1753, mas a introdução das frutas cítricas na alimentação de bordo só aconteceu quatro décadas depois. Curiosamente, os marinheiros britânicos que levavam consigo o suco de lima-da-pérsia, para consumirem durante a viagem, passaram a ser chamados de limies. O composto ativo, ácido ascórbico, foi isolado em 1932 por uma equipe de pesquisadores húngaros [5]. aspectos nutricionais Durante anos, os benefícios do consumo de laranja para a saúde estiveram intimamente associados ao elevado conteúdo de vitamina C (nutriente antioxidante e cofator na biossíntese do colágeno, da carnitina e de neurotransmissores), potássio (mineral envolvido no estímulo neuromuscular, transmissão de impulsos nervosos e equilíbrio osmótico), carotenoides (compostos antioxidantes e, em alguns casos, precursores de vitamina A) e fibras (relacionadas com manutenção do hábito intestinal e do peso saudável, e com os níveis de colesterol e glicemia) [6]. Na atualidade, pesquisadores direcionam seus esforços para entender a relação entre os flavonoides cítricos e os distúrbios metabólicos, as patologias neoplásicas, os processos inflamatórios e o fortalecimento do sistema imunológico. Dentre os flavonoides cítricos, a hesperidina é considerada a mais abundante, sendo que a literatura reporta diferentes vantagens para a saúde que incluem benefícios antioxidantes, anti-inflamatórios e anticarcinogênicos, entre outros [7,8]. VARIEDADE DE L ARANJA S NO BRA SIL No Brasil, as variedades de laranjas mais conhecidas e cultivadas são: Laranja-da-baía Também conhecida como laranja-de-umbigo, devido à saliência na porção inferior. Tem sabor adocicado, polpa muito suculenta e casca amarelo-gema. Produz bastante suco, podendo ser consumida ao natural, em refrescos ou como ingrediente em receitas. Ideal para ser consumida em gomos e é pouco utilizada na culinária. Laranja-seleta Fruta de tamanho grande e muito suculenta. De sabor adocicado, pouco ácido e casca amareloclara. Pode ser consumida ao natural ou em sucos. Laranja-da-terra Laranja-pera Possui sabor ácido e polpa suculenta. Seu consumo ocorre na forma de suco ou no preparo de compotas, em que a casca também pode ser utilizada. Em algumas regiões é conhecida como laranja-cavala ou laranjaazeda. É pequena, tem cor amarelo-forte e forma achatada. Menor que as outras variedades, é ideal para o preparo de sucos e geleias. Sua casca é fina e lisa, de cor amarelo-avermelhada e polpa suculenta. Laranja-lima Variedade com menor teor de acidez e maior sabor doce. Possui casca fina amarelo-clara. Laranja-barão Com formato semelhante ao da laranja-pera, é indicada para o preparo de sucos e como ingrediente em receitas. É pequena e possui coloração mais clara. Sua casca é fina e lisa e a polpa muito suculenta. foco 13 benefícios vasculares O conteúdo de hesperidina na laranja varia, consideravelmente, de acordo com a variedade da fruta e a época da colheita, sendo que o teor máximo é observado no início da safra. A concentração da molécula nos sucos de laranja brasileiros, quando espremidos manualmente, varia de 104 mg/L a 537 mg/L [9]. Durante o processo digestivo, a hesperidina é desglicosilada por bactérias do intestino, resultando em moléculas de hesperitina e metabólitos conjugados. Estudos sugerem que a hesperidina seja o fator responsável pelos benefícios referidos à hesperidina. Um estudo conduzido na Finlândia mostrou que a hesperidina representava 50% do total de flavonoides ingeridos por meio da dieta [10]. atividade antioxidante Um estudo conduzido em ratos, com isquemia miocárdica induzida, mostrou que a hesperidina foi capaz de promover um efeito cardioprotetor nos animais que foram tratados com a substância. O mecanismo de ação sugerido envolveu as suas propriedades antioxidantes e antiperoxidativas [11]. A capacidade antioxidante da hesperidina foi confirmada em um teste in vitro, contra o radical livre difenil picrilhidrazil (DPPH). O mesmo ensaio verificou a citotoxicidade do flavonoide contra linhagens de célula de carcinoma de laringe, cérvice, seio e fígado e concluiu uma atividade antineoplásica pronunciada [12]. A hesperidina tem sido associada ao aumento da resistência da parede vascular, com diminuição da permeabilidade capilar. O aumento da permeabilidade capilar é fator de risco para algumas patologias que se manifestam por sintomas como edema, hemorragias e hipertensão. A hesperidina, juntamente com outros flavonoides, tem sido associada ao aumento da resistência da parede vascular, com diminuição da permeabilidade capilar [13]. Um ensaio randomizado, controlado e cruzado, verificou a ação da hesperidina em 24 homens saudáveis, com excesso de peso. Durante 4 semanas, os voluntários consumiram, diariamente, 500 ml de suco de laranja, 500 ml de controle mais hesperidina ou 500 ml de controle mais placebo. Amostras de sangue foram coletadas antes e após o experimento. Os resultados mostraram uma redução significativa na pressão diastólica dos indivíduos que consumiram o suco de laranja ou o controle mais hesperidina. Além disso, os mesmos indivíduos apresentaram melhor reatividade endotelial microvascular pós-prandial, quando comparados àqueles que consumiram controle mais placebo [14]. Um outro estudo clínico, conduzido no interior de São Paulo com 141 homens (de 20 a 60 anos), mostrou correlação negativa da pressão arterial sistólica (PAS) e diastólica (PAD) com o consumo de suco de laranja. A elevação na pressão arterial relacionada à idade foi menor entre os indivíduos que consumiam pelo menos um copo de suco de laranja por dia [15]. 14 foco Efeito cardioprotetor Um grupo de pesquisadores da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho investigou o efeito do consumo habitual de suco de laranja no perfil dos lípides e lipoproteínas em homens e mulheres normolipidêmicos. Todos os voluntários (n=29) consumiram 750 mL/dia de suco de laranja, durante 60 dias. Variáveis bioquímicas foram medidas antes e após o período de suplementação com suco de laranja. O consumo crônico de suco de laranja reduziu significativamente o colesterol total e o HDL-C em ambos os gêneros [16]. Estudo semelhante, publicado no American Journal of Clinical Nutrition, concluiu que o consumo regular de 750 mL/dia de suco de laranja aumentou os níveis de HDL-C e de triacilgricerol, ao mesmo tempo em que reduziu a razão LDL/HDL [17]. aspectos nutrigenômicos Na França, um grupo de cientistas determinou que o consumo regular de 500 ml de suco de laranja por 4 semanas altera a expressão gênica dos leucócitos para um perfil anti-inflamatório e antiaterogênico. Eles concluíram também que a hesperidina desempenha um papel relevante no efeito genômico da bebida [18]. A conclusão foi obtida por meio de um estudo randomizado, controlado e cruzado. O consumo de suco de laranja induziu mudanças na expressão de 3.422 genes, enquanto que a ingestão de hesperidina modulou a expressão de 1.819 genes. Muitos desses genes estão envolvidos nos processos de quimiotaxia, adesão, infiltração e transporte de lipídios, sugerindo menor recrutamento e infiltração de células circulantes para a parede vascular e menor acúmulo de lipídeos. biodisponibilidade Cientistas do Nestlé Research Center obtiveram descobertas valiosas sobre o aumento da biodisponibilidade da hesperitina. Apesar de todas as evidências que associam a hesperidina a benefícios para a saúde, existe consenso que sua biodisponibilidade é limitada em humanos, devido à ligação de um retinosídeo [19]. Cientistas do Nestlé Research Center, em Lausanne (Suíça), começaram, então, a estudar a hesperitina (o componente não glicosado da molécula de hesperidina) e obtiveram descobertas valiosas sobre a absorção e o aumento da biodisponibilidade dessa substância. A equipe verificou, por exemplo, que o tratamento da hesperidina com uma determinada enzima forma o composto hesperitina-7-glicosídeo, com absorção 4 vezes mais rápida e eficiente no intestino delgado. Outras análises verificaram se os metabólitos excretados foram semelhantes entre a hesperidina ingerida e o composto mais biodisponível. Não foram observadas diferenças significativas entre eles [20]. Os pesquisadores ressaltam que essas descobertas poderão afetar positivamente as futuras intervenções que envolvem flavonoides cítricos e benefícios para a saúde. foco 15 Composição Nutricional Laranja crua, todas as variedades comerciais (100 g) Nome científico: Citrus sinensis Nutrientes Valor Unidade Nutrientes C E N T E S I M A I S A hesperidina desempenha um papel relevante no efeito genômico do suco de laranja. Unidade V I TA M I N A S Energia 47 kcal Proteína 0,94 g Gordura total 0,12 Carboidrato Fibra alimentar Valor 225 UI Tiamina 0,087 mg g Riboflavina 0,04 mg 11,75 g Niacina 0,282 mg 2,4 g Ac. Pantotênico 0,25 mg Vitamina B6 0,06 mg Folato 30 mcg M I N E R A I S Vitamina A Cálcio 40 mg Vitamina B12 0 mcg Ferro 0,1 mg Vitamina C 53 mg Magnésio 10 mg Fósforo 14 mg Potássio 181 mg Sódio 0 mg Zinco 0,07 mg Cobre 0,045 mcg Manganês 0,025 mg 0,5 mcg Selênio Fonte: USDA National Nutrient Database for Standard Reference. Leia na íntegra artigos clínicos e experimentais recentes sobre as propriedades da hesperidina. rEFErênciaS [1] Bulfinch T. O Livro de Ouro da Mitologia: Histórias de Deuses e Heróis. Martin Claret, 2006. [2] Corrêa MP. Dicionário das Plantas Úteis do Brasil e das Exóticas Cultivadas. Rio de Janeiro: IBDF, 1975. [3] Dourado GM. Vegetação e quintais da casa brasileira. Paisagem Ambiente: ensaios - n. 19. 2004, pp. 83-102. [4] BBC History. 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Absorption, conjugation and excretion of the flavanones, naringenin and hesperetin from -rhamnosidase-treated orange juice in human subjects. Brit J Nutr, 2010; 103:1602-09. conhecer por_ Juliana Ghelardi fotos_ Eny Miranda Parceria do Programa Nestlé Nutrir Crianças Saudáveis com Instituto Fernanda Keller muda a rotina e o futuro de milhares de crianças de comunidades carentes em Niterói, RJ CORRER, comer, * Os nomes das crianças mencionadas neste artigo foram substítuídos por nomes fictícios. Há um ano, Ana Clara Saldanha, na época com 13 anos, tinha dificuldade para acompanhar as brincadeiras dos amigos, devido ao excesso de peso, que provocava cansaço e falta de ar. Silvia Lins, aos 12 anos, sofria do mesmo problema. Inibida, saía pouco de casa e, durante o recreio da escola, preferia ficar sozinha em um canto a interagir com as outras crianças que se divertiam. Com uma alimentação baseada em “muitas besteiras”, como ela mesma ressalta, Lívia Tolentino, quando tinha 12 anos, pesava apenas 20 kg. E Tiago dos Santos, aos 11 anos, esteve prestes a atingir o nível máximo de normalidade de glicose no sangue. Se ultrapassasse esse nível, ele teria de começar a tomar insulina. Felizmente, não foi necessário. Ana Clara, Silvia, Livia e Tiago são alguns casos das centenas de integrantes do projeto Correndo por um Ideal, uma parceria do Programa Nestlé Nutrir Crianças Saudáveis (veja o box) com o Instituto Fernanda Keller (IFK), em Niterói (RJ), que deu seus primeiros passos em 2008*. Segundo Fernanda — triatleta das mais admiradas no Brasil e no mundo — há 14 anos, a entidade desenvolve e implementa projetos que, além de educar para o esporte, visam à formação do indivíduo como um todo, por meio, por exemplo, de noções de cidadania, entre outros conhecimentos. O projeto Correndo por um Ideal faz parte de uma das ações do IFK e atende entre 400 e 500 crianças de várias comunidades de baixa renda e duas escolas públicas de Niterói, cidade carioca onde a esportista nasceu e pela qual conserva um enorme carinho. “Percebemos que várias das crianças participantes de atividades físicas no Instituto também precisavam de orientação nutricional para ganhar ou perder peso. Daí, a necessidade de ter o apoio de uma empresa de qualidade e engajada em questões sociais e de qualidade de vida como a Nestlé”, expli- conhecer 17 Nestlé: compromisso social vencer ca Fernanda Keller. “E a Nestlé participa ativamente do trabalho. Temos um diálogo frequente, sempre trocando informações e resultados. Como atleta, pretendo passar para a sociedade todos os valores de superação e perseverança que aprendi com a prática do esporte, e o apoio da Nestlé tem sido muito importante para isso”, completa Fernanda, que faz questão de dizer que sua relação com a Nestlé é antiga: ela foi a primeira atleta a ser patrocinada individualmente pela empresa, nos anos 80. Vale lembrar que trabalhos como o de Fernanda são também muito importantes para a Nestlé, pois é graças a eles que os programas desenvolvidos pela Companhia são ampliados e aperfeiçoados. Essa parceria foi uma das que impulsionou a consolidação do Nestlé Nutrir Crianças Saudáveis, um programa desenvolvido em âmbito global pela organização, que tem como objetivo prevenir a obesidade e a desnutrição, a partir da educação nutricional. Dentro de uma abordagem holística, fundamental para o combate da obesidade e da desnutrição, vale a pena destacar, ainda, importantes parcerias locais que Além de