VI CONGRESSO BRASILEIRO DE PSICOPATOLOGIA FUNDAMENTAL
Recife, de 05 a 08 de setembro de 2002
MR/B2 OBSERVAÇÃO DO SOFRIMENTO NA CLÍNICA COM O BEBÊ: O
SOFRIMENTO DE ANDRÉ.
Telma Queiroz1
O sofrimento de André provinha das três fontes citadas por Freud no
Mal estar na civilização: de seu próprio corpo quando adoecia; do mundo externo
por exemplo, quando sua casa se inundava; do relacionamento com os outros,
seu pai, sua mãe e seu irmão. Seu sofrimento era de fato, manifestação do
sofrimento familiar.
A estrutura familiar era muito perturbada, a começar pela miséria
financeira. Os avós maternos eram os provedores de toda a família. O avô estava
empregado numa padaria quando o tratamento iniciou, mas perdeu o emprego
pouco tempo depois. A avó trabalhava como lavadeira. Sua história se repetia em
suas filhas: ela tinha “se perdido” aos quinze anos, assim como tinha acontecido
com as duas filhas mais velhas. Eram quatro filhos (3 mulheres e um rapaz) dentre
os quais Viviane, a mãe de André era a mais velha, que tinha dezenove anos
quando se iniciou o tratamento de seu filho. O segundo filho era um rapaz de 18
anos que há muito tinha parado de estudar, também não trabalhava, era viciado
em drogas, já tinha estado na prisão várias vezes. A terceira era outra irmã de 16
anos, mãe solteira, tinha brigas constantes com o pai de seu filho que bebia muito
e batia nela. A última era outra menina com doze anos, surda muda, deficiência
que tinha sido descoberta com a idade de 1 ano. Achavam que André se parecia
muito com ela.
Não tínhamos muitas informações sobre a família paterna de André,
o pai nunca atendeu minha solicitação para vir. Sabe-se apenas que pertencia a
uma família muito numerosa, 12 filhos. João bebia muito e era agressivo com a
companheira. Ele tinha outra mulher, de vez em quando desaparecia, não
contribuía em nada com as despesas da família. Vivia desempregado e quando
por acaso arranjava dinheiro fazendo biscates, gastava com bebida. Sempre
voltava para casa tarde e bêbado.
O casal tinha começado a namorar quando a mãe tinha 11 anos.
Aos 15 anos ela engravidou, para grande decepção do seu pai que tinha lhe
oferecido uma bela festa de 15 anos. Ela abortou espontaneamente porque teve
um desejo não satisfeito a tempo de comer doce de goiaba. O doce chegou tarde
demais, o feto morreu.
O sofrimento da mãe era particularmente intenso. A gravidez de
André foi muito difícil para a ela. Não foi desejada, aconteceu por acaso. O
companheiro a abandonou no terceiro mês para se juntar com uma prima. Ela
ficou sozinha com o filho mais velho que ainda amamentava. Sua casa situada
numa área de risco, às margens de um rio, inundou-se várias vezes durante esse
período, ela teve que se virar sozinha.
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Psiquiatra psicanalista, professora da UFPb, doutora em psicologia pela Universidade de Paris 13.
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Os sintomas de André, ela os atribuía à raiva que tinha sentido pelo
pai durante a gravidez. Com efeito, ela não pôde se ligar muito na criança que
estava por chegar, dominada pela raiva do companheiro, amamentando ainda seu
primeiro filho, além de estar tomada pelas necessidades materiais, pelas
preocupações com a própria sobrevivência e com as inundações da casa.
O parto foi normal, mas uma decepção para a mãe: teve um menino
quando desejara muito uma menina, tinha até preparado as roupinhas cor de rosa.
Aquela criança que nascera, ela achou estranha e peluda. Pensou-se que não
sobreviveria muito tempo, mas André sobreviveu.
Após o nascimento o pai voltou para casa, mas o clima continuou
muito pesado, havia brigas diariamente. Ele bebia, era grosseiro, batia na mãe. E
enquanto ele se embriagava, André mamava, as duas crianças mamavam ainda, a
mãe jamais dizia não, embora se sentindo cansada e queixando-se de tonturas.
De que maneira o sofrimento familiar se manifestava em André? Ele
não falava e não parecia querer falar. Também não andava nem ficava em pé,
caía, suas articulações eram muito moles, dizia a mãe. Não se interessava por
brinquedos, não pegava nenhum objeto. Tinha o ar triste em permanência, o olhar
era longínquo. Ele dava gritos estereotipados, gritava durante o sono, quando
estava com raiva batia com a cabeça contra a parede, tinha gestos estranhos.
