Peter Sloterdijk Ensaio sobre a intoxicação voluntária. Um diálogo com Carlos Oliveira, ed. Fenda, Lisboa, 2001 NOTA PRÉVIA: Os excertos que se seguem tiveram como objectivo a preparação de aulas e também a redacção de um artigo. Reflectem, portanto, a minha leitura pessoal desta obra de Sloterdijk. Os itálicos e negritos são igualmente da minha iniciativa e pretendem destacar passagens (aos meus olhos) particularmente interessantes. Os itálicos do autor encontram-se devidamente assinalados. Pág. 11: “Indivíduos-designers (…), a experimentação sobre si mesmo é um conceito indispensável se quisermos explicar porque não esgotamos o individualismo moderno no único conceito fundamental de conservação de si (…). Vivemos como se quiséssemos exprimir a nossa fé nesta frase: o mundo é tudo aquilo com que experimentamos até à fractura” (itálicos nossos) Pág. 12: “Repetimos hoje, num código não teológico, os elementos que já foram antes experimentados na mística cristã – mais frequentemente na linguagem da experiência intensificada de si, do êxtase, ou seja, da civilização do vivido. Pode resumir-se este fenómeno numa formula: conservação de si mais experimentação sobre si é igual a intensificação de si mesmo (…), este culto da velocidade sem limites, esta tendência absoluta para a intensificação em todas as coisas”. (itálicos nossos) Pág. 12: “O processo do mundo, nos seu conjunto, tem muitos mais pontos comuns com uma ‘party ‘ de suicidários de grande escala do que com uma organização de seres racionais que visem a sua autoconservação”. (itálicos nossos) Pág. 13: “O indivíduo típico das classes médias ocidentais e modernas é um experimentador. O mito analítico sobre o qual se fundam globalmente os tempos modernos apropria-se, a partir do século XX, de toda a sociedade burguesa até nas suas formas de vida quotidiana, a começar pelas comunas e da futura boémia, onde se fazem experiências sobre as relações e os estilos de expressão (…). Assim se inicia uma experimentação existencial total que não pára de arranhar os homens dos tempos modernos porque nos encontramos, de repente, face à dramática ausência de todo um património de convicções, opiniões e dogmas utilizáveis (…). A análise faz do desconforto um princípio; de aqui para a frente é necessário dirigirmo-nos para a inovação permanente. É nestes carris experimentais que se movem, cada vez a maior velocidade, as pessoas dos séculos XIX e XX”. (itálicos nossos) Pág. 17: “Por detrás de todas as figuras está o vazio – ele anula as formas e as ficções (…). Do ponto de vista da história da arte, isto lembra o famigerado “Quadrado Preto” que Malevitch destilou como última forma de redução do mundo das imagens (…). Malevitch também mostrou que pode ser quadrado, triangular (…) ou ser completamente informe: o único ponto decisivo é que este monócromo interno mostre nada, que seja um ecrã vazio. É um Negro vazio, Redondo ou quadrado, e sou eu, ou melhor, o eu frente ao eu, um simples fundo sem figura, ecrã sem texto. Esta é a minha tese: a cultura experimental não pode produzir senão esta posição final quase budista – toda a profundidade é superficial, todo o conteúdo é forma”. (itálico do autor) Pág. 22: “O ‘último homem’ é o consumidor místico, o integral utilizador do mundo – é portanto um indivíduo que não se reproduz mas que, pelo contrário, goza de si mesmo como um estado final de evolução (…). Na perspectiva da história das religiões, poderíamos considerar os cultos actuais do eu como um eco da devotio moderna (itálico do autor) dos séculos XIV e XV – era uma espécie de mística burguesa pré-protestante nas cidades mercantis do noroeste da Europa. Tanto num caso como noutro tratase de egoístas sofisticados que sentem um arrebatamento religioso com a ideia da sua própria existência (…). Observa-se assim toda a espécie de vocações