PUBLICAÇÃO OFICIAL DA MARINHA •Nº 470 •ANO XLII JANEIRO 2013 • MENSAL • € 1,50 MUSEU DE MARINHA O Museu de Marinha foi enriquecido no ano de 2012 com dois modelos dos navios-escolas Sagres que prestaram serviço na Marinha Portuguesa no século XX. Sagres I Modelo construído nas Oficinas do Museu de Marinha. Incorporado na exposição permanente do Museu de Marinha em 8 de março de 2012. Sagres II Modelo construído pela empresa Modellbau Georgi GmbH, de Berlim. Oferecido ao Museu de Marinha pelo grupo industrial alemão Thyssenkrupp Marine Systems, detentor dos estaleiros Blohm + Voss, de Hamburgo, onde o navio foi construído. Modelo entregue em 20 de Julho de 2012 por Reinhard Kuhlmann, membro do Conselho Executivo da Thyssenkrupp Marine Systems. SUMÁRIO Publicação Oficial da Marinha Periodicidade mensal Nº 470 • Ano XLII Janeiro 2013 Diretor CALM EMQ Luís Augusto Roque Martins Chefe de Redação CMG Joaquim Manuel de S. Vaz Ferreira Redação 1TEN TSN Ana Alexandra Gago de Brito Secretário de Redação 5 Mensagem de Natal e de Ano Novo do Almirante Chefe do Estado-Maior da Armada e Autoridade Marítima Nacional 8 O NRP Álvares Cabral no POST SAJ L Mário Jorge Almeida de Carvalho Colaboradores Permanentes CFR Jorge Manuel Patrício Gorjão CFR FZ Luís Jorge R. Semedo de Matos CFR SEG Abel Ivo de Melo e Sousa 1TEN Dr. Rui M. Ramalho Ortigão Neves 10 Administração, Redação e Publicidade Revista da Armada Edifício das Instalações Centrais da Marinha Rua do Arsenal 1149-001 Lisboa - Portugal Telef: 21 321 76 50 Fax: 21 347 36 24 Endereço da Marinha na Internet http://www.marinha.pt e-mail da Revista da Armada [email protected] Escola Naval Abertura do Ano Letivo 11 Jornadas do Mar Paginação eletrónica e produção Smash Creative Tiragem média mensal: 4500 exemplares Preço de venda avulso: € 1,50 Revista anotada na ERC Depósito Legal nº 55737/92 ISSN 0870-9343 ANUNCIANTES: LISSA - AGÊNCIA DE DESPACHOS E TRÂNSITOS, Lda; ROHDE & SCHWARZ, Lda. MUSEU DE MARINHA 2 REFLEXÃO ESTRATÉGICA 6 4 O COMBATE DO NRP VEGA. HOMENAGEM AO CABO ANÍBAL 6 JARDINO, EM BRAGANÇA O ARPÃO NO SNMG2. CONCLUSÃO 7 COMISSÃO CULTURAL DA MARINHA 14 A DIVERSIDADE DE EMBARCAÇÕES TRADICIONAIS DO ESTUÁRIO DO TEJO 15 OCEAN REVIVAL . “A NOVA MISSÃO” 18 TOMADA DE POSSE / ENTREGA DE COMANDO 20 TOMADA DE POSSE 21 A “PEDRA FILOSOFAL” DA DIRECÇÃO DO SERVIÇO DE ELECTRICIDADE 22 E COMUNICAÇÕES COMANDANTE SOEIRO DE BRITO 23 ACTIVIDADES DO NÚCLEO DE RADIOAMADORES DA ARMADA 26 OS NÁUTICOS 27 CURSO “OLIVEIRA E CARMO” VISITA A ESCOLA NAVAL 28 HIERARQUIA DA MARINHA 20 / VIGIA DA HISTÓRIA 50 29 ESTÓRIAS 30 NOVAS HISTÓRIAS DA BOTICA (19) 31 QUARTO DE FOLGA 33 NOTÍCIAS PESSOAIS / CONVÍVIOS 34 NAVIOS HIDROGRÁFICOS CONTRACAPA REVISTA DA ARMADA • JANEIRO 2013 3 REFLEXÃO ESTRATÉGICA N MAHAN: O HOMEM NO SEU TEMPO a sequência do artigo publicado na Depois de retirado da vida militar, Mahan edição de Junho do ano transacto, e continuou a escrever artigos e livros, a profepara se continuar a analisar a valia rir conferências e foi distinguido com diverde Mahan como teórico da estratégia naval, sos diplomas honoríficos pelas Universidaé indispensável recordar o homem e situá- des de Harvard, Yale, Columbia, Dartmouth -lo no seu tempo. e McGill. Até ao fim da sua vida manteve Mahan nasceu em West Point, Nova Ior- uma profunda devoção religiosa e uma visão que, a 27 de Setembro de 1840, e morreu a do mundo determinada pela convicção de 1 de Dezembro de 1914, em Washington. que a Providência Divina traça o destino dos Era filho de Dennis Hart Mahan, professor povos e alimenta a inspiração que produz da United States Military Academy. Depois de concluir a United States Naval Academy em 1859, prestou serviço activo na United States Navy durante cerca de 40 anos, tendo embarcado em diversos navios como oficial de guarnição e comandante. Também foi instrutor na United States Naval Academy. Em 1885, após ter sido promovido ao posto de capitão-de-mar-e-guerra, foi nomeado instrutor de História e Táctica Naval no United States Naval War College, que acabara de ser criado. Mahan presidiu a esta instituição de 1886 a 1889 e de 1892 a 1893. Foi no exercí- USS Chicago. cio dos cargos referidos que organizou as notas das aulas, a partir das quais redi- novas ideias. Foi com base nesta devoção giu a sua obra mais conhecida e relevante, e convicção que justificou e apresentou o The Influence of Sea Power Upon History, expansionismo progressivo dos EUA, como 1660/1783, publicada em 1890 e que teve um contributo para o dever ocidental de cienorme influência no pensamento estraté- vilizar a Humanidade, e que considerou a gico naval do início do século XX. Nesta dinâmica conflitual entre os Estados como obra, analisa a competição pelo domínio inevitável, recorrente, aceitável e necessária dos mares entre a França e o Reino Unido ao engrandecimento de todos eles. durante os séculos XVII e XVIII, para demonstrar que o poder naval é o factor decisivo no controlo do comércio marítimo e na vitória em caso de conflito. Em Maio de 1893, sendo já muito conhecido, foi nomeado comandante do USS “Chicago”, um cruzador que realizou uma visita de demonstração de força à Europa, onde foi recebido e US Naval War College. homenageado aos mais altos níveis polítiO tempo de Mahan foi muito favorável à co, académico e social. Depois desta mis- divulgação do seu pensamento estratégico são retomou o cargo de instrutor no United no Reino Unido e nos EUA, embora por raStates Naval War College, onde passou à zões distintas. reserva em 1896. No Reino Unido vivia-se um momento No ano de 1898, durante a Guerra Hispano- particularmente difícil, por a tecnologia ter -Americana, voltou ao serviço activo no Naval desvalorizado os elementos estruturantes da War Board, como consultor de estratégia naval utilidade e valia da Royal Navy como instrudo Secretário da Marinha e do Presidente dos mento político. Com efeito, por um lado, deEUA. Foi promovido a contra-almirante em corria um processo particularmente difícil de 1906, quando o Congresso dos Estados Unidos transformação da marinha da era da vela e da aprovou a legislação que determinou a promo- madeira para a marinha da era do vapor e do ção ao posto superior, de oficiais de marinha aço, e da artilharia de carregar pela boca para que serviram na Guerra Civil Americana. a artilharia de culatra e percussão central, 4 6 JANEIRO 2013 • REVISTA DA ARMADA com a incorporação simultânea das tecnologias e das tácticas associadas às granadas de alto explosivo e aos torpedos. Por outro lado, o incremento do volume e da diversidade do comércio marítimo internacional, questionava a predominância do transporte das mercadorias em navios britânicos. Acrescia, ainda, que a ferrovia mostrava a possibilidade dos países continentais se desenvolverem sem recurso a marinhas, enquanto o telégrafo reconfigurara as possibilidades das comunicações terrestres. Nestas circunstâncias, a outrora inquestionável utilidade e o valor decisivo da Royal Navy, como instrumento político preferencial do Reino Unido para garantir a sua prosperidade e afirmação internacional, pareciam condenadas à irrelevância. Nos EUA a situação era completamente diferente da descrita para o Reino Unido. O país estava empenhado na ocupação progressiva e efectiva do vasto território do continente norteamericano. Por isso, os assuntos marítimos tinham sido colocados numa prioridade política remota. É certo que esta situação contribuiu, de forma relevante, para o facto de, na época de Mahan, a United States Navy ser composta apenas por unidades costeiras, que se encontravam em grande obsolescência tecnológica e não dispunham de capacidade militar válida numa guerra entre potências navais de primeira ordem. Porém, não se pode esquecer que o almirantado norte americano, após a Guerra Civil dos EUA, se havia oposto ao abandono dos navios à vela, a favor da adopção da tecnologia emergente dos navios a vapor! Nestas circunstâncias, o pensamento estratégico de Mahan serviu perfeitamente as pretensões políticas do Reino Unido e dos EUA no início do século XX, porque, ao colocar as prioridades navais na primeira linha dos requisitos necessários à riqueza e grandeza ambicionada pelos líderes dos dois países, contribuiu decisivamente para viabilizar os investimentos necessários à aquisição de meios materiais e de conhecimentos técnicos, bem como à experimentação de procedimentos, que são os factores determinantes do sucesso de toda a estratégia naval. António Silva Ribeiro CALM N.R. O autor não adota o novo acordo ortográfico. MENSAGEM DE NATAL E DE ANO NOVO DO ALMIRANTE CHEFE DO ESTADO-MAIOR DA ARMADA E AUTORIDADE MARÍTIMA NACIONAL Militares, Militarizados e Civis da Marinha: A o entrar neste Novo Ano, e no espírito desta quadra em que nos encontramos, saúdo todos os que servem Portugal na Marinha. Gostaria de começar, manifestando toda a minha solidariedade para com aqueles que, no mar ou em terra, por motivos de serviço, não podem estar no seio da sua família, pois esta é sem dúvida uma época para celebrar a paz e a amizade com os nossos entes queridos. Terminamos um ano de grande exigência e rigor, onde as restrições que foram impostas ao País refletiram-se sobremaneira na Marinha. No entanto, e fruto do esforço de todos os que, apesar das dificuldades, continuam a lutar por um futuro melhor, conseguimos honrar os nossos compromissos. Cumprimos um conjunto alargado de missões, das quais relevo as relacionadas com a segurança e autoridade do Estado nas águas de jurisdição nacional, a presença nos países de língua oficial portuguesa, a manutenção de paz em Timor-Leste, no Kosovo e no Afeganistão, a participação de uma fragata na Operação Atalanta, no âmbito do combate à pirataria, e a integração de um submarino no SNMG2. Ainda, e em tempo recorde, aprontámos e fizemos ao mar a Força Naval Portuguesa, como componente da Força de Reação Imediata (FRI), para eventual apoio à evacuação de cidadãos nacionais da Guiné-Bissau. É, assim, oportuno reconhecer publicamente o trabalho efectuado pelos que no mar, a partir do mar, no litoral e nos serviços em terra, independentemente de serem militares, militarizados ou civis, dão o melhor do seu esforço e dedicação ao País e à Marinha. No que respeita a 2013, estou bem ciente das dificuldades que temos de enfrentar. Será, indubitavelmente, um ano de enormes restrições onde apenas com o engenho e a arte que caracteriza os que cumprem Portugal no mar, vamos poder continuar a cumprir as nossas missões. Conto assim com o rigor, a dedicação e a entrega de todos, na procura de soluções que permitam resolver as dificuldades e desta forma encontrar o caminho adequado para manter a nossa Marinha como uma instituição de referência, otimizada e eficiente. Iremos, finalmente, receber o tão aguardado NPO Figueira da Foz, mais uma unidade de um programa que é fundamental para substituir as envelhecidas corvetas. Iremos também assumir o comando e prover o navio almirante da EUNAVFOR, força da união europeia que combate a pirataria no oceano Índico, para além de continuarmos a assegurar a manutenção do Dispositivo Padrão. Estão em curso importantes alterações ao corpo legislativo que rege toda a instituição militar, alterações estas que visam uma melhor adaptação aos tempos modernos e torná-la mais eficaz. Estou certo que todos sairemos a ganhar, pois com o trabalho, o empenho e a dedicação de todos os homens e mulheres que servem na Marinha, podemos auspiciar um futuro melhor, e destes tempos difíceis sairemos mais fortes e mais capazes de dar o nosso contributo para o desígnio nacional de tornar o mar num vetor essencial do desenvolvimento português. Podem contar com o Comandante da Marinha, para defender os superiores interesses da nossa centenária instituição, como sei que posso contar com a vossa coesão, disciplina e sentido de missão para superar esta “tempestade” e rumar à “bonança”. Termino esta minha mensagem fazendo votos para que o Ano Novo proporcione, a todos, a realização dos vossos anseios, pessoais e profissionais, e vos traga satisfação pelo dever cumprido e orgulho em servir na Marinha. Desejo a todos um Feliz Natal e um próspero 2013. José Carlos Saldanha Lopes Almirante REVISTA DA ARMADA • JANEIRO 2013 5 O COMBATE DO NRP VEGA ÍNDIA–18DEZ1961 a sequência das comemorações ocorridas no ano passado, no âmbito do cinquentenário dos combates navais na Índia, a Câmara Municipal de Bragança convidou a Marinha a participar na homenagem a um «filho da terra» que neles participou, o Cabo Aníbal Jardino. As diversificadas cerimónias decorreram nos dias 2 e 3 de novembro, tendo a Marinha tido uma participação ativa nas mesmas. A representação foi ao mais alto nível, contando com a presença do Almirante Chefe do Estado-Maior da Armada (CEMA), com o Vice-almirante Vice-chefe do Estado-Maior da Armada e com o Vice-almirante Diretor da Comissão Cultural da Marinha. Estiveram ainda presentes diversas entidades locais e o Professor Doutor Adriano Moreira, transmontano ilustre que, à data dos acontecimentos, era o ministro com a tutela do Ultramar. No dia 2 de novembro prestou-se homenagem aos militares falecidos, no talhão dos Combatentes do cemitério do Toural. No dia 3, com a presença, designadamente, do Presidente da Câmara de Bragança, do Almirante CEMA e do Presidente da Liga dos Combatentes, realizou-se nova cerimónia de homenagem, agora ao Cabo Aníbal Jardino e junto ao monumento que celebra a sua memória. Ambas as cerimónias incluíram a deposição de coroas de flores e contaram com a intervenção de uma guarda de honra assegurada pela Marinha, através de uma secção de fuzileiros e um terno de clarins. Na tarde desse mesmo dia 3 inaugurou-se, no Centro Cultural Adriano Moreira, uma exposição dedicada aos últimos combates navais da Índia, organizada pelo Museu de Marinha. À noite ocorreu uma sessão cultural no Teatro Municipal de Bragança. Numa primeira parte, fez-se a evocação do combate da lancha Vega. Após curtas intervenções do Almirante CEMA e do Presidente da Câmara Municipal de Bragança, usou da palavra o Professor Doutor Adriano Moreira, o qual fez o enquadramento das circunstâncias políticas 6 JANEIRO 2013 • REVISTA DA ARMADA conducentes à ação da União Indiana sobre os territórios do então Estado da Índia. Seguiu-se uma entrevista aos marinheiros sobrevivos da Vega, os Sargento-ajudante Francisco Mendes Freitas, Primeiro-sargento Venâncio dos Ramos e Cabo participou nos combates navais de 18 de dezembro de 1961, a bordo do aviso Afonso de Albuquerque. A noite encerrou com um concerto pela Banda da Armada, que contou com a participação da cantora Dulce Pontes. Fotos 1SAR FZ Pereira N Homenagem ao Cabo Aníbal Jardino, em Bragança Armando Cardoso da Silva, entrevista que foi coordenada pelo Capitão-de-mar-e-guerra Engenheiro Maquinista Naval José Vitoriano Cabrita, o qual também Exposição «Os últimos combates navais na Índia» Nesta exposição procurou-se evocar a participação da Marinha nos combates contra as forças da União Indiana nos territórios que integravam o Estado Português da Índia. Desde 1947, ano da sua independência que a União Indiana reclamava a anexação dos territórios portugueses. A situação degradou-se significativamente em 1960, culminando com a invasão em final de 1961. Na defesa do espaço português participaram dois navios, o aviso Afonso de Albuquerque, em Mormugão, e a lancha Vega, em Diu. Na madrugada de 18 de dezembro de 1961, a fortaleza de Diu foi atacada pela aviação indiana. A Vega, sob o comando do Segundo-tenente Oliveira e Carmo, foi empenhada na proteção da fortaleza contra os ataques aéreos. O combate foi muito desequilibrado, pois a Vega apenas dispunha de uma peça Oerlinkon de 20 mm, para fazer frente à aviação inimiga. Após cerca de uma hora e meia de combate, o navio foi afundado, em resultado dos inúmeros projécteis que o atingiram. Perderam a vida o seu comandante e os marinheiros António Ferreira e Aníbal dos Santos Fernandes Jardino. O marinheiro Aníbal Jardino foi promovido por distinção ao posto de Cabo, a título póstumo, tendo-lhe sido concedidas a Medalha de Cobre de Valor Militar, com Palma e a Medalha Militar por Promoção. De acordo com o documento de concessão da Medalha de Cobre de Valor Militar, Aníbal Jardino demonstrou, perante o combate, extraordinária coragem e invulgar abnegação. O Arpão no SNMG2 N o último artigo – PARTE 2 – havíamos ficado com o Arpão em trânsito para Cartagena, após ter terminado a 2ª patrulha integrada na OAE, a qual a NATO designa por SURGE, dada a sua natureza anti-terrorista. Na manhã de 29 de Outubro chegámos a Cartagena, após um trânsito sem problemas tendo sido recebidos por toda a estrutura de Comando da nossa Esquadrilha “irmã”. Cartagena é uma cidade desconhecida para a maior parte do pessoal da nossa Marinha, no entanto para a comunidade submarinista é uma cidade não só conhecida como muito importante. Durante 3 décadas Cartagena representou um local de encontro entre as duas Esquadrilhas Ibéricas, tantos eram os aspectos em comum da vida de ambas as comunidades de submarinistas, centrada numa plataforma comum, os submarinos da classe “Daphné”. Os 3 dias passados em porto ofereceram muitas oportunidades de interacção entre as guarnições do Arpão e do “host ship”, o “Tramontana”. Foi possível ficar com uma primeira impressão da forma como se encontra o desenvolvimento dos futuros submarinos espanhóis, designados “S80”. A Marinha de Espanha aponta para um submarino com um desenho nacional, baseado na classe Scorpene, mas com características semelhantes ao nosso “209PN”, estando atualmente projetadas 4 unidades. Assim, foi de uma forma emotiva que largámos no final da tarde dia 1 de novembro deste relevante porto, o qual constitui um excelente ponto de apoio naval para os nossos submarinos quando em missão nesta área do Mediterrâneo e para a manutenção de uma longa relação bilateral efetiva com nossos “irmãos” espanhóis. O trânsito entre Cartagena e Lisboa fez-se sem sobressaltos, tendo o Arpão realizado a sua primeira passagem em imersão, no sentido Leste-Oeste do Estreito de Gibraltar. O regresso a Lisboa deu-se na tarde do dia 6 de novembro, após ter largado da Base Naval de Lisboa em 28 de agosto e ter integrado, pela primeira vez na história dos submarinos portugueses, a Força Naval Permanente da NATO (SNMG2). Em termos de resumo da missão realizada podemos afirmar que a integração concretizou-se no período de 4 de setembro e 27 de outubro, onde efectuou duas patrulhas no âmbito da Operação “Active Endeavour” (OAE) e participou no exercício “Noble Mariner 12” (NOMR12). A OAE é a única operação militar no âmbito do artigo 5º do Tratado da Aliança Atlântica, tendo como objectivo principal combater todas as atividades que podem sob qualquer forma contribuir para o aparecimento, desenvolvimento e concretização de actividades de natureza terrorista em ambiente marítimo no Mediterrâneo. O exercício NOMR 12 teve como objectivo principal a certificação da Força de Reacção Rá- pida (NRF) da NATO para 2013, permitindo a integração e o treino da interoperabilidade dos diferentes meios participantes. A participação do submarino Arpão nesta missão teve a duração de 71 dias, dos quais 31 foram em patrulha nas áreas de operações da OAE, com uma taxa de navegação total cerca de 83%. Das tarefas efetuadas pelo submarino português destacam-se as seguintes actividades: Recolha de dados Contribuição para a compilação do panorama marítimo em áreas sensíveis Controlo do tráfego marítimo no Mediterrâneo Apoiar as operações do SNMG2 O resultado desta missão foi bastante positivo, tendo a participação do Arpão sido bastante elogiada pelas entidades da NATO, tanto referentes à sua participação no exercício NOMR 12, quer pelas capacidades demonstradas na OAE. Reflexo disso foi a carta elogiosa enviada pelo Comandante da Força de Submarinos NATO para o Mediterrâneo, CALM Roegge, da US Navy, o qual havia detido o OPCON do submarino durante o período da integração: “Quero aproveitar esta oportunidade para elogiar o sucesso da participação do NRP “Arpão” e pelo seu apoio à NATO e na guerra contra o terrorismo. Fiquei impressionado pela CONCLUSÃO mostra de profissionalismo, pela determinação e pelo espírito do NRP Arpão. A sua atitude sempre vigilante contribuiu bastante para compilação do panorama marítimo e para esta importante operação da NATO. Além disso, o seu desempenho no exercício Noble Mariner 2012 foi digno de nota e contribuiu significativamente para o sucesso deste complexo exercício. Apreciei especialmente as contribuições inteligentes e francas durante e após o exercício. Essas contribuições terão um impacto na melhoria futura dos exercícios da NATO. Os meus sinceros agradecimentos pelo