AVALIAÇÃO DOS PARÂMETROS EXECUTIVOS PARA CONSTRUÇÃO DE
CAMADA ESPESSA DE BASE CIMENTADA
Amanda Helena Marcandali da Silva
José Mario Chaves
arteris
Ana Luisa Aranha
Liedi Legi Bariani Bernucci
Kamilla Lima Vasconcelos
Escola Politécnica da Universidade de São Paulo
RESUMO
Este trabalho apresenta os parâmetros construtivos para a execução de camadas de Brita Graduada Tratada com
Cimento, de Solo-Cimento e de Reciclagem de Camadas com Cimento, com consumo mínimo de 4% em massa
de Cimento Portland, em espessuras de 25 cm a 30 cm, compactadas em única camada. O aumento expressivo do
tráfego tem exigido a construção de pavimentos mais robustos, sendo mais adequada a adoção de estruturas com
base e/ou sub-bases em camada cimentada, ampliando a capacidade de suporte frente às solicitações. O avanço
na tecnologia dos equipamentos para compactação vem permitindo que sejam executadas espessuras superiores
ao limite previsto em normatização, garantida a eficiência de compactação, associada à proporcional
produtividade. São apresentados os resultados comparativos do desempenho de trechos experimentais com 20
cm, 25 cm e 30 cm de espessura de camada cimentada compactada em camada única, bem como resultados de
ensaios de comportamento mecânico em amostras extraídas dos trechos. Avaliações mecânicistas dos
pavimentos fundamentam a definição de parâmetros deflectométricos admissíveis para o projeto e para a
construção de pavimentos com diferentes espessuras de camada cimentada. O trabalho propõe uma sequência de
verificações construtivas para assegurar o sucesso de restaurações de pavimentos flexíveis com implantação de
camada cimentada de base ou de sub-base. Procurou-se limitar as tensões de tração atuantes na camada
cimentada por meio do aumento da espessura desta camada, pela restrição da deformabilidade da camada
subjacente à camada cimentada, e pela proteção da camada cimentada por espessura de revestimento asfáltico.
Palavras-chave: BGTC; deflexão admissível; eficiência de compactação; pavimentos semirrígidos; reciclagem
com cimento.
1. INTRODUÇÃO
A construção ou restauração de pavimentos duráveis destinados a tráfegos elevados tem
representado um importante desafio para a engenharia rodoviária, especialmente pelos
variados mecanismos de falência que têm acometido as estruturas nas rodovias do Brasil. O
reconhecido problema de excesso de carga impõe condições especialmente críticas a um
cenário já temerário. Somam-se a isto, dificuldades provenientes da qualidade variável dos
ligantes asfálticos e do emprego de agregados em formas pouco adequadas para garantir o
desempenho das misturas asfálticas.
No lado oposto deste sistema de manutenção de rodovias, a economia do país aumenta sua
demanda por vias de qualidade, que possam garantir o escoamento de bens e pessoas, com
segurança e agilidade, impactando diretamente numa extensa cadeia de valores, cuja
competitividade depende entre outros, da capacidade do sistema de transportes. Diante do
exposto, a construção de pavimentos duráveis figura como elemento fundamental, em todos
os demais aspectos abrangidos nas relações mencionadas.
O dimensionamento de pavimentos para vias de alto tráfego vem requerendo estruturas de
maior robustez, com evidentes consequências nos custos de construção ou recuperação. A
alocação de camadas de base e/ou de sub-base estabilizadas com cimento é mais indicada para
a construção de pavimentos com elevada solicitação, em oposição aos pavimentos com base
de comportamento puramente granular, nos quais a camada asfáltica de revestimento se
destaca na função de resistir aos esforços do tráfego, exigindo elevadas espessuras do custoso
material. As camadas cimentadas são mais eficientes; a capacidade de distribuição dos
esforços em 10 cm de camada cimentada pode equivaler a 25 cm de camada granular
estabilizada granulométricamente, segundo Balbo (1993). Além disso, a presença da camada
cimentada reduz as tensões de tração na camada asfáltica, permitindo a redução da espessura
de material asfáltico, em comparação à espessura requerida para um pavimento flexível
convencional equivalente (Suzuki, 1992). A adição de cimento em base granular propicia
ganho estrutural, uma vez que o pavimento se altera de flexível para semirrígido (Yoder;
Witczak, 1995)
Entretanto, a especificação de camadas cimentadas enfrenta uma série de receios técnicos
fundamentados em grande parte, em normatizações carentes de atualizações e em paradigmas
que desconsideram a evolução tecnológica das últimas décadas. Experiências de fracassos
também representam importantes obstáculos na adoção de pavimentos semirrígidos, tendo em
vista que a falência da camada cimentada produz extensos efeitos de deterioração nas
camadas sobrejacentes.
