L J U B O M I R S TA N I S I C
PA PA- Q U I L Ó M E T R O S
EUROPA
AMOR E UMA AUTOCARAVANA
VIAGENS PELA GASTRONOMIA
ÍNDICE
1
PÁG. 14
3
PÁG. 30
5
PÁG. 46
7
PÁG. 62
Uma família muito desastrada
Bife com legumes salteados
@ AUTOCARAVANA/ PORTUGAL-ESPANHA
Uma intensa Luz basca
Papardelle com cogumelos e trufa
@ SAINT JEAN DE LUZ/ FRANÇA
Sopeiros, com muito gosto!
Língua com estufado de legumes
@ CENTRO DE FRANÇA
Saudação ao Sol
Ostras grelhadas com tártaro de frutas
@ ILHA DE RÉ/ FRANÇA
2
PÁG. 22
4
PÁG. 38
6
PÁG. 54
8
PÁG. 70
O reino por um pintxo
Cataplana Basca
@ SAN SEBASTIÁN/ ESPANHA
A baía das ostras
Peixe com batata aromatizada
@ AUDENGE/ FRANÇA
Bordéus a pão e vinho
Pombo recheado com foie gras
por Nicolas Masse, chefe do restaurante La Grand’Vigne, 1 estrela Michelin,
no Hotel Les Sources de Caudalie (Chefe convidado)
@ BORDÉUS/ FRANÇA
França de coração
Bombom de lagosta
por Didier Edon, chefe do restaurante Relais & Châteaux Les Hautes Roches,
1 estrela Michelin (Chefe convidado)
@ VALE DO LOIRE/ FRANÇA
9
PÁG. 78
11
PÁG. 94
13
PÁG. 110
Flûtes de felicidade
Coxas de pato confitadas com legumes salteados
@ CHAMPANHE/ FRANÇA
No vinho, a Alsácia
Bisteca na grelha
@ ALSÁCIA/ FRANÇA
Silêncio dos cordeiros
Cabrito com puré
@ HUSUM/ ALEMANHA
10
PÁG. 86
12
PÁG. 102
14
PÁG. 118
Cidade sem fronteiras
Pernil de porco com couve-roxa e feijocas
@ ESTRASBURGO/ FRANÇA
«Luta» na lama
Salsichas e Costeletas
@ HEIDELBERG/ ALEMANHA
Sylt como seda
Ostras Sylter Royal marinadas
por Johannes King, chefe do restaurante Söl’ring Hof, 2 estrelas Michelin
(Chefe convidado)
@ SYLT/ ALEMANHA
15
PÁG. 126
No reino da Dinamarca
Torricado de bacalhau com puré de tremoço
@ FALSLED/ DINAMARCA
16
PÁG. 134
A cidade de Leonardo
Sopa de nabo
por Leonardo de Sousa, kitchen manager do restaurante Noma, considerado
O Melhor Restaurante do Mundo em 2014 pela revista Restaurant, 2 estrelas
Michelin (Chefe convidado)
@ COPENHAGA/ DINAMARCA
ÍNDICE
Toca e foge
Miolos de borrego orgânico
por Jorgen Lloyd, chefe do restaurante Lyran e Mrs. Brown
18
PÁG. 142
@ MALMO/SUÉCIA
PÁG. 150
19
«Tcheca tcheca»
Legumes salteados
17
PÁG. 158
21
PÁG. 174
23
PÁG. 190
@ MORÁVIA DO SUL/ REPÚBLICA CHECA
Vimo-nos gregos na Eslováquia
Pork Ribs
@ BRATISLAVA/ ESLOVÁQUIA
Banhos capitais
Confit de perna de pato prensada
por Miguel Rocha Vieira, chefe do restaurante Costes, 1 estrela Michelin
(Chefe convidado)
20
PÁG. 166
22
PÁG. 182
24
PÁG. 198
Praga a andar
Frango salteado
@ PRAGA/ REPÚBLICA CHECA
Encontro de «irmãos»
Gaspacho de Mirtilos
@ VIENA/ÁUSTRIA
Vinho e água doce
Tártaro da vazia
@ LAGO BALATON/ HUNGRIA
Uma história nada simples
Leitão com arroz de miúdos
@ SREMSKA RAČA/ SÉRVIA
@ BUDAPESTE/ HUNGRIA
25
PÁG. 206
Entre burras e Stanisic's
Ensopado de Borrego à Jugoslavo
@ ZASAVICA/ SÉRVIA
PÁG. 222
Croácia, nosso amor
Sopa de melancia fresca, salada de frutas
e queijo de cabra
29
Pag para ver
Lasanha de lavagante
27
PÁG. 238
@ MLJET/ CROÁCIA
@ PAG/ CROÁCIA
26
PÁG. 214
Grande Bósnia
Salada fria de batata com pesto de salsa
@ MOSTAR/ BÓSNIA
28
Ilha nação
Patiscada
PÁG. 230
@ KORCULA/ CROÁCIA
30
Um adeus ou um até já?
