Contemplativos do Verbo
do Eterno Pai
no Espírito de Amor
Dia de Oração pela
VIDA CONSAGRADA CONTEMPLATIVA
SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE
19 de Junho de 2011
Comissão Episcopal Vocações e Ministérios
Dia de Oração pela
VIDA CONSAGRADA CONTEMPLATIVA
Contemplativos
do Verbo
do Eterno Pai
no Espírito de Amor
Elementos para a Reflexão e Liturgia elaborados e seleccionados por
Carmelo de Cristo Redentor – Carmelitas de Aveiro
SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE
19 de Junho de 2011
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Elaborado pelas Carmelitas de Aveiro – Carmelo de Cristo Redentor
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A vida contemplativa é esta memória viva do mistério de Cristo
Mensagem
1.No dia 19 de Junho, solenidade da Santíssima Trindade, a Igreja em Portugal
promove, tal como noutros países e a exemplo de anos anteriores, a Jornada de
Oração pela Vida Contemplativa.
São várias as dioceses de Portugal que têm comunidades de vida contemplativa
e certamente há religiosos(as) contemplativos(as) provenientes de todas as
dioceses do nosso país.
Preparar este dia na oração e na gratidão é um dever de toda a Igreja. A vida
contemplativa é um dom para a Igreja e uma bênção para o Mundo. Viver,
também, esta Jornada como momento para semear a esperança e cultivar o
terreno fecundo onde surjam novas vocações é um imperativo que a Igreja não
esquece.
2.Quero proclamar com o Salmo 124 (125): «Enche de bens, Senhor, aos bons e
aos rectos de coração».
E porque de bens divinos se trata, sei que, como afirma o Santo Padre Bento XVI,
«uma comunidade contemplativa é um lugar em que Deus pode morar» e que
cada mosteiro é, hoje, qual gruta de Elias, contemplativo de Deus, e é monte
santo a que Moisés sobe para falar com o seu Senhor e Libertador do seu Povo.
Dou graças a Deus pelas comunidades contemplativas presentes em Portugal e
muito particularmente pela Comunidade das Irmãs Carmelitas do Convento de
Cristo Redentor, em Aveiro. A esta Comunidade se deve o presente contributo
de reflexão e de oração, elaborado a pedido da Comissão Episcopal Vocações e
Ministérios (CEVM).
Neste texto, as Irmãs ajudam-nos a «buscar e a ver o que o Senhor nos deu a
conhecer» (Lc 2, 1-20). A comunhão que a esta Comunidade me une, como bispo
diocesano, e a alegria diariamente renovada pela bênção que ela constitui para
toda a diocese de Aveiro, permite-me respaldar nas suas tão oportunas reflexões
e apropriar das suas próprias palavras para esta breve mensagem.
Ir a Belém, como nos convida S. Lucas, significa firmar os nossos passos no chão
sagrado da procura e do encontro de Deus e descalçar as nossas sandálias para
percebermos que estamos a deixar marcas das nossas pegadas em oásis de paz,
iluminados pela luz da glória divina. Em Belém - Casa do Pão – o Verbo se faz
carne e aí se contempla o Filho Unigénito de Deus.
A vida contemplativa é esta memória viva do mistério de Cristo e o
contemplativo é aquele que vai à frente, a «proclamar um ano de graça da parte
do Senhor». É o enamorado de Deus, atraído pela luz, seduzido pela voz,
decidido a avançar na vanguarda da Igreja, como profeta de um tempo novo.
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3.Os pastores foram humildes e singelos contemplativos, na escuridão da noite.
Para eles contemplar significou estar perto de Jesus em encontro de
proximidade, fixando os olhos em Jesus para ver no visível o que é invisível.
Maria, Mãe de Jesus, era ali a primeira a ter a ousadia de procurar ver e
contemplar o que o Anjo lhe dissera.
Desde esse momento primeiro de encanto e contemplação, que não faltaram, ao
longo dos séculos da vida da Igreja, atentos(as) contemplativos(as) fixando os
seus olhos em Cristo para n’Ele ver o que aconteceu e o que o Senhor nos deu a
conhecer.
Muitos deles estão hoje connosco em mosteiros e conventos que se elevam do
anonimato das casas das cidades ou emergem dos recantos serenos da beleza
dos campos, como mãos erguidas de oração permanente a Deus ou como faróis
que iluminam os mares das nossas vidas.
Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein), ela própria contemplativa, depois de
um longo e belo percurso, escrevia: «Os acontecimentos visíveis da história da
Igreja que renovam a face da terra preparam-se no diálogo silencioso das almas
consagradas a Deus».
Consciente e conhecedor desta mesma certeza, Paulo VI lembrava-nos nos
momentos decisivos do Pós-Concílio que: «é no coração dos contemplativos que
se decide a sorte da Igreja».
Surpreende muita gente que haja hoje homens e mulheres, alguns tão jovens,
que traduzem nas suas vidas este doce encanto da contemplação, trocando o
rumor do mundo pelo silêncio do claustro e percebendo que não é dos que
muito se afadigam com as coisas que depende o futuro do mundo novo que
somos chamados a construir.
Se a ânsia do ter e a sofreguidão do fazer não derem lugar ao ser de cada pessoa
e ao viver em comunhão, o mundo dificilmente encontrará espaço para Deus e
futuro para o Homem.
O êxodo do mundo a que a vida de clausura chama os(as) contemplativos(as)
não significa uma recusa da vida nem uma rejeição do mundo mas sim um amor
maior por Deus, autor da vida, e um amor maior pelo mundo.
Nesta hora de apelo a uma renovada evangelização e na oportunidade de um
repensar em comum da pastoral na Igreja em Portugal, urge dar à vida
contemplativa um lugar primordial na oração e na gratidão de todos nós.
Esta é, também, a hora oportuna e necessária para pedir aos(às)
contemplativos(as), com as palavras de Bento XVI: «infundi com a vossa oração
um novo alento de vida na Igreja e no mundo».
+António Francisco dos Santos
Bispo de Aveiro, Presidente da CEVM
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Intérpretes da Igreja Esposa
«A Igreja, Esposa do Verbo, realiza singularmente o mistério da sua união
exclusiva com Deus naqueles que se entregaram a uma vida integralmente
contemplativa» (VS 1). Neste mesmo sentido fala João Paulo II ao apresentar
a vocação à clausura como «sinal da união exclusiva da Igreja-Esposa com o
seu Senhor sumamente amado» (VC 59). Bento XVI ao falar a uma
comunidade contemplativa reafirma este sentir da Igreja e chama a vida
contemplativa a sentir com a Igreja, dado o lugar peculiar que nela ocupa e
o dom precioso que constitui no mistério da santidade da própria Igreja.
Deixamos a palavra do Papa que de forma tão bela ilustra a graça singular
que é a vida contemplativa de clausura:
«Queridas Irmãs,
dirijo a cada uma de vós as palavras do salmo 124 (125): “Enche de bens, Senhor,
aos bons e aos rectos de coração” (v. 4.) Saúdo-vos sobretudo com este augúrio:
esteja sobre vós a bondade do Senhor.
A Oração Litúrgica, como claustrais, marca os ritmos dos vossos dias e torna-vos
intérpretes da Igreja-Esposa, que se une de forma especial, com o seu Senhor.
Ordenada a esta oração coral, que encontra o seu cume na participação
quotidiana no Sacrifício Eucarístico, a vossa consagração ao Senhor no silêncio e
no ocultamento torna-se fecunda e cheia de frutos, não apenas em ordem ao
caminho de santificação e purificação, mas também em relação a esse
apostolado de intercessão que fazeis por toda a Igreja, para que possa aparecer
pura e santa na presença do Senhor. Vós que conheceis bem a eficácia da oração,
experimentais em cada dia quantas graças de santificação esta pode obter na
Igreja.
