ANAIS ELETRÔNICOS ENILL
Encontro Interdisciplinar de Língua e Literatura | 10 a 12 de novembro de 2011
Itabaiana/SE: Departamento de Letras, Vol.02, ISSN: 2237-9908
A IMAGEM DAS MINORIAS SOCIAIS NO LIVRO DIDÁTICO1
Moniza de Oliveira Santos (UFS)2
RESUMO
Este trabalho propõe uma discussão sobre a construção de imagens das minorias sociais
no Livro Didático (doravante LD). Nesse sentido, procuramos entender se essas
imagens perpassam discursos com um valor social estigmatizado. Observamos ainda
que o LD está num contexto em que há grande monitoramento do saber, por conta disso
ele se constitui um material em que há a institucionalização de um discurso de
“verdade” absoluta, logo o seu conteúdo não pode ser refutado. A partir daí, tudo que é
incluído pelo LD é tido como um conhecimento “único”, por meio do qual temos a
cristalização de discursos que elegem alguns sujeitos como superiores; outros, como
inferiores. Tais discursos, por sua vez, são reiterados a partir da memória discursiva,
que diz respeito aos discursos que repetimos a partir de uma partilha da memória social.
Esses aspectos corroboram a construção de uma imagem negativa dos sujeitos, e,
consequentemente, a instituição de estereótipos. Nesse contexto, trazemos à tona as
teorias da Análise do Discurso de linha francesa, bem como as contribuições das
Ciências sociais para esclarecer sobre a construção de imagens dessas minorias sociais
no Livro Didático.
Palavras-Chave: Livro Didático, Estereótipos, Minorias sociais
INTRODUÇÃO
Esta pesquisa visa discutir a construção de imagens das minorias sociais, tendo
como objeto de análise o Livro Didático de Língua Portuguesa (doravante LD). É nesse
sentido que procuramos verificar se os discursos que representam os sujeitos partícipes
dessas minorias, figuratizados no interior do LD, perpassam um valor social
estigmatizado, estereotipado. A partir de tais discursos, analisamos a construção do
ethos discursivo das minorias sociais. Com efeito, por este trabalho lidar com as noções
de minorias sociais, estereótipos, ethos discursivo, é condição sine quo non descrevê-
1
Este trabalho é um recorte do meu Trabalho de Conclusão de Curso, o qual foi orientado pela professora Drª Maria
Emília de Rodat de Aguiar Barreto Barros. E-mail: [email protected] (Adjunto 2/ UFS).
2
Estudante do curso de Letras UFS/Itabaiana. E-mail: [email protected].
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los. Ainda sobre o assunto, destacamos o lugar que Livro Didático ocupa no ambiente
escolar.
Nesse contexto, utilizamos os ensinamentos de Amossy (2008), segundo a qual
os estereótipos podem ser definidos como representações culturais preexistentes, que
modelam a visão de si, do locutor e de sua plateia. Quanto ao ethos discursivo, segundo
a perspectiva de Maingueneau (1993 apud AMOSSY, 2008, p. 31), o ethos não é dito
explicitamente, mas mostrado, como pode ser confirmado a seguir: “O que o orador
pretende ser, ele o dá a entender e mostra: não diz que é simples ou honesto, mostra-o
por sua maneira de se exprimir. O ethos está, dessa maneira, vinculado ao exercício da
palavra [...]” (MAINGUENEAU 1993, P. 138).
A partir da noção de ethos, refletimos sobre a maneira como o Livro Didático
de Cereja e Magalhães, do 8º ano, constrói a imagem das minorias sociais e,
consequentemente, instaura estereótipos. Daí entendermos que os textos selecionados
pelos autores em questão são formadores de opinião. E, como bem afirma Foucault
(1996), os livros são fontes que perpassam o discurso eleito como verdadeiro; por
conseguinte, há uma força discursiva capaz de instaurar “verdades”.
