ARTIGO ORIGINAL Instrumentos gerenciais para tornar eficiente o financiamento dos Hospitais de Ensino OLÍMPIO J. NOGUEIRA V. BITTAR1 RESUMO ABSTRACT Os 156 hospitais de ensino representam apenas 2,4% dos 6.504 hospitais do País, cuja importância é destacada pela responsabilidade na formação dos profissionais da área de saúde. O estudo das melhores formas de gestão dos recursos financeiros é imprescindível para se obter eficiência destas unidades. O objetivo é apresentar instrumentos de gestão ao poder público e aos hospitais de ensino para que melhorem a eficiência do financiamento de programas e serviços. As formas jurídicas e os problemas relacionados à gestão dificultam o financiamento destas unidades. São sugeridos instrumentos para as partes, os quais são baseados na mudança da legislação, na postura dos administradores e dos profissionais de saúde para que possam atingir melhores níveis de utilização dos recursos, efetiva gestão do sistema de informações, da regionalização, da padronização dos recursos humanos e materiais, e da inclusão de programas e serviços que variam de novas formas de atendimento à coibição do desperdício. Todos eles são possíveis desde que haja a colaboração do executivo, do legislativo, do judiciário e da sociedade em geral, partindo-se para uma visão global da situação, uma atuação regional dos programas e serviços e uma gestão focal no nível terciário de atenção. Management tools for mor e ef ficient financing of more efficient teaching hospitals Palavras-chave – Financiamento de saúde. Hospitais universitários. Hospitais públicos. Teaching hospitals represent only 2.4% of the 6,504 hospitals in Brazil, however their importance stands out as they are responsible for the education of healthcare professionals. The study of financial resources management is indispensable for greater efficiency of those units. The purpose of this study is to present management tools to the government and to teaching hospitals so that they can gain efficiency in the financing of programs and services efficiently. Legal aspects and problems related to management add to the difficulties to finance such hospitals. A suggestion is presented of tools based on legislation changes, on a new posture on the part of managers and healthcare professionals in order to achieve better levels of resource utilization, effective IT management, regionalization, bring standards to human and non-human resources, and include new programs and services ranging from new forms of healthcare to waste prevention. The suggestions are possible, if they depend on the cooperation of the executive, legislative, and judiciary power, and of society as a whole, starting with an overall view of the current situation, regional programs and services, and with focus on tertiary healthcare. Key wor ds – Health financing. University hospitals. Pubwords lic hospitals. 1. Médico especialista em administração de serviços de saúde e políticas de saúde. Professor Doutor com Livre-docência em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública – USP. Endereço para correspondência: Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, Av. Dr. Dante Pazzanese, 500 – 04012-180 – São Paulo, SP. E-mail: [email protected] RAS _ Vol. 5, Nº 17 – Out-Dez, 2002 9 INTRODUÇÃO O financiamento dos hospitais de ensino é um processo importante para a saúde pública de qualquer país, pois está sob sua responsabilidade a formação dos profissionais de saúde que atuarão na rede básica e nos hospitais públicos e privados. Por Hospitais de Ensino (HE)(16) entende-se Hospital Universitário de propriedade ou gestão de universidade pública ou privada, ou a elas vinculado por regime de comodato ou cessão de uso, devidamente formalizados; Hospital-Escola, de propriedade ou gestão das escolas médicas isoladas públicas ou privadas, ou a elas vinculadas por regime de comodato ou cessão de uso devidamente formalizados; Hospital Auxiliar de Ensino, aquele que não sendo de propriedade ou gestão de universidade ou escola médica isolada, que desenvolvem programas de treinamento em serviço, de curso de graduação ou pós-graduação na área de saúde, devidamente conveniado com uma instituição de ensino superior, conforme classificação adotada pelo MEC. Os recursos públicos para a área da saúde são disputados dentro da própria área e de outras, como saneamento do meio ambiente, educação, agricultura, indústria, além daqueles destinados ao pagamento de dívidas públicas, internas e externas. Os HE são representados por 156 unidades, distribuídas pelos 26 Estados e Distrito Federal, respondendo pela graduação e pós-graduação dos profissionais de saúde (Tabela 1). A importância destas unidades pode ser visualizada na Tabela 2, que