UNIVERSIDADE TUIUTI DO PARANA.
Nivaldo dos Santos Arruda.
MICROPODER MACROPRESsAo:
GANA & MALI-ASCENSAo, APOGEU E QUEDA DE DOIS GRANDES
IMPERIOS AFRICAN OS.
CURITIBA.
2008
Nivaldo dos Santos Arruda.
MICROPODER
GANA & MALI-ASCENSAo,
MACROPRESsAo:
APOGEU E QUEDA DE DOIS IMPERIOS
AFRICANOS.
Trabalho de monografia apresentado ao
programa de POS-Gradua,iioda Universidade
Tuiuti do Parana como requisito parcial
Para obten<;lio de titulo de especialista
em Historia e Cultura Africana e AfroBrasileira, e Educa<;lio para as Politicas
afirmativas no Brasil.
Orientador: Professor Dr. Eduardo
David de Oliveira.
CURITIBA.
2008
DEDICA TORIA.
A Deus (Maa N Gala) pelo sopro infinito da vida.
A meus pais
dignidade.
parceria.
A
A
(in memorian)
pela
heranqa da
Maria Candida, pela compreensao e
Milvia, Milviane, Ana Paula, Dandara e
Matheus Leonardo, minhas Filhas e neto;
Franciele, Dielley e Lucas, filhas e neto agregados
pela paci(mcia da minha ausencia.
AGRADECIMENTO.
A Deus (Maa N Gala) pelo sopro infinito da vida.
Agradeqo a todos os Professores que souberam, tijolo por tijolo,
atraves dos m6dulos, construir em nossas mentes
0
ediffcio da
sapien cia. Um agradecimento muito especial ao Professor Dr.
Eduardo David de Oliveira, pela pronta orientaq80, Professor
Henrique Cunha Jr. por nos apresentar
a outra Africa. As
coordenadoras do curso Marcilene "Lena" Garcia-IPAD-Brasil e a
Professora Sidinalva M. dos S. Wawzyniak- Tuiuti, pelo suporte
tecnico e pedag6gico em cada m6dulo.
Epigrafe
"Houvesse
a igreja do Brasil colonia, marcado presenr;a mais na Senzala
do que na Casa Grande, mais nos Qui/ombos do que nas Cortes, outros".
teriam sido os rumos da Hist6ria do Brasil desde os seus prim6rdios,
teria sido a contribuir;ao
mesmo desenraizado
do negro
do seu povo
cativeiro e sujeitos a longas jomadas
aglutinar;ao e de preservar;ao
principalmente
ao nosso desenvolvimento.
outra
Porque
e sua terra, mesmo reduzido
de trabalho, conservou
em si forr;a de
de seus valores originais. Estas forr;as foram,
a religiao e a combatividade".
Homilia da Missa dos Qui/ombos - Dom Jose Maria Pires (1981)
Recife-PE1
I
Registrado
por Mazzola.
em disco Polygram,
ao
1981. Projeto Idealizado
e gravado
por Milton Nascimento,
produzido
e realizado
SUMARIO.
DEDICATORIA
AGRADECIMENTO
EPiGRAFE
RESUMO
ABSTRACT..
SUMARIO
1.1
INTRODU<;:AO
1
11
111
IV
.v
Vl
07
CAPiTULO
2.1
2.2
2.3
2.4
2.5
2.6
2.7
2.8
2.9
2.10
A AFRICA PRE-COLONIAL.
Contexto Hist6rico
Aspectos Filos6ficos
Conceito de Ancestralidade
Conceito Etico e Moral da Cultura Yoruba
0 imperio de Gana
Dominio e Decademcia do Imperio de Gana
A Queda do Imperio de Gana
SINTESE
0 Gana da Atualidade
CAPITULO
3. 1
3.2
3.3
3.4
3.5
3.6
3.7
3.8
I
15
15
20
22
24
30
35
39
40
.41
II
0 IMPERIO DE MALI
Das Grandes Federa<;:6es as Dinastia
0 Cia e a Dinastia dos Keitas
A Capital de Mali e seus Dominios
0 Micro-Poder.
0 macro-Poder Vs. Macro-Poder.
A Queda do Imperio do Mali
0 Mali da Atualidade
42
.42
46
53
55
56
59
65
CAPITULO III
4.1
4.2
4.3
4.4
4.5
4.6
4.7
A EXPANSAO COMERCIAL E MARiTIMA EUROPEIA
0 Novos Mercados
Condi<;:6es sociais, Politicas e Culturais
0 Imperio Portugues
A Invasao Europeia
CONCLUsAo
BIBLIOGRAFIA.
68
68
70
73
76
80
89
RESUMO.
A Africa, por muitos anos, manteve-se como urn continente totalmente desconhecido
nos meios academicos,
de ensino fundamental,
nenhuma
abordagem
tanto para os docentes como para os discentes.
medio e universitario,
do continente
em rarissimas
As escolas
excec;:oes, nao fazem
e quando 0 fazem, nao apresentam
nada do
passado ou presente do povo africano, sua historia, suas riquezas e os reinos da
Africa
pre-colonial.O
continente
presente
africa no quanto
trabalho
tern como objetivo
a sua diversidade
linguistica
fazer
cultural
urn estudo
e etnica,
do
numa
perspectiva de se apontar e levantar, tambem, informac;:oes das suas organizac;:oes
socia is, politica e economica
no periodo de sua pre-hist6ria,
nosso trabalho
na regiao do Sudao Ocidental,
se pautara
deserto, mais especificamente,
a africa pre-colonial.
0
parte sui do grande
na costa do Oceano Atlantico
Sael e 0 Saara na trajet6ria do sui para 0 norte do continente.
com proximidade
do
Nessa regiao focar-se-
a os dois grandes Imperios que surgiram do seculo X ao XVI, 0 Imperio do Gana e do
Mali, respectivamente.
Mas, priorizando
ainda, investigarmos
periodos do seculo XII ao XVI. Assim abordar-se-a,
representado
nesta pesquisa,
pel a organizac;:ao social politica, econ6mica
povo africano
esses Imperios
de urn lado, e do outro, a macropressao
0 micropoder
e a religiao tradicional
presente
Imperio; Reino; Cidades-estado;
Micro-poder
do
na expansao
islamica e a luta pela conquista de territ6rio pelos povos da regiao norte do Saara.
Palavras-chave:
nos
e Macro-poder.
ABSTRACT.
For many years Africa stayed as a totally unknown continent by the academic
scenario, the teachers as well as the students. The primary and high schools and
the universities with rare exceptions, do not deal with the continent, and when they
do it, they do not touch anything of the past or the present of the African people,
their history, their richess and the kingdoms of precolonial Africa. The aim of the
present essay is to study of the African continent, as to its cultural linguistic and
ethnic diversity, under the perspective to point out and also gather information of
their sodal, political and economical organizations during the period of the
prehistory, the precolonial Africa. The focus of this essay is the western Sudan, the
southern part of the great desert, more specifically the Atlantic coast near Sael and
the Sahara, from the south to the north of the continent. In this region we will focus
on the two great empires which were formed from the tenth through the sixteenth
century, the empires of Ghana and Mali, respectively. But, priorily, we will
investigate these empires in the periods of the twelfth through the sixteenth
century. So in this essay we will try to point out the micro power represented by the
social political economical organization and the traditional religion of the African
people on one side and the macro pressure present in the islamic expansion, on
the other side, as well as the struggle in conquering of the territory by the people of
the northern Sahara
Key words:
Empire,
Kingdom,
State Cities, Micropower
and Macropower
7
1.0
INTRODUCAo.
Este trabalho sobre os modelos e a historia dos grandes reinos e imperios
africanos,
vem como res posta a algumas angustias
que me perseguiram
todos os anos de estudos na minha formagao primaria. Quando escolhi
mesmo: "Micropoder
Macropressao:
do is grandes Imperios Africanos"
ao mesmo tempo de impotencia
escola que determinava
Naquele
pedagogico
tempo
0
Gana & Mali-Ascensao,
mesmo esta relacionado
e fragilidade,
0 que e como deveriamos
nao tinhamos
imposto ou sucumbiamos.
quando deparavamos
0
durante
titulo do
Apogeu e Queda de
a
sensagao de poder e
como aluno diante da instituigao
/
aprender.
muita escolha,
ou faziamos
parte
do jogo
Cada dia era um grande desafio e martirio
com historias sem nenhuma
referencia
positiva dos nossos
antepassados escravizados.
Creio que eu me descobri negro aos nove anos de idade, atraves daquelas
fotos que costumavam fazer como lembranga da escola, esse fato me marcou muito.
Pois, passei a ser apontado como "0 macaco, 0 negrinho" e outras coisas mais do
genero.
Recordo-me de um fato, quando ja estudava no en sino medio. Como sempre
era minoria absoluta em sala, isto e, 0 unico negro. Quando um outro garoto fez 0
seguinte comentario, perguntando ao professor.
_Professor,
com todo respeito ao nosso colega - se referindo a mim - por que
todo negro e relapso, preguigoso e nao gosta de estudar?
Essa pergunta soou em
8
meus ouvidos por muitos anos. Passei a estudar e pesquisar 0 continente
africano
como uma resposta aquela pergunta.
Entretanto, ao contrario de me magoar, tudo funcionou como conscientizayao,
embora um tanto traumatica,
de que eu era diferente,
mas, acima de tudo, que eu
tinha poder e vontade· para aprender, apesar da negatividade
imposta, dai entao 0
titulo - "Micropoder Macropressao".
Po is era exatamente
naquilo
que
procuravamos
realizayao de determinado
0 que ocorria,
apesar de possuirmos
e na apreensao
de conhecimentos,
Era uma eterna luta no antagonismo
do micropoder
meio em que viviamos impondo as dificuldades,
de nossa parte, posturas
e estrategias
obstaculos e encararmos
as dificuldades,
poder
dedicayao
trabalho, fosse ele qual fosse, deparavamos
grandes desafios, obstaculos ou dificuldades, que, "naturalmente"
para conseguirmos
potencial,
na
sempre com
iam aparecendo.
e a macropressao,
no
mas, por outro lado, tambem exigia
para vencer
aqueles
nao como barreiras,
desafios,
driblar os
mas como estimulo
avanyar em nossa empreitada.
Portanto, foram essas experielncias que me fizeram iniciar minha militancia no
movimento
social
negro
organizado.
E vivemos
sempre
em funyao
descobertas nos mais variados espayos e das raras oportunidades
Apesar
das dificuldades
mercado de trabalho,
cinco continentes,
na busca
da nossa
ainda assim conseguimos,
que somaram
16 paises,
aluno
que
fizera
aquele
questionamento,
profissionais.
e no competitivo
profissionalmente,
inclusive,
africano, Africa do Sui em Ghana especificamente,
formayao
de novas
trabalhar
dois destes
nos
no continente
e que me fez entender 0 quanto 0
estava
enganado
em
relayao
as
9
possibilidades
e limitac;:oes, comum a todos, porem, para nos, muito mais limitac;:oes
que possibilidades.
E 0 que observamos
em Accra, hoje a capital de Ghana, comprovaram
que,
por mais rico e poderoso 0 pais, ainda hoje, impoe muito sacrificio a seu povo, e este
respondesempre
com muita forc;:ae otimismo, apesar de tudo.
Mas, por mais que procuremos
poderemos
reproduzir
na intensidade
referenciarmos
nessas experiencias,
e integralmente
0 que vivenciamos
jamais
no dia a
dia, em tao poucas linhas. Porem, temos certeza absoluta de que nossos irmaos
negros ao ler estas nossas reflexoes certamente
entenderao,
uma vez que nossas
historias sao comuns e se confundem.
No
presente
trabalho
tambem
tivemos
esses
desafios,
obstaculos
e
dificuldades e algumas barreiras impostas no sentido de inviabilizar 0 projeto.
A primeira
investigar
pedagogico
barreira
0 continente
estava
africano
dos diversos
cursos
na pre-indisposic;:ao
nao faz e nem faria
da area
das
academias
de
parte do projeto
de human as, dai a falta
que
politico
de fontes
bibliograficas e a ausencia desse tema em seus curriculos.
A segunda barreira, consequencia
nao dispunham,
logica da primeira, de que as academias
em seu corpo docente, profissionais
para 0 estudo e prioridade nos conhecimentos
com linha de pesquisa voltado
de Africa.
Entretanto, com as ultimas resoluc;:oes e Leis na esfera Federal, com impacto
direto nas LOBs (Leis de Oiretrizes e Bases), abre-se perspectivas
pesquisas com conteudos programaticos
e historiograficos
de se produzir
do continente africano no
10
que tange aos conhecimentos
e a diversidade
social linguistica
e cultural do seu
povo.
Portanto,
a presente
trabalho
tem
como
objetivo
fazer
um
estudo
do
continente quanta a sua diversidade linguistica cultural e etnica, numa perspectiva de
se apontar e levantar, tambem, informac;:6es das suas organizac;:6es sociais, politica e
econ6mica no periodo de sua hist6ria antiga, a Africa pre-colonial.
Entretanto,
diversidade
par se tratar de um campo muito vasto, dado as dimensoes
cultural e etnica do mesmo,
Sudao Ocidental,
nosso trabalho
e a
se pautara
na regiao do
parte sui do grande deserto, mais especificamente,
na costa do
Oceano Atlantica com proximidade do Sael e a Saara na trajet6ria do sui para a norte
do continente.
Nessa regiao, delimitaremos
ainda nossa pesquisa aos dais grandes Imperios
que surgiram do seculo X ao XVI, a Imperio do Gana e do Mali. Mas, priorizando
ainda, investigarmos
abordar-se-a
esses Imperios
na pesquisa
nos periodos
a micropoder
do seculo XII ao XVI. Assim
representado
pela organizac;:ao social,
politica, economica e na religiao tradicional do povo africano de um lado, e do outro a
macropressao
presente na expansao islamica e conquista de territ6rio representado
pel as povos da regiao norte do Saara.
De forma
econ6mica
que analisaremos
e politica
desses
riqueza mineral existente
as relac;:oes de poder e organizac;:ao social,
imperios
que estavam
na regiao e a comercio
baseadas
na explorac;:ao da
que se estabeleceu
a partir das
rotas que se estenderam ate a deserto do Saara e, mais tarde, ao Mediterraneo.
t!
11
No primeiro
capitulo,
far-se-a
um historico
na apresentayao
do continente
como um todo para nos situarmos da realidade do mesmo, 0 contexte historiografico,
sua posiyao geografica e dimensao territorial. Os varios paises e ilhas que 0 compoe.
Apresentaremos
uma divisao da geografia
atual, que possibilitara
process os de migrayao e 0 desenvolvimento
de importantes
entendermos
rotas comerciais
os
cujos
reinos del a fizeram parte.
Para melhor
entendermos
de como
se processava
a relayao
de poder
naqueles reinos, far-se-a uma analise filosofica do conceito de poder em Foucault, e,
finalmente, abordar-se-a em que contexte se da 0 surgimento do primeiro imperio na
regiao denominado de 0 Imperio do Gana.
Nessa pesquisa analisaremos
tambem, a participayao
dos diferentes
grupos
etnicos, nomades da regiao do Saara, suas atividades e a pressao constante imposta
as comunidades
resistencia
do sui do Saara, com a expansao
desse povo contra essas investidas
do islamismo,
que culminou
bem como a
no surgimento
do
Imperio, e funcionou durante muito tempo, como barreira contra essa invasao.
Apresentaremos
as caracteristicas
da organizayao social e politica do reino do
Gana, seu apogeu e, no final do seculo XII e inicio do seculo XIII, seu declinio e
queda,
conseqliencias
das constantes
investidas
de grupos
que se uniram
grandes federayoes para essa finalidade, isto e, com bater e dominar
No segundo
responsaveis
capitulo,
faremos
uma abordagem
daqueles
0
em
Gana.
que
foram
os
pela queda do Imperio do Gana e se constituiu como a segunda grande
forya social e politica na regiao, que ficou conhecido como
0
reino do Mali. Este tinha
12
caracteristicas
diferenciadas
do Gana,
no que tange
a sua organizagao
social-
politico-administrativa.
o Imperio
de Mali, ap6s vencer as forgas dos exercitos do Gana, assume para
si as principais
abrangencia
rotas do comercio
ja existentes
e amplia
seus dominios
com
ate a regiao norte do grande Saara e, mais tarde, sob 0 comando
de
Yusufe, invade a Espanha na chamada guerra santa.
o
imperio, em toda sua historia foi comandado
por uma grande dinastia, que
comega com Sundiata sob 0 titulo de Mansa, vai ate os Keitas que se tornaram
lendarios.
Lideres
que fizeram
econ6mica quanto administrativa.
do Imperio
de Mali uma grande
Essa potencia ficou conhecida
potencia,
tanto
no mundo arabe e
Europa, atraves da peregrinagao de Musa Mansa a Meca.
Analisar-se-a
0
crescimento, apogeu e queda do Imperio do Mali do seculo XIII
ao XVI, resultado das press6es e imposigao
islamica.
E tal como se deu com 0
Imperio de Gana, a exploragao do rico comercio e as rotas estabelecidas.
0 poder de
influencia do Mali que se estende do sui do Saara ao norte ate 0 Mediterraneo
e
parte da Europa.
Finalmente
europeia
no terceiro
no continente,
capitulo,
far-se-a
a invasao propriamente
Africa se deve, em principio,
uma
abordagem
dita. A presenga
da
presenga
do europeu
na
de buscar alternativas
de
projeto de impor mudangas
ou
ao fato das necessidades
comercio para suprir a crise econ6mica na Europa.
Portanto, nao houve, no primeiro momento,
nova cultura ao povo africano. Pois enquanto estes forneciam as mercadorias
que os
europeus precisavam e desejavam comprar, como foi 0 caso dos primeiros contatos
13
na Guine, os negociantes
nao se sentiam impelidos a mudar a sociedade
africana,
eles se contentavam em observa-Ia.
No entanto,
os missionarios,
ao contrario,
desde
sentiam-se obrigados a tentar alterar 0 que encontravam
os primeiros
contatos
e, entao, impor as doutrinas
do cristianismo.
As grandes viagens que os leva ram ate as indias. A explorac;:ao mercantil e
depois do enfraquecimento
e queda desse mercado, a explorac;:ao a partir do trafico
escravo que culminou na diaspora negra nas Americas.
Essa atividade
do trafico
(1980) um "sangramento
graves
provocou,
conforme
Mahatar
"Conferencia
consequencias
de Berlim" que impos ao continente
nos pianos
demograficos,
colocando
0 povo africano
sob a tutela e interesses
a
economico,
psicol6gico e cultural do povo negro, mudanc;:as em suas areas limitrofes,
e linguisticas,
M'BOW1
sem fim" e, no final do seculo XIX, em 1884-85, a Partilha
da Africa com a chamada
colonizac;:ao com
negreiro
territoriais
dos principais
paises europeus como, Portugal, Franc;:a, Inglaterra, Alemanha, Holanda e Belgica. 0
projeto de dominac;:ao que culminou na colonizac;:ao europeia no continente
obedeceu a um processo que KI-ZERBO
(1980), chamou de "roedura",
africano
iniciado em
1430 e evoluiu ate 0 final do seculo XIX com a oficializac;:ao das colonias.