2. PAVIMENTOS SEMIRRÍGIDOS
Os pavimentos com camada cimentada de base, intensamente utilizados em meados do século
passado, foram alvo de diversas considerações, limitações e alterações. A espessura máxima
de compactação foi, e permanece limitada a 20 cm para compactação em uma única camada,
tendo em vista os equipamentos disponíveis na década de 1970, como citado nas
especificação do DNIT (2010), onde consta limitações de espessura em 20 cm para camadas
de solo melhorado com cimento.
O teor de cimento, por sua vez, também foi alvo de críticas, por uma série de considerações
de que aumentos expressivos no teor de cimento acarretavam em elevados valores de módulo
de elasticidade, sem que a resistência à ruptura por tração do material acompanhe esse
incremento na mesma proporção, culminando com o aumento nas tensões de tração
absorvidas pela camada, sem que esta tenha resistência suficiente para suportar aos esforços
solicitantes. O trincamento por retração, resultado imediato atribuído ao aumento nos teores
de cimento, impôs restrições na dosagem da mistura estabilizada com cimento.
De acordo com Balbo (2007), camadas em materiais estabilizados com cimento como a Brita
Graduada Tratada com Cimento – BGTC podem apresentar comportamento sofrível, em
decorrência dos baixos teores de cimento (aproximadamente 75 kg/m3), com reduzida
quantidade de ligações pasta-agregado. Concretos Compactados com Rolo – CCR, de acordo
com o mesmo autor, tendem a apresentar um desempenho muito superior, baseado
principalmente na adição de teores mais elevados de cimento (de 80 kg/m3 a 380 kg/m3),
uma vez que a distribuição granulométrica, conforme proposto na especificação do DNIT
(2004) para CCR é bastante similar à especificação para BGTC da ABNT (1991). Com base
nos aspectos mencionados, incrementos importantes no desempenho das camadas
estabilizadas com cimento podem advir do aumento no teor de cimento Portland incorporado.
Os limites fixados para a resistência das camadas estabilizadas com cimento são os principais
balizadores para a dosagem das misturas. As resistências à tração e à compressão são
avaliadas, de modo geral, aos 7 e 28 dias de cura, de modo que este controle deve estar
associado ao projeto estrutural do pavimento.
A ocorrência de trincamentos nas camadas de base estabilizadas com cimento, cujo problema
tende a se refletir rapidamente para as camadas de revestimento, implicando em falência
conjugada das camadas, deu origem aos pavimentos invertidos, com alocação de camada
granular estabilizada granulometricamente, entre a camada cimentada e a camada asfáltica, a
fim de impedir a reflexão de trincas para o revestimento (SUZUKI, 2008). A presença da
camada granular contribui para a proteção da camada cimentada, contudo, devido a sua
elevada deformabilidade, exige espessuras robustas de revestimento asfáltico, uma vez que
este recebe grande parte das solicitações. No mesmo intuito, a camada de substrato que dá
suporte à camada cimentada reduz os riscos de falência prematura.
3. MATERIAIS ESTABILIZADOS COM CIMENTO PORTLAND
Diversos materiais podem ser estabilizados quimicamente com a adição de cimento Portland,
destinados à aplicação como camada de base e/ou de sub-base em pavimentos. São
usualmente utilizadas composições de Solo-Cimento, Brita Graduada Tratada com Cimento e
Reciclagem com Cimento. Os materiais citados obedecem a procedimentos específicos e
individuais de dosagem, com importantes diferenças na composição granulométrica, teor de
umidade e teor de cimento. Entretanto, as características de rigidez que as misturas devem
atender são similares.