oferecer produtos alimentícios de qualidade, a Nestlé se preocupa com o acesso à informação e à nutrição saudável. A Criação de Valor Compartilhado norteia tudo o que a Companhia adota mundialmente como responsabilidade social, com investimentos em diversas áreas. Um dos programas mais representativos é o Nestlé Nutrir, com foco na educação nutricional, em atuação desde 1999. Seu objetivo é ajudar a combater a desnutrição e a obesidade infantil, disseminando o conhecimento por meio da capacitação de professores, merendeiras e nutricionistas de escolas públicas, em parceria com as Secretarias Municipais de Educação. Em 13 anos, o Nutrir capacitou mais de 13,4 mil educadores e alcançou mais de 1,7 milhão de crianças. Além do projeto Correndo por um Ideal, do Instituto Fernanda Keller, outros programas recebem o apoio da Nestlé, como o Instituto Bola pra Frente, no Rio de Janeiro, a Casa do Zezinho, em São Paulo e o Bairro da Juventude, em Criciúma (SC). Assim como acontece com o IFK, há uma triagem para medir o índice de massa corporal para identificar crianças e jovens com excesso de peso ou obesidade e desnutrição. A partir daí, os participantes têm acesso a atividades esportivas, exames, brincadeiras e oficinas de nutrição saudável e higienização de alimentos. o IFK mantém, por exemplo, com o Exército Brasileiro — 21º GAC, o Corpo de Bombeiro Militar — Área IX, a Fundação Municipal de Educação, a Superintendência de Desportos do Estado do RJ — SUDERJ, o Programa Médico de Família da Prefeitura Municipal de Niterói, a Universidade Estácio de Sá e Proteína — Consultoria Nutricional. Triagem fundamental O projeto Correndo por um Ideal abrange as modalidades esportivas do triathlon — natação, ciclismo e corrida — e é voltado para crianças e jovens com idade entre 7 e 18 anos, que também passam por um processo de reeducação alimentar. “A base do IFK é o esporte. Aqui se aprende a nadar, a pedalar e a correr, e também a comer de forma mais saudável. No entanto, ninguém deixa de brincar nem de se divertir”, afirma Fernanda Keller. 18 conhecer Utilizando uma planilha elaborada especialmente para o Instituto Fernanda Keller, uma nutricionista e uma avaliadora física desenvolvem dietas e atividades individualizadas. comer As aulas são gratuitas e acontecem diariamente com turmas no turno da manhã e da tarde. Os alunos recebem merenda e uniforme próprio para o esporte que praticam. Para participar, as crianças das comunidades se submetem a uma triagem bem minuciosa coordenada por Carla Pires Bogea, nutricionista da entidade. “O primeiro passo é avaliar estatura, peso, índice de massa corporal (IMC) e a curva de crescimento, segundo padrões da Organização Mundial de Saúde, de cada criança”, conta a especialista. A partir daí, é possível identificar dois tipos de casos extremos: os de excesso de peso ou obesidade e os de desnutrição, quadro apresentado por Lívia, a garota que, no início desta reportagem, admitiu que se alimentava mal. “A etapa seguinte é enviar uma carta para os pais, avisando sobre o diagnóstico e o trabalho que pretendemos desenvolver com o filho. E, assim que a criança ou o jovem decide participar, iniciamos o processo”, diz Carla. Com a ajuda de uma planilha elaborada especialmente para o Instituto Fernanda Keller, Carla e uma avaliadora física desenvolvem dietas individualizadas e atividades esportivas para cada participante. “Seja para gastar mais calorias ou diminuir o consumo energético, nosso objetivo é sempre estimular a alimentação saudável”, avisa a nutricionista. É feita uma avaliação, a cada dois meses, para checar os resultados. O tempo de permanência nas atividades do projeto dura cerca de um ano, mas esse período pode se estender, conforme a necessidade de cada criança. Desde o início do apoio da Nestlé, cerca de 1,4 mil crianças e adultos — as famílias estão incluídas no programa por seu papel na alimentação saudável das crianças — foram atendidos pela parceria. “Nossa intenção, agora, é investir no trabalho dentro da comunidade e continuar a mostrar a importância de hábitos saudáveis, para que, tanto os jovens, quanto seus pais, possam compartilhar os valores que aprenderam no projeto Correndo por um Ideal”, destaca a idealizadora Fernanda. Experiências saborosas Uma das metas do programa é fazer com que as crianças levem os novos hábitos alimentares para a vida toda, em vez de comer de forma equilibrada somente quando estão no IFK ou durante o tempo de permanência no projeto. Para que isso aconteça, a nutricionista Carla ressalta que as mudanças vão sendo realizadas aos poucos, para que as crianças se habituem devagar ao consumo regular de legumes, verduras e frutas. “Procuro montar cardápios bem variados, com sugestões de equivalentes nutricionais, para evitar a monotonia”, conta. Antes de integrarem o Correndo por um Ideal, muitos sequer sabiam a aparência de determinados alimentos — não conseguiam diferenciar um pepino de um chuchu, por exemplo. Ao provar novos sabores, a maioria se sente motivada a experimentar coisas diferentes — e aprendem a preparar sopas, sucos e saladas saborosos e nutritivos. conhecer Fernanda Keller: trajetória campeã Aos 49 anos, a carioca Fernanda Keller é o maior nome do triathlon brasileiro de todos os tempos. Formada em Educação Física, ela é a única atleta do mundo que disputou e completou todas as provas do Ironman do Havaí, considerada a mais difícil competição de triathlon. Para se ter uma ideia, são 3,8 km de natação, 180 km de ciclismo e 42 km de corrida, totalizando quase 10 horas de esforço contínuo. Fernanda participou das provas durante 22 anos consecutivos e as concluiu 14 vezes entre as 10 melhores atletas. Por aqui, foi cinco vezes campeã do Ironman Brasil. Desde 1998, ela coordena o Instituto Fernanda Keller, em Niterói, entidade sem fins lucrativos, com atividades que já beneficiaram cerca de 6 mil crianças e jovens da população de baixa renda. “Em 2013, completo 30 anos de carreira. Tenho muito orgulho da minha trajetória, 19 sou muito grata a tudo o que conquistei, por isso quis dividir os frutos com as comunidades menos favorecidas da cidade em que nasci”, conta a atleta. Além do projeto Correndo por um Ideal, o IFK mantém uma escola de triathlon e o projeto Competir, com alunos entre 13 e 24 anos que optaram por aprofundar-se no esporte, treinando todos os dias da semana. “Muitos participantes desse grupo também participam do Projeto Universidade Já, que tem parceria com a Universidade Estácio de Sá, e estão cursando várias faculdades como psicologia, engenharia, educação física ou administração. Eles têm que nos representar, e também à Universidade, até o término do curso”, explica Priscilla Accorsi Voss, coordenadora pedagógica e gerente de projetos do Instituto Fernanda Keller, que diz, ainda, que dois desses alunos já se formaram e, hoje, integram o quadro de professores do IFK. A entidade dispõe também de atividades relacionadas ao meio ambiente, à culinária sustentável e até às artes. Por conta de sua rotina intensa, com palestras e presença em eventos por todo o Brasil, Fernanda Keller não comparece todos os dias no Instituto. “Conto com a Priscilla e com minha mãe, Terezinha, que é meu braço direito. Elas coordenam tudo e sempre me mantêm a par dos acontecimentos. Sempre que posso, porém, tento acompanhar as atividades e conversar com as crianças”, diz a triatleta, que vive em busca de novas ideias e parcerias. No segundo semestre, por exemplo, pretende colocar em prática outro sonho antigo: o lançamento de uma grife de roupas esportivas que leva o seu nome. 20 conhecer Associada à alimentação equilibrada, a prática regular de esportes traz uma lista imensa de benefícios para o desenvolvimento infantil. vencer Uma das experiências mais recentes (e ricas) do IFK relacionadas à educação nutricional acontece na Escola Maria Angela de Educação Infantil e Fundamental, em Niterói. Ali, os alunos participam de várias ações como, por exemplo, a feira de sabores, em que as crianças recebem dinheiro simbólico e vão à “feira” acompanhadas das professoras, nutricionistas, merendeiras e equipe do Instituto, para “comprar” alimentos. Depois, na sala de aula, aprendem sobre os grupos de alimentos e a importância da alimentação variada. Na sequência, acompanham as merendeiras da escola na preparação do almoço com os produtos que “compraram” e, por fim, almoçam a comida feita ali. Associada à alimentação correta, a prática regular do esporte traz uma lista imensa de benefícios: sensação de bem-estar, consciência corporal, fôlego, sono de melhor qualidade, maior concentração, elevação da autoestima etc. E Fernanda Keller e sua equipe têm consciência da importância do projeto para a formação de seus participantes como pessoas. “Essas crianças passam a acreditar mais nelas mesmas e em seu próprio futuro. Aqui mostramos, na prática, que com disciplina, garra e determinação se chega aonde se quer e que vale a pena lutar por aquilo que você acredita”, declara a triatleta, emocionada. “No Instituto também ensinamos que apostar no conhecimento e no respeito pode garantir uma perspectiva melhor de vida.” Fernanda se sente gratificada ao ver, na instituição — que desde os tempos de atleta sonhou em ter o sorriso das crianças — as palavras de incentivo e estímulo que umas trocam com as outras. Em tempos de violência e casos chocantes de bullying nas escolas, não é exagero dizer que o trabalho da triatleta ultrapassa a esfera da comunidade — é uma ação voltada, sem dúvida alguma, para um Brasil mais digno e melhor de se viver. “Eu trabalho pela inclusão social através do esporte. Acredito que o esporte muda a vida das pessoas e, por isso, deve ser acessível”, salienta Fernanda que, quando anda pelas ruas de Niterói, volta e meia é abordada por algum pai ou mãe que faz questão de cumprimentá-la pela iniciativa — e, na maior parte das vezes, contar que o filho participou dos programas do Instituto e que isso fez toda a diferença na vida dele. Hoje, os garotos apresentados no início da reportagem têm histórias de sucesso para contar. Aos 14 anos, Ana Clara Saldanha já foi liberada do programa e, além de colher os frutos, busca compartilhar tudo o que aprendeu. Lívia, que completou 13 anos, superou o quadro de desnutrição e conseguiu aumentar 12 kg na balança, mas ainda necessita de cuidados e acompanhamento específicos, assim como Silvia. Tiago, aos 12 anos, continua participando assiduamente das atividades do projeto Correndo por um Ideal, nas quais teve a oportunidade de fazer muitos amigos. E diz, sem se dar conta da sabedoria e riqueza implícitas em suas palavras: “Agora, eu gosto mais de comer tomate. Corto, coloco azeite e sal e pronto!”. Exemplos de que, com jeito, disponibilidade para experimentar e pequenas — porém poderosas — adaptações é possível, sim, modificar antigos hábitos e ganhar ainda mais qualidade de vida. Para vidas que estão apenas começando, então, os ganhos são incomensuráveis. Nutrição baseada em evidência: utilidade e limitações É fácil constatar no planeta que não há vida sem nutrição, nem nutrição sem vida. Vida e nutrição são fenômenos, portanto, imanentes. A nutrição é um processo cujos organismos vivos, utilizando-se de alimentos, assimilam nutrientes para a realização e manutenção de suas funções. Decorre daí que a Nutrição é um vasto campo de estudo e sua compreensão permite estratégias eficazes de manutenção da higidez dos organismos e prevenção de doenças, isso em todas as espécies. A visão das doenças humanas, sob a ótica da teoria das espécies, oferece novas perspectivas científicas de entendimento[1]. Interessa-nos, no presente artigo, a abordagem científica dessa relação estreita entre a saúde humana (ou ausência dessa) e a nutrição. Para cada enfermidade, existe terapia nutricional específica e adequada. O nutricionista emprega critérios clínicos em nível ambulatorial ou hospitalar na prevenção e no tratamento de doenças. Pacientes necessitam de acompanhamento nutricional rigoroso para melhorar a remissão do quadro de suas enfermidades. Segundo Mann, 2010, o papel já largamente aceito da nutrição na prevenção e no tratamento de doenças crônicas exige uma abordagem normatizada, baseada em provas científicas [2]. A Nutrição Baseada em Evidências (NBE) é fundamentada nos mesmos pressupostos da Medicina Baseada em Evidências, na qual a prática clínica está intimamente associada à pesquisa científica, às provas científicas[3]. Por conseguinte, a NBE, para formar seu corpo de conhecimentos, adota técnicas de meta-análises, análises de risco-benefício, estudos controlados, experimentais, clínicos randomizados e epidemiológicos. Na prática, aplicar a NBE significa atuar como um pesquisador, buscar à luz da literatura científica, interpretar e aplicar os resultados dos estudos científicos aos problemas clínicos individuais de seus pacientes. Imperiosas são as evidências científicas atualizadas, tratadas sob a luz da ética profissional, respeitando direitos e preferências do paciente, para possíveis aplicações de seus