Gnocchi de ricotta com caranguejo-aranha
PÁG. 246
por Biljana Milina, chefe da Konoba Mate (Chefe convidado)
por David Skoko, chefe da Konoba Batelina (Chefe convidado)
@ ISTRIA/ CROÁCIA
Km 0
INTRODUÇÃO
Primeiro, escrevemos um livro.
Alguns amigos chamaram-nos doi-
A seguir gravámos um programa de
dos, outros invejaram-nos. Os pais
televisão. Só depois nasceu o filho.
meteram as mãos à cabeça. A pedia-
Dois meses depois do nascimento,
tra aplaudiu a iniciativa e acabou com
cresceu uma ideia. Estávamos em
a nossa única dúvida: será que um
agosto de 2012 e a nossa vida tinha
bebé de menos de um ano está prepa-
acabado de mudar para sempre.
rado para isto?... «Está», garantiu ela.
O bebé dormia no quarto ao lado
Esteve, podemos adiantar nós.
enquanto a conversa despertava
na sala. «E se...?», perguntávamos
Em sete meses de preparação tive-
um ao outro. Se alugássemos uma
mos umas vinte reuniões, falámos
autocaravana para fazer férias na
com uns vinte possíveis patrocina-
Costa Vicentina? Se explorássemos
dores, trocámos umas centenas de
o Sul da Europa? Se fizéssemos uma
emails, realizámos umas boas deze-
grande viagem de trabalho em famí-
nas de telefonemas. Os primeiros
lia?... O bebé acordou, mamou, come-
emails foram para a Campinanda,
morou 9 meses e partimos.
que entretanto se tornou Quebom.
Seguiu-se uma reunião em Matosi-
A rota inicial incluía 23 países:
nhos com o Luca a chorar ao lado,
Espanha, França, Alemanha, Dina-
mais umas trocas de emails, um
marca, Suécia, Noruega, Finlândia,
acordo, o empréstimo de uma auto-
Rússia, Estónia, Letónia, Polónia,
caravana e uma amizade para a vida.
República Checa, Eslováquia, Hun-
Tínhamos veículo (e amigas)! O resto
gria, Sérvia, Bósnia, Montenegro,
só podia ser fácil.
Croácia, Eslovénia, Itália, Áustria
e Suíça. Apesar da resistência da
O Ljubo preparou a «Manuela»
Mónica, lá acabámos por retirar Tur-
para todas as adversidades: escondeu
quia, Grécia e Albânia do plano ini-
cofres em fundos falsos com a ajuda
cial. Planeávamos ficar um ano fora.
do artista Filipe Pinto Soares, mandou
9
INTRODUÇÃO
instalar um sistema de satélite que
supostamente nos localizaria em
qualquer lugar do mundo e bloquearia
a «carripana» caso alguém a decidisse
levar. Os ilustradores Mário Belém e
Hugo Makarov, parte da equipa do
nosso primeiro livro, desenharam-na. Os homens da Kontraproduções
colaram os desenhos à «bicha». O
100 Maneiras financiou as estrelas
Michelin da viagem e garantiu as
comunicações.
apoiou-nos
A
De
Dietrich
incondicionalmente,
mesmo sabendo que dentro desta
autocaravana de 12 metros quadrados
não caberiam os seus equipamentos
de cozinha profissionais. (Não que a
Mónica não tivesse sugerido umas
máquinas de lavar loiça e roupa...).
A Vista Alegre recheou-a de loiça e
nomeou Ljubo seu embaixador. O
Instituto do Vinho do Porto encheu-a
de garrafas para deixar «rasto» pelo
Mundo.
Criámos um blogue, comprámos
uma Go-Pro, uma câmara de filmar
HD, dois telemóveis de última geração,
mais uns quantos discos externos.
10
INTRODUÇÃO
Apetrechámo-la com fogões de cam-
e a chuva. Check, check, check, double
pismo, cadeiras e mesas, botijas de gás
check!
de reserva, bidão de gasóleo para qualequipamento
Saímos de Lisboa um dia antes do
de mergulho, caça e pesca, elásticos
1° de abril de 2013. Não queríamos que
e colchões de ginástica, cremes para
fosse mentira. Mas parecia... Entre a
todas as intempéries... Negociámos as
primeira conversa e a data da par-
férias grandes do Mateus com a mãe
tida passaram-se sete meses e mui-
dele. Mandámos fazer os passaportes
tas impossibilidades. Só nunca nos
das crianças, os cartões europeus de
passou pela cabeça não partir. Nem
saúde para os quatro. Imprimimos
quando a autocaravana foi parar à
listas de hospitais e embaixadas, foto-
oficina, (duas vezes!), com luzinhas
copiámos todos os documentos três
do painel a piscar e problemas na vál-
vezes e espalhámo-los por diferen-
vula do turbo. Nem quando a Mónica
tes lugares da «carripana». Testámos
foi de urgência para o hospital. Nem
um router portátil com o amigo Juve,
mesmo quando teve de fazer uma
supra-sumo da informática. Destiná-
cirurgia na semana antes da data
mos uma caixa de roupa para cada um
marcada para a partida.
quer
eventualidade,
(«no máximo, Mónica!»). Escrevemos
listas de afazeres, listas intermináveis
Somos optimistas (ou loucos?!).
de coisas que não podíamos esquecer
E, lutando contra todas as probabili-
de levar. Pedimos à farmacêutica do
dades, partimos no domingo de Pás-
bairro para nos preparar um kit com-
coa. Chovia a cântaros. E, em vez de
pleto de primeiros-socorros. Preocu-
chorarmos sob a água derramada, sen-
pava-nos o bebé. Que não lhe faltasse
timos que a grande viagem das nossas
nada: máquina de aerossóis check,
vidas estava abençoada. O conta-qui-
antídoto para mordidela de cobra (!),
lómetros marcava 37 467 à saída de
soro, supositórios, fato para a neve,
Lisboa. Nem nós imaginávamos quan-
carrinho com protecção para o vento
tos poderia marcar à chegada...
11
PAPA KMS
EUROPA
PORTUGAL
ESPANHA
1
UMA FAMÍLIA
MUITO DESASTRADA
PAPA KMS
EUROPA
PORTUGAL
ESPANHA
1
CRÓNICA
I
Uma família
muito desastrada
CRÓNICA I
Estamos em Biarritz, País Basco
francês. Aliás, entre Biarritz e Bidart,
-banho vestido. Neste caso, de grelhador na rua a preparar o jantar.
para sermos exatos. Num parque de
“
campismo com uma nesga de mar e
Saímos de Lisboa a 31 de março.
um dono georgiano que é jogador de
Era domingo, já passava das quatro,
râguebi famoso. Acabámos de «esta-
estava a chover. Cenário perfeito
cionar». São cinco da tarde e hoje
para uma tarde passada em casa, mas
não fizemos nada: nem quilómetros,
mesmo assim decidimos sair dela.
nem trabalho, nem descanso. Foi
Por tempo indeterminado. Sabemos
um dia estranho. Acordámos às oito,
que saímos a 31 de março, sabemos
a mesma hora de sempre porque é
que queremos conhecer a Europa
quase sempre a esta hora que o Luca
de autocaravana, passar tempo em
acorda. E nesta «casa» de 12 metros
família, escrever um livro de viagens,
quadrados, é este bebé de 80 centí-
conhecer e trabalhar em alguns res-
metros
Acorda-se
taurantes. Só não sabemos quando
quando ele decide acordar, para-se
voltamos. Podemos até voltar já. (Não
quem
manda.
a autocaravana quando é hora de
foi coisa que não nos tivesse passado
lhe dar de comer ou mudar a fralda,
pela cabeça ao sétimo dia, enquanto
passeia-se quando ele fica impaci-
passávamos a madrugada no hos-
ente, dorme-se quando ele deixa. A
pital de San Sebastián com o Luca a
noite passada não deixou. E por isso
arder de febre.)
estamos a escrever acompanhados
de um café grande saído do bar do
Camping Biarritz. Que chique.
O objetivo do primeiro dia de viagem era passar a fronteira (fator psicológico a funcionar). Aparentemente
Hoje foi o segundo dia de sol dos
simples? Não quando se viaja com
dez que levamos de estrada. E nós
uma criança de dez meses. Há sem-
somos como os nórdicos: vemos um
pre uma fralda que nos para à beira
raio de sol e já estamos de fato-de-
da estrada, uma papa que faz o tempo
«Não saio daqui
enquanto não
planearmos os
próximos mil
quilómetros. Temos
de acabar com esta
onda de azar.»
“
15
CRÓNICA I
voar, um iogurte que não se encontra
no meio do frigorífico atulhado ou um
“
pacote de bolachas a que não se consegue chegar em andamento.
Quando demos por nós eram onze
da noite e estávamos na área de ser-
Ao décimo dia
de viagem de
autocaravana pela
Europa, foi ao som
destas palavras
do Ljubo que
comecámos a
primeira crónica.
“
viço de Castelo Branco a comer a primeira refeição da viagem. Uma quinoa com azedo de Bragança à moda
do chefe, feita num dos três bicos de
fogão, num único tacho (para não
sujar loiça), servida num prato de
acrílico (para não sujar loiça!), com
um tinto Lybra num único copo de
plástico e vista para a gasolineira.
Chique de novo.
Oito da manhã, cinco graus na
rua e o aquecimento a gás ligado a
noite toda. Acordamos com alguém
a falar ao meu ouvido. Dizia «Papa-Quilómetros»,
«100
Maneiras».
Corremos as cortinas da janela do
nosso «quarto» e vemos umas 30
pessoas à volta da autocaravana.
Abrimos o segundo olho e vejo
que a «Papa» que eles rodeavam
não era a nossa: era uma mesa de
16
CRÓNICA I
buffet improvisada, com fruta, pão e
siderada Património Mundial pela
bebidas quentes. Falavam baixinho
UNESCO, nem para experimentar
e, aos poucos, foram formando um
nenhum restaurante desta que é a
círculo. Acordávamos lentamente. E
Capital da Gastronomia em 2013. Ape-
quando finalmente nos levantámos
nas para esticar as pernas e passear
da cama, começámos a ouvir cantar.
com o Luca às costas. Mas a chuva
Quem cantava junto à fronteira de
voltou. E com ela um céu negro como
Espanha eram portugueses de Torres
carvão. Este começo não estava a ser
Vedras, um grupo coral da Igreja
fácil. Mas bastou olharmos em frente
que regressava de uma semana de
para ver um arco-íris de cores garridas
retiro em França. O primeiro acordar
a traçar-nos o caminho.
na autocaravana foi literalmente
glorioso.
Da área de serviço onde dormimos, junto a Fuentes de Oñoro,
pedras atingiriam o vidro da frente
tínhamos vista para uma fábrica de
da autocaravana, que um acidente
jamóns… «Agora sim, estamos no na estrada de Burgos para Bilbau nos
caminho certo», diz o Ljubo. Falta-
impediria de jantar pintxos na Plaza
vam 480 quilómetros para o País Nueva…
Basco e demorámos doze horas a
percorrê-los. É certo que a viagem é
Lição do segundo dia (ou de vida?):
o destino mas no destino não podia não fazer muitos planos, não ter muita
estar «escrito» que uma escada cai-
pressa (e não deixar escadas nem qua-
ria na cabeça da Mónica, que um dros à sua mercê…).
dos quadros de latão com que decorámos as paredes da «carripana»
Fizemos uma paragem estraté-
quase batesse na testa do Luca
gica em Burgos. Não foi nem para ver
enquanto dormia na cadeirinha, que
a catedral, única em Espanha con-
“
Uma viagem
de sonho pode
rapidamente virar
pesadelo.
Houve quem
avisasse…
“
17
PAPA KMS
EUROPA
PORTUGAL
ESPANHA
1
BIFE COM LEGUMES SALTEADOS
RECEITA
I
RECEITA I
Bife
com legumes
salteados
4 PESSOAS
4 bifes da vazia limpos
com aproximadamente
Temperar os bifes de sal e pimenta e grelhar até atingirem o ponto desejado (médio ou
mal passados).
180 g cada
100 g rúcula
150 g manga
150 g requeijão de Seia
Laminar os rabanetes e envolver com os restantes ingredientes (rúcula, requeijão,
avelã, tomate em cubos e manga em cubos), temperar com a vinagreta de citrinos a
gosto e empratar.
70 g avelã pelada
150 g tomate
100 g rabanetes
Sal, pimenta e azeite q.b.
Para a vinagreta de citrinos
60 ml azeite
Sumo de meia laranja
Sumo de meio limao
Sal e pimenta q.b.
19
PAPA KMS
EUROPA
SAN SEBASTIÁN
ESPANHA
2
CRÓNICA
II
O reino
por um pintxo
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papa-quilómetros europa