apresenta números dos hospitais 10 em valores absolutos e percentuais, do mês de março de 2001. Um pequeno número de HE possui 9,5% dos leitos instalados no País, representando 13% das internações, que significam 22% do total repassado pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Além desses números, aproximadamente 10.000 médicos e inúmeros outros profissionais de saúde são formados anualmente e boa parte da pesquisa tecnológica na área tem nesses hospitais o seu apoio. O objetivo é apresentar instrumentos de gestão a serem implementados ou melhor utilizados pelo poder público e pelos HE visando a eficiência no financiamento de programas e serviços assistenciais, de ensino e de pesquisa, que permita maior qualidade, alta produtividade e menores custos. SITUAÇÃO ATUAL Os HE, de acordo com a forma jurídica, podem ser públicos ou privados. No caso dos públicos, podem Tabela 1 – Distribuição dos Hospitais Universitários e Ensino pelos Estados Brasileiros – janeiro 2002 Estado Nº hospitais Estado Nº hospitais Acre Alagoas Amapá Amazonas Bahia Ceará Distrito Federal Espirito Santo Goiás Maranhão Mato Grosso Mato Grosso Sul Minas Gerais Pará – 1 – 2 12 9 6 3 1 1 1 2 16 2 Paraíba Paraná Pernambuco Piauí Rio de Janeiro Rio Grande do Norte Rio Grande do Sul Rondônia Roraima Santa Catarina São Paulo Sergipe Tocantins – 2 8 8 5 13 3 22 – 1 10 26 2 – – Fonte: Associação Brasileira de Hospitais Universitários e de Ensino (ABRAHUE). Tabela 2 – Números sobre os Hospitais Universitários e de Ensino (março de 2001) – 156 hospitais = 2,4% dos 6.504 hospitais brasileiros – 46.512 leitos = 9,5% dos 487.705 do total de leitos – 133.344 AIHs* pagas = 12,9% das 1.031.647 AIHs (22% do total pago em Reais pelo SUS) – 130.648 internações = 13,2% das 988.976 internações – AIH média = R$ 687,61 = 130,2% maior do que a média de R$ 298,74 – Média de permanência = 7,4 dias = 21,3% maior do que a média de 6,1 dias – Mortalidade = 4,77 = 79,3 maior do que a média 2,66 Fonte: Associação Brasileira de Hospitais Universitários e de Ensino (ABRAHUE). * Autorização de Internação Hospitalar. RAS _ Vol. 5, Nº 17 – Out-Dez, 2002 pertencer à administração direta dos governos federal, estaduais ou municipais ou à administração indireta desses governos, estando vinculados a uma fundação de direito público, autarquia ou empresa pública, que são estruturas paralelas à estrutura estatal. Quando privados, são entidades sem fins lucrativos, filantrópicos, como por exemplo as Santas Casas de Misericórdia e as fundações de apoio, de direito privado, sem fins lucrativos, que dão suporte a hospitais públicos de ensino, que, embora sujeitas a todos os tipos de controles do poder público, vêm sendo a solução para a agilização de processos e sobrevivência desses hospitais. Entretanto, essa autonomia muitas vezes não representa boa administração, já que existe no País, como um todo, uma carência da profissionalização da administração hospitalar. O grau de autonomia conferido aos hospitais públicos da administração direta é extremamente limitado, fazendo com que a admissão, administração e demissão de pessoal seja um processo penoso, lento, com dificuldades na seleção e manutenção de bons profissionais; processos de compras são morosos, pouca agilidade nos pagamentos levando a um encarecimento do processo e do produto. O financiamento dos HE é realizado através de múltiplas fontes, dependendo de onde está enquadrado o hospital quanto à sua forma jurídica. Os HE públicos se mantêm com recursos dos orçamentos público federal, estadual ou municipal, acrescidos de recursos de transferências públicas conveniais (custeio ou investimento de reformas, ampliações, compra de equipamentos RAS _ Vol. 5, Nº 17 – Out-Dez, 2002 e outros) e o pagamento de sua produção, feitos com recursos do SUS e ainda recursos provenientes de fontes privadas, como aqueles resultantes de serviços prestados pelo atendimento de pacientes cobertos pela medicina de grupo, cooperativa médica, seguro saúde, autogestão e, em alguns raríssimos casos, de pacientes particulares. O grau de autonomia conferido aos hospitais públicos da administração direta é extremamente limitado Os privados sem fins lucrativos se mantém com recursos de suas mantenedoras, com os de prestação de serviços ao SUS, ou de outras fontes. O pagamento por produção ao SUS segue uma tabela de remuneração por procedimentos que, no que diz respeito à internação, pode ser acrescida de até 75% do valor, mediante critério denominado de FIDEPS (fator de incentivo ao desenvolvimento do ensino e pesquisa em saúde). Desse modo configura-se que o grande financiador dos HE são os governos federal, estaduais e municipais, os quais alocam recursos em seus orçamentos para esses hospitais