Os Solo-Cimento vem sendo amplamente utilizado desde a década de 1960, especialmente em
locais com baixa disponibilidade de pedreiras para obtenção de agregados pétreos (Bernucci
et al, 2007). Na dosagem de misturas de solo-cimento, indica-se limitar a porcentagem de
argila, sob o risco de ser requerido teor de cimento muito elevado, inviabilizando
tecnicamente pela maior ocorrência de trincas por retração e economicamente, uma vez que o
aumento no teor de cimento onera os custos.
A Brita Graduada Tratada com Cimento, intensamente difundida no final da década de 1970,
vem sendo indicada para compor pavimentos de vias com elevado volume de tráfego
(Bernucci et al, 2007). A ABNT recomenda teores de cimento entre 3% e 5% em massa e
avaliação da mistura em diferentes porcentagens de umidade em relação à umidade ótima.
Balbo (2007) ressalta que as maiores resistências para este material são obtidas em misturas
com umidade 1% abaixo da ótima.
A reciclagem das camadas deterioradas dos pavimentos vem sendo amplamente difundida e
avaliada na restauração de pavimentos. Inerente ao processo de reciclagem, a variação no
material resultante da fresagem dos pavimentos deteriorados representa o principal desafio
para a adoção da técnica. Tendo em vista consideráveis variações granulométricas, o
procedimento de dosagem tem se baseado em limites fixados a partir do conhecimento sobre
o comportamento de misturas de Solo-Cimento e de BGTC; são indicados teores mínimos de
cimento, tal como na BGTC, e é indicado o controle sobre a fração fina, tal como nas misturas
de Solo-Cimento. Os parâmetros de resistência são igualmente atribuídos, independente da
distribuição granulométrica resultante. Mallick (2002) concluiu, a partir de estudos do
desempenho de trechos reciclados com adição de 5% de cimento, que estes não apresentaram
indícios de danos, enquanto pavimentos com base estabilizada apenas pela incorporação de
agregados, sem cimento, apresentaram desempenho inadequado, com danos precoces. A
falência de camadas cimentadas pode estar associada a diversos fatores, dentre os quais
destacam-se neste trabalho: dosagem da mistura, espessura da camada cimentada, grau de
compactação, limitação das tensões solicitantes e controle tecnológico.
Esta pesquisa utiliza resultados da construção de um trecho experimental com espessuras
variáveis de camada reciclada cimentada, conforme se verifica na Figura 1. Segmentos com
camada em BGTC e em Solo-Cimento também foram avaliados a partir de ensaios
laboratoriais em amostras extraídas de pista; foram verificados comportamentos mecânicos
similares para os três materiais. Os três trechos estão com a camada reciclada com cimento
assentes sobre material granular de origem dos rejeitos da indústria de ferro.
Figura 1 – Perfil esquemático do trecho experimental
3.1. Dosagem da Mistura
O teor de cimento, conforme mencionado, deve ser suficiente para que a mistura apresente as
características de rigidez propostas em projeto. Com base na avaliação de diversas amostras
de pavimentos construídos utilizando os três tipos de misturas citadas, os autores sugerem a
adoção dos seguintes parâmetros apresentados na Tabela 1.
Tabela 1 – Limites de resistência à compressão e à tração
Resistência à Compressão Simples
(ABNT NBR 5739) - MÍNIMO
7 dias
28 dias
4,2 MPa
7,0 MPa
Resistência à Compressão Diametral
(ABNT NBR 7222) - MÍNIMO
28 dias
1,0 MPa
O procedimento de dosagem deve avaliar, independente do tipo de distribuição
granulométrica, o teor de umidade adequado para atender aos limites mínimos de resistência
especificados. Os corpos de prova de misturas coletadas na pista devem ser moldados
concomitantemente com a conclusão do processo de compactação, sendo representativo da
resistência efetiva da pista. Posteriormente, após a cura da camada, devem ser extraídos
corpos de prova para a confirmação do atendimento aos limites de resistência.