profissionalismo, dedicação e devoção à missão durante a integração do NRP Arpão. A sua contribuição para a NATO e para a guerra global contra o terrorismo foi louvável.” De igual forma o CALM Kheeler, da GE Navy, Comandante do SNMG2 enviou as melhores referências do Arpão, salientando as suas capacidades enquanto plataforma e igualmente a relevante capacidade de adaptação dos submarinistas a novas realidades indicando que a missão havia sido cumprida com elevado mérito. Finalmente chegou o dia de chegada a Lisboa a 6 de novembro. De facto não nos sentíamos a chegar de uma missão de 2 meses e meio, mas sim recordávamos que havíamos saído de Lisboa no dia 7 de março para realizar o PTO da Álvares Cabral, provas de calibração ao sonar IDRS, “Instrex 12”, trânsito para Kiel, docagem de garantia no estaleiro construtor – a qual durou 4 meses e meio, o trânsito para Lisboa e apenas após uma semana de preparação na BNL, a integração no SNMG2 o que totaliza praticamente 8 meses de missão contínua com 14 dias de paragem em Lisboa. Foi com base neste registo e com o consequente estado de espírito que recebemos a bordo o Ministro da Defesa Nacional, Dr. José Pedro Aguiar-Branco, acompanhado pelo Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, General Luís Evangelista Esteves de Araújo e pelo Chefe do Estado-Maior da Armada, Almirante José Saldanha Lopes. O embarque das altas entidades realizou-se como previsto na Baía de Cascais tendo sido oferecido um almoço no Posto a vante durante o trânsito à superfície para a BNL, tendo contado com a participação de representantes da guarnição e onde se trocaram impressões sobre os mais diversos aspectos que revestiram o cumprimento da missão do Arpão. Foi desta forma que às 1600 horas o Arpão atracou no cais 6 sul da Base Naval de Lisboa com o sentimento do dever cumprido, após termos navegado aproximadamente 1500 horas, 1480 das quais em imersão e percorrido 6670 milhas. Colaboração do COMANDO DO NRP ARPÃO REVISTA DA ARMADA • JANEIRO 2013 7 O NRP ÁLVARES CABRAL NO PORTUGUESE OPERATIONAL SEA TRAINING INTRODUÇÃO preparação para a primeira semana de mar. Esta primeira semana de terra permitiu o Com partida de Lisboa em 10 de setembro e regresso a 28 de outubro, o NRP início da adaptação da guarnição a um ritÁlvares Cabral, após quase 50 dias de mis- mo de trabalho específico, mas foi também são, cumpriu o Portuguese Operational Sea a oportunidade de conhecer os Seariders Training (POST), em Inglaterra sob a égide (avaliadores) que acompanhariam o navio do Flag Officer Sea Training (FOST), no durante as 6 semanas de treino. período de 17 de setembro a 25 de outubro de 2012. Após um longo período de manutenção, com a realização de uma revisão intermédia que decorreu de Janeiro a novembro de 2011, a Álvares Cabral iniciou o seu treino em fevereiro de 2012 através do Plano de Treino Básico (PTB), com uma duração de 4 semanas e acompanhamento da Equipa de Avaliação do Centro Integrado de Treino e Avaliação Naval (EACITAN). Este A iniciar aproximação para reabastecimento. treino nacional teve como objetivo garantir a preparação do navio para participar em exercícios básicos e para ações de presença naval, mas permitiu sobretudo elevar o patamar de desempenho de modo a retirar o máximo rendimento do treino subsequente, a realizar em Inglaterra, no POST 2012. O POST da Álvares Cabral decorreu durante as habituais 6 semanas, tendo desta feita sido distribuídas por uma semana de terra e quase 5 semanas de mar, uma vez que a O Lynx armado com torpedos e pronto a descolar. quarta semana de treino, tradicionalmente uma semana de terra, foi passada no mar de terça a quinta-feira. O MASC O POST 2012 iniciou-se com a inspeção inicial, designada por Material Assessment and Safety Check (MASC), que teve como objetivo a avaliação do estado do material e dos procedimentos de segurança durante a condução de séries de tiro, combate a incêndios e testes aos sensores, sistemas de comando e contro- Reabastecimento no mar com RFA Wave Knight. lo e sistemas da plataforma. No dia 20 de Setembro, foi oferecida uma O dia do MASC, em excelentes condições meteorológicas, foi bastante positivo e o receção a bordo, que teve a presença do navio cumpriu todas as séries previstas, no Almirante FOST - Rear Admiral Clive Johorário planeado, de forma eficaz e em se- hnstone CBE. Na receção, a boa disposição gurança, tendo nesta sequência sido consi- garantiu um momento de agradável convíderado seguro e pronto para iniciar o treino. vio e troca de experiencias entre a guarnição da Álvares Cabral e os elementos do PRIMEIRA SEMANA DE TERRA FOST. Os restantes dias da primeira semana decorreram com o navio atracado na Base Naval AS DUAS PRIMEIRAS de Devonport, onde foram realizadas várias SEMANAS DE MAR ações de treino, palestras, reuniões e exercíApós o MASC, as duas primeiras semanas cios diversos, que tiveram como objetivo a de mar revelaram-se igualmente um desa8 JANEIRO 2013 • REVISTA DA ARMADA fio para a guarnição, exigindo uma adaptação rápida a um plano de treino exigente, com o cumprimento de um seriado intenso em áreas tão diversas como operações, mecânica, eletricidade, limitação de avarias, marinharia, logística, saúde, armas e eletrónica e navegação. Este período de treino foi uma prova à determinação e destreza da guarnição. Os dias começam cedo e acabam tarde, sempre com um calendário de treino muito exigente e ao mesmo tempo aliciante. Nesta fase, os avaliadores têm a preocupação de acompanhar a execução das séries de forma mais próxima, mantendo uma abordagem de maior ajuda e ensinamento, com o objetivo de garantir a consolidação de procedimentos corretos que permitam a posterior evolução gradual do desempenho. As duas primeiras semanas de mar marcaram também o início dos “dias de guerra”, conduzidos às terças e quintas-feiras, com a realização das séries em postos de combate. Estas séries caracterizam-se pela sua complexidade e intensidade, com toda a guarnição envolvida na condução da guerra área, de superfície, submarina, minas e assimétrica, e ao mesmo tempo também envolvida internamente nas áreas da mecânica, eletricidade, limitação de avarias e emergência médica, no combate aos incidentes, emergências e avarias causados pelo “inimigo” ou decorrentes da normal operação do navio em situação de combate. Durante este período foram jogadas duas grandes séries com incidentes de significativa dimensão e necessidade de estabelecimento de postos de emergência: o F4 (grande incêndio em espaço de máquinas) e o “Crash on deck” (queda do helicóptero no convés de voo), nas quais foram testadas a capacidade de comando e controlo e controlo de danos e avarias, em cenário particularmente difícil. SEGUNDA SEMANA DE TERRA Apesar de designada “Semana de Terra”, esta edição do POST revelou uma semana de terra com três dias de mar para a realização de duas “Training War” e exercícios na área da marinharia e operações. Foi, à semelhança das duas semanas anteriores, um período de treino intenso e culminou com a realização do Disaster Relief Exercise O SALVEX permitiu treinar a guarnição Este exercício, de elevado nível de desgaste (DISTEX) na 6ª feira. para apoio a um navio sinistrado no mar físico, foi um teste ao trabalho de equipa, O DISTEX é uma experiência que marca e o BOARDING concentrou-se numa ope- revelou uma guarnição coesa e com eletodos os que já participaram no POST. Trataração de interdição marítima, através de vado espírito de entreajuda e constituiu-se -se de um exercício que se desenrola num uma ação de abordagem e vistoria na qual como uma valiosa experiência que podecenário de ajuda humanitária a uma vila se desenvolveu um cenário de múltiplas rá eventualmente vir a ser usada no treino afetada por uma catástrofe natural. O nacomplicações, incluindo o ataque a tiro à nacional. Deve ainda ser referido, a título vio é chamado a prestar o primeiro apoio equipa de boarding e a posterior necessida- de curiosidade, que o chefe da equipa de à população sinistrada, através de ajuda de de prestação de primeiros socorros e de avaliação deste exercício era o oficial que médica e especializada para restaurar as inevacuação do militar atingido. exercia funções de Chefe de Departamenfraestruturas de primeira necessidade. Para o No exercício F7, primeiro exercício des- to de Propulsão e Energia no HMS Nottinefeito, procedeu-se a um trabalho exaustivo te género realizado por navios da Marinha gham quando ocorreu o respetivo encalhe de planeamento e identificação das equino POST, o cenário jogado foi baseado em e, no exercício das suas funções, lidou na pas e meios necessários para prestar realidade com aquele grave sinistro. o auxílio à população sinistrada e, No último dia de treino decorreu nesse sentido, foi projetada no terreInspeção Final, em que embarcaram no uma equipa de 100 militares que o Oficial Inspetor – Comodoro Mike prestaram o auxílio solicitado. Mansergh CBE e 40 Seariders que Neste exercício, o FOST contou avaliaram e inspecionaram estrutucom a colaboração de civis (alguns ras, sistemas e desempenhos, com verdadeiros atores) que personificaum formalismo e protocolo tradicioram os sobreviventes da população nais e muito vincados. Este dia, espeafetada e cuja representação tornou cial para todos, revelou um navio que difícil a distinção entre a realidade soube aproveitar as seis semanas de e a ficção, de tão credível que é a treino que lhe foram proporcionadas, caracterização e encenação dos que atingiu os padrões de prontidão Treino de socorrismo durante o exercicio de defesa no porto. participantes. exigidos à classe e que, mais importante que tudo, se encontra pronto a AS DUAS ÚLTIMAS ser empenhado operacionalmente e SEMANAS DE MAR a defender os interesses de Portugal Na penúltima semana de treino, a no mar. Álvares Cabral foi nomeada navioCONCLUSÃO -chefe da força naval em treino, o que O POST é uma missão peculiar implicou um esforço acrescido no que marca todos os que já tiveram planeamento, coordenação e conduoportunidade de nela participar. ção das principais séries da semana. Treinar no FOST é sem dúvida uma Esta semana, exigente em termos experiência única. O acesso ao code treino e marcada por condições nhecimento consolidado e extraído de mar muito adversas, foi para das melhores práticas de várias maalém das habituais “Training War”, rinhas e os meios aéreos e navais disorientada para a execução de exer- Carregamento da Phalanx. poníveis constituem uma excecional cícios de tiro real, luta anti-superfímais-valia que importa continuadacie e anti-submarina e atividades na mente manter, porque é garante dos área de marinharia. melhores padrões de desempenho Na 6ª feira, à chegada do navio à na nossa esquadra. Base Naval de Devonport, a semana O POST 2012, com início na Base terminou com a realização do Ship Naval de Lisboa muitos meses anProtection Exercise (SPE), com o nates da largada para Inglaterra, só foi vio atracado. Este treino decorre num possível com o inexcedível apoio de cenário em que o navio atraca para todos aqueles que em terra apoiam reabastecer e reparar avarias, e em a esquadra no mar e que, apesar das que após atracar é confrontado com consabidas dificuldades que todos um estado de anarquia em terra, atravessamos, através do seu melhor com a incapacidade das autoridades DISTEX - Posto de Comando em Terra. trabalho dotaram a Álvares Cabral locais de garantirem a proteção ao navio e ao mesmo tempo com a existência factos reais, que ocorreram no encalhe do dos meios humanos, financeiros e matede ameaça terrorista. Este quadro, cumprinavio Inglês HMS Nottingham em Julho de riais que permitiram a robustez e o suporte do de forma realista através de um número 2007, quando navegava ao largo da costa necessário ao cumprimento da missão em muito significativo de figurantes, colocou à da Austrália. Foi simulada uma situação Plymouth. Deve ainda, e em justiça ser referido o prova a defesa própria em situações de amede graves danos no casco, resultando em aça assimétrica e demonstrou a mais-valia grandes alagamentos em diversos compar- apoio da equipa de ligação (Portuguese do pelotão de fuzileiros embarcado e a adetimentos. Neste cenário, o navio em “postos Liaison Team) que integrada no Staff do quabilidade do planeamento e da reação da de emergência” envolveu toda a guarnição FOST acompanhou e apoiou o navio, de guarnição, que permitiu enfrentar com assino combate ao sinistro, tendo o período da forma incansável, durante todo o período nalável sucesso as dificuldades associadas a manhã sido passado a efetuar escoramentos de treino. esta situação. de grandes dimensões, assistência a cerca Na última semana de treino, destaca-se a rede duas dezenas de feridos, combate a inColaboração do COMANDO DO alização dos exercícios SALVEX, BOARDING, cêndios provocados pelo encalhe e recupeNRP ÁLVARES CABRAL F7 (grande alagamento) e a Inspeção Final. ração dos circuitos de alimentação elétrica. REVISTA DA ARMADA • JANEIRO 2013 9 ESCOLA NAVAL D ecorreu na Escola Naval, no dia 16 de novembro, a Sessão Solene de Abertura do Ano Letivo, e a Sessão de Encerramento das Jornadas do Mar 2012. Este ano, a cerimónia contou com a presença do Ministro da Defesa Nacional e do Secretário de Estado Adjunto e da Defesa Nacional, fazendo também parte da Mesa da Presidência o Chefe do Estado-Maior da Armada, o Chefe do Estado-Maior da Força Aérea, o Presidente das Jornadas do Mar 2012, o Presidente do Conselho do Ensino Superior Militar e o Comandante da Escola Naval. A cerimónia foi iniciada com o Hino da Escola Naval, entoado pelos cadetes, seguindo-se uma alocução do Comandante da Escola Naval, CALM Bastos Ribeiro. Do seu discurso destacam-se as seguintes palavras: “A Escola Naval entregou à Marinha vinte e dois Guardas-marinhas do Curso Dom Rodrigo de Sousa Coutinho, com mestrado integrado, bem como oito oficiais do serviço técnico com o grau de licenciatura. Preparámos ainda nove oficiais, técnicos superiores navais e especialistas. (…) Completaram e defenderam a dissertação quarenta oficiais, em complemento de estudos, convertendo os cursos antigos para o modelo de Bolonha. Aprontámos ainda para as Marinhas amigas de Moçambique e de Cabo Verde, respetivamente dois e um oficial. Atingimos taxas de sucesso escolar acima dos 65% no primeiro ano e acima dos 95% nos restantes anos, o que muito nos apraz.” (…) “Sabemos onde estamos e para onde queremos ir. Temos tido avanços significativos, mas também temos consciência que ainda temos um caminho a percorrer. (…) Pretendemos centralizar funcionalmente 10 JANEIRO 2013 • REVISTA DA ARMADA Fotos 1SAR A Laranjeira ABERTURA DO ANO LETIVO NA ESCOLA NAVAL a gestão da qualidade em todos os processos e actividades de formação, reforçando os procedimentos existentes e formalizando um plano com medidas para a melhoria contínua do ensino”. A lição inaugural, subordinada ao tema “Redes sem fios de sensores”, foi proferida pelo Professor Dr. Pedro Silva Girão, que colabora desde 1993 com a Escola Naval, lecionando a unidade curricular de Tecnologia e Medidas Eléctricas. Para além da entrega dos Diplomas de Mestrado e de Licenciatura, e dos Prémios Escolares, foram também entregues nesta cerimónia os Prémios das Jornadas do Mar 2012, o que possibilitou aos participantes deste colóquio assistirem à cerimónia militar de maior dimensão realizada anualmente na Escola Naval. A cerimónia ficou também marcada pela oferta, ao Almirante Chefe do Estado-Maior da Armada, de uma réplica do primeiro Estandarte da Companhia dos Guardas Marinhas pela Delegação da Escola Naval Brasileira que participou nas Jornadas do Mar 2012. Esta oferta foi efetuada no âmbito da relação fraterna entre as duas academias irmãs, que se tem vindo a estreitar com a presença de delegações da Escola Naval do Brasil em sucessivas edições das Jornadas do Mar. Destacam-se ainda as presenças de antigos CEMA e comandantes da Escola Naval, do representante do General Chefe do Estado-Maior do Exército, do Vice-presidente da Câmara Municipal de Almada, do Presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa, de Adidos de Defesa e Militares, e de representantes de instituições de Ensino Superior Militares e Civis. Colaboração da ESCOLA NAVAL ESCOLA NAVAL D e 12 a 16 de novembro tiveram lugar na Escola Naval, as Jornadas do Mar 2012, subordinadas ao tema “O Reencontro com o Mar no Século XXI”. As Jornadas do Mar têm a configuração de um colóquio onde são apresentados trabalhos realizados pelos estudantes num ambiente de convívio saudável que conjuga o estudo com os aspetos lúdicos, numa experiência ímpar e única na formação do estudante universitário. Foi a VIII edição deste colóquio, que tem vindo a ser organizado pela Escola Naval desde 1998 com periodicidade bienal, com o objetivo principal de promover o estudo e a reflexão sobre o Mar, destacando o seu papel no passado e no presente e perspetivando a sua utilização no futuro. Esta iniciativa, única, por ser dirigida apenas aos estudantes do Ensino Superior, pretende constituir um estímulo para a apresentação e discussão temática orientada, proporcionando a convivência entre os alunos de diferentes instituições do Ensino Superior e personalidades ligadas às várias áreas em debate. Pretende-se incentivar assim as novas gerações para as questões relacionadas com o Mar, nas suas diversas vertentes, tendo sempre em mente os benefícios que podem advir da nossa condição de país marítimo que tem no mar o mais importante fator de afirmação do país e de criação de riqueza. Nas Jornadas do Mar 2012 foram considerados todos os trabalhos, tendo o Mar como objeto de estudo, abrangidos pelos seguintes domínios do conhecimento: ∙ Matemática, Modelação e Engenharia ∙ Geografia, Oceanografia, Ambiente e Ciências Naturais ∙ História e Sociologia ∙ Economia e Gestão ∙ Relações Internacionais, Direito e Estratégia ∙ Literatura e Linguística ∙ Tecnologias da Informação e Comunicação ∙ Ciências Militares Com o tema “O Reencontro com o Mar no Século XXI” procurou-se potenciar a apresentação de trabalhos que dessem realce às seguintes ideias-força: ∙ O papel do mar no mundo globalizado e a importância da situação es- “O REENCONTRO COM O MAR NO SÉC. XXI” tratégica de Portugal que deve levar o país a explorar as vantagens do seu centralismo atlântico em diversas vertentes, nomeadamente no que concerne ao comércio internacional e ao desenvolvimento do sistema marítimo-portuário associado a uma cadeia logística que reforce as potencialidades do país como plataforma de distribuição à escala global; ∙ A importância e a afirmação de Portugal na ligação à sua maritimidade, e nesta senda, para que o mar continue a constituir um fator de competitividade e valorização do país, é muito importante a aposta determinada no desenvolvimento sustentável das atividades económicas associadas, desde a pesca ao turismo, e na investigação científica que igualmente terá efeitos potenciadores na economia; ∙ Os largos benefícios que o país pode obter, caso as Nações Unidas aceitem a proposta nacional elaborada pela equipa da Estrutura de Missão para a Extensão da Plataforma Continental tendo em vista a extensão da nossa Plataforma Continental, o que representará um acréscimo de cerca de 2 milhões de km2 aos espaços marítimos sob sobera- nia ou jurisdição nacional, ou seja, um acréscimo de superfície correspondente a 22 vezes o território nacional; ∙ A crescente necessidade de se velar pela segurança do mar face à sua importância geoestratégica e às ameaças e riscos variados a que está exposto, desde os acidentes poluentes até à criminalidade organizada com crescentes sintomas de globalização; ∙ A visão estratégica do mundo durante este século e o papel do mar devido à sua importância como meio importante de comunicação, de exploração de recursos e de potencial fonte geradora de conflitos devido à luta quer pelos espaços quer pelos recursos. As jornadas tiveram o seu início com uma sessão solene, presidida pelo Secretário de Estado Adjunto e da Defesa Nacional, Dr. Paulo Braga Lino, com a presença do Secretário de Estado do Mar, Prof. Doutor Manuel Pinto de Abreu, e aberta pelo Comandante da Escola Naval, Contra-almirante Bastos Ribeiro. Na sua alocução, o Comandante da Escola Naval enalteceu o interesse e o apoio que merecem estas iniciativas que, contribuindo para a afirmação de Portugal na ligação à sua REVISTA DA ARMADA • JANEIRO 2013 11 maritimidade, apelam ao estudo e reflexão sobre a importância do Mar através de uma partilha de saberes e valores entre diferentes instituições de ensino superior nacionais e estrangeiras. Seguiu-se a apresentação de boas vindas a todos os participantes por parte do aluno mais antigo, cadete Andrade da Cunha, e