numa população laica, vocações para uma vida panteísta isolada. Vocações para levar uma existência quase monacal, extática, gozando de si própria, na qual o indivíduo, consumidor final da sua sorte existencial, vadia pelas avenidas, acocora-se no seu apartamento com água mineral e Ecstasy e faz passear os olhos num Carnaval permanente de imagens. Este é o tipo de ‘single’. Parece-me que aqui entra em cena um tipo humano de figura secular que conhecemos muito bem da história das religiões”. (itálicos nossos) Pág. 24: “O contemporâneo típico é o ‘último homem’ que parodia o monasticismo”. Pág. 35/6: “A teoria moderna significa o trabalho do conceito, enquanto a teoria antiga significava a visão (…), grande panorama, voo livre das almas (…), a felicidade das grandes visões (…). O essencial da filosofia clássica era a iniciação à jovialidade (…) . O que significa então a jovialidade? Como o nome indica refere-se a uma qualidade do pai dos deuses, Zeus , ou Jovis (…) Descrevo uma coisa inelutavelmente perdida, uma alma inacessível aos modernos (…). Se continuarmos hoje em dia a querer apresentar a filosofia como uma coisa que diverte e eleva – dito de outra maneira: se tivermos a leveza de espírito de querer renovar as promessas edificantes da tradição clássica – só poderíamos fazê-lo invocando o factor jovialidade (…). Pensar no século XX não é observar uma totalidade do cosmos mas pensar uma explosão. Por isso é impossível aos intelectuais que filosofam serem joviais. Não existe uma teoria das explosões. Podemos procurar os índices, podemos inspeccionar o local do acidente – o século XX - podemos rever a cadeia de índices do passado, fazer suposições sobre o modo como vai prosseguir a catástrofe, sondar as expectativas de vida. Mas todo o trabalho de diagnóstico da época consiste exclusivamente neste tipo de operações. Podem ser fascinantes, mas não têm nada a ver com teoria jovial”. (itálicos nossos) Pág. 46: “ Muitos factores indicam que deixámos o espaço das revoluções políticas para entrarmos no tempo das revoluções técnicas e mentais (…). O revolucionário de hoje é o designer ou o consultor de tendências (…), no lugar da ‘Revolução’ existem as ‘trends’, correntes múltiplas com as suas inversões e ramificações – é preciso lançá-las, canalizá-las e interpretá-las, o que constitui um trabalho completamente diferente do da hermenêutica clássica da revolução de esquerda”. (itálicos nossos) Pág. 48: “De um só golpe, surgem os intelectuais diabólicos e param: a revolução já aconteceu, tudo acabou, mas era noutros lugares, e vocês não o perceberam, de tal modo estavam a celebrar o Advento. Além disso, confundiram o sujeito da revolução, não é o proletariado, é a técnica – e em todo o mercado, a grande finança mostra-se mais revolucionária que todos os que acreditavam deter a chave da sua crítica. E agora? O ar escapa-se, a bolha da espera inflada pela mística esvazia-se. Depois da revolução, ah, já não importam os decénios, é indiferente o tempo em que se vive quando se vive depois da revolução. Podemos experimentar o gosto insípido do depois em qualquer altura”. (itálicos nossos) Pág. 50/51: “A neurose do calendário (…). Os calendários têm uma importância gigantesca porque modelam o tempo do mundo (…). Quem leia os Evangelhos pensa, ainda que contra si, que este homem estava bem apressado para subir aos céus. O nosso calendário é o traço formal deste evangelho da impaciência com o mundo. Por sua culpa, temos todos predisposições apocalípticas, ele pressiona-nos a trabalharmos em direcção a um fim. O calendário post Christum natum (itálico do autor) é o mais poderoso anacronismo no mundo moderno. Ele participa indirectamente neste apocalipcismo latente e no gosto pela catástrofe que se observa no seio das elites ocidentais”. (itálicos nossos) Pág. 53: “Hiper-política [ou como