Passava quase todo o seu tempo, dia e noite, mamando. Não se separava da mãe
nem mesmo 5 minutos. Tinha medo de tudo e de todos, não aceitava ficar nem
mesmo, (e sobretudo) com seu pai. Chorava por qualquer coisa, bastava ouvir
uma voz de um tom um pouco mais elevado.
Sua mãe “sabia”, que ele jamais falaria. Ela achava que ele era
mole, feio, tinha o cérebro pequeno, órgãos sexuais estranhos, parecia até uma
menina. A mãe e a avó tinham mesmo dúvidas quanto ao sexo dele. Toda a
família dizia que ele era retardado.
Assim se apresentavam portanto, os sintomas de André, em sua
busca desesperada de evitar o sofrimento que o ameaçava de todos os lados: um
importante retardo psicomotor, retardo da linguagem, olhar longínquo, colagem à
mãe, fechamento para o mundo, estranhezas.
Como se passava a relação entre André e sua mãe? Será que era o
seu sofrimento que impedia a mãe de supor desejos em seu filho, de supor seu
filho sujeito? Ela parecia supor apenas um desejo, o de mamar. Ela não
antecipava sua fala, não supunha seu pensamento. Estava mesmo certa de que
ele não falaria nem andaria. Achava suas pernas estranhas, estava sempre
achando nele algo de estranho, ora no corpo, ora nas atitudes. Estranheza que
entendemos como nada mais que ausência de sentido, ausência de interpretação,
ausência de desejo pela criança.
Não foi André quem desencadeou nela o processo de lactação.
Tudo já estava pronto e funcionando, ela ainda não tinha parado de amamentar o
filho mais velho. André precisou apenas entreter o processo de lactação. Essa
mãe parecia ter um prazer especial em amamentar, assim como sua própria mãe
que amamentara cada um dos quatro filhos durante no mínimo três anos e
continuava alimentando a todos depois de adultos. Todos estavam
desempregados era ela quem mantinha filhos e netos.
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A amamentação parece ter tido para André uma significação vital
em todos os sentidos. Primeiro do ponto de vista da miséria financeira, era um
alimento que não custava caro, sem amamentação ele teria sido certamente uma
criança mal nutrida, teria talvez contraído muito mais infecções no meio em que
vivia; segundo, do ponto de vista de sua subjetividade, porque sua capacidade de
mamar era a única coisa que sua mãe investia nele, os momentos de
amamentação eram os únicos momentos em que seu olhar dirigido para ele
manifestava prazer. Se tivesse sido amamentado na mamadeira sua
sintomatologia teria sido ainda mais grave, muito provavelmente nenhuma relação
ter-si-ía estabelecido entre eles, ele teria podido se tornar autista. Mas esses
momentos de amamentação eram tão próximos uns dos outros que ele não podia
sentir verdadeiramente fome, ele não podia sentir a falta, seu pensamento não
podendo ser convocado. Nenhum ritmo tinha se estabelecido para as mamadas, a
criança se servia do seio a qualquer momento, a qualquer hora quando tinha
vontade, e mesmo quando não tinha sua mãe lhe lembrava. Bastava ele se
aproximar, ela já começava a levantar a blusa para lhe oferecer o seio. Ele não
sabia o que era esperar, vivia na eternidade, o ritmo de dois tempos e de três
tempos não podia se instalar preparando-o para o desmame e a separação. Ele e
sua mão faziam Um, ele não se desdobrava quando ela partia, nem podia ter a
noção de sentimentos diferentes com ela e sem ela. Também não havia para ele
diferença dia-noite, ele dormia com a mãe e continuava à noite no mesmo ritmo do
dia. Da mesma maneira a subida do leite no seio da mãe acontecia à qualquer
momento, sem nenhum ritmo que pudesse fazê-la antecipar o despertar de seu
filho para mamar, o leite escorria do seio quase em permanência.Toda relação
entre eles passava pelo seio, sem palavras para fazer a mediação, sem palavras
que poderiam fazê-lo simbolizar o seio e substituí-lo por outros objetos. Não havia
dúvida no entanto, que sua sexualidade tinha sido instituída, sua relação com sua
mãe era mesmo muito erotizada. Enquanto mamava ele a acariciava, o prazer da
mãe era notório e de certa forma ela se dava conta dessa erotização em sua
maneira de dizer que ele era sem vergonha, que ele era um safado quando
mamava. Sabemos por outro lado que ela era muito frustrada em sua relação com
o companheiro que dormia em outra cama com o filho mais velho enquanto ela
dormia com André.
O clima entre os pais era de muita agressividade verbal e física.