uma conferência de abertura proferida pelo CMG Augusto Alves Salgado, subordinada ao tema “O CINAV e o Património Cultural Marítimo”. Foram admitidos 67 trabalhos de 90 autores, em nome individual ou coletivo, oriundos de 24 instituições de ensino, abrangendo as 8 áreas do conhecimento pré-definidas. Para além dos estudantes nacionais, registou-se com agrado a participação de estudantes estrangeiros da Escola Naval brasileira, da Escola Naval espanhola, da Universidade de Oviedo, da Universidade Itinerante do Mar e de um estudante português da Universidade de Kyoto - Japão. Esteve também presente, durante toda a semana, uma delegação da Escola Naval alemã que, não apresentando trabalhos, participou, quer nas sessões de apresentação, quer nas outras atividades; Durante o tempo em que decorreram as jornadas, a Escola Naval proporcionou alojamento a 24 participantes; Os trabalhos analisados e apreciados pela Comissão Científica foram apresentados em 9 sessões plenárias, presididas por professores universitários e outras personalidades, civis e militares, ligados às áreas em debate; Efetuaram-se duas mesas redondas, subordinadas aos temas “A pesca do bacalhau” e “Universidade Itinerante do Mar”, com moderadores e participantes de excelência académica e profissional que despertaram grande interesse e participação das audiências; Esteve ainda patente durante esta semana uma exposição de fotografia, “Raízes de Mar”, alusiva às atividades de pesca; No domínio das atividades culturais, aconteceu uma noite de tunas universitárias, com a atuação das Tunas académicas da Faculdade de Medicina 12 JANEIRO 2013 • REVISTA DA ARMADA Veterinária da Universidade Técnica de Lisboa e do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas e um concerto da Banda da Armada. Ainda neste âmbito, foram efetuadas visitas ao Museu de Marinha, à Fragata D. Fernando II e Glória e ao Planetário Calouste Gulbenkian. No domínio da divulgação das atividades científicas da Marinha, foi proporcionada uma visita ao Instituto Hidrográfico. A meio da semana houve um jantar convívio nas instalações do Farol da Guia, acompanhado com a excelente atuação do dueto intimista de voz e guitarra “In Two”, que contou com a presença de alunos participantes, membros das Comissões Científica e Executiva, professores que participaram no evento, representantes das instituições patrocinadoras e apoiantes e outros convidados envolvidos na organização das Jornadas. Após uma semana intensa de atividades, as Jornadas do Mar 2012 encerraram no dia 16NOV numa cerimónia que coincidiu com a abertura solene do ano letivo 2012/2013 da Escola Naval, sob a presidência do Ministro da Defesa Nacional, Doutor José Pedro Aguiar Branco. A solenidade abriu com o discurso do Comandante da Escola Naval, Contra-almirante Bastos Ribeiro, que fez um balanço da atividade escolar do ano letivo transato e uma breve referência ao que se perspetiva para o próximo a que se seguiu a oferta pela Escola Naval brasileira, através da sua delegação que participou nas Jornadas do Mar, de uma réplica do 1º estandarte da Companhia de Guardas-Marinhas. Terminada esta alocução, foi dada a tradicional lição inaugural pelo Professor Doutor Pedro Silva Girão, docente na Escola Naval através do convénio com o Instituto Superior Técnico, a que se seguiu a entrega dos diplomas de mestrado e licenciatura e dos prémios escolares. Cumpridas as formalidades inerentes à abertura do ano letivo, o Presidente da Comissão Executiva das Jornadas do Mar 2012, Contra-almirante Henrique Lila Morgado, fez um sucinto balanço das Jornadas, terminando com o desejo que o contributo do colóquio “O Reencontro com o Mar no Século XXI” prestado à causa do Mar concorra para o agitar de consciências, melhor compreensão dos problemas e incentivo para concretizar as soluções necessárias ao progresso do país através da utilização do Mar. Seguiu-se a entrega de prémios para os melhores trabalhos de cada área temática, tendo a cerimónia terminado com o hino nacional cantado por todos os presentes. Em jeito de conclusão pode-se seguramente afirmar que os objetivos deste colóquio foram plenamente atingidos, quer no aspeto académico, pela quantidade e qualidade dos trabalhos apresentados, quer no que concerne à satisfação pessoal dos intervenientes, por terem contribuído para a divulgação dos diversos temas ligados ao Mar. “O REENCONTRO COM O MAR NO SÉCULO XXI” PRÉMIOS ÁREA ESCALÃO TRABALHO Área da Matemática, da Modelação e da Engenharia 1º Utilização de Materiais Compósitos na Construção Naval: Utilização do GLARE em Superestruturas Luis Tiago de Matos Filipe Escola Naval – Departamento de Engenharia Naval, Ramo de Mecânica Área da Geografia, da Oceanografia, do Ambiente e das Ciências Naturais 1º Desafios na Gestão da Zona Económica Exclusiva Portuguesa à Luz da Directiva-Quadro da Estratégia para o Meio Marinho Ana Rodrigues André Lopes Universidade Nova de Lisboa - Faculdade de Ciências e Tecnologias A Obra Social da Fragata D. Fernando II e Glória - Assistência, Educação e Trabalho no Estado Novo. Américo José Vidigal Alves Universidade de Lisboa/Escola Naval Jorge Russo Universidade Aberta Sandro Mendonça ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa Olinda Maria Martinho Rio Universidade de Coimbra – Faculdade de Letras 1º Área da História e da Sociologia 2º MH 1º 2º Área das Relações Internacionais, do Direito e da Estratégia Área da Economia e Gestão Área da Ciências Militares SS Dago: Historiografia de um destroço Too big to patent: Patenting, non-patenting and anti-patenting in the emergence of mature marine engineering and industrial naval architecture in nineteenth century Britain O Porto da Figueira da Foz: onde o passado conta e o futuro desafia Fatores de Stress no Contexto da Marinha Portuguesa: Efeitos das Auto-Imagens e Consequências para a Satisfação Laboral O caso da classe Almirante Pereira da Silva ilações para o futuro No termo da Ilha. Moradores, comércio e acesso à terra no continente fronteiro à Ilha de Moçambique (c. 1763 – c. 1800) Deploying Warships, Employing Diplomacy: Portuguese Diplomacy at Sea and NRP Sagres The Naval Dimension of East Asian Regional Security: Expenditures, Disputes and Solutions NOME DO PARTICIPANTE INSTITUIÇÃO Carina Veludo Instituto Superior de Economia e Gestão Pedro Filipe Figueira Saial Escola Naval – Departamento de Marinha Maria Paula Pereira Bastião Centro de História de Além Mar|FCSH/UNL & CEHC e ISCTE/ IUL Tiago Maurício Universidade de Kyoto Tiago Maurício Universidade de Kyoto MH 1º Do conhecimento situacional marítimo: Os projetos Blue Mass Med e Blue Eye como meio Raphael Cid Fonseca Dias Bernardo Filipe de Oliveira Lopes Walmor Cristino Leite Junior Ramon Dantas Vaqueiro José Miguel Neves de Sousa Assis Santa MH 2º O Parque Marinho dos Açores – tensões à vista? Maria Inês Gameiro Universidade Nova de Lisboa – Faculdade de Direito 1º O Mar Português: Passado Histórico ou Futura Potência Económica? Instituto Superior de Ciências Policiais e Segurança Interna 2º Quantificação e Análise de Setores do Cluster do Mar Português Fábio Manuel de Nogueira Camelo Ana Catarina Carvalho Ana Lúcia Barracho Oliveira Jéssica Ribeiro Miranda Isabel Beatriz Machado Pinto 1º 1º MH 1º Brasil e Portugal: Baluartes Marítimos do novo século El Papel de la Armada en la Gestion del tesoro Submarino Español Segurança Nacional: nova definição para Defesa Nacional e Segurança Interna? Candidatos à Escola Naval: atividade, aptidão, antropometria Escola Naval do Brasil Escola Naval – Departamento de Marinha Abel da Silva Simões Universidade Noval de Lisboa – Faculdade de Ciências Sociais e Humanas Luis Garcia Cardo Alberto Hernandez de la Fuente Escuela Naval Militar André Nunes Pedro Escola Naval – Departamento de Fuzileiros Helena Sofia Fonseca Paiva de Sousa Teles Escola Naval – Departamento de Médicos Navais Colaboração da ESCOLA NAVAL REVISTA DA ARMADA • JANEIRO 2013 13 COMISSÃO CULTURAL DA MARINHA MUSEU DE MARINHA LANÇAMENTO DE LIVRO E INAUGURAÇÃO DE EXPOSIÇÃO 14 JANEIRO 2013 • REVISTA DA ARMADA Indonésia que não admitia que essa instabilidade constituísse uma ameaça à sua segurança. Em finais de agosto de 1975, diante de uma situação descontrolada e em clima de pré-guerra civil, o Governador e Comandante-Chefe ordena a saída para a Ilha do Ataúro. No terceiro e último período são referenciadas as missões cometidas à Marinha quando da estadia no Ataúro. Ao longo da obra o Almirante Leiria Pinto tece rasgados elogios a todo o pessoal de Marinha que serviu sob as suas ordens e destaca o papel fundamental e imprescindível da Estação Radionaval de Díli nas comunica- sândalo, no qual estavam identificados os vários acontecimentos desde a chegada dos portugueses, no século XVI, até à atualidade, com destaque para aqueles em que participou a Marinha. À entrada encontravam-se modelos de embarcações tradicionais timorenses a que se seguia a apresentação de testemunhos escritos, pertença do Arquivo Histórico, distribuídos por três expositores. No primeiro, constava documentação desde o século XIX até à conclusão das Campanhas de Pacificação, nas quais a Marinha desempenhou um papel importante. Foi dado especial destaque à Guerra do Manufai (1911/12), a mais grave e duradoura revolta indígena timorense. Estava exposto um modelo da canhoneira Pátria que, na ocasião, muito contribuiu para que a paz fosse alcançada. Igualmente, referente a esse período, podia ser observado um modelo da canhoneira Bengo. O segundo expositor referia-se à ocupação japonesa, entre fevereiro de 1942 e setembro de 1945, sendo apresentados vários documentos, especialmente os Diários Náuticos dos avisos Afonso de Albuquerque, Bartolomeu Dias e Gonçalves Zarco, que participaram no reassumir da soberania portuguesa no território. O último espaço expositivo reportava-se ao período pós II Guerra Mundial até aos nossos dias, sendo exibidos relatórios dos acontecimentos que se registaram depois do 25 de Abril de 1974 até à invasão da ilha, em dezembro de 1975, por forças indonésias e Diários Náuticos das corvetas então presentes em águas timorenses. Após uma ausência de 24 anos a Marinha voltaria a Timor, a partir de novembro de 1999, com a chegada da fragata Vasco da Gama integrada na INTERFET (Força Internacional de Timor-Leste) que seria rendida pela fragata Comandante Hermenegildo Capelo cujos modelos também estavam apresentados. Ao mesmo tempo, Companhias de Fuzileiros integraram diversas missões de imposição e manutenção de paz no território, sob a égide das Nações Unidas. Encontravam-se igualmente referências à cooperação técnico-militar que a Marinha Portuguesa levou e leva a efeito para a edificação da Marinha Timorense. A concluir a Exposição figurava a última Bandeira Nacional que esteve içada na Estação Radionaval de Díli e foi definitivamente arriada em 26 de Agosto de 1975, quando da saída dos portugueses de Díli. Foto Rui Salta R ealizou-se no passado dia 5 de novembro, no Pavilhão das Galeotas do Museu de Marinha, o lançamento do livro Recordações de um Marinheiro – Timor 1973-1975 do CALM Leiria Pinto. Tendo obtido uma licenciatura em História, após passar à situação de Reserva, o autor desempenhou, durante quase cinco décadas, diversas funções na Marinha. Entre o comando de navios e de unidades em terra destacam-se os comandos de um Destacamento de Fuzileiros Especiais na Guiné e o da Escola Naval, e a direção da Biblioteca Central da Marinha, em acumulação com a presidência da Comissão Cultural. Foram escolhidas estas funções como testemunho de uma carreira multifacetada, abrangendo tanto missões operacionais de combate como atividades de cariz cultural. O livro em questão descreve, detalhadamente, a comissão desempenhada no mais longínquo território do então Ultramar Português, num período bastante conturbado que abrange os dois últimos anos da existência do Timor Português. Após umas palavras introdutórias proferidas pelo VALM Vilas Boas Tavares, Diretor da Comissão Cultural da Marinha, a editora do livro, o CALM MN Rui Abreu, também ele antigo Presidente da Comissão Cultural, fez a respetiva apresentação, com uma descrição bastante completa em que destacou os pontos principais. O Almirante Leiria Pinto divide a sua missão em três períodos distintos. O primeiro destes inicia-se com a sua chegada ao território, para desempenhar os cargos de Comandante da Defesa Marítima, de Chefe da Repartição Provincial dos Serviços de Marinha e por inerência Capitão dos Portos, de Presidente da Comissão Administrativa dos Serviços de Transportes Marítimos e de Presidente da Junta Autónoma do Porto de Díli, mais tarde seria também Diretor dos Serviços de Transportes Aéreos de Timor. Este primeiro período carateriza-se por uma situação de rotina e tranquilidade, executando a Marinha, além da patrulha e fiscalização marítimas, tarefas de apoio às populações ribeirinhas. De realçar o importante papel desempenhado pela Estação Radionaval de Díli nas comunicações com Lisboa, Macau e Lourenço Marques e com os navios-petroleiros portugueses que navegavam de e para o Golfo Pérsico. O segundo período começa com a revolução do 25 de abril e prolonga-se até 1975, sendo apresentado em relatórios diários o degradar da situação política e social, mercê de fatores internos e externos, perante a vizinha ções entre aquela parcela do território português e os centros de decisão no Portugal Continental. O lançamento deste livro coincidiu com a inauguração de uma exposição, igualmente no Pavilhão das Galeotas, sobre a presença da Marinha em Timor desde o século XVI até ao presente. Na Exposição organizada pelo Museu de Marinha, um extenso quadro apresentava a cronologia histórica da Ilha de Timor onde nasce o Colaboração da COMISSÃO CULTURAL DA MARINHA A Diversidade de Embarcações Tradicionais do Estuário do Tejo ENQUADRAMENTO Quanto ao primeiro factor, importa ter de Água Cima, cujo pequeno porte e caO património marítimo-fluvial do Estuário racterísticas do fundo tornava-os embarca- em conta que estas embarcações eram do Tejo, na sua dupla vertente material e ções aptas a navegar ao longo do rio Tejo construídas, em grande medida, sem reimaterial, constitui a marca indelével de uma (incluindo os seus afluentes e valas), até aos curso a planos geométricos de construção. Eram antes utilizados moldes (ou grades) profunda relação histórica e cultural das po- portos do “rio acima”. voações ribeirinhas com o Tejo. Gentes que Desde matérias-primas até produtos aca- próprios de cada estaleiro, os quais respeifizeram deste estuário o seu modo de vida, bados (incluindo o fornecimento de frescos tavam a técnica, o estilo do Mestre carpingentes cujas vidas se confundem e foram e cereais e de lenha para os fornos de pão de teiro naval e as especificações requeridas marcadas pelas cadências do Tejo e pelas vi- Lisboa), sal e vinho, areia e cortiça, açúcar pelo armador. Ora, a multiplicidade de vências por este propiciadas. e cereais, carvão ou lixo, era vasta a gama estaleiros que povoavam as margens do Na vertente material, as embarcações tra- de mercadorias/produtos transportados por estuário e que se dedicavam à construção dicionais do Estuário do Tejo apresentam-se estas embarcações. Foi, assim, possível sus- e reparação de embarcações tradicionais talvez como os principais elementos patri- tentar o desenvolvimento de uma vasta frota deixa perceber como este factor contrimoniais simbolicamente representativos da fluvial, cuja diversidade e especificidades buiu para a existência de embarcações com características técnicas diferenciadas cultura ribeirinha e da identidade local dos importa considerar (Figura 1). no quadro da tipologia de embarterritórios da borda d’água. A divercações existentes. Ademais, há que sidade de embarcações tradicionais considerar que são vários os casos deste estuário constitui, aliás, um de embarcações tradicionais do dos mais importantes conjuntos paEstuário do Tejo construídas em estrimoniais flutuantes portugueses e taleiros navais localizados noutros europeus. pontos do país (e.g. região da ria de Neste sentido, o presente artigo Aveiro), nomeadamente Varinos. procura esboçar uma síntese desta Quanto ao segundo factor, este diversidade tipológica de embarcaprende-se com a necessidade de ções vocacionadas para o transporte resposta às diferentes procuras do fluvial de mercadorias: as Fragatas, transporte fluvial, associadas às os Varinos, as Faluas, os Cangueiquais se verificavam requisitos esros, os Botes, os Botes-de-fragata, os pecíficos de transporte. Cita-se um Botes do Pinho, os Barcos de Água Fig.1 - Embarcações tradicionais atracadas no Cais da Ribeira exemplo. A embarcação Cangueiro Acima, as Canoas e os Catraios. Um Nova, Lisboa. apresentava um conjunto de caracobjectivo enquadrável no desígnio terísticas técnicas que decorria da de preservação e salvaguarda da especificidade do serviço de transmemória histórica e cultural deste porte para o qual foi concebida: o património, através da disseminatransporte de materiais de construção do conhecimento sobre as suas ção – portanto, materiais pesados –, especificidades e funções. cuja operação de carga era muitas Com efeito, recuando até à privezes realizada com a embarcameira metade do século XX, enção “abicada à praia”; como tal, contramos um Estuário do Tejo que, o formato da popa da embarcação para além de se constituir como o – “popa fechada” – (principal casustentáculo do desenvolvimento racterística técnica diferenciadora), de um amplo conjunto de activiera de grande utilidade para cortar dades, se afirmava como um meio a vaga, minimizando o efeito do de transporte fulcral para a Região embate da mesma. de Lisboa. Na actividade das emQuanto ao último factor explicabarcações tradicionais de carga tivo (as áreas de operação das emdestacava-se então o abastecimento Fig.2 - Fragata “Ninfa” navegando no Estuário do Tejo. barcações), as condições naturais da cidade de Lisboa, o transporte de do Estuário do Tejo (e “rio acima”) determercadorias de e para o Porto de Lisboa, minaram o desenvolvimento de adaptaassim como as operações de carga e des- FACTORES EXPLICATIVOS ções técnicas nas embarcações. O fundo carga dos navios de grande porte fundea- DA DIVERSIDADE DE EMchato dos Varinos e dos Barcos de Água dos neste porto. Acima é disso exemplo maior. Importa ainda destacar que no plano de BARCAÇÕES TRADICIONAIS Para NABAIS (2009: 3), a grande diverPara além destes factores, também a água estuarino existiam (e existem) condições diferenciadas de navegabilidade, sidade de embarcações tradicionais por- existência de vários tipos específicos de facto que obrigou a adaptações técnicas tuguesas é explicada pelo estilo próprio embarcações precedentes, a partir das das embarcações que nele navegavam. É o de cada estaleiro/povoação, pelas funções quais foram desenvolvidas adaptações ao caso dos Varinos (fundo chato), utilizados que estas embarcações desempenhavam e longo do tempo (decorrentes das evolupara navegar nas águas pouco profundas pelas suas áreas de operação. Tais factores ções técnicas, tecnológicas e funcionais), da generalidade dos esteiros que permitiam explicativos são passíveis de transposição terá influído na diversidade de embarcapenetrar nas margens recortadas do arco ri- para o caso específico das embarcações ções verificada em momento posterior. Referidos os factores explicativos da dibeirinho Sul. É também o caso dos Barcos tradicionais do Estuário do Tejo. REVISTA DA ARMADA • JANEIRO 2013 15 versidade de embarcações tradicionais de carga do Estuário do Tejo, apresenta-se de seguida uma breve descrição das suas características e funções. va, essencialmente, ao transporte de carga pesada, com destaque para os materiais de construção (incluindo areia e saibro), possuía algumas adaptações técnicas: a proa era mais arqueada e a “popa fechada” para aliviar o embate aquando das operações de carga e CARACTERÍSTICAS E FUNdescarga (Cf. Leitão, 2002: 93). “Íamos à praia ÇÕES DAS EMBARCAÇÕES do Alfeite carregar areia, que transportávamos TRADICIONAIS para a Doca de Santo Amaro, para as obras. As Fragatas, embarcações à vela de um Transportávamos ainda pedra da Doca de só mastro (com um ligeiro caimento para a Santo Amaro para os fornos de Salvaterra e ré, aparelhando uma vela latina quadranBenavente, para fazer cal. Depois, quando gular e uma triangular de estai) e “de fundescíamos o rio vínhamos carregados de pido redondo e proa direita” (Leitão, 2002: nho para a Doca de Santo Amaro, para abas41), possuíam as maiores dimensões, emtecer os fornos de pão de Lisboa. Quando o bora a sua tonelagem fosse muito variável cangueiro não tinha serviço, dava entrada no (Figura 2). Grémio e andávamos no rio a