tu lhe chamas, uma política das profundezas]”. (itálicos nossos) Pág. 62: “Ao olharmo-nos a nós próprios é outra coisa que surge, uma terceira experiência. Não é a sociologia, não é o vazio, mas um contexto esférico (…). A terceira experiência é a conversação, o 2 divertimento, dito de outra maneira, o que nos ocupa no momento e nos mantém em expectativa (…). Divertimento, tudo o que nos conduz a tensões, a tomadas de posição que nos fazem sair do nosso próprio vazio para nos levar a espaços que partilhamos com as coisas e com as pessoas. O trabalho, o combate, o amor, o diálogo: estas são as formas principais do êxtase que diverte (…). O contrário de divertimento não é tédio. O contrário de divertimento é a morte”. (itálicos nossos) Pág. 64: “Os homens ditos atomizados não são autistas mas radicais livres que seleccionam os seus parceiros átomos e as suas moléculas preferidas. O que há de magnífico nesta redução moderna ao átomo individual livre é que, depois dela, já não resta nada das ligações e dos agregados funestos criados pelas tradições e quimeras de ontem (…). Mas todas as energias sintéticas são por isso postas fora de circuito? Já não é possível nenhuma coesão das partículas? Já não há mais poesia, mais instituições? Tudo o que era composição, sintagmas, deve ser riscado? Na realidade estamos no ponto em que todas as formas compostas parecem ser desconstrutíveis, decompomo-las até ao nível do neutrão. Isto é válido para a matéria física, para as sociedades e para o tecido simbólico, os textos e os rituais. Mas o que é que isso quer dizer? Reconstruímo-nos após a análise e gozamos de uma espécie de poesia, a poesia da reorganização, uma poesia do projecto existencial conseguido de novo e repetido com um suplemento de liberdade (…). Após a passagem pelo túnel analítico são de novo possíveis formas sintéticas mais livres, formas de vida dotadas de um acréscimo de poesia e de liberdade de acção”. (itálicos nossos) Pág. 94: “Os redentores não fizeram mais que preparar-nos de diferentes maneiras para a liberdade. Tratase de fazer acreditar que a esperámos. É o sentido de todas estas simulações. Lá, onde termina a história das religiões, começa a história do design (…). Agora que todas as histórias de libertação chegaram ao fim, (os novos nómadas) são apenas pessoas condenadas a simular a soberania – é esta a situação”. Pág. 98/99 (Sobre Niklas Luhmann): “Os idealismos surgem quando os pensadores acreditam ter encontrado qualquer coisa que lhes poupe a coexistência com os outros”. Pág. 116/7: “Os novos maníacos da conexão (…). A revolução do aligeiramento passa pelo monitor. Em consequência, todos os fazedores de tendências estariam hoje virados para a esquerda (…). A nova esquerda são os chefes de empresa à procura de uma sociedade suficientemente moderna para os produtos deles (…). Hoje em dia, o conjunto do mundo económico é percorrido por uma só mensagem: temos de estar preparados para a transformação em todos os domínios e rapidamente. É retórica revolucionária em estado puro saída agora da boca de managers, de conselheiros, de designers. A guerra mundial que acontece a nível profundo entre o leve e o pesado sofre a sua escalada numa nova fase e as frentes tradicionais invertem-se em numerosos pontos. A antiga direita segue sobre o ligeiro e variável e algumas pessoas da esquerda antiga descobrem o campo do peso – é o que imprime a rotação ao turbilhão actual”. Pág. 117: “ À nossa frente está uma era em que a diferença entre vencedores e perdedores surge de novo com uma dureza antiga e uma crueza pré-cristã (…). Estamos aqui no terreno dos factos morais e dos sistemas. As duas questões decisivas: que nível de moral podem os grandes sistemas afixar? Que quantidades de auto-contradições podem as sociedades modernas de consumo e de direitos do homem absorver?”. 3