RELAÇÕES DE PODER E MAGIA NA OBRA METAMORFOSES DE LÚCIO APULEIO Rodrigo Santos Monteiro Oliveira [email protected] RESUMO Neste trabalho mostraremos a partir da obra Metamorfoses, de Lúcio Apuleio, a ação de agentes sociais conhecedores das práticas mágicas e a afirmação do poder destas personagens perante as demais. O poder neste caso é obtido através da manipulação por meio do medo e da curiosidade. Isto será observado através da narrativa apuleiana, que descreve ações de tais personagens, indicando que o poder não tem seu uso restrito apenas a certos agentes “elitizados”, sendo o conhecimento ferramenta determinante para a detenção do poder no contexto das províncias afro-romanas do século II d.C. As relações sociais existentes em um determinado período histórico possuem diversos modelos e aparatos legitimadores do poder entre os inúmeros agentes participantes destas. Através da obra Metamorfoses, de Lúcio Apuleio, observaremos tais relações de pessoalidade, ou seja, entre indivíduos representantes da sociedade apuleiana e como, inserido nestas, o conhecimento das práticas mágicas é utilizado para designar certo status (superior ou inferior) do indivíduo. A obra Metamorfoses, que também é conhecida pelo nome Asno de Ouro, se caracteriza como uma sátira latina, que possui o estilo confessional em moldes de uma narrativa de viagem. A sátira latina utiliza o modelo idealizante construído pelos gregos no qual são descritas a sabedoria e coragem do herói, e os mitos sagrados, para “contrapor uma representação anti-heróica e caricatural dos tipos sociais e morais próximos do mundo real” (MOTTA, 2006, p.162). A obra de Apuleio mostra de maneira fantástica a confissão da personagem, sua psique, transformando a sátira ficcional em alegoria, ou seja, em uma estrutura artística, que serve como um cenário. Mesmo que o fantástico seja preponderante na narrativa apuleiana, não devemos esquecer que em meio a este cenário montado pelo autor, há realidade em sua retratação de fatos sociais. Essa historieta, embora tenha um perfil fantástico ainda se fundamenta na realidade vivida de Apuleio, pois, assim como ele, seus contemporâneos acreditavam na eficácia da magia. Como bem pontua Bronislaw Backzo: Através destes imaginários sociais, uma coletividade designa sua identidade elaborando uma representação de si; marca a distribuição dos papéis e das posições sociais; expressa e impõe certas crenças comuns, determinando especialmente modelos formadores como o do ‘chefe’ (BACKZO, 1991, p. 28) O homem, através das sátiras latinas, passa a ter grande importância no contexto da narrativa. A transformação do anti-herói e sua regeneração moral, o qual o transforma em herói se torna o clímax destas sátiras. Percebemos isto através dos relatos de Lúcio e toda sua história, desde a transformação em asno até sua redenção, transformando-se em sacerdote da deusa Ísis e do deus Osíris. O real passa a ser representado pelo homem, sendo este, na narrativa, o foco central, a personagem de maior interesse. Seu drama (inferno) se mostra pela alegoria. O fantástico na obra é representado através da magia, que aparece devido o apreço pessoal do autor por essas práticas ocultas, fazendo imprescindível conhecer, mesmo que de maneira breve, sua biografia. Apuleio nasceu entre os anos 114 e 125 d.C. e sua morte varia de 169 a 190. A sua cidade natal foi Madaura, província africana localizada entre a Numídia e a Getúlia (por isso o próprio autor se considera um “semi-númida e semi-getulo” em sua obra Apologia XXIV). Teve formação em música, retórica, gramática, ciências naturais, poesia, geometria e filosofia nas cidades de Cartago, Alexandria e Atenas. O autor madaurense exerceu advocacia em Roma, porém não obteve grande sucesso, por isso, voltou para África, alcançando honras e benesses. Percebemos tal aclamação pela presença de duas estátuas erguidas em Cartago em sua homenagem e pela inscrição descoberta na Argélia, em 1818, relacionada ao escritor: “Ao filósofo platônico, glória de sua cidade, os madaurenses dedicaram essa lápide a expensas do erário público” (Inscriptions Latines de l’Algerie, I, Paris, 1922, p. 2115). A filosofia apuleiana ligava-se ao estudo mágico-religioso pela corrente neoplatônica, filosofia segundo a qual o indivíduo