resultados na prática. A NBE contribui para a tomada de decisões na solução de enfermidades, ou seja, na empregabilidade de modalidades terapêuticas, baseando-se em pesquisas metodologicamente rigorosas. O processo da NBE passa pela formulação da pergunta condutora, de maneira clara e precisa, a partir do problema clínico, pela busca na literatura de artigos clínicos pertinentes e apropriados sobre o problema, pela avaliação crítica da validade e da utilidade dos resultados encontrados e pela implementação dos resultados da avaliação na prática clínica visando ao tratamento personalizado dos pacientes. A NBE é uma ferramenta útil para o desenvolvimento de recomendações e diretrizes clínicas, bem como para identificar o estado atual da nutrição humana, incluindo as lacunas de conhecimento e a necessidade de mais estudos sobre determinados temas. Muitos profissionais da saúde já se baseiam em evidências científicas em suas práticas cotidianas. Todavia, essas evidências são, por vezes, limitadas em muitas áreas do conhecimento em nutrição. Assim, alguns argumentam que a “falta de evidência de benefícios” e “falta de benefícios” de um procedimento terapêutico são conceitos distintos. Outrossim, outros apontam, por exemplo, a complexidade das ações dos nutrientes, que nem sempre podem ser detectadas e reveladas através de estudos clínicos randomizados. A prática da NBE, contudo, tem cada vez mais efetividade e sucesso, sugerindo diretrizes sólidas para a orientação do nutricionista no tratamento dos pacientes. Enfim, é inadmissível nos dias atuais que o profissional de saúde, mesmo com grande experiência e autoridade, realize qualquer procedimento terapêutico sobre um paciente, sem tentar fundamentá-lo em estudos científicos. ponto de vista Dr. Raul Manhães de Castro Doutor em Ciências da Vida pela Université de Paris VI (Pierre et Marie Curie). Professor dos Programas de Pós-graduação em Nutrição e de Neuropsiquiatria e Ciências do Comportamento da Universidade Federal de Pernambuco. Coordenador do Programa de Pósgraduação em Nutrição da UFPE. Membro da Academia Pernambucana de Ciências. Dra. Carol Virgínia Gois Leandro Doutora em Ciências do Desporto pela Universidade do Porto. Professora do Programa de Pós-graduação em Nutrição (nível 5 da Universidade Federal de Pernambuco). [1] Gluckman PD et al. Early life events and their consequences for later disease: a life history and evolutionary perspective. Am J Hum Biol. 2007 Jan-Feb;19(1):1-19. [2] Mann JI. Evidence-based nutrition: Does it differ from evidence-based medicine? Ann Med. 2010 Oct;42(7):47586. [3] Projeto Diretrizes, volume IX / [coordenação do Projeto Fabio Biscegli Jatene, Wandeley Marques Bernardo] – São Paulo: Associação Médica Brasileira Brasília, DF: Conselho Federal de Medicina, 2011. nutrição e cultura por_ Teodoro Ferrer Banquete postal Selos ilustram comidas típicas dos países e provocam água na boca de quem recebe as cartas É tão raro receber uma carta em tempos de e-mail, SMS e hiperconectividade nos telefones celulares mais modernos, que talvez seja difícil prestar atenção ao selo, aquele quadradinho colorido no canto dos envelopes de correspondência. Todos sabem que ele serve para fazer a carta chegar a seu destino, mas, a não ser que remetente ou destinatário sejam fanáticos ardorosos da filatelia, não é tão comum se dar conta da enorme variedade de temas que possam adornar um selo. Aqueles mais famintos, interessados ou não em estudos filatélicos — a ciência dos selos —, já devem ter notado, no entanto, que selos com ilustrações de comidas, de pratos típicos a ingredientes-chave na culinária do país de origem do selo, viajam com especial de selos postais. De suas 15 propostas, três foram escolhidas e tiveram grande aceitação no país, esgotando-se em pouco tempo. Além do bolo de milho, nos outros dois selos criados por Graça, há um prato de quiabo com camarão e coco e caranguejo também com camarão e coco. Não muito longe dali, Angola, outro país lusófono da África, lançou uma série de selos com pratos famosos do país, como receitas de ensopados e pratos mais elaborados com peixe, frango e uma grande variedade de verduras. No mesmo espírito, o Peru circulou selos postais com as comidas mais típicas do país em exemplares bastante patrióticos. Um deles traz em primeiro plano um copo do tradicional drinque pisco sour, numa cave com iluminação dramática, ao lado da inscrição: “O pisco é do Peru”. Na mesma série das comidas do Peru, um selo mostra um prato apetitoso de ceviche, a tradicional receita peruana de peixe cru temperado com coentro, enquanto um terceiro selo celebra a chicha de maiz morado, uma espécie de groselha local feita à base de milho roxo, apresentado no selo como refresco nacional. A França, com uma das tradições gastronômicas mais reverenciadas do planeta, não ficaria de fora desse banquete filatélico. IgorGolovniov/Shutterstock.com fartura por aí. Se o assunto da carta é o relato de uma experiência gastronômica ímpar, talvez a escolha do selo venha ainda mais a calhar, mas é curioso que haja selos celebrando de tudo, de um tradicional café da manhã mineiro a verduras e legumes crus. Mesmo às vésperas de suas tumultuadas eleições presidenciais, o México, por exemplo, acabou de lançar, em parceria com o Brasil, dois selos comemorativos de comidas típicas dos dois países. Diplomatas brasileiros não se deixaram afogar na agenda intensa de encontros da Rio+20 e negociaram com mexicanos a criação de selos editados em conjunto. Estão estampados, do lado brasileiro, com um café da manhã bem tradicional e, do lado de lá, com um prato clássico da cozinha mexicana. Com a inscrição “comida tradicional”, o selo brasileiro mostra espigas de milho e uma raiz de mandioca, além de comidas feitas com essas plantas, como broa, bolo de milho, pamonha, bolo de mandioca, pão de queijo e tapioca. No selo dos mexicanos, está o pozole, prato típico do país vizinho dos Estados Unidos, uma espécie de sopa ou guisado à base de milho com carne e caldo de porco e temperos. Além do prato de origem pré-colombiana, está também um copo do tradicional suco à base de hibisco, refresco que os mexicanos chamam de jamaica. Um bolo de milho também aparece numa série de selos sobre a gastronomia tradicional de Moçambique. No país africano, o chef local Marcos Graça foi encarregado pelos correios moçambicanos de ilustrar uma série 23 Yangchao/Shutterstock.com nutrição e cultura 24 nutrição e cultura Neftali / Shutterstock.com Alguns anos atrás, os tchecos também decidiram colocar o prato preferido do país num selo postal. A simpática ilustração, em estilo de cartum, mostra um frango assado rodeado por batatas e o tradicional knedliky, uma espécie de pão feito de farinha de trigo ou batata, que é cozido, fatiado e servido quente como acompanhamento à carne assada. A bebida, longe do refresco de hibisco dos mexicanos ou do cafezinho brasileiro, é um canecão de cerveja, a escolha mais celebrada da República Tcheca. Não por acaso, o país tem o maior consumo per capita de cerveja no mundo. Nos mercados da República Tcheca, é possível encontrar até 470 tipos da bebida, todos fabricados em território nacional. A França, com uma das tradições gastronômicas mais reverenciadas do planeta, não ficaria de fora desse banquete filatélico. Em selos que circulam somente em território francês, quase todos os pratos típicos do país já foram retratados em algum momento. São todas ilustrações em tons quentes de todo tipo de comida que faz a alegria dos franceses, como quenelles, os bolinhos empanados e temperados de carne, frango ou peixe, escalopes de vitela da Normandia, maroilles, o tradicional queijo inventado nas abadias do norte da França, clafoutis, a torta de cerejas negras, servida ainda fumegante, lagostas da Bretanha, peixe na manteiga branca, chaource, o queijo da região de Champanhe, damascos com mel, tian, uma espécie de lasanha de vegetais, e o Paris-Brest, docinho redondo inventado para comemorar a famosa rota de bicicleta entre Paris e Brest, no final do século 19. Na Croácia, os polvos — antes considerados uma comida das classes mais baixas — também ganharam um selo próprio. À beira do mar Adriático, a Croácia também exaltou seus frutos do mar em selos postais. Um deles mostra o famoso caranguejo-aranha, um crustáceo que cozinheiros locais comparam com um cavaleiro medieval em armadura. Em formato de coração, ele tem uma carapaça duríssima e cheia de espinhos e pelos, além de duas enormes pinças — é tão difícil de comer que seu sabor acabou se tornando supercelebrado. Ostras locais, que só vivem no mar croata e na costa marroquina, consideradas espécie raríssima no mundo, também são comemoradas em selos, já que atingem pleno e marcante sabor num período curtíssimo de tempo, na transição do inverno para a primavera. Polvos, antes considerados uma comida das classes mais baixas, também ganharam um selo próprio depois que o prato conquistou um lugar no pódio das principais comidas nacionais. Na Croácia, o modo perfeito de preparo do polvo indica que ele deve ser martelado sobre pedra 99 vezes para garantir a maciez da carne. Em 2004, a Indonésia, na mesma direção, lançou uma série de sete selos comemorativos de pratos típicos do país. Mas em vez da ilustração fofa dos tchecos ou das fotografias dramáticas dos peruanos, os pratos do país asiático surgem em imagens bem convencionais, sem muita graça. São quase selos protocolares, 25 para constar que ali se conhece e se valoriza a tradição gastronômica local. Entre os pratos, estão a lagosta da região de Sulawesi, preparada com leite de coco, além de iguarias sem tradução muito simples para línguas ocidentais, como o gulai iga kemba’ang, costelas de carneiro ao molho curry, típico da região de Bengkulu, e lapis palaro, ensopado de camarão com molho doce de tamarindo, da região de Maluku. Outros pratos da série são o ayam cincane, frango apimentado, asam padeh padeh baung, peixe frito ao molho de tamarindo, e lempah kuning, peixe ao molho curry. Alimentos isolados, fora de refeições típicas, também tiveram seus tempos de glória em selos nacionais. No caso, variam entre a mera celebração de uma planta, fruta ou ingrediente e tentativas de valorizar a produção de um segmento agrícola específico. Ou seja, algumas foram iniciativas filatélicas para turbinar setores da economia, uma política de Estado que resultava em cartas circulando por aí, portando ramalhetes de trigo no selo ou uma singela banana. Isso sem contar selos comemorando guaraná, milho, cebola, soja, laranjas, mel, abacaxis, melancias, mamões, arroz, cajus e providenciais mandiocas. Só a banana, fruta símbolo por excelência de um país tropical como o Brasil, já foi tema de três emissões postais distintas, em dois anos seguidos no final da década de 1990 e também em 2000. Trabalhadores da colheita de banana, uva e café também foram tema de selos específicos, exaltando não só o sabor desses alimentos, mas também o poder que tiveram na mobilização econômica do país. Outros trabalhadores, como os Antonio Abrignani / Shutterstock.com Alexsol/Shutterstock.com AlexanderZam/Shutterstock.com nutrição e cultura da colheita da cana-de-açúcar ou mesmo vendedores de coco, já apareceram em selos. Além da esfera de hortaliças, plantas e afins, pescadores e peixes também já figuraram em selos brasileiros. Fora do Brasil, selos comemorativos ilustrados com frutas e verduras também fizeram parte de campanhas de educação alimentar, acreditando no poder sutil dessas imagens circulando em cartas. Com base num estudo científico que sugeria o consumo de seis porções diárias de determinados alimentos, como banana, maçã, morango, batata, couve-flor, alho, cebola, pêssego, rabanete e ervilha, o governo da Nova Zelândia lançou uma série de selos estampados com essas comidas. Batizada “Vida Saudável”, a série, que circulou há dez anos, pretendia melhorar os hábitos alimentares entre crianças daquele país insular. Difícil é medir o impacto que essas ilustrações bem comportadas, de cestos de frutas retratados com muito esmero, pudessem ter entre infantes, que estão longe de ser o alvo habitual de lançamentos filatélicos. Talvez mais eficaz e direto ao ponto tenha sido um selo emitido em Gana. No país africano, com sérios problemas de segurança alimentar e subnutrição infantil, circulou um selo com ninguém mesmo que Popeye, o herói dos desenhos animados. Na ilustração, que em nada lembra Gana, o marinheiro mais famoso entre as crianças aparece em viagem a Amsterdã empunhando sua tradicional latinha de espinafre e engolindo tudo com voracidade. Se alguma carta chegou com Popeye, o encanto ou impacto deve ter sido maior do que entre baixinhos neozelandeses com seus cestos de frutas. Os Estados Unidos fizeram circular um selo que mostrava soldados da Marinha sendo alimentados com a inscrição “temos mais do que precisamos para comer”. 