Queridas Irmãs, a comunidade [contemplativa] que formais é um lugar em que o
Senhor pode morar; esta é para vós a Nova Jerusalém, para a que sobem as
tribos do Senhor para louvar o nome do Senhor (cfr Sl 121,4). Sede agradecidas à
divina Providência pelo dom sublime e gratuito da vocação monástica, à que o
Senhor vos chamou sem mérito algum da vossa parte. Com Isaías podeis afirmar
“o Senhor me plasmou desde o seio materno” (Is 49,5). Antes ainda que vós
nascêsseis, o Senhor tinha reservado para Si o vosso coração para o poder encher
do seu amor. Através do sacramento do Baptismo recebestes em vós a graça
divina e, imersas na sua morte e ressurreição, fostes consagradas a Jesus, para
lhe pertencer exclusivamente. A forma de vida que recebestes, na modalidade de
clausura, coloca-vos, como membros vivos e vitais, no coração do corpo místico
do Senhor, que é a Igreja; e como o coração faz circular o sangue e mantém com
vida o corpo inteiro, assim a vossa existência escondida com Cristo, entretecida
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de trabalho e de oração, contribui para sustentar a Igreja, instrumento de
salvação para cada homem que o Senhor redimiu com o seu Sangue.
É a esta fonte inesgotável a que vos aproximais com a oração, apresentando na
presença do Altíssimo as necessidades espirituais e materiais de tantos irmãos
em dificuldade, a vida sem sentido de quantos se afastam do Senhor. Como não
ter compaixão por aqueles que parecem andar perdidos sem meta? Como não
desejar que na sua vida aconteça o encontro com Jesus, o único que dá sentido à
existência? O santo desejo de que o reino de Deus se instaure no coração de cada
homem, identifica-se com a própria oração, como nos ensina Santo Agostinho:
Ipsum desiderium tuum, oratio tua est; et si continuum desiderium, continua
oratio (cfr Ep. 130, 18-20) [O próprio desejo de ti é oração tua; e se o desejo
continua, continua a oração]; por isso como fogo que arde e nunca se apaga, o
coração permanece de pé, não deixa nunca de desejar e eleva sempre a Deus o
hino de louvor.
Reconhecei por isso, queridas Irmãs, que em tudo o que fazeis, mais além dos
momentos pessoais de oração, o vosso coração continua a ser guiado pelo desejo
de amar a Deus. Com o bispo de Hipona, reconhecei que foi o Senhor que pôs nos
vossos corações o seu amor, desejo que dilata o coração, até torná-lo capaz de
acolher o próprio Deus (cfr In O. Ev. tr.40, 10). É este o horizonte da peregrinação
terrena! Esta é a vossa meta! Por isto escolhestes viver no ocultamento e na
renúncia aos bens terrenos: para desejar acima de tudo esse bem sem igual, essa
pérola que merece a renuncia a qualquer outro bem para possuí-la.
Que possais dizer todos os dias o vosso “sim” aos desígnios de Deus, com a
mesma humildade com que a Virgem Santa disse o seu “sim”. Ela que no silêncio
acolheu a Palavra de Deus, vos guie na vossa consagração virginal, para que
possais experimentar no ocultamento a profunda intimidade vivida por Ela com
Jesus.»
Benedictus XVI
Visita ao Mosteiro Dominicano de Santa Maria
do Rosário, da Homilia na celebração da Hora
intermédia, 24 de Junho de 2010
L'Osservatore Romano, (Português) 26.06.2010 p. 16
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“Vamos ver o que aconteceu
e que o Senhor nos deu a conhecer”
Lc 2,15
A vida contemplativa é a ‘memória viva’ do
mistério de Cristo em todo o seu esplendor.
A ela estamos todos chamados, porque
todos somos convidados “àquele misterioso
encontro com Deus que é a oração” (VS 1).
Porém, de entre nós, Deus escolhe alguns
para que no silêncio e na solidão do
claustro se entreguem mais plenamente a
este memorial divino realizado pelo Eterno
Pai, que é o ‘contínuo descontinuo’ da
‘encarnação’ do Seu Verbo, isto é, a ‘recriação’ de cada ser humano que se abre à
graça e se deixa configurar com Cristo, na
totalidade do seu mistério.
Levados pela mão de S. Lucas vamos
aproximar-nos do mistério da vida
contemplativa pela porta do nascimento de
Cristo, mais precisamente da figura dos
Pastores. Depois do Anjo do Senhor lhes ter
aparecido e os ter envolvido à luz da glória do Senhor, depois de terem escutado
o anúncio da grande alegria, que é o nascimento de Cristo Senhor, e terem
ouvido uma multidão celeste a louvar a Deus, dizem entre si: “Vamos já a Belém
e vejamos o que aconteceu, o que o Senhor nos deu a conhecer.” (Lc 2, 1-20)
O mistério da vida contemplativa está aqui, neste ‘vamos ver o que o Senhor nos
deu a conhecer’. O Senhor vem ao encontro e revela-se, dá-se a conhecer,
estabelece um diálogo de fidelidade e amor com cada um dos que chama e
introdu-los no dinamismo próprio do mistério da ‘Encarnação’ que é a própria
contemplação. A vida contemplativa é o deixar-se envolver e submergir pela
corrente de amor que é a história da salvação.
Cada mosteiro contemplativo é uma ‘Belém’, uma ‘casa do pão’ como significa
Bethelem - um espaço em que o ‘Verbo se faz carne e contemplamos a sua glória
de Unigénito do Pai’ (Jo 1,14). Uma gruta como aquela em que Elias esperou a
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passagem do Deus vivo (1Rs 19). Ou um monte em que Moisés sobe para falar
com Deus. Ir a ‘Belém’ é ‘descalçar as sandálias’ e entrar na terra sagrada que é o
mistério da Encarnação, o assumir, de Deus, da nossa natureza humana. Entrar
na gruta de Belém é ir a esse “lugar solitário”, esse ‘lugar separado’ pela
presença do próprio mistério divino. Um mosteiro é essa ‘gruta de Belém’, esse
‘oásis de paz’ iluminado pela luz da glória do Unigénito do Pai, em que
“acolhendo o Verbo na fé e no silêncio adorador, os contemplativos se colocam
ao serviço do mistério da Encarnação” (VS 4).
O chamamento à vida contemplativa é um dom gratuito e amoroso do nosso
Deus, como é o chamamento à santidade feito a todos os cristãos. O
contemplativo é aquele que enamorado pela Beleza de Deus, se deixa atrair pela
Sua luz e conduzir pela Sua voz e decide pôr-se a caminho para ver o que
aconteceu e que o Senhor lhe deu a conhecer. Neste seu pôr-se a caminho, Ele
assume a vanguarda de toda a Igreja e ‘proclama o ano da graça do Senhor’
tornando-se profeta do tempo novo, fazendo suas com verdade e realismo as
palavras do discípulo amado: «O que existia desde o princípio, o que ouvimos, o
que vimos com os nossos olhos, o que contemplámos e as nossas mãos tocaram
relativamente ao Verbo da Vida, de facto, a Vida manifestou-se; nós vimo-la,
dela damos testemunho e anunciamo-vos a Vida eterna que estava junto do Pai e
que se manifestou a nós, o que nós vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para
que também vós estejais em comunhão connosco. E nós estamos em comunhão
com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo.»