estava associado à divindade do Uno, que incorporava desde as divindades até os elementos naturais. A felicidade não seria apenas obtida por uma pós-vida, mas sim no agora através da vida ascética da filosofia e da devoção. Por isso, Lúcio se interessa tanto pelo mágico, buscando compreender e participar disso. Devido a este interesse, Apuleio foi acusado pelas autoridades provinciais de utilizar a magia para conquistar sua mulher, Pudentília, no esforço de conseguir toda a sua riqueza. Através desta acusação percebemos que a mágica não era algo legalizado (em sua totalidade) no século II d.C. no Império romano. Esse apreço pelas artes mágicas se torna visível no decorrer de toda sua obra. Em Metamorfoses, Lúcio-personagem narra diversas histórias que ocorreram com outros viajantes e com ele próprio, mostrando situações que permeiam o fantástico. Em busca da magia e de seu conhecimento, Lúcio parte em viagem para Hípata, província de Tessália. Esta cidade é destacada na própria obra (Livro II) e por autores contemporâneos (Bruxaria e Magia na Europa Antiga - Grécia e Roma- Luck, Georg), como sendo o berço das artes mágicas: “E considerando que me achava no centro da Tessália, donde por uma voz uníssona de toda a terra são celebrados como originários os encantamentos da arte mágica...” (APULEIO, Livro II) No caminho, encontra Aristômenes que lhe conta uma história de feitiçaria, na qual ele e seu amigo Sócrates se envolvem com duas magas: Méroe e Pância. Aristômenes, com medo, tenta fugir enquanto seu amigo é morto. Seguindo em sua viagem, Lúcio se hospeda na casa do senhor Milão e de sua esposa Panfília, e na mesma cidade, encontra uma mulher chamada Birrena que anuncia ser sua parenta, identificando-se como irmã de sua mãe. Lúcio participa de um banquete organizado por Birrena e escuta a história de Telifrão sobre feiticeiras, as quais utilizavam pedaços de mortos para realizar seus rituais (necromância). Estimulado com a possibilidade de se envolver com a magia, aproxima-se da escrava Fótis, tornando-se seu amante, para conhecer a feitiçaria praticada por Panfília. Por uma confusão da escrava, Lúcio se transforma em asno: Fótis entrega o ungüento errado e o transforma em besta ao invés de uma ave, assim como Panfília se metamorfoseou. Assim o personagem-asno passa por inúmeras desventuras e maus tratos, culpando a Fortuna por todos os acontecimentos. Esta divindade, identificada a partir da Tykhē grega. De grande importância na religião romana clássica, a Fortuna é representada com o corno da abundância escrito “porque é ela quem pilota a vida dos homens” quase que sempre cega. Com o passar do tempo, devido à influência helenística, esta divindade assimila outras, como o caso da deusa Ísis. A personagem acaba se isolando em sua bestialidade, mesmo que ainda se comporte como um homem. Ao final da obra, Lúcio, através do poder e da revelação da deusa Ísis, se transforma em homem novamente, assumindo um papel de sacerdote desta divindade, entra para o colégio dos pastóforos da deusa, e é elevado a ordem dos decuriões qüinqüenais. Como percebemos, o conhecimento das artes mágicas legitimava o poder daqueles que possuíam o entendimento de tais práticas. O poder não pode ser visto a partir de tal análise como uma via de mão única, e sim uma prática que se exerce sobre todos os agentes sociais (FOUCAULT, 1986). Através de tal afirmação notamos que as relações de poder relatadas na obra nos indagam em dois aspectos: 1. Tais relações no período da obra não ocorriam somente de forma unilateral, ou seja, de maneira que agentes superiores elitizados subordinassem os de condição inferiores. O exercício de poder se desenvolve em torno de um foco particular de poder e em nossa pesquisa pode ocorrer entre um escravo com outro igual, um escravo com seu senhor e vice-versa, etc. Exemplificando esta idéia notamos como se da relação de Lúcio e da escrava Fótis, que lhe impõe certo domínio 2. A magia é um aparato legitimador do poder, pois o conhecimento desta faz da escrava “superior” a Lúcio que era um cidadão livre. Notamos tal fato pela apelação de Lúcio em se tornar escravo de uma serva, pois para o personagem mais valia o conhecimento das artes mágicas do que sua posição como cidadão romano, ou seja, como superior