Algumas especificações definem faixa granulométrica específica para a utilização de
agregados reciclados na pavimentação, permitindo a adição de agregados virgens para
correção, a fim de atender aos limites definidos (DER, 2006). As particularidades de cada tipo
de mistura, no entanto, devem ser avaliadas sempre com vistas aos limites de resistências,
viabilidade econômica e aos limites de cimento incorporado.
A avaliação de amostras extraídas de pista contemplou a realização de ensaios de ultrassom e
de módulo de elasticidade (ABNT, 2003), respectivamente apresentados na Figura 2.
Figura 2 – Ensaio de ultrassom (esquerda) e de módulo de resiliência em amostras extraídas do trecho
experimental (direita)
Os resultados dos ensaios com amostras das camadas recém construídas são apresentados na
Tabela 2. Não foi possível inferir a variação qualitativa no comportamento mecânico das
amostras, contudo se observa a mesma ordem de grandeza entre as amostras, para ambos os
ensaios realizados, sendo um importante indicativo de que o aumento da espessura não trouxe
prejuízos no que tange à dosagem e, portanto, características de rigidez das camadas.
Tabela 2 – Resultados dos ensaios de Ultrassom e de Módulo de Elasticidade
Espessura da
Camada
Ultrassom
Velocidade Média (km/s)
Módulo de Elasticidade
(MPa)
20 cm
2,9
8000
25 cm
2,7
8000
30 cm
3,1
9100
3.2. Limitação das Tensões Solicitantes
No dimensionamento estrutural de pavimentos com camadas cimentadas, devem ser avaliados
os principais elementos capazes de ampliar a vida de fadiga da camada cimentada. Tendo em
vista que a durabilidade da camada cimentada é diretamente associada à durabilidade do
pavimento, torna-se fundamental proteger esta camada, de modo que apenas as camadas
posicionadas sobre ela requeiram trabalhos de manutenção ao longo da vida útil do
pavimento.
As tensões de tração na fibra inferior da camada cimentada são diretamente influenciadas por
três fatores primordiais: (i) a espessura da camada cimentada, (ii) a espessura de camada sobre
a camada cimentada, e (iii) a capacidade de suporte das camadas subjacentes à camada
cimentada. O aumento da espessura da camada cimentada unicamente compactada reduz
sobremaneira a tensão sofrida pela camada, respeitando a equação do momento de inércia, no
qual o fator altura é elevado ao cubo. Assim é ampliada a resistência ao movimento, limitando
a flexão da camada.
O trecho experimental construído na rodovia Fernão Dias, com variação na espessura da
camada cimentada, entre 20cm, 25cm e 30 cm, mantida a espessura de revestimento, foi
avaliado quanto ao seu desempenho estrutural a partir de levantamentos de deflexão, com
equipamento Falling Weigth Deflectometer – FWD. Os resultados são apresentados na Figura
3. Observa-se a menor deformabilidade das camadas com 25cm e 30cm de espessura, em
relação à espessura de 20cm.
0
Distância do ponto de aplicação de carga (cm)
20
40
60
80
100
120
0
Deflexões (0,01mm)
10
20
30
40
50
60
Figura 3 – Deflexão medida no trecho experimental com FWD após 30 dias da execução do pavimento
3.3. Compactação
As camadas estabilizadas com cimento devem ser compactadas com rolos tandem vibratórios,
associada à produtividade do rolo às espessuras as serem compactadas. O grau de
compactação mínimo recomendado é de 95% da energia modificada, apesar da exigência de
100% de grau de compactação na energia intermediária, como preconizado pelo DNIT.
O procedimento de carregamento, transporte e compactação não deve exceder 3 horas, após a
adição do cimento, tendo sidos verificados fracassos sistemáticos em camadas que tiveram
este período estendido, por dificuldades operacionais.