carregar cortiça O calado destas embarcações constituía, e madeira, isto por volta de 1942. Chegámos contudo, um factor condicionador a vir ao porto de Sarilhos carregar mada sua navegação em águas pouco deira para a Covina, localizada a seprofundas, restringindo o seu acesso guir a Sacavém. Este cangueiro (“Maaos designados “portos baixos”. Não ria Júlia”) tinha 50 toneladas” (António obstante, era uma embarcação relaFernandes Júnior, 2011). tivamente rápida, conforme é expliOs Botes apresentavam traça semecado por António Fernandes Júnior lhante às Fragatas, embora sendo de (2011), um antigo Arrais de Fragata: menor porte. Armavam “uma vela “As fragatas tinham quilha e por isso grande de carangueja e, por vezes, aguentavam mais a bordejar. Já os duas velas à proa – um estai e uma varinos, como tinham o fundo chato bujarrona” (Carrasco, 1997: 23). Leitão diferencia os Botes, propriamente rolavam mais com a vela cheia; por ditos, dos Botes de meia-quilha, conisso, andavam menos”. siderando que “as diferenças fundaDe acordo com Leitão (2002: 91), as Fragatas, conjuntamente com os Fig.3 - Barco de Água Acima carregado de cortiça. mentais que existem entre [eles] são a Varinos, tinham como ocupação consequência natural do fundo forteprincipal “a descarga de navios e o mente abaulado e dos bojos volumotransporte da sua carga de trigo, fasos do bote de meia-quilha”, acresrinha, carvão de coque, maquinaria, centando ainda que este último barco etc., para várias zonas do porto de ao ser concebido “para navegar em Lisboa”, carregando também “azeisítios com pouca água e assentar no te em Vila Franca de Xira, cimento fundo na maré baixa, (…) é um pouco em Alhandra, cortiça em Sacavém, mais pequeno que o bote da mesma Montijo, Moita, Alhos Vedros, Barépoca, calando menos não só em reiro, Seixal, Amora e Caramujo”. consequência do seu tamanho mais O leque de produtos transportados reduzido, mas também porque os pelas Fragatas era, naturalmente, bojos bem cheios lhe proporcionam mais amplo, destacando-se ainda: uma maior flutuabilidade em relação “o vinho, que era carregado (…), por ao tamanho” (Leitão, 2002: 96). A capacidade média de carga destas exemplo desde a Arealva. Também embarcações oscilava, em geral, entre transportávamos muito açúcar, café, 20 e 50 ton., destinando-se essencialfeijão, madeiras, amendoins e peles Fig.4 - Cangueiro (à direita) atracado no Porto de Lisboa. mente ao transporte de produtos horproveniente das colónias. No Cais do tícolas, rama de pinho seco, cortiças, cereais Ginjal laborava a firma João Theotónio Pe- fundas, fruto do seu reduzido calado. reira Júnior, Lda. (…). A Fragata “Maria AliTransportavam, entre outros produtos, a e vinho. Estas embarcações “carregavam tamce” era propriedade desta empresa, na qual madeira e o arroz provenientes das Lezírias, bém encomendas (as mercearias) para Salvatransportávamos vinhos, azeite, vinagre para o arroz e a pasta de tomate produzida nas terra, Benavente e outros portos (…) a partir da exportação para as ex-colónias, mas tam- fábricas de Salvaterra de Magos ou o vinho doca do Jardim do Tabaco. Havia igualmente bém para abastecimento da frota bacalhoei- a partir do Carregado, Azambuja, Cartaxo, vários botes que transportavam encomendas ra nacional” (António José Fernandes, 2011). Salvaterra, Muge e Almeirim (Cf. Leitão, para Lisboa e para o Barreiro” (António FerPor sua vez, os Varinos apresentavam 2002: 91). O transporte de cortiça até às nandes Júnior, 2011). Um outro tipo de Bote era o Bote do Picomo principais características estrutu- unidades industriais localizadas no Estuário rais diferenciadoras a arqueação da proa do Tejo ou o transporte de carga geral era nho. Destinava-se ao transporte de rama (“proa redonda”) e o fundo chato, que lhes também assegurado por estas embarcações. e toros de pinho para os fornos de pão da No que diz respeito ao Cangueiro, as suas cidade de Lisboa, com uma capacidade de garantia a acessibilidade a locais de águas pouco profundas, nomeadamente nos bra- características eram muito próximas de uma carga que variava entre 20 e 50 ton., apareços de rio e esteiros da margem Sul, onde Fragata (incluindo o velame, ainda que o lhando uma pequena vela latina triangular a profundidade é reduzida. À semelhança mastro apresentasse maior caimento), em- (vela de estai) à proa e uma grande vela ladas Fragatas, possuíam um só mastro com bora fosse, em geral, de dimensão inferior tina quadrangular de carangueja junto ao mastro (é conhecida uma excepção a este caimento para a ré, aparelhando uma vela (Figura 4). Sendo uma embarcação que se destina- velame; trata-se do Bote do Pinho “Fernanlatina quadrangular e uma ou duas velas 16 JANEIRO 2013 • REVISTA DA ARMADA triangulares de estai à proa. Os Varinos destinavam-se, em grande medida, ao transporte de mercadorias entre as margens do estuário, nomeadamente produtos hortícolas, rama de pinho seco, cortiça, ferro, areia, farinha, açúcar, vinho e sal, entre outros. Os pequenos Varinos, utilizados para navegar nas águas pouco profundas a montante de Lisboa (incluindo os esteiros, valas, canais e pequenos rios afluentes do Tejo), eram também conhecidos como Barcos de Água Acima (em geral, com tonelagem inferior a 50 ton.) – Figura 3. Para além das características do fundo, o leme apresentava-se muito comprido para compensar a menor área submersa e, assim, poder chegar a locais de águas pouco pro- Fig.5 - Bote do Pinho “Fernando I”, de Sarilhos Pequenos. do I”, de Sarilhos Pequenos - conhecido como “Bote Gaião” -, que armava uma grande vela latina triangular). Estas embarcações destacavam-se também pelas suas minuciosas pinturas, apresentando cores garridas, motivos florais e figuras míticas (Figura 5). Os Botes do Pinho transportavam pinho a partir de vários pontos, incluindo a Raposa (Seixal), Corroios, Samora, Lançada ou Sarilhos Pequenos. Ocasionalmente transportavam palha, proveniente dos mouchões do Tejo, para Sarilhos Pequenos, Alcochete, Moita, Rosário e Montijo, onde era utilizada para cobrir as serras do sal produzido nas salinas aqui existentes. Quanto aos Botes-de-fragata, estes assemelham-se ora a uma Fragata (ainda que de dimensões substancialmente inferiores a estas embarcações), ora a um Bote, daí serem considerados um tipo híbrido. Leitão (2002: 109) identifica, contudo, as seguintes particularidades neste tipo de embarcação: “nas bordas; no número de cabeços à popa; na existência ou não de barbados na proa, e no tipo de barbados montados à ré; na existência ou não de paus de entre cintas; na construção do painel de popa; na existência ou não de falquitos”. Estas embarcações tinham, normalmente, uma capacidade de carga entre 20 e 50 ton., aparelhando uma pequena vela latina triangular à proa (estai) e uma grande vela latina quadrangular de carangueja junto ao mastro. Os Botes-de-fragata eram muito utilizados no transporte de cortiça, ferro, cereais e carga geral entre as duas margens do Tejo. No seu “Barcos do Tejo”, Carrasco (1997: 23) descreve as Faluas como situando-se entre o Bote e a Fragata em termos de dimensão. Por sua vez, Leitão (2002: 111) destaca, entre outras especificidades, que as linhas de água destas embarcações “são muito mais delgadas que as dos botes, e que são prolongadas à proa e à ré para produzir entradas finas que alargam para cima, e saídas compridas terminando num painel de popa pequeno e estreito” (Figura 6). Outra característica da Falua prende-se com a especificidade do convés: “O convés de vante ocupa um pouco mais que uma metade do barco e tem duas escotilhas, uma no bico da proa, no lado de esti- Fig. 6 - Falua atracada na Quinta do Esteiro Furado (Sarilhos Pequenos). bordo, e a outra por ante-a-vante do mastro principal. O convés da ré é muito reduzido, porque o espaço normalmente ocupado pelo leito da popa é sacrificado para aumentar a casa de carga aberta, também utilizada pelos passageiros” (Leitão, 2002: 111). Em termos funcionais, o convés de vante era muito utilizado como alojamento, onde os passageiros se abrigavam do frio, da chuva e do calor durante a viagem. Este convés servia ainda de resguardo para as mercadorias. Estas embarcações armavam, geralmente, duas velas latinas, tendo havido segundo Leitão (2002) uma evolução ao longo do tempo nas suas velas, passando a predominar as Faluas de um só mastro. A Falua era utilizada no transporte de passageiros e de mercadorias, oferecendo “um serviço de transporte relativamente regular, de passageiros, numa rota certa, em oposição ao transporte de carga geral, sem horário pré-estabelecido, e eram utilizadas para carregar produtos deterioráveis, tais como batatas, uvas, figos, laranjas e legumes frescos até à cidade e voltar com mercearias na viagem de retorno. Tinham, por isso, de ser de bom porte e rápidas, visto que cobriam nesta ocupação distâncias que podiam atingir 50 km” (Leitão, 2002: 110). Finalmente, são de referir as embarcações vocacionadas, essencialmente, para o transporte de passageiros e pequenas mercadorias, designadamente as Canoas (ou Botes-canoas) e os Catraios (ou Botes-catraio). No que se refere às Canoas, identificam-se diferentes tipos, decorrendo as suas especificidades técnicas das funções e áreas privilegiadas de operação. Destaca-se a Canoa Cacilheira e a Canoa do Tejo. A primeira utilizada no transporte de pessoas, animais (Cf. Ecomuseu Municipal do Seixal e CCDRLVT, 1995: 114) e pequenas mercadorias entre Lisboa e Cacilhas. A segunda, destinada, essencialmente, ao transporte de pequenas mercadorias e mercearias entre as povoações ribeirinhas do Estuário Tejo (embora tivesse sido também utilizada na pesca), sobrevivendo no exercício destas funções até à década de 1970. Os demais tipos de Canoas eram utilizados, essencialmente, na pesca e no transporte do pescado (Canoa da Picada, Canoa Enviada do Montijo, do Seixal e do Barreiro, Canoa do Alto, Canoa Grande e Canoa Pequena da Trafaria). Por sua vez, os Catraios apresentavam-se como embarcações de pequeno porte (“embarcações miúdas”), cujo comprimento não ia além dos 6,5m. Eram normalmente utilizados no transporte de pequenas mercadorias e passageiros, na pesca artesanal e ainda como embarcações de recreio. Usualmente armavam uma vela latina quadrangular de carangueja e uma vela triangular de estai, existindo ainda alguns Catraios aparelhados com vela de espicha e vela latina triangular. André Fernandes Instituto de Dinâmica do Espaço (FCSH-UNL) Mário Pinto Associação Naval Sarilhense Fontes das Figuras Fig.1 - Centro de Documentação e Informação da APL - Administração do Porto de Lisboa, SA (Autoria: Desconhecido). Fig.2 - Mário Pinto (Autoria: Desconhecido). Fig.3 - Centro de Documentação e Informação da APL - Administração do Porto de Lisboa, SA (Autoria: Desconhecido). Fig.4 - Mário Pinto (Autoria: Desconhecido). Fig.5 - Museu de Marinha (Colecção Seixas). Fig.6 - Extraído de Joaquim Baldrico, Montijo, Aldeia Galega: Memória Fotográfica, 2002. Referências Bibliográficas Baldrico, J. (Org.) (2002) – Montijo, Aldeia Galega: Memória Fotográfica. s.l.: Cygnuscolor Design, Lda., C.M. Montijo/J. F. Montijo. Carrasco, E. (1997): Barcos do Tejo, Lisboa, Edições Inapa, 153 p. Ecomuseu Municipal do Seixal, CCRLVT (1995) “Os Barcos Típicos do Tejo – Caracterização Genérica”. In Magalhães, F. (Coord.), Navegando no Tejo. Lisboa: CCRLVT, pp. 110-117. Leitão, M. (2002): Barcos do Tejo. Lisboa, Museu de Marinha, 216 p. Nabais, A. (2009) – “Barcos do Tejo”. In AÇAFA On-Line (n.º 2). Vila Velha de Ródão: Associação de Estudos do Alto Tejo, 6 p. Fontes Orais António José Fernandes – Entrevista realizada em 2011. Natural de Sarilhos Pequenos, Marítimo entre 1963 e 1967 (61 anos). António Fernandes Júnior – Entrevista realizada em 2011. Natural de Sarilhos Pequenos, Marítimo entre 1942 e 1961 (84 anos). NR - Os autores não adotam o novo acordo ortográfico. REVISTA DA ARMADA • JANEIRO 2013 17 OCEAN REVIVAL U m dia cinzento de prometida chuva. Felizmente, as previsões meteorológicas tão esperadas para a realização da operação de afundamento dos navios mostram mar com ondulação inferior a um metro e ventos fracos. Às sete da manhã a azáfama já é grande no PAN (Ponto de Apoio Naval) da Marinha, ultimam-se os preparativos para o reboque da Oliveira e Carmo. Meia hora mais tarde a imponente corveta inicia o percurso para o local do seu afundamento. Por volta das 12h30, a partir do Hotel Pestana Alvor Praia, a viúva do Comandante Oliveira e Carmo, a Senhora D. Maria do Carmo Oliveira e Carmo, dá início à contagem regressiva para o início do afundamento. Cinco, quatro, três, dois, um, fogo. Três bolas amarelas com laivos alaranjados e avermelhados elevam-se no céu, ao mesmo tempo que doze aberturas são instantaneamente desenhadas nos cascos de estibordo e bombordo. A Corveta inicia a sua descida progressiva, mantendo-se orgulhosamente na horizontal, até ser engolida em pouco mais de dois minutos, pelas águas da Baía de Lagos duas milhas frente à Praia dos Três Irmãos em Alvor. A Oliveira e Carmo repousa agora no fundo do mar esperando ser visitada por milhares de turistas subaquáticos e dar abrigo a centenas de espécies ao longo dos próximos anos, cumprindo assim a sua derradeira missão ao serviço de Portugal. Umas horas mais tarde, perto das 15h30, segue-se o afundamento do Patrulha Oceânico Zambeze. Imediatamente após a ordem dada pelo CALM Nunes Teixeira, três novas bolas de fogo elevam-se no céu cinzento, oito aberturas surgem como por milagre no casco dando entrada a milhares de litros de água. Devido às suas características, mais leve que a Corveta e com maior peso a vante, o navio, já a meia água, inclina a proa para o fundo do mar, tocando o mesmo, caindo e assentando a popa na areia poucos segundos depois. Os dois afundamentos decorreram com grande perfeição técnica, excedendo largamente todas as expectativas. A façanha nunca antes realizada, digna do Guiness: afundar com sucesso dois navios de forma controlada no mesmo dia, deve-se à equipa de explosivos minas e armadilhas dos Mergulhadores da Marinha e da Canadian Artificial Reef Consultants, que em conjunto realizaram ao longo de duas semanas todos os preparativos para a fase final da operação até ao premir do botão dando início ao afundamento de cada navio. Em pouco mais de dois minutos os navios 18 JANEIRO 2013 • REVISTA DA ARMADA “A NOVA MISSÃO” tomaram o seu lugar no fundo mar. Dois minutos precedidos de mais de cinco anos de trabalho intenso, milhares de palavras escritas e argumentadas, estudos e relatórios, debates e apresentações, críticas e apoios, desalentos seguidos de novas esperanças, mas sempre na crença que era possível vencer cada obstáculo, um de cada vez, de forma sistemática. Enormes adversidades, não só pelos problemas burocráticos e as várias interpretações e entendimentos, normais num projecto inovador como este, mas também pelos “Velhos do Restelo” sempre prontos a criticar e a ditar o fracasso da iniciativa. Apesar das contrariedades, existiu sempre apoio, boa vontade, orientação e conselho das entidades envolvidas no processo de aprovação do Projecto e uma equipa determinada e empenhada na resolução dos problemas e requisitos formais. No dia 30 de Outubro de 2012, o Parque Ocean Revival tornou-se realidade. Devidamente sinalizado com quatro bóias que delimitam a área que está situada a sul da zona de recifes artificiais já existentes, repousando nas batimétricas dos 26 e 32 metros com um mínimo de 15 metros de água livre. Encontra-se a uma milha do fundeadouro de Portimão, a cerca de três milhas da barra de Portimão e a duas milhas da costa não causando assim qualquer perigo à navegação. Logo após o afundamento da Corveta Oliveira e Carmo, um destacamento de Mergulhadores efectuou um mergulho cuja finalidade foi a de verificar as condições em que a embarcação se encontrava para futura autorização de utilização. No caso do Patrulha Oceânico Zambeze, esse mergulho por parte dos Mergulhadores da Marinha só foi possível realizar na manhã seguinte, uma vez que o final do dia do afundamento estava próximo e as condições de visibilidade não seriam as melhores. Apesar das condições meteorológicas e do mar nesse dia do afundamento, os dois navios repousam agora na sua posição original como se “navegassem no fundo do oceano”. Constituíram desde esse momento a primeira fase do museu subaquático que irá ficar completo no final do primeiro quadrimestre de 2013 com o afundamento da Fragata Hermenegildo Capelo e do Navio Oceanográfico Almeida Carvalho. Esta “nova missão” destes navios veio alterar o habitual destino de desmantelamento a que são sujeitos todos os que em fim de vida são descomissionados, mas que pelo sonho e empenho na concretização desse sonho de Luís Sá Couto e da Marinha de Guerra Portuguesa foi possível tornar realidade. Em vez de serem destruídos, estes navios carregados de história vão continuar a perpetuar o seu nome e a serem o destino de mergulhadores que vão percorrer os seus espaços. De salientar que praticamente logo após o seu afundamento começaram a ficar com vida subaquática. O projecto OCEAN REVIVAL nasceu há quase seis anos e para a sua concretização foram necessárias catorze entidades que com o seu parecer favorável autorizaram esta operação. Foram ainda efectuados vários estudos prévios que estão disponíveis para consulta e que atestam a qualidade do trabalho efectuado bem como os benefícios inerentes. Os navios já afundados foram limpos e preparados seguindo as mais rigorosas normas e regulamentos que devem respeitar este tipo de operações de limpeza com destaque especial para a remoção do amianto, dos óleos, dos combustíveis, assim como todos os cabos eléctricos e de comunicações. Desta forma procura garantir-se que o meio ambiente envolvente não recebe quaisquer impactes nocivos. Quanto aos dois navios a afundar, eles também já em fase de preparação, foram limpos do amianto que pela especificidade requer um cuidado muito especial. Após análise na pesquisa dos locais onde existe o amianto, segue-se a selagem da área onde se irá retirar a substância para que os trabalhadores que efectuam esta tarefa de remoção com a suas protecções individuais numa área que está em pressão negativa. que lhes permitem explorar o navio no seu interior em níveis em que a luz natural penetra na embarcação ou que no seu percurso esteja sempre em linha de vista uma saída. Por fim no terceiro nível (Negro) destina-se a mergulhadores com certificação de especialidade de mergulho técnico correspondente em naufrágio que lhes permita fazer as penetrações e que disponham de material adequado como seja a iluminação a gestão dos gases etc. Cada navio do Parque dispõe de duas ou três bóias, determinando em função do seu comprimento, para amarração temporária de mergulho e de emergência e comportamentos a ter perante a vida existente no recife. Pelo que foi referido é de toda a conveniência que os mergulhadores que desejem visitar o Parque procurem um centro de mergulho associado ao Projecto Ocean Revival. Importa referir que o Parque é de acesso gratuito e universal a todos os operadores, centros, escolas e clubes de mergulho desde que cumpram a lei vigente no território nacional. Este projecto nasce com a finalidade de promover o turismo subaquático criando num só local através do conjunto de navios representantes da Marinha de Guerra Portuguesa cuja história será perpetuada com o seu afundamento criando dessa forma um recife artificial sem par a nível mundial A Câmara Municipal de Portimão e a SUBNAUTA uniram esforços e criaram a MUSUBMAR – Associação para a Promoção e Desenvolvimento do Turismo Subaquático que sendo uma associação sem fins lucrativos desenvolve através do projecto OCEAN REVIVAL um objectivo comum de colocar à disposição de todos os operadores turísticos da região os navios cedidos pela Marinha Portuguesa direccionado em primeiro lugar ao mercado nacional mas dada a magnitude também e principalmente mercado internacional Mas este projecto OCEAN REVIVAL não se fica só pelo recife artificial e envolve também uma câmara hiperbárica que ficará instalada no Hospital de Portimão. Sendo um equipamento que pode ser utilizado no tratamento de acidentes de descompressão que podem ocorrer aos mergulhadores não se irá destinar só a esse fim e tendo em consideração que cada vez mais as câmaras hiperbáricas existentes no nosso País são utilizadas no tratamento de variadíssimas doenças através da Oxigenoterapia Hiperbárica passará a ser uma mais valia da população envolvente uma vez que em situação de necessidade de tratamento terão que actualmente deslocar-se a Lisboa. Também o Museu de Portimão vai possuir um Núcleo Museológico OCEAN REVIVAL onde a história dos navios de guerra