Entretanto, 0 principal objetivo da pesquisa sera apontar os valores culturais
etnicos e religiosos, sua organizac;:ao social e politica como marca e especificidade
dos povos africanos,
I
com forte relac;:ao aos valores e instituic;:oes clanico-familiar
Diretor Gera! da Unesco prefaciando Historia Geral da Africa Negra, vol I
14
fundamentada
no gesto e na palavra e nas simbologias
tem na ancestralidade
da religiao tradicional
que
a fon;:a vital que rege a harmonia do grupo.
Como ja nos referimos, a presente trabalho se justifica pela sua importancia
como respostas
as angustias
habitat natural, num processo
de um povo que fora arrancado
de despatrializac;:ao e espalhados
e
de sua terra, seu
pelas Americas,
tolhidos de participac;:ao social e politi ca.
Assim destituido
ontologicamente
buscaram
na heranc;:a das "africanidades",
no Brasil, "negritude",
que e a processo
de assimilac;:ao e conscientizac;:ao
valores etnico-culturais
como marca de quem, como dizia a poeta: "possui a estranha
mania de ter fe na vida,,2
2
NASCIMENTO, M. e BRANDT, F. in Maria Maria registrado em disco EMI-1986.
dos
15
CAPITULO.
2.1
2.2
A AFRICA PRE-COLONIAL.
Contexto
Historico.
A Africa
por
desconhecido
discentes.
rarissimas
muitos
nos meios
anos
manteve-se
academicos,
tanto
como
para
nao fazem nenhuma abordagem
fazem, nao apresentam
continente
os docentes
As escolas de ensino infantil, fundamental,
exceyoes,
um
totalmente
como
para
medio e universitario,
do continente
os
em
e quando
0
nada do passado ou presente do povo africano, sua historia,
suas riquezas e os reinos da Africa pre-colonial.
Essa realidade esta fundamentada
historiadores,
que
epistemolagicas,,3,
Eduardo
OLIVEIRA
em alguns fatores e ou posiyoes de alguns
(2003)
definiu
como
"as tres
que tratam do silencio sobre a cultura e os saberes
pelos africanos como legado para a humanidade.
barreiras
produzidos
Ainda, segundo Oliveira, "Hegel
(1770-1831) em seu curso sobre filosofia da histaria, afirmava que a Africa nao tem
histaria" (OLIVEIRA, 2003, p. 24).
Para Hegel,
0 Mediterraneo
seria 0 COrayaO do mundo
antigo,
0 que
0
condiciona e 0 anima, 0 centro da histaria universal, porquanto essa se acha em si
relacionada (HERNANDEZ
apud HEGEL, 2005, p.p. 19, 20). E Hegel escreve ainda
que:
3
Citado em Cosmovisao Africana no Brasil- elementos para uma filosofia afrodescendente (Oliveira, 2003, p.
24)
16
A Europa e a parte do mundo do espirito, do espirito unido em si mesmo, e que tern se
dedicado a realiza,iio e conexiio infinita da cultura. [...] a Asia, e 0 pais dos contrastes
[...] urn dos lados do contraste e a moralidade, 0 ser racional universal [...] 0 outro lado
e a oposi,iio espiritual, 0 egoismo, 0 ilimitado dos apetites e a desmedida extensao da
Iiberdade [... ] (HERNANDES apud HEGEL, 2005 p. 20).
Continuando ainda na analise hegeliana, Hernandez cita:
Encontramos, [...], aqui 0 homem em seu estado bruto. Tal e 0 homem na Africa.
Porquanto, 0 homem aparece como homem, poe-se em oposi,ao a natureza: assim e
como se faz 0 homem. Mas, porquanto se limita a diferenciar-se da natureza, encontrase no primeiro estagio, dominado pela paixao, pelo orgulho e a pobreza; e urn homem
estupido. No estado de selvageria achamos 0 africano, enquanto pudemos observa-Io e
assim tern permanecido. 0 negro representa 0 homem natural em toda a sua barbarie e
violencia; para compreende-Io devemos esquecer todas as representa,oes europeias.
Devemos esquecer Deus e ~ lei moral. Para compreende-Io exatamente, devemos
obstrair de todo 0 respeito e moralidade, de todo 0 sentimento. Tudo isso esta no
homem em seu estado bruto, em cujo carater nada se encontra que pare,a humano.
(HERNANDES apud Hegel, 2005 p. 21).
E Fage
(1980),
analisa
que embora
a influencia
negativa
de Hegel
na
elaborayao da hist6ria da Africa tenha sido fraca, mas a opiniao defendida por ele foi
aceita pelos pensadores
e historiadores
do seculo XIX. Mesmo que essa opiniao
tenha sido anacr6nica e sem fundamento,
segundo Fage, ainda hoje nao deixa de ter
adeptos. Um professor de Hist6ria Moderna na Universidade de Oxford, por exemplo,
teria declarado:
pode ser que, no futuro, haja uma hist6ria da Africa para ser ensinada. No presente,
porem, ela nao existe; 0 que existe e a hist6ria dos europeus na Africa. 0 resto e
trevas ... e as trevas nao constitllem tema de hist6ria. (FAGE, 1980; p.49)4
4
Ainda sobre a cita,iio de Hegel vide: FAGE J. D. - A evolu,iio da historiografia da Africa in Histeria Geral da
c
17
A primeira
(2003), trata-se
tempo
barreira
da negac;:ao
foi se consolidando
A segunda
chamadas
processo
para
culturas,
civilizat6rio.
destituir
valores
isso, na verticalizac;:ao
Sodre
dos seculos
que
da hist6ria
e tornando
barreira
palavras/ideia
determinadas
epistemol6gica
esta
do continente
sensa
comum
fundamentada
que
tem
negando-Ihes
A ideologia
culturais
analisamos
side
qualquer
foi, e tem
de um grupo
side
em
e que,
ideologias,
para
usada,
nas
anular,
possibilidade
ao longo
do
invenc;:6es
excluir
valores
de contribuic;:ao
como
uma
relac;:ao ao outro,
das
de
para
0
poderosa
arma
contribuindo,
com
das relac;:6es.
(1983) faz relac;:ao do uso ideol6gico
citando
africano,
OLIVEIRA
nas academias.
nas
usada
e, conforme
Nietzsche,
quando
do conceito
de cultura
ao
longo
diz:
Provem de Nietzsche 0 comentario ironico de que as classes dirigentes adoram
inventar palavras, nas quais terminam acreditando. Na realidade, por tras de cada uma
dessas "inven90es", ha uma ideia ou ideias que servem a funcionamentos estrategicos
no interior das rela90es sociais. E e dificil encontrar uma palavralideia modema que
nao conte em sua historia alguns milhares de mortos, ou que nao deixe transparecer em
seus produtos os tra90s de destrui9ao de outras organiza90es etnicas ou simbolicas - 0
genocidio se faz altemar por "semiocidios" (SODRE,
1983, p. 7).
Ainda
para Sodre,
o capitalismo, 0 progresso, a civiliza9ao, a cultura ocidental, se toma possivel a partir
do trMico de escravos, da grande diaspora negra. Os vinte milhoes de negros exilados
da Africa para as Americas foram imprescindiveis Ii acumula9ao primitiva do capital
europeu. E isto encontrava imperativos da "Verdade"
produzida pela cultura,
"inven9ao" exportada de Europa para as elites coloniais a partir do final do seculo
Africa Negra, organizado por J. KI-ZERBO (1982, p. 48), contem afirmal'oes como as que seguem: "A Africa
nao e urn continente historico; ela nao demonstra nem mudancr:a nem desenvolvimento. Os pavos negros sao
incapazes de se desenvolver e de receber uma educa~ao".
18
XVllI. Desde entao, essa palavralideia tern estado no centro de projetos, obras, ciencia,
tal e 0 poder da crenl'a que nela se deposita. (SODRE, 1983, p. 8)
Entretanto,
confirmada
a historia da civiliza<;:ao negra
pelos estudos divulgados
africana
recentemente,
tem sua anterioridade
e que tem no cientista
Cheik
Anta Diop (1981)5, como sendo uma civiliza<;:ao das mais antiga do mundo.
Pois seus estudos
sapiens
tem
sua
origem
comprovam
que 0 homo erectus,
no continente
assim como 0 homo
africa no, de forma
que
mesmo
0
e
considerado 0 ber<;:oda humanidade.
Um outro
estudo,
ainda
mais
recente,
vem
de uma eminente
geneticista americana, Rebecca Cann, que desenvolveu
rastreamento
genetico, trabalhando
a origem e grau de parentesco
resultado
0
"marcadores",
comum
importante pesquisa sobre 0
DNA Mitocondrial com
entre os seres humanos
foi que 0 DNA apresentava
alguns
sinais,
a todos os seres humanos.
cientista
0
objetivo de relacionar
ao redor do mundo.
que Rebecca
A partir desse
chamou
0
de
rastreamento,
Rebecca concluiu que todos os seres humanos vem do homo sapiens, os primeiros
homens modern os que apareceram
na Africa ha 180 mil anos, e que descendem
de
uma (mica mulher, que ela chamou de a "Eva Africana"s (CANN, 1987).
Outra informa<;:ao bastante relevante esta na posi<;:aogeografica do continente
e, principalmente,
maior continente
quanto a sua dimensao.
5
0 segundo
do mundo, cerca de 30 milhties de Km2; cobrindo 20.3% da area
total da terra. Tambem
6
Pois 0 mesmo e considerado
e 0 segundo mais populoso
do mundo (com mais de 800
Vide DIOP, Cheik A. Civilization au Barbarie. Paris: Presence Africaine, 1981-citado par LUZ, Marco A .
Vide documentario apresentado peJa National Geografic e publicado ern revista cientifica em 1987.
19
milh6es de habitantes}.
Possui hoje mais de 1.500 idiomas falado no continente.
com grande concentragao,
ainda hoje, de alguns minerios como
cobalto, platina, uranio e petr6leo,
0
E
ouro, diamante,
bem como uma grande diversidade
da fauna e
flora.
Apresenta ainda grande diversidade lingOistica e cultural que OLIVEIRA (2003
p. 24), definiu como "arco-iris" que, para ele, "seria a imagem que bem representaria
a diversidade e beleza onde a multiplicidade
carregada
por seus descendentes
cultural existente em solo africa no e e
para todas as partes do mundo".
Ainda
Elisa
Nascimento (1996)"7, chamou essa diversidade de "mosaico".
o
continente
e composto
por 54 paises, e esta dividido em: Africa Austral,
Central, Africa do Norte, Ocidental e Africa Oriental. A Africa Austral corresponde
paises Africa do Sui, Angola, Botsuana, Lesoto, Madagascar,
aos
Malawi, IIhas Mauricio,
Mogambique, Namibia, Suazilandia, Zambia e Zimbabue, A Africa Central os paises:
Republica Centro Africana,
Republica
Democratica
do Congo, Chade e Congo. Na
Africa do Norte, estao os paises: Argelia, Egito, Libia, Marrocos, Mauritania, Sudao e
Tunisia.
Africa Ocidental corresponde
Camar6es,
aos paises: Benin, Burquina Faso, Cabo Verde,
Costa do Marfim, Gabao, Gambia, Gana, Guine, Guine-Bissau,
Guine-
Equatorial, Liberia, Mali, Niger, Nigeria, Senegal, Serra Leoa, Sao Tome e Principe e
Togo. Na Africa Oriental estao Burundi, Comores, Djibouti, Eritreia, Eti6pia, Quenia,
Ruanda, Seychelles, Somalia, Uganda e Tanzania.
7
NASCIMENTO, E. L. Sankofa: Significados e inten~oes. In Sankofa: matrizes africanas da cultura brasileira,
Rio de Janeiro: Eduerj. Vol I, 1996.
20
Essa divisao, para esta pesquisa e importante, uma vez que vamos trabalhar a
regiao do Sudao Ocidental,
subsaarianos
que corresponde
0 norte do continente
donde surgem os tres principais imperios, desde
0
e os paises
seculo X ao seculo
XVI da era crista.
No entanto, por'se tratar de um periodo e historiografia
de grande amplitude,
nossa pesquisa pautara em uma metodologia e abordagem especificamente
aos
aspectos
economico.
sociol6gicos
Delimitaremos
representados
pelos
poderes
politico,
voltadas
religioso
e
ainda, 0 nosso estudo aos Imperios do Gana do seculo
XII ao XIII e Mali do seculo XIII
ao XVI, sendo 0 primeiro e 0 segundo imperio que
surge no periodo pre-colonial.
Assim, vemos a importancia
em considerarmos
do Ganas do seculo XII nesta pesquisa,
e incluirmos
0
Imperio
devido as condic;:oes e mudanc;:as que
ocorrem na regiao no momenta do seu surgimento.
2.3
Aspectos
Filos6ficos.
Em todas as sociedades,
se estabelece
organizadas
ou nao, em um determinado
momenta
uma relac;:ao de poder, onde, a partir de alguns fatores e realidades
fixam-se algumas regras que disciplinara as ac;:oesdo grupo.
Para os Yarubas, par exemplo, 0 poder esta sempre relacionado com a forc;:adenominada
axe,
cosmovisao".
Muniz complementa
8
que
segundo
Sodre,
que
"0
"e
tambem
um
principio-chave
de
axe implica algo que se pode chamar de
Sobre os Imperios AtTicanos vide: OLIVEIRA, Eduardo (2003); SILVA, Alberto da Costa e. 3' ed. (2006);
NASCIMENTO, Elisa Larkin do (2004).
21
"poderoso" ou "potente", exatamente
realizac;:ao ou
(SODRE, 2002, p. 94). Assim que a amplitude
da
palavra "axe" pode ser mesmo traduzida como "aquilo que deve ser realizado",
da
mesma forma
majoritario
em
engendramento",
por se tratar de uma "forc;:a capaz de levar a
significado
0
Gana
da palavra
e tambem
tuma (forga) em akan (lingua
importante
na Costa
do
Marfim)
do grupo
significa
"a
capacidade de se produzir um efeito buscado" (SODRE, 2002. p. 94).
Ainda buscamos
melhor compreendermos
na profundidade
0 que significa
da cultura
dos Yorubas elementos
0 axe. Para a comunidade
para
dos terreiros 0
axe e a forc;:a que rege toda a harmonia, a relac;:ao que ocorre entre os participantes
das comunidades-terreiro,
yalorixas
10
ou
e destes com as divindades, os Orixas11.
Portanto
baseado
as ia6s9 (filhas e filhos de santo) e os babalorixas
0
axe para essas comunidades-terreiro
na For<;:a Vital12,
tem uma dimensao de poder
na relac;:ao com a transcendencia.
A possibilidade
da
relac;:aodo visivel com 0 invisivel. Ainda conforme Muniz SODRE (2002):
os YoruMs distinguem axe de agbara, que segundo ele, equivale ao conceito corrente
de poder no Ocidente, ou seja, a subordina,iio de urn individuo a outro, por meios
legitimos ou ilegitimos. Poder e na verdade, urn tluxo diferencial de for,as - uma for,a
assimetrica captada por urn equivalente geral, urn ponto centralizador. Agbara e
propriamente poder fisico, enquanto axe e a autoridade emanada de uma vontade
coletiva, do consenso atingido por uma comunidade. (SODRE, 2002, p. 95).
9 Sao as pessoas que entram no processo de
10 Sacerdotes e Sacerdotisas
do CandombJe,
iniciayao do Candomble.
ou como sao comumente
chamados
"Pais e Mae de Santo" au
"Zeladores de Santo",
11 Sao as Divindades cultuadas nos Terreiros de Candomble.
12 Citado par Eduardo Oliveira in Cosrnovisao Africana-Elementos para uma filosofia afrodescendente-2003.
p.
43. Eduardo associ a a FOfy3 Vital aos bantos, porem, nao se restringe a eies, podendo ser encontrada entre os
povosda AfricaOcidentalSetentrional.
22
Portanto, sao as relac;:5es vivenciadas
terreira que encontram
pelos participantes
no espac;:o mitico-sagrado
harmonia na relac;:ao das ia6s com os babalorixas
nas comunidades-
a energia que emana do axe, a
e as yalorixas que, por sua vez,
recebem das divindades, os Orixas.
Nessa relac;:ao, naturalmente,
familias de santo. Isto
divindades-maior,
e,
os babalorixas
atabaques
e yalorixas
existem
(os sacerdotes
par todos os preparativos
as ekedes, que sao responsaveis
dos santos.
as hierarquias das chamadas
dentra das comunidades-terreira
maes pequenas, responsaveis
quarto (ronc6)
sao estabelecidas
os Orixas, as
e sacerdotisas).
As
das comidas dos "santos";
pela organizac;:ao do espac;:o-mitico-sagrado,
Os Ogans
13
responsaveis
nas giras e festas na casa. A hierarquia
pela musica,
se completa
0
0
toque dos
com os demais
participantes, os cham ados filhos e filhas de santo.
Na cultura
africana
essa
relac;:ao do
axe-forr;a-poder
vivenciada pelo principio da relac;:ao com 0 todo - 0 uno
devir do cotidiano
da vida africana. Assim
e
e
-
e
Forc;:a Vital,
0 todo, 0 todo
e
0 uno.
Eo 0
a relac;:ao homem-espac;:o-tempo,
a
natureza que se completa com a vitalidade universal na ancestralidade.
2.4
Conceito de Ancestralidade.
Novamente
nos pautamos
conceito da ancestralidade.
na cultura yorubana
para discorrermos
sobre
Os povos Yorubas, como quaisquer outras do continente
africano, acreditam em uma existelncia ativa dos antepassados,
agbagba.
pelos toques dos atabaques, dentre e1es existe 0 Alabe, que tern uma relm;ao mais direta corn os
instrurnentos, a afinayao, a manutenyao, a alimentay30 desses atabaques.
13 Responsavel
0
23
Estes tem convicc;:ao que a morte nao determina
0 tim da vida humana,
mas
que ha uma continuac;:ao da vida terrestre em outra realidade do alem tUmulo. Para
eles, os Yorubas, este tipo de vida nao se constitui como a que vivemos aqui neste
plano, pois e desprovida das partes fisicas e tangiveis de que 0 homem e composto.
Mas, segundo BENISTE (2006), "ha, porem, um elemento intangivel
e indestrutivel
que subsiste a morte fisica. Eo 0 que se den om ina de ori inu" (BENISTE, 2006, p. 22).
Beniste nos apresenta no mito da criac;:ao na cultura yorubana e sustenta:
que a forma fisica do homem ara foi modelada do barro primordial por OsitiA.Ap6s
isto, Ol6dumare soprou 0 seu halito divino emi no homem como forma de animar a
materia e possibilitar 0 espirito iwin atuar neste corpo. Alem desses elementos, recebe
aquilo que se entende por essencia da personalidade ori inll. E isto que govema 0
corpo, controla e guia a vida e as atividades de uma pessoa. (BENISTE, 2006, p.
22).
Eo dessa maneira, segundo Beniste, que sempre que um ser humane tiver que
chegar
a
vida sera dotado de imi e ori inu alem do corpo fisico. Quando morrer,
essas essencias
nao perecerao
e sim retornarao
a O/6dumare,
pois sao imortais,
poderao vir animar outros corpos num processo de ida e vinda denominado
Assim e que, segundo
Beniste, a religiao para os Yorubas,
atumNa.
salienta que "a
reencarnac;:ao como continuac;:ao da vida no futuro, nao e muito diferente do modo
como vivemos"
(BENISTE,
Beniste, um antepassado
2006, p. 22). Portanto,
do ponto de vista literal, para
e alguem que uma pessoa tem descendencia,
seja da
linhagem paterna ou materna, em qualquer periodo do tempo.
