Parceria traz para o Brasil iniciativa
internacional pioneira de pesquisa em dengue
Projeto ‘Eliminar a Dengue: Desafio Brasil’ testa método natural para
bloquear a transmissão do vírus da dengue no mosquito Aedes aegypti
A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) traz ao país uma nova estratégia de pesquisa para
o controle da dengue. O projeto ‘Eliminar a Dengue: Desafio Brasil’ utiliza a bactéria
Wolbachia para bloquear a transmissão do vírus da dengue pelo mosquito Aedes
aegypti de forma natural e autossustentável. O projeto integra o esforço internacional
sem fins lucrativos do Programa ‘Eliminate Dengue: Our Challenge’ (Eliminar a Dengue:
Nosso Desafio), que testa o método na Austrália, Vietnã, Indonésia e, agora, Brasil.
Atualmente, 2,5 bilhões de pessoas em 100 países estão sob ameaça de contrair o
vírus, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). O anúncio foi feito
nesta segunda-feira, 24 de setembro de 2012, às 15 horas, durante coletiva de
imprensa no XVIII Congresso Internacional de Medicina Tropical, no Rio de Janeiro.
O programa de pesquisa é liderado pela Universidade de Monash (Melbourne,
Austrália) com diversos colaboradores internacionais. Em estudo com a participação
do pesquisador da Fiocruz Luciano Moreira, líder do projeto ‘Eliminar a dengue:
desafio Brasil’, os cientistas demonstraram em laboratório que, quando é introduzida
no Aedes aegypti, a Wolbachia atua como uma ‘vacina’ para o mosquito, bloqueando a
multiplicação do vírus dentro do inseto. Como consequência, a transmissão da doença
é impedida.
Naturalmente presente em cerca de 70% dos insetos no mundo, a Wolbachia é uma
bactéria intracelular e não existem evidências de qualquer risco para a saúde humana
ou para o ambiente.
O projeto ‘Eliminar a Dengue: Desafio Brasil’ conta com financiamento da Fiocruz,
Ministério da Saúde (Secretaria de Vigilância em Saúde – SVS e Departamento de
Ciência e Tecnologia da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos –
DECIT/SCTIE), Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (CNPq) e Foundation for
the National Institutes of Health (Estados Unidos).
Do laboratório para o campo
O método de controle é baseado na soltura programada dos mosquitos com
Wolbachia, que, ao se reproduzirem na natureza com mosquitos locais, passam a
Wolbachia de mãe para filho através dos ovos. Com o passar do tempo, a expectativa é
de que a maior parte da população local de mosquitos tenha Wolbachia e seja incapaz
de transmitir dengue.
O projeto australiano realiza desde 2011 a soltura de mosquitos com Wolbachia em
localidades no norte daquele país – onde ocorrem casos de dengue, embora com
números muito inferiores aos vivenciados no Brasil. Como conseguem transmitir a
Wolbachia de geração em geração através dos ovos e possuem vantagens reprodutivas
(tendo maiores chances de deixar prole), em poucas semanas os mosquitos com
Wolbachia se tornaram predominantes nas populações locais de Aedes aegypti.
Caso os testes sejam bem sucedidos, o uso da Wolbachia tem o potencial de ser uma
tecnologia autossustentável, uma vez que a perpetuação da característica é garantida
no processo reprodutivo do mosquito, dispensando os custos de soltura continuada no
ambiente. “Nossa expectativa é de que este método possa beneficiar milhões de
pessoas que atualmente vivem em áreas endêmicas, de forma autossustentável e
economicamente viável, sem danos ao ambiente”, afirma Luciano Moreira,
pesquisador da Fiocruz e líder do projeto ‘Eliminar a Dengue: Desafio Brasil’.
Na atual fase, a estratégia será testada em países endêmicos, como Brasil, Vietnã e
Indonésia, para verificar a viabilidade da estratégia entre populações locais de
mosquitos.