e/ou fazem pagamentos por produção ou convênios específicos para custeio ou investimentos. As fontes de financiamento público federal são oriundas de percentual da Seguridade Social como recursos de origem fiscal (impostos) e de contribuições sociais (sobre a folha de pessoal, sobre o lucro, sobre o faturamento e mais recentemente sobre a movimentação financeira). As discussões sobre financiamento giram a cada ano em torno das propostas orçamentárias e suas emendas. Além disso, existe possibilidade de emendas à Constituição Federal(3), o que é feito via Projeto de Emenda à Constituição, sendo a mais recente delas aprovada em 2000, a EC 29, que comprometeu recursos da União, Estados e Municípios para os anos de 2000 a 2004. Estas questões do financiamento, valores, emendas ao orçamento, legislação, entre outros aspectos, são bastante debatidas por Jaeger e Carvalho(10), Mendes e Marques(12) e Piola et al.(15). Recentemente, Carvalho(7) elaborou tese sobre o assunto, em que apresenta diagnóstico da situação e retrata com fidedignidade e riqueza de detalhes o que a legislação prescreve e a real situação do financiamento na área da saúde, no período de 1988 a 2001. Somada às difíceis negociações no Congresso, sobre o financiamento, podemos destacar outras dificuldades por que passam estes HE, como: 1) tabela de pagamentos por procedimentos defasada em seus valores; 2) preços crescentes de materiais médico-hospitalares, incluindo-se órteses e próteses, na sua maioria importados, sem a devida correção de valores; 3) materiais e medicamentos necessários, cientificamente aceitos e ainda não inclusos na rotina de pagamento; 11 4) estabelecimento de tetos financeiros rígidos, como limite de produção, sem limite de clientela (supressão da demanda) mas com limite de pagamento dos serviços prestados; e 5) prática de glosa de pagamentos de serviços realmente prestados. Não menos importante, mas não objeto desta análise, é o fato dos compradores privados de serviços médico-hospitalares adotarem práticas semelhantes às do SUS, quanto à defasagem de valores dos procedimentos e prazos de pagamentos. Na luta pelos recursos, existe ainda a competição com outros hospitais públicos e privados e mesmo com outras áreas ligadas ou não à saúde, implicando a garantia do direito à vida e à saúde, compromisso que não é só público. O resultado é que o recurso disponível é insuficiente para as necessidades de custeio e novos investimentos nestes hospitais, bem como para o ensino e pesquisa, o que é evidenciado em documentos desenvolvidos por entidades representativas deste segmento, como a Associação Brasileira de Hospitais Universitários e de Ensino, Confederação das Misericórdias do Brasil, e outras entidades, como a Federação Brasileira de Hospitais, entidades estaduais, sindicatos das corporações e também da mídia. Uma nova realidade deverá ser construída, baseada também na utilização de instrumentos de gestão, pelos financiadores e financiados, fixando bases para uma expansão do atendimento à comunidade, bem como para o ensino e a pesquisa. Isso só será possível com uma ad12 ministração profissional, um dimensionamento das ações, de acordo com as reais necessidades regionais e locais, a inexistência de desperdício de recursos e com a manutenção de recursos humanos motivados, intelectualmente preparados e com a formação de profissionais engajados em novos conhecimentos técnicos e administrativos. PROPOSTA PARA FINANCIADORES & FINANCIADOS Visando a dar o melhor valor para cada real financiado, por meio de um atendimento de qualidade, com maior produtividade e menor custo, a um maior número de clientes/pacientes e a formar profissionais de saúde com visão para a realização de atos e atitudes voltados à racionalização do uso dos recursos, propomos os seguintes instrumentos: I. Relativos ao poder público 1. Buscar recursos financeiros É de fato responsabilidade do poder público, assim como é também dele a responsabilidade de controlar o gasto destes recursos, o que já vem sendo feito inclusive com a Lei de Responsabilidade Fiscal e outros instrumentos legais. Mas, a liberdade ao financiado de procurar novas fontes de recursos deve ser uma preocupação do financiador, já que será impossível a ele financiar todas as necessidades da comunidade, e para isto deve existir a flexibilização da legislação, como é o caso da aprovação de um percentual de leitos para pacientes privados (projeto de lei do Senador Lúcio Alcântara que destina 25% dos leitos para pacientes privados). Deve- se estender esta ação ao atendimento ambulatorial e complementar de diagnóstico e terapêutica. Ressalte-se que existe controvérsia entre os técnicos sobre a destinação de leitos ou serviços em hospitais públicos para pacientes particulares. A pesquisa também deve ser financiada, não só por entidades públicas como pela captação de recursos junto a entidades privadas, compradoras de pesquisa. 