Portanto,
trata-se
de pessoas
especiais,
que para Beniste,
quando
vivas,
"atingiram uma invejavel velhice, deixaram bons filhos, boas obras e recordac;:6es
24
positivas. Assim sao esses antepassados
que continuarao
a manter-se
que merecerao ritos funebres condignos e
em contato
com os familiares
mediante
oferendas,
preces, e orikl' (BENISTE, 2006, p. 22).
Estes terao privilegios de ir para "orun baba eni (0 ceu do seu pai)" (BENISTE,
2006), porem, nao sem antes passar por uma especie de julgamento
de tudo que tenha feito na terra, conforme
um proverbio
YoruM
gbogbo tf a ba se laye, la o6kune ro 16run (tudo 0 que fazemos
para dar conta
que diz: "Qhun
na Terra, dames
conta de joelhos no Ceu) (BENISTE, 2006)".
2.5
0 Conceito etico e moral da cultura Yoruba.
Dentro da cultura Yoruba existem algumas normas de moralidade
que possuem varias interpretagoes.
originarias
da sociedade
e sangoes
Ha aqueles que afirmam que essas normas sao
e que para mante-Ias
vivas
ha todo
um sistema
de
autopreservagao.
Q sentido do dever, por exemplo, seria um complexo de habitos residuais que
a sociedade implanta enquanto educa e alimenta 0 homem. Qutros a interpretam que
a moralidade e fruto da necessidade do homem de adaptar-se a seu meio com aquilo
que podera
ser feito e 0 que precisa
ser evitado.
Dai que 0 acumulo
dessas
experiencias
durante um longo periodo de tempo resultou num forte senso do que 0
africano entende como "certo ou errado".
Para
moralidade
os
Yorubas,
como
para
e fruto da religiao apoiado
outros
povos
no pensamento
do
continente
africano,
a
de que Deus ao criar 0
25
homem, naquele momento, implanta nele 0 conceito de "certo ou errado". "Portanto,
os africanos dizem
ewe
moral" (BENISTE,
2006).
desrespeito
a
mulher,
para as coisas proibidas e j , ewe para os atos de ruptura da
Uma pessoa
quando
e j ,
ewe
usa de violencia
quando
contra
sabedoria e quando quebra ou falta com 0 cumprimento
comete
adulterio
ou
um anciao,
simbolo
de
de uma promessa.
Assim e que, para Beniste, e esse Deus - 016dumare - que, em lugar de
ajudar 0 homem na vida etica, colocou
corayao" (BENISTE,
2006).
nele 0 /fa Aya - "0 oraculo que esta no
E este oraculo e que vai guiar e determinar
sua vida
etica. Logo, uma pessoa pode ser boa ou ma de acordo como ela atende
desobedece
a orientayao
do seu oraculo interior. Dai a expressao
yorubana
ou
para
definir uma pessoa insensivel e perversa -"K6 ni itiju ki ni ita aya ("ela nao tem sensa
de vergonha; ela nao tem nenhum oraculo no corayao") (BENISTE, 2006).
Entao, para os povos do continente
mais e do que a consciencia
africano, este oraculo do corayao
nada
de uma pessoa, ou seja, a Lei de Deus escrita no
corayao.
1550 dentro do sistema etico yoruba, esta baseado em uma promessa
desempenha
um papel importante.
de orisa-pessoa,
No conjunto pessoa-pessoa
essa promessa e denominada
ou grupo-pessoa
de imulfi - literalmente
junto a terra". Beniste afirma que a origem desse comprometimento
que
e
"bebendo
esta num ritual
assim conhecido: um buraco raso e cavado no solo; dentro coloca-se agua e um obi
(noz de cola). As duas pessoas que estao fazendo a promessa ajoelham-se
frente a
frente e 0 buraco entre elas. E uma delas diz: "Oh terra ... presida esta promessa que
fazemos; se eu quebrar a promessa, que eu seja levado pela terra!".
Ap6s essas
26
palavras, se curva e bebe um pouco d'agua do buraco e em seguida
pedac;:o de obi. A outra pessoa repete 0 gesto e a promessa e concluida",
2006, p.p .. 23, 24). Portanto, esse ritual funciona como um juramento
ambos se comprometem
com
0
come um
(BENISTE,
sagrado, que
risco de a terra levar-Ihes caso a promessa
seja
quebrada.
Um outro componente
importante
da etica yoruM e a solidariedade.
Outro
ditado popular yoruba revel a isto: "Iyan ogun odun a maa j6 I ' 6w6 ("um pedac;:o de
inhame de vinte anos atras pode servir para ser tocado"), que significa que um ate de
hospitalidade
pode ter retribuic;:ao vinte anos mais tarde. Ao contra rio, a perversidade
e francamente
condenada.
De forma que Enitf 6 ba da
eru
to ("as cinzas sopram
atras da pessoa que as atira"), numa alusao ao efeito da perversidade
voltando
contra quem as praticou.
Assim que a bondade,
identificam
com
determinado
experiencia
0
pelo
a honra e 0 dever de respeitar
ate da bondade.
privilegio
por
Omode e wole fagM
os mais velhos se
0 respeito do mais jovem ao mais velho e
antiguidade,
assim
como
por
causa
("jovens obedec;:am a seus anciaos").
de
sua
(BENISTE,
2006).
Dessa forma todos os adultos sao responsaveis
independentes
pela educac;:ao das crianc;:as,
de um vinculo de parentesco ou consangOinidade.
um respeito mutuo, po is estes e os jovens serao os continuadores
Da mesma forma, esse respeito
se estende
11 mulher,
Por outro lado, ha
do grupo cliinico.
que na sociedade
africana ocupa uma posic;:ao privilegiada. A mesma e comparada a terra, pois ambas
27
geram
vida.
Dai
que, tanto
a mulher
quanta
a crian9a
e que
possibilitam
a
ancestralidade.
Portanto, entre as povos do continente africano, quando homens e mulheres
andam juntos,
a mulher
deve ser permitida caminhar na frente e a homem atras dela,
como forma de prote9ao e apoio diante de um perigo subito e eminente. Em qualquer
crise, as mulheres devem ser defendidas e que possam escapar na primeira chance,
se for preciso.
Pelo menos, estas foram realidade que pudemos observar, in loco, quando em
visita, em 199B, em Accra atual capital de Gana. 0 comportamento
rela9ao
a
mulher, a crian9a e aos jovens demonstra
comprometimento
com a constru9ao
dos homens em
que ha par parte destes um
de uma base s61ida no seio familiar,
que
garantira a ancestralidade.
De forma que a rela9ao de poder vivenciado
XII e XIII teria como principia
espiritual e comunitario.
a harmonia
Sempre respaldado
nos reinos africanos do seculo
do todo, do bem estar clanico-social,
na cultura e costume yoruba, mas que
observada par todos as africanos.
o poder
do rei era legitimado, respeitado e aceito pela sua capacidade de bem
conduzir e administrar as interesses e conflitos de seus suditos.
Para Foucault,
lei au a repressao.
0
poder nao pode nunca ser representado
Muitas vezes a mesmo
se apresenta
pela imposi9ao da
como
uma forma
nao
juridica do seu exercicio.
Entretanto, as teorias que tiveram origem dos grandes pensadores
do seculo
XVIII, "definem a poder como direito originario que se cede, se aliena para constituir
28
a soberania e que tem como instrumento privilegiado 0 contrato; teoria que em nome
de um sistema juridico,
criticarao 0 arbitrio real, os excessos,
os abusos de poder"
(FOUCAULT, 1979, p. 15)14
o
objetivo que move 0 pensamento
de Foucault e mostrar que em uma rela<;:ao de
poder nao se da fundamentalmente
pelo exercicio
do dire ito, nem da violencia;
poder nao precisa, necessariamente,
estar respaldado em um contrato, nem na for<;:a
0
da repressao.
Isto, via de regra, nos remete a um conceito
negativo de poder que, ainda
segundo Foucault, "identifica 0 poder com 0 Estado e 0 considera essencialmente
como um aparelho repressiv~,
no sentido em que seu modo basico de interven<;:ao
sobre os cidadaos se daria em forma de violencia, coer<;:ao, opressao" (FOUCAULT,
1979, p. 15). Por outro lado, se op6e e ou acrescenta,
uma concep<;:ao positivada
que visa a dissociagao dos termos dominagao e repressao.
Nas sociedades dos imperios africanos percebemos
acontecia, exatamente
que naquela
mesmos
regida por esses principios.
rela<;:ao nao houvesse
eslariam
represenlados,
os conflilos.
por
um
soberanos, que, de certa forma, conlrolavam
imperio. E por outro, a macropressao
lade
que essa rela<;:ao de poder
Entretanto,
nao se pode inferir
Sim eslavam
presenles,
e os
micropoder
exercido
pelos
0
a riqueza do reino na adminislra<;:ao do
presenle no jogo de interesses, denlre os quais
as diferentes etnias que faziam parte da eslrutura social do imperio.
Havia ainda,
dominic
os grupos
do terrilorio,
alraido
que se movimenlavam
especialmenle
pelas
pela regiao e visavam
riquezas
existenle.
0
Eslava,
14 FOUCAULT, M - Microfisica do Poder- Org. E traduzido por Roberto Machado. Rio de Janeiro. Graal, 2006.
22a edi((ao.
C
29
sobretudo, no projeto de expansao das tradic;:6es e crenc;:as islamicas, uma constante
ameac;:a a soberania do rei no.
Quando nos referimos ao Imperio, reino ou cidades-estado,
do espac;:o de onde se administrava
do imperador.
estamos tratando
toda regiao que se encontrava
Dai entao 0 micropoder,
por estar centralizado
sob os dominies
em uma pequena
cidade, mas com uma abrange!ncia do seu poder, da sua administrac;:ao que cob ria
toda a regiao.
Entretanto,
conforme
0
os
imperadores
sabiam
como
administrar
os conflitos,
po is
conceito de poder defendido por Foucault para manter soberania:
o que interessa basicamente nao e expulsar os homens da vida social, impedir 0
exercicio de suas atividades, e sim gerir a vida dos homens, controla-los em suas a90es
para que seja possivel a viavel utiliza-los ao maximo, aproveitando suas
potencialidades e utilizando um sistema de aperfei90amento gradual e continuo de suas
potencialidades. (FOUCAULT, 1979. p. 16).
Assim os soberanos agiam exatamente
proporcionando
0 bem
estar
social
no sentido de bem administrar
dos suditos
e, em alguns
os conflitos
casos,
com
a
distribuic;:ao de algumas benesses.
Assim 0 micropoder
dos soberanos
africanos,
estava relacionado
ao poder
centralizado e exercido pelo imperador e outros poucos cidadaos do imperio, quando
este Ihes delegava 0 poder de administrar
0 gerenciamento
cobranc;:as de tributos. Da mesma forma, antagonicamente,
representada
regiao.
no comercio
e ou as
a macropressao
estaria
no jogo de interesse de dominac;:ao e expansao
religiosa presente na
30
2.6
0 Imperio
de Gana.
A regiao do deserto do Saara era tido como terra de ninguem. 0 mesmo era
ocupado pelos tuaregues e berberes, povos n6mades que se aventuravam
10 em sua travessia,
correndo serios riscos nas areias escaldantes
frio da noite. Mas com
0
surgimento
dos dromedarios
0
durante 0 dia e 0
e sua adoc;:ao como meio de
transporte toda a realidade da regiao pass a por importantes
seus usuarios que se espalham por todo
enfrenta-
mudanc;:as beneficiando
deserto.
Os que 0 adotam vao aos poucos dominando a regiao, tornando-se
do imenso mar de areia, pedras, das raras e rudes pastagens
desde
0
senhores
existentes
que vai
"Mar Oceano; do Adrar dos Iforas ao Tuate, mais ah§m, no Hagar e no Air,
cobrindo outras partes - e dos oasis agricolas,
e
dos roteiros dos poc;:os", (SILVA,
2006, p. 268).
A posse do camelo mudaria a vida dos tuaregues e berberes, povos africanos
que viviam
'Barbarus".
na regiao norte do continente.
E
0 termo "berberes"
uma denominac;:ao dos romanos, sobretudo,
provem
do Latim
os cristaos, para designar
os povos que nao faziam parte da sua civilizac;:ao, como "Barbaros", nao civilizados,
pagaos.
Com 0 usc do dromedario,
deserto em toda sua vastidao,
possibilitava
aos berberes
melhor
e foram, aos poucos, marcando
poc;:os d'agua e dos oasis. Isto possibilitou
Mediterraneo e 0 pais dos negros.
tambem
encurtar
explorar
a existencia
a distancia
0
dos
entre 0
31
Essa nova realidade fez com que os berberes passassem,
nao s6 praticar um
comercio mais intenso, como tambem, servir de guia e prote<;:ao para as caravanas
e, mais tarde, passaram a ter na pilhagem nova modalidade
de aquisi<;:ao de bens e
riquezas.
o
poucos
uso do camejo ampliou
abandonaram
as possibilidades
das tribos
a obediEmcia aos viajantes
do deserto
pr6ximos dos oasis e passaram
a atacar os vilarejos
nomades
que aos
e dos moradores
e suas lavouras
na regiao
ocupada por romanos, no sui da Libia e no Magrebe ou aos povos negros que viviam
ao longo da faixa do estepe, das savanas ao sui do deserto, do Atlantico ao Mar
Vermelho.
Em ac;:oes rapidas,
assalto os bens,
0
estes atacavam
Duro que transportavam
0 vilarejo
ou caravanas
e rapidamente
voltavam
tomando
para
0
de
deserto,
sem que houvesse tempo para uma rea<;:aode defesa.
Alem dos berberes e tuaregues, povos que habitavam
soninques
ou saracoles,
0
deserto do Saara, havia os
que eram os povos da regiao setentrional
familia mande. Eo bem provavel que estes ocupassem,
extensao do Saara Ocidental e que conviviam
pertencente
no passado,
uma grande
com os antigos habitantes
ocupavam grandes areas que, depois de um certo tempo, desertificaram
a
negros e
na Tagante
e no Adrar mauritano.
Segundo SILVA (2006), alguns fatores e objetos como a "ceramica, 0 desenho
dos vilarejos
a forma
e as estruturas
populac;:6es negras refugiadas
das casas,
assim
nos oasis da regiao, falassem
como
0 fato
dessas
um dialeto soninque"
(SILVA, 2006, p. 274) - tudo faz sugerir que seriam estes saracoles os responsaveis
32
por Dhar Tichitt. Donde se conclui que, ali logo ao norte do que viria a ser 0 nucleo
do estado de Gana e que e datada entre 800 a 300 a.C., e onde se desenvolve
um
avan9ado sistema politico, um estado com forte chefia que aglutinava varias aldeias.
Assim que a regiao ocidental
Nigeria, Costa do Maiiim,
subsaariana
compreendia
Mali, Niger e Mauritania.
os paises:
Gana,
Na outra extremidade:
Egito,
Ubia, Argelia e Marrocos. De forma que a situa9ao geografica da regiao possibilitou
o desenvolvimento
Mediterraneo
de um comercio intenso envolvendo
0 Oceano Atlantico,
0 Mar
ate 0 mar Vermelho numa liga9ao direta entre a Europa ao Saara e a
Africa negra.
Isto proporcionou
a regiao do Sudao Ocidental, 0 surgimento
reinos, resultado do comercio transaariano
Essa realidade
apontam
comercial
de numerosos
que 0 usa do camejo tornou possivel.
tem uma data9ao bastante antiga, alguns registros
que a partir do final do seculo
nos
III da era crista, 0 Duro em pequenas
quantidades, come90u atravessar 0 Saara, vindo dos paises dos negros.
Havia uma certa debilidade
quanto ao usa do camelo, 0 mesmo era usa do
para a travessia do deserto, porem nao se adaptava ao clima da savana. Assim as
mercadorias
transportadas
teriam que ser transferidas,
no Sael, para lombos dos
bois ou dos jumentos.
Por essa razao, criou-se 0 entreposto e surge a figura dos atravessadores
impedia os cameleiros
trocar suas mercadorias
diretamente
com os catadores
que
de
ouro, cujas minas ficava mais ao sui, sobretudo na regiao dos rios Faleme e Senegal.
Desse pequeno
e timido
comercio
nos postos
aldeias em grandes centros de comercializa9ao,
de trocas,
transforma
riqueza e poder.
pequenas
33
Cada entreposto, centro de poder procurava, para fortalecer-se,
defender e ter
controle desse comercio, ter acesso as salinas do deserto e as minas de ouro do sui,
ou pelo men os, dominar os principais pontos de passagem das caravanas ou outros
postos.
Pois
a regiao
prosperava,
assim
como
todas
as atividades
ligadas
a
chegada, ao recebimento, a hospedagem e a partida das caravanas.
Quanto ao comando das rotas do deserto e dos pontos de paragem, os oasis,
ponto de repouso, estavam sob 0 dominio
regiao,
dominavam
0
fornecimento
de
dos berberes - estes, por conhecer
camelos,
ofereciam
guias
das
a
cafilas,
cobravam proteyao armada aos caravaneiros e 0 direito de usar a rota.
Assim, e nesse contexto que comeya surgir no final do seculo X
0
Imperio de
Gana. Entretanto, 0 comercio nao e 0 unico fator que contribui para 0 surgimento
do
Imperio Ganes. Ainda segundo Oliveira, 0 fator principal esta no forte movimento
migratorio para 0 sui da Africa. A hipotese defend ida por Eduardo OLIVEIRA,
que "os povos que viviam
escravizayao,
ao sui do Sudao
Ocidental
fugiam
do processo
seja migrando para outras regioes ou se organizando
estatais, que da origem 0 Imperio de Gana" (OLIVEIRA,
e de
de
em estruturas
2003, p. 29). Outro fator
importante, ainda segundo Oliveira, e a expansao arabe e a imposiyao do islamismo,
de forma que
0
surgimento do Imperio Ganes funciona como uma "barreira protetora"
contra a expansao islamica.
Portanto,
0
Imperio
de Gana,
pela sua
posiyao
geografica
possibilita nao so 0 comercio, mas tambem, 0 desenvolvimento
com produyao
farta, permitindo
um alto padrao
privilegiada,
de uma agricultura
de vida a todos, tanto para os
34
agricultores quanto aos pastores. 0 povo nao padece de miseria - cada urn participa
do contexte social de forma igualitilria.
A nobreza vive urn padrao urn pouco rna is elevado em funyao do controle da
produyao do ouro, com a cobranya das taxas estabelecidas
denominado
0
pelo rei ou imperador,
"senhor do ouro". Sao os impostos que faz a riqueza do Imperio do
Gana. Entre os produtos que se comercializa estao as riquezas minerais, agricolas e,
principalmente,
0 sal, que era artigo raro, cujo valor equiparava-se
ao oura. Muitas
vezes era tracado em Gana pelo mesmo valor do oura ou pelo dobra.
Gana contava com a tributayao do comercio para manter a administrayao
reino e, tambem,
distribuiyao
conseguir
a forya de urn exercito
de dadivas,
e conservar
administradores
grandes
somas
a obediemcia
permanente.
