SEMINÁRIO NACIONAL SOBRE ESCASSES, PROVIMENTO E FIXAÇÃO DE PROFISSIONAIS DE SAÚDE EM ÁREAS REMOTAS E DE MAIOR VULNERABILIDADE Brasília, 13 e 14 de abril de 2011 Mesa: Diretrizes da Carreira Multiprofissional −Saudação aos participantes da Mesa; −Saudação aos trabalhadores de saúde presentes ao Evento; −Saudação especial aos trabalhadores da saúde, da educação e demais trabalhadores da Prefeitura Municipal de Betim, que encontram-se num momento crucial da negociação com o gestor público que infelizmente parou as negociações na Mesa Geral e a encaminhou para a Câmara de Vereadores, sem o fechamento do acordo. Aos companheiros Tomaz de Jesus – do Sindsaúde, Rilke Novato – do Sinfarmig, e a companheira Beatriz – do Sind-UTE, que continuem combatendo o bom combate. Essa semana, em uma conversa com a gerente do Serviço de Hemodiálise do Hospital Público Regional de Betim, ela me passou as seguintes informações: −173 pacientes realizam o procedimento de hemodiálise toda semana no Hospital. 120 pacientes é da microregião de Betim; −70 pacientes o fazem em serviços de Belo Horizonte; −7 pacientes estão internados no Hospital e fazem o procedimento, aguardando vaga no serviço para terem alta hospitalar; −70 pessoas estão em estágio IV, que é o estado prévio da hemodiálise. O Serviço de Hemodiálise foi ampliado em nosso Hospital, com melhoria da infraestrutura, aquisição de novas máquinas, triplicação do número de vagas, contratação de novos servidores, etc... Isso é uma notícia boa e ruim. Notícia boa, porque os usuários do SUS serão atendidos no momento da sua maior necessidade. Notícia ruim, porque indica como está a qualidade do atendimento à atenção básica ou Atenção Primária da Saúde (APS). Todos aqui nessa sala sabem que a baixa resolutividade da APS, leva a internações desnecessárias ou possivelmente evitáveis, e ao agravamento de doenças que levarão ao atendimento por equipes, espaços e tecnologias mais complexas e caras para o SUS. Portanto, quando o Dr. Adib Jatene sabiamente falou ontem que a “Estratégia de Saúde da Família não se baseia no médico, que é importante, mas no agente comunitário de saúde (ACS)”, ele deu o norte ou sinalizou que a discussão passa pelo fortalecimento da APS, da organização da gestão em todas as suas complexidades, numa rede integrada de serviços de saúde. Evitar que a diabetes leve um usuário futuramente a um Serviço de Hemodiálise é tarefa de uma equipe multiprofissional de saúde. Portanto, os gestores não podem perder o foco de que a APS, resolutiva, eficaz, forte, organizada numa rede integrada de serviços, com trabalhadores da saúde capacitados, satisfeitos com o seu local de trabalho, diminuirá os custos futuros com o agravamento dos doentes, não demandando outros serviços mais complexos e profissionais mais especializados. A conclusão a que chegamos é que é urgente dar prioridade a APS, consolidar a implantação da Estratégia da Saúde da Família com qualidade, com infraestrutura digna, com boa gestão pública e, principalmente, com uma carreira multiprofissional para os trabalhadores da saúde e financiamento adequado. Ontem se falou muita da ampliação da Residência Médica, que é necessário. O SUS precisa também de especialistas. Mas a formação do médico generalista para a APS é mais urgente, mais barata e mais eficaz para o SUS. Aplicar na APS hoje é colher grandes bônus futuros. A carreira multiprofissional não pode estar apenas no discurso de todos, tem que fazer parte das ações políticas e de gestão do trabalho. Ouço falar de plano de cargos carreiras e salários desde 1993 quando entrei no SUS. Fiz parte da Comissão que criou o PCCS-SUS Betim, nessa época. A Lei 8080/90 e 8142/90 já falava sobre isso. O documento “Princípios e Diretrizes para a