Maria é a primeira a ter a ousadia de ir ver o que o Anjo do Senhor lhe tinha dito
acerca de Isabel (Lc 1, 39-45) e a confirmar no mais íntimo e profundo do seu ser
como a «palavra do Senhor é viva e eficaz» (Hb 4) e que como diz o Senhor pelo
Profeta Isaías «a palavra que sai da minha boca: não voltará para mim vazia, sem
ter realizado a minha vontade e sem cumprir a sua missão» (Is 55, 11). Ela vê
acontecer na sua própria vida a realização de tudo quanto lhe foi dito da parte
do Senhor.
Contemplar é “ir ver o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer”. E os
primeiros contemplativos da história são os pastores. São eles que na escuridão
da noite vêem a glória do Senhor, envolve-os a sua luz, e, escutam a voz que lhes
diz: «anuncio-vos uma grande alegria: nasceu-vos hoje um Salvador, que é
Cristo-Senhor.» O dom da vocação contemplativa é sempre um ver na noite da
fé a luz de Deus e ouvir a sua voz, manifestada no Verbo, palavra única do Pai.
Um ver na fé para conhecer no amor e viver em esperança. Uma esperança que
é espera orante da voz que nos manifesta a grandeza do Amor divino e nos
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oferece o dom da paz. «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por
Ele amados». Os contemplativos envolvidos pela luz do Senhor e deslumbrados
pela sua glória deixam-se inundar pela grande alegria do ‘hoje’ da salvação
oferecida pela presença divina e ‘aderem totalmente ao Senhor’ (cf. VS 1).
«Vendo-O [os pastores] contaram o que
lhes fora dito a respeito deste menino» (Lc
2,17). A contemplação confirma o que se vê
pela fé. Pela fé eles acreditaram e pelo
conhecimento amaram, como diz S. João
«quem ama conhece a Deus», e, tornaramse testemunhas vivas da Sabedoria do
Amor de Deus, «Deus amou tanto o mundo
que lhe deu o seu próprio Filho, para que
todo o que nele crê tenha a vida eterna».
No hoje da contemplação, o contemplativo
é chamado a viver o encontro com o
mistério do Salvador que é Cristo Senhor e
a tornar-se discípulo, testemunha e profeta
da Sabedoria do Amor de Deus. Na raiz da
vocação do contemplativo está um
encontro de amizade com a pessoa de
Jesus. Um encontro com o Verbo
Encarnado, o mesmo ‘Verbo’ no qual ele é
dito e se acolhe do Eterno Pai, aprendendo assim a viver na intimidade da
exultação da filiação divina. É este encontro que faz do contemplativo uma
pessoa ‘escondida com Cristo em Deus’, porque antes de se ‘esconder’ na
clausura do mosteiro, Deus escondeu-o, com Cristo e em Cristo, no seu mistério
de amor.
Neste ‘vamos ver o que aconteceu e Deus nos deu a conhecer’ antevê-se que
Deus realiza na história o que faz ver na fé, realiza na vida o que faz ‘pré-sentir’
no íntimo do coração. Deus revela-se como único Deus verdadeiro e vivo por
palavras e por obras, para que pudessem ser conhecidos, por experiência, os
seus planos sobre a humanidade e pudessem ser compreendidos mais profunda
e claramente (cf. VD 11). A vida do contemplativo forja-se na contemplação dos
sinais de Deus na história e no mundo descobrindo o realismo do Verbo. A
realidade da contemplação emerge do reconhecimento de tudo ter sido feito no
Verbo e por Ele tudo subsistir (Jo 1,3). Bento XVI diz-nos que «realista é quem
reconhece o fundamento de tudo no Verbo de Deus», assim, o Verbo torna-se
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por essência a terra sagrada que o contemplativo pisa. O ‘livro da Sabedoria
Eterna’ com que olha a realidade e com que ”dócil ao Mestre interior que é o
Espírito Santo e vivificado pelos seus dons, deixa a sua vida conformar-se com a
do Filho bem amado do Pai, como expressão de louvor e glória” (VS 3).
No seu ‘ir ver’ orante do mistério de
Cristo, ele aprende a ver a realidade
desde o Deus que o possui e que possui
todas as coisas. O contemplativo é
aquele que tem o olhar de enamorado,
próprio de Deus, e por isso não conhece
a Deus desde o homem, mas o homem
desde Deus. Conhece cada ser humano
em Deus e este é o verdadeiro encontro
com ‘o mistério do Salvador que é Cristo
Senhor’, porque, a todos, o Pai «do alto
dos céus nos abençoou com toda a
espécie de bênçãos espirituais em Cristo»
(Ef 1,3).
A vida contemplativa claustral vivida
nesta tensão vigilante de ‘ir ver o que
Deus nos deu a conhecer’, converte-se
numa resposta ao amor absoluto de Deus
pela sua criatura e na realização do seu
desejo eterno de acolhê-la no mistério de
intimidade com o Verbo (cf. VS 3).
A docilidade dos Pastores a esta
inspiração divina é resposta ao diálogo
Trinitário no amoroso acto de
condescendência divina, e, em cada contemplativo, é participação no Espírito, no
diálogo do Pai com o Filho, na manifestação da beleza que é a Verdade de Deus
– O Verbo Eterno luz dos homens – (Jo 1, 4). E a luz está em participar no eterno
diálogo de amor, em “espírito e verdade”, que é a plenitude da aliança com cada
contemplativo.
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Contemplativos do ‘Verbum Domini’
“Desde os primeiros séculos da Igreja, houve homens e mulheres que se
sentiram chamados a imitar a condição de servo abraçada pelo Verbo
Encarnado, e puseram-se a segui-Lo vivendo de um modo específico e radical, as
exigências derivadas da participação baptismal no mistério pascal da sua morte e
ressurreição. Deste modo, fazendo-se portadores da Cruz, comprometeram-se a
tornarem-se portadores do Espírito, homens e mulheres autenticamente
espirituais” (VC 6).
O contemplativo tem consciência de que «é criado na Palavra e vive nela; e não
se pode compreender a si mesmo, se não se abre a este diálogo.» (VD 22) Por
isso no seu diálogo com Deus, sob a hermenêutica do Verbo, realiza-se a
profecia: «Tu és meu filho eu hoje te gerei.» A Palavra de Deus revela a natureza
filial e relacional da sua vida. Por graça, é verdadeiramente chamado a
configurar-se com Cristo, o Filho do Pai, e a ser transformados n’Ele.
«Ó meu Deus, Trindade que eu adoro, ajudai-me a esquecer-me
inteiramente, para me estabelecer em Vós, imóvel e pacífica como se já a
minha alma estivesse na eternidade. Que nada possa perturbar a minha paz,
nem fazer-me sair de Vós, ó meu Imutável, mas que cada minuto me leve
mais longe na profundeza do vosso Mistério. Pacificai a minha alma, fazei
dela o vosso céu, vossa morada amada e o lugar do vosso repouso. Que
nunca aí eu vos deixe só, mas que esteja lá inteiramente, toda acordada em
minha fé, perfeita adoradora, toda entregue á vossa Acção criadora.»