O procedimento de compactação mostrado na Figura 4 aponta para a necessidade de
adequação entre a produção da usina e a produtividade dos rolos compactadores. O aumento
na espessura da camada cimentada, avaliado na construção do trecho experimental, mostrou
que os equipamentos atuais dispõe de capacidade suficiente para garantir o grau de
compactação requerido, mesmo para a elevada espessura de 30cm, preservadas as relações de
produtividade dos equipamentos. O grau de compactação foi verificado nas porções superior e
inferior das camadas, para todas as espessuras, sendo atingidos os valores mínimos
determinados em norma.
A identificação de pontos com deficiência de drenagem deve ser prévia à compactação, pois a
presença de água altera as características da mistura durante a execução e reduz a eficiência
da compactação. A identificação posterior à compactação obriga a retirada do material no
ponto localizado, afetando a qualidade da execução (Figura 4).
Figura 4 – Equipamentos de compactação com produtividade compatível com a produção e ocorrência de
umidade pontual
3.4. Controle de Derformabilidade
As camadas de fundação, subjacentes à camada cimentada, são fundamentais para a redução
das tensões de tração atuantes. Elevada deformabilidade na fundação amplia a liberdade de
movimento de flexão da camada cimentada, que reage produzindo micro trincamentos que,
acumulados, podem conduzir à ruina precoce, mesmo que os movimentos repetidos sejam
provocados por cargas inferiores à carga de ruptura do material (fadiga). Por analogia, ao
comportamento de uma viga, é necessário aproximar os apoios para reduzir o movimento de
flexão.
A existência de água nas camadas de fundação, em especial para camada de solo, cujo
desempenho é reduzido bruscamente na presença de umidade, tem potencial danoso elevado,
justamente por reduzir a capacidade de suporte das camadas sob o material cimentado. A
comparação das tensões de tração na fibra inferior da camada cimentada, apresentada na
Figura 5, foi realizada com programa de simulação estrutural Elsym 5 – Elastic Layered
System, considerando-se variações nas espessuras de camada cimentada e na capacidade de
suporte das camadas de fundação.
Tensão de Tração - Reciclado
Tensão de Tração na Camada Reciclada com Cimento
7,0
20 cm - Rec. Cimento
6,5
25 cm - Rec. Cimento
6,0
30 cm - Rec. Cimento
5,5
5,0
4,5
4,0
3,5
3,0
2,5
Módulo Equivalente das Camadas de Fundação (kgf/cm²)
Figura 5 – Tensões de tração na camada cimentada em função da capacidade de suporte das camadas de
fundação, para espessura variável da camada cimentada
Observa-se uma variação importante no estado de tensões da estrutura, sendo possível
verificar que o aumento da espessura pode atuar de modo compensador quando da execução
sobre camadas mais deformáveis, com módulo de resiliência equivalentes abaixo de 100MPa.
Entretanto, é conveniente a adoção de camadas de reforço sob a camada cimentada,
principalmente para garantir a homogeneidade de suporte e a possibilidade de melhorar a
compactação no fundo da camada cimentada.
O mesmo tipo de avaliação foi realizado a fim de se comparar o efeito da rigidez da camada
cimentada: (i) 8 kgf/cm2, para mistura com resistência à compressão de projeto superior a 3,5
kgf/cm2 e, (ii) 1,0 MPa, para mistura com resistência à compressão de projeto superior a 0,7
MPa. Os resultados de repetição de eixos padrão (número N), obtidos a partir da equação de
fadiga proposta por Balbo (1993) para BGTC, são apresentados na Figura 6, sendo possível
observar que a redução da deformabilidade, por meio da maior resistência da mistura
estabilizada com cimento contribui de modo significativo para o ganho de vida útil da
camada.