da Marinha Portuguesa será perpetuada, assim como a história dos patronos e dos respectivos comandantes. Também diversas peças representativas dos navios estarão expostas aos visitantes. Fotos Cmdt. Augusto Salgado É pois dessa forma feito um controlo apertadíssimo no sentido de que quando há variação na pressão significa que haverá uma fuga, sendo de imediato interrompido o trabalho para reparar a falha. A rotina dos trabalhadores que executam esta função é a de entrar no local de trabalho através de três cabines sendo que na primeira deixarão as suas roupas passando pela segunda e entrando na terceira onde devem vestir a sua roupa habitual de trabalho. Após completarem a sua jornada voltam à cabine onde deixam a sua roupa de trabalho e de seguida passam à segunda cabine onde tomam banho dirigindo-se de seguida à terceira cabine onde vestem as suas roupas de saída. Quanto à matéria recolhida ela é embalada e selada para posterior retirada do local. No que respeita aos outros materiais retirados dos navios eles são separados consoante a sua natureza e reaproveitados. Como característica de um navio e sobretudo de um destinado a uma marinha de guerra eles são compartimentados como regra de segurança para que em caso de inundação de uma determinada área ela seja selada das restantes e não comprometa a flutuabilidade da embarcação. Ora como destino de mergulho será possibilitado o acesso a quase todos os compartimentos das embarcações, serão abertas passagens quer no interior quer no casco que para além de facilitar o afundamento tem como preocupação fundamental a segurança ao criar mais do que uma entrada e uma saída para que os visitantes mergulhadores não fiquem retidos. Esta preocupação também se verifica com portas e escotilhas que quando fiquem no seu sítio original não será possível movê-las para que se evitem possíveis acidentes. Outra preocupação é a de que não fiquem espaços onde possam ser criadas bolsas de ar que poderiam desestabilizar o navio no seu afundamento e que também não sejam criadas com a passagem de mergulhadores em determinados locais. As imersões neste parque estão pensadas para três níveis de certificação que se definem da seguinte forma: No primeiro nível (branco) onde estão englobados os mergulhadores menos certificados e com menos experiência, pelo que é recomendado que visitem os navios pelo seu lado exterior e só devendo fazer alguma penetração em espaços que se encontrem a menos profundidade pois são os que também estão mais iluminados pelas características base dos navios e pelas aberturas neles efectuadas. No segundo nível (amarelo) já estão englobados os mergulhadores que detêm experiência e certificação de especialidade de mergulho recreativo correspondente a naufrágio das embarcações com mergulhadores e servindo de ponto de entrada e saída de mergulhadores do navio visitado. As amarrações vulgarmente denominadas de poitas tem como finalidade aumentar o grau de segurança aos mergulhadores assim como evitar que de cada vez que uma embarcação visite o Parque tenha de lançar ferro e danificar os navios ou o meio envolvente. Na preparação dos mergulhos devem os guias de mergulho realizar os briefings prévios no sentido de informar os mergulhadores sobre as características do navio a visitar, os itinerários, cuidados a ter, regras e procedimentos OCEAN REVIVAL http://oceanrevival.org/pt/ facebook/oceanrevival.org REVISTA DA ARMADA • JANEIRO 2013 19 TOMADA DE POSSE CHEFE DO GABINETE DO ALMIRANTE CEMA Foto Júlio Tito ● Em 26 de outubro efetuou-se no Salão Nobre do Gabinete do CEMA e por ele presidida a cerimónia da tomada de posse do seu Chefe do Gabinete, em que o CALM Brás da Silva foi rendido pelo CALM Seabra de Melo, estando presente vários Oficiais Generais e muitos militares e civis do Gabinete e do EMA. No início da cerimónia foi condecorado com a medalha de Serviços Distintos-prata o CALM Brás da Silva. Após a leitura da ordem usou da palavra o recém-empossado de que se destaca. “… Nos tempos que correm que não lamentaremos, mas tentaremos viver com esperança e motivação, eu gostaria de os resumir do modo seguinte: não fazer apenas o possível, não desistir à primeira e teimar não desesperando perante a adversidade, obviamente salpicando a ação com algum prazer…”. Por fim o ALM CEMA depois de elogiar o anterior Chefe do Gabinete referiu-se ao novo empossado e ao seu trabalho no Gabinete sendo de realçar que é a estabilidade, coesão e disciplina que deve nortear a sua ação. No final o novo Chefe de Gabinete foi cumprimentado por todos os presentes. O CALM José Luís Branco Seabra de Melo nasceu em Benavente, ingressou na EN e foi promovido a G/M em 1 de outubro de 1979. Especializou-se em Hidrografia e concluiu o mestrado em Oceanografia Física, ministrado na Naval Post-Graduate School, Monterey, nos EUA. Frequentou com aproveitamento o CGNG e o CCNG, no ISNG, bem como o Curso de Promoção a Oficial General (2008), no IESM. Esteve embarcado, como aspirante estagiário, no NRP Sacadura Cabral e no navio da 6ª esquadra “La Moure County”. Foi Chefe do Serv. de Comunicações e de Navegação, no NRP João Roby, imediato no NRP Geba e oficial de hidrografia no NRP Almeida Carvalho. No ano 2000, comandou o NRP Alm Gago Coutinho e foi comandante do Agrupamento de Navios Hidrográficos. Prestou serviço no IH: primeiro, como adjunto do Chefe da Div. de Dinâmica de Costas e Estuários e, depois na Chefia da Div. de Oceanografia. Nesta qualidade, foi o representante nacional no Comité Científico da NATO do Centro do SACLANT para a Investigação Submarina (SACLANTCEN) e no Grupo NATO de Oceanografia Militar (NATO MILOC GROUP), tendo igualmente participado em diversos projetos de investigação nacionais e internacionais no domínio das Ciências do Mar, com trabalhos publicados em revistas da especialidade. Foi adjunto do Chefe da Div. de Pessoal e Organização do EMA. Foi presidente da Comissão de Receção e Integração do navio americano Assurance, tendo conduzido a sua reativação em San Diego e a sua transferência para a Marinha como NRP Alm Gago Coutinho. No ano letivo 2000/01 foi professor de oceanografia na EN e no ano seguinte Diretor de Instrução da Escola de Hidrografia e Oceanografia do IH. Foi assessor pessoal do ALM CEMA. Foi Adido de Defesa junto das Embaixadas de Portugal em Paris, Bruxelas e Luxemburgo. De 2008 a 2010 ocupou o cargo de Comandante da BNL. Foi Comandante da EN, até outubro de 2012. É detentor de vários louvores pessoais e condecorações. ENTREGA DE COMANDO COMANDANTE DA FLOTILHA ● Em 15 de novembro ocorreu no Salão Nobre do Palácio do Alfeite a cerimónia de entrega de comando da Flotilha, do CALM Mina Henriques para o CMG Silvestre Correia, presidida pelo Comandante Naval. Assistiram diversos oficiais generais, convidados civis, comandantes e representações das unidades subordinadas da Flotilha, além de outros oficiais. A cerimónia iniciou-se com o discurso do Comandante cessante que salientou a forma como os atuais constrangimentos financeiros e de pessoal estão a afetar a Esquadra e realçou o importante trabalho de entreajuda que existe ao nível dos diversos órgãos de apoio logístico que vem permitindo mitigar os problemas existentes. Seguiu-se a leitura do louvor ao CALM Mina Henriques e o ato formal da entrega de comando. O novo Comandante usou da palavra manifestando estar ciente dos constrangimentos existentes e da reorganização em curso nas FA´s, e que orientará o esforço da Flotilha, não obstante o contexto de forte contenção orçamental, para a manutenção dos padrões de qualidade do aprontamento dos meios navais. Seguiu-se o discurso do VALM Monteiro Montenegro que se dirigiu ao camarada e amigo que termina uma carreira de 40 anos no ativo agradecendo a lealdade e sublinhando o permanente sentido do dever, o calor humano sempre evidenciado nas suas relações com superiores, pares, ou subordinados, a determinação, o espírito de diálogo e a entrega pessoal aos objetivos traçados. O CMG Silvestre Correia, realçou a riqueza da sua experiência naval, considerando-a adequada aos difíceis desafios que se colocam à Esquadra e à necessidade de adaptação aos constrangimentos externos assumindo solidariamente riscos e compartilhando responsabilidades. Terminou recordando as palavras do distinto 20 JANEIRO 2013 • REVISTA DA ARMADA ALM Silva Horta: “um homem mede-se pela força dos sentimentos que domina, e não pela dos que o dominam a ele, e só mantendo um perfeito e inalterável domínio próprio é que o chefe consegue fazer aquilo que mais ninguém pode: infundir confiança nas horas de maior dificuldade” e realçou que “só coesos e confiantes conseguiremos ajudar a construir a Marinha do futuro, uma Marinha imprescindível a Portugal”. O CMG Alberto Manuel Silvestre Correia nasceu, em Abrantes, ingressado na EN e sendo promovido a G/M em 1 de Outubro de 1982. É especializado em A/S´s, frequentou vários cursos de carreira, designadamente o CGNG e o CCNG, para além de outros na área operacional, onde se incluem o “Maritime Tactical Course” e o “Maritime Warfare Course” no Reino Unido. Desempenhou vários cargos em UN’s, de onde se salientam o comando dos NRP´s Quanza e Cunene e no NRP Vasco da Gama, e como Oficial Imediato nos NRP´s Afonso Cerqueira e Álvares Cabral. Foi instrutor de Luta A/S e subdirector do CITAN e, posteriormente, também na gestão do pessoal. Assumiu o comando da Esquadrilha de Escoltas Oceânicos e em Junho de 2007 passou a acumular essas funções de comando administrativo, com o cargo operacional de Comandante do Grupo de Tarefa – CTG 443.20. e acumulou ainda o cargo de Comandante da Força de Reacção Imediata (FRI). Concluiu o Curso de Promoção a Oficial General, tendo assumido funções como Chefe do Gabinete do VALM SSP cargo que ocupou até ser designado para comandar a força naval europeia em missão no Oceano Índico empenhada no combate à pirataria – European Union Naval Force Somalia - Operation Atalanta. Em Março de 2011 foi graduado no posto de Comodoro para assumir o comando daquela força europeia no combate à pirataria. Serviu no EMGFA como Chefe de Gabinete do Chefe do Estado-Maior Conjunto. Tem vários louvores e condecorações. TOMADAS DE POSSE ● DIRETOR DO SERVIÇO DE PESSOAL Decorreu em 31 de outubro, no gabinete do SSP VALM Bonifácio Lopes, que presidiu, a tomada de posse do CALM Braz da Silva como diretor do Serviço de Pessoal, substituindo naquele cargo o CALM Casqueiro de Sampaio que, passou à RES. Estiveram presentes oficiais generais e outros militares dos vários setores da Marinha, militares e civis da área dos recursos humanos e foi precedido da imposição de condecorações a vários militares que prestam serviço na área dos R/H´s, entre o quais o diretor cessante. Após a leitura da OA tomou a palavra o novo DSP que, referiu o seguinte: “… Mas a sua complexidade aumentou bastante nos últimos anos tendo em conta: As restrições no recrutamento e nas promoções; contínua redução de efetivos; diminuição de cargos dirigentes; redução incremental mas contínua do nosso rendimento disponível; e a falta de recursos para a melhoria das condições de trabalho e habitabilidade quer nos navios quer nas instalações em terra. Acresce o desencanto que se apoderou de muitos de nós ao verificarmos que o nosso futuro será bastante mais difícil do que seria expetável até há bem pouco tempo e que o Estado tem cuidado melhor de outros grupos sociais, levando à renúncia a objetivos pessoais e até à desistência e saída de muitos dos que escolheram servir o país nas FA´S e, mais especificamente, na Marinha…” Em seguida usou da palavra o VALM SSP que, na sua alocução, mencionou: “... Não obstante, elencarei, sinteticamente, algumas das matérias em que a DSP não poderá deixar de se empenhar, de uma forma particularmente intensa, no curto e médio prazo, em paralelo com a sua atividade de rotina: ● O acompanhamento e a avaliação das implicações, no âmbito das suas competências de gestão: das orientações plasmadas na recente diretiva do ALM CEMA para a reorganização da estrutura superior da Marinha; da reforma e racionalização do Ensino Superior Militar; e do novo modelo de educação e formação dos oficiais, em fase final de estudo no âmbito do Conselho Coordenador do Ensino e Formação; ● ● A reavaliação das carreiras dos militares, militarizados e civis e das necessidades em pessoal, em função, por um lado, da modificação dos requisitos internos e externos e, por outro, da otimização do emprego dos recursos humanos disponíveis, na certeza de um quadro de evolução negativa dos seus quantitativos. ● A reflexão sobre a estrutura orgânico-funcional da DSP, já vertida como tarefa da DSRH, mas que deverá, também, articular-se com a futura entrada em produtivo do módulo de R.H. e Vencimentos do Sistema Integrado de Gestão da DN”. O CALM Francisco José Nunes Braz da Silva nasceu em Ervidel, Baixo Alentejo, entrou para a Escola Naval e foi promovido a G/M em 1 de Outubro de 1982. Foi oficial imediato dos NPR´s Geba, S. Roque, João Coutinho e Oliveira e Carmo. Especializou-se em mergulhador-sapador (1983/84) tendo prestado serviço em unidades de mergulhadores e frequentado o NATO EOD Course na Naval School EOD, Indian Head, EUA. Em 1989 frequentou o Aircraft Controller Course no R.U., tendo assumido funções como instrutor no CITAN e embarcado como Controlador de Heli´s nas FF´s Sacadura Cabral, Vasco da Gama e Álvares Cabral. Naquelas funções efectuou o BOST e integrou a STANAVFORLANT, ambos por duas vezes. Durante a estadia no CITAN, frequentou os cursos de Abordagem Sistémica ao Treino. Prestou serviço no CN, onde teve oportunidade de embarcar em vários navios, na qualidade de oficial de EM de Comandos de Força Naval. Prestou serviço no CINCIBERLANT, em Oeiras, onde teve a oportunidade de frequentar o ACE Abbreviated Staff Officers Orientation Course e o NATO Crises Management Course, ambos na NATO School, Oberammergau. Em Julho 97 passou a prestar serviço no EMA e, frequentou o Senior Course no NATO Defense College, em Roma e, foi colocado no E.M. Militar Internacional no Q.G. da NATO, em Bruxelas. Em Outubro 04, foi nomeado Chefe do Gabinete do 2º- Comandante do Comando Aliado Conjunto de Lisboa, em Oeiras e depois foi nomeado Assessor do CEMA. Após frequentar o Curso de Promoção a Oficial-General (2008/09) no IESM, foi Chefe da Divisão de Planeamento do EMA até ser nomeado Chefe do Gabinete do CEMA. Recebeu vários louvores e condecorações. DIRETOR DE FARÓIS Decorreu em 22 de novembro, nas instalações da Direção de Faróis, a cerimónia de tomada de posse do novo Diretor de Faróis, CMG Gouveia e Melo, a qual foi presidida pelo Diretor-Geral da Autoridade Marítima, VALM Cunha Lopes. Assistiram à cerimónia diversas entidades civis e militares, uma pequena delegação de Faroleiros representativa dos faróis do continente e os militares, militarizados e civis em serviço na Direção. Após a leitura da ordem procedeu-se a uma breve cerimónia de imposição de condecorações, finda a qual o empossado proferiu uma alocução onde historiou as sucessivas soluções organizacionais do serviço de faróis até aos nossos dias, na dependência ininterrupta da Marinha desde 1892, realçou a importância atual da Direção de Faróis como direção técnica de todas as infraestruturas de assinalamento marítimo, costeiras e portuárias, bem como do dispositivo nacional de posicionamento marítimo, e afirmou o seu empenho em “… defender um assinalamento marítimo eficaz e de qualidade… e contribuir para a necessária atualização legislativa que envolve o assinalamento marítimo…” No final, o VALM DGAM usou da palavra, referindo que “...A Direção de Faróis, como direção técnica nacional em matéria de assinalamento marítimo dependente da DGAM, é, àquele título, um excelente exemplo de quão eficazes, céleres e ágeis podem ser os quadros cooperativos com as entidades civis …” O CMG Henrique Eduardo Passaláqua de Gouveia e Melo nasceu em Quelimane, Moçambique, ingressou na Escola Naval e em 19 setembro de 1983 foi promovido a Aspirante. Integrou a Esquadrilha de Submarinos, tendo navegado nos NRP´s Albacora, Barracuda e Delfim, exercendo diversas funções operacionais como Oficial de guarnição até 1992. Especializou-se em Comunicações e Guerra Electrónica. Foi promovido às funções de Oficial Imediato em 1992, tendo exercido essas funções nos NRP´s Albacora e Barracuda até 1994. Frequentou o Curso “International Diesel Electric Submarine Tracking Course” em Norfolk, Estados Unidos e o CGNG no ISNG. Fez três comissões de Comando nos NRP´s Delfim e Barracuda no período de outubro de 1994 a abril de 1998. De janeiro 98 a dezembro 02 foi de Chefe do Serviço de Treino e Avaliação da ES e Chefe do Estado-Maior do SUBOPAUTH nacional. Em 2000 fez uma pós-graduação em “Information Warfare” na Universidade Independente. De dezembro de 2002 a dezembro de 2005 foi Chefe do Serviço de Informação e Relações Públicas do Gabinete ALM CEMA. Frequentou o CCNG no IESM. De março a setembro de 2006 foi 2º comandante da Flotilha de navios. Foi Comandante do NRP Vasco da Gama de setembro 06e 08, e depois Comandante da Esquadrilha de Submarinos até setembro 11. Frequentou com sucesso o curso de promoção a oficial general no IESM. Foi agraciado com diversos louvores e condecorações. REVISTA DA ARMADA • JANEIRO 2013 21 A ”PEDRA FILOSOFAL” DA DIRECÇÃO DO SERVIÇO DE ELECTRICIDADE E COMUNICAÇÕES Tendo havido vários leitores a indagar a Revista da Armada sobre a origem de uma pedra existente na Direcção de Infra-estruturas com os dizeres “Pedra Filosofal da Direcção de Electricidade e Comunicações”, e não havendo ninguém que pudesse dar uma resposta cabal, acabei por pedir ao V/Almirante Vicente Almeida d´Eça que nos esclarecesse. 22 JANEIRO 2013 • REVISTA DA ARMADA Necessariamente que muito apreciei não só a ideia, como a sua materialização; uma peça sem dúvida invulgar que passou a permanecer na minha secretária onde despertava a curiosidade. Quando entreguei o cargo de Director do Serviço de Electricidade e Comunicações ao comandante Dias Martins, a passagem para as suas mãos da “Pedra Filosofal” fez necessariamente parte da cerimónia, como a fotografia junta testemunha. Muitos mais anos volvidos, numa sessão da Academia de Marinha, com a presença do Almirante CEMA Mendes Cabeçadas, em que se evocaram os “100 anos de Comunicações na Armada” e na qual fizeram intervenções três vice-almirantes ligados à especialidade – Almeida d’Eça, Alves Sameiro e Moreira Rato – e também o então capitão-de-fragata Gameiro Marques, lembrei-me de pedir à Direcção de Infra-Estruturas, onde a “Pedra Filosofal” se encontra, que me deixassem levá-la à Academia de Marinha, ao que o Director prontamente acedeu. A “Pedra” ficou na mesa da presidência. Após as palavras de introdução proferidas pelo contra-almirante Rogério de Oliveira, Presidente da Academia, e terminada a minha intervenção que se lhe seguiu, fui buscar a “Pedra” e entreguei-a ao Vice-almirante Alves Sameiro, que falava logo depois, revivendo o cerimonial havido quando deixei a Direcção do Serviço de Electricidade e Comunicações. Aqui fica, em breves palavras, esperando que a memória me não tenha atraiçoado, a história da “Pedra Filosofal” da Direcção do Serviço de Electricidade e Comunicações, Organismo que nos seus 54 anos de existência prestou valiosos serviços à Marinha. Foto SAJ L Carvalho E m 1952, extinta que fora a Aviação Naval, estava na Direcção do Serviço de Electricidade e Comunicações a chefiar a Secção de Comunicações; era então 1.