(Elevação à Trindade)
De Deus Pai, fonte e origem da Palavra
«A economia da revelação tem o seu início e
a sua origem em Deus Pai. Pela sua palavra
«foram feitos os céus, pelo sopro da sua
boca todos os seus exércitos» (Sl 33, 6). No
Filho, «Logos feito carne» (cf. Jo 1, 14), que
veio para cumprir a vontade d’Aquele que O
enviou (cf. Jo 4, 34), Deus, fonte da
revelação, manifesta-Se como Pai e leva à
perfeição a educação divina do homem, já
anteriormente animada pela palavra dos
profetas e pelas maravilhas realizadas na criação e na história do seu povo e de
todos os homens.» O apogeu da revelação de Deus Pai é oferecido pelo Filho
com o dom do Paráclito (cf. Jo 14, 16), Espírito do Pai e do Filho, que nos
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«guiará para a verdade total» (Jo 16, 13). Deste modo, todas as promessas de
Deus se tornam «sim» em Jesus Cristo (cf. 2 Cor 1, 20). Abre-se assim, para o
homem, a possibilidade de percorrer o caminho que o conduz ao Pai (cf. Jo 14,
6), para que no fim «Deus seja tudo em todos» (1 Cor 15, 28).» (VD 20)
Deus manifesta-se como Pai que leva à perfeição a educação do homem divino
que está chamado a ser o contemplativo. A experiência inefável da sua
Paternidade Divina leva o contemplativo a reconhecê-LO como aquele que o
envolve e sustém, e como Aquele que está para além de si mesmo, que é o seu
Criador desde toda a eternidade. Como Cristo, também o contemplativo
exterioriza a sua relação com o Pai em momentos de solidão e oração, de
encontro e comunhão. «A vida contemplativa associada à oração de Jesus num
lugar solitário, é por si mesma, uma forma singular de participação na relação de
Cristo com o Pai.» A clausura é uma forma particular de estar com Cristo, através
da ‘pobreza radical’, e a oração e solidão, formas de união com Cristo “num
caminho de contínua ascensão para a casa do Pai”.
«Vós, ó Pai, inclinai-vos sobre esta vossa pobre pequena
criatura, “cobri-a com a vossa sombra”, não vede nela senão
“o Bem-amado no qual pusestes todas as vossas
complacências”.» (Elevação á Trindade)
Do Verbo Palavra do Pai
«A partir do olhar sobre a realidade como obra da Santíssima Trindade, através
do Verbo divino, podemos compreender as palavras: “Tendo Deus falado
outrora aos nossos pais, muitas vezes e de muitas maneiras, pelos Profetas,
agora falou-nos nestes últimos tempos pelo Filho, a Quem constituiu herdeiro
de tudo e por Quem igualmente criou o mundo” (Hb 1, 1-2).
Esta condescendência de Deus realiza-se, de modo insuperável, na encarnação
do Verbo. A Palavra eterna que se exprime na criação e comunica na história
da salvação, tornou-se em Cristo um homem, «nascido de mulher» (Gl 4, 4).
Vemo-nos colocados diante da própria pessoa de Jesus. A sua história, única e
singular, é a palavra definitiva que Deus diz à humanidade. (VD 11) (…) O
próprio Filho é a Palavra, é o Logos: a Palavra eterna fez-Se pequena; tão
pequena que cabe numa manjedoura. Fez--Se criança, para que a Palavra
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possa ser compreendida por nós». Agora a Palavra tem um rosto, que por isso
mesmo podemos ver: Jesus de Nazaré.
No Mistério Pascal, Jesus manifesta-se como a palavra da Nova e Eterna
Aliança: a liberdade de Deus e a liberdade do homem encontram-se
definitivamente na sua carne crucificada, num pacto indissolúvel válido para
sempre. (…) Cristo, Palavra de Deus encarnada, crucificada e ressuscitada, é
Senhor de todas as coisas; todas as coisas ficam recapituladas nele para
sempre. (VD 12) O mistério pascal apresentado no Novo Testamento surge
como a realização íntima do desígnio divino no Verbo encarnado, sublinhando
assim a unidade deste desígnio de acordo com as Escrituras. Estamos no
coração da Palavra que é Cristo.
A vitória de Cristo sobre a morte se verifica através da força criadora da
Palavra de Deus. Esta força divina proporciona esperança e alegria: tal é, em
definitivo, o conteúdo libertador da revelação pascal. Na Páscoa, Deus revelaSe a Si mesmo juntamente com a força do Amor trinitário que aniquila as
forças destruidoras do mal e da morte.
Assim, recordando estes elementos essenciais da nossa fé, podemos
contemplar a unidade profunda entre criação e nova criação e de toda a
história da salvação em Cristo. Jesus, o Filho do Homem compendia em Si
mesmo a terra e o céu, a criação e o Criador, a carne e o Espírito. É o centro do
universo e da história, porque n’Ele se unem sem se confundir o Autor e a sua
obra» (VD 13).
O encontro do contemplativo com Jesus, o Verbo do Pai, é um encontro de
proximidade e companhia, porque Ele é o Emmanuel, o Deus que encarnou para
ser um Deus-connosco. Aqui a experiência é de um Deus próximo que se pôs ao
seu lado de maneira decidida e eterna, um Deus que o introduz na plenitude do
seu mistério e o faz testemunha da imutabilidade divina pela unidade de amor
manifestada desde a criação até à nova criação, desde o Faça-se do Eterno Pai
até ao ‘Eis que venho ó Pai para fazer a tua vontade’; desde o ‘Tudo está
consumado. Nas tuas mãos entrego o meu espírito’ até ‘A paz esteja convosco.
Não temais sou Eu. Recebei o Espírito Santo”.
O contemplativo guiado pelo Verbo do Eterno Pai está chamado a alcançar
aquela mesma unidade que amorosamente move toda a Trindade no conselho
de amor que mantém entre si e no colóquio com que sustém todo o universo.
Encontra-se a si mesmo no Verbo, dito pelo Pai, e converte-se em testemunha
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íntima do mistério de Cristo. A vocação claustral é a expressão máxima do
mistério da união da Igreja-Esposa com o seu Senhor. Na clausura os
contemplativos realizam o êxodo do mundo para encontrar a Deus na solidão do
“deserto claustral” como comunhão esponsal da solidão de Jesus e de toda a sua
vida interior (cf. VS 4).
Imbuída deste diálogo Trinitário e perfeita adoradora da Santíssima Trindade a
Beata Isabel da Trindade exclama:
«Ó meu Cristo amado, crucificado por amor, quereria ser uma esposa para o
vosso Coração, quereria cobrir-vos de glória, quereria amar-vos… até morrer
de amor! Mas sinto a minha incapacidade e peço-vos para me “revestirdes
de Vós mesmo”, para identificar a minha alma com todos os movimentos da
vossa alma, me submergir, me invadir, e vos substituir a mim, a fim que a
minha vida não seja senão uma irradiação da vossa Vida. Vinde a mim como
Adorador, como Reparador e como Salvador.
Ó Verbo eterno, Palavra do meu Deus, quero passar a minha vida a escutarvos, quero tornar-me inteiramente dócil ao vosso ensino, a fim de tudo
aprender de Vós. Depois, por entre todas as noites, todos os vazios, todas as
incapacidades, quero fixar-vos sempre e permanecer sob a vossa grandiosa
luz; ó meu Astro amado, fascinai-me para que já não possa sair da vossa
irradiação.» (Elevação á Trindade)
Da Palavra de Deus e do Espírito Santo
A Palavra de Deus exprime-se em palavras humanas graças à obra do Espírito
Santo. A missão do Filho e a do Espírito Santo são inseparáveis e constituem
uma única economia da salvação. O mesmo Espírito, que actua na encarnação
do Verbo no seio da Virgem Maria, guia Jesus ao longo de toda a sua missão e
é prometido aos discípulos. O mesmo Espírito que falou por meio dos profetas,
sustenta e inspira a Igreja no dever de anunciar a Palavra de Deus e na
pregação dos Apóstolos; e, enfim, é este Espírito que inspira os autores das
Sagradas Escrituras.