2. Sistema de informações regionais e locais Aprimoramento, aprofundamento e difusão do sistema de informações públicas que contemple as informações demográficas, geográficas, epidemiológicas, econômicas, socioculturais, educacionais, número e localização de unidades de saúde, sua resolubilidade incluindo produção/produtividade, qualidade, custos, impacto e que permitam o estabelecimento de parâmetros que facilitem o trabalho com metas. Estas informações deverão incluir séries históricas e principalmente sua divulgação em níveis nacional, regional e local. Um sistema de informações, que seja baseado no geoprocessamento de dados, com todas as variáveis acima, poderá atuar na montagem de programas e serviços de promoção da saúde e prevenção da doença, que certamente importarão na melhoria da qualidade de vida das comunidades. A regulação do sistema só se faz com um sistema de informações adequado. 3. Financiamento de programas de qualidade Ultimamente a questão do financiamento, vista do ângulo tratado RAS _ Vol. 5, Nº 17 – Out-Dez, 2002 neste artigo, foi pouco discutida, existindo um sucateamento em andamento nas unidades de saúde, ficando as mesmas impossibilitadas de investimentos e, conseqüentemente, da renovação do material permanente utilizado para desenvolvimento dos seus programas e serviços. Muitos destes equipamentos são aparelhos que necessitam de calibração para o seu trabalho, atualização, manutenção preditiva, preventiva e corretiva, o que só se faz com recursos. Além disso, grande parte das áreas físicas destas unidades encontram-se defasadas das normas vigentes em relação à construção (portaria 1884/94)(5). Estes fatos impossibilitam as unidades de se habilitarem ao nível 1 do Manual de Acreditação Hospitalar da Organização Nacional de Acreditação(11), o que é inaceitável para entidades de atendimento e formadoras de recursos humanos para a saúde. O investimento inicial em programas de qualidade pode ser alto, mas a longo prazo terá repercussões no atendimento, na qualidade e na quantidade, evitando-se atos inseguros ou desnecessários ou mesmo acidentes que oneram os financiadores e prestadores de serviços. 4. Novos métodos de auditoria A auditoria é um processo salutar, indispensável para validação dos atos de instituições, públicas ou privadas, principalmente num regime democrático, porém, deve-se dedicar mais à educação para prevenção das glosas e revisão ágil de casos excepcionais do que para a punição. Novas formas de auditoria, do relacionamento entre auditor e auditado devem ser trabalhadas, fazendo da auditoria um processo de neRAS _ Vol. 5, Nº 17 – Out-Dez, 2002 gociação, onde todos possam ganhar. Neste processo, insere-se a discussão ampla da atualização de valores e inclusão de novos procedimentos, o que deve ser realizado de maneira ágil. Há que se resolver o impasse das glosas por superação do teto financeiro, possivelmente avançando-se na regionalização onde o conhecimento prévio da clientela possibilitará a fixação do mesmo. 5. Contratos de gestão Deve-se buscar um novo relacionamento comprador-prestador que não seja o simples pagamento por produção. Sugere-se a prática hoje inovadora que são os contratos de gestão. O trabalho com indicadores qualitativos e quantitativos para assistência, para o ensino e pesquisa, a criação de parâmetros e conseqüentemente o estabelecimento de metas, além de indicadores de imagem com os clientes internos e externos, desenvolvimento dos recursos humanos técnicos e administrativos, a previsão de economia de escala permitirão a elaboração de contratos de gestão que darão maior controle, tanto para financiadores como para financiados, na decisão da aplicação dos recursos. É a busca de resultados, ou como vem sendo chamada de cidadania de resultados, o que poderá ser avaliado, também, pelo Tribunal de Contas e por auditorias independentes. O contrato de gestão somente será efetivo se existir autonomia, o que representa uma forma de dar responsabilidade aos dirigentes destas unidades. A utilização de indicadores é fundamental para os contratos, podendo-se utilizar dos mesmos para a estrutura, processos e resultados, como mostra Bittar(2). 