º tenente. Trabalhava numa mesa grande, com tampo de vidro, tendo na parede fronteira um “mapa mundi” de grandes dimensões e alta qualidade que, salvo erro, fora mandado adquirir pelo então Comandante Ramos Pereira. À minha frente, sobre a mesa, alinhavam-se encostados uns aos outros, num equilíbrio instável, livros técnicos, instruções de comunicações, publicações várias e elementos de trabalho, entre os quais as previsões ionosféricas que foram de minha iniciativa. A um encosto mais brusco espalhavam-se pela mesa, obrigando-me a repô-los no seu lugar, o que, Comandantes Almeida d’Eça e Dias Martins - 1973. dada a frequência, me aborrecia. do Serviço de Electricidade e ComunicaNão dispondo de pára-livros eficações, vieram trazer-me uma peça que me zes, mandei uma ordenança buscar dois surpreendeu, formada por uma lâmina paralelepípedos de granito a uma rua de granito, extraída de uma daquelas pedas redondezas que estava em obras; dras, encastrada numa base de mármore garanti com eles uma maior estabilidade preto, na qual estava uma placa com os aos elementos de trabalho. seguintes dizeres: Eram sem dúvida peças insólitas naquela mesa e por isso várias vezes me PEDRA FILOSOFAL perguntavam por que razão estavam ali. DA Enfastiado de repetir a mesma história, DIRECÇÃO DE ELECTRICIDADE E COMUNICAÇÕES resolvi dizer que eram fonte de inspiração para o trabalho que realizávamos. Aliás, esta ideia deve ter surgido por me permanecer na mente uma frase de um oficial inglês que muito prezava, pelos seus conhecimentos de comunicações e pelas soluções que apresentava nas reuniões em que se preparavam os primórdios das comunicações navais NATO. Tendo-o procurado no seu gabinete de trabalho no Almirantado Britânico, ocorreu-me perguntar-lhe de onde provinha a inspiração para as suas propostas. Fitou-me por alguns momentos, olhou demoradamente à sua volta, e respondeu-me: - “Está imbuída nestas paredes”. Vários anos volvidos, quando fui desempenhar o cargo de Director LRM Vicente Almeida d’Eça VALM COMANDANTE SOEIRO DE BRITO Intelectual. Cientista. Homem de Cultura. com o cargo de instrutor dos cursos de DAS, frequenta o curso de Especialização em Rádio-Comunicações, o qual lhe abre novos horizontes na área da Electrónica. Igualmente, também em acumulação, reassume o comando da Zaire, que para treino dos alunos se desloca ao Algarve, tendo subido o rio Guadiana até ao Pomarão. Em fins do ano de 1950, termina também a primeira fase da sua carreira naval. Durante sete anos tinha sido Chefe do Serviço de Navegação de um contratorpedeiro em zona de guerra e de um aviso em missão em Angola, comandante de uma canhoneira, enriquecido a sua formação técnica com duas especializações e acompanhado em Inglaterra a modernização dos contratorpedeiros. Segue-se a fase de Hidrografia, que tem início em Janeiro de 1951, com o seu embarque no NH Almirante Lacerda da Missão Hidrográfica de Moçambique. Os métodos de posicionamento até então utilizados na Missão estavam limitados a curtas distâncias, o que impossibilitava o levantamento do Banco de Sofala que se estende até cerca de 100 milhas da costa, pelo que havia necessidade de adquirir modernos equipamentos electrónicos. Assim, mercê da sua vasta preparação técnica, o Tenente Soeiro de Brito vai para os Estados Unidos a fim de acompanhar a construção do Raydist, na época o mais avançado equipamento para posicionamento. Com a utilização do Raydist foi em 1952 completada a cartografia do Banco de Sofala. Em Março de 1953 é promovido a 1º tenente. A Missão elabora nos anos seguintes não só cartas de toda a costa moçambicana até à foz do Rovuma, incluindo a Ilha de Moçambique e o Arquipélago das Quirimbas, como também dos principais portos. Entretanto, em meados dos anos 50, a África do Sul tinha iniciado o desenvolvimento do Tellurometer, equipamento para a medição rigorosa da distância em trabalhos geodésicos. Para estudar a avaliação do novo sistema, o Governo Geral de Moçambique solicita-lhe a colaboração, que atingiu tal nível que a firma construtora, sedeada na Cidade do Cabo, o convida para cooperar na apresentação dos fundamentos do sistema, que mais tarde seria adoptado pela Missão Geográfica de Moçambique e pelos Serviços Geográficos e Cadastrais do Continente. Profundo conhecedor das técnicas de medição electrónica de Arquivo Histórico da Marinha Arquivo Histórico da Marinha E m 9 de Dezembro de 1921 nascia, em Em Setembro de 1947 é nomeado para Elvas, Joaquim Baptista Viegas Soeiro fazer parte da Missão de Fiscalização dos de Brito. Desde cedo demonstrou posContratorpedeiros que em Glasgow, nos suir elevados níveis de inteligência e capaestaleiros da Yarrow, ia acompanhar a mocidade de estudo, facto que o levou a ser dernização dos navios do Programa Naval um dos três melhores alunos do país que completaram o ensino liceal no ano lectivo 1938/39. Em Setembro de 1940, após ter obtido altas classificações no Curso de Preparatórios Militares na Escola Politécnica, em Lisboa, ingressa na Escola Naval, tendo sido admitido no “Curso do Restaurador”. Faz a sua viagem de adaptação na velha Sagres, visitando portos de Cabo Verde e do Brasil, em plena II Guerra Mundial quando o Atlântico era palco de sangrentas batalhas navais em que a supremacia dos submarinos alemães era então evidente. Concluída a viagem, inicia em Fevereiro de 1941 o curso da Escola Naval, durante o qual tem elevadas qualificações. Promovido a guarda-marinha, em Setembro de 1943, efectua o respectivo estágio como oficial imediato do patrulha P1. Este navio, cedido por empréstimo pela Inglaterra, efectuava a rocega do porto açoriano da Horta, importante estação de cabo submarino, e a fiscalização entre as ilhas do Faial e do Pico onde por vezes surgiam submarinos alemães. Joaquim Soeiro de Brito. Em Outubro de 1944, tinha sido promo- Cadete da Escola Naval - 1940. vido no mês anterior a 2º tenente, assume o cargo de Chefe do Serviço de Navegação Magalhães Corrêa. Terminada, em Maio de do contratorpedeiro Lima, sob o comando do 1948, a missão em Inglaterra, onde teve a Capitão-tenente Sarmento Rodrigues, navio oportunidade de aumentar os seus conheque já tinha nos Açores salvo centenas de cimentos técnicos sobre os novos sonares e náufragos de navios torpedeados e que nas radares, regressa a Lisboa para logo embarmesmas águas, debaixo de violenta tempestade, atingira uns incríveis 67º de inclinação. Este início de carreira muito influenciou o jovem 2º tenente. A Guerra termina em Setembro de 1945 e logo em Outubro, na Escola de Mecânicos, em Vila Franca de Xira, é criada uma nova especialização para oficiais, o curso de Detecção Anti-Submarina (DAS), sendo o Tenente Soeiro de Brito um dos quatro oficiais nomeados para este curso, cuja Canhoneira “Zaire”. base era o estudo e operação do Asdic, equipamento que seria instalado em alguns navios da Armada. car como Chefe do Serviço de Navegação Obtida a especialização, é, a partir de Março no aviso Afonso de Albuquerque que larga de 1946, imediato da canhoneira Zaire, naem Julho com destino a Angola, a fim de vio adstrito à Escola de Mecânicos para treiparticipar nas cerimónias do 3º Centenário no prático dos alunos, em acumulação com da Restauração. Em Setembro, concluída a a função de instrutor dos cursos de DAS para missão em África, apresenta-se novamente sargentos. na Escola de Mecânicos e, em acumulação REVISTA DA ARMADA • JANEIRO 2013 23 distância, publica então dois livros, um sobre gra o Serviço de Informações Militares (SIM) o Sistema Raydist e das Redes Hiperbólicas e que, entre outras tarefas, é responsável pelos outro relativo ao Sistema Tellurometer. briefings semanais para o EMA e a publicaAnos mais tarde surgiram outros trabalhos ção de um boletim semanal, que destaca as da sua autoria, um dos quais, Características ameaças possíveis sobre navios portugueses Métricas de Alguns Sistemas Coordenados na Esfera, obteve o “Prémio Internacional Gago Coutinho” instituído pela Sociedade de Geografia de Lisboa. Igualmente, devido ao seu elevado prestígio a nível internacional, a firma Hastings, construtora do Raydist, encomenda-lhe um estudo referente ao sistema Micro Omega e envia-o como seu representante aos países da América do Sul, para prestar esclarecimento sobre os equipamentos que estavam a adquirir. Durante a sua estadia na Missão foi iniciado o levantamento hidrográfico das águas do lago Niassa que, na ocasião e após longas negociações, tinham ficado sob jurisdição portuguesa. Em Abril de 1959 é promovido a capitão-tenente e termina a sua comissão no NH Almeida Carvalho, sendo então louvado pelas suas muito elevadas qualidades profissionais de que deu provas na Missão Hidrográfica de Moçambique, e que, aliadas a uma excepcional inteligência e cultura, o tornaram um colaborador precioso e o afirmaram como um oficial distinto. É um louvor que caracteriza claramente as qualidades que o Comandante Soeiro de Brito demonstrou ser possuidor durante toda a sua vida. atribuídos a todos os Comandos Navais e CoJá depois de deixar a hidrografia faz uma mandos de Defesa Marítima. comunicação em Tananarive, sobre os traNos meses de Outubro e Novembro de balhos realizados na Missão, quando do II 1963 é Capitão–de-Bandeira do transporte Congresso da Pan Indian Ocean Science de tropas Ana Mafalda numa viagem a Cabo Association, instituição científica criada para o estudo do Oceano Índico. Os oito anos passados na hidrografia constituíram a segunda fase da sua carreira. Após uma breve passagem pela Direcção do Serviço de Electricidade e Comunicações, como Chefe da Secção da Detecção Anti-Submarina, frequenta na Universidade Livre de Bruxelas, com uma bolsa NATO, no ano lectivo 1959/60, o curso de Ciências Nucleares Aplicadas. Este curso de pós-graduação, que versava as utilizações pacíficas do nuclear na produção de energia, haveria de anos mais tarde ter influência na sua vida profissional. No regresso de Bruxelas, no Instituto Superior Naval de Guerra, é o primeiro classificado do Curso Geral no ano lectivo 1960/61. Em Julho de 1961, atendendo às suas elevadas aptidões e capacidade de estu- Representando Portugal numa reunião em Viena de do, assume o cargo de Adjunto da I Di- Áustria – 1965. visão do Estado-Maior da Armada (EMA). Num ano marcante para Portugal, com o Verde e à Guiné. Cite-se os casos que na ocasequestro do paquete Santa Maria, o início sião mereceram especial atenção do SIM: o da guerra de guerrilha em Angola, a queda Bloqueio do Porto da Beira e o incidente com do Estado da Índia Portuguesa, além de imo navio Angoche em águas moçambicanas. portantes ocorrências no âmbito de política Durante o período em que prestou serviço interna, o Comandante Soeiro de Brito inteno EMA, organiza e dirige o Centro de Estu24 JANEIRO 2013 • REVISTA DA ARMADA dos Especiais da Marinha, que se dedicava ao estudo de navios, armas, especialmente munições autopropulsionadas e o Centro de Investigação Operacional cuja actividade incidia sobre a aplicação da área militar na nova ciência. A acção do Capitão-de-fragata Soeiro de Brito, que tinha sido promovido em Março de 1966, muito contribuiu para que a Marinha pudesse evoluir tecnologicamente e adaptar novas metodologias. De salientar, na qualidade de representante do EMA, a sua participação em actividades da área de Oceanografia Militar e a criação da Estação de Rastreio, na ilha das Flores, e do Polígono de Acústica Submarina, na ilha de Santa Maria. No âmbito do Planeamento destaca-se o louvor que recebeu, em Outubro de 1967, pelo seu contributo para o estudo e elaboração do Projecto de Plano Naval, documento que definiu a Política Naval Portuguesa da época e foi o sustentáculo da sua doutrina. Considerando os seus vastos conhecimentos sobre energia nuclear após a frequência do curso, em Bruxelas, tinha sido admitido como consultor no Laboratório de Física e Energia Nuclear e mais tarde representante do Ministério da Defesa Nacional no Conselho Consultivo da Junta de Energia Nuclear (JEN). Em Janeiro de 1969 é nomeado seu Vice-Presidente, em acumulação com o EMA. Em Setembro de 1968, o Chefe do Estado-Maior da Armada (CEMA) tinha-o louvado pelo muito que tem feito para elevar o nível do organismo em que trabalha, pelos estudos de muita importância que tem elaborado, pelos seus vastos e actualizados conhecimentos de política militar e internacional – é chefe do SIM – que tem demonstrado através de exposições de uma clareza meridiana, tudo aliado a uma saliente dedicação pelo serviço, pelo que é de flagrante justiça considerar os serviços prestados pelo comandante Soeiro de Brito de extraordinários, relevantes e distintos, e por consequência agraciado com a Medalha Militar de Prata de Serviços Distintos. Em Novembro de 1969 passa a exercer o cargo de Presidente da JSN dado que o titular, General Kaulza de Arriaga, tinha sido nomeado para uma comissão em Moçambique. O Comandante Soeiro de Brito começa então a dar forte dinâmica ao organismo a que preside pois se admitia que a energia nuclear seria, em breve, introduzida no sistema energético nacional, dado que o petróleo se poderia esgotar nos vinte anos seguintes. Vários são então as conferências e congressos internacionais em que representa Portugal. Igualmente é, na qualidade de Presidente da JSN, membro de instituições científicas onde os seus conhecimentos sobre energia nuclear são amplamente apreciados e reconhecidos e promove vários acordos e parcerias com empresas estrangeiras, com vista a valorizar os recursos energéticos na- Xangai, onde apresenta um estudo sobre métodos de navegação. Em 1982 e 1986 rejeita, possivelmente por modéstia, a proposta para se candidatar à presidência da Academia, sendo em Dezembro deste último ano Vice-Presidente e Presidente da Secção de Artes, Letras e Ciências para o biénio 1987/88 e eleito, em 1992, académico emérito. Outra organização cultural de que faz parte é a Sociedade de Geografia de Lisboa, onde em 1978 e anos seguintes desempenha as funções de Presidente da Secção de Geografia dos Oceanos, tendo organizado diversas conferências sobre a Convenção das Nações Unidas do Decreto do Mar e por ocasião do 25º aniversário da criação do Ano Geofísico Internacional. Em 1983 é eleito Vice-Presidente da Direcção, cargo que exerce até 2006. De referir que em 2000 declina, por razões familiares e de saúde, a proposta apresentada pela Direcção no sentido de se candidatar à presidência. Igualmente na área cultural, em Julho de 1985 é nomeado Presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do V Centenário da Passagem do Cabo da Boa Esperança que constituiria o embrião da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, onde foi integrado em Janeiro de 1987 e nomeado Coordenador Adjunto da Comissão Executiva, em Setembro de 88. As suas provadas qualidades humanas e intelectuais, aliadas a uma excepcional capacidade de trabalho, muito contribuíram para a concretização de um vasto número de eventos promovidos pela Comissão durante a sua existência, isto é, de Junho de 1986 a Novembro de 2001. Destacam-se as Comemorações da Viagem de Bartolomeu Dias, de Colombo, da Chegada dos Portugueses ao Japão, do Tratado de Tordesilhas, do VI Centenário do Nascimento do Infante Henrique, da Descoberta do Caminho Marítimo para a Índia e do Centenário da Descoberta do Brasil. Em 3 de Julho de 2012 falecia, em Lisboa, o Capitão-de-mar-e-guerra Joaquim Baptista Viegas Soeiro de Brito. Desde a sua entrada para a Escola Naval tinham passado sete décadas durante as quais sempre assumiu uma vincada simplicidade e uma modesta exibição da sua excepcional craveira intelectual, científica e cultural. A enorme injustiça que sofreu ao ser passado compulsivamente à Reserva, pelo desempenho de um cargo governamental para o qual tinha sido convidado unicamente pela suas qualidades e competências e não por razões políticas, apesar de o terem magoado profundamente jamais foram objecto de qualquer recriminação da sua parte. Arquivo Histórico da Marinha cionais. Com o regresso do General Kaulza A actividade que dedica ao estudo e à dide Moçambique, em Setembro de 1973, revulgação de saberes sobre a área energética, assume as funções de Vice-Presidente da JEN, especialmente a nuclear, e a Oceanografia é em acumulação com o EMA. ampliada quando, em 1984, assume as funEm Dezembro completa o tirocínio para ções de Docente Convidado para leccionar promoção como Capitão-de-Bandeira do as disciplinas de Energia e Oceanografia, na transporte de tropas Niassa, onde embarcam dois Batalhões do Exército, que foram as duas últimas forças militares organizadas com destino à Guiné. No transporte marítimo de forças para o Ultramar, esta viagem teve a particularidade única de ser escoltada, em permanência, por duas fragatas e sobrevoada diariamente por um avião da Força Aérea durante todo o percurso Lisboa-Bissau, já que havia suspeitas de poder surgir uma revolta a bordo do navio. Promovido a capitão-de-mar-e-guerra em Março de 1974, é nesse mesmo mês convidado, pessoalmente pelo Professor Marcelo Caetano, para o cargo de Sub-Secretário de Estado da Energia. Inicialmente declina o convite mas perante a repetida insistência do Presidente do Conselho de Ministros aceita. Com o 25 de Abril é exonerado. Em Julho inicia as suas últimas funções na Marinha, a de professor do Instituto Superior Naval de Guerra, que termina em Setembro, por ter sido transferido para o Quadro CMG Soeiro de Brito da Reserva da Armada, por Decreto do Conselho de Chefes dos Estados Maiores das Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Forças Armadas do dia 2 desse mês. Universidade Nova de Lisboa, funções que As suas marcantes qualidades humanísticas, exerce até 1992. de que se destacam a tolerância, a simpliciReferido que foi o seu brilhante desempenho dade e a honestidade ajudam-no a suportar na área científica, torna-se necessário descrea flagrante injustiça a que tinha sido sujeito. ver o de âmbito cultural, que teve especial inDe 1976 a 84 exerce, a convite do Presidencidência a partir da década de oitenta. te do Centro Democrático Social, que tinha Anos antes, a convite do Almirante Sarmento sido seu oficial no EMA, o cargo de Director Rodrigues, integra o restrito grupo de personado Gabinete de Estudos daquele partido político, gabinete que tinha a missão principal de preparar pareceres sobre os diplomas apresentados à Assembleia da República, estudar os programas geral e sectoriais e representar o Partido junto de organizações internacionais. Tem então a oportunidade de participar em reuniões da Comunidade Económica Europeia, em Bruxelas e em Estrasburgo, o que lhe permite aprofundar os conhecimentos sobre a organização e objectivos daquela instituição. Os tempos conturbados pós-revolução vão-se extinguindo e assim, por Despacho do CEMA, o Comandante Soeiro de Brito foi considerado como tendo sido convocado para a efectividade do serviço a partir de 10 de Novembro de 1981, data em que foi nomeado representante do Vice-Primeiro Ministro e Ministro da Defesa Nacional no Grupo Consultivo e de Apoio, relativo ao No gabinete da Comissão dos Descobrimentos. Plano Energético Nacional e na Comissão Nacional de Emergência Petrolífera. lidades que, em 1970, constituem o Centro de Entretanto, a sua elevada competência Estudos de Marinha, organismo antecessor da profissional, apesar das profundas alterações actual Academia de Marinha. políticas, nunca deixa de ser reconhecida já Vasta é a sua participação em realizações que continua a ser convidado para realizar da Academia, especialmente quando das copalestras sobre o tema Energia Nuclear, em memorações dos 50 anos da primeira ligação universidades portuguesas e nos Institutos aérea Lisboa-Madeira e em Macau, num enSuperiores Militares. contro com professores da Universidade de Deixava o mundo dos vivos um Homem Bom! José Luís Leiria Pinto CALM NR - O autor não adota o novo acordo ortográfico. REVISTA DA ARMADA • JANEIRO 2013 25 ATIVIDADES DO NÚCLEO DE RADIOAMADORES DA ARMADA Como habitualmente, o juntou-se à APAC - Associação Portuguesa Núcleo de Radioamado- dos Amigos dos Castelos, para com a atires da Armada (NRA) no vação do Forte de S. Bruno, na Avenida seguimento do seu progra- Marginal,em Oeiras, associar-se à efeméma anual de atividades, ride. Esta ativação contou para o World pôs em prática alguns dos Castles Award bem como para outras refeeventos previstos, nomeadamente o “Con- rências, entre elas o “Diploma dos Castelos curso do Dia da Marinha”, “Um Dia de CW QRS”, Naval Radio Party e o Portuguese Museum Ships Rádio Activity. De particular relevo o facto de o “Um Dia de CW QRS” ter sido organizado em conjunto com a REP - Rede de Emissores Portugueses e no caso do Portuguese Museum Ships Rádio Activity a organização partilhada com a ARAM - Associação de Radioamadores do Alto Minho, uma vez que quer o Núcleo quer aquela Associação têm sob sua responsabilidade as Estações de Amador “Concurso Dia da Marinha”. CT1ELF - Fernando Silva Pinto existentes a bordo dos dois mais contempla o seu troféu, uma réplica da Sagres. relevantes navios – museu portugueses, a fragata D. Fernando II e Glória e o navio hospital Gil Eanes, sendo aliás o bordo deste navio que a Associação tem a sua sede. É importante referir que esta atividade põe em prática um substancial incremento à promoção do património histórico naval português, não só in loco como também levando além fronteiras a sua divulgação. Para assinalar a entrega dos prémios alusivos as estas atividades, a REP e o NRA promoveram no passado dia 29 de setembro, na Casa do Alentejo em Lisboa, um almoço ao qual compareceu aproximadamente uma vintena de radioamadores, vindos alguns deles acompanhados de familiares e de lugares tão distantes como o Porto ou a Corunha. Terminado o período de sã confraternização e degustação de sabores do Alentejo seguiu-se, no salão de leitura da Biblioteca da Casa, o ato de entrega de troféus, diplomas e certificados aos