a serva. Para um cidadão romano isto era inaceitável, na concepção apuleiana uma bestialidade, na qual um homem livre, cidadão, não poderia se tornar um escravo, ainda mais de outra escrava. O escravo era tido como força de trabalho, incapaz de se assemelhar aos cidadãos romanos. A magia torna-se uma fonte de poder para os agentes sociais, pois a utilizam provocando em alguns casos medo e curiosidade. Como já mostrado, no livro I, Aristômenes narra ao protagonista Lúcio sobre algo que acontecerá com ele e com seu amigo Sócrates. Este envolve-se com uma poderosa feiticeira chamada Méroe, capaz de abaixar o céu, levantar a terra e derrubar os deuses. Esta relação termina em grande desastre, pois, juntamente com sua irmã Pância, Méroe ataca Sócrates e o mata. Aristômenes, com muito medo, não reage: fica estagnado, é urinado pelas duas feiticeiras, não defende seu amigo do ataque e permanece imóvel por acreditar na eficácia da magia, temendo assim acabar como Sócrates. A figura feminina na obra é bastante presente. A mulher não se mostra como submissa aos desmandos dos homens exercendo um papel contrário a este, apresentando-se como agente detentor do poder e ativo perante a sociedade. A magia está intrinsecamente ligada à ação feminina dentro da obra. Lúcio, através de inúmeros relatos, nos mostra como tais agentes sociais se utilizavam da magia, e da falta de conhecimento desta pelos outros, para afirmar sua posição perante os demais. Richard Ogden (2004), em seu estudo sobre as placas de maldição, acredita que o ato de amaldiçoar está em extrema conexão com a figura da mulher, relatando que tal ação se liga a natureza feminina, pois foram encontradas inúmeras placas com inscrições de nomes femininos. Embora discordemos da posição de Ogden em classificar a ação feminina pelo conceito de “natureza”, pois acreditamos que tais ações ocorrem como um exercício do poder, temos que perceber o fato de que os relatos de Lúcio mostram exatamente que a mulher detém, sim, o conhecimento do mágico, utilizando-o em seu favor. Essa participação feminina aparece em nossa fonte a exemplo de Méroe. Esta permanece na descrição do cotidiano, porém como uma forma atípica dentro da concepção apuleiana, sendo representante da figura feminina que age dentro da sociedade sem a menor interferência do domínio masculino. Méroe e sua irmã Pância, desligam-se de qualquer laço matrimonial ou de concubinato, os quais a mulher deveria possuir. Tal idéia nos causa estranheza se contextualizarmos este fato ao período em que Apuleio escreve sua obra, pois a mulher deveria exercer o papel de cuidar do seu lar, tendo como única forma de expressão seu trabalho doméstico, proibida de se impor noutros espaços de sociabilidade (OMENA, 2008). Enquanto, por um lado, temos o exemplo de Psiquê, que segue em grande conflito por não arranjar uma relação conjugal, por outro observamos o de Méroe que não é casada, vive rodeada de amantes e ainda utiliza da magia como forma de se expressar socialmente, legitimizando, ou seja, afirmando o seu poder perante os demais agentes. Outra forma da magia exercer domínio sobre a sociedade romana representada por Apuleio, além do medo, é a curiosidade. Apuleio é definido através desta palavra por Georg Luck, que apresenta como defesa deste, sua curiosidade ser ligada a ciência e à corrente filosófica neoplatônica. Esta característica do autor é repassada para a obra, sendo seu personagem também curioso em conhecer as artes mágicas. Lúcio desde o começo da obra é avisado sobre o perigo que corria ao querer utilizar a magia para satisfazer sua curiosidade. O primeiro caso que lhe serviu de alerta foi o narrado por Aristômenes e de sua desventura com as feiticeiras. Nesta passagem, o personagem, já era alertado que adentrar ao oculto e ao fantástico sem conhecimento e por vontades egoístas, como a curiosidade, seria perigoso e poderia lhe causar alguns danos. Prosseguindo em seu relato, Lúcio ouve a história de Telifrão que foi afetado por magas em rituais necromânticos, tendo seu rosto desfigurado por estas (Livro II). Podemos encarar este acontecimento como mais um aviso a Lúcio. A Providência tenta, de várias formas, avisá-lo do perigo que corre, mas este a ignora completamente, ambicionando apenas alcançar o