6. Diferenciação de hospitais por nível de atenção Os HE necessitam de uma diferenciação do valor repassado pelos procedimentos realizados, em virtude dos custos maiores frente ao ensino e pesquisas desenvolvidos, que inevitavelmente são maiores em função de maiores gastos com médias de permanência maiores, maior quantidade de exames complementares e técnicas mais complexas para o nível terciário de atendimento. Isso já vem acontecendo com o Fator de Incentivo ao Desenvolvimento de Ensino e Pesquisa (FIDEPS), embora o mesmo venha perdendo valor devido a seu congelamento a partir de janeiro de 2000. Além dos contratos de gestão, a discussão de novas formas de compra de serviços e de pagamento segundo o nível de complexidade deve ser um fator de inovação no relacionamento com estes hospitais, formas estas que possam ser repassadas para outros níveis de relacionamento, após testadas. O contrato de gestão somente será efetivo se existir autonomia, o que representa uma forma de dar responsabilidade aos dirigentes destas unidades 13 7. Regionalização A Norma Operacional de Assistência à Saúde (NOAS 2002)(6), com seu objetivo maior de buscar a eqüidade, melhorando o acesso e integralidade das ações com hierarquização e regionalização, trata com bastante cuidado, entre outros aspectos, a questão da referência e contra-referência, que é um fator fundamental para o bom sucesso do atendimento às comunidades. Os HE cooperam com a regionalização formando profissionais e os distribuem para as diferentes regiões, restando ao governo dar condições e estimular a fixação deles nestas regiões. Na questão do financiamento, isso passa a ser fundamental, à medida em que os casos são resolvidos local ou regionalmente, evitando-se gastos extra-saúde para resolução dos mesmos. É mais fácil legislar e executar ações sobre as condições sanitárias em nível regional do que nacional. 8. Investimento na rede básica e nos hospitais secundários O aumento da resolubilidade da rede básica e dos hospitais secundários, principalmente públicos, o que não significa exclusão dos privados não lucrativos e lucrativos, é fator preponderante no processo de regionalização. Os clientes/pacientes têm uma tendência a procurar os hospitais terciários, pela maior oportunidade de solução de seus problemas nestas unidades, congestionando as emergências e prontos atendimentos dos mesmos, deslocando-se, na maioria das vezes, para locais distantes quando poderiam obter atendimento próximo à sua residência. O investimento a ser feito é em qualidade e quantidade de 14 recursos humanos, materiais e no desenvolvimento de uma cultura organizacional para o trabalho em módulos de saúde. Um outro aspecto levantado por Schramm(16) é que o sistema com muitos provedores, trabalhando mais ou menos independentemente, com pouco mecanismo formal de coordenação da provisão de cuidados de saúde, é ineficiente. 9. Revisão da legislação É necessário se fazer uma atualização da legislação referente aos HE públicos estatais. Algumas palavras podem definir a situação dos hospitais face à legislação atual: falta de autonomia, de flexibilização e de negociação. Há necessidade de se lutar por novas normas jurídicas de regulamentação dos hospitais, que permitam novas formas de gestão e de avaliação por metas a partir da demanda. Esta nova regulamentação atuaria basicamente em duas frentes: recursos humanos e materiais, que deverão ser resolvidas com a participação efetiva das unidades hospitalares. Hoje, começando pela Constituição Federal(3) (artigo 37 inciso 2), torna-se impossível terceirizar grupos profissionais, no caso médicos, que atuam em atividades-fins. Uma nova legislação permitiria outras formas de gestão dos hospitais, diminuindo gastos administrativos que proporcionariam um melhor aporte aos programas e serviços. A legislação, referente aos HE públicos estatais, da maneira como está, também não permite o estabelecimento de uma política de recursos humanos adequada à realidade e às necessidades. O recrutamento de pessoal para estes HE estatais, por meio de seleção via concurso público é um processo demorado, que demanda longo tempo para a admissão do servidor, criando dificuldades para o pronto atendimento, bem como para uma boa prestação de serviços à comunidade. A administração de pessoal, incluindo-se o seu dimensionamento, é amarrada, lenta, trazendo descontentamentos. Cargos, salários e benefícios são rigidamente colocados de cima para baixo, impedindo estímulos que permitam a fixação do profissional por um período de tempo maior na instituição e o seu comprometimento com a mesma. Treinamento e desenvolvimento nos seus aspectos comportamental, administrativo e técnico, são barrados pela falta de recursos ou pela falta de autonomia para o gerenciamento dos poucos recursos existentes. O investimento na carreira acadêmica, com profissionais que possam ter dedicação integral, e remuneração adequada, será fundamental para formação de pessoal com melhor visão das questões epidemiológicas, sociais, econômicas e culturais da comunidade. Neste aspecto da formação, os administradores de hospitais universitários merecem