Sem a acção eficaz do «Espírito da Verdade» (Jo 14, 16), não se podem
compreender as palavras do Senhor. Tal como a Palavra de Deus vem até nós
no corpo de Cristo, no corpo eucarístico e no corpo das Escrituras por meio do
Espírito Santo, assim também só pode ser acolhida e compreendida
verdadeiramente graças ao mesmo Espírito. (VD 15, 16)
É o encontro com o Espírito, que manifesta a Deus como contemporâneo de
cada contemplativo, isto é, presente na sua própria história, porque é o Deus
presente no mais íntimo da sua consciência. É o Deus que é comunhão e
comunicação no Espírito Santo. Desta forma, o contemplativo é aquele que se
16
expõe à acção eficaz do Espírito da verdade e recebe dele o alimento da vida.
Iluminado pelo Espírito, que o justifica, descobre o verdadeiro sentido das coisas
que a palavra de Deus encerra e aproxima-se da verdade do próprio Deus. É o
amor derramado no coração do contemplativo que o torna cooperador na
verdade e participante na obra Redentora de Cristo, em benefício de todo o seu
Corpo (cf. VS 7).
É o «Espírito da Verdade» que faz o contemplativo situar-se na linha da
verdadeira e fundamental missão apostólica que lhe é própria: «ocupar-se
unicamente de Deus”, pois está chamado a “conversar com o Esposo divino,
meditando a sua lei dia e noite, para receber o dom da sabedoria do Verbo e
unificar-se com Ele, sob o impulso do Espírito Santo» (VS 5).
«Ó Fogo consumidor, Espírito de amor, “sobrevinde a mim”, a fim de que se
faça na minha alma como que uma encarnação do Verbo: que eu Lhe seja
uma humanidade de acréscimo na qual Ele renove todo o seu Mistério.»
(Elevação à Trindade)
Este diálogo que se dá no mais profundo do ser humano, que é o contemplativo,
só acontece no recolhimento, silêncio e solidão, onde se «procura livremente a
Deus e se vive não só para Ele e com Ele, mas também exclusivamente d’Ele».
«Ó meus Três, meu Tudo, minha Beatitude, Solidão infinita, Imensidade em
que me perco, entrego-me a Vós como uma presa. Sepultai-vos em mim para
que eu me sepulte em Vós, esperando ir contemplar na vossa luz o abismo
das vossas grandezas.»
17
Da Encarnação à Eucaristia
A vida contemplativa é semelhante aos vitrais
duma catedral, só se vêem bem por dentro. Vistos
por fora e com o sol a reflectir neles mais parecem
pedaços de vidro escuro, agrupados de forma
desordenada e unidos por filamentos de chumbo.
Vistos por dentro, e em contraluz, mostram toda a
sua beleza, arte e riqueza simbólica que os olhos
não se cansam de contemplar. Vista com critérios
humanos a vida contemplativa torna-se
incompreensível, mas vista com critérios
evangélicos a vida contemplativa manifesta a
beleza do próprio Deus. O mosteiro contemplativo
é precisamente o espaço da manifestação da
Beleza de Deus. E quanto mais o contemplativo fixa
o olhar em Cristo, Verbo do Pai, mais beleza encontra e mais beleza irradia.
«Mais se converte numa silenciosa irradiação de amor e de graça no coração
palpitante da Igreja» (VS 3).
Fixar o olhar em Cristo, ver no ‘visível o que é invisível’ e desejar completar na
própria carne o que falta à paixão de Cristo é o verdadeiro sentido e a única
missão da vida do contemplativo. João XXIII ao falar do apostolado dos
contemplativos dirá: “O verdadeiro apostolado consiste na participação na obra
de salvação de Cristo, coisa que não se pode realizar sem um intenso espírito de
oração e sacrifício. O Salvador redimiu o mundo, escravo do pecado,
especialmente com a sua oração ao Pai e sacrificando-se a si mesmo.”
A vida contemplativa é absolutamente vital para a Igreja e para a humanidade
sempre necessitadas do oxigénio purificado e renovador da graça, aspirado e
distribuído pela oração e imolação dos contemplativos. João Paulo II ao dirigir-se
aos contemplativos de Portugal dirá: “A vossa imolação silenciosa proclama o
absoluto de Deus e interpela os homens-irmãos a interrogarem-se sobre o
sentido da vida; e o vosso amor aplicado na adoração e na súplica derrama-se,
“como bom odor de Cristo”, na história dos mesmos homens: dos que já
conhecem e dos que ainda não conhecem o Senhor da história e a salvação que
Ele propõe; uns e outros chamados a construir a justiça e a convivência fraterna
cada vez mais segundo os desígnios divinos.”
18
Esta missão de oração e imolação a que o contemplativo está chamado haure
toda a sua beleza naquele momento em que na Cruz, Cristo, na oferta que faz de
si mesmo ao Pai diz: “Tudo está consumado.” O contemplativo atrás destas
palavras encontra a força da nova Criação e por isso nelas, ele, encontra a
antecipação do reino celeste: “Eis que faço novas todas as coisas”. Entregar-se à
imolação e à oração, “completar no seu corpo o que falta à paixão de Cristo”,
não é senão participar na nova criação, viver em dinamismo eucarístico, ser
canal de vida divina para humanidade. Numa palavra: ser sacramento de
esperança celeste que é comunicação que Deus quer fazer de si mesmo a todos
os homens. Ao completar na sua carne o que falta à paixão de Cristo, ou, ao ser
para o “Verbo Eterno como que uma humanidade de acréscimo”, o
contemplativo é essencialmente um enamorado da vida divina escondida em
Deus e, por isso, ele realiza este anseio, na oferta que faz de si mesmo com
Cristo ao Pai, numa plena atitude de louvor e acção de graças.
Ao dom de Cristo-Esposo que na cruz ofereceu todo o seu corpo, o
contemplativo responde de forma semelhante com o dom do seu “corpo”,
oferecendo-se com Jesus Cristo ao Pai e colaborando na obra da Redenção. A
vida contemplativa adquire assim um valor eucarístico, em que para além do
aspecto de sacrifício e expiação, assume o de agradecimento ao Pai,
participando na acção de graças do Filho Bem-Amado. (cf. VS 3) Testemunha
desta realidade, a Bem-aventurada Isabel da Trindade afirma que: “o
contemplativo vive em louvor de glória, sempre ocupado na acção de graças e,
por isso, todos os seus movimentos, pensamentos e sentimentos, ao mesmo
tempo que o enraízam mais intensamente no amor, são como que um eco do
Sanctus Eterno.”
19
Da Eucaristia à Missão
Santa Teresa Benedicta da Cruz (Edite Stein) dizia que: «Os acontecimentos
visíveis da história da Igreja que renovam a face da terra preparam-se no diálogo
silencioso das almas consagradas a Deus». Imagem perfeita desta realidade é o
diálogo da encarnação entre o Anjo e Maria no silêncio da casa de Nazaré.
Fazendo-se eco das suas palavras Paulo VI dirá: “É no coração dos
contemplativos que se decide a sorte da Igreja”. São eles que imploram para a
Igreja o dom do Espírito, “infundi com a vossa oração um novo alento de vida na
Igreja e no homem actual” (João Paulo II). É a vida contemplativa que na sua
missão orante, «precisamente o seu modo característico de ser Igreja», sustenta
a comunhão de todo o corpo místico de Cristo: «Com a vossa oração chegais ao
coração de cada diocese e de cada comunidade eclesial, para que sobre elas se
derramem as bênçãos do Senhor. Isso será de grande consolo para acção
pastoral dos bispos e dos sacerdotes; alentará o apostolado dos religiosos e
religiosas de vida activa e favorecerá a prática religiosa e o compromisso
evangélico de todos os fiéis leigos» (João Paulo II).