Número N USACE - Vida útil da Camada Reciclada
Número N USACE - Camada Reciclada
1,0E+12
1,0E+10
1,0E+08
1,0E+06
1,0E+04
1,0E+02
1,0E+00
Módulo Equivalente das Camadas de Fundação (kgf/cm²)
20 cm - 10 kgf/cm2
30 cm - 10 kgf/cm2
25 cm - 10 kgf/cm2
20 cm - 8 kgf/cm2
Figura 6 – Número N calculado a partir das tensões de tração da camada cimentada, com variação na
espessura e rigidez, em função da capacidade de suporte das camadas de fundação
4. PARÂMETROS EXECUTIVOS
A execução de camadas cimentadas voltadas para a restauração de pavimentos deteriorados
apresenta uma série de particularidades de elevado impacto na durabilidade da estrutura. O
tratamento de bases existentes deterioradas se posiciona como recuperação profunda, indicado
geralmente por análises de bacias deflectométricas. Embora os procedimentos de análises de
deflexão sejam assertivos na determinação das camadas comprometidas, diferenciando
reconstruções (de todas as camadas da estrutura) de recuperações profundas (contemplando
camadas de base e/ou de sub-base), durante os procedimentos executivos, investigações
acerca das condições de todas as camadas devem ser realizadas de forma sistemática,
confrontando os resultados com o projeto de dimensionamento da restauração.
A durabilidade da camada estabilizada com cimento, conforme mencionado, depende do
controle de diversos fatores nas etapas de projeto de dimensionamento, dosagem da mistura e
execução. Na etapa de execução são sugeridos alguns procedimentos para nortear
adequadamente a restauração. As características das camadas de fundação, sobre as quais a
camada cimentada será apoiada é o ponto crítico mais relevante durante a execução, por este
motivo, os trabalhos de investigação precisam considerar os seguintes aspectos: (i)
integridade das camadas, (ii) presença de umidade, e (iii) controle da deformabilidade.
No que se refere à integridade das camadas de fundação, as avaliações devem identificar as
espessuras existentes e o tipo de material. No caso de materiais granulares como Brita
Graduada Simples – BGS ou macadame, é necessário avaliar o travamento da camada,
ocorrência de segregações, de perda de finos e de deformações. Nas camadas de solos por sua
vez, devem ser avaliadas eventuais deformações plásticas, tendo em vista que a ocorrência
deste problema pode não ser identificado previamente pela análise das bacias de deflexão,
mas tem influência em toda a estrutura, com ou sem camada cimentada.
A presença de água livre é danosa para qualquer pavimento, e apesar de ter grave efeito na
redução da capacidade de suporte das camadas de fundação, nem sempre são identificadas na
avaliação das bacias de deflexão. A presença da umidade deve ser tratada sempre
previamente; a eventual substituição de camadas de fundação, em função do elevado
comprometimento das mesmas não desobriga a execução de mecanismos de drenagem
eficientes para o correto escoamento das águas que permeiam todas as camadas do pavimento.
A Figura 7 mostra a presença de umidade identificada em um segmento homogêneo durante
os procedimentos de execução de restauração de pavimento, que reflete nas deflexões mais
elevadas, mas cuja bacia de deflexão medida por equipamento FWD, não apontou com
clareza esta deficiência.
Deflexão (0,01mm)
-30
Distancia do Ponto de Aplicação de Carga (mm)
20
70
120
0,0
20,0
40,0
60,0
80,0
km 0+40
km 0+80
km 0+120
km 0+160
Figura 7 – Umidade verificada após a inspeção que reflete nas deflexões, mas de difícil identificação nas
bacias de deflexão do segmento
O controle da deformabilidade das camadas de fundação é o modo mais rápido para apontar
deficiências nas camadas de fundação. As medidas de deflexão realizadas diretamente sobre
estas camadas são importantes indicadores durante os trabalhos executivos, uma vez que o
levantamento pode ser realizada após a retirada de cada camada da estrutura a ser recuperada.
Uma vez que o projeto de dimensionamento indicou a necessidade de recuperação da base, é
necessário fresar o revestimento para se iniciar o procedimento de investigação. Na Figura 8 é
apresentada uma proposição sistemática com limites deflectométricos para uma via de
elevado tráfego (N USACE = 2,0E+08).