26 nutrição e cultura Nem sempre, no entanto, o assunto do selo com temática gastronômica é a exaltação ou promoção de uma fruta ou prato nacional qualquer. Esse tipo de selo, em alguns casos, já serviu de testemunho histórico da condição de remetentes vivendo estados de exceção. Numa das muitas guerras que travaram ao longo do século 20, os Estados Unidos fizeram circular um selo que mostrava soldados da Marinha sendo alimentados com a inscrição “temos mais do que precisamos para comer”. Outro cartum, em estilo de tirinha de jornal, o selo que mostra um soldado recusando um bife servido por um colega de uniforme era uma forma de tranquilizar familiares em casa com relação ao tratamento que os soldados recebiam durante a guerra. Também nos Estados Unidos, um selo chegou a circular com dizeres como “comida para paz”, um manifesto contra a fome que chegou a castigar regiões do país durante a Grande Depressão, na virada da década de 1920 para 1930. Mas, antes de qualquer tipo de comida e outros temas mais mundanos, vale lembrar que selos postais, pelo valor de face e por franquear uma correspondência para que chegasse com segurança a seu destino, começaram homenageando figuras régias, autoridades e outros nomes de grande importância social. Surgido no Reino Unido, o primeiro selo da história dos correios no planeta, aliás, trazia nada menos que o rosto da rainha Vitória, selo único que viajou afixado em cartas do país por 60 anos, o famoso penny black. Criado em 1840, o penny black, desenhado por Rowland Hill, é considerado o pioneiro dos selos na história da filatelia e seus exemplares são ainda cobiçadíssimos por colecionadores. Do outro lado do Atlântico, o Brasil foi o primeiro país das Américas a fazer circular selos postais, começando três anos depois, em 1843. Mas o imperador dom Pedro II não quis saber de ter o rosto carimbado por funcionários dos Correios e decidiu que os primeiros selos, conhecidos como olho de boi, tivessem uma estampa nada excitante. Valendo 30, 60 e 90 réis, as três versões dos olhos de boi traziam estampados só o valor de face, algo direto ao ponto, que dizia quanto o remetente pagou e que determinava a distância que sua correspondência viajaria, além da rapidez com que percorreria esse caminho. Talvez por vaidade, dom Pedro II acabou cedendo o próprio rosto, para uma série de selos criada 20 anos depois, em que o monarca aparecia, com sua grande barba, no selo de cem réis, em tom esverdeado, e 500 réis, alaranjado. Com a introdução da cor, os olhos de boi ganharam o simpático apelido de olhos de gato, tendo versões também em vermelho, azul e violeta, entre outros. Claro que com maior ousadia cromática, dom Pedro II e sua barba deixaram de ser tema único nas estampas dos selos nacionais. Logo vieram cenas históricas, como a Primeira Missa dos jesuítas na conversão dos índios e alegorias da República, imagens que sustentavam um novo país que se afirmava. No Brasil, o selo mais popular da história, no entanto, não foi um imperador nem um personagem político. Estampando o rosto do cardeal Eugenio Maria Giuseppe Giovanni Pacelli, o apoiador de Adolf Hiltler que veio a se tornar o papa Pio XII, o selo lançado em 1934, ano da passagem do pontífice pelo Brasil, virou coqueluche entre maníacos da filatelia, sendo obrigatório em qualquer coleção que se preze. Só não se sabe ao certo quando o primeiro selo com tema gastronômico ganhou a primeira caixa de correio. Neftali / Shutterstock.com Peruanos, moçambicanos, brasileiros, mexicanos, tchecos, todos já dedicaram selos nacionais a pratos servidos no dia a dia de sua gastronomia. Outro site permite encomendar uma série de selos, ideais para convidar para festas infantis, estampados com bolos, doces e os adorados cupcakes, pequenos bolinhos com espessa cobertura de creme de todos os sabores imagináveis. Cada desenho vem acompanhado de frases de efeito como “eu amo cupcakes”, “cupcakes o tempo todo”, “delícia” e interjeições afins. No fim das contas, todos esses selos refletem a relação de cada cultura com a comida. Enquanto norte-americanos assumem que gostam de junk food e não hesitam em se retratarem como glutões desajeitados, em selos cheios de hambúrgueres e churrascos, os franceses mantêm a pompa em pratos tradicionalíssimos e rebuscados. Peruanos, moçambicanos, brasileiros, mexicanos, tchecos, todos já dedicaram selos nacionais a pratos servidos no dia a dia de sua gastronomia. Sem contar as inúmeras tentativas de promover algum tipo de alimento em detrimento de outro, campanhas pelo consumo saudável ou o aumento do uso de determinado ingrediente. Selos nas cartas que chegam e muitas vezes se acumulam sobre a mesa da cozinha ou de jantar podem ser tão corriqueiros ou tão especiais quanto o ato de comer. Quem sabe cozinheiras e cozinheiros mundo afora já não se inspiraram em fazer um prato diferente com a chegada de um selo ou aprenderam sobre a existência de alguma comida exótica ao apanhar na caixa de correio uma carta com um desses afixados na extremidade. Na era da globalização e do encurtamento das distâncias, é algo sem dúvida capaz de acontecer. Nessas horas, é bom pensar no vaivém das correspondências com a mesma água na boca que costuma acompanhar a hora de cada refeição. rook76 / Shutterstock.com Mesmo que pareça trivial, não é qualquer coisa que pode aparecer num selo postal. Pelo menos no Brasil, um longo processo burocrático separa uma ideia simpática de sua realização plena como desenho de um selo que vá circular. No caso, é uma comissão filatélica no Ministério das Comunicações que pode pleitear a criação de um selo comemorativo. Só depois de aprovado no governo é que esse selo pode ser criado, sendo a decisão publicada no “Diário Oficial da União”. Ou seja, até selos que homenageiam diferentes espécies de frutas, verduras ou pratos típicos dependem desse ritual um tanto solene para conseguirem existir. Já nos Estados Unidos, com leis bem mais flexíveis a esse respeito, a coisa é mais simples. Há até sites na internet que permitem encomendar selos com o desenho desejado. Os pedidos com maior saída no Zazzle.com, um desses sites, são selos no valor de US$ 0,45 estampados com hambúrgueres salsichas e linguiças (e toda a parafernália de cozinha necessária para fritá-los), cupcakes de chocolate, bolos de casamento, bolinhos de arroz e cozinheiros fofos fazendo churrasco — o tradicional BBQ do Dia da Independência norte-americana comemorado no verão. Em tom humorístico, alguns desses selos mostram personagens em apuros com acidentes domésticos, como churrasqueiras em chamas ou frituras que perderam o controle. Mais sóbrios, os selos com garrafas de vinho, frutas e queijos também estão disponíveis, talvez com apelo maior entre a clientela mais sofisticada. 27 Neftali / Shutterstock.com nutrição e cultura qualidade Alimentos fortificados para a ingestão recomendada de cálcio qualidade 29 A literatura científica oferece amplo conhecimento sobre a importância do cálcio para as diversas funções biológicas e seu envolvimento na saúde óssea. Nesse sentido, a ingestão adequada do mineral está associada à prevenção da osteoporose — patologia diretamente relacionada a perdas significativas na qualidade de vida e ao risco alto de mortalidade [1]. Previsões afirmam que, em um futuro bem próximo, os impactos econômicos e de saúde da osteoporose no mundo serão extraordinários, devido à alta prevalência de inadequação da ingestão de cálcio e de outros nutrientes que interferem na saúde óssea [2]. As melhores fontes dietéticas de cálcio são leite, queijo e iogurte, sendo que, sem eles, dificilmente se consegue atender às recomendações diárias deste mineral, quando comparado a outros alimentos, como os vegetais verdes-escuros [3,4]. Os trabalhos na área de biodisponibilidade têm demonstrado que alguns nutrientes podem interagir, quando ingeridos de forma concomitante. Essas interações podem ser tanto positivas como negativas, ou seja, podem facilitar a absorção e utilização das substâncias ou prejudicá-las. No caso específico do cálcio, trabalhos realizados na década de 1990 levaram os pesquisadores a acreditar que a ingestão do mineral em valores superiores às DRIs (Dietary Reference Intakes) poderia prejudicar a biodisponibilidade do ferro. O fato levou os profissionais a orientarem a suplementação de cálcio, quando necessária, nos intervalos das refeições principais, momentos em que ocorre grande parte do consumo de alimentos fontes de ferro [4]. Entretanto, estudos mais recentes têm demonstrado resultados diferentes, apontando para muito pouca ou nenhuma interação entre cálcio e ferro. A divergência de conclusões surge a partir do aperfeiçoamento das metodologias, pois os primeiros estudos avaliavam refeições únicas e as pesquisas mais recentes consideram a análise em longo prazo. As investigações atuais incluem crianças e adultos nas observações [4]. A dieta brasileira usual apresenta deficiência de cálcio, sendo que a carência de micronutrientes, de modo geral, afeta cerca de dois milhões de pessoas. De acordo com estimativas, a prevalência de desnutrição no Brasil seguirá com índices altos até o ano de 2020 [5]. A determinação do consumo de minerais em dietas brasileiras, realizada por meio de análise laboratorial dos componentes de alimentos e preparações comuns em diferentes regiões do País, mostra que a ingestão de cálcio se mantém entre 300 mg e 500 mg por dia. As recomendações atuais são de, aproximadamente, 1.000 mg por dia, para a população adulta e crianças a partir de 4 anos. Para adolescentes, incluindo gestantes, a recomendação chega a 1.300 mg por dia [1]. A ingestão adequada de vitamina D é fundamental para que o cálcio seja absorvido e incorporado aos ossos. A Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2008-2009 revelou que os brasileiros estão ingerindo quantidade muito abaixo das recomendadas para o micronutriente. O estudo constatou inadequação acima de 99% entre homens e mulheres com mais de 19 anos. Entre crianças e adolescentes, o quadro foi semelhante, apresentando inadequação de 99,4% entre meninos de 10 a 18 anos e de 99% e 98,8% entre meninas de 10 a 13 anos e de 14 a 18 anos respectivamente [6]. Os valores são similares aos encontrados em populações da Europa e Estados Unidos e podem ser facilmente justificados, já que as fontes alimentares de vitamina D são restritas, assim como a exposição ao sol (os raios ultravioletas são fundamentais para que a vitamina D se torne ativa e exerça suas funções) [1,7]. Outro estudo, realizado por pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), publicado no periódico Clinical Nutrition, reforçou os dados da POF e afirmou que o brasileiro sofre carência de vitamina D, mesmo vivendo em um país tropical, com luz solar em abundância [7]. 30 qualidade Pensando nisso, a Nestlé firmou uma parceria mundial com a International Osteoporosis Foundation (IOF), organização que atua na prevenção e combate à osteoporose por meio de uma série de ações que incluem pesquisas, treinamentos, elaboração de diretrizes e outras atividades em nível global. A parceria inclui a criação do selo Ame seus Ossos, Ossos que facilitará a identificação de produtos fontes de nutrientes relacionados ao metabolismo ósseo. Existe consenso de que a fortificação dos alimentos pode contribuir para a ingestão recomendada de cálcio, assim como de ferro e outros nutrientes essenciais. Dentre as vantagens da fortificação, destacam-se a alta cobertura populacional, a não modificação dos hábitos alimentares e o baixo risco de toxicidade. Segundo o Banco Mundial (World Bank Group), nenhuma outra tecnologia oferece tão ampla opor- tunidade para melhorar o estado nutricional dos indivíduos a um custo tão baixo e em tão pouco espaço de tempo [8]. A biodisponibilidade das formas de cálcio utilizadas para suplementos e fortificação de alimentos depende da forma química do composto, da solubilidade e do pH do meio. O componente mais utilizado é o carbonato de cálcio, devido, principalmente, ao teor disponível do mineral, que é superior ao de outros produtos. De modo geral, a biodisponibilidade do cálcio dos alimentos e dos compostos utilizados para fortificação é semelhante, variando entre 30% e 40% [4,9]. A Nestlé oferece uma diversidade de produtos fortificados com cálcio, que contribuem para a ingestão adequada do mineral em diferentes momentos do dia. Saiba mais detalhes sobre a parceria mundial da Nestlé com o International Osteoporosis Foundation (IOF). MOLICO® TotalCálcio A primeira linha de produtos que garante a ingestão de 100% das recomendações diárias de cálcio em apenas 2 porções*. * 1 porção equivale a 20 g (2 colheres de sopa) de Molico TotalCálcio Leite em Pó Desnatado ou 1 unidade (170 g) de Molico TotalCálcio Iogurte Líquido ou 1 unidade (100 g) de Molico TotalCálcio Frutas Vermelhas Pedaços, por exemplo. Todos os produtos da linha MOLICO® TotalCálcio: • São ricos em cálcio e vitamina D • São desnatados • Não têm adição de açúcares Agora, a linha conta também com MOLICO® TotalCálcio com Ação Probiótica, que auxilia no equilíbrio da flora intestinal. Nota importante: O aleitamento materno é a melhor opção para a alimentação do lactente