Os contemplativos são os que estão com Maria em oração no cenáculo e
invocam a vinda do Espírito Santo. São eles que deixando-se modelar pela acção
do Espírito, se tornam eficazes intercessores, com os mesmos sentimentos de
Cristo, e secundam a oração que com gemidos inefáveis o Espírito faz no seu
interior, para bem da Igreja e da humanidade inteira, pedindo incessantemente
que Deus envie de novo o Espírito Santo, para que renove a face da terra e para
que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade.
Paulo VI dirá na Evangelii Nutiandi, o Espírito Santo é «o agente principal da
evangelização: é Ele quem impele cada um a anunciar o Evangelho e quem no
fundo das consciências faz aceitar e compreender a palavra da salvação» (EN
75). Os mosteiros contemplativos espalhados pelo mundo, como oásis de oração
e especial consagração a Deus no silêncio do claustro dão testemunho da beleza
e da fecundidade missionária da «vida escondida com Cristo em Deus» (Cl 3,3).
Na tarefa da nova Evangelização, e perante as imensas necessidades espirituais e
materiais da humanidade a Igreja tem necessidade do carisma contemplativo.
Numa carta dirigida às Carmelitas Descalças, extensiva a todos os
contemplativos, João Paulo II dizia: «Nesta hora magnífica e crucial da história
ressoam actuais e prementes os desejos de Teresa de Jesus, com a sua exortação
a viverdes a contemplação ao serviço do Reino de Cristo: “para isso vos reuniu o
Senhor; este é o vosso chamamento; estas devem ser as vossas incumbências;
20
estas hão-de ser as vossas aspirações; aqui as vossas lágrimas, estas as vossas
súplicas…”. Vós que sois a vanguarda da Igreja rumo ao Reino sede testemunhas
do Deus vivo para o mundo de hoje.»
Os contemplativos são o sinal mais eloquente da presença de Deus no meio dos
povos e das culturas. Eles são o sacramento de Deus vivo oferecido por Cristo a
toda a humanidade. A vida contemplativa evoca a Palavra do Pai dita no silêncio
e acolhida no segredo do coração como fonte da nova evangelização, por isso, os
contemplativos são convidados a participar de forma activa na Nova
Evangelização, «permanecendo na fonte da vida trinitária e vivendo no coração
da Igreja» (VS 6).
Deus ama de tal modo o mundo, que lhe dá os contemplativos como expressão
da sua aliança com cada homem e mulher, para que acreditando tenham a vida
eterna, como afirma S. João: “conheçam o Pai como único Deus verdadeiro e a
Jesus Cristo, a quem Ele enviou” (cf. Jo 17,3).
O Amor feito dom
À pergunta “O que tem a vida contemplativa para oferecer à nossa sociedade?”
respondemos: o mesmo que Cristo teve para oferecer ao mundo: a gratuidade
do amor ao fazer-se um de nós e ao ser solidário connosco. Diz-nos S. Paulo, na
Carta aos Filipenses que: «Ele que era de condição divina não se valeu da sua
igualdade com Deus. (…) Como homem humilhou-se ainda mais obedecendo até
à morte (…) por isso Deus o exaltou e lhe deu um nome que está acima de todos
os nomes (…) para que toda a língua proclame a glória de Deus Pai.»
Assim como Cristo “veio para os seus e os seus não o acolheram”, a vida
contemplativa também não é acolhida por muitos. A lógica da gratuidade do
amor torna-se estranha para uma sociedade que faz do individualismo, da
eficiência, da competição e do lucro critério de vida. É normal que a ‘inacção
activa’ da vida contemplativa e a misteriosa eficácia da oração, visível apenas aos
olhos da fé, constitua uma provocação para muitos, que teimam em dizer que
ela não responde às urgentes necessidades do século XXI. Uma afirmação destas
significa não compreender o mistério de ter sido criado à imagem e semelhança
de Deus e só alcançar a plenitude do ser e da existência na relação com o seu
Criador e com os outros homens seus irmãos. Significa não compreender o
mistério da Igreja na sua totalidade, pois é desse mistério que brota e se
desenvolve a vida contemplativa.
21
É neste espírito de gratuidade e fugindo da lógica da eficiência, que a vida
contemplativa contribui para a construção da sociedade humana através da
edificação do Reino com o testemunho do amor fraterno, da oração pública e
privada, comunitária e pessoal e o espírito de sacrifício que evoca o
desprendimento dos bens deste mundo, que tantas vezes são obstáculo para o
estabelecimento do reino de Deus entre nós. O pleno sentido da vida de um
contemplativo encontra-se no primeiro mandamento: «Amarás ao Senhor teu
Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças e
com todo o teu entendimento» (Lc 10,27), amando todos os irmãos e irmãs em
Deus. Ele procura a perfeição do amor, escolhendo a Deus como “o único
necessário” (Lc 10, 42) amando-O como o tudo de todas as coisas. (cf VS 5)
É Pio XII que falando da vida contemplativa nos manifesta a beleza que a
gratuidade do amor duma vida entregue a Deus pela Igreja e pela humanidade
encerra.
«Esta forma de espírito contemplativo que procura a Deus no silêncio e na
abnegação de si mesmo, é um movimento profundo do Espírito que nunca
terminará enquanto hajam corações para escutar a sua voz… Existem assim
no meio das grandes cidades modernas, nos países mais ricos ou nas selvas
africanas, pessoas capazes de dedicar toda a sua vida à adoração e ao
louvor, que se consagram voluntariamente à acção de graças e à
intercessão, que se constituem livremente nos fiadores da humanidade
perante o seu Criador, os protectores e os advogados diante do seu Pai
celestial. Que vitória do Todo poderoso! Que glória para o Salvador! Pois
bem a vida contemplativa não é, na sua essência outra coisa».
O dom que Deus faz de si ao contemplativo
e a incondicional entrega deste a Deus, a
união exclusiva com Deus, é o supremo grau
de oração contemplativa. Esta oração faz de
cada contemplativo o coração da Igreja,
porque o faz reviver, em si mesmo, o amor
sacerdotal de Jesus. De ânimo livre e
hospitaleiro, “com a ternura de Cristo”, os
contemplativos trazem no coração os
sofrimentos e as ansiedades daqueles que recorrem à sua ajuda e de todos os
homens e mulheres, profundamente solidárias com as vicissitudes da Igreja e da
humanidade actual (cf. VS 8) Escondidos com Cristo em Deus não podem irradiar
senão o amor divino de que estão cheios e assim colaboram na perfeição de
toda a humanidade “até que Deus seja tudo em todos”.
22
A Loucura da Vida Contemplativa – Testemunho
J.M. J.T.
19 de Agosto de 1894
«Fico muito satisfeita, minha querida irmãzinha, por tu não sentires atracção
sensível ao vires para o Carmelo, é uma delicadeza de Jesus que quer receber de ti
um presente. Ele sabe que é muito mais doce dar do que receber. Temos só o breve
instante da vida para dar a Deus… e Ele prepara-se para dizer: «Agora é a minha
vez…» Que felicidade sofrer por aquele que nos ama até à loucura e passar por
loucas aos olhos do mundo. Julgam-se os outros por si mesmo, e como o mundo é
insensato pensa naturalmente que as insensatas somos nós!... Mas no fim de
contas, não somos as primeiras, o único crime que foi censurado a Jesus por
Herodes foi o de ser louco e eu penso como ele!... sim era loucura procurar os
pobres dos coraçõezitos dos mortais para deles fazer seus tronos, Ele o Rei de
Glória que está sentado sobre os querubins…Ele a quem nem os céus podem
conter…Estava louco o nosso Bem-amado, os seus íntimos, os seus semelhantes,
Ele que era perfeitamente feliz com as duas pessoas adoráveis da Trindade!...