André também tinha se tornado uma criança agressiva, era agressivo com seu
irmão, que por sua vez era agressivo com ele. Quando contrariado tinha crises de
raiva, jogava tudo por terra, gritava, chegava até a tomar o choro. Viviane
transferia facilmente para seus filhos a raiva que tinha do marido, batia neles
freqüentemente. Foi, aliás, de maneira agressiva que se iniciou no tratamento a
transferência de André por mim, me lançando objetos com raiva. Com sua
agressividade ele manifestava seu ódio pelo mundo externo que era dispensador
para ele na maior parte do tempo de estímulos tão dolorosos.
As emoções que a mãe lhe transmitia quando cuidava dele eram
certamente muito ambivalentes. Ora transmitia seu gozo, ora transmitia ódio e sua
agressividade, em contraposição à enorme passividade que ela tinha diante da
vida. Ela transmitia para a criança, seu dilema jamais resolvido de viver ou não
com esse homem que não a amava, que não tinha nenhuma ternura por ela e que
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a maltratava de maneiras diversas. Dilema que ela revelava também no peso dos
seus gestos, seu corpo era muito pesado, tinha peso demais, sua voz era
monótona, sem nenhuma musicalidade, sem nenhuma variação entre agudeza e
gravidade.
Quais as repercussões que já podíamos observar no
processo de subjetivação de André ? Para André houve afirmação primordial,
houve introjeção do seio e da relação com a mãe, ele estava portanto no
julgamento de atribuição. Podemos dizer que ele tinha passado pela primeira
operação de realização do sujeito, ele estava alienado na mãe sem poder
entretanto se separar dela. Não tinha havido separtição no interior, nem parturição
do sujeito. Ele não tinha se liberado do efeito de afânise pois não tinha descoberto
a falta no Outro. Ele tinha recusado manifestamente seu pai real, fonte de dor e
sofrimento para ele e para a mãe. Podemos dizer que ele havia forcluído o nome
do pai, não houve pai simbólico que exercesse o efeito de corte e de separação
entre ele e sua mãe. Ele recusava qualquer pessoa em posição terceira, e mesmo
qualquer outra alimentação que não o leite materno. Não tinha portanto passado
pela prova de realidade, permanecia no registro do princípio do prazer, não podia
distinguir alucinação do seio do seio órgão da mãe, pois cada vez que a
alucinação surgia, o seio real estava sempre lá, diante dele, sempre disponível. O
jogo de presença/ausência com o objeto real não tinha se estabelecido, ele não
suportava cinco minutos de ausência de sua mãe, não podia assim fazer a
representação nem da ausência nem do retorno. Ele não tinha momentos de
solidão, não podia prescindir do objeto externo seio e ficava em permanência na
dependência alienante do Outro. Em seu corpo, com sua hipotonia, André
transmitia também sua passividade diante da vida, ele exprimia o fato que seu
corpo era objeto de gozo do outro assim como o corpo de sua mãe. Ao mesmo
tempo pela sua postura ele manifestava a negação de tudo o que não era a mãe.
Sua atividade negativante era muito intensa, ele queria destruir tudo o que não lhe
lembrasse a mãe. O outro era bom para ser negado, destruído.
André também não podia ter acesso à linguagem. Os sons que emitia
não eram interpretados pela mãe, ela dizia que ele tinha uma voz bizarra, rouca,
jamais lhes atribuía sentido. A única interpretação que podia dar aos seus gritos
ou às suas manifestações corporais, era a de procura do seio. Ela não lhe falava
enquanto amamentava, não nomeava os objetos para ele, e nem esperava que
falasse.
A perturbação simbólica da estrutura familiar era portanto
evidente. Um pai alcoólatra, afastado da função paterna, não produzindo portanto
efeito de barra entre a mãe e seus filhos, e particularmente entre ela e André.
Todas as relações familiares eram de fato muito perturbadas. Sem contar que
André nem existia ainda do ponto de vista legal, pois nem mesmo tinha sido
registrado. A carência paterna era notória. O pai real era ausente, o simbólico
falho. A mãe tinha dificuldade em deixá-lo cair de seu seio.
Freud nos mostrou por outro lado que as relações que se
estabelecem no primeiro ano de vida dão a sua forma as relações de objeto
posteriores. Que as primeiras experiências ficam marcadas, e constituem um
trilhamento que será percorrido por novas excitações. Podemos supor o desastre
que seria a evolução de André, se conservasse esse modelo de relações objetais
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que associadas às perturbações simbólicas sugeriam fortemente uma tendência
senão para uma evolução psicótica, no mínimo para uma tendência psicopática ou
perversa.
André no entanto se submeteu a um processo analítico durante
4 anos. Não vamos contar aqui os detalhes, mas seu tratamento possibilitou a
separação de sua mãe, permitindo o corte entre eles. A análise lhe permitiu ter
acesso à linguagem, recuperar seu desenvolvimento psicomotor e reativar seu
processo de simbolização.
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