conhecimento mágico. Ainda em sua busca, Lúcio descobre através de Birrena que a esposa de seu hospedeiro, Panfília, realiza rituais mágicos para atrair jovens rapazes assim como ele. Neste relato podemos observar que as práticas mágicas não eram permitidas na Roma do século II, pois Panfília realizava seus rituais em segredo. A magia era permitida quando ligada a religião, porém algumas práticas, como a fabricação de venenos que é associada às mulheres por Gordon (2004), não eram permitidas pelas autoridades, portanto, punidas pela Lex Cornelia. Lúcio não se intimida, ao contrário, parte em direção a casa do senhor Milão para observar de perto o que se passa: Mas eu (Lúcio), pela outra parte cheio de curiosidade, apenas ouvi o sempre desejando nome da arte mágica, tão longe estive de acautelar-me da Panfília que até espontaneamente desejava entregar-me a esta ciência, ainda com grande paga, e precipitar-me com salto veloz na mesma voragem. Finalmente, apressado e alheado do juízo, desembaraço-me da sua mão como de uma cadeia e, dando-lhe à pressa um adeus, rapidamente vôo a casa de Milão (Livro II). No local em que está hospedado, o personagem encontra com a escrava Fótis, a qual auxiliava Panfília em suas mágicas, e que, assim, detinha certo conhecimento de tais práticas. A relação de Lúcio e de Fótis é caracterizada pela intensidade. O protagonista se interessa pela serva por apreciar toda sua sensualidade, entregando-se ao desejo de possuí-la: “Ó minha Fótis, quão bela e quão graciosamente mexes as tuas nádegas juntamente com essa caçarola!” (APULEIO, Livro II) Fótis, não hesitante, responde à investida de Lúcio através de provocação, aumentando seu desejo: Retira-te, mofino, retira-te para longe do meu fogo, porque, se levemente uma faísca minha te tocar, profundamente serás abrasado, nem poderá ninguém extinguir o teu ardor senão eu que, sabendo de cozinha, sei mexer tão suavemente a panela como a cama. (APULEIO, Livro II) Lúcio não consegue resistir aos encantos de Fótis, se entregando. Porém, o interesse na escrava não era a relação sexual, pois Lúcio buscava, através deste contato, se aproximar cada vez mais da mágica praticada por Panfília, pois já sabia que Fótis auxiliava sua ama em todos os seus rituais. Então, devido à sua intensa curiosidade, Lúcio continua a se envolver com a escrava, até que lhe pede para mostrar os encantamentos mágicos, que Panfília praticava. Em uma noite, Fótis leva Lúcio ao quarto de sua senhora, a qual estava se metamorfoseando em ave. Ao ver tal ato, o protagonista fica admirado e perplexo, querendo também se transformar em ave e voar, assim como Panfília. Pedindo que Fótis o ajude, Lúcio realiza o mesmo procedimento que observou, porém sua transformação não ocorre da maneira satisfatória: por escolher a caixa com o ungüento errado, ele acaba se metamorfoseando em asno. Após tal ocorrido, como já destacado, Lúcio passa por inúmeros apuros e maus tratos. A curiosidade com a qual o protagonista adentrou na esfera do fantástico, através do fascínio a respeito das artes mágicas, causou- lhe grandes conseqüências negativas. Podemos notar que, através da magia, as personagens apuleianas que detinham tal conhecimento exerciam certo poder sobre as demais. Mesmo que na figura de mulheres ou de estrangeiros, no caso do mago egípcio que aparece na história de Telifrão (Livro II), todos aqueles que obtinham o conhecimento das artes mágicas se mostravam como “superiores” em relação aos outros agentes. Mesmo que proibida, em certas instâncias, a magia ainda era utilizada exercendo seu poder através do medo e da curiosidade, por não ser do conhecimento de todos, sendo o desconhecido algo a se temer ao mesmo tempo, como no caso de Lúcio, algo que se pretende conhecer. BIBLIOGRAFIA A) Fonte documental: Apuleio, Lúcio. O asno de Ouro. Tradução de Francisco Antônio de Campos. Portugal: EuropaAmérica, 1990. B) Bibliografia Historiográfica: BAUZÁ, Hugo F., El Mito Del Héroe: Morfologia y Semântica de La Figura heróica, Buenos Aires: Fondo de Cultura Econômica de Argentina, S.A., 1998. CASTIGLIONI, Arturo. Encantamento y Magia. Tradução de Guillermo Pérez Enciso. México: Fondo de Cultura Económica, p. 186- 194, 1987. CHARTIER, Roger. 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