Nunca poderemos fazer por Ele as loucuras que fez por nós, e as nossas acções não
merecem este nome, porque são apenas actos muito razoáveis e muito abaixo
daquilo que o nosso amor queria realizar. Portanto, o mundo é que é insensato
visto que ignora o que Jesus fez para o salvar, é o açambarcador que seduz as
almas e as conduz a fontes sem água…
Nós também não somos nem preguiçosas nem pródigas. Jesus defendeu-nos na
pessoa de Madalena. Estava à mesa, Marta servia, Lázaro comia com Ele e com os
discípulos. Quanto a Maria, não pensava em tomar alimento mas em dar prazer
Àquele que amava, por isso pegou num vaso de perfume de elevado preço e
derramou-o sobre a cabeça de Jesus quebrando o vaso, então a casa toda ficou
cheia do odor do perfume mas os Apóstolos murmuravam contra Madalena…Foi
mesmo como para nós, os cristãos mais fervorosos, os sacerdotes acham que
somos exageradas, que devíamos servir como Marta em vez de consagrar a
Jesus os vasos das nossas vidas com os perfumes que neles estão encerrados…E
todavia, que importa que os nossos vasos sejam quebrados se Jesus é consolado e
se o mundo, mesmo sem querer, se vê obrigado a cheirar os perfumes que deles se
exalam e que servem para purificar o ar envenenado que constantemente respira.
Teresa do Menino Jesus »
23
O Retrato bíblico do contemplativo
Deixamos algumas pinceladas que podem servir para cada um “pintar” o seu
próprio retrato do contemplativo. O contemplativo é o que:
Como Maria de Nazaré, acredita na promessa de Amor que Deus faz à sua vida e
se deixa possuir pela alegria interior de possuir exclusivamente ao Senhor. «Feliz
de ti que acreditaste, porque se vai cumprir tudo o que te foi dito da parte do
Senhor» (Lc 1,45).
Como Zaqueu é convidado a descer depressa, porque hoje Deus quer ficar na sua
casa. A descer ao mais profundo, porque no hoje da graça Deus habita no mais
íntimo de si mesmo “no céu da sua alma” (Lc 19, 5-6).
Como a Samaritana, diz: “Dá-me dessa água para que não volte a ter mais sede”
e escuta o convite de Jesus a adorar em espírito e verdade, “pois são tais
adoradores que o Pai procura”(Jo 4, 23-24).
Como o Cego de Nascença, vive as noites escuras da fé, para que «nele sejam
manifestadas as obras de Deus» (Jo 9,3).
Como Maria «escolheu a melhor parte, o único necessário que não lhe será
tirado» e permanece aos pés do Mestre a escutar a sua palavra (Lc 10,42).
Como Marta, faz de toda a sua vida uma confissão a divindade do Messias: «Eu
creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que vem ao mundo» (Jo 11,27).
Como os discípulos de Emaús sente “arder o coração” ao receber a luz do
Espírito da Verdade para compreender as Escrituras e quando na Eucaristia se
lhe abrem os olhos da fé e da vida para o memorial do Amor divino.
Como Pedro, quando a sua oração se traduz pela total confiança e entrega
amorosa ao Senhor e à sua vontade: «Senhor, Tu sabes tudo; Tu sabes que te
amo» (Jo 21, 17).
Como João se mantém reclinado sobre o peito do Senhor, e por isso, pode dizer:
«O que ouvimos e vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e o que
nossas mãos tocaram acerca do Verbo da vida (…) isso vos anunciamos, para que
24
estejais em comunhão connosco. E a nossa comunhão é com o Pai e com seu
Filho Jesus Cristo» (1 Jo 1, 1-3).
O que «permanece em oração com Maria a mãe de Jesus, num só coração e
numa só alma» esperando a vinda do Espírito Santo, assumindo a voz da Igreja
Esposa que canta os louvores do Senhor e intercede pelo Povo de Deus a
caminho da Nova Jerusalém. (Act 1,14)
Como Jesus, quando possuído pelo Espírito de Amor reza com a vida a oração
sacerdotal do Cordeiro Imolado: «Por eles a mim mesmo me consagro, para que
eles sejam consagrados na verdade. A Tua palavra é a verdade» e faz do seu
projecto de vida o princípio da realização do pedido de Jesus ao Pai: «Que eles
sejam um. Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que eles estejam em nós, para
que o mundo creia que tu me enviaste (…) e os amaste como me amaste a mim»
(Jo 17, 19-23).
Inundado da alegria do Espírito exclama: «Eu te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e
da terra, porque escondestes estas coisas aos sábios e inteligentes e as
revelastes aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado» (Lc 10,21).
25
Sugestões para a Liturgia
Admonição
Celebrar a Solenidade da Santíssima Trindade é celebrar a mútua implicação do
ser de Deus e de cada ser humano. Deus é comunhão de Amor, é Trindade, é
família e cada um de nós está, também chamado a ser comunhão.
Na família Trinitária goza-se eternamente o mistério do Amor. Nesta família
existe ‘um só coração e uma só alma’ e cada um dá aos outros tudo o que tem.
São três pessoas que vivem plenamente o Amor, na geração, no acolhimento e
na comunhão.
Expressões humanas desta Família Trinitária são as nossas comunidades cristãs,
a Igreja Universal, os matrimónios, os grupos cristãos e as comunidades de vida
religiosa. Hoje, somos convidados a rezar especialmente pelas comunidades de
vida contemplativa.
A vida contemplativa é a imagem do Povo de Deus sentado com Cristo à direita
do Pai, como plenitude do povo que caminha e que torna presente no mundo o
Cristo itinerante e Salvador. O contemplativo é aquele que vive imerso na
presença de Deus, submergido pelo Seu amor e, em ‘espírito e verdade’ ora ao
Pai pelos seus irmãos.
Demos, graças a Deus, pelo dom da vida contemplativa e peçamos-lhe que
desperte nas nossas comunidades e famílias vocações para a vida de clausura.
Preces Pró-Orantibus
Pai Eterno, Fonte de vida divina, submergi na corrente do vosso amor aqueles
que chamais à vida claustral, e, fazei-nos descobrir que o único necessário das
nossas vidas é o Amor, que sois Vós mesmo, despertando, entre nós, vocações
para a Vida Contemplativa. Nós vos rogamos: ouvi-nos, Senhor.
Verbo Eterno, Palavra única do Pai, vós que viestes revelar ao mundo o rosto
amoroso de Deus e oferecer a todos a vida eterna, renovai na oração dos
contemplativos a vossa ‘oração sacerdotal’, para que surja uma nova
humanidade, livre, gozosa, diferente, em que ‘Deus seja tudo em todos’. Nós vos
rogamos: ouvi-nos, Senhor.
Espírito de Comunhão, Vós que congregais todos os povos na unidade do Pai e
do Filho e atrais ao conhecimento da Verdade, conduzi os contemplativos para a
“Verdade plena”, para que pelo dom das suas vidas, possam colaborar mais
eficazmente na obra da Redenção. Nós vos rogamos: ouvi-nos, Senhor.