proporcionando não somente benefícios nutricionais e de proteção, como também afetivos. É fundamental que a gestante e a nutriz tenham uma alimentação equilibrada durante a gestação e amamentação. O aleitamento materno deve ser exclusivo até o sexto mês e a partir desse momento deve-se iniciar a alimentação complementar mantendo o aleitamento materno até os 2 anos de idade ou mais. O uso de mamadeiras, bicos e chupetas deve ser desencorajado, pois pode prejudicar o aleitamento materno e dificultar o retorno à amamentação. No caso de utilização de outros alimentos ou substitutos de leite materno, devem-se seguir rigorosamente as instruções de preparo para garantir a adequada higienização de utensílios e objetos utilizados pelo lactente, para evitar prejuízos à saúde. A mãe deve estar ciente das implicações econômicas e sociais do não aleitamento ao seio. Para uma alimentação exclusiva com mamadeira será necessária mais de uma lata de produto por semana, aumentando os custos no orçamento familiar. Deve-se lembrar à mãe que o leite materno não é somente o melhor, mas também o mais econômico alimento para o bebê. A saúde do lactente pode ser prejudicada quando alimentos artificiais são utilizados desnecessária ou inadequadamente. É importante que a família tenha uma alimentação equilibrada e que, no momento da introdução de alimentos complementares na dieta da criança ou lactente, respeitem-se os hábitos culturais e que a criança seja orientada a ter escolhas alimentares saudáveis. Em conformidade com a Lei 11.265/06; Resolução ANVISA n° 222/02; OMS - Código Internacional de Comercialização de Substitutos do Leite Materno (Resolução WHA 34:22, maio de 1981); e Portaria M.S. n° 2.051 de 08 de novembro de 2001. rEFErênciaS [1] Institute of Medicine. Dietary Reference Intakes for Calcium and Vitamin D. Report Brief. Washington: IOM, 2010. [2] Morais GQ, Burgos MGPA. Impacto dos nutrientes na saúde óssea: novas tendências. Rev. Bras. Ortop. 2007;42(7):189-94. [3] Philippi ST. Pirâmide dos alimentos: fundamentos básicos da nutrição. Barueri, São Paulo: Manole, 2008. [4] Cozzolino SMF. Parecer Técnico: interação cálcio e ferro. Nestlé Brasil, 2012. [5] Cozzolino SMF. Deficiências de minerais. Estud. Av. 2007; v.21, n.60, p.119-126. [6] Instituto brasileiro de geografia e estatística (IBGE). Pesquisa de orçamentos familiares, 2008-2009 (POF): análise do consumo alimentar no Brasil. Rio de Janeiro, 2011. [7] Unger et al. Vitamin D status in a sunny country: Where has the sun gone? Clinical Nutrition, 2010; 29 (6), p.784-788. [8] Llanos MFE. Fome Oculta: A palavra da Professora Dra. Andréa Ramalho. Revista Nestlé Bio Nutrição e Saúde, 2011. [9] Silva AGH, Cozzolino SMF. Cálcio. In: Cozzolino SMF. Biodisponibilidade de Nutrientes. São Paulo: Manole, p.513-41, 2009. dossiê bio Nutrição na gestação Fernanda Rauber Nutricionista, Mestre e Doutoranda em Ciências da Saúde. Núcleo de Pesquisa em Nutrição da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre-RS. Márcia Regina Vitolo Nutricionista, Doutora em Ciências Biológicas, Pósdoutorado em Nutrição. Departamento de Nutrição da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre-RS. Nota do editor O tema Nutrição na Gestação é complexo por envolver diversos fatores que interferem na saúde da mãe e da criança. No primeiro trimestre gestacional, a ingestão energética materna deve ser semelhante à ingestão no período pré-gestacional, considerando que não há acréscimos nesse período. Os sintomas de náuseas e vômitos podem limitar a capacidade de manter a ingestão energética, contudo, a perda de peso dentro dos limites considerados adequados é uma situação prevista e que não compromete a saúde da mãe e do feto. No segundo e no terceiro trimestres, recomenda-se um adicional de 300 kcal, considerando a ingestão diária recomendada (RDA). Ressalta-se que esse adicional energético deve ser gradativo, levando-se em consideração o ganho de peso da gestante e sua atividade física. A tabela 1.1 mostra a ingestão dietética recomendada de alguns nutrientes para gestantes de acordo a idade materna. As modificações hormonais presentes na gestação promovem ajustes no metabolismo do cálcio, possibilitando aumento do aproveitamento biológico desse nutriente durante esse período. Assim, apesar dos requerimentos de cálcio estarem aumentados na gestação, as recomendações dietéticas permanecem as mesmas das recomendadas para as mulheres não grávidas. Esses valores podem ser obtidos pela ingestão de dois copos de leite (500 ml), uma fatia de queijo (30 g) e um pote de iogurte (150 g). Os vegetais e os feijões são considerados alimentos fontes de cálcio, mas destaca-se que a biodisponibilidade é menor, sendo necessário o consumo de porções diárias relevantes para contribuírem com um percentual razoável em relação à recomendação. A vitamina C também deve ser consumida diariamente, considerando que não há reserva dessa vitamina. A concentração plasmática de A primeira parte desse artigo – Nutrição na Gestação – foi publicada na edição de número 16 da Nestlé Bio. 32 dossiê bio vitamina C diminui progressivamente durante a gestação, provavelmente devido à hemodiluição e à transferência desta para o feto. Contudo, as recomendações de vitamina C são facilmente alcançadas quando há presença, na alimentação diária, de pelo menos um alimento fonte, como uma porção de laranja, kiwi, mamão ou goiaba. Destaca-se ainda, que a ingestão máxima tolerada é de 2 g ao dia (DRI), não sendo recomendada a ingestão de suplementos com quantidades acima desse valor. Em relação ao requerimento de ferro na gestação, é necessário que a mulher possua reserva de 500 mg de ferro para manter o adequado balanço hematopoiético [1]. O adicional energético do período gestacional (300 kcal) não é suficiente para aumentar significativamente o aporte de ferro, além do requerimento diário elevado de 27 mg de ferro que não é possível obter por meio da alimentação básica. Considerando que em cada 1.000 kcal de uma alimentação saudável obtém-se 6 mg de ferro, a ingestão média recomendada para mulheres adultas de 2.000 kcal fornecerá 12 mg de ferro. Estima-se que a biodisponibilidade do ferro da alimentação rica em cereais, raízes e tubérculos com negligenciáveis quantidades de carne, peixe ou vitamina C seja de 5% a 10% [2]. Assim, com a ingestão de 12 mg de ferro aliada à biodisponibilidade de 5%, a absorção será de 0,6 mg, valor abaixo do recomendado, que é de 1,36 mg diariamente para uma mulher adulta. Dessa forma, esse balanço negativo vai esgotar a reserva de ferro materno, a qual deve ser garantida por meio de alimentação que forneça ferro de alta biodisponibilidade e alimentos enriquecidos [3]. O ferro de alta biodisponibilidade é o ferro heme que é derivado de alimentos de origem animal e não é influenciado por fatores inibidores da absorção. Já o ferro não heme, presente em alimentos de origem vegetal, apresenta baixa biodisponibilidade e sua absorção pode Tabela 1.1 – Ingestão dietética recomendada Nutrientes EAR RDA ou AI UL Cálcio (mg) 1.000 1.300 2.500 Ferro (mg) 23 27 45 Folato (µg) 520 600 800 Vitamina A (µg) 530 750 2.800 Vitamina B12 (µg) 2,2 2,6 -* Vitamina C (mg) 66 80 1.800 10,5 12 34 Cálcio (mg) 800 1.000 2.500 Ferro (mg) 22 27 45 Folato (µg) 520 600 1.000 Vitamina A (µg) 550 770 3.000 Vitamina B12 (µg) 2,2 2,6 -* Vitamina C (mg) 70 85 2.000 Zinco (mg) 9,5 11 40 Gestante < 18 anos Zinco (mg) Gestantes 19-50 anos EAR = Requerimento médio estimado; RDA = Recomendação dietética de ingestão; UL = Limite superior tolerável de ingestão. Fatores de conversão: 1 DFE (equivalente de folato dietético) = 1 µg de folato de alimento = 0,6 µg de ácido fólico de alimentos fortificados ou de suplemento consumido com alimentos = 0,5 µg de ácido fólico consumido em jejum. Fatores de conversão: 1 µg de ERA (Equivalente de Retinol Ativo) = 1 RE de retinol (vitamina A) = 1 µg de retinol = 2 µg de betacaroteno em óleo; 12 µg de betacaroteno em mistura de alimentos e 24 µg de outros carotenoides (precursores da vitamina A) em mistura de alimentos. 1 UI (Unidades Internacionais de vitamina A) = 0,3 µg de vitamina. Fonte: IOM, 2006; IOM, 2011. dossiê bio 33 Tabela 1.2 – Conteúdo de ferro por alimento Alimento Quantidade (g) Medida caseira Ferro (mg) Humano 100 - 0,50 Vaca 100 ½ copo TR Fígado bovino cozido 100 1 bife grande 10,66 Sardinha em óleo 83 1 lata pequena 2,90 Carne bovina cozida 100 1 bife médio 2,20 Atum em óleo 135 1 lata 1,62 Carne suína cozida 100 1 bife médio 0,50 Peixe filé cozido 120 1 filé médio 0,48 Frango cozido 140 1 peito pequeno 0,42 Melado 41 2 colheres de sopa 2,20 Feijão-preto cozido 140 1 concha média 2,10 Farinha de trigo* 40 2 colheres de sopa 1,86 Aveia em flocos 36 2 colheres de sopa 1,51 Lentilha cozida 100 1 concha média 1,50 Ovo cozido 45 1 unidade 0,70 Banana 80 1 unidade média 0,32 Laranja 180 1 unidade média 0,18 Beterraba cozida 75 1 unidade pequena 0,15 Espinafre cozido 25 1 colher de sopa 0,15 Leite Ferro heme Ferro não heme * Farinha de trigo fortificada, fonte NUTWIN - Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Fonte: TACO, 2006; Sociedade Brasileira de Pediatria, 2007; Pinheiro et al., 2005. sofrer influência de fatores facilitadores (ácido ascórbico, carotenoides, frutose, citrato e alguns aminoácidos presentes em carnes — cisteína, histidina e lisina) e inibidores (fitatos, fibras, cafeína, oxalatos, compostos fenólicos, cálcio, fósforo e zinco). Portanto, a orientação alimentar deve priorizar a ingestão de ferro heme e/ou melhorar a biodisponibilidade do ferro não heme. A tabela 1.2 apresenta o conteúdo de ferro heme e não heme nos alimentos. Enfatiza-se que o consumo de vísceras uma vez por semana constitui-se em prática alimentar que fornece ferro de alta biodisponibilidade e de baixo custo [4]. Com relação à prática da suplementação de ferro, recomenda-se para todas as gestantes a suplementação de 30 mg a 40 mg no último trimestre, como medida profilática para garantir a manutenção das reservas de ferro e suprir os requerimentos gestacionais [5]. Na presença de anemia ou deficiência de ferro, recomenda-se suplementação de 60 mg a 80 mg, devendo ser evitadas suplementações com doses maiores do que essas, em razão da possibilidade de se aumentar o requerimento de zinco e levar-se à deficiência desse nutriente na presença de ingestões marginais. Além do mais, suplementações medicamentosas excessivas acentuam os efeitos colaterais, diminuindo a adesão ao tratamento [6]. No Brasil, as farinhas de milho e trigo são fortificadas com ferro e ácido fólico desde 2004, sendo que, a cada 100 g de farinha, obtém-se 4 mg de ferro e 150 µg de ácido fólico. Nessa proporção, seriam necessários cinco pães franceses, ou a mesma quantidade de outro alimento equivalente, para fornecer um terço da quantidade diária de ferro que é recomendada na alimentação saudável para mulheres adultas. Para gestantes, essa quantidade equivaleria a aproximadamente um sétimo, constituindo-se em medida fraca para colaborar com a ingestão adequada de ferro. 34 dossiê bio Tabela 1.3 – Conteúdo de folato nos alimentos Apesar da variedade de alimentos que contêm folato (tabela 1.3), foi demonstrado que somente 8% das mulheres americanas consomem a recomendação desse nutriente diariamente [7]. Uma dieta equilibrada e com a presença de alimentos fontes, considerando o valor de 2.000 kcal a 2.200 kcal, fornece aproximadamente 250 µg de folato ao dia. Segundo as recomendações dietéticas, as mulheres em idade fértil devem consumir 400 µg/dia de ácido fólico proveniente de suplementos e/ou alimentos fortificados em adição a uma dieta com fontes naturais de folato, e mulheres grávidas 600 µg/dia, também providos por suplementos, já que esses são valores difíceis de serem alcançados por alimentação básica. Além disso, durante a gravidez há diminuição de folato sérico, que pode ser explicada, em parte, pelo aumento do volume plasmático, sendo mais frequente na segunda metade da gestação, quando as necessidades de folato se encontram no limiar máximo. A maioria dos suplementos pré-natais contém 1 mg de folato (1.000 µg), quantidade suficiente para atender às necessidades e repor os depósitos no caso de deficiência da vitamina. Contudo, quando há distúrbios hemolíticos (por exemplo, doença falciforme) a recomendação é suplementar com 5 mg/dia. Destaca-se a necessidade de se diferenciar as doses fisiológicas de ácido fólico (abaixo de 1.000 µg) com propósitos profiláticos das doses farmacológicas (acima de 1.000 µg) para tratamentos terapêuticos de pacientes, por exemplo, aqueles com anemia megaloblástica [8]. Em relação à vitamina A, a recomendação para gestantes (770 µg/dia) é muito próxima dos valores indicados para mulheres adultas não grávidas (700 µg/dia). Apesar de sua importância na gestação, essa vitamina pode ser tóxica quando ingerida em grandes quantidades e parece ser teratogênica quando quantidades excessi- Alimentos Quantidade (g) Medida caseira Folato (µg) Fígado de frango cozido 100 2 unidades grandes 770 Levedo