uma atenção especial, já que a complexidade assim o exige. A avaliação periódica dos profissionais, utilizando-se de técnicas atuais e a participação nos resultados, poderiam servir de estímulo para o crescimento profissional e um maior retorno produtivo e financeiro às unidades. RAS _ Vol. 5, Nº 17 – Out-Dez, 2002 Com relação aos recursos materiais, existe a necessidade de autonomia, que permita a flexibilização de regras rígidas e possibilitem negociações. A Lei 8666/93(4), que estabelece as regras para compras de bens, serviços e contratação de obras, é rígida, está baseada em prazos longos, além de permitir que empresas entrem com inúmeros recursos, dificultando a aquisição, o que leva à interrupção de programas e serviços com prejuízos aos pacientes e profissionais. A utilização de regulamentos e regimentos internos é uma saída da qual se têm valido as diferentes organizações não governamentais para a aquisição de recursos materiais. Os estudos sobre padronização e utilização de registro de preços devem ser uma constante para facilitar a vida dos administradores de HE. A incorporação de tecnologia deve vir acompanhada de mecanismos de controle. 10. Influência sobre o mercado O número de escolas médicas, o número de médicos formados anualmente, em torno de 10.000, a escassa formação de generalistas, trazem implicações financeiras imediatas e a longo prazo. Petersdorf(14) já alertava sobre “a pouca disponibilidade de médicos para atenção primária (médicos de família, clínicos gerais e pediatras gerais) que deveriam prover cuidados a preços mais baixos para os cidadãos, do que especialistas e subespecialistas”. É essencial a indução da formação de médicos generalistas e o compromisso negociado, de contratação destes profissionais, entre o grande contratador de serviços, o Estado, e o aparelho formador, em que um dos representantes são os HE. 11. Revisão dos tetos físico e financeiro A fixação de tetos físico e financeiro (número máximo de procedimentos e valor máximo da fatura SIA/ SIH/SUS) para os HE tem trazido uma redução nos repasses do SUS, bem como um aumento no endividamento dos hospitais, já que de qualquer forma o atendimento ao paciente tem que ser realizado. Um sistema de informações adequado, isto é, que cubra todo o leque de informações declinadas anteriormente, em termos regionais, tornará o sistema mais justo à medida que estes hospitais passem a atender no nível de complexidade que a eles é reservado, evitando-se casos que deverão ser retidos na rede básica e nos hospitais públicos e privados de nível secundário. 12. Regulação com participação da sociedade A incorporação de tecnologia deve vir acompanhada de mecanismos de controle RAS _ Vol. 5, Nº 17 – Out-Dez, 2002 A constituição de Conselhos de Saúde em cada esfera de governo foi o grande salto nestes últimos anos. Estes conselhos têm uma função essencial na formatação da política de saúde (regulação e plano) e no controle do executado, inclusive do econômico e do financeiro. Acon- tece que nem todos os conselheiros indicados têm conhecimento, poder político, ou mesmo interesse em participar ativamente dos mesmos, dando opiniões e sugestões para a melhoria do sistema. É necessário que pessoas com conhecimento e interesse em participar, e também de entender as informações emanadas dos níveis regional e local, façam parte dos mesmos, colaborando, fiscalizando para a melhoria da qualidade da atenção. II. Relativo aos hospitais 1. Recursos humanos Repetir aqui a questão dos recursos humanos serve para dar a ênfase que a questão merece. A adequação e preparo dos mesmos é uma responsabilidade dos HE. O treinamento comportamental, técnico e administrativo deve ser prioridade de cada unidade. Movimentos atuais como Universidades Corporativas, a Organização que Aprende, devem ser incentivados criando-se clima organizacional propício ao desenvolvimento de pessoas, de maneira constante e ágil, acompanhando-se o desenvolvimento tecnológico, inerente a este tipo de organização. O correto dimensionamento de funcionários/leitos e camas, a relação produção/funcionários das áreas são bons indicadores para medir a produtividade institucional, além da inclusão de indicadores de produção em pesquisa e ensino. Novamente, há que se valer de um sistema de informação que possa trazer parâmetros gerenciais. 2. Sistema de informações (interno/ externo) O desenho do sistema de informações que possibilite cruzar as in15 formações internas com as externas, providas pelo nível regional, será imprescindível para um trabalho com indicadores, permitindo utilização de técnicas como o “benchmarking” e o marcador balanceado (balanced scorecard), muito embora, como já previam Friedman e Shortell(9), estudos nestes tipos de instituições sejam difíceis, em face da diversidade de casos e procedimentos atendidos, estruturas organizacionais diferentes, influências regionais e locais distintos. O outro aspecto do banco de dados é a catalogação das pesquisas em andamento, que, divulgada, permitirá o conhecimento do que se faz, aproveitar oportunidades, ganhar tempo e recursos na troca de experiências já testadas. 