A estes 0 imperador
aos seus suditos
e lealdade
mais
do
fazia
pr6ximos
para
alianyas
com
ou para manter
regionais e reis menores. Por isso, conforme Silva,
cada carga de sal, por exemplo, proveniente de Trarza, da regiao costeira, ou de
Tagaza,no Saara,cobrava-seum dinar (equivalentea 4g de ouro) de tributayao ao
entrarem seusterritorios, e dois, it saida. Da mesmaforma que setaxavamascargasde
cobree outrasmercadorias,(SILVA, 2006, p.285)
o
poder do Imperador e soberano,
sistema caracteristico
estabelecido
porem sua administrayao
obedece a urn
de comum acordo com a populayao,
0
"regicidio",
que e a 16gica politica dos governos africanos (ZIEGLER, 1972)15.
15 Citado par OLIVEIRA in Cosmovisao Africana no Brasil-Elementos
2003. p. 32.
para uma filosofia afrodescendente,
35
Nesse
sistema
0 povo
tem um 6timo
padrao
de vida,
diferenc;:as sociais, a participac;:ao na divisao e proporcional
nao ha grandes
aos bens produzidos.
Assim todos vivem bem, nao ha miseria.
Se, por ventura,
produzidos
e sua
houver
qualquer
distribuic;:ao e,
populac;:ao, 0 soberano
desequilibrio
nessa
relac;:ao dos
conseqOentemente,
afetar
0
podera ser destituido
qua-non manter 0 "regicidio",
do poder. Portanto,
para que a harmonia
bem
estar
bens
da
e condic;:ao sine-
na relac;:ao de poder nao seja
comprometida.
2.7
Dominio
o
e Decadencia
dominio
do Imperio do Gana.
do Imperio de Gana acontece
do final do seculo XII e inicio do
seculo XIII. 0 poderio de Gana atingiu seu apogeu ocupando uma area de influencia
setentrional com abrangencia desde 0 Tagante e do Haude (SILVA, 2006). Mas para
manter 0 poder 0 imperador contavci com um forte contingente
militar que somava
mais de 200 mil homens, dos quais quarenta mil eram os temidos arqueiros, capazes
de decidir batalhas importantes.
Entretanto, a tensao constante exercida pelos arabes representada
militar dos Almoravidas,
da mesma forma intensifica
inimigos para combate-Ios.
0
poder dos Malinkes,
De forma que colocava 0 Imperador
especie de fogo cruzado presente na regiao.
pela forc;:a
seus
do Gana em uma
36
E foi em um determinado
momento,
numa investida
dos arabes, tendo os
berberes como fon;:a base do exercito almoravida, estes imp6em um ataque violento
sucumbindo e vencendo as for<;:asdo senhor do Gana.
Porem, nao e a estrategia militar a principal arma de combate ao exercito de
Gana, a forma escolhida tambem, foi a pressao exercida na expansao do islamismo,
impondo conversao e alian<;:a com outros povos que tin ham interesses comuns. Os
proprios Almoravidas
que pertenciam as tribos n6mades.
Os Azenegues,
o comercio
escravo
povos que detinham 0 controle do trafico de prisioneiros
com 0 Marrocos.
Havia
os povos
de Takrur
interesses em combater os Maninkes, aceitando aderir e converter-se
para
que tinham
ao islamismo
compondo as for<;:asdo exercito arabe para, juntos, com bater as for<;:asdo Imperio de
Gana.
Quando
nos referimos
necessario ampliarmos
ao comercio
de escravos,
a questao para esclarecermos
nesse
periodo,
se faz
a sua dinamica e qual era a
rela<;:aodo proprietario e 0 escravizado no processo.
Segundo Oliveira, "havia escraviza<;:ao na Africa setentrional antes da chegada
dos arabes e dos europeus" (OLIVEIRA, 2004. p. 26). Mas, ainda para Oliveira,
havia diferenl'as notorias entre 0 que se chama de escravidao africana antes e depois da
invasao islamica e europeia. Antes da formal'ao dos grandes imperios, na regiao ao suI
do Saara, tinhamos 0 deslocamento de populal'oes inteiras, que procuravam outros
territorios para ocupar, 0 que provocavam guerras etnicas entre os clas, familias-aldeia
ou cidades-estado. Desses confrontos resultavam os prisioneiros de guerra, que, dentro
da visao de mundo africana, nilo eram obrigados a rejeitar seus deuses, perder suas
Iinguas ou alterar seu modo de produl'ao. 0 "escravo" se integrava ao cIa, familia ou
cidade-estado. Ou seja, havia 0 Patriarca, os Empregados e os "Escravos"
(OLIVEIRA, 2004. p.p. 26,27).
37
Portanto,
havia grande
diferenc;:a entre esse sistema
e como 0 que ocorreu
na
escravizac;:ao nas Americas. Na Africa pre-colonial, nem mesmo 0 conceito "escravo"
poderia ser usado, e sim, conforme Basilele Malomalo, "0 cativo da casa, da terra"
(MALOMALO,
2006. p. 74).
Esse cativo, para Malomalo; era em func;:ao da guerra;
pelo emprestimo nao pago, logo por divida. Assim, 0 cativo da casa, da terra, poderia
ser um estranho,
um nao parente,
mas tambem
poderia
ser do mesmo
nucleo
familiar. Portanto essa situac;:ao de cativo da casa, da terra, duraria ate 0 pagamento
da divida,
que era estabelecida
pelo grupo
cli'mico-nacional
ou pelo
credor".
(MAMALO apud MELTZER, 2004, p. 231).
Meltzer citando 0 antrop610go Paul Bohannon diz que 0 escravizado:
Era uma especiede parente- com direitos diferentesdos outros parentes,diferentes
posi90eSna familia e no lar, Mas, no entanto, uma especiede parente (...) esses
escravosde fate trabalhavam- geralmente 0 trab<tlhomais pesado- mas tambern
casavam-se,inseriamsuasfamilias no grupo social e formavam uma parte legitima da
familia ampliada(apud BOHANNON, 2004, p. 231-2) .
o direito
do escravizado
para Meltzer vai muito mais alem, pois, segundo ele,
R. S. Rattray, um estudioso dos Ashanti, afirmava que esse grupo etnico-nacional
da
fioresta tinha a seguinte concepc;:ao:
Urn escravo podia casar-se,0 mesmo poderia ter propriedade; ele mesmo possuir
escravo;prestarjuramento; sertestemunhacompetente;e por tim tornar-seherdeirode
sell senhor.(...). Em poucaspalavraseramestesos direitos de urn escravoashanti.Em
muitos casos pareciam praticamenteos mesmosprivilegios normais de urn homem
livre ashanti (...) nove de cada dez escravosAshanti possivelmentetomavam-se
membrosadotadoda familia; e seusdescendentesmisturavam-see casavam-secom
parentesdo proprietario, de modo que s6 algunsconheciamsuaorigem. (MELTZER
apud RATTRAY, 2004, p. 235-36).
38
De forma que a forya numerica dos exercitos que se formavam
do imperio,
presume-se
que eram compostos,
em sua grande
para a defesa
maioria,
prisioneiros que, como escravos, serviam 0 rei ou Imperador defendendo
e seu patrimonio.
Mas, como ja analisamos
por ex-
0 territorio
os mesmos gozavam de prestigio e ate
eram agraciados pela sua dedicayao.
Assim
que,
com
0
conjunto
de forya,
formado
pelos
almoravidas,
os
azenegues, em varias investidas impoe a derrota completa de norte a sui do Imperio
do Gana dominando
0 Sudao
Ocidental,
ate conseguir
atingir a capital depondo
todas as foryas do imperio.
Esta invasao foi fatal para 0 Imperio do Gana. Desorganizado,
em uma quantidade
independencia,
de pequenas cidades-estado,
0 Imperio do Gana desaparece.
soberania fica na memoria dos historiadores,
desmembrado
que reclamam e conseguem
sua
Somente sua gloria de tempos de
ate que um novo imperio, forte e novo,
vai ocupar seu lugar: 0 imperio do Mali
Entretanto, esse avanyo das foryas Almoravidas,
no imperio
conquistando
contra
de
Gana.
Liderado
por Yusufe,
em
nao esta presente somente
1082,
este
avanya
tambem
Ceuta e 0 estreito de Gibraltar, levando, por tres vezes, a guerra santa
os cristaos
comando, em 1094.
da Espanha,
colocando
toda
a parte
muyulmana
sob seu
39
2.8
A Queda do Imperio de Gana.
A queda de Gana se confirma finalmente,
com a perda do dominic
completo
do comercio da regiao e a morte de seu ultimo imperador Abubacar, vencido pelos
Almoravidas.
0 comando do exercito arabe pass a todo para as maDs de Yusufe.
partir dele, que comelfa se estabelecer
E, a
uma nova forlfa imperial na regiao, que seria
mais tarde, conhecido como 0 Imperio de Mali.
A empreitada
dos Almoravidas
comelfa por deixar marcas
permanentes
regiao do Sae!. "A influencia e 0 temor exercido pelos Almoravidas",
Paulme em Les Civilization
Africanes,
P.U.F.;
1956, "Ievaram
na
descreve Denise
a islamizalfao
ao
menDs nominal a certos povos que viviam pr6ximos aos seus contatos: "Toucouleur",
Saracolles, Diulas, uma faclfao dos Mandingas.
Contribui, em primeiro lugar, com a islamizalfao
Sudao Ocidental, principalmente
das populalf6es
do norte do
os soninques, que seriam, mais tarde, os principais
e fervorosos catequistas.
Depois imp6e 0 desequilibrio
Sael,
substituindo
as terras
entre a agricultura
destinadas
ao cultivo
e a pecuaria que existia no
de cereais
pastoreio. Essa atividade contribuiu para a desertificalfao
por campos
de
da regiao do Sae!. 0 que
antes era a savana torna-se deserto.
Os azenegues, tambem impuseram suas culturas, convertendo
vida alguns nucleos negros, que abandonaram
aderiram ao nomadismo.
a seu modo de
a lavoura pela crialfao de gado e
40
Porem, a expansao
do islamismo
Gana, de fato, por motivos
ao mesmo
nao chega atingir a todos no imperio do
tempo de prestigio
e diplomacia,
alguns
registros leva-nos concluir que 0 mesmo estava presente somente entre a nobreza.
Enquanto que a maior parte da popula9ao, 0 povo permanece fiel aos antigos
costumes
e a religiao tradicional.
compunha
Ate porque, os que viviam
a area rural continuavam
fieis e mantendo
nos espa90s
seus valores
que
culturais
e
religiosos.
2.9
SINTESE.
o
primeira contato de Gana com os europeus foi no ana de 1470, quando um
grupo de portugueses
desembarcou
na costa e come90u
"Elmina". Em 1482, os portugueses construiram
se tornou uma importante
dominaram
Accra.
Durante
suecos, dinamarqueses,
feitoria permanente.
os tres seculos
holandeses
negociar
0 Castelo de Sao Jorge da Mina que
Em 1557 a 1558, os portugueses
seguintes
os ingleses,
e alemaes controlaram
portugueses,
varias partes da costa
de Gana, naquele tempo, cham ada de Costa do Oura Portuguesa.
cedida aos holandeses.
com 0 Rei de
Em 1642 foi
No inicio do seculo XIX, os ingleses conseguiram
toda a Costa do Oura, tornando-se
dominar
uma colonia, afastando todos os concorrentes
europeus e derratando os reinos existentes (Iocalizados no interior do Pais).
C
41
2.10
A Gana da Atualidade,16.
o Ghana 17 da atualidade
faz limite ao norte com Burkina Faso, ao leste com
0
Togo, no sui faz divisa com 0 Golfo da Guine e a oeste com a Costa do Marfim. Sua
atual capital e a cidade de Accra.
Ghana tornou-se independente
do Reino Unido em 6 de maryo de 1957, que
se deu devido as indicay6es que os atuais habitantes descendiam
se movimentaram
do sui do Imperio do Gana. Sua moeda hoje e 0 Cedi.
Com sua independencia
independente
outros".
para governar
com 0 lema: "e melhor ser
bern ou mal, do que ser govern ado pelos
Uma das partes interessante
da hist6ria do Ghana e 0 retorno de afro-
ex-escravizados,
inicialmente estabeleceu-se
recursos
0 pais foi renomeado
sozinho,
brasileiros,
o
formando
uma
comunidade
Ghana e urn pais muito rico e tern como base da economia
naturais.
Os principais
itens de exportayao
continuam
Taborn,
que
a extrayao de
sendo
0
ouro
a madeira, 0 cacau e possui uma industria
de tecelagem que domina os mercados dos paises vizinhos.
17
chamada
na capital Accra, no bairro Jamestown.
(existente ainda em grande quantidade),
16
de imigrantes que
Disponivel em http://pLwikipedia.org/wiki/Gana,
acesso em 09/0212008.
Com a independencia foi adotada essa nova gratia.
42
II CAPITULO.
3.1
IMPERIO DO MALI.
3.2
Das Grandes Federa!{oes
Tal como descrevemos
as Dinastias.
na decademcia do Imperio do Gana, derrotado por um
conjunto
de fon;:as que se uniram
objetivos
comuns.
Estes
mesmos
Ganes, por estar ja familiarizados
levados
grupos
por interesses
responsaveis
diversos,
pela queda
com a regiao e, principalmente,
mas,
com
do Imperio
com 0 comercio
intense que se praticava, aos poucos foram tambem se apropriando
das principais
rotas existentes.
Muitas das antigas rotas do comercio transaarianas
proveniente
da Argelia,
Mauritania passando par Mali iam ter no cotovelo do Niger, onde 0 rio abandon a em
diregao nordeste e desce em diregao ao sui, a sua margem esquerda, erguer-se-ia
a
cidade de Gao de onde, passando
0
por Nyamey,
com facilidade
se alcangava
ocidente, Gana e Tacrur.
Para
0
oriente,
em
rota
contraria,
chegava-se
ao
Takedda,
onde
se
encontrava importante mina de cobre e sal. Pr6ximo dali, a cidade de Bilma, que se
extraiam a pedra-ume. De Bilma podia-se atingir Fezzan; Air ate 0 Lago Chade.
Essas rotas ja contavam
com comercio
estabelecido
onde se comprava
e
vendia-se de tudo. Pastores trocando gada por graos de cereais, cultivados pr6ximo
do Niger, negros e berberes transportavam
para outros mercados
ouro, pimenta-
43
malagueta, am bar, alumen, sal, 0 cobre, tamaras, os tecidos, artefatos de couro. Ate
mesmo cavalos, que poderiam ser trocados por escravos.
A regiao, subitamente,
onde com certa rapidez,
se enche de vida com a movimentac;;ao constante,
comec;;am surgir os vilarejos
que logo transformam
grandes cidades ou estac;;6es de repouso dos viajantes e das caravanas.
em
Ali surge
tambem uma nova modalidade de transporte com os barqueiros que viviam da pesca
ou outros recursos
do rio, com suas pirogas
agricultores ou do comercio estabelecido
Os povos recem-chegados,
senhores, misturando-se
que se colocavam
a servic;;o dos
as margens do Niger.
atraves do comercio
com a vassalagem,
vao se transformando
em
dando origem ao grupo que mais tarde
ficaria conhecido com nome de songai. Dali, alguns registros afirmam 0 nascimento
de nova soberania. Conforme SILVA, "e a isto que alude a lenda, quando diz que os
pescadores,
lavradores
e os cac;;adores reconheceram
a autoridade
de um chefe
comum, Fara Maca Bote". (SILVA, 2006. p. 318).
Fara era 0 nome, segundo SILVA, de um dos principais chefes dos sorcos, 0
outro chamado Fono. E e do rico comercio estabelecido,
da interac;;ao e do conflito
entre grupos tao distintos que podem ter surgido os estimulos
em Gana -
0
desenvolvimento
- tal como sucedeu
de uma estrutura politica mais forte e mais coesa - as
Dinastias. Essa nova realidade de soberania surge dos Zas ou Dias.
Narra-se que dois irmaos de origem arabe vieram ter a Cuquia, onde 0 mais velho, Za
Alaiama malou um dragao fluvial, que aterrorizava os songai e Ihes impunha leis
odiosas. Gra,as a isso, 0 estrangeiro foi al,ado ao poder. Para alguns, Za Alaiama
pertenceria a diaspora de Meroe, de que fala AI-Mas'udi'8 Para oulrOS, 0 sell nome
18
Historiador arabe que contribuiu com obras sabre a hist6ria do continente. Morreu por volta de 950 d.C.
44
seria adultera,ao da Frase arabe "0 que vem do lemen. Maurice Delafosse 0 ere um
berbere lenta. Mais verossimil e supor-se que Alaiama perteneesse a uma outra
linhagem sorcos, que destruiu, pela for,a das armas, a quem detinha 0 mando.
Sintomaticamente, a arma usada um arpao - 0 instrumento por exeelencia dos sorcosque ele mala 0 animal milieo. (SILVA, 2006. p. 318)
A cidade de Gao se torna importante
circulavam
entreposto
do Niger ao Magrebe, da Libia ao Egito. Mercadorias
norte ou leste necessariamente
essas mercadorias
pirogas dos sorcos que, por sua vez, transportavam
Outras cidades VaG se firmando
nas
comerciantes,
rotas
que
transportadas
do
teriam que passar por Gao, aonde, os caravaneiros
vindo do grande Saara descarregavam
por estar
para as caravanas
comerciais
ou
e as que recebiam
pelo rio Niger.
como entrepostos
ou grandes centr~s que,
nas proximidades,
grandes
dos camel os para as
carregamentos
eram
preferidas
pelos
e, consequentemente,
faziam delas importantes centros mercantis, dentre estas a cidade de Tacrur.
No inicio do seculo XIII, AI-Drisi19 (1154), descreve sobre 0 rei de Tacrur como
um sultao poderoso, conhecido por sua firmeza, severidade e espirito de justiya. Diz,
do pais, que era seguro e tranquilo, e, de sua capital, que era um importante centro
mercantil, aonde vinham ter comerciantes
do Marrocos e Argelia com produtos como
a la, cobre e contas de vidro (SILVA, 2006, p. 322).
Surge
azenegues,
a cidade
e destes
de Diafunu,
adquiri
que se expande
sua cultura.
0
povo
para 0 norte,
expande
sua
regiao
dos
influencia
FAGE, J. D. in A evolu,ao da hisleria da Africa, organizado por KI-ZERBO, J. Unesco - 1982.
2 importante historiador arabe que morreu por volta de I 154. Os escritos desses historiadores sao de grande
importancia para a reconstruyao da hist6ria da Africa, em particular a do Sudao Ocidental e Central, durante a
periodo compreendido enlre os seculos IX e XV. KI-ZERBO J. e J. D FAGE in Melodologia e pre-hisleria da
Africa.
na
45
prestayao dos serviyos rio abaixo e rio acima. Atendendo a suseranos de agricultores
e cayadores,
mercantil,
os las
tornaram-se
por onde passava
chefes de urn rico mercado
0 ouro,
0 sal e 0 cobre.
as
e de vasta rede
505505 ampliam
sua
infiuencia no territ6rio malinques em direyao ao suI.
Assim, aos poucos as dinastias foram se consolidando,
com 0 poder passando
sempre de pai para filho ou para urn outro membro da familia e a frente no dominic
das riquezas do vantajoso comercio, e tal como sucedia no Gana, com a tributayao a
toda gama de produtos que cruzassem 0 entreposto.