27
Poesia
Contempla com o Coração
A contemplação do coração
é olhar a vida por dentro com os olhos da alma e a luz da fé;
É o descansarmos na confiança
de estarmos a ser amados neste preciso momento;
É o deixarmos que Deus nos sussurre baixinho:
“Ainda que tenhas de passar pelo fogo nada temas porque Eu estou contigo”;
É o acreditar na realidade divina que se esconde
sob a frágil humanidade da nossa existência;
A Contemplação do Coração
É a leitura gozosa do Evangelho
que Deus vai escrevendo com a nossa vida;
É a bênção da Presença de Deus feita “nova encarnação”
e manifesta em nosso ser como nova criação;
É abrir para o alto as asas do entendimento
e acolher de Deus a luz que nos converte em sacramento;
A Contemplação do Coração
Não se dá em nenhum momento
porque ela é vida momento após momento;
Ela resgata-nos do sem sentido
e faz-nos sentir de Deus o Amor de Filho querido;
É um eterno enamoramento,
para o qual Deus espera o nosso consentimento;
A Contemplação do Coração
É o que te faz saber que Deus é um só contigo,
feito carne no teu ser…
Faz sacramento do teu viver,
celebra o memorial da contemplação e
verás os frutos amadurecer em fecundidade de oração;
Deixa que Deus te consagre em cada amanhecer,
porque só assim saberás o que é a Deus pertencer;
Contempla com o coração tudo o que te acontecer,
porque um dia verás que era a TRINDADE que te estava a envolver.
Contempla com o Coração
E verás a beleza de Deus em ti florescer!
CONTEMPLA COM O CORAÇÃO
28
Oração
Elevação à Santíssima Trindade
Ó meu Deus, Trindade que eu adoro, ajudai-me a esquecer-me inteiramente,
para me estabelecer em Vós, imóvel e pacífica como se já a minha alma estivesse
na eternidade. Que nada possa perturbar a minha paz, nem fazer-me sair de Vós,
ó meu Imutável, mas que cada minuto me leve mais longe na profundeza do
vosso Mistério. Pacificai a minha alma, fazei dela o vosso céu, vossa morada
amada e o lugar do vosso repouso. Que nunca aí eu vos deixe só, mas que esteja
lá inteiramente, toda acordada em minha fé, perfeita adoradora, toda entregue
á vossa Acção criadora.
Ó meu Cristo amado, crucificado por amor, quereria ser uma esposa para o
vosso Coração, quereria cobrir-vos de glória, quereria amar-vos… até morrer de
amor! Mas sinto a minha incapacidade e peço-vos para me “revestirdes de Vós
mesmo”, para identificar a minha alma com todos os movimentos da vossa alma,
me submergir, me invadir, e vos substituir a mim, a fim que a minha vida não
seja senão uma irradiação da vossa Vida. Vinde a mim como Adorador, como
Reparador e como Salvador.
Ó Verbo eterno, Palavra do meu Deus, quero passar a minha vida a escutar-vos,
quero tornar-me inteiramente dócil ao vosso ensino, a fim de tudo aprender de
Vós. Depois, por entre todas as noites, todos os vazios, todas as incapacidades,
quero fixar-vos sempre e permanecer sob a vossa grandiosa luz; ó meu Astro
amado, fascinai-me para que já não possa sair da vossa irradiação.
Ó Fogo consumidor, Espírito de amor, “sobrevinde a mim”, a fim de que se faça
na minha alma como que uma encarnação do Verbo: que eu Lhe seja uma
humanidade de acréscimo na qual Ele renove todo o seu Mistério. E Vós, ó Pai,
inclinai-vos sobre esta vossa pobre pequena criatura, “cobri-a com a vossa
sombra”, não vede nela senão “o Bem Amado no qual pusestes todas as vossas
complacências”.
Ó meus Três, meu Tudo, minha Beatitude, Solidão infinita, Imensidade em que
me perco, entrego-me a Vós como uma presa. Sepultai-vos em mim para que eu
me sepulte em Vós, esperando ir contemplar na vossa luz o abismo das vossas
grandezas.
Beata Isabel da Trindade
29
Siglas
VS
CONGREGAÇÃO PARA OS INSTITUTOS DE VIDA CONSAGRADA E SOCIEDADES DE
VIDA APOSTÓLICA. VERBI SPONSA. Instrução sobre a vida contemplativa e a
clausura das monjas. 13 de Maio de 1999
VC
JOÃO PAULO II. EXORTAÇÃO APOSTÓLICA PÓS-SINODAL VITA CONSECRATA sobre a
Vida Consagrada e a sua missão na Igreja e no mundo. 25 de Março de 1996
VD
BENTO XVI. EXORTAÇÃO APOSTÓLICA PÓS-SINODAL VERBUM DOMINI sobre
a palavra de Deus na vida e na missão da Igreja. 30 de Setembro de 2010
Créditos de imagens
Capa BARTOLO di Fredi, A adoração dos Pastores (c. 1475). Musée du Petit Palais, Avignon.
In. http://www.culture.gouv.fr/Wave/image/joconde/0073/m094704_04-006473_p.jpg
p. 8 L’Osservatore Romano. Edição Semanal em Português, 26 de Junho de 2010, p. 16
p. 9
A adoração dos Pastores. BARTOLO di Fredi [detalhe]
p. 11 A adoração dos Pastores. BARTOLO di Fredi [detalhe]
p. 12 A adoração dos Pastores. BARTOLO di Fredi [detalhe]
p. 13 L’Osservatore Romano. Edição Semanal em Português, 13 de Novembro de 2010, capa
p. 14 Beata Isabel da Trindade.
In. http://www.flickr.com/photos/giovanicarvalho/5270428041/in/set-72157625622814558
p. 17 Andrei Rublev, Trindade.
In. http://sumateologica.files.wordpress.com/2010/12/andrei_rublev_trindade.jpg
p. 18 Vitral. In. http://www.jaro.com.br/oleo_sobre_tela_vitral.htm
p. 19 A Última Ceia.
In. http://www.holytransfiguration.info/wp-content/uploads/2007/01/LastSupper55.jpg
p. 22 O Carmelo. In. http://carmeloaveiro.carmelitas.pt/carmelo.htm
p. 25 Tratar de amizade.
In. http://carmeloaveiro.carmelitas.pt/tratar%20a%20amizade.htm
30
Indice
A vida contemplativa é esta memória viva do mistério de Cristo. Mensagem ................................... 5
Intérpretes da Igreja Esposa ................................................................................................................................ 7
“Vamos ver o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer” Lc 2,15.......................................... 9
Contemplativos do ‘Verbum Domini’ ............................................................................................................. 13
De Deus Pai, fonte e origem da Palavra .............................................................................................. 13
Do Verbo Palavra do Pai .......................................................................................................................... 14
Da Palavra de Deus e do Espírito Santo ............................................................................................. 16
Da Encarnação à Eucaristia................................................................................................................................ 18
Da Eucaristia à Missão ......................................................................................................................................... 20
O Amor feito dom .................................................................................................................................................. 21
A Loucura da Vida Contemplativa – Testemunho...................................................................................... 23
O Retrato bíblico do contemplativo ................................................................................................................ 24
Sugestões para a Liturgia.................................................................................................................................... 27
Admonição .................................................................................................................................................... 27
Preces Pró-Orantibus................................................................................................................................ 27
Poesia - Contempla com o Coração ................................................................................................................. 28
Oração - Elevação à Santíssima Trindade ..................................................................................................... 29
Siglas .......................................................................................................................................................................... 30
Créditos de imagens .................................................................................................................................. 30
31
Comissão Episcopal Vocações e Ministérios
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Dia de oração pela Vida Consagrada Contemplativa