Eliminar a Dengue: Desafio Brasil
No Brasil, o projeto está em sua primeira fase. Neste momento, o projeto está focado,
em ambiente de laboratório, na manutenção de colônias dos mosquitos com
Wolbachia e no cruzamento com Aedes aegypti de populações brasileiras. A
construção de uma estrutura de gaiola de grandes proporções no campus da Fiocruz,
onde testes intermediários serão realizados, está programada para 2013. Além disso,
estão sendo estudadas as localidades para os testes de soltura em campo previstos
para 2014, o que inclui conhecer dados entomológicos sobre as populações de
mosquitos locais.
“Antes de qualquer definição das localidades, os moradores serão informados com
todo o detalhamento necessário e serão previamente consultados sobre a adesão ao
projeto. Para isso, contamos com uma equipe de engajamento comunitário, que está
focada neste aspecto”, Luciano observa. “Havendo a aprovação das autoridades
regulatórias e com o consentimento dos moradores das potenciais localidades, o
planejamento é de que tenhamos os primeiros testes de campo com soltura dos
mosquitos em maio de 2014, em época fora do pico de casos”, informa Luciano, que
coordena uma equipe multidisciplinar de entomologistas, pesquisadores de campo e
profissionais dedicados ao engajamento comunitário.
Após a soltura, a viabilidade do projeto será avaliada e as localidades serão
monitoradas por vários meses para verificar se os mosquitos com Wolbachia
conseguiram se estabelecer na natureza. Em fases posteriores, o impacto sobre a
incidência de dengue será avaliado.
O especialista reforça que o
projeto estuda uma nova
alternativa para o controle da
dengue, a ser utilizada no futuro
como medida complementar de
controle. Neste momento, a
orientação para a população é de
não descuidar da eliminação dos
criadouros
preferenciais
do
mosquito transmissor. “O projeto
é uma iniciativa no âmbito
científico, mas é de fato uma
oportunidade de mudarmos o
cenário da dengue no país. Inclusive, a estratégia de uso da Wolbachia seria
plenamente compatível com a adoção de uma vacina, uma vez desenvolvida”, Luciano
destaca.
Projeto colaborativo
Para o secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, Jarbas Barbosa, o uso
da Wolbachia para o controle da dengue pode se constituir em uma estratégia
promissora. “A Secretaria de Vigilância em Saúde vem apoiando diversas iniciativas
que têm como objetivo aprimorar o controle da dengue no país. Entendo que o
desenvolvimento de novas estratégias, como a Wolbachia e as vacinas, aliadas às
atuais estratégias disponíveis, tornarão a prevenção e o controle da dengue mais
efetivos”, ressalta o secretário.
“A participação do Brasil mostra que nossa pesquisa está em um estágio avançado da
inovação junto a parceiros internacionais, e o Ministério da Saúde, comprometido com
a viabilização de tecnologias de ponta propostas por seus cientistas, priorizando e
subordinando as tecnologias apoiadas às prioridades do SUS”, afirma Carlos Gadelha,
secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos (SCTIE) do Ministério da
Saúde.
Para o presidente da Fiocruz, Paulo Gadelha, a proposta coloca o país na fronteira do
conhecimento sobre a doença. “Atualmente, não existem medicamentos específicos
ou vacina disponível no mercado para a dengue. Com este projeto, assumimos papel
central em uma abordagem inovadora de enfrentamento a um dos mais relevantes
problemas de saúde pública do Brasil", opina.
A abordagem colaborativa é destacada pelo pesquisador Scott O'Neill, líder de
pesquisa do programa internacional ‘Eliminate Dengue: Our Challenge’. “Após anos de
trabalho em laboratório e dois anos de experimentos em campo na Austrália, é
estimulante trabalhar em parceria com a Fiocruz. Esperamos, no futuro, contribuir
para alcançar um impacto real na redução de transmissão da dengue no Brasil”,
ressalta.
Assessoria de Imprensa
Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz)
+ 55 21 2561-4830 / 21 2562-1500 / 21 9186-7582 / 21 9406-9720
[email protected]
www.ioc.fiocruz.br
Download

Parceria traz para o Brasil iniciativa