Com a expansao
e 0 crescimento
das cidades comeyam
surgir organismos
politicos mais fortes e s6lidos, os reinos, entre eles, no planalto do alto Senegal e 0
alto Niger, AI-Bakri20 (1029-1094),
dois deles, denominados
Orisi, possivelmente,
no final do seculo XI, ja distinguia 0 surgimento de
06 e Malel, este ultimo uma cidade-estado
mais tarde seria
0
que, para AI-
Imperio de Mali (SILVA, 2006. p. 324)
Quanto as dinastias, iam surgindo de cada cia longas Iinhagens de chefes que
desenvolviam
novas mecanismos
de mando. E cada grande chefe que surgia, trazia
consigo na tradiyao, a nobreza de urn cia como os mandingas,
como 0 Traore, 0
Camara, 0 Conate, 0 Queita21. Alguns revestidos de poderes, tanto politico quanto
religioso. Essas linhagens vao se sucedendo ate chegar nos Mansa, senhor da terra
e da chuva, interlocutor entre 0 povo e 0 divino.
4 Grande historiador arabe que viveu de 1029 a 1094 e que contribuiu com sells escritos
muito import ante para a historiografia do continente africano. (Ki-Zerbo, 1980)
Alguns outros registros poderao aparecer grafados "Komara, Konate. Keitas ".
co9m informa90es
46
3.3
0 Cia e a Dinastia
o
dos Keitas.
cia dos Keitas pertencia a uma linhagem
pequenas aldeias, nas proximidades
de chefes de urn conjunto
do encontro dos rios Sancarani
e
0
de
Niger. Os
mesmos afirmavam que tinham descendemcia de urn grande ancestral chamado SHaii
Bunama,
que afirmavam
ter sido companheiro
negro de Maome
e 0 primeiro
representante do Islao.
Diziam que
0
mesmo teria vindo de Meca e se estabelecido
na regiao dos
Mandingas. E que em sua linhagem contava com urn neto chamado Latal Calabi que
iniciara a dinastia. Este neto seria
na dinastia Keita a pertencer
Tambem,
segundo
0
primeiro grande personagem
a hist6ria
e nao mais
na lista dos chefes
a lenda.
Costa, 0 filho de Latal Calabi,
urn chefe de nome de
Lailatul Calabi, pode ter side 0 primeiro chefe a fazer a peregrinac;:ao a Meca - 0 que
indicaria 0 reforc;:o no processo
da islamizac;:ao da regiao (SILVA, 2006. p. 324).
Seguindo na linhagem, deste, surge urn bisneto chamado Namadi Cani que teria side
urn grande cac;:ador que se tornou rei de urn grande pais, com poder que se estendia
desde
0
Sancarani ate Sure. Isto no final do seculo XII e inlcio do seculo XIII.
Sobre os Keitas contam-se
aventuras.
De que
secretas
de
habituados
suportar
os mesmos
cac;:adores, de
muitas lendas relacionadas
seriam,
homens
com os grandes desafios
as situac;:6es rna is dificeis,
possivelmente,
acostumados
ao
aos grandes feitos e
lideres
de sociedades
manuseio
das
armas,
e perigos. Os mesmos eram treinados
perseguiam
animais
selvagens,
para
suportavam
C
47
priva<;:6es e fadigas sem esmorecer.
Sabiam tomar decisoes
rapidas e enfrentar
a
morte. Os mesmos teriam uma uniao atraves das for<;:asmisticas e cultos esotericos.
Havia uma grande solidariedade
entre eles que se sobrepunha
as for<;:as e 0
poder do cia, da linhagem e da propria condi<;:ao social. Havia a cren<;:ade que estes
ca<;:adores conseguiam
se comunicar com os espiritos da floresta, que eram dotados
de poderes sobrenaturais
e que conseguiam,
inclusive,
estender
esses
poderes
sobre os anima is.
Que tinham profundos
ferimentos
conhecimentos
e doen<;:as. Estes tinham,
penuria, a responsabilidade
fitoterapicos,
nos periodos
das ervas que curavam
de dificuldades,
escassez
e
de suprir e fornecer carne e alimenta<;:ao a popula<;:ao e
proteger as aldeias contra os inimigos.
Assim acredita-se que, desta associa<;:ao de ca<;:adores dos Keitas - conforme
registro da historia de Namadi Cani - e onde se inicia
0
recrutamento
da base dos
seus exercitos.
E contando com a proximidade das riquezas das minas de Bure, que, tal como
acontecia
no Imperio
cobran<;:a de pedagios
do Gana,
valer-se-iam
na passagem
do comercio
pelos seus territorios
e da tributa<;:ao, na
fortalecendo
0
poder
econ6mico e politico e que aos poucos vai ampliando os vilarejos, cidades e pessoas
que reconhecem
0
poderio dos Mansa.
Com isto, come<;:a se consolidar 0 Imperio do Mali com base nessa dinastia. 0
inicio do seculo XII, e quando os sossos tentam avan<;:ar na conquista dos territorios
malinques, 0 Mansa Keita chamava-se
Nare Famaga que tivera um filho com uma
48
deficiencia
que fora curado com ajuda de um velho ferreiro,
um menino chamado
Sundiata.
Essa historia,
segundo
KI-ZERBO
(1980),
"ecoa ainda
no timbre
epico e
quente dos griots de Mali, que cantam a "alegria da mae de Sundiata, transtornada
pela cura subita de seu filho".
Depois de crescido tornou-se um grande cayador e eximio no manejo com as
armas, que seus irmaos tin ham medo e inveja de sua habilidade.
fugiu com um grupo, membros da associayao de cayadores,
Por isso Sundiata
do qual ele se tornara
mestre, para Mema, um pequeno estado no territorio soninque.
Em Mema, Sundiata se torna um grande soldado e chefe do grupo que 0
acompanhara
Camaras,
0
e, juntos combatem
os sossos, grupo que era liderado pelo cia dos
chefe Sumangaru Cante,
a margem
direita do Niger.
Cante, com um exercito muito mais forte derrota, nao so os Mansa mandingas,
mas Dancara Tuma. Acaba por massacrar
com vida, e da familia Keita, Sundiata e
volta com
0
0
0 exercito
dos Keitas restando
unico sobrevivente.
Seu povo
0
que restara do seu exercito, Sundiata faz novo recrutamento
mandingas e reforyado pela cavalaria que Ihe cede
0
poucos
chama de
junto aos
rei de Mema, volta a Sancarani,
e parte ao ataque contra os sossos que na batalha de Kerina, ao norte de Bamako,
derrotou Sumangaru Cante em 1230.
Enquanto combatia
os sossos Sundiata foi reunindo
sob seu comando
os
varios grupos dos clas dos maninques compondo um poderoso exercito do qual ele
comandara em todos os confrontos que tivera, e se atribui a essa concentrayao
de
49
fon;:a, 0 exito dos mandingas
- isto faz com que todos os grupos que compoe
exercito, reconhega em Sundiata
0
grande e poderoso chefe.
Entao apos a vitoria do grande combate em Kerina, reunem-se
Fuga
e juram fidelidade
a Sundiata e
0
aciamam
0
historiognlficos
a origem do titulo dos Mansas.
segundo Silva, "cada um dos chefes que exerceram
0
politica - a
titulo de Mansa .
Nao ha nos registros
reconheciam
em Curuca
como rei dos reis, a partir dali
tragam as normas que serviria como regra para a nova organizagao
Dinastia dos Keitas, sob
0
referido titulo - ou Mandimansa"
0 poder no governo
Mas,
local, todos
(SILVA, 2006. p. 326) - presume-se
que 0 mesmo era em homenagem a quem os comandara
nos com bates. Em Mema,
aos aliados saracoles, tambem concederam urn estatuto especial.
o rei, que
Ihe cedera reforgo na batalha contra os sossos tera
chamado de Mansa e dentro dos limites de sua jurisdigao
0
direito de ser
manteria a autonomia
no
Imperio que comegava nascer - 0 do Mali.
Quanto
a
morte de Sundiata,
ferido acidentalmente
ha duas versoes. A primeira de que morrera
por uma flecha, a outra que morreu afogado no rio Sancarani,
esta ultima e mais provavel ser a verdadeira.
Com sua morte, assume 0 seu filho,
Mansa Uli.
Mansa Uli, que 0 sucedera fez uma peregrinagao
a Meca, que pode ter side
uma vontade interior ditada pela sua fe sincera no isla, ou por conveniencia
para manter vinculos
com 0 estado mugulmano
reforgar seu prestigio junto aos islamitas do Mali.
polftica,
do outr~ lade do Grande Saara e
50
Sob a chefia de Mansa Uli, que
independencia
0
reino de Mali expande seu poder anulando a
de Gao, que se mantivera desvinculado
reduzidos a vassalagem.
de Mali. Tambem
de Mali ate entao, e foram
Com isso, Walata, Tombuctu e Jenne passaram ao controle
parte das rotas que conduziam
a Tuate,
as jazidas
de sal de
Tagaza e as minas de cobre de Tadmekka.
Na linha sucessoria,
dinastia correspondiam
nem sempre os que eram escolhidos
na continuidade
exemplo, teve urn sucessor mediocre.
e crescimento
para continuar
a
do Imperio. Mansa Uli, por
Quem 0 sucedera foi seu irmao Uati; e este
urn outro ainda pior, urn outro irmao chamado Califa que - segundo Ibn Khaldun22
(1332-1406),
este chefe tinha como principal diversao disparar flechas contra seus
suditos. Foi deposto e depois morto por uma revolta popular.
As sucessoes foram acontecendo.
Sundiata, depois, 0 rei Muhamed.
Oepois de Califa, vern Abu Bacre, neto de
Este em seu reinado imaginou a possibilidade
de
atravessar 0 oceano para descobrir outras praias. Colocou duzentas pirogas ao mar
nessa aventura. Somente uma voltou para contar 0 inevitavel naufragio dos demais.
Mas Muhamed
nao desistiu
mesmo fazer a travessia.
do sonho de desbravar
0 mar e resolveu
ele
Preparou uma frota com duas mil canoas com provisoes,
metade com agua e se fez ao mar e nunca rna is se ouviu falar dele. Antes de partir,
Muhamed transfere 0 poder para 0 Mansa Kanka Musa (1307-1332),
urn filho ou neto
de Abu Bacre.
22
Foi urn dos maiores historiadores do seculo XlV e XV. Se
ocidentais, poderia legitimamente TOllbar de Her6doto 0 titulo de
muito modemo e e a ele que devemos 0 que se pade considerar
modema. Urn dos caprtules de sua obra e urna hist6ria do Imperio
seu auge - a ele devemos tambem a genealogia dos Mansas.
fosse mais conhecido pelos especialistas
"pai da hist6ria". Tratava-se de historiador
quase como a historia tropical, em sentido
de Mali, que na epoca que ele viveu atingia
51
Mansa Musa foi 0 mais famoso imperador de Mali. Foi ele que fez uma viagem
de peregrinayao
a Meca e tornou Mali conhecido alem do Saara e do Mar Vermelho.
Grayas a essa viagem, 0 seu nome e de seu pai ficou conhecido em todo 0 rnundo
arabe. Esteve no Cairo em 1324 e ja em 1339 aparece no mapa-mundi,
em uma foto
mostrando toda sua majestade e realeza.
Para essa viagem, segundo os registros, Mansa Musa deve ter se preparado
com antecedencia
composta
e cobrado tributos especiais do Imperio. Parte com uma caravana
por milhares de pessoas,
dromedarios,
grande quantidade
de mantimentos,
as pessoas que viviam em seu castelo, considerados
corte, sold ados, escravos e na comitiva contavam-se
cavalos,
os grandes da
cem camelos carregados
de
ouro.
Quando chegou no Cairo, antes de entrar na cidade, 0 Mansa mandou para
anunciar sua chegada, uma comitiva que levava consigo cinqOenta mil dinares (cada
dinar valia quatro gramas de ouro), para oferecer de presente ao sultao ai-Malik alNasir. S6 depois
acompanhado
No
entrou
com toda
polpa
permaneceu
por
tres
esmolas, comprou de tudo, esbanjando
cobravam
quatro
derrame do aura foi tanto que
prata.
montado
em seu cavalo,
por quinhentos escravos, cada um deles trazia um bastao de ouro.
Cairo
muitas vezes,
e realeza,
0
meses.
Distribuiu
presente,
generosas
seu poder. Foi enganado pelos vendedores,
ou cinco vezes
metal desvalorizou
mais do que 0 objeto valia.
0
na regiao pr6xima, em relayao
a
52
Ao voltar de Meca, novamente
no Cairo,
nova estadia
e mais gastos.
0
Imperador estava afundado em dividas, de forma que na volta a caravana aumentou.
Alguns credores 0 acompanharam
para receber 0 que Ihes era devido.
A visita a Meca, mostrou ao rei uma realidade que nao imaginava,
riqueza que vivia e ostentada
atrasado
na viagem, percebeu que seu reino estava um tanto
em rela<;:ao aos demais
tecnologias,
ja ha muito
apesar da
dominadas
paises
do alem
naquelas
Saara
regioes,
em
e alem
mar.
Mali ainda
Novas
nao se
conhecia.
As novidades que chegava ficava restrito as elites nos grandes centros. Desde
os luxuosos trajes, turbantes camisoloes que se usavam no palacio nao se estendia
nas outras partes do imperio.
Essa peregrina<;:ao de Mansa Musa a Meca foi, segundo Costa,
do Imperio de Mali. Musa era
prosperidade,
0
0
inicio do fim
senhor soberano de um grande Imperio. Entretanto, a
a riqueza por maior que fosse ficava muito aquem da ostenta<;:ao e
luxe em que vivia.
Toda riqueza que levara a Meca era, possivelmente,
que ele e seus antecessores
dos armazens a riqueza
tin ham acumulado atraves dos tributos na produ<;:ao do
Duro e taxas do comercio a distancia.
Sobre Mansa Kanka Musa, se escreveriam
mais tarde:
"Lider extravagante e uma figura do mundo, Mansa Musa se distinguiu como urn
grande homem que fez de tudo em grande escala. Homem de neg6cios realizado, ele
administrou vasto recursos para beneficiar seu reino inteiro. Ele tam bern era urn
estudante notavel, importou notavel artista para levantar a cultura de seu povo. Em
1324, com a viagem que fez a Meca, Mansa Mussa ganhou respeito de estudantes da
Europa, e ganhou prestigio internacional colocando Mali como urn dos maiores e mais
C;
53
rico Imperio do Mundo".
3.4
(SILVA apud KHALDUN, 2006)
A Capital do Mali e seus Dominios.
Segundo alguns registros, de que Sundiata, apos derrotar os 505505, transferiu-se
para sua nova capital Mani, presume-se que seja a mesma cidade que Ibn Batuta23
(1304-1369), visitou no sEkulo XIV e chamou de Mali. Mas on de ficava essa Mali de
Sundiata e de Ibn Batuta? Ninguem sabe, pelo menos, os historiadores
nao trazem a
localizayao exata dessa cidade e nem de que fora realmente a capital.
Segundo
SILVA,
margem esquerda
propunham
afirma
que "alguns
defendem
do rio Niger, a meia distancia
de que estaria localizada
que estaria
localizada
entre Sagu e Niamina,
sob 0 atual Niani, no rio Sancarani
a
outros
(SILVA,
2006. p. 326).
Esta e a localizayao
Elisa NASCIMENTO,
mais prov8vel, pois a mesma e defendida
tam bern por
quando afirma: "com essa vitoria Sundiata recupera
0
trono de
seus pais e estabelece a capital do Imperio em Niani, mais ao sui da antiga capital de
Gana (MALOMALO, apud NASCIMENTO,
Consideramos
2004 p. 67)".
ainda as informayoes
historicidade a as organizayoes
que traz HERNANDEZ24,
ressaltando
sociais e politicas da Africa, quando diz:
23 Historiador arabe que viveu no seculo XIV, que se refere a Mani em seus escritos como sendo Mali. (KIZERBO, J e FAGE, J. D. In EvoIu9ao da historiografia da africa, 1980. p. 44)
24
HERNANDEZ, L. in A Africa em saIa de Aula, 2005.
a
54
exemplo mais significativo e 0 trabalho do administrador colonial e historiador
Maurice Delafosse que, fazendo uma cuidadosa leitura dos manuscritos de AI-'Mari,
pede identificar 0 nome exato da capital do Mali, Nyeni ou Nieni, proxima da aldeia
do mesmo nome, a margem do rio Sankarani, hoje fronteira do Mali com a Guine
(HERNANDEZ, 2005, p. 23).
Entretanto,
confirmou
segundo
SILVA,
pesquisas
arqueol6gicas
ser esta Niani, a capital de Mali. Embora, segundo
25
restos de uma cidade como a descrita por AI ' Umari
no
local
nao
se
ele, encontrassem
(1301-1349),
sem muros e
sem construc;oes de pedra, com casas de barros cobertas de palha. (SILVA, 2006 p.
326).
Mas e possivel que, ainda segundo Silva,
tenha havido muitas Malis, antes e depois, uma vez que a capital poderiam ser cidades
que os historiadores defendem como a capital do Imperio, as mesmas podem ter sido,
temporariamente, nesses periodos de estadia do Imperador Sundiata - 0 Mansa.
(SILVA, 2006. p. 326).
Sob 0 dominic de Mali foi anexado 0 antigo territ6rio do imperio de Gana, 0
territ6rio conquistado dos sossos, as aguas do alto Rio Niger, Rio do Gambia, Rio do
Senegal e dos demais rios pr6ximos. E dele passa a fazer parte, tambem, as cidades
Casamansa,
Bambuk
e Bure,
nasceria a primeira Universidade,
Niani, Kirina, Takrur,
em 1468, a Universidade
Jenne, Walata e Gao. Dentre os povos que compoem
25 Historiadorarabe
44
Timbuctu
(onde
mais tarde
Sankore), Kumbi Saleh,
estao; Sossos,
Malinques,
do seculo XlV- KI-ZERBO, J. e FAGE, J. D.-Evolu,iio da historiografia da Africa, 1980. p.
55
Soninques2H
Eo pela primeira vez a regiao, a rota comercial, os escoadouros
os portos caravaneiros
do Sael e os caminhos,
que levam
do ouro,
uns aos outros
e
dominado por um unico poder.
3.5.
0 Micropoder.
As bases econ6micas
do Imperio de Mali foram as mesmas do reino de Gana.
S6 que, ao contrario do Gana, no Mali 0 poder estava todo centralizado
nas maos do
Imperador Sundiata Mansa e se baseava na fortuna que foi se acumulando
com a
expansao do comercio, do ouro e sal, para 0 sui de Marrocos, Egito e Tripolandia
no dominio
e
do territ6rio que conquistara.
o seu
poder era reconhecido
pela sua coragem
demonstrada
riquissimo e poderoso reino, que
pelos suditos, a quem tinham profundo respeito
nas grandes
0
batalhas.
0
mundo s6 teve conhecimento
Mali
se tornou
um
da dimensao dessa
riqueza, com a peregrinayao de Mansa Kanka Musa a Meca.
Esse poder tambem estava na religiao, embora houvesse a pressao islamica,
mas nao podemos
afirmar de que 0 Mansa tivesse se convertido
Alguns historiadores
que adotara
0
afirmam
islamismo,
que, embora Sundiata pertencesse
e desse mostra
disso, no entanto,
ao islamismo.
a uma linhagem
segundo
Costa,
"a
imagem que os suditos tinham dele era de um rei magico, que retirava sua forya da
natureza e dos antepassados,
(SILVA, 2006. p. 327).