de cerveja 16 1 colher de sopa 626 Fígado bovino 100 1 unidade média 220 Lentilha cozida 100 1 concha média 179 Quiabo cozido 92 2 colheres de sopa 134 Feijão-preto cozido 86 1 concha média 128 Espinafre cozido 95 4 colheres de sopa 103 Banana 92 1 unidade média 76 Beterraba cozida 85 4 colheres de sopa 68 Abacate 100 2 colheres de sopa 62 Brócolis cozido 85 2 ramos médios 52 Caju 65 1 unidade pequena 44 Fonte: Hands, 2000; Pinheiro et al, 2005. vas são utilizadas nos primeiros meses gestacionais [9]. A suplementação com betacaroteno poderia ser admi nistrada a mulheres grávidas por aumentar as suas reservas corporais e concentrações no leite, pois não apresenta risco comprovado de teratogenicidade e possui maior disponibilidade e melhor custo-benefício em relação à suplementação com retinol [10]. É importante ressaltar que não há comprovações de toxicidade da vitamina A proveniente dos alimentos in natura, mesmo em altas concentrações. A recomendação é facilmente atingida quando os alimentos-fontes fazem parte do esquema alimentar, uma vez que a ingestão não precisa ser diária. A tabela 1.4 mostra o conteúdo de vitamina A em alimentos-fontes. dossiê bio 35 Tabela 1.4 – Conteúdo de vitamina A nos alimentos Alimentos Quantidade (g) Medida caseira Vitamina A (µg ER) Fígado bovino cozido 100 1 bife médio 11.116,3 Fígado de frango cozido 100 2 unidades grandes 7.695,9 Couve cozida 90 3 folhas médias 1.300,1 Espinafre cozido 95 4 colheres de sopa 1.170,1 Cenoura cozida 75 3 colheres de sopa 990,0 Manga 207 1 unidade grande 420,0 Abóbora 50 1 pedaço médio 262,5 Melão 160 2 fatias médias 185,6 Batata-doce assada 60 2 colheres de sopa 151,2 Leite 245 1 copo duplo 95,5 Mamão 140 1 fatia média 64,4 Tomate 90 1 unidade média 60,0 Fonte: Pinheiro et al, 2005; USDA, 2009. Referências Bibliográficas [1]Schumann K, Ettle T, Szegner B, Elsenhans B, Solomons NW. On risks a benefits of iron supplementation recommendations for iron intake revisited. J. Trace Elem. in Med. and Biol. 2007; 21:147-168. [10]Carlier C, Coste J, Etchepare M, Périquet B, Amédée-Manesme O. 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Washington, D.C., 2011. resultado por_ Luiza de Andrade Programa de Estágio Jovens Nutricionistas Formação profissional e assistência clínica que são promovidas pela Nestlé resultado Um professor de Estudos Sociais desafia seus alunos: observem o mundo e tentem consertar o que julgam estar errado. Um dos garotos propõe a seguinte ideia: você faz uma boa ação para alguém, que deve retribuí-la não de volta, mas para a frente, fazendo boas ações para outras três pessoas. Um professor de Estudos Sociais desafia seus alunos: observem o mundo e tentem consertar o que julgam estar errado. Um dos garotos propõe a seguinte ideia: você faz uma boa ação para alguém, que deve retribuí-la não de volta, mas para frente, fazendo boas ações para outras três pessoas. O que se sucede nessa reação em cadeia, contada no filme A Corrente do Bem (2000), de Mimi Leder, é que todas as pessoas envolvidas naquele processo passam a ser multiplicadoras. Neste sentido, elas podem ilustrar a rede gerada pelo Programa Jovens Nutricionistas, da Nestlé — no qual, estudantes do quarto ano de nutrição ganham uma bolsa para que possam ir a campo e vivenciar a rotina hospitalar. Com o Programa, a Nestlé possibilita que o aluno tenha complementada sua formação prática, saindo da faculdade mais preparado para o mercado de trabalho. Já sua atuação no hospital contribui assistencialmente para o atendimento de qualidade aos pacientes, uma vez que espelha avaliações 37 diagnósticas e proposições terapêuticas concebidas por supervisores de alto nível vinculados à Universidade e à Nestlé. Os próprios pacientes também são beneficiados do ponto de vista educacional, uma vez que terminam por compreender melhor como a nutrição participa de forma ativa no seu tratamento. Além disso, um subproduto importante do Programa consiste na sistemática coleta de dados que se presta a estudos e publicações científicas. O conhecimento reunido nestes trabalhos alcança uma ampla gama de profissionais de saúde, podendo influenciar positivamente o cuidado de pacientes em diferentes locais e instituições. Foi assim, por exemplo, que o Programa Jovem Nutricionista da Nestlé nasceu. A origem Preocupada em investigar o índice de desnutrição hospitalar no País, a Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral — SBNPE — realizou uma pesquisa multicêntrica, em 1996, envolvendo 4.000 pacientes internados em hospitais da rede pública de 12 Estados, mais o Distrito Federal [1]. Em síntese, o Inquérito Brasileiro de Avaliação Nutricional Hospitalar — Ibranutri — revelou que 48,1% dos pacientes internados apresentavam algum grau de desnutrição: 12,6% de desnutridos graves e 35,5% de desnutridos moderados. 38 resultado O Ibranutri identificou, ainda, uma significativa diferença no tempo médio de internação: 6 dias para pacientes eutróficos, 13 dias para pacientes desnutridos. E, como esperado, detectou um incremento no risco de desnutrição associado ao maior tempo de internação. De acordo com Waitzberg DL e demais autores do estudo, as causas para este achado são múltiplas e não excludentes. Como, por exemplo, os vários níveis de catabolismo determinado pelo tipo e a extensão da doença de base que acomete o paciente e a ingestão ou reposição nutricional inadequadas. Entre as condições encontradas no ambiente hospitalar que contribuíram para a piora do estado nutricional, destacaram-se a falta de avaliação nutricional básica — muitas vezes sequer o peso e a altura do paciente eram aferidos — , a ausência de acompanhamento do consumo alimentar, intervenções cirúrgicas em pacientes desnutridos sem reposição nutricional, uso prolongado de soros por via venosa ao lado de dieta zero, ausência de terapia nutricional em estados hipermetabólicos e retardo no início da terapia nutricional. A desnutrição hospitalar é um grave problema no Brasil e se agrava durante a internação do paciente. Foi a partir deste estudo — no qual ficaram patentes a reduzida consciência das equipes de saúde quanto à importância do estado nutricional e a baixa freqüência de intervenções nutricionais — que, há três anos, surgiu o Programa de Estágio Jovens Nutricionistas. Roseli Borghi, nutricionista da Nestlé, especialista em nutrição clínica e responsável pelo programa, conta que a decisão de contribuir para melhora deste cenário apoiou-se no princípio adotado pela Empresa de criar valor compartilhado — em moldes semelhantes ao que já acontecia no convênio firmado em 2007 entre a Nestlé e a Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” da Universidade de São Paulo — ESALQ/USP (leia mais no box abaixo). Valor Compartilhado: o exemplo do campo Investir na capacitação técnica dos produtores de verduras e legumes é o foco da parceria firmada entre a Nestlé e a ESALQ/USP. Os alunos do último ano de Agronomia ajudam os produtores de São José do Rio Pardo a desenvolverem suas culturas, preparando-se assim para o mercado de trabalho. Eles são orientados por um coordenador especialista e as experiências realizadas em campo são utilizadas como fonte de pesquisas pela Universidade. Os produtores são capacitados a desenvolver as boas práticas agrícolas, o que envolve adubação, irrigação, controle fitossanitário, entre outras ações. São estimulados a fazer um manejo integrado de suas propriedades para o controle de ervas daninhas, de pragas e de doenças e recebem recomendações sobre como trabalhar com as sementes. Aprendem a planejar suas atividades e depois a avaliá-las — desde a preparação do solo até a entrega na fábrica. Isso proporciona ótimos resultados, pois reduz o desperdício, corrige desvios, aumentando a qualidade e a produtividade. resultado 39 Nestlé Health Science O Programa de Estágio Jovens Nutricionistas, que leva estudantes aos hospitais para que eles possam aprender a identificar necessidades nutricionais específicas de pacientes internados e a propor terapias adequadas para cada caso, faz parte da Nestlé Health Science. A Nestlé Health Science foi criada com a intenção de aliar alimentos e medicamentos em uma única empresa. O objetivo central dessa nova divisão, que começou a operar em janeiro de 2011, é desenvolver uma área de ciência da saúde e nutrição personalizada para prevenir e tratar doenças. Paralelamente, o Nestlé Institute of Health Sciences, de nível internacional, instalado no ambiente científico e multidisciplinar do Instituto de Tecnologia Federal da Suíça, em Lausanne, faz pesquisas em áreas da ciência biomédica que auxiliam a criação de estratégias nutricionais para melhorar a saúde e a longevidade. Os estagiários têm a oportunidade de conhecer a divisão da Nestlé Health Science. Seleção e treinamento Para participar do Programa de Estágio Jovens Nutricionistas, ligado à Nestlé Health Science (leia box acima) os candidatos passam por uma triagem online, na qual fazem suas inscrições e provas, por dinâmicas de grupo e por entrevistas presenciais. Todos os selecionados passam, então, por um período de treinamento, antes de ficarem alocados nos hospitais parceiros. Nesta fase, recebem aulas específicas sobre nutrição enteral e parenteral, aprendem como são feitas as avaliações nutricionais do Programa, como registrar os dados coletados e interpretá-los. Durante o treinamento, os estagiários têm a oportunidade de conhecer a divisão da Nestlé Health Science e demais unidades que têm projetos de valor compartilhado em Nutrição. Além disso, entram em contato com os produtos da Nestlé destinados aos hospitais e fazem degustações na cozinha experimental da Companhia. Em 2010, Simone Souza Rocha, estudande de nutrição no Centro Universitário São Camilo, na região sul de São Paulo, foi uma das selecionadas. 40 resultado A teoria na prática No início de 2011, Simone ajudou a monitorar a dieta de pacientes do Hospital Santa Paula, na capital paulista. Sob a coordenação da nutricionista responsável, ela conta que fazia a rotina diária de visitar pacientes, supervisionar sua alimentação e realizar adequação nutricional. “No andar de oncologia, onde eu era estagiária fixa, o maior problema era a inapetência. Era preciso oferecer suplementação para suprir a energia e nutrientes não ingeridos.” Hoje, formada, atuando no Hospital Sancta Maggiore, na unidade do Itaim Bibi, em São Paulo, Simone lembra de seu aprendizado ao lidar com pacientes críticos, muito debilitados. “Era preciso mudar constantemente suas dietas e oferecer atenção individualizada todos os dias.” E recorda a satisfação de ver o resultado do trabalho empreendido. Nos conta, por exemplo, de uma de suas pacientes que conseguiu o desmame da nutrição parenteral. “Quando ela passou a receber dieta enteral, pudemos começar a oferecer suplementos. Com isso, ela apresentou uma grande melhora. De um quadro de desnutrição severa, ela melhorou seu estado clínico geral e recebeu alta.” Para Maria Alice Gouveia, mestre em nutrição pela Unifesp, especialista em nutrição clínica pela Associação Brasileira de Nutrição (Asbran) e professora do Centro Universitário São Camilo — o primeiro a firmar parceria com o Programa — a parte fundamental do estágio reside na coleta de dados de pacientes internados. Para entender a importância desta sistematização, basta voltarmos para os resultados do Ibranutri. Segundo o estudo, procedimentos simples e objetivos, que ajudariam na identificação do estado nutricional, não eram realizados. Anotações referentes ao estado nutricional dos pacientes eram encontradas apenas em cerca de 20% dos prontuários avaliados. Ape- Para participar do Programa de Estágio Jovens Nutricionistas, os candidatos passam por uma triagem, que inclui provas, dinâmicas de grupo e entrevistas presenciais. resultado 41 Identificação de pacientes com ou sob risco de desnutrição A Nestlé fomenta mundialmente a necessidade de avaliação nutricional com o objetivo de diminuir a prevalência da desnutrição. No caso específico da população idosa, esse risco aumenta dramaticamente em indivíduos hospitalizados e naqueles com deficiência cognitiva. Diante disso, a Nestlé associou-se a geriatras de reputação internacional para criar a Mini Avaliação Nutricional, MAN — uma ferramenta específica de controle e avaliação para identificar pacientes idosos que tenham ou estejam sob risco de desnutrição. Por meio dela, é possível que profissionais de saúde intervenham mais precocemente para fornecer o apoio nutricional adequado de forma terapêutica ou preventiva. Validada por diferentes estudos [2-3], essa ferramenta tem sido amplamente utilizada em hospitais e ambiente comunitário por profissionais de saúde no Brasil e no nas 14,6% dos pacientes apresentavam seu peso anotado à admissão, embora, em 75% dos casos, os pacientes encontravam-se a menos de 50 metros de uma balança. Não há dúvida de que o papel supervisionado do estagiá rio no preenchimento de formulários de avaliação subjetiva global e na avaliação objetiva do estado nutricional constituem uma