3. Contabilidade de custos A elaboração do orçamento, a decisão do preço só podem ser baseadas no custo. Baptist(1) descreve quatro razões para trabalhar com contabilidade de custos, que são: a) desenvolver dados acurados para serviços individuais que estarão disponíveis para desenvolvimento dos preços; b) prover a administração com informação necessária para modificar preços de procedimentos, quando apropriado; c) alimentar o custo por procedimento na cesta de produtos do sistema, para obter maior precisão nos custos e lucro por paciente, diagnóstico, linha de produto, por médico ou fonte pagadora, e d) prover os diretores com informações necessárias para alcançar grande eficiência e produtividade nas suas áreas/subáreas. A transparência na prestação de contas, o gerenciamento de áreas e subáreas ocorrerão com maior fide16 dignidade com o conhecimento dos custos. 4. Relacionamento com a rede básica e hospitais secundários A formação de parcerias com a rede de hospitais públicos e privados, em todos os níveis de atenção e com entidades afins, levará à correta distribuição do atendimento e possivelmente a alcançar economia de escala. 5. Captação de recursos financeiros para pesquisa Fontes alternativas de recursos objetivando não sobrecarregar o custo assistencial com os gastos gerados pela pesquisa e o ensino deve fazer parte do dia-a-dia da unidade e do exercício da administração. 6. Gerenciamento de materiais Novos controles de materiais e insumos, novas formas de comprar (incluindo-se o uso da internet) e estocar deverão fazer parte do gerenciamento de materiais, partindose para a padronização, novas técnicas de logística como o “just in time”, evitando-se desperdícios e perdas financeiras com manutenção de estoques desnecessários ou a sua falta. 7. Novos programas e serviços A introdução de programas de assistência domiciliar, utilização do ambulatório também para cirurgias e outros procedimentos de média complexidade, visando rodar mais rapidamente os leitos e a necessidade de uma menor quantidade destes levará a uma contenção de despesas e possibilitará a educação dos profissionais de saúde que poderão utilizar-se destas alternativas nas regiões onde futuramente exercerão sua profissão. O que acontece atualmente é que o ambulatório não é utilizado como deveria ser, bastando-se comparar a lista de procedimentos passíveis de serem realizados, disponíveis na literatura, e aqueles que os dirigentes hospitalares catalogam como procedimentos de média complexidade realizadas ambulatorialmente. Ênfase deve ser dada a um programa que permita conscientizar os profissionais e estudantes na coibição do desperdício de exames complementares. Estudo de exames complementares poderão levar a surpresas de encontrar entre 50% a 95% de exames negativos, muitos dos quais não deveriam ser solicitados. Ainda, em relação a este item, a utilização de “kits” de laboratório, equipamentos e outros insumos para pesquisa, com recursos da assistência e que após o término serão desprezados é uma constante na área. Schramm(16) enfatiza o desenvolvimento de protocolos clínicos e cirúrgicos, para obter eficiência. Neste contexto, é importante ler o artigo de Costa et al.(8) sobre as mudanças ocorridas no Reino Unido. Na área de recursos materiais, as padronizações de materiais de consumo e de medicamentos, além de atentarem para a normalização de procedimentos operacionais nas áreas administrativas, certamente levarão à economia, redução do desperdício e melhor aproveitamento de materiais e tempo dos funcionários. Investimento em tecnologia administrativa deverá ser a base de programas na infra-estrutura, já que esta área concentra algo em torno RAS _ Vol. 5, Nº 17 – Out-Dez, 2002 de 50% dos funcionários de um hospital, justamente aqueles que não têm contato direto com os pacientes. Embora o foco da atenção dos hospitais terciários deva ser concentrado no atendimento em nível terciário, programas de atenção primária, como aspectos voltados à promoção da saúde e prevenção da doença deverão ser trabalhados. Neste caso, a associação com a rede básica e mesmo com organizações não governamentais deverão ser apoiados. Economia de gases medicinais, energia elétrica, água/esgoto, telefone, deverá ser motivo de programas estruturados, acompanhados pelas informações advindas de órgãos regionais, permitindo um “benchmarking”. Programas visando a vigilância sobre reações adversas de sangue, medicamentos, materiais, alimentos e resíduos líquidos e sólidos, necessitarão ser ativados e servir de modelo para a comunidade. Quanto aos problemas relativos aos resíduos e outras formas de poluição do meio ambiente, deverão ser divulgados para a comunidade, como mais uma forma de educação e proteção da mesma. A residência médica deverá ser estabelecida com limites decisórios regulados no processo assistencial, evitando-se procedimentos fora de protocolos. Programas de qualidade e acreditação não devem ser considerados como a panacéia para todos os males da administração dos HE, mas como forma de manter a equipe unida em torno das metas e métodos. RAS _ Vol. 5, Nº 17 – Out-Dez, 2002 8. Novas estruturas organizacionais e novas formas de administração Como nos mostra Mintzberg(13), organizações do tipo hospitalar são organizações complexas com poder emanando da base, isto é, médicos, enfermeiros, biomédicos, entre outros profissionais, são responsáveis pela decisão sobre o que comprar tanto em termos de equipamentos como de materiais de consumo, medicamentos e outros insumos necessários aos cuidados. Isso se torna uma verdadeira torre de Babel, à medida que profissionais formados em diferentes faculdades assimilam a cultura desses locais, utilizando diferentes insumos e procedimentos para situações semelhantes. Gerenciamento de leitos e pacientes, gerenciamento de filas, redesenho dos fluxos internos e externos devem fazer parte desta nova administração. Essa complexidade, entre outras dificuldades inerentes ao tipo de tra- É necessário um conselho que enxergue o HE de fora para dentro, que possa opinar politicamente, tecnicamente e administrativamente balho desenvolvido, traz a necessidade de uma administração própria, diferente do tradicional existente para outros tipos de instituições de serviços, mais moderna, empresarial, aliada a pessoal diferenciado na sua formação. Um outro componente da administração é o Conselho de Administração ou Consultivo, que necessita ser revisado. Hoje, os conselhos são voltados para dentro destas instituições. O que é necessário é um conselho que enxergue o HE de fora para dentro, que possa opinar politicamente, tecnicamente e administrativamente, que seja constituído de cidadãos que conheçam saúde e gestão empresarial, que representem politicamente a comunidade. CONSIDERAÇÕES FINAIS Existe a necessidade de melhorar o rendimento dos HE, tanto no que diz respeito à sua produção e qualidade do atendimento como também aos seus custos. O financiamento é uma das chaves para a obtenção dessa melhora, porém, uma série de instrumentos gerenciais deve ser utilizada para que não somente o recebimento de recursos seja agilizado, facilitado e de boa monta, como a saída, o gasto destes recursos sejam flexibilizados, propiciando facilidades mas ao mesmo tempo controle de como são realizadas as operações. A legislação atual é um grande entrave para a viabilidade destas unidades, já que as suas mudanças são lentas e a dinâmica do mercado é rápida, deixando nesta defasagem uma perda financeira e motivacional das equipes responsáveis pelos cuidados. 17 Para que tal aconteça, inovação, criatividade técnica e administrativa, investimento em atendimento humanizado merecem ser enfocados. O caminho é o início de uma discussão entre os poderes executivo, legislativo, judiciário e a sociedade, sobre financiamento e administração dos HE, ancorado em uma visão global, com atuação regional e gestão focal, voltada para situações e soluções de nível terciário, que permitam a racionalização dos recursos em programas e serviços hospitalares, considerando-se assistência, ensino e pesquisa. REFERÊNCIAS 1. Baptist AJ. A general approach to costing procedures in ancillary departments. General approach to costing procedures 1987; 13(4): 32-47. 2. Bittar OJNV. Indicadores de qualidade e quantidade em saúde. Rev Adm Saúde 2001; 3 (12): 21-28. 3. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil 1988: IMESP, 1988. 4. BRASIL. Licitações e contratos. Lei no 8.666 de 8 de junho de 1994. 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Associação Brasileira de Economia da Saúde. Anais. 5. Encontro Nacional de Economia da Saúde. Salvador 28 e 29 de novembro de 1999. p. 199-212. 16. Portaria MEC nº 375 de 04/03/1991 – “Estabelece conceituação de hospitais de ensino no País”. 17. Schramm CJ. Health care financing for all Americans. JAMA 1991; 265:(24): 3296-9. Conflito de interesse: nenhum declarado. Fontes de fomento: Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia Data de recebimento do artigo: 6/9/2002. Data da aprovação: 28/11/2002. 18 RAS _ Vol. 5, Nº 17 – Out-Dez, 2002