26
Vide mapa em anexo.
um homem estritamente
ligado
a religiao
de seu povo"
56
Ha quem
reconvertido
afirme
0 mesmo
ter nascido
as crenl(as tradicionais
com a fe islamica
de seu povo durante
e tenha
side
um exilio que fizera a
Mema. E que com essa crenl(a vencera os sossos.
Mas, e uma afirmal(ao contradit6ria.
Pois, ap6s a vit6ria obtida nessa batalha,
conforme tradil(oes orciis, ele aparece em trajes mUl(ulmano em uma conferencia
acontecera
em Curuca
Fuga. A hip6tese
defendida
por SILVA,
que
e de que "teria
retornado ao islamismo, pelo menos nas formas exteriores de comportamento,
nao ser visto como chefe e sacerdote de um grupo, mas como 0 soberano
para
de uma
confederal(ao de estados. 0 is lao nao estava, segundo SILVA, ligado a uma nal(ao, a
um grupo, a um cia - era universal (SILVA, 2006, p. 327)".
Portanto,
0
fato de cada soberano,
visita a Meca, cumprindo
com um formalismo
se preocupar
com a tradil(ao, presume-se
em sua gestao fazer uma
que seria mais para cumprir
para obter prestigio junto ao mundo mUl(ulmano. E isto de certa
forma, Ihes conferia mais poder junto ao Imperio.
3.6
0 Micropoder Vs. Macropoder.
o
poder,
0
luxo, enfim tudo que fazia a riqueza do Imperio, possibilitava
ao rei
comprar cavalos no Magrebe, necessarios para seus exercitos, adquiria tecidos finos
e os outros artigos de luxo, com os quais presenteava
a aristocracia
armada e os
chefes vassalos, e demonstrava toda a polpa e provas desse poder.
Entretanto,
ao contra rio do Imperio de Gana, onde 0 imperador
funl(ao de um acordo estabelecido
com os suditos,
0
"regicidio"
governava
(OLIVEIRA,
em
2004),
57
que garantia bem estar a todos. Na administrac;:ao do reino de Mali, 0 imperador nao
se preocupava muito com a condic;:ao social de seu povo. Segundo Costa,
dos suditos- mandes,tucolores,saracoles,bambaras,jalofos ou songai- viviam em
vilarejos, em casebresde barro socado,no cultivo do milhete, 0 sorgoe 0 arroz, sem
outro auxilio que nao 0 da enxadacurta; cuidandodo gadadas cabras,dos camelos;a
pescanos rios e nas praias do mar; tecer 0 algodao e ala; na confecyaode cestas,
potes,objetosdemadeirae couro; na fundiyaodo ferro em pequenosfomos. Do trafico
transaarianos6 sebeneficiavamdo sal, queIhesera indispensavel(SILVA, 2006, p.
330).
A importancia do reino de Mali, apesar do que se esbanjava, atingiu seu auge no
final do seculo XIV e seculo XV, segundo Malomalo,
nos fins do seculoXV, possuiaem tome de 25 mil habitantes,26 alfaiatarias(onde se
confeccionavaos luxuosostrajes muyulmanos),com 200 aprendizescada uma e nada
menos que 150 escolas olcoranista.Nele encontrava-setambem uma multidao de
juizes, medicose letrados,e todosrecebiamestipendiosdo rei, quetem granderespeito
peloshomensdo saber.0 comerciodo livro eraaqui mais lucrativo quequalqueroutra
especiede negocio(MALOMALO apud NASCIMENTO, 1996, p. 69).
Entretanto
heterogeneidade
encontrava
a
piramide
social
e
politica
do
reino
era um tanto quanto dificil de administrar.
0 Mansa,
que controlava
de
Mali,
dada
sua
No alto da piramide se
tudo, e depois dele a linhagem
real, e num
circulo largo, 0 cia dos keitas. Em seguida, vinha a nac;:ao mandinga, e depois todas
as outras. Entre as nac;:6es distinguiam-se
livres, os que pertenciam
as castas
carpinteiros,
os servos
macropressao
os curtidores,
as familias reais e a nobreza, os homens
profissionais
constante contra 0 imperio.
(os bardos,
e os escravos).
Estes
os ferreiros,
os
representavam
a
58
Havia cas os em que 0 governo
era exercido
membros da familia do Mansa ou de escravos
poderes
de chefe.
estrategica
Esta situac;:ao acontecia
ou comercial
- aqui podemos
de forma
atraves
de
da corte, que eram revestidos
de
nos locais
direta
de grande
importancia
avaliar 0 status que um escravo
podia
alcanc;:ar.
Na cidade de Walata, por exemplo, ali 0 Mansa nao 56 teria que se preocupar
com a defesa correta do fluxo do comercio,
cavalos, armas e metais, sobre
0
mas tambem
com a importac;:ao de
qual colocava todo seu poder e contrale.
Conforme SILVA,
com 0 contrale na compra de cavalos 0 rei impedia que se formassem grupos
que pudessem rivalizar-se com ele. De forma que todos dependiam de seu
aval para conseguir montaria ou armas para a guerra. Isto possibilitava 0
controle do imperador que podia, dessa forma, presentear seus comandantes
pelos seus feitos her6icos com corceis, roupas finas, ouro, armas de
qualidade e, assim, conseguir fidelidade e obediencia. (SILVA, 2006, p. 338)
o
exercito era composto,
arqueiros
formados,
provavelmente
Ainda
pela cavalaria que eram os homens livres, mais os
em sua grande
maioria
por escravos,
ou parte dele, como
nos regimentos que respondiam de modo direto ao Mansa.
em
relac;:ao ao escravo,eram
importantes funcionarios
muitos
e estavam
entre
os mais
da corte. Forasteiros sem nenhum lac;:ocom as familias da
nobreza. Tinham vinculo apenas com seu dono, mas tinham condic;:oes especiais de
preencher
cargos e oficios
absoluta confianc;:a do rei.
politicos
de muita importancia
e responsabilidade
de
c:
59
Um escravo do Imperio do Mali assumia
qualquer
cativeiro
hom em gostaria
de ocupar.
em poder e, quando
administrar
0 reino,
0
postos dos mais poderosos
Estes segundo
imperador
estes 0 tutelavam
Costa,
"transformavam
nao tinha autoridade
e por intermedio
que
suficiente
dele exerciam
0
para
0 poder.
Podiam ate mesmo assumir a condic;;ao de Mansa" (SILVA, 2006, p. 338).
3.7
Queda do Imperio
Como ja analisamos
de Mansa Musa e
0
do Mali.
a queda do Imperio de Mali, inicia com a grande viagem
derrame do cure na cidade do Cairo e a desvalorizac;;ao do metal
por um longo periodo na regiao.
A propria organizac;;ao politica, embora
as regioes, mas algumas cidades-estado,
anciaos. A extensao
e a diversidade
0
imperador tivesse dominic de todas
aldeias ainda obedeciam
dos territorios
a conselhos
de
e grupos que Ihes pagavam
tributos e Ihes forneciam tropas, exigia do rei dos reis, ampla tolerancia com algumas
peculiaridades
de
parcelas
do
imperio,
e ate
vetavam
politicas
de
forc;;ada
por
exemplo,
islamizac;;ao.
Por
pertenciam
isso,
algumas
cidades,
como
Bambuk
e Bure,
aos limites de influencia de Mali, e contavam
ouro, 0 imperador jamais
conseguiu
criar um governo
com os mineradores
que
de
direto - que possibilitasse
controlar a produc;;ao na explorac;;ao do metal amarelo. Nem sequer impor a crenc;;a
no Ala. Todas as tentativas de islamizar a regiao deparavam
coma
resistencia
dos
60
habitantes,
que tin ham res posta imediata
na queda
da prodUl;:ao do ~Uro, que
amea9ava estancar completamente.
Estas cidades aos poucos vao se tomando independentes
de Mali e ditando suas regras de produ9ao e gerenciamento
do centro de poder
da mesma ate fugir
totalmente do controle do rei.
Com a morte de Musa Mansa em 1337, depois de vinte cinco anos de reinado,
o seu sucessor foi seu filho Maga (ou Maga). A ascensao
de Maga ao poder gera
conflitos na familia por ter preterido 0 irmao Sulaima. Por essa razao, presume-se
que tenha side tao curto 0 reinado de Maga, reinou por apenas quatro anos. Pois
Maga Mansa morreu, ou foi assassinado.
Com isso enfraquece
mais 0 imperio,
sofrendo tentativas de invasao na cidade de Timbuct.
Sulaima assume e tenta recuperar 0 prestigio do reino em algumas regioes, e
consegue refor9ar 0 dominic e ampliar a vassalagem
em alguns territorios.
reinado aos poucos volta assumir dominio do espa90 que compreendia
atlantico, desde de Aulil e a foz do Senegal ate Casamansa,
ate Cuquia.
Ao norte os limites
incluindo Audagoste,
avan9avam
0 Sael
No seu
0 litoral do
ao leste de Tadmekka
adentravam
ate 0 deserto,
Tichit e Walata. Ao sui atingia 0 Futa Jalom, 0 Bure e 0 alto
Sancarani, ate alcan9ar a curva do Niger.
Sulaima ainda, apesar da fragilidade
implantar politicas modemizadoras
do Imperio, procurava com suas a90es
de Musa, expandir com 0 islamismo
em todo 0
Mali era a meta principal.
Assim, tal como seu irmao constroi mesquitas, apoiava as escolas coranicas,
convida para residir nas principais cidades homens com reconhecida
santidade
na
61
pratica islamica,
sabios muc;:ulmanos, ele pr6prio dava exemplos
pessoal de sua
devoc;:ao com muito zelo e piedade.
Muito mais que os reis que 0 antecederam,
Sulaima procurou ser um islamita
convicto. 0 grande Ibn Batuta quando, nos anos entre 1352 e 1353, de passagem
pelo reino de Mali, assim 0 viu:
Urn homem que fazia suas preces em publico, comparecer, com toda pompa e
majestade, aos oficios religiosos das sextas-feiras e aos festivais isliimicos. Os fieis
estavam todos de branco. E Sulaima vinha, a cavalo, precedido pelo cadi e por outros
dignitarios maometanos, que gritavam: "Deus e grande!" e "Ha urn s6 Deus, que e
Ahi" (SILVA,apud BATUTA, 2006, p. 337).
Mas todas
tambem
essas
ac;:6es e demonstrac;:6es de fe islamica,
de lade a religiao tradicional
nao deixavam
de seu povo. Como 0 pr6prio
Ibn Batuta
presenciara em sua visita em Mali:
viu, durante os festivais isliimicos os bardos ou griots", os corpos cobertos de palha",
os rostos ocultos por mascaras de madeira, figurando passaros de bico vermelho, a
dan,arem e a recitarem as glorias do reino - a fazerem gestos que vinculavam 0 Mansa
a seu povo, aos ancestrais e it terra (SILVA, apud KHALDUN, 2006, p. 337).
Mas a fragilidade
do Imperio era visivel, desde a sucessao de Musa Mansa,
com a subida ao poder por seu filho Maga e depois de sua morle pela disputa do
trono por Sulaima.
27
Os contardores de historias das grandes tradi~5es africanas a linguagem oral. Os anciaos que passavarn
conhecimento aos mais novos.
28
Essa imagem nos remete hoje, it figura do Orixti Obaluae.
0
62
Os descendentes
Maga. Durante
diretos de Mansa Musa jamais aceitaram
0
reinado de Sulaima,
a derrota e a morte de
houve varias tentativa
de golpe contra
0
mesmo para destitui-Io.
Com a morte de Sulaima, em 1360, rapidamente
deflagrou-se
a guerra entre
os herdeiros do trono· que se puseram em armas. Casa, filho de Sulaima,
sucedera,
combate
contra ele levantou-se
que se deu, saiu vencedor.
governante,
grande
Jata ou Mari-Jata,
filho de Maga; e este, do
De Jata, diz Ibn Khaldun:
"Foi pessimo
tirano e pr6digo, ausente. Teria ele vendido a comerciantes
pepita
de
ouro,
que
se guardava
como
que 0
objeto
sacro"
egipcios
(SILVA,
a
apud
KHALDUN, 2006, p. 340) - talvez a mesma pedra a qual 0 Gana prendia as redeas
dos cavalos.
Essa pedra,
quatrocentos,
segundo
os relatos
de Khaldun,
fosse
a mesma
que
"no
a que 0 sultao do Egito enviou a Lourenc;:o de Medicis ou a que, por
volta de 1414, foi ter as maos do Imperador da China" (SILVA apud KHALDUN,
p.
340).
Com a morte de Jata, de doenc;:a do sono, entre 1373 e 1374. Sobe ao trono 0
seu filho, Musa II, que rei de aparencia, em seu lugar, quem realmente decidia era
um poderoso ministro, cujo nome, Mari Jata, leva-nos entender tratar-se de pessoa
da familia real. Este, embora fosse como uma assessoria de Jata, tentou reorganizar
o Imperio, e ate pode ter tido algum sucesso, reconquistando
Porem,
nao obteve
0
mesmo
ex ito contra a rebeliao
algumas
provincias.
de Gao, que lutava
separac;:ao definitiva de Mali, e se fez totalmente independente.
pela
63
Depois de Musa II, seu irmao Maga II e confirmado
passava de joguete dos altos funcionarios
ana reinando
Sandaqui,
no trono, tambem
da corte. Tanto que 1388, com apenas um
com 0 titulo de Mansa foi assassinado,
assumindo
em seu lugar
um vizir que se casara com a mae de Musa. Este, tambem
administrac;:ao efemera
nao
no reino, morreu assassinado
teve uma
por um membro do cia dos
Keitas.
Com tudo
isso 0 Imperio
vai aos poucos
se deteriorando.
sucessoes e conflitos, no meio delas, afirma Ibn Khaldun:
das terras do sui, mas pertencente
a
Entre tantas
"surge um estranho, vindo
linhagem do Sundiata, assume,
em 1390,
0
poder, com nome de Maga" (SILVA apud KHALDUN, p. 340).
Com
0
enfraquecimento
do reino por esses
com bates constantes,
outras
provincias, seguem os mesmos caminhos de Gao, os inimigos avanc;:am derrubando
as fronteiras do Mali, conquistando territorios importantes.
A grande curvatura do Niger, proximo a cidade de Gao, constante espac;:o de
cobic;:a, e atacado pelos mossis. Estes pilham a cidade de Timbuctu. Da regiao norte
de Timbuctu
tuaregues,
e as cidades
perifericas,
pontos
ate que, em 1433, se tornam
estrategicos
senhores
sao atacados
com 0 dominio
pelos
do grande
e
importante porto caravaneiro.
Os
songai
reconquistando
voltam
a
cena,
atacando
com
seus
barcos
rio
acima,
0 Mali com total controle das aguas e 0 dominio das terras proximas.
Da mesma forma, tambem a cidade de Jenne, cidade cercada por rios e canais, que
eram quase inatingiveis consegue a sua independencia.
Na metade
do seculo XV, a maioria dos reinos soniques,
se libertam
da
64
condiyao de vassalos dos Mansa. Diara, segue
0
mesmo exemplo e, sob a lideranya
de uma nova dinastia que surgia, os Diuaras, tambem
se torna independente.
E
conforme Silva, "com os novos reis que se sentavam entre os seus como se fossem
homens do povo, inteiramente
rei", diziam,
"nao necessita
despidos de misterios ou cerimoniosa
de qualquer
outr~ ornamento
que
pompa -" um
nao os de sua
autoridade e realeza" (SILVA, 2006, p. 341).
Da mesma forma Diara cresce como um novo ponto de destino das cafilas e
centro do comercio transaariano.
Outra importante
desliga de Mali e, mais tarde, passa por dominic
que fazia parte dos soninques,
mande, que cede espayos
miscigenados
estrangeira,
com
os
os Tondions
aos Lam-Termes
berberes.
Clas
de
e estrategica
cidade, Tacrur se
de varias etnias, como os Manas
que era uma mistura
e os Lam Tagas,
guerreiros,
de sereres
os fulas ou fulas
geralmente
se impoe sobre 0 que restara de Tacrur, fragilizada
e
de
origem
e fragmentada
por
numerosa e pequena chefia.
Assim 0 Imperio do Mali, passa 0 seculo XV envolvido em conflitos, disputas
pelo poder, entre os clas e familia real, guerras externas aos poucos vai perdendo a
soberania. A obediencia
dos soninques,
que viviam sob seu dominio,
dos tucolores, dos songais e outras etnias
0 Mali foi declinando,
ao norte retornando
as suas
antigas dimensoes de pais dos malinques.
No sudoeste, tentava em vao manter 0 comercio do ouro, da cola e do sal, que
agora era extraido,
nao mais das minas do deserto,
mas das praias do Oceano
Atlantico.
Mas e no seculo XVI, que os ultimos territorios
que 0 Sundiata
dera aos
C
65
mandingas
perde-se
Casamansa,
definitivamente,
tentam deter 0 dominio
nos rios Gambia
e
porem, nao por muito tempo. Ao norte, nos bancos do rio Niger e do
Bani, 0 Mansa conservaria seu dominio ainda por algum tempo, entre os bambaras,
mas aquele que fora um rico e mais importante Imperio do Sudao Ocidental chegara
aofim.
Entretanto,
a dinastia
e 0 nome dos Keitas tornam-se
lendarias.
Em uma
cita<;:aoSodre afirma:
Que os modernos Estados Africanos ainda hoje se valem da experiencia dos sabios da
tradi9ao popular, como 0 griot Banziomana Sissoko, de 90 anos, que no inverno de
1980 estava em Paris a convite de uma organiza9ao de trabalhadores do Mali, fundado
por Sundiata Keita no seculo Xlll. Em agosto de 1960, quando a Federa9ao do Mali se
esfacelava, 0 Presidente Modibo Keita foi pedir a Sissoko para ajudar a na9ao a "olhar
de frente 0 futuro". Durante 48 horas, 0 griot concitou os habitantes do pais a seguirem
o exemplo dos ancestrais. A uniao nacional foi mantida. E Sissoko tornou-se
conselheiro de Modibo Keita (de 1960 a 1968), com a tarefa especifica de dizer a
verdade do grupo - 0 que ele faz cantando, dan9ando, interpretando, falando
(SODRE apud PLACIDE, 1983, p. 131).
3.8
0 Mali da Atualidade29.
o
Mali e um pais da Africa Ocidental, abrangendo
a parte sui do deserto do
Saara. 0 Mali tem maior parte do seu territ6rio na faixa do Sael, tem uma superficie
de 1.240.192
Km2. Faz fronteira com Argelia, ao norte, com 0 Niger ao leste, com
Burkina Faso no sudeste, com a Costa do Marfim ao sui, com a Guine no sudoeste e
oeste com Senegal e Mauritania.
29
Disponivel em http://www.Sergiosakall.com.br/arricano/mali.html
66
As principais cidades sao Bamako, a Capital, com 953.600 habitantes (2004),
Segou com (102.200 hab.), Mopti com (115.500 habitantes).