parAgrupamento de Escuteiros nº 510 de Cacilhas. ticipantes. Antes porém, o Presidente da Direção do NRA fez uma breve e Fortalezas de Portugal” e o “Diploma dos introdução, partilhada com o Presidente da Monumentos Históricos Portugueses”. Direção da REP, sobre o motivo pelo qual o Logo pela manhã de sábado a equipa epílogo daquelas atividades convergiu num de radioamadores deu início à montagem único ato. das antenas consideradas necessárias bem como das posições de operação, quer em No Dia Nacional dos Castelos, celebra- morse acústico quer em fonia - SSB, ambas do anualmente em 7 de outubro, o NRA constituintes da estação com o indicativo 26 JANEIRO 2013 • REVISTA DA ARMADA CR5SB. Às 10:30h UTC deu-se início efetivo à operação que contou com a participação dos radioamadores CT4GN - Rafael Costa, CT1DRB - David Quental, CT1ETL Miguel Andrade e CT1GZB - José Proença. É ainda meritório assinalar a extraordinária colaboração dada pela APAC na pessoa do seu Presidente, o Engº Francisco de Sousa Lobo e da Drª. Marisa Cristino. A ativação decorreu de acordo com as expetativas nela depositadas tendo-se efetuado duas centenas de QSO´s distribuídos por 122 sufixos em 34 países, durante as 6 horas de operação. Para assinalar o evento foi feito um cartão especial de QSL que consolidará a confirmação dos contactos efetuados. No passado fim de semana de 20/21 de outubro, a convite do Agrupamento de Escuteiros nº 510 de Cacilhas, o NRA esteve presente no “55º Jamboree no Ar” com a estação do Núcleo existente a bordo da fragata D. Fernando II e Glória. Com o beneplácito do Comandante do Navio, CMG Rocha e Abreu, concedido aos responsáveis do Agrupamento e a colaboração dos radioamadores CT1DRB – David Quental, CT1FYY – José Simeão e CT1CZT - António Gamito desde as 23:30h de 19 de outubro, hora a que a Estação Nacional fez a abertura do Jamboree, o NRA esteve presente no evento até às 17:30h do dia 21, operando em CW e em fonia – SSB com predominância neste último modo de emissão. Ambos os modos despertaram bastante interesse entre os escuteiros, particularmente nos mais novos, contudo haveria de ser a fonia que mais os motivou, já que lhes era possível entender a mensagem dos irmãos escutas e retribuir quer fosse em língua portuguesa quer fosse em inglês. Durante o período, além de se ter verificado uma considerável movimentação e presença de escuteiros junto da estação, o normal fluxo de visitantes foi substancialmente aumentado por radioamadores que ali quiseram testemunhar o evento. Colaboração do NÚCLEO DE RADIOAMADORES DA ARMADA OS NÁUTICOS Alguns momentos inesquecíveis de uma digressão por terras de África N a primavera de 1970 começava a despontar no Grupo nº 2 de Escolas da Armada, no Alfeite, o embrião de um agrupamento musical que haveria de deixar o seu nome indelevelmente gravado na memória, não só dos que com eles conviveram na Marinha, mas também de muitos militares dos outros ramos das Forças Armadas e civis, dispersos pela Guiné, Cabo Verde, Angola e Moçambique. Este agrupamento musical, Os Náuticos, inicialmente constituído pelos elementos: ∙ Ernesto Dabó - Voz ∙ Rui Almeida - Guitarra Solo ∙ José Ricardo - Guitarra Ritmo e Voz ∙ Pedro Serigado - Baixo Elétrico ∙ Carlos Portugal - Bateria foi posteriormente alargado com mais dois instrumentistas de sopro, oriundos da Banda da Armada: ∙ José Araújo Pereira - Trompete ∙ Francisco Ribeiro Jr - Saxofone Tenor O conjunto ensaiava no Grupo nº 2 de Escolas da Armada e as suas atuações gratuitas eram essencialmente de caráter social. Participou também em festas de Natal, organizadas pela Cruz Vermelha, no Natal dos Hospitais e no programa “Estúdio sem Marcação”, gravado pela RTP na Escola de Artilharia Naval. A digressão pela Guiné, Cabo Verde, Angola e Moçambique teve como principal papel levar uma lufada de ar fresco e elevar a moral dos militares em serviço naquelas paragens. O grupo que encetou essa digressão, em abril de 1971, embarcados no paquete Niassa, era coordenado pelo Capelão Delmar Barreiros e para além dos Náuticos atuava isoladamente o acordeonista Orlandino. Antes de iniciar a viagem os elementos foram recebidos pelo Ministro da Marinha, Almirante Pereira Crespo, que a todos exortou para o cumprimento da missão. Começava assim uma digressão que ainda hoje é recordada por muitos que assistiram às suas atuações, como um dos momentos mais emotivos da componente lúdica. Chegado a Bissau, o grupo ficou instalado no Comando da Defesa Marítima e, daí, partia para os locais onde iria efetuar as atuações e naturalmente os meios mais utilizados no transporte foram as lanchas de desembarque e os patrulhas que naquela altura se encontravam ao serviço na Guiné. Assim, foram efetuadas, entre outras, atuações em Bissalanca, Bolama, Farim, Ganturé e Bissau. Relembro o interesse e boa vontade com que os militares se esforçavam por adaptar os escassos meios de que dispunham para receber Os Náuticos e proporcionar as melhores condições de atuação. A grande participação e entusiasmo sentido nas diversas atuações, raiado por vezes com uma lágrima de saudade, foi concerteza fruto do encurtar das várias milhas náuticas de distância da terra Natal pelo poder inigualável de uma canção de Lisboa ou temas de folclore regional, elevando cada ser humano no mais profundo do seu nostálgico sentimento. E comprovando o carácter universal da arte musical, recordo o episódio em Ganturé, onde as escaramuças invariavelmente diárias faziam pensar ser impossível terminar a atuação programada, mas, ao invés, decorreu na íntegra sem qualquer interrupção; e até depois da referia atuação, já pernoitando num abrigo, o grupo não vislumbrou qualquer problema. A digressão pela Guiné culminou numa grande iniciativa do Quartel General, no estádio Sarmento Rodrigues (cidade de Bissau), completamente lotado, com muitos agrupamentos indígenas, sendo o encerramento do espetáculo feito pl’Os Náuticos. O êxito retumbante, com os elementos do grupo absorvidos pela assistência e passeados em ombros, em grande apoteose, indicou o cumprimento integral do objetivo de proporcionar aos militares em serviço alguns momentos de lazer e elevação moral. Durante a estadia em Bissau, o agrupamento foi recebido pelo Comandante Chefe das Forças Armadas na Guiné – General António de Spínola. Na viagem de regresso a Lisboa, ainda houve oportunidade para fazer uma escala no Mindelo (Cabo Verde) e atuar em dois espetáculos no cinema Miramar ao qual assistiram muitos militares e civis. A segunda viagem já estava praticamente definida e em função do sucesso da primeira tudo se conjugava para que Angola e Moçambique fossem os próximos destinos. Pouco tempo depois iniciava-se a viagem a bordo do paquete Vera Cruz – destino: Luanda! O navio levava militares dos três ramos das Forças Armadas que iam com a finalidade de substituir outros que lá se encontravam. Durante a viagem, tal como nas situações an- teriores, o agrupamento realizou atuações para o pessal que se encontrava a bordo e numa dessas exibições, nas imediações de São Tomé e Príncipe, repentinamente desencadeou-se uma tempestade tropical que por pouco não danificou os instrumentos e aparelhos eletrónicos que tiveram de ser retirados à pressa do convés do navio. Chegados a Luanda logo se iniciaram espetáculos na própria capital e em unidades próximas com assinalável êxito. Depois foi tempo de zarpar até Santo António do Zaire, onde o agrupamento atuou em alguns locais, na Pedra do Feitiço e também em Cabinda. De volta a Luanda, Os Náuticos foram convidados a atuar num grandioso festival que se realizou no cinema Avis e a sua performance foi de tal forma empolgante que a assistência invadiu o palco. Há coisas que perduram na memória e tenho a certeza que tal como nós, muitos dos que assistiram devem ter ficado com essa recordação por muito tempo. Outra das mais significativas atuações d’Os Náuticos aconteceu na Reclusão Militar, onde também se apresentou o célebre ator Raul Solnado e que a propósito cantou uma das suas canções acompanhado pl’Os Náuticos. O rumo seguinte foi Moçambique onde estava programada a continuação da digressão. Em Lourenço Marques (atual Maputo), Os Náuticos ficaram alojados nas instalações do Comando Naval. A maior parte das deslocações foram feitas por meio aéreo pois as distâncias eram longas: Nampula, Porto Amélia, Tete, Vila Cabral e Metangula (no lago Niassa). Numa das atuações feitas no ringue da unidade, em Metangula, o baterista desmaiou com o calor e só recuperou com a ajuda do enfermeiro que assistia ao espetáculo. Numa das noites em Metangula, alguns elementos deslocaram-se ao Cobué para uma pequena atuação e para quem conhece o lugar pode imaginar a emoção que é ouvir “O Silêncio”, tocado naquele ambiente quase desértico, a altas horas da noite. É mais um momento único que fica gravado na memória para toda a vida. No regresso de Moçambique Os Náuticos fizeram a viagem a bordo da fragata Hermenegildo Capelo e mais uma vez efetuaram algumas atuações a bordo, gerando-se uma grande empatia com a guarnição e amizades muito fortes que se prolongaram até aos dias de hoje. Em traços largos, aqui fica um pequeno contributo para recordar a existência d’Os Náuticos, um agrupamento musical que ainda hoje é lembrado por muitos dos que serviram na Marinha, Exército e Força Aérea nos anos de 1970/71 e que com eles se cruzaram em terra ou no mar. José Araújo Pereira CFR Músico REVISTA DA ARMADA • JANEIRO 2013 27 O curso “Oliveira e Carmo” visita a Escola Naval N o âmbito das comemorações do cinquentenário da entrada na Escola Naval dos cadetes do Curso “Oliveira e Carmo”, a visita efectuada àquele estabelecimento de Ensino Superior Público Militar no dia 25 de outubro representou o ponto mais alto de entre todas as visitas realizadas, não só pela sua carga simbólica, mas também pela sua envolvente emocional. Poucos foram os que faltaram e os presentes voltaram a entrar no átrio do edifício escolar por onde passaram tantas vezes, todos os dias e durante alguns anos. Aparentemente, o aspecto das velhas salas de aulas não se alterou significativamente, o mesmo não se podendo dizer de toda a ala Sul do edifício escolar e dos alojamentos, completamente modernizados e aumentados. Bem mais evidentes eram as mudanças sofridas pelos jovens cadetes de 1962, agora exibindo a sua natureza quase septuagenária. Apesar do dia chuvoso e da hora matutina a que se iniciou a visita, os elementos do Curso “Oliveira e Carmo” e os seus professores que puderam estar presentes, foram pontuais e, na sala AORN, apresentaram cumprimentos ao CALM Bastos Ribeiro, Comandante da Escola Naval, assinando depois o Livro de Honra, onde ficou registada a mensagem: Um muito Bem-Haja à Escola Naval que neste dia nos proporcionou rejuvenescer 50 anos. É com emoção que aqui voltámos a esta Casa que nos formou como Homens e Marinheiros. Que ela continue a honrar a Marinha e o País na senda da sua divisa henriquina “Talant de bien faire”, são os votos do curso “Oliveira e Carmo”. Seguidamente, o grupo posou para a tradicional fotografia de conjunto na escadaria principal do átrio do edifício escolar. Seguiu-se uma missa na Capela da Escola Naval por intenção dos elementos do curso já falecidos, que foi celebrada pelo CALM Capelão Costa Amorim e, depois, no pequeno auditório do edifício escolar, uma sessão de apresentação da Escola Naval e da sua missão, feita pelo Comandante e pelo 2º Comandante, respectivamente CALM Bastos Ribeiro e CMG Soares Ribeiro, que permitiu que nos inteirássemos das alterações havidas, quer nas instalações escolares quer no plano de estudos, de forma ao seu adequado enquadramento no sistema educativo nacional e nas necessidades da Marinha. Para a tradicional lição proferida por um antigo professor foi convidado o CMG Martins e Silva que, numa evocação cheia de interesse e boa disposição, recordou a sua relação com o Curso “Oliveira e Carmo” e lembrou alguns episódios da sua vida naval, nomeadamente durante as suas comissões a bordo do NE Sagres, nos quais teve a colaboração de alguns 28 JANEIRO 2013 • REVISTA DA ARMADA membros do curso, com os quais intensificou os laços de amizade que já vinham dos tempos da Escola. A aula foi atentamente seguida pelos cadetes, que muito a apreciaram e aplaudiram. O nosso camarada e Chefe de Curso CALM AN Nunes da Cruz usou da palavra para agradecer ao Comandante Martins e Silva a excelência do seu contributo para as comemorações do cinquentenário do Curso “Oliveira e Carmo” e ler mensagens recebidas de alguns membros do curso ausentes por motivos de força maior, casos de Rodrigues Rodolfo, Paiva de Andrade, Aires da Silva e Raul Leitão, assim como as mensagens de agradecimento pelo convite e de felicitações pela efeméride, que foram enviadas ao curso por alguns professores também ausentes, nomeadamente, VALM Carmo Fernandes, VALM Quesada Andrade, CALM AN Pereira de Oliveira, Comandantes Serra Brandão, Abel de Oliveira, Conceição e Silva, Castro Guise, Bandeira Duarte, Duarte Costa, Brilhante Pessoa, Pascoal Rodrigues e Prof. Doutor Noémio Macias Marques. A leitura destas mensagens, por vezes de conteúdo muito fraterno e emocional, foi um momento de grande significado para todos os presentes. Os elementos do Curso “Oliveira e Carmo” dirigiram-se depois para a sala Macau, onde tiveram a oportunidade de consultar alguma documentação relativa à sua vida escolar, seguindo depois para o átrio do edifício do antigo internato onde, devido ao mau tempo, o Batalhão do Corpo de Alunos se encontrava em formatura. O Chefe de Curso fez uma breve alocução dirigida aos cadetes em formatura, de que se salienta a seguinte passagem: A profissão que escolheram não vos irá dar poder nem riqueza, realidades endeusadas na sociedade actual. Vão enfrentar muitas agruras, muitas dificuldades e muitas incompreensões e têm de estar preparados para saber ultrapassá-las. Porém, há muitas satisfações sem contrapartida material que hão-de saborear no desempenho da vossa profissão, e essas, por isso mesmo, são mais duradouras e gratificantes. Lealdade, disciplina, frontalidade, honradez, coragem moral e cívica, integridade, ética, liderança, são valores que os vossos mestres aqui vos hão-de incutir e ajudar a desenvolver. É um investimento em que vale a pena todo o empenhamento e, dele, a vida se encarregará de vos trazer o consequente e gratificante retorno. As Forças Armadas em geral e esta escola em particular, são um cadinho onde germinam esses valores. Fazê-los florescer é a vossa obrigação. O cadete não é - apenas, direi eu - um estudante universitário, mas é mais, já que o seu nível académico tem de ser completado com outras valências, militares e marinheiras, que o universitário civil não tem. Mais do que palavras, a nossa presença aqui, passados 50 anos, significa que valeu a pena o termos escolhido esta profissão, que a vivemos o melhor que soubemos e pudemos e que a Marinha continua a ocupar um lugar privilegiado nas nossas vidas. No final das suas palavras agradeceu a presença dos professores do curso presentes – VALM Garcês de Lencastre, CALM Victor Crespo, CALM Pereira Germano, Comandantes Cyrne de Castro, Eurico Matiolli e Costa Catalão e Professor João Afonso Freire. Agradeceu, também, as presenças do Comandante Almada Contreiras e do VALM Neves de Bettencourt, representantes dos cursos que o Curso “Oliveira e Carmo” encontrou na Escola Naval em Setembro de 1962 – “Luís de Camões” e “Nuno Tristão” – e do Eng. Luís Filipe Penedo, representante do 5º Curso Especial de Oficiais da Reserva Naval que entrou para a Escola Naval em Outubro de 1962, tendo como patrono o Comandante Oliveira e Carmo. Seguiu-se o descerramento de uma placa comemorativa dos 50 anos do Curso, que foi muito aplaudido e, depois, um almoço de convívio no hall do Grande Auditório. Colaboração do CURSO “OLIVEIRA E CARMO” HIERARQUIA DA MARINHA 20 GALEOTE O termo galeote terá a sua origem no italiano, onde galiotto significa marinheiro, forçado, ou condenado a remar nas galés ou galeotas. José de Vasconcelos e Menezes, em Os Marinheiros e o Almirantado (p. 156), afirma que «…o galeote era o remador…, obrigado ao serviço militar do Rei, nas armadas, do mesmo modo que os homens de armas o eram na hoste». Fernando Oliveira, na Arte da Guerra do Mar (parte I, cap. XII, p. XXIX verso), evidencia as competências técnicas necessárias aos galeotes: «Os remeiros a quem em especial chamam galeotes são quase marinheiros, e pelos mesmos respeitos devem ser escolhidos práticos no marinhar do navio, porque também tiram pela corda, e acodem aos aparelhos, e hão mester conhecê-los, e entender o apito». Inicialmente, em Portugal, os galeotes eram jovens barões livres das populações ribeirinhas. José de Vasconcelos e Menezes (ob. cit., p. 156) afirma que, até ao reinado de D. Pedro I, os concelhos mandavam apresentar um determina- do número de homens para o serviço de remador. Acrescenta que, do reinado de D. Pedro I ao de D. João I, como o sistema de recrutamento designado por “vintena do mar” ainda não se encontrava uniformizado, manteve-se em vários locais o processo anterior. Do reinado de D. João I ao de D. Manuel I foi estabelecido um imposto sobre o pescado, para pagar aos galeotes que se apresentassem voluntariamente. Depois desse tempo, as exigências das guerras, associadas ao facto do serviço de remador ser extraordinariamente violento e perigoso, os galeotes livres começaram a ser substituídos por delinquentes e cativos, muitos deles sem qualquer experiência de mar. A condenação de um individuo ao serviço de remador era uma forma escravizante de privação da liberdade, aplicada em caso de delito grave, ou imposta a inimigos capturados durante os combates, a membros de etnias socialmente estigmatizadas, e a alguns nobres caídos em desgraça. Embora os conde- nados pudessem obter perdão da pena, através dos ouvidores e dos comissários que advogavam perante o Rei, isso era muito raro, pelo que o serviço de galeote equivalia, frequentemente, a uma pena perpétua ou capital. Na iminência dos combates, e para não fugirem sob o efeito do medo, os galeotes eram acorrentados aos bancos das galés. Fernando Oliveira (ibid, ibidem) refere-se à violência exercida sobre os galeotes, dizendo que os comitres «… os açoitam à sua vontade e os mandam para onde querem…», pelo que «… o trabalho de remar é tão intolerável que ninguém o faz bem senão por força, a qual resulta de açoite ou de necessidade...». Os galeotes feridos e doentes eram lançados ao mar. Embora sujeitos a severas privações, os galeotes tinham alguns direitos relativamente aos saques efectuados e ao soldo pelo serviço prestado. António Silva Ribeiro CALM VIGIA DA HISTÓRIA 50 COMPETÊNCIAS N em sempre os cargos dos oficiais dos navios, mormente na Carreira da Índia, eram atribuídos a indivíduos adequadamente habilitados; os pilotos, os sota pilotos, os mestres e os contramestres obtinham tal habilitação através de exame efectuado pelo Cosmógrafo Mor (1), os cirurgiões e os físicos através da apreciação efectuada respectivamente pelo físico mor e pelo cirurgião mor, desconhecendo como seriam as restantes categorias (meirinhos, condestáveis, artilheiros etc…). Seja como for o que é um facto é que são conhecidas inúmeros nomeações, para o desempenho de cargos a bordo das naus da Índia de indivíduos que, pelo menos, aparentemente não estariam habilitados para o seu desempenho ou mesmo não teriam as adequadas qualificações para o fazer. O sucedido com a nomeação de António da Silva, ocorrida em 1769, parece ser um desses casos. No respectivo diploma de nomeação é referida a sua experiência que começara a servir, no mar, anteriormente a 1760, como cirurgião, nalgumas armadas da costa. Fora o cirurgião mor da armada da Índia, de 1670, em que seguira o Vice Rei Conde do Lavradio tendo, ao chegar a Goa, sido nomeado cirurgião mor do Estado da Índia e do Hospital de Todos os Santos. No ano seguinte foi nomeado escrivão da Câmara de Goa e nomeado em vida Guarda Mor da Relação da Câmara, cargos em que pelo seu desempenho merecera a atribuição do grau de cavaleiro da Ordem de S. Tiago. Tendo renunciado aos cargos embarcou para o Reino vindo a perder a maior dos seus bens no naufrágio do navio em que seguia viagem. Em Moçambique, para onde seguira na sequência do naufrágio, foi nomeado escrivão da charrua Nª Srª da Visitação que, em Maio de 1679, regressava da Índia a Lisboa. Na Baía, onde o navio arribou foi, em 12 de Maio de 1679, nomeado como Tenente do Capitão de Mar e Guerra (2) da mesma charrua Nª Srª da Visitação em acumulação com o cargo que já desempenhava. Com. E. Gomes Notas (1) Embora a lei assim o obrigasse são muitos os pilotos e sota pilotos que não se conhece se teriam efectuado