Figura 8 – Matriz de avaliação das condições das camadas existentes para restauração
Conforme se observa na matriz de avaliação proposta, a avaliação da deflexão em cada
camada (base, sub-base, subleito) são os principais indicadores das características estruturais
existentes. A execução de camada estabilizada com cimento sobre camadas de elevada
deformabilidade podem camuflar a existência de deficiências importantes, que inviabilizam a
eficiência dos trabalhos de restauração.
A substituição ou tratamento (Figura 9) de camadas muito deformáveis pode ser realizada
com materiais regularmente indicados para camadas de sub-base. O limite deflectométrico
deve ser proposto com base no número de solicitações do pavimento, contudo, valores
superiores a 140 (0,01 mm) sobre a camada de subleito não são indicados, tendo em vista que
valores dessa ordem de grandeza podem indicar a presença de “borrachudos”. Da mesma
forma, não são indicados resultados de deflexão superiores a 110 (0,01 mm) sobre a camada
imediatamente subjacente à camada cimentada.
Figura 9 – Avaliação da deformabilidade das camadas existentes definem a necessidade de substituição ou
tratamento das camadas
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
As camadas estabilizadas com cimento representam um importante incremento estrutural em
pavimentos, especialmente naqueles solicitados por tráfegos elevados. O aumento da vida útil
da estrutura com camada cimentada de base e/ou de sub-base é expressivo, contudo depende
de alguns fatores cruciais para o adequado funcionamento.
O controle da deformabilidade das camadas de fundação sobre a qual a camada cimentada é
apoiada é o principal ponto a ser avaliado durante os procedimentos executivos, devendo ser
definidos para cada projeto (em função no número de solicitações) os limites deflectométricos
para cada camada da estrutura.
A espessura da camada compactada amplia a vida útil da camada cimentada do modo
expressivo; projetos para pavimentos com tráfegos elevados devem considerar a adoção de
espessura mínima de 25 cm. A espessura de camadas de revestimento, apesar de ser
minimamente requerida devido às desprezíveis tensões atuantes em si, deve ser avaliada no
intuito de proteger a camada cimentada, reduzindo nesta, o estado de tensões solicitantes.
Os fatores mencionados neste artigo devem ser atentamente considerados na execução de
restaurações com camada cimentada, tendo em vista que a falência deste tipo de material,
condena também as camadas adjacentes, exigindo correções integrais das camadas
envolvidas.
AGRADECIMENTOS
Os autores agradecem a ANTT – Agência Nacional de Transportes Terrestres através do RDT (Recursos de
Desenvolvimento Tecnológico) que possibilitaram a realização das pesquisas aqui apresentadas.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Tratada com Cimento – BGTC. 1991.
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2007.
ABNT NBR 7222/ 2010 – Associação Brasileira de Normas Técnicas – Resistência à Tração por Compressão
Diametral. 2010.
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Elasticidade de Deformação e da Curva Tensão - Deformação. 2003.
BALBO J.T. Estudo das Propriedades Mecânicas das Misturas de Brita e Cimento e sua Aplicação aos
Pavimentos Semirrígidos. 1993.
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BERNUCCI, L. B.; MOTTA, L. M. G, CERATTI, J. A. P.; SOARES, J.B. Pavimentação Asfáltica: Formação
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DNIT – Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes – Base de solo melhorado com cimento –
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SUZUKI, C. Y. PTR 5791 – Projeto de Pavimentos Flexíveis – Notas de Aulas – Disciplina Ministrada no Curso
de Pós Graduação da EPUSP. 2008
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cimentada). Tese de Doutorado, Escola Politécnica da USP, São Paulo. 1992.
YODER, E.; WITCZAK, M. Principles of pavement design. 2a. Edição: John Willey & Sons, New York. 1975.
1,2
arteris - Estrada Municipal José de Souza Bueno, 97 – Vargem - SP; [email protected];
amarcandali@gmail,.com
3,4
Escola Politécnica da Universidade de São Paulo - Laboratório de Tecnologia de Pavimentação, Avenida Prof.
Almeida Prado Trav. 2, nº 83; Cidade Universitária - SP; [email protected]; [email protected];
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avaliação dos parâmetros executivos para construção de camada