ferramenta da maior importância para identificação precoce de pacientes em risco nutricional, área em que a Nestlé já participa ativamente há muitos anos (vide box acima). Somando esforços Segundo a nutricionista Clara Rodrigues, especializada em nutrição clínica e em fisiologia do exercício, o que se percebe no Hospital Geral do Grajaú, na região sul de São Paulo, é que o Programa de Estágio Jovens Nutricionistas “veio somar o atendimento que o nutricionista tem frente ao paciente que está internado”. Isso porque os estudantes, sob supervisão de seus referências mundo. E, como não poderia deixar de ser, é instrumental no dia a dia do Programa de Estágio Jovens Nutricionistas. Enquanto o Ibranutri avaliou pacientes adultos e idosos por meio da avaliação subjetiva global (ASG), o Programa de Estágio Jovens Nutricionistas estudou a população idosa com a especificidade da MAN. Como explica Roseli Borghi, trata-se de uma ferramenta fundamental para o Programa — uma vez que permite intervenção adequada em pacientes desnutridos ou com risco nutricional. Em síntese, ao levar em conta aspectos característicos ditados pela idade dos pacientes, o Programa de Estágio Jovens Nutricionistas concretiza um abrangente plano de intervenção nutricional para que os pacientes não sofram de desnutrição durante o período de internação hospitalar. Validada por diferentes estudos, a Mini Avaliação Nutricional (MAN) tem sido amplamente utilizada em hospitais e ambiente comunitário. orientadores e dos nutricionistas de cada hospital, atendem pacientes individualmente e desenvolvem dietas personalizadas, que respeitam características específicas de cada caso. A desnutrição hospitalar é um grave problema no Brasil e se agrava durante a internação do paciente. As anotações nos prontuários médicos, via de regra, são insuficientes e incompletas, faltando dados importantes para o diagnóstico do estado nutricional. Combater este cenário é fundamental para a saúde da população e a razão de existir do Programa de Estágio Jovens Nutricionistas da Nestlé. [1] Waitzberg DL, Caiaffa WT, Correia MI. Hospital malnutrition: The Brazilian national survey (IBRANUTRI): a study of 40000 patients. Nutrition 2001; 17 (7-8): 573-80. [2] Guigoz Y. The Mini-Nutritional Assessment (MNA®) review of the literature – what does it tell us?, J Nutr Health Aging 2006; 10:465-487. [3] Cuervo M, García A, Ansorena D, et al. Nutritional assessment interpretation on 22,007 Spanish community-dwelling elders through the Mini Nutritional Assessment test. Public Health Nutr. 2009; 12 (1):136. [4] Cereda E. Mini nutritional assessment. Curr Opin Clin Nutr Metab Care. 2012;15(1):29-41. sabor e saúde por_ Claudio Galperin Por que gostamos tanto de gordura? Língua: uma nova peça no quebra-cabeça da obesidade Recentemente, estudos em nutrigenômica e nutrigenética têm contribuído de forma decisiva para a compreensão de princípios básicos da Nutrição Funcional. Enquanto a primeira investiga a influência dos nutrientes na expressão dos genes e como eles regulam os processos biológicos, a segunda avalia como as variações genéticas diferem em reposta a nutrientes específicos e eventualmente promovem distintos estados de saúde e doença nas pessoas. Entre os princípios básicos da nutrição funcional influenciados pelos conhecimentos da nutrigenômica e nutrigenética destaca-se a Individualidade Bioquímica. Segundo ela, cada ser humano possui necessidades nutricionais únicas baseadas em seu perfil genético, estilo de vida e exposições ambientais, e responde de maneira particular a diferentes componentes da dieta. Tal individualidade pode se manifestar tão logo o alimento alcança a boca. Não é difícil enumerar características como doce e cremosa para uma torta de morango, certo? Aprofunde, contudo, esta pergunta e uma considerável dose de subjetividade tornará a descrição qualquer coisa, menos universal. Pelo simples fato de que a língua e suas papilas gustativas são singulares de cada um. E o que pode parecer doce demais para uma pessoa, pode apresentar-se pouco ou quase nada doce para outra. Além disso, não se pode ignorar a considerável variação individual que existe em relação ao prazer e a saciedade que cada um experimenta ao provar, por exemplo, uma mesma torta de morango. Neste contexto, pode a percepção do gosto influenciar o peso de uma pessoa? O surgimento da obesidade como a doença passível de prevenção de maior prevalência no mundo, torna esta pergunta urgente. sabor e saúde Corte transversal de uma língua saudável exibindo a musculatura central rodeada por células epiteliais formando numerosas papilas (pequenas projeções na superfície externa) Décadas de contradição As pesquisas que vinculam uma maior apreciação por doces ao peso corporal datam, pelo menos, dos anos 1950. As evidências geradas por elas, contudo, têm sido contraditórias. Linda Bartoshuk, da Universidade da Flórida, em Gainesville, oferece uma explicação para isso. A pesquisadora argumenta que um sabor descrito como "extremamente doce" por uma pessoa magra pode não ser tão doce assim para um indivíduo obeso — porque suas experiências sensoriais são diferentes. "Nós descobrimos algo que deveria ser óbvio", diz ela, em uma revisão seminal sobre o assunto, de 2006 [1]. "Se você é obeso, você gosta mais de doce e de gordura. Isto é parte do que mantém você assim", conclui. Embora estudos como os do grupo de Bartoshuk apontem para uma discreta preferência por comidas doces entre pessoas obesas, investigações mais recentes, voltadas para um eventual vínculo entre peso corporal e preferências de sabor, revelam que o que está fortemente associado à obesidade não é a ingestão de carboidratos ou doces, mas sim, o consumo de gordura. Um novo sabor? A gordura é um componente importante da dieta, e tanto os seres humanos quanto os animais geralmente preferem alimentos com alto teor deste ingrediente, densos em energia. Embora não se encontre entre os cinco gostos estabelecidos — doce, azedo, salgado, amargo e umami —, um número crescente de pesquisadores suspeita que o sentido do paladar possa estar implicado no seu reconhecimento. 43 Como sabemos, a língua possui receptores para dois dos três macronutrientes que precisamos nos alimentos: doce, que corresponde aos carboidratos, e umami, que indica proteína. Como aponta Russel Keast, da Universidade Deakin, em Melbourne, na Austrália, faz sentido que tenhamos alguma forma de resposta ao terceiro macronutriente: gordura. Atualmente, embora persista o debate sobre se a gordura é de fato um gosto, estudos bem conduzidos estão mais propensos a dizer que sim. Em 2010, Keast e cols. constataram que os participantes de um estudo conduzido por eles podiam detectar ácidos graxos em uma substância cremosa quando todos os sinais sensoriais para além do sabor foram removidos [2]. Assim como os carboidratos e proteínas são revelados pelo sabor de seus subprodutos, os pesquisadores formularam a hipótese de que seria possível sentir o gosto de uma substância oriunda da quebra da gordura: os ácidos graxos. Curiosamente, Keast e cols. observaram que pessoas com sobrepeso ou obesidade parecem ser menos sensíveis para a detecção de gordura e, mais intrigante ainda, notaram que indivíduos com baixa sensibilidade para ácidos graxos tendem a consumir uma quantidade significativamente maior de gordura na dieta e apresentar um índice de massa corporal (IMC) maior do que aqueles com uma maior sensibilidade a este sabor [2]. Como veremos a seguir, este estudo seria aprofundado por outro grupo, dois anos depois. Estudos recentes, voltados para o vínculo entre peso corporal e preferências de sabor, revelam que a obesidade está predominantemente associada à ingestão de gordura. Um receptor para ácidos graxos O primeiro candidato para receptor de sabor de ácidos graxos na língua é uma proteína denominada CD36. As evidências iniciais surgiram a partir de modelos murinos geneticamente alterados para não expressarem esta proteína. Na ausência de CD36, verificou-se que os camundongos perdiam sua natural preferência por gordura, enquanto sua afinidade por outros sabores permanecia inalterada. Em 2012, Marta Yanina Pepino e cols., da Universidade de Washington, em St. Louis, estudaram variações genéticas em seres humanos que levam à uma expressão aumentada ou diminuída do gene de CD36 [3]. A hipótese do grupo era a de que indivíduos que pertencem ao grupo onde ocorre maior expressão de CD36 possuem maior sensibilidade para detectar gordura em menor concentrações. Foi exatamente isso que encontraram. 44 sabor e saúde Indivíduos que expressam maiores quantidades de CD36 possuem maior sensibilidade para detectar gordura em menores concentrações. conceitos básicos AsAssim como no estudo de Keast e cols., o principal objetivo da pesquisa conduzida pelo Centro para Nutrição Humana da Universidade de Washington foi o de compreender como nossa percepção da gordura pode influenciar quais comidas escolhemos e a quantidade de gordura ingerimos. Publicado em março de 2012, no Journal of Lipid Research, o estudo de Pepino e cols. incluiu 21 pessoas consideradas obesas — com IMC maior ou igual a 30. Todos os participantes do estudo provaram três soluções com uma textura viscosa semelhantes e foram solicitados a identificar qual delas era diferente. Os participantes que produziam maiores quantidades de CD36 escolhiam mais frequentemente a única solução que continha uma pequena quantidade de óleos graxos, sugerindo que fossem mais sensíveis a eles. De fato, pessoas estudadas que produziam as maiores quantidades de CD36 se mostraram 8 vezes mais sensíveis à presença de gordura do que aqueles que produziam 50% menos da proteína [3]. Como no trabalho do grupo australiano, os pesquisadores norte-americanos buscaram limitar pistas visuais e olfativas, iluminando a área de testes com luz vermelha e utilizando clipes no nariz dos indivíduos participantes. Isto se fez necessário porque, como sabemos, a percepção do alimento se dá por vias distintas. Voltemos, por um instante, ao exemplo do início deste artigo. Para a língua, sozinha, uma torta de morango tem gosto predominantemente doce. Não é até que o nariz fica envolvido, que experimentamos o sabor de morango. Isto explica também porque os alimentos que você não gosta podem descer goela abaixo mais facilmente, se você apertar o nariz; ou porque o seu jantar é menos agradável quando seus seios nasais estão congestionadas, no curso de um resfriado [4]. Além disso, também experimentamos a comida através de um terceiro sistema sensorial que é baseado no toque e intermediado pelo trigêmeo. Ramos deste nervo vão para os olhos, nariz, língua e dentes, onde sentem dor, irritação e temperatura. Isso inclui a sensação de ardor da pimenta e a de resfriamento causada por, por exemplo, enxaguatórios bucais de hortelã. A gordura também é percebida através do nervo trigêmeo, que envia sinais ao cérebro de que a boca está experimentando algo viscoso, escorregadio ou cremoso. o papel da lipase Nossa dieta contém gordura, principalmente sob a forma de triglicérides, produzidos pela união de ácidos graxos com glicerol. Pepino e cols. tinham conhecimento, a partir de estudos experimentais, de que CD36 é ativado por ácidos graxos mas não por triglicérides. Seres humanos, contudo, são capazes de sentir o gosto de ambos. Pepino acredita que isso se deva à atividade da enzima lipase, presente na saliva, que quebra os triglicérides, liberando os ácidos graxos enquanto a gordura ainda se encontra na boca. Ratos, por exemplo, podem produzir lipase salivar e esta rapidamente digere triglicérides e os converte em ácidos graxos. Nos experimentos de Pepino e cols., os participantes conseguiram detectar gordura seja sob a forma de ácido graxo, seja sob a forma de triglicérides. Mas quando os pesquisadores adicionaram Orlistat às soluções, os indivíduos testados continuavam a sentir o gosto dos ácidos graxos, mas tornaram-se menos capazes de detectar triglicérides. Orlistat, como sabemos, inibe a lipase na boca, estômago e intestino e é frequentemente prescrito para indivíduos obesos para prevenir a absorção de gordura dos alimentos. Os autores argumentam que Orlistat fez com que fosse mais difícil para as pessoas para sentirem o gosto da gordura — que a solução precisava conter quantidades maiores de triglicérides para que os participantes pudessem detectá-la. Com ácidos graxos livres, no entanto, não houve diferença [3]. sabor e saúde O ovo ou a galinha? Com a descoberta do receptor para gordura, inaugurou-se um novo debate de grande repercussão para saúde pública. Uma capacidade diminuída para detectar ácidos graxos leva alguém a consumir excessivamente comidas gordurosas ou uma alimentação rica em gordura diminui a sensibilidade para a percepção do sabor de ácidos graxos? Como em tantos outros modelos, nos quais convivem genética e epigenética, a resposta, provavelmente, reside em ambas as circunstâncias — ditadas pelo patrimônio dos genes e pela influência do meio ambiente. O quanto você gosta de comidas gordurosas depende de diferentes razões, começando por aquilo que você é exposto na vida intra-uterina e neonatal. Ao mesmo tempo, estudos têm demonstrado que uma alteração no padrão da dieta pode causar uma mudança de preferências. Para melhor ou pior. Os primeiros trabalhos sobre isso foram conduzidos com sal. Seu consumo excessivo — associado à hipertensão arterial e doenças cardiovasculares —, se reduzido ao longo de um período de tempo, leva a diminuição do desejo por comidas salgadas [5]. Recentemente, Sartor e cols. demonstraram que uma reprogramação para o consumo de açúcar também pode ocorrer, mas em sentido contrário. No estudo, pediram a um grupo de jovens adultos que consumissem duas "bebidas esportivas" doces ao dia, além de sua dieta normal. O resultado, surpreendente, foi uma mudança de comportamento no curto período de tempo de apenas um mês. Jovens que não tinham preferência por alimentos doces no início do estudo passaram a preferí-los no final [6]. 