NOB/RH-SUS de 2002 já definia pela elaboração do PCCS”, e propunha “a fixação de profissionais em função da garantia de acesso e equidade na oferta de serviços à população”. Propunha a adoção de “mecanismos legítimos de estímulo, propiciando vantagens financeiras, dentre outras, aos trabalhadores com dedicação em tempo integral ou dedicação exclusiva para a realização do seu trabalho”. Discuti na MNNP-SUS as bases para a aprovação das “Diretrizes Nacionais para a Instituição do PCCS no âmbito do SUS” – Protocolo 006/2006 da MNNP-SUS pactuado e assinado pelo gestor federal, gestores estaduais e municipais e pelos trabalhadores. Documento de vital importância para a Gestão do Trabalho, para a assistência integral e fortalecimento do SUS, que preconiza dentre outras coisas: “a concessão de gratificação ou adicionais salariais dar-se-á no interesse da administração e será conferida ao trabalhador pelo exercício em condições especiais nas seguintes situações: I- Dedicação exclusiva do SUS; II- Atuação na Atenção Básica; III- Posto de trabalho de difícil provimento ou localização em área longínqua ou de difícil acesso; IV- Atividade de alto risco”. Portanto, as diretrizes para fixação de profissionais em áreas remotas e de maior provimento já está contemplada nas diretrizes para a carreira multiprofissional do SUS. Logo, é somente implantá-las. Em 28/07/2010 foi publicado a Portaria n? 2.169 do Sr. Ministro da Saúde José Gomes Temporão que “instituía a Comissão Especial para a elaboração de proposta de carreira para o SUS, com vistas a buscar soluções para ausência de profissionais permanentes na atenção à saúde da população brasileira”, com abrangência, inicialmente, para os profissionais médicos, os cirurgiões dentistas e os enfermeiros. A época, solicitamos pauta na reunião da MNNP-SUS para discutirmos essa Portaria, pois a maioria dos trabalhadores discordavam pela forma com a mesma foi publicizada e também pelo conteúdo. De fato, a Mesa Nacional não havia discutido nada sobre esse assunto. Em 18 e 19 de agosto de 2010 foi realizado o Seminário sobre Profissão de Saúde: Interdisciplinaridade e Necessidades Sociais do SUS, aqui em Brasília, e numa fala minha numa das Mesas já defendia que a discussão de carreira para multiprofissionais de saúde deveria ser feita na MNNP-SUS, como acontecido há 5 anos com as Diretrizes Nacionais do PCCS, não em detrimento de outros fóruns legítimos, mas por ser um local privilegiado de negociação e que tem a presença do gestor federal (vários ministérios), CONASS, Conasems, Prestadores Públicos e Privados e representação sindical do conjunto dos trabalhadores de saúde do SUS. Neste Seminário, nos é apresentada a proposta de Serviço Civil Voluntário para os médicos com as seguintes características: −permanência de 1 a 2 anos na Equipe de Saúde da Família e Unidades de Urgência; −Locais definidos à partir do Mapa de Necessidades de Saúde; −Salário da Equipe de Saúde da Família; −Bônus crescente para qualificação para Residência Médica; −Supervisão da Escola Médica local ou através do Telesaúde.; Aqui as representações sindicais começam a ver alguns problemas ou dúvidas que terão de ser dirimidas. A nosso ver, há precariedade de vínculo para o médico da ESF nos 2 anos de prestação de serviço à Estratégia de Saúde da Família. ? mais uma proposta de cobertura temporária do médico na ESF? A proposta é uma espécie de estágio ou trampolim para a Residência Médica? Não será um privilegiamento para a formação especialista, em detrimento da formação e estímulo à permanência na Estratégia da Saúde da Família, e uma formação para a iniciativa privada, que tem histórico de remunerar melhor o médico especialista? E se o médico, eventualmente, acreditar na proposta