É relevante destacarmos ainda que este trabalho está circunscrito às Ciências
Sociais, devido à necessidade de definir minoria social numa perspectiva sociológica; à
Teoria da Argumentação, dada a definição de ethos discursivo. Essa definição, por sua
vez, remonta a Retórica Aristotélica, a qual é revisada por Maingueneau (1993) e
Amossy (2008); acrescenta-se a esses autores a noção de estereótipo. Desse modo, para
essa discussão apresentamos uma a seguir uma abordagem sobre as minorias sociais.
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AS
MINORIAS
SOCIAIS
E
O
LIVRO
DIDÁTICO
DE
LÍNGUA
PORTUGUESA
Nessa pesquisa, trabalhamos o conceito de minoria como sendo de um grupo
desprestigiado socialmente. Tais sujeitos são discriminados de tal modo que não têm
direito, sequer, à voz. Isso acontece, uma vez que são discriminados devido a sua raça,
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etnia, religião e outros; são silenciados pelas classes dominantes. E esse processo de
subjugação é recorrente há anos, traz consigo um discurso que aponta para a
inferioridade desses sujeitos. Como exemplo disso, trazemos o ponto de vista de Sodré
(s/d, p. 1) para colaborar com essa perspectiva sobre as minorias sociais, que está
proposto da seguinte maneira: “[...] (são) frações de classe comprometidas com as
diversas modalidades de luta assumidas pela questão social. Por isso, são considerados
minorias os negros, os homossexuais, as mulheres, os povos indígenas, os
ambientalistas, os antineoliberalistas, etc.”.
Ademais, segundo a perspectiva de Barros (s/d), existem discursos
institucionais que prevaleceram sobre outros, considerados inferiores. Diante disso,
notamos o fato de que houve larga disseminação de um discurso discriminatório,
segundo o qual o seu responsável é considerado o pai da ciência moderna. Daí procede a
força que tal discurso apresenta, pois representa um discurso de verdade. Eis a
constatação desse argumento:
[...] a relação entre emoção e razão não significava apenas uma
questão de ‘pensar’ ou não. A função de raciocinar era incumbida,
única e exclusivamente, à alma – de acordo com Descartes, um dos
pais da ciência moderna – e não mente. O que pensa é aquele que é
provido de espírito. O emotivo age a partir das disposições dos seus
órgãos, e possuem espíritos, todavia, são espíritos animais que agem,
sem a necessidade de raciocinar. Descartes, muito provavelmente,
refere-se à ação do corpo por intermédio de reflexos e da digestão. A
partir da conhecida frase ‘Penso, logo existo’, chegou à conclusão de
que, mesmo que não possuísse corpo, ele ainda conseguia refletir,
pensar, por intermédio de seu espírito. (BARROS, s/d, p. 2)
Sobre o que foi enunciado acima, é relevante lembrarmos que nesse contexto,
crianças, negros, mulheres e escravos eram considerados como aqueles que não
possuíam alma, consequentemente, não tinham direitos políticos, não tinham direito de
opinar sobre quaisquer coisas, portanto, não tinham voz; por conseguinte, não
raciocinavam. O fato de tais sujeitos serem considerados como aqueles que não tinham
espírito desencadeia a sua incapacidade de refletir ou raciocinar, segundo a teoria
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cartesiana (BARROS, s/d). Com isso, entendemos que o pensamento acerca das
minorias remonta a um tempo passado, reiterado a partir do interdiscurso (o dito e
esquecido), da memória discursiva (o que possibilita a reiteração do interdiscurso). Essa
circulação discursiva, por sua vez, é concretizada a partir de livros, de textos, da mídia,
etc.
Conforme o ponto de vista defendido por Moscovici (2007), existe uma
padronização dos sujeitos e das coisas a partir das representações sociais. Segundo esse
autor, as representações convencionalizam os objetos, pessoas ou acontecimentos que
encontram. Ou