45 Atualmente, começam a surgir evidências semelhantes em relação à percepção de gordura. Em um estudo recente, tanto pessoas magras quanto pessoas obesas responderam à uma dieta com muito baixos teores de gordura, por 4 semanas, tornando-se mais sensíveis à gordura. Os pesquisadores, agora, conduzem protocolos de longo prazo para acessar o quanto este aumento de sensibilidade pode se traduzir em uma menor preferência por (e portanto um menor consumo de) comida gordurosa [7]. A obesidade é uma doença multifacetada para a qual não existe uma única causa. Independentemente disso, a promoção de hábitos alimentares e de um estilo de vida saudáveis encontra-se sempre na primeira linha de tratamento. O mais recente argumento para isso reside nas evidências de que a indução a uma menor sensibilidade à gordura pode ser grande valor no combate à esta epidemia. Leia na íntegra o artigo de pesquisadores da Universidade de Bourgogne, na França, sobre o papel de CD36 na percepção oral de lipídeos da dieta. A preferência por alimentos gordurosos é fruto de influências de natureza genética e epigenética. referências [1] Bartoshuk LM, Duffy VB, Hayes JE, et cols. The influence of sodium on liking and consumption of salty food. Philos Trans R Soc Lond B Biol Sci. 2006;361(1471):1137-48. [2] Stewart JE, Feinle-Bisset C, Golding M, et cols. Oral sensitivity to fatty acids, food consumption and BMI in human subjects. Br J Nutr. 2010;104(1):145-52. [3]Pepino MY, Love-Gregory L, Klein S, Abumrad NA. The fatty acid translocase gene CD36 and lingual lipase influence oral sensitivity to fat in obese subjects. J Lipid Res. 2012;53(3):561-6. [4] Bakalar N. Sensory science: Partners in flavour. Nature. 2012;S4–S5. [5] Lucas L, Riddell L, Liem G, et cols. The influence of sodium on liking and consumption of salty food. J Food Sci. 2011;76(1):S72-6. 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A deficiência da manutenção da homeostase da glicose, seja por resistência dos tecidos aos efeitos da insulina, seja por falência da função endócrina pancreática, gera consequências diversas, basicamente por lesão microvascular. Lesões em órgãos-alvo, com insuficiência coronariana, vasculopatia cerebral, obstrução arterial crônica, neuropatias, nefropatias e retinopatia, entre outras, são causas maiores de IRC, hemodiálise, transplante renal, amputações de membros, IAM, AVC e cegueira. Em termos de custos ao sistema de saúde, chegamos à casa de bilhões de dólares anuais, só nos EUA. O DM2, associadamente às comorbidades cardiovasculares, pulmonares e à síndrome metabólica, é uma doença na qual o tratamento da obesidade tem influência positiva direta na redução da mortalidade. O tratamento clínico da obesidade tem resultado pobre em todas as suas variações, com altos índices de recidiva. Hoje, a cirurgia bariátrica representa a melhor opção terapêutica para obesidade grau III (IMC>40) ou grau II (35<IMC<40) com doenças associadas. O tratamento cirúrgico também é visto hoje como importante opção terapêutica para o DM2 em pacientes obesos mórbidos. É bem documentado o bom controle do DM2 com a derivação gástrica em Y de Roux, ou com cirurgias disabsortivas (derivações biliopancreáticas). Os efeitos destas cirurgias são evidentes precocemente, antes do emagrecimento, mostrando os efeitos incretínicos da mudança arquitetural do trato digestivo e consequente modulação de neuropeptídeos intestinais, com efeitos diretos sobre o pâncreas. Baseando-se nos bons resultados obtidos nos obesos mórbidos, e na dificuldade de controle do DM2 com os melhores tratamentos clínicos disponíveis, também é foco de estudo, hoje, os efeitos das cirurgias bariátricas com derivações intestinais sobre o DM2 em pacientes com sobrepeso (25<IMC<30) e obesidade grau I (30<IMC<35), assim como os efeitos de técnicas experimentais e técnicas de menor complexidade, como a gastrectomia vertical (GV). A GV entrou no rol de procedimentos bariátricos aprovados pelos órgãos reguladores e sociedades da especialidade, após evidências científicas de bons resultados no controle da obesidade mórbida. A GV era inicialmente entendida como técnica puramente restritiva, no entanto, hoje, há também evidências de efeitos incretínicos, obtidos pelo consequente aumento da velocidade de esvaziamento gástrico após a diminuiçao do volume do órgão, e pela ressecção do fundo gástrico, principal fonte de produção de grelina, com consequente alteração na modulação hormonal entero-neural. Essas premissas levaram à intensificação das pesquisas sobre os efeitos de diversos procedimentos bariátricos sobre o DM2, associado ou não a diferentes graus de obesidade. No artigo Cirurgia Bariátrica versus tratamento clínico intensivo em pacientes obesos com diabetes, foram comparados, prospectiva e randomizadamente, a eficácia do tratamento clínico com o tratamento cirúrgico do DM2 por meio de duas técnicas, a gastroplastia redutora com derivação gástrica em Y de Roux (DGYR) e a gastrectomia vertical (GV). Na DGYR é realizada a redução significativa do volume gástrico, com a confecção de uma bolsa gástrica de volume bastante reduzido, e um desvio do intestino delgado inicial, onde o duodeno e os primeiros 150 cm a 200 cm do jejuno são desviados do trânsito alimentar. Essas alterações levam a alterações na regulação dos estímulos de fome e saciedade, assim como na homeostase energética e no metabolismo da glicose. Sabemos hoje que a manutenção da maior porção do estômago excluso do trânsito alimentar, assim como a aceleração do trânsito alimentar, com a chegada do quimo mais rapidamente ao íleo, e a exclusão do duodeno e do jejuno inicial do contato com os alimentos, leva a estímulos incretínicos, com mudanças na regulação de entero-hormônios e neuropeptídeos intestinais, entre eles a grelina, o GLP-1, GLP-2, GIP, oxintomodulina e leptina, responsáveis pela regulação de complexos eixos entero-neuroendócrinos, muitas vezes inter-relacionados, que afetam a produção, e a sensibilidade periférica e hepática de insulina, e que com isso promovem mudanças impactantes na fisiopatologia do DM2. A GV consiste em ressecção da grande curvatura gástrica, longitudinalmente, do antro até a transição esôfago gástrica. Desse modo, promove-se a redução de volume e tubulização do estômago. Com a remoção total do fundo gástrico, área de armazenamento, tem-se aumento da saciedade e restrição do volume alimentar ingerido. A ressecção do fundo gástrico, principal fonte de produção de grelina, hormônio orexigênico, também leva à diminuição de estímulos leitura crítica hipotalâmicos, responsáveis pela sinalização de fome. Associadamente, estas alterações causam aceleramento do trânsito alimentar, que leva à chegada do quimo mais precocemente às porções distais do intestino, promovendo, da mesma forma, ainda que em parte e em diferentes proporções, estímulos neuro-hormonais já descritos na técnica da DGYR. Nesta série de 140 pacientes do estudo em questão, três grupos foram divididos de maneira randomizada, para os três tratamentos propostos, e avaliados por um ano. Como meta primária foi estipulada a hemoglobina glicada (A1c) em níveis menores ou iguais a 6,0%, e como metas secundárias foram avaliados os níveis de glicose e de insulina de jejum, lípides, proteína C reativa, índice HOMA-IR, perda de peso, níveis pressóricos, efeitos adversos, efeitos em outras comorbidades e, finalmente, as alterações no uso de medicações. O tratamento clínico baseou-se nos conceitos de tratamento intensivo propostos pela Associação Americana de Diabetes, com promoção de mudanças de estilo de vida e perda de peso, controle domiciliar frequente da glicemia, e uso das terapias mais modernas aprovadas pelo FDA — por exemplo, análogos do GLP-1. Enquanto 12% do grupo em tratamento clínico chegou à meta primária, no grupo cirúrgico 42% e 37% dos pacientes submetidos à DGYR e à GV a atingiram, respectivamente. Houve diferença estatística entre os grupos cirúrgico e clínico, mas não entre os dois grupos cirúrgicos quando avaliados entre si. No grupo submetido a DGYR, todos que atingiram a meta o fizeram sem uso associado de medicações, enquanto 28% dos pacientes onde foi realizada GV obtiveram A1c<6% com auxílio de medicações antidiabetes. Quanto ao uso de insulina, 38% dos pacientes em tratamento clínico mantiveram seu uso, enquanto, nos operados, isso ocorreu em apenas 4% dos pacientes submetidos a DGYR e em 8% dos pacientes submetidos a GV . Quanto à perda de peso, enquanto a perda média do grupo clínico manteve-se em torno de 5% do peso inicial (13% de perda de excesso de peso), no grupo cirúrgico, esta ficou em torno de 25% do peso inicial, com perda de peso um pouco maior no grupo submetido a DGYR (88% de perda de excesso de peso para DGYR versus 81% para a GV, p<0,001). Os outros parâmetros avaliados, metas secundárias, também se mostraram significativamente melhores no grupo cirúrgico. A prevalência de Síndrome Metabólica foi menor após um ano no grupo operado, com diminuição de níveis de insulina, do HOMA-IR, de triglicérides (apenas na DGYR) e de PCR, e houve maior elevação do HDL no grupo operado. Os níveis de LDL não diferiram, mas, após cirurgia bariátrica, os dois grupos operados puderam reduzir as medicações para dislipidemia. Houve também redução de uso de drogas anti-hipertensivas nos grupos cirúrgicos, porém sem diferenças nos níveis pressóricos entre os 3 grupos. Mesmo havendo críticas ao método, especialmente quanto ao grupo estudado, em que todos os pacientes são obesos mórbidos, com tempo de doença médio abaixo de 10 anos, relativamente jovens, e em que 22% apenas utilizavam insulina, grupo este no qual há pouca controvérsia sobre o potencial sucesso do tratamento cirúrgico sobre o controle do DM2, este estudo demonstra claramente as diferenças entre o tratamento clínico e cirúrgico da obesidade graus II e III e, por conseguinte, das doenças associadas à obesidade mórbida. 47 Os pacientes avaliados tinham índices médios de massa corpórea em torno de 37 kg/m2, e nestes níveis de obesidade é, hoje, consenso como melhor tratamento, a cirurgia bariátrica, tendo o tratamento clínico resultados incomparáveis em termos de controle do peso e das doenças associadas à obesidade, em médio e longo prazo. Diante das vantagens do tratamento cirúrgico, hoje se discute a ampliação da sua indicação, para tratamento de doenças metabólicas, sobretudo o DM2, e em pacientes não obesos severos. Os efeitos das diversas técnicas bariá tricas sobre a fisiopatologia do DM2 é foco de pesquisas intensivas. A dissociação, hoje bem documentada entre o emagrecimento obtido com a cirurgia bariátrica e o controle do DM2 e a homeostase glicêmica, ampliou os horizontes do uso das intervenções cirúrgicas sobre o trato digestivo em termos de efeitos metabólicos. A grande fronteira a ser transposta hoje é a definição de fatores preditores do resultado de diferentes técnicas bariátrico-metabólicas, em diferentes pacientes, e os efeitos do peso corporal, da idade, do tempo de instalação do DM2 e dos níveis de reserva pancreática sobre os resultados. O melhor entendimento das inter-relações entre todos esses fatores e parâmetros poderá nortear diferentes indicações de tratamento, inclusive diferentes técnicas cirúrgicas, com menores ou maiores efeitos metabólicos, e mesmo a associação entre cirurgia e tratamento medicamentoso, como melhor opção para diferentes pacientes. O discernimento entre diferentes subgrupos de pacientes obesos e/ou diabéticos levará, futuramente, à seleção entre tratamentos clínicos ou cirúrgicos, e selecionará procedimentos cirúrgicos diferentes, para pacientes diferentes. Schauer PR, Kashyap SR, Wolski K, et al. Bariatric Surgery versus Intensive Medical Therapy in Obese Patients with Diabetes. N. Engl. J. Med. april 26, 2012; 366(17):1567-76. Dr. Marco Aurélio Santo e Dr. Daniel Riccioppo - Unidade de Cirurgia Bariátrica e Metabólica, Disciplina de Cirurgia do Aparelho Digestivo, Departamento de Gastroenterologia (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo HC-FMUSP).