do Saúde da Família e querer entrar numa carreira do SUS no final dos 2 anos, como será feito? Concluindo, não é apresentado uma proposta de permanente fixação, mas algo temporário, por no máximo 2 anos. Logo, não é a solução para o problema. Os trabalhadores da Mesa Nacional não discordam que há escasses de médicos para o SUS, não só nas áreas longínquas mas também nos grandes centros, como regiões metropolitanas. O Secretário Antônio Carlos Nardi falou isso muito bem, conflitando com as informações da categoria médica, que disseram que não faltam profissionais, mas que os mesmos estão mal alocados. Em algum momento, foi falado que “muitas vezes o problema da fixação de médico não é a falta de dinheiro” (Nardi), em outro momento afirmou-se que é necessário trabalhar na regulamentação da EC 29 e na revisão da Lei de Responsabilidade Fiscal, no impacto das ações do SUS, para se ter mais dinheiro para a saúde. Chegamos à conclusão novamente que o problema é multicausal e que a solução tem que ser multivariada. Logo: −Há problemas de fixação de médicos; −Há problemas de fixação de outros profissionais, talvez em menor intensidade, tão bem avaliados em artigos e capítulos de livros (Capítulo 9 - “O trabalho de Saúde nas Regiões de Fronteiras Brasileiras” - do livro: “Trabalho e Educação em Saúde no Mercosul”, de 2008). −A formação do trabalhador nas 14 profissões da saúde não é direcionada para o SUS, é também muitas vezes deficiente e sem qualidade. −Há um estímulo à especialização, em detrimento da formação generalista, contrariando o que foi preconizado nas Diretrizes Nacionais da Educação para os cursos de saúde, recentemente implantadas. −Nossos equipamentos de saúde não são planejados ou construídos para um atendimento humanizado ao usuário do SUS, e para um conforto do trabalhador da saúde, uma vez que ele fica cerca de 1/3 de sua vida produtiva nesse espaço. −As tecnologias da informação, que refletem um ganho para a gestão, economia de gastos, formação de banco de dados, conforto para o trabalhador não tem chegado a todos os municípios. −A educação permanente ainda está aquém do seu propósito que é a manutenção do conhecimento e a incorporação de novas tecnologias de saúde, para o trabalhador da saúde. − No olhar dos trabalhadores da Mesa Nacional é necessário um movimento de todos para fazer cumprir os acordos negociados na Mesa. Desta feita: 1. Devemos envidar esforços para a implantação de PCCS?s utilizando as diretrizes nacionais de carreira multiprofissional do SUS, conforme Protocolo 006/2006 da MNNP-SUS e demais protocolos, como Formação do Sistema Nacional de Negociação; Desprecarização do Trabalho; Diretriz para a Cessão de Servidores, etc... 2. Os 3 entes federados devem iniciar um processo de recomposição de salário e definição de salário mínimo para os trabalhadores da saúde, respeitando a sua colocação na carreira, como forma de valorizar o Serviço Público na Saúde e tornar a carreira SUS atraentes. 3. Obviamente, deverá repactuar o financiamento do SUS com alocação de mais recursos financeiros e discutir a revisão da LRF, com racionalidade, de forma que ela não seja empecilho para a valorização dos servidores e sim parte da solução. 4. A formação profissional deve ser provida à luz das necessidades do SUS, tendo uma política de permanente pactuação entre o MS/ME/Entidades de Classes. 5. Por fim, já está agendado na próxima reunião da Mesa Nacional, em maio próximo, a pauta sobre esse Seminário de Fixação. Penso que, como disse anteriormente, essa discussão e todas as outras referentes à carreira do SUS devem ser realizadas/provocadas/encaminhadas na MNNP-SUS. 6 7Obrigado! Waltovânio Cordeiro de Vasconcelos Representante da Fenafar Pelos Trabalhadores da MNNP-SUS