Tombuctu30
o
(que hoje e considerada
patrimonio mundial) e Gao com (39.000 hab.).
relevo do Mali e formado essencialmente
do pais e marcada,
Sikasso (127.900 hab.)
ainda pela presenya
por planicies e planaltos. A vida
de do is dos principais
rios da Africa
Ocidental, 0 Senegal e 0 Niger.
o
Mali, da atualidade e um dos paises mais pobres do planeta. Tem, na sua
regiao, mais ao sui, as areas de maior concentrayao
que
norte do pais faz parte do deserto
0
precisamente
e atividade
do Saara.
humana, uma vez
Eo nestas
nos vales dos rios Senegal e Niger, e tem na agricultura
regioes,
mais
como 0 setor
mais importante da economia. Eo praticada por mais de 80 % da populayao ativa com
o objetivo de assegurar a subsistelncia.
o esforyo
governamental
devido aos constantes
disponivel.
periodos
para
0
crescimento desse setor tem sido infrutiferos,
de secas, bem como 0 baixo nivel de tecnologia
A industria tambem nao se encontra em melhor estado, pois se baseia
em pequenas industrias de transformayao
de produtos agricolas,
algodao. Por outro lado, 0 Mali tem uma piscicultura
como 0 arroz ou 0
bastante desenvolvida,
tal e a
riqueza e variedades de peixes existente nos deltas do interior. Quanto aos recursos
minerais,
minima,
relayao
eles sao, ainda a maior riqueza do pais, embora
(nao possui tecnologia
a
0 mesmo
acontecendo
seja
em
produyao hidroeletrica, situayao que podera melhorar com a construyao da
barragem Manantali,
30
para a explorayao),
sua explorayao
subsidiada
Tambem sofreu aJterayao na sua gratia.
pela Organizayao
para 0 desenvolvimento
do Rio
67
Senegal, constituida
comerciais
pelo Mali, 0 Senegal e a Mauritania.
do Mali, atualmente
sao a Costa do Marfim,
Os principais
parceiros
a Franga, a Republica
Popular da China e a Belgica.
Tal como afirma Henrique CUNHA JR. (2006), quando - em aula inaugural do
curso de Hist6ria e Cultura Africana - fez referencia a um texto de Walter RODNEY
(1975), "Como 0 europeu sub-desenvolveu
a Africa". Neste livro, segundo CUNHA
JR. explica primeiro a organizagao e 0 desenvolvimento
da presenga europeia, tal como comprovamos
do continente africano antes
em nossa pesquisa.
De inicio 0 livro introduz uma discussao sobre 0 conceito de desenvolvimento
e sub-desenvolvimento.
Depois demonstra
os interesses
europeus
na Africa
e a
sucessiva politica de desgaste do continente depois do seculo XIV, como os ataques,
as exploragoes
mercenarias,
os assassinatos
em massa e os aprisionamentos
e
exportagao para 0 escravismo criminoso.
Conclui com a dominagao europeia depois de quatro seculos de lutas e que a
Europa enriqueceu e a Africa ficou pobre. E foi, segundo CUNHA JR, pela forga das
armas e da opressao
que os europeus
sub-desenvolveram
e dominaram
a Africa
(CUNHA JR. apude RODNEY, 2006, p. 11)31 .
Assim como veremos
consigo
a seguir,
as piores consequencias,
a presenga
principalmente,
europeia
no continente
a pilhagem
trouxe
das riquezas
dos
grandes imperios e reinos.
31
CUNHA JR, Henrique in Os negros nao se deixaram escravizar - Temas para as aulas de hist6ria dos
afrodescendentes no programa de P6s-gradua9aoem Educa9ao Brasileira - Universidade Tuiuti do Parana e
Institulo de Pesquisa da AlTodescendencia -lPADBRASIL.
68
Em todos os territorios que se constituiram
do Mali da atualidade,
e
explorac;:ao da riqueza
sem pensar
exemplo
col6nias, e a situac;:ao de pobreza
de como 0 europeu
no desenvolvimento,
tecnologico e 0 bem estar social e politico da populac;:ao.
so se preocupou
voltado
com a
para 0 avanc;:o
69
III CAPITULO
4.1
4.2
A EXPANSAo COMERCIAL
E MARiTIMA EUROPEIA.
Os Novos Mercados.
No periodo em 0 que imperio do Mali vivia seu apogeu inicio do seculo XIV e
meados do seculo XV, com total dominic de todas as rotas mercantis, sua expansao
com abrangemcia para 0 norte, atingindo 0 Sael ate 0 deserto do Saara e 0 Mar
Vermelho.
A oeste com a Mauritania alcanyando 0 Marrocos.
A peregrinayao
do Mansa a Meca e 0 esbanjamento
tornou Mali conhecida como um rico e poderoso
do ouro que gastara,
Imperio, nao s6 no mundo arabe,
mas chamou a atenyao de toda a Europa.
Essa mesma Europa, nesse periodo, passa por serios problemas enfrentando
crises
com
comprometia
as
secas,
fome,
pestes
a retomada do crescimento
e
as
guerras
que,
da sua economia
conseqUentemente,
iniciada pel as cruzadas.
Esses problemas se acentuam no inicio do seculo XV, com 0 surgimento
obstaculos estrangulando
0 processo
e comprometendo
0 sistema,
de alguns
gerando a crise
de crescimento.
A primeira razao foi a incompatibilidade
entre dois sistemas antagonicos,
um lado 0 feudal (na zona rural) e 0 capitalismo
(zona urbana).
geravam
de graos
dois grandes
problemas;
a produyao
de
Desses sistemas
e cereais
no campo,
70
estagnada devido as caracteristicas
garantia produc;:ao suficiente
do regime de trabalho servil dos feudos, que nao
para suprir as necessidades
dos centros urbanos; e a
produc;:ao artesanal da cidade nao encontrava mercado consumidor
Esta situac;:ao provocava
crise no intercambio
comercial
graves tens6es socia is nas cidades, tal como ocorrera
na area rural.
que resultava
em
na revolta de Flandes em
1323 e 1328.
Outra razao que afetava a crise de crescimento estava relacionada
do comercio internacional,
alimentado
principalmente
a invasao
pelos produtos que vinham do
oriente. Esses produtos para chegar ao consumidor final percorriam longo caminho,
e 0 comercio era controlado pelos arabes e algumas cidades italianas que operavam
nas rotas europeias.
Em func;:ao do longo caminho percorrido, esses produtos passavam por varios
intermediarios
encarecendo
principais consumidores,
os prec;:os, enquanto,
para
desenvolvimento
0
ponta
Oriente
em
na crise gerada,
pagamento
das
era a falta de moedas,
especiarias,
comprometia
0
do comercio e forc;:ava a procura de metais preciosos.
Havia, portanto, uma serie de obstaculos que impossibilitava
crescimento
os senhores,
tinham suas rendas sufocadas pela crise do feudalismo.
Outro fator que se apresentava
escoadas
na outra
econ6mico.
Como solucionar
a expansao
e 0
essa crise? A soluc;:ao poderia estar na
expansao maritima, que abriria novos mercados ou a descoberta de novas rotas que
alcanc;:assem 0 rico mercado do Oriente.
Os obstaculos
eliminados,
desde
para
que
0 crescimento
se encontrassem
da economia
mercados
europeia
fornecedores
poderiam
de
ser
produtos
!!
71
alimenticios
e
consumidores
para
os
produtos
especiarias a prevo mais baixos, que permitissem
artesanais.
Fornecedores
de
a ampliayao do consumo para as
camadas de poder aquisitivo mais baixo; e fornecedores
de metais preciosos,
para
aliviar a falta de moedas e 0 prevo exorbitante daqueles metais.
Portanto, a expansao comercial e maritima dos tempos modernos,
de tudo, resultado de uma tentativa direta e desesperada
crescimento
da economia
transformayao
4.3
e
0
Condiyoes
europeia,
foi, antes
de com bater a crise de
baseada na dicotomia
entre
0
feudalismo
em
capitalismo em formayao.
Socia is, Politicas e Culturais.
As condiy6es
econ6micas
56 se justificam
e ganham
significados
quando
estao respaldadas em um contexte social. E nesse caso, os interesses econ6micos,
expressavam
objetivos bem especificos
de uma classe mercantil, avida por ampliar
seus lucros.
Havia
econ6mica
todo
um contexto
que
dos atores que estavam
se
relacionava
envolvidos
com
a condiyao
no sistema,
social
cujos problemas
e
da
economia, em diferentes graus, os atingia.
Com a estagnayao
feudo no campo,
viviam nas cidades.
da produyao
provocava,
como 0 desabastecimento
nao 56 0 empobrecimento
que comprometia
do
a renda dos que
Estes, por sua vez, tambem nao tinham mercado para vender
sua produyao artesanal.
De forma que havia um comprometimento
vida, tanto dos citadinos, quanto dos camponeses.
no padrao de
72
No plano politico,
centralizagao
exercitos,
0 interesse
que contribuia
desse grupo se completava
com 0 apoio
com a renda do Estado, supriria as necessidades
na recomposigao
de
seus
quadros
funcionais
e,
sobretudo,
a
dos
daria
legitimidade ao seu poder atraves da legislagao.
E, finalmente
havia
0
no plano cultural.
Nesse periodo,
heranga da Idade Media,
temor de se colocar em alto mar. Nao era todos que se aventuravam
nas
condig6es oferecidas pel a cartografia precaria, enfrentar esse desafio.
Conforme
as novas
concepg6es
acreditava,
que seria possivel
Entretanto,
era necessario
de que
atingir qualquer
a terra
era
esferica,
ponto navegando
tambem ter as condig6es tecnicas
logo
se
em linha reta.
para faze-Io.
Essas
condig6es minimas de seguranga, segundo Jobson e Piletti, "s6 viria mais tarde com
os progressos
da cartografia
(os portulanos),
ouso
da bussola e do astrolabio
e,
sobretudo, a invengao da caravela que deram seguranga minima para mergulhar
na
vastidao dos oceanos" (ARRUDA e PILETTI, 1994, p. 139).
essas grandes navegayoes, s6 tornaram possiveis, pela existencia da Escola de Sagres.
Que na verdade, nao se tratava de uma escola de navegayaO propriamente, mas sim, a
presenya de urn grupo de astronomos, construtores navais, cart6grafos e pilotos
experientes de toda a Europa, reunida em torno do Infante D. Henrique, que controlava
os recursos da Ordem de Cristo e investia na expansao (ARRUDA e PILETTl,
1994, p. 140).
Assim com ega 0 projeto expansionista
Ceuta, em 1415. Mas, segundo
Henrique
dos portugueses,
CUNHA
com a invasao de
JR (2006), ja em 1414 havia
registro dos primeiros negros (os mouros), tirados de Africa e levados a Portugal
73
para trabalhar como ourives32.
Borjador,
Cabo
Branco,
Depois invadem as ilhas da Madeira e Ai(ores, Cabo
Cabo Verde,
0
golfo da Guine,
alcani(ando
a linha do
Equador, em 1471.
Segundo Hernandez,
e oportunoregistrarquea historiografiaportuguesaconsideraa conquistade Ceuta,em
J 4 J 5, a penetrayaonascostasdo Marrocosatea batalhade Alcacer-Quibir, travadaem
J 578, entre D. Sebastiao,rei de Portugale 0 rei de Marrocos como sendo os marcos
iniciais do "tempo africano" (HERNANDEZ, 2005, p. 45).
Assim
aos
poucos
e gradativamente,
"contatos" que, posteriormente,
em 1487, Bartolomeu
Portugal
vai
estabelecendo
domina ria com 0 estabelecimento
Dias alcani(a 0 cabo das Tormentas,
seus
de colonias. Entao,
mais tarde, em 1497,
Vasco da Gama chega a MOi(ambique e Melinde, regiao da Africa Oriental, 56 entao
chega a Calicute, na costa oeste da india, estabelecendo
0 primeiro
contato direto
entre a Europa ocidental e a india.
Vasco da Gama enfrenta
0 desafio
do desconhecido,
caminho para 0 oriente usando 0 Oceano Atlantico,
Esperanl(a e alcani(ando
0
32
Ocidental,
contornando
0 Cabo
da Boa
Oceano Indico ate aportar em Calicute.
Esse processo de expansao
Africa
pois foi quem abriu
na costa
por Portugal fica, em principio, concentrado
da Guine,
pela posii(ao
geogr<3fica da mesma,
Textos de aula ministradas em Curso de especializa930 sabre Historia e Cultura Africana e Afro-brasileira,
Educay30 para as Politicas de Ayoes Afirmativas no Brasil.
na
nas
74
margens do Oceano Atlantico,
passagem obrigat6ria
dos navios que usavam essa
rota.
Essa regiao ficou conhecida por "Costa do Ouro" aonde, tambem, acontece 0
primeiro contato com
0
que foi
0
antigo Imperio da Africa Ocidental,
0
de Gana, em
1470, que mais tarde seria uma das primeiras col6nias da Inglaterra.
Entretanto,
ao leste do continente
presenc;:a portuguesa,
africano,
margeando
0 Oceano
Indico, a
desde 0 inicio do seculo XV ate 0 final do seculo XIX e bem
menor. Limitou-se ao Imperio pre-europeu
do Monomotapa,
em Moc;:ambique. Esse
Imperio tinha como soberano 0 "senhor dos metais", pel a explorac;:ao do ~Uro, cobre
e ferro, das minas que existia
na regiao. Sua autoridade
era inquestionavel
e
reconhecida pelos colonos que, por sua vez, na condic;:ao de vassalos, Ihes pagavam
tributo.
Nesse periodo 0 trafico de negros para os mercados escravistas
ainda era
pequeno. Conforme a narrativa de Hernandez:
cabereilerar que, no seculoseguinte,0 XVI a regiao ocidental concentradaem cerca
de apenas 80 quiI6metros entre a costa atlantica e 0 interior, alvo de interesse
comercial portugues,transformou-seno centro de produl'ao e circulal'ao dos negros
feitos calivos. Basta lembrarque foram retiradosde Pinda e de Angola cercade 4 mil
negros,s6 no anade 1530 (HERNANDES, 2005, p. 49).
4.4.
0 Imperio Portugues.
A formac;:ao do Imperio
Afonso Albuquerque,
dominando
a
Colonial
Portugues
teve inicio sob
com as viagens que empreendera
passagem
pelo
Mar
Vermelho
em
0
comando
de
na regiao norte da Africa
direc;:ao
a
Europa,
e
75
consequentemente,
conseguindo
0 monop61io
dos produtos
orientais.
Assim,
os
portugueses fixaram-se em Goa (oeste da india), Diu e Cochim.
Dessa forma foi se expandindo
para outras regioes. Conforme Arruda e Pilleti,
a
"a tomada de Malaca, em 1511, abriu caminho para a Indochina. Em 1517, chegam
costa da China e, em 1520, sao recebidos
em Pequim,
0 que
Ihes permitiria
comercializar com Cantao" (ARRUDA E PILLETI, 1994, p. 140).
Esse contato com 0 oriente, possibilitou
militares
ou entrepostos
Europa.
De forma
onde os produtos
aos portugueses
eram trocados
fundar benfeitorias
e transportados
para
que, todo ano, uma frota partia de Lisboa e aproveitava
as
mongoes de sudeste para atingir Goa, ap6s dobrar 0 cabo da Boa Esperanga (antes
das Tormentas).
Voltavam dois meses depois com especiarias,
pedras preciosas, e
objetos raros.
Com 0 passar do tempo, 0 comercio,
comega a tornar-se antieconomico.
ate entao bastante
rico e vantajoso,
Por questao de seguranga, era preciso guarnecer
a costa e os portos; barcos caros, nao resistiam a muitas viagens e os naufragios
eram
frequentes.
comprometidos,
Entao
os
empresarios
reduziram seus investimentos
portugueses,
em
fungao
dos
lucros
no Oriente e deixaram os gastos por
conta do estado.
Depois de 1530, esse comercio ja bastante comprometido
Portugal teria que buscar outras alternativas,
para suprir as necessidades
entra em declinio.
onde se volta para 0 trafico de negros
de mao de obra escravizada, ja bastante avangada em
algumas regioes da Europa e nas Americas, inclusive 0 Brasil.
76
Entretanto,
esse mesmo comercio de escravizados
para as Americas
ja era
praticado antes. Nos registros de Malomalo, de que:
em 1444, houve a primeira grande expedi~ao que os portugueses mandaram a Africa,
com 0 fim de capturar escravos, foi chefiada pelo famoso Lancerote de Freitas,
partindo de Lagos - on de se fundou uma companhia especialmente para "prear"
negros (MAMALO apud CHIAVENATO, 2004, P. 76).
A
partir
financiamento
primeiras
conquistas
e
dominios
continentais,
do capital mercantil e do Estado, os portugueses,
papal "Romanus
outorgava
das
Pontifix",
0 direito
assinada
a
de reduzir
baseados
V, em 145433,
pelo Papa Nicolau
ser:vidao todos os povos infieis.
com
0
na bula
que Ihes
Baseado
nisso
Portugal reclamava 0 seu direito aos novos territorios, isto incluia 0 Brasil.
A partilha
entre
Portugal
e Espanha,
atraves
da mediayao
caracterizou pelo Tratado de Tordesilhas, que permitia a propriedade
do Papa,
se
portuguesa
no
Brasil. Era de se esperar que tal divisao nao conteria os reinos de Holanda, Franya,
Inglaterra
e Dinamarca,
que,
igualmente,
tinham
seus
projetos
expansionistas
visando tambem 0 continente africano. Desde entao foram constantes os obstaculos
por eles colocados
Portugal procurasse,
e perpetrados
contra a decisao
da Igreja. Isto faz com que
sempre que possivel e vantajoso,
compor os seus interesses
comercial e mercantilista com os da Igreja.
Segundo Luz, de que "um extrato do regimento de 1520, exarado pelo Rei D.
Manoel, instruindo emissarios
33
ao "EI Rey d'Angola"
pode ilustrar a alianya entre 0
Vide MALOMALO apud CHIA VENATO, 1986, p. 46 in Nossas raizes AtTicanas: 0 Continente AtTicano e
seu Legado e suas Hist6rias, 2004, p. 76.
77
poder da igreja e do Estado no inicio do processo colonial mercantil escravista (LUZ,
2000, p. 151), reiterando com cita<;:aode Glasgow que diz:
confiamos-vos essa missao com a finalidade principal de averiguar se 0 rei de Angola
deseja realmente ser Cristianizado tal como foi no Congo. Foi-nos dito que 0 Rei
realmente 0 deseja e que os mensageiros do rei exprimiram essas ideias. Juntamente
com isso, fomos informados que no reino de angola poderao ser encontrados algumas
minas de prata. Devereis tentar encontra-Ias, e tambem procurar saber se ha outros
metais. Deus antes e acima de tudo, mas tenhais em mente tambem 0 ouro. (LUZ
apud GLASGOW, 2000, p. 151).
Portanto os objetivos, tanto da coroa de Portugal, quanto da igreja, visavam
acima de tudo, a explora<;:ao nao s6 do comercio que se poderiam estabelecer
terras africanas,
mas tambem
a explora<;:ao da riqueza do solo, 0 ouro, prata ou
outros metais preciosos que ja tinham conhecimento
4.5
em
da existencia.