exame isto para não referir as outras categorias em que a situação é bem pior. (2) As funções daquele cargo poder-se-iam comparar às desempenhadas pelo imediato do navio competindo-lhe, em caso de algo suceder ao Capitão-de-Mar-e-Guerra, que, certamente não por acaso, havia sido aprovado em exame como piloto, substitui-lo. Fonte: Documentos Históricos da Biblioteca do Rio de Janeiro vol. 27 REVISTA DA ARMADA • JANEIRO 2013 29 ESTÓRIAS P VENTOS DE BOLINA or falar em nortadas rijas de Verão junto à costa ocidental, relembro um episódio que, não tendo vivido, é do conhecimento de todos os que tiveram o ensejo de passar pelo Navio-Escola “Sagres”. Em ano que não posso precisar, a “Sagres” fazia o seu período de adestramento básico antes de iniciar uma viagem de instrução de cadetes e foi determinado que uma equipa de televisão ou cinema, talvez, embarcasse na “Gina”, Fragata “Pero Escobar”, que na altura era capaz de atingir os seus trinta e dois ou trinta e três nós de velocidade, a fim de tomar imagens da “Sagres” a navegar. É preciso referir que esta “Sagres” tinha ainda pouco tempo ao serviço da Marinha Portuguesa e não havia grande documentação fotográfica sobre ela. Assim, depois de várias tentativas sem êxito da equipa que seguia a bordo da fragata para recolher as imagens para a posteridade, já que 30 JANEIRO 2013 • REVISTA DA ARMADA a “Gina” era navio pouco cómodo para esta tarefa, sobretudo com nortada que ocasionava um forte balanço proa-popa, pondo os operadores de câmara do avesso, estes foram falar com o comandante para diminuir a velocidade do navio. Na impossibilidade de o fazer sem correr o risco de se afastar demasiado da “Sagres”, o comandante sem se dar bem conta de que estava a escrever uma mensagem para a história daquele navio, pede-lhe que diminua a velocidade para o poder acompanhar. Claro que o navio mais rápido da Armada a pedir à “Bela Barca” para reduzir velocidade, teve direito a ver a sua mensagem encaixilhada e exposta na Câmara de Oficiais como troféu. CMG José Ferreira Júnior (2009) (Texto enviado pelo Curso “Luís de Camões”) NOVAS HISTÓRIAS DA BOTICA (19) N O Natal deste ano... esta manhã de Natal meninos, felizes Vão aos saltos pela casa Descalças ou com chinelos Procurar suas prendas Depois há danças de roda No Natal todos se sentem irmãos Se isto fosse verdade Para todos os Meninos Era bom ouvir os sinos tocar. Poema popular de Natal, lido por uma criança. Todos os anos escrevo por esta altura uma história alusiva ao Natal…Este ano está difícil. Nem o ambiente parece propício, nem a minha alma parece pronta e até estas histórias parecem diferentes agora que – com sincera pena – perdi o meu ilustrador… Nada me parece Natal este ano, nem a música copiada de uma América distante, nem os Pais do Natal da Coca Cola, ou aqueles condenados velhos barbudos pendurados em cabos gastos de uma China, tão em queda como eles, que adornam as varandas das cidades dormitório, objetos de um desejo estranho, alheio aos “meninos jesus “ de outros tempos… Nem sequer os pinheiros de plástico, ou as luzinhas cintilantes, me aquecem nesta época, ou me recordam o velho espírito de Natal…Tenho mesmo que me lembrar do sabor a azevias e filhoses, da minha avó – o melhor de um tempo que nunca passou… Contudo, presenciei este ano muitos milagres nos meses que passaram: vi o meu filho encontrar paz, eu próprio venci inúmeras adversidades e acreditei…Acreditar já é suficientemente bom e, sei-o eu e sabem muitos, já é metade do Natal, qualquer Natal de qualquer ano, em qualquer lugar… Consegui mesmo, durante o passado ano, nos olhos de muitos ver a vida a renascer apesar dos cortes, das trocas e baldrocas e de toda a bruma que rodeia o país…Verifiquei, com grande satisfação, que muitos retornaram a um país de menos ostentação e mais afirmação…Acreditei na vitória dos pequenos. Aceitei os sofrimentos presentes…Recordei-me nos muitos que encontro e comigo partilharam a experiência Naval. Sobrevivi…e isso também é Natal… Verifiquei, para lá de tudo, que ainda sou médico… Dediquei toda a minha vida ao saber e isso foi recompensado, após um longo período de trabalho. No processo nunca me senti só, antes seguro no calor dos amigos… Também isso foi um bom presente de Natal… Muitas coisas novas nos esperam no novo ano. Espera-se, por exemplo, que dos escombros do Hospital da Marinha, nasça algo que mantenha algum do espírito Naval, do velho Hospital da Marinha, que está perto do seu estertor final. Espero que se reconheça na nova estrutura, alguma da maresia que transpirava nos corredores da atual Unidade de Santa Clara, do Centro Hospitalar das Forças Armadas, que está a nascer. Espera-se que a nova estrutura conquiste – de algum modo - o lugar que a estrutura antiga tinha no coração de muitos… Espera-se, por fim, que o novo ano traga esperança a todos e ventos de uma orientação que todos compreendam, para lá das brumas que a incerteza agora traz… Feliz Natal a todos. Esperança para 2013… Que bom seria ouvir de novo os sinos a tocar…assim diz a criança…que finalmente me fez acreditar, que é Natal… Doc DOUTORAMENTO EM MEDICINA Actos da Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa a cerimónia de Doutoramento em Medicina do CMG MN Luís Bronze dos Santos Carvalho perante numerosa assistência constituída essencialmente por médicos e oficiais de Marinha. O júri foi constituído pelos Professor Miguel Oliveira Presidente (Vice-reitor da Universidade Nova de Lisboa) Professora Ana Aleixo, Professor Palma dos Reis e Professor Nuno Cardim (FML). Professor Manuel Bicho (FML), Professor Silva Cardoso e Professor Paulo Bettencourt (FM Porto). A lição proferida pelo Dr. Bronze dos Santos Carvalho versou o tema Marcadores Inflamatórios da Placa Aterosclerótica Coronária: Caraterização e potencial retilização clínica. Este tema prende-se com a “teoria inflamatória da aterosclerose“, que explica aquela entidade médica com base em pressupostos inflamatórios. De forma sucinta, explicitou-se que o organismo reage a estímulos metabolicamente agressivos (como a gordura da dieta e outros) do mesmo modo como reage a estímulos agressivos de um outro tipo – como uma infeção microbiana, por exemplo. A aterosclerose apresenta-se assim como um mecanismo de defesa, acessível por marcadores colhidos por análise de sangue periférico. Após a apresentação da sua Tese o doutorando foi interpelado por todos membros do júri. No final o júri atribuiu ao candidato, por unanimidade e distinção o grau de Doutor. O nosso Doc já é DOUTOR! Fotos SAJ L Carvalho ● No dia 16 de novembro realizou-se na Sala dos CMG MN Luís Bronze Carvalho Licenciado pela Faculdade de Medicina de Lisboa. Especialista em Cardiologia pelo Hospital de Santa Cruz. Doutorado em Medicina/Cardiologia pela Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Nova de Lisboa. Comissões de embarque como Chefe de Serviço de Saúde no NRP João Roby 1990/1991, NRP António Enes e NRP Pereira d’Eça (1995), NRP Álvares Cabral (1998) e NRP Vasco da Gama (1999/2000). Cardiologista do Hospital da Marinha até 2005. Cardiologista e Chefe do Departamento de Cuidados de Saúde Primários do Centro de Medicina Naval entre 2005 e 2009. Subdiretor do Centro de Medicina Naval entre 2010 e 2011. Atual presidente da Junta de Recrutamento e Seleção e Responsável pelo Serviço de Cardiologia da Unidade de Santa Clara, do Pólo de Lisboa, do Centro Hospitalar das Forças Armadas. REVISTA DA ARMADA • JANEIRO 2013 31 32 JANEIRO 2013 • REVISTA DA ARMADA QUARTO DE FOLGA JOGUEMOS O BRIDGE PALAVRAS CRUZADAS Problema Nº158 Problema Nº440 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 Norte (N) 9 A D A 8 10 7 6 4 2 6 5 5 Oeste (W) R D V D V 8 V 9 10 Este (E) 9 8 7 3 6 5 7 10 D 6 9 V 5 4 10 4 3 Sul (S) 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 Horizontais: 1-Duro como pedra; humedecer por irrigação. 2-Ovário dos peixes; envia. 3-Fel; ilha de Moçambique. 4-Jogo que se joga ordinariamente entre dois parceiros, com trinta e duas cartas; rio da Itália. 5-Navegara (Náut); é quase cave. 6-Riqueza (Poét); mamífero marsupial trepador, da Austrália, 7-Uma das cícladessentre Naxas e Santorim; misturassem. 8-Estás; filha de Agámémnon, vingou a morte de seu pai, matando sua mãe Clitemnestra (sing). 9-Nome próprio; penai na confusão. 10-Compositor francês (1683-1764); vento frio (inv). 11-Cidade da Sírianas margens do Oronto, célebre pelo seu tempo do Sol; planta rasteira, com folhas nauseabundas. A R A R 7 8 R 4 3 3 2 2 2 Todos vuln. S joga 3ST e recebe a saída a ♠ R. Analisando as 4 mãos será que S conseguirá encontrar a 9ª vaza que lhe falta para cumprir o contrato? Solução neste número ∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙ SOLUÇÕES: PROBLEMA Nº 158 Com uma distribuição desfavorável 4-2 dos ♦ só tem 8 vazas rápidas, pelo que vamos ver a linha de jogo que S deve seguir para encontrar a 9ª vaza fazendo 3 ♥. Vejamos como: deixa fazer ♠ R e ganha à segunda com A; joga 3 voltas de ♦ e verifica que estão 4-2, continuando com o 4º para obrigar a 2 baldas de W que terão de ser ♣; E fica em mão e se atacar ♣ S faz AR e coloca a mão em W em ♠, sendo este obrigado a jogar ♥ e permitindo que S faça 3 vazas no naipe, como facilmente se pode verificar; se E tivesse atacado ♥ em vez de ♣ deixaria correr para o morto e W teria de jogar D ou V para o A de N; depois o carteador jogaria do mesmo modo deixando W sem defesa na saída de mão obrigatória a ♥, face ao 10x em N e Rx em S contra os seus V9. Nunes Marques CALM AN Verticais: 1-Advogado e convencional francês, tendo reinado pelo terror com a Junta de Salvação Pública, de que era a alma. 2-Pequenos ornatos ovai antes do meio-dia. 3-Planta malvácea (pl); goste. 4-Tricas na confusão; acreditas. 5-Satao na confusão; átomo gasoso electrizado sob a acção de certas radiações. 6-Também (ant); pedra de moinha. 7-Soberano; cidade e munigípio do estado do Rio Grande do Norte (Bras). 8-Região petrolífera da Rússia entre o Ural e o Cáspio; acto ou efeito de sopesar (inv). 9-Prefixo de terra; tornara nulo. 10-Símb. quím. do astato; esporear na paleta (Bras). 11-Renovação. ∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙∙ SOLUÇÕES: PALAVRAS CRUZADAS Nº 440 Horizontais:1-rocal;regar.2-ovas;remete.3-bilis;ibo.4-ecarte;po. 5-sulcara;cav.6-pluto;coala.7-ios;amassem.8-es;oreste.9-ari;ipaen.10-rameau;orat.11-emeso;asaro. Verticais: 1- robespierre. 2 - oviculos; am. 3 - calalus; ame. 4 - asirct; cres. 5 - staoa; iao. 6 - er; mo. 7 - rei; acari. 8 - emba; osepos. 9 geo; cassara. 10 - at; palatear. 11 - renovamento. Carmo Pinto 1TEN REF REVISTA DA ARMADA • JANEIRO 2013 33 NOTÍCIAS PESSOAIS NOMEAÇÕES ● CMG Henrique Eduardo Passaláqua de Gouveia e Melo nomeado Diretor de Faróis ● CMG Alberto Manuel Silvestre Correia nomeado Comandante da Flotilha e de 2º. Comandante Naval ● CMG Paulo Jorge da Silva Ribeiro nomeado Chefe da Repartição de Militarizados e Civis da Direção do Serviço de Pessoal ● CMG José Nuno dos Santos Chaves Ferreira nomeado Chefe de Divisão de Recursos do Estado Maior da Armada. ● ● ● ● RESERVA ● ● FZ António dos Anjos Lopes SCH E Francisco de Carvalho Pereira SAJ TF Abílio dos Santos Simões SAJ L Gaspar Manuel Pinto Monteiro SAJ C José Bento Marques SAJ L Carlos Manuel Neves Canais SAJ T Alberto Manuel Guerreiro Pires SAJ T António Jorge Serra Saraiva Rocha SAJ FZ Luís Correia Lopes Barbosa 1SAR E Jairo Joaquim Pereira Fernandes 1SAR E José Francisco Mendes Lopes 1SAR CM Flamínio José Picanço Robusta 1SAR CM José Caetano Vieira 1SAR E Demétrio de Alegria Meira Gavetanho 1SAR T José Maria Carapuça Pacau 2SAR A Abílio Armando Pereira CAB L Paulo Fernando da Silva Rodrigues CAB A José Augusto de Almeida Lemos. ● COMANDOS E CARGOS ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● FALECIDOS ● ● CMG SEM REF Manuel da Silva Conde Guedes ● CTEN REF Jorge Henrique Dias dos Reis ● 1TEN OT REF Jorge Iná● ● cio Medina ● SMOR L REF Marcelino Filipe David ● SAJ H REF Jaime Marques ● SAJ CM REF Joaquim Batista ● SAJ M REF José António Pinto Rego ● SAR V REF Mateus de Jesus ● Vicente ● SAJ A REF António Patrício Cristóvão ● 1SAR MQ REF Augusto Lenine Gonçalves Abreu ● 1SAR B REF MarREFORMA celino António Eugénio Guerreiro ● 1SAR H REF Manuel da ● VALM Rui Cardoso Teles Palhinha ● CMG José António Silva Marques ● CAB FZV REF António José Rosado Mendes Ruivo ● CMG EMQ António de Castro Figueiredo ● SMOR L ● CAB TFD REF João Martins Terrôa Mendes ● 1MAR Q REF Carlos Eduardo Vendeirinho dos Santos ● SMOR FZ António António Pereira Silveira ● 1GR L Rui Miguel Cabrita de Lima Maria Romano ● SMOR FZ José Coelho da Piedade ● SMOR ● AG/ 1/A CLAS PM APOS José Brás Gomes. CALM Carlos Manuel Mina Henriques CALM Rui Manuel Costa Casqueiro de Sampaio CALM MN Armando Filipe da Silva Roque CMG SEF António dos Santos Pereira CMG Luís Filipe Correia Andrade CTEN STC José Salvado dos Santos CTEN SEL Rui Alberto Pires do Rosário. ● ● CONVÍVIOS ALMOÇO DOS TRIPULANTES DAS ESTAÇÕES SALVA VIDAS DO INSTITUTO DE SOCORROS A NÁUFRAGOS ● Realizou-se no passado dia 8 de dezembro, no Restaurante “Lobo do Mar” em Sesimbra, o tradicional almoço dos tripulantes das Estações Salva Vidas (ESV) do Instituto de Socorros a Náufragos (ISN). O encontro contou com a presença de 30 convivas, entre eles tripulantes e seus familiares. Representadas as seguintes ESV: Viana do Castelo, Apúlia, Povoa de Varzim, Vila do Conde, Vila Chã, Douro, Peniche, Paço d’Arcos, Sesimbra (organização) e Sagres. Representantes do ISN: Diretor do ISN, CMG Peixoto Queiroz, o Subdiretor, CFR Rato Rodrigues e o Chefe do Serviço de Salvamento Marítimo e seu adjunto, CFR Silva de Pinho e CTEN Mário Pinto Capitania da Setúbal: Adjunto do Capitão do Porto para a Delegação Marítima de Sesimbra, 1TEN ST Marinho. O convívio decorreu em ambiente de grande camaradagem e amizade e serviu para rever camaradas e amigos. O momento foi aproveitado para, em reconhecimento de todos os tripulantes, se proceder à entregar simbólica de uma Cresta do ISN ao proprietário do restaurante, neto do falecido Patrão Justino da Silva, tripulante da extinta ESV do Portinho da Arrábida. Por sorteio, em 2013 a responsabilidade da organização deste encontro caberá à ESV de Sagres. 34 JANEIRO 2013 • REVISTA DA ARMADA 1º ENCONTRO DE “FILHOS DA ESCOLA” DE VENDAS NOVAS ● Realizou-se no dia 1 de dezembro, no restaurante “A Fonte”, o 1º encontro de “Filhos da Escola” de Vendas Novas que contou com a presença de cerca de 50 militares e respetivas famílias. O convívio decorreu em ambiente de amizade e sã camaradagem. Navios Hidrográficos 23. O DRAGA-MINAS S.JORGE O S. Jorge era um draga-minas oceânico, construído em Washington, tendo servido a Marinha dos E.U.A. com a designação USS MSO 478, até ser cedido a Portugal ao abrigo do Acordo de Defesa e Assistência Mútuas entre os dois países. Em 1 de junho de 1955 foi aumentado ao Efetivo dos Navios da Armada, ostentando na amurada a inscrição “M415”. Largou de Seattle a 5 de setembro daquele ano, atravessou o canal da Panamá e demandou o porto de Lisboa em 30 de novembro. Dispunha de uma peça “Bofors” de 40 mm e, enquanto draga-minas, participou em diversos exercícios navais e visitado vários portos de países europeus como Harwich, Brest e Toulon. A atribuição da denominação S. Jorge ao referido draga-minas foi feita em alusão à ilha açoriana com o mesmo nome, o qual evoca o célebre soldado romano, ao tempo do Imperador Diocleciano, que foi feito mártir e cujo culto foi introduzido em Portugal pelos cruzados ingleses, tendo mais tarde vindo a substituir Sant’Iago no campo de batalha entre as hostes portuguesas. O navio apresentava as seguintes características: Deslocamento máximo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 780 toneladas Comprimento (fora a fora) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 52,72 metros Boca. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . 10,62 “ Calado máximo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3,81 “ Velocidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 137 nós Propulsionada por dois motores Diesel com a potência de 800 cavalos cada, a sua guarnição era composta de 69 homens (5 oficiais, 6 sargentos e 58 praças). A partir de abril de 1967 ficou na dependência técnica do Instituto Hidrográfico, tendo sido adaptado para o desempenho da sua nova missão com a instalação de dois laboratórios e a adaptação das condições de alojamento a fim de poderem embarcar pessoal de investigação. Iniciou em junho uma série de comissões nos Açores em trabalhos de oceanografia, que se repetiram nos anos seguintes. Entretanto, em 18 de fevereiro de 1969, um violento incêndio destruiu por completo as instalações do Instituto Hidrográfico, na rua do Arsenal. Este acidente perturbou de alguma forma atividade de navio na medida em que as atenções passaram a centrar-se na reinstalação do Instituto e em garantir a continuidade de alguns serviços considerados essenciais, como a publicação de cartas náuticas e a edição dos grupos de avisos aos navegantes. Em consequência do ocorrido, apenas em 1970 foi possível o S. Jorge dar apoio à campanha oceanográfica “Internacional 70”. Em 1970, participou nas campanhas oceanográficas para apoio às pescas do Continente (CAPEC), as quais prosseguiram até 1974, numa segunda fase a bordo do N.R.P. Almeida Carvalho. A missão destinou-se a recolher informação física, química e biológica junto à costa do Continente, de forma sistemática e em regime sazonal, incluindo dados relativos à salinidade e temperatura, colheita de amostras de plâncton e outros elementos biológicos. Em dezembro desse ano seguiu para os Açores, com escala no Funchal, tendo regressado alguns dias depois à Base Naval de Lisboa. Durante o curto período de permanência no Arquipélago da Madeira, foram efetuados estudos às cagarras nas Ilhas Desertas, uma espécie protegida de aves marinhas que possuem ali o seu habitat. No ano seguinte, deu apoio aos estudos sismológicos na zona do canhão da Nazaré, operação considerada arriscada atendendo ao facto de que os mesmos incluíam o rebentamento de cargas explosivas, controlado de bordo, cujos impactes faziam-se sentir fortemente no navio. O prosseguimento destes estudos estava previsto para outubro de 1971 mas, devido às deficientes condições do navio, os mesmos foram suspensos, tendo prosseguido no ano seguinte com o N.R.P Almeida Carvalho. Em 10 de novembro de 1971, regressou à Base Naval de Lisboa, tendo terminado a sua dependência do Instituto Hidrográfico. Em setembro do ano seguinte foi atribuído ao Agrupamento nº. 1 de Draga-Minas, do qual também faziam parte os draga-minas Pico, Graciosa e Corvo, todos da classe S. Jorge. Em 30 de junho de 1973 passou ao estado de desarmamento e em 20 de abril de 1974 foi o draga-minas S. Jorge, que de abril de 1967 a novembro de 1971 na dependência do Instituto Hidrográfico efetuou trabalhos de oceanografia, abatido ao Efetivo dos Navios da Armada. Colaboração do INSTITUTO HIDROGRÁFICO 24. A LANCHA HIDROGRÁFICA MIRA A Mira era uma antiga lancha torpedeira, adquirida por Portugal em 1961 e rebatizada com o nome Arrábida. Prestou serviço na Missão Hidrográfica do Continente e Ilhas Adjacentes juntamente com o N.H. João de Lisboa. Adaptada a lancha hidrográfica, veio a ser aumentada ao Efetivo dos Navios da Armada em 1 de novembro de 1968, ostentando na amurada a inscrição “A 5200”. A atribuição da denominação Mira à referida lancha foi feita em alusão ao rio Mira que nasce na Serra do Caldeirão e vai desaguar ao Oceano Atlântico, junto à Vila Nova de Milfontes. A lancha apresentava as seguintes características: Deslocamento máximo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 30 toneladas Comprimento (fora afora) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19,2 metros Boca . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 4,6 “ Calado máximo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1,2 “ Velocidade. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15 nós Propulsionada por dois motores Diesel, a sua guarnição era de 6 homens (1 oficial e 5 praças). Entre os trabalhos em que participou na costa continental portuguesa, destaca-se o apoio às atividades de hidrografia e oceanografia no estuário do rio Tejo e na área entre a Figueira da Foz e Sines, que incluíram a obtenção de valores de correntes, colheitas de amostras de água, seguimento de drogues e o apoio aos estudos preliminares para a edificação de uma estação nuclear em Peniche. Em 20 de maio de 1981, a Mira passou ao estado de desarmamento, tendo sido abatida ao Efetivo os Navios da Armada em 16 de dezembro de 1983. Colaboração do INSTITUTO HIDROGRÁFICO Navios Hidrográficos 23. O DRAGA-MINAS S.JORGE 24. A LANCHA HIDROGRÁFICA MIRA