A Invasao Europeia
Assim, a presen<;:a do europeu em territ6rio africano esta relacionada
ao rico
comercio que nasceu e se desenvolveu junto aos primeiros dois grandes reinos ou
imperios,
0 de Gana e depois
Mali, mas tambem,
levados
pela possibilidade
de
explora<;:ao de toda riqueza que pudessem extrair em solo africano.
o crescimento
dessas rotas comerciais, como ja analisamos,
da Africa Ocidental para 0 a Africa setentrional,
Mediterraneo
e ao norte atingindo
Atlantico atingindo todo
0
0 Egito.
sui do continente.
atravessando
ocorre da regiao
0 grande Saara ate 0
Para 0 sui se expande
pelo Oceano
78
A presenya europeia na Africa tem inicio no final do seculo XIV e inicio do
seculo XV, porem, os interesses estavam voltados para 0 comercio que aos poucos
foram se estendendo tambem via atlantico as terras espanholas.
Assim, segundo Hernandes,
a principio, pela necessidade de trigo e outros cereais para abastecimento do
reino e, a seguir, pelos ganhos com metais preciosos e especiarias, a meta dos
"viajantes-exploradores", financiado pelo rei de Portugal era alcan<;:aras indias
por via maritima, uma vez que 0 acesso,de Tanger ate a regiao da Safim, Ihes
fora impedido pelos turcos otomanos ate a batalha de Lepanto, em 1571
(HERNANDES, 2005, p. 45).
Da mesma forma, ainda segundo Hernandes, de que 0 veneziano Cadamosto,
a serviyo de Lisboa e do portugues Diogo Gomes, respectivamente
em 1455 e 1456,
chega no Rio Gambia, que se tornaria uma das principais vias de acesso ao interior
do continente ate
0
de aura e depois
escravizados
seculo XIX, que fora, nao s6 uma importante rota de escoamento
de grande
nas Americas.
quantidade
Atingindo
de negros
de Bambuk,
que
seriam
depois 0 rio Grande e entrando em contato
com 0 Imperio do Mali.
Assim e que com 0 dominic de pequenos pontos da costa ocidental africana,
definidos como "portos de trato" do litoral, que podermos entender como entrepostos
de escravizados
abastecimento
para embarque,
que se iniciou todo 0 processo do trtlfico
dos principais mercados das Americas, dentre estas,
0
Brasil.
para 0
79
Em 1482, na regiao do antigo Imperio do Gana, na chamada Costa do Ouro,
Proximo ao Golfo da Guine e construido
0 forte e 0 castelo de Sao Jorge da Mina,
sendo uma das primeiras edificayoes europeias na regiao sui do Saara.
Dessa regiao que se obtem grandes carregamentos
escravizados.
Ha registros de que "desde 1482 ate meta de do seculo XVI, cerca de
300 mil individuos
Velha, tendo
de ouro e, sobretudo de
0
da Costa dos Escravos e do Congo foram vendidos
Brasil por destino" (HERNANDES,
na Mina
2005, p. 47).
Somado a este escoamento da Africa Ocidental, mais tarde, se completaria
inicio do seculo
XVI,
importante fornecedora
por Pinda,
regiao
da Africa
central,
que
aparece
no
como
de negros, cobre e marfim.
No ana de 1483, conforme Hernandes que:
Diogo Cao, buscando 0 caminho das indias, subiu 0 rio Congo e acabou encontrando 0 reino
do congo, atual regiao ao norte da angola, parte da Republica Popular do Congo e da Republica
Democnitica do Congo. E interessante destacar que 0 reino do Congo, cuja dura,ao se estendeu
ate 0 ultimo quartel do seculo XVII (mais precisamente em 1665, quando foi destruido por
tropas lusas, africanas e brasileiras), teve urn mani (senhor), 0 Manicongo, que se declarou
"convertido" ao cristianismo, em 1512, como forma de se opor as Linhagens rivais "animistas"
(HERNANDES, 2005, p. 47).
Entretanto, da mesma forma que havia 0 interesse
continente
africano,
paises
como Franya,
Alemanha tarnbem fizeram suas investidas
invadindo regioes que culminaria,
Inglaterra,
portugues
Espanha,
no continente,
em explorar 0
Holanda,
cada um
a
mais tarde, na charnada "Conferencia
que tem inicio em 15 de novembro de 1884 a 26 de fevereiro de 1885.
Belgica
sua maneira,
de Berlim",
80
Nessa conferencia
colonizagao
e onde acontece
do continente
africano.
escravista ja estava extinto,
0
e se oficializa
de
Portanto, ja no final do seculo XIX. 0 trcifico
processo do escravismo tambem, em vias de extingao.
E com a estrategia dos cham ados "protetorados"
que se discutem
continente, onde cada 'um dos paises interessados
"supostamente",
de fato, 0 processo
0
mapeamento
do
reivindicava 0 direito de invadir e
cuidar do territ6rio como bem e propriedade de suas metr6poles.
Essa conferencia
fora convocada
pela Alemanha
e Franga para resolver
a
crise suscitada na bacia do Congo entre as ocupagoes coloniais do rei Leopoldo da
Belgica e de Portugal.
Portugal que tinha 0 apoio da Inglaterra reivindicava,
seus direitos seculares
de ser 0 primeiro ocupante daquele territ6rio. Assim,
resolver a crise e os interesses
direitos
sob ameaga de guerra,
defendia
seus
sobre
Bismack,
abriu a conferencia
entre os varios paises europeus,
os ricos territ6rios
de Berlim, sem
0
africanos,
onde cada um
0 principe
consentimento
para
alemao,
e a presenga
dos
povos africanos, que dividia 0 continente em varios territ6rios conforme os interesses
daquelas potencias europeias.
Segundo
alguns
registros
de
que,
a
(mica
presenga
africana
nessa
conferencia, era de um individuo de Gana, um adido cultural na Franga, mas que nao
estava
representando
Ocidental,
seu pais, ou outro territ6rio
nem sequer participava
das discussoes,
que correspondesse
porquanto,
a Africa
nao tinha nenhum
poder de decisao sobre 0 que se decidiu naquela conferencia, que mudou a situagao
81
geogrilfica,
IingOistica e cultural
do continente
e os destin~s
dos africanos,
que
passaram a viver sob a tutela dos europe us.
5.1
CONCLUsAo.
Assim, concluimos
anular a importancia
do continente
informac;:6es destorcidas
desenvolvidos
o
que, apesar de todas as tentativas
e ou omitidas
da metalurgia
e saberes
de
ferramentas
na agricultura
ocupacional
0 dominic
e nas artes da guerra,
e fabricac;:ao de
grande desenvolvimento,
a especializac;:ao
de todas as fontes minerais,
de avanc;:adas tecnicas de ourivesaria,
que tanto significou
desenvolvimento
com
todas as
em relac;:ao aos conhecimentos
da escrita, as descobertas
que propiciou no desenvolvimento
0
Considerando
e
em Africa.
desenvolvimento
propiciaram
e do povo africano.
de desqualificar
armas.
Tais
com 0
conhecimentos
a criac;:ao de gada e que muito contribuiu
e, conseqOentemente,
convergindo
com
a
civilizac;:ao humana.
Os metodos de organizac;:ao social e politica que, nao 56 os arabes, mas, mais
tarde, os europeus puderam constatar nos grandes imperios que se constituiram
que muito contribuiram
para 0 crescimento
de cidades
importantes
e
da epoca,
algumas existentes ainda em nossos dias.
As resistencias
demonstradas
levadas a cabo pelos movimentos
pelo povo africano contra todas as investidas
de expansao
religiosa,
tanto islamica
e, mais
82
tarde, pelo cristianismo
imposto pelos europeus
convicyoes e crenyas tradicionais.
conversoes
que procuraram
neutralizar
suas
Mas que toda investida nao se configuravam
em
em massa, atingindo pequenos grupos da elite, que por interesses
status, aparentemente,
As influencias
ou
aderiam tais praticas.
culturais
negadas, pelos processos
e civilit6rias
historiograficos
africanas
no resto do mundo,
e ideol6gicos,
embora
mas que estao presentes
nos continentes.
Segundo
Kabengele
Munanga,
0 conceito
africano na diaspora seria a "africanidade"
que bem traduziria
a Africa e 0
que poderia revelar a fisionomia
cultural
comum as culturas e civilizayoes africanas (MUNANGA, 2006, p. 9). A "africanidade"
nos remete a uma pluralidade, presente na realidade dos povos que compunham
os
reinos pesquisados.
As linguas africanas faladas sao numerosas, segundo alguns autores, contamse hoje, 700 a 1500. Entretanto,
saariana, niger-kordofoniana34,
uma das tres grandes familias,
afro-asiatica
Nilo-
esta ultima se estende sobre uma area consideravel
que vai de toda a parte continental que esta situado ao sui de uma linha reta trayada
de Dacar a MOyambique, segundo Munanga, "apesar dessa enorme expansao e uma
grande
variedade
nigero-kordofonianas'
comuns para que possam ser classificadas
apresentam
entre
elas
caracteristicas
numa (mica familia" (MUNANGA,
2006,
10).
34
MOKHT AR, G .. e POSNANSKI, M. - Hist6ria Geral da Africa Negra volll in lntroduyao ao tim da PreHistoria na Africa subsaariana. Editora Atka. S. Paulo-Unesco I 980-Sao informac;oes que nos mostra que
houve uma fusao entre as Ifnguas kodofonianas e os dialetos nigero-congolenses
da familia protocongokordofonianas.
83
Portanto, a africanidade e um conceito que engloba, nao so, usos e costumes
do povo africa no, como todos os valores presentes no seu cotidiano representado
vivenciado
pel a religiao na relac;:ao mitica corpo-tempo-espac;:o,
enriquecido na relac;:ao danico-familiar
e
que por sua vez, e
que se completa e garante a ancestralidade.
Essa heranc;:a da africanidade para os african os da diaspora, alem dos valores
lingOisticos, esta tambem nas instituic;:oes sociais como 0 casamento,
a familia,
os
sistemas de crenc;:as, sua visao de mundo e a sua relac;:ao com a morte. Para 0
africa no a morte individual e apenas um momenta do circulo vital que nao prejudica a
continuidade da vida.
E
morta,
daro que, igualmente, a morte e uma desordem que atinge tanto a pessoa
como
justamente
os demais
membros
da familia.
Mas os ritos funerarios
para contornar e recompor a desordem,
0
equilibrio
emocional
servem
do grupo
abalado pela morte. Assim quando alguem morre, e preciso compor a negatividade
que essa morte representa, proteger contra ela e elucidar suas causas para proceder
a restaurac;:ao da ordem.
Por isso, os funerais
canto, danc;:as embaladas
reverenciando
africanos
sao compostos
pelos ritmos dos tambores,
a personalidade
por cerimonias
com muito
muita com ida e discursos
e as boas ac;:oes realizadas pelo morto em vida. De
forma que, pouco a pouco, a atenc;:ao se desvia da morte real, inaceitavel
em sua
dimensao individual e afetiva, passando para um plano simbolico on de a mesma se
torna a garantia de um excedente da vida - vida apos a vida - a ancestralidade.
84
Com relagao ao casamento, e outro fator de suma importancia nas sociedades
africanas.
Para 0 africano, ser adulto e, antes de tudo, ser casado, ser pai, e ser
mae. Nao ha nas sociedades
africanas,
papel
social
normal
previsto
para os
solteiros. Todo e qualquer caso de solidao provocada por doenga fisica ou debilidade
mental ou voluntaria sao considerados
o casamento
como aberragoes ou como acidentes infelizes.
africano nao interessa somente ao jovem casal, e antes de tudo
uma alianga entre dois grupos
linhagem que e claramente
de parentesco.
Ai esta em jogo
indicada durante 0 longo processo
a primazia
da
do casamento.
A
preferencia individual nao e importante, ela existe, mas nao tem importancia.
Isto porque essa linhagem tera forte influencia nas formas de governo africano
que sao diversas.
Existe 0 chefe, 0 reino, 0 imperio tal como pesquisamos.
No
entanto, essas formas tem em comum essas caracteristicas.
o
poder, a autoridade
sangue (isso para 0 africano
do patriarca
da linhagem
e fundamental);
aldeia e baseada na mesma lei do sangue;
predomina para justificar a autoridade,
e baseada
a autoridade
nos lagos de
de um chefe de uma
numa chefia, a lei da territorialidade
mas 0 fundamento
do poder e baseado no
parentesco, pelo sangue. Mesmo quando esse parentesco
nao exista, nao seja real,
ele pode ser mitico. Sempre vai se inventar uma relagao mitica para poder justificar 0
poder, e ali 0 parentesco estara sempre presente.
No que se refere a democracia, para 0 africano, 0 importante e a unanimidade
e nao a maioria parlamentar.
Essa e a caracteristicas
dos conselhos
dos anciaos.
85
Neles as vel has discutiam
ate chegar a um consenso
e conseguir
a unanimidade
para tamar a decisao.
Antes de se tamar qualquer decisao,
pensava-se
no impacto que a mesma
teria, nao s6 no momenta presente do grupo, mas ate a setima gerac;;ao, qual seria a
impacto e a garantia do conforto e bem estar social, au consequelncias negativas que
tal decisao poderia trazer.
Isto explica
par que em muitos
regimes
parlamentaristas
no continente
africano nao deu certo e tiveram que voltar sempre ao partido (mica em nome des sa
unanimidade
africana. Os paises que insistiram no sistema parlamentar
resultou em
grandes conflitos internos com choques de grupos etnicos e guerra civil - como que
acontece atualmente no Quenia.
Outro fator irnportante na relac;;ao grupal para a africano e a usa da palavra e
do gesto. Pelo usa da palavra e do gesto da ao homem africano uma forc;;a capaz de
irrigar a universo e tirar dessa forc;;a elementos
palavras sao eficazes porque sao carregadas
para a relac;;ao com a outro. As
de forc;;as. A palavra, na Africa, tanto
pode curar como pode matar porque e carregada de uma forc;;avital importante.
Este principia da palavra e do gesto esta respaldado
segundo HAMPATE
sA
na tradic;;ao oral e que,
(1982), se ap6ia nas tradic;;6es da savana ao sui do Saara,
cham ada de Safur da antiga Africa Ocidental Francesa, portanto do Imperio do Mali,
que diz:
86
e
"a tradi,ao bambara do Komo" ensina que a palavra, Kuma
uma for,a fundamental
que em ana do proprio Ser Supremo, Maa N gala, eriador de todas as eoisas. Ela
0
instrumento da eria,ao: "Aquilo que Maa N gala diz, e!", proclama 0 chantre do deus
Komo (HAMPATE BA., 1982, p. 183)".
Hampate
(1982),
continua
com sua narrativa
enos
e
apresenta
0 mito
da
criayao do homem, que e ensinado pelo mestre iniciador do Komo (que e sempre um
ferreiro) aos jovens circuncidados,
de um interlocutor, criou
0
e revela-nos que quando Maa N gala sentiu falta
homem.
Assim 0 novo ser criado e a sintese
excelencia
recebe da Forya a confluencia
de tudo 0 que existe, e 0 que por
de todas as foryas existentes,
Maa, 0
homem, recebeu de heranya uma parte do poder criador divino, 0 dom da Mente e
da Palavra.
o Grande
Ma N gala ensinou a Maa, seu interlocutor, as leis segundo as quais
todos os elementos
guardiao
do cosmo foram formados e continuam
do Universo
e 0 encarregou
a existir. Ele 0 intitulou
de zelar pela conservayao
da Harmonia
universal. Por isso e penoso ser Maa.
Portanto, iniciado por seu criador, Maa,
descendentes
de transmissao
0
a seus
tudo 0 que havia aprendido, e esse foi 0 inicio entao da grande cadeia
oral iniciadora da qual a ordem do Komo (como as ordens do Nama,
do Kore, etc., no Mali). Afirma ser a continuadora.
35
homem, mais tarde transmitiu
Urna das grandes escolas de inicia<;ao do Mande (Mali).
87
Assim,
sendo Maa N gala criador, Maa criatura fa lava com ele. Criador
criatura se comunicavam
responder.
e ao mesmo tempo,
0
E como vinha de Maa N gala para
0
criador dotava-o da capacidade
com a corporeidade,
perderam um pouco de sua divindade,
sacralidade.
sacralizada
pela palavra divina,
emitiu vibrac;:6es sagradas que estabeleceram
de
homem, as palavras eram divinas
porque ainda nao haviam entrado em contato com a materialidade.
Assim,
e
Apos 0 contato
mas se carregaram
de
por sua vez a corporeidade
a comunicac;:ao com Maa N gala.
A tradic;:ao africana, portanto, concebe a fala como um dom vindo direto de
Deus. Por isso, ela e ao mesmo tempo divina no sentido descendente
sentido ascendente.
e sagrada no
Logo, na Africa tradicional, aquele que falta com a palavra dada
mata sua pessoa civil, religiosa e oculta. Ele se separa de si mesmo e da sociedade.
Seria preferivel que morresse, tanto para si proprio como para os seus.
Por isso,
poemas
0
Chantre do Komo de Kulikoro, no Mali, cantou em um de seus
rituais: "a fala e divinamente
exata / convem
ser exato para com ela".
"Lingua que falsifica a palavra I vicia 0 sangue daquele que mente" (HAMPATE
sA,
1982 p. 186-87).
o
sangue, segundo
sA,
simboliza aqui a forc;:a vital interior, cuja harmonia e
perturbada pela mentira. "Aquele que corrompe a sua palavra, corrompe a si proprio",
diz
0
adagio. Quando alguem pensa uma coisa e diz outra, separa-se de si mesmo.
Rompe a unidade
do sagrado,
dentro e ao redor de si (HAMPATE
reflexo da unidade
sA,
1982, p. 187).
cosmica,
criando
desarmonia
88
Entao, podemos
compreender
melhor em que contexto
magico-religioso
e
social esta situado 0 valor e 0 respeito que 0 africa no tem pela palavra e na tradic;:ao
oral, especialmente
quando se trata da transmissao
do conhecimento
e daspalavras
herdadas de ancestrais ou de pessoas idosas. 0 que a Africa tradicional
e a heranc;:a ancestral. 0 apego religioso ao patrimonio transmitido
mais preza
exprime-se
em
frases como: "Aprendi com meu Mestre", "Aprendi com meu pai", "foi 0 que suguei no
seio de minha mae". Dai a heranc;:a deixada pelos antigos reinos, imperios para a
humanidade,
uma vez que os mesmos observavam estes principios.
Porquanto,
relacionar
0 conceito
da africanidade
Americas equivale respaldar as resistencias
as diasporas
negras
nas
culturais no seu conjunto que, por sua
vez, nos remetera as identidades culturais representadas
nas resistencias
os cantos da terra e paises que exploraram e foram beneficiados
em todos
pelo trafico negreiro
de Africa.
o Brasil
esta entre estes paises, mais ainda, foi 0 que mais se beneficiou com
o rapto de negros da Africa do seculo XV ate 0 XIX, e e tambem,
0 que mais
apresenta diversidade da africanidade em todas as suas regi6es de norte a sui, salvo
a algumas especificidades
territoriais
riqueza da heranc;:a de Africa -
0
eu deixo, definitivamente,
mas que e, sobretudo,
a maior
povo brasileiro.
Quanto as minhas angustias
inquietude e no conhecimento,
e regionais,
dos tempos de menino, continuo
buscando
na
as respostas a paz de espirito, pois 56 assim e que
de ser escravo da escravidao
de meus pais. Portanto,
quero terminar esse trabalho citando Frantz FANON (1953), que tambem
encerra
89
suas reflexoes sobre 0 anticolonialismo
argelino com uma ultima prece: "Oh corpo,
faya de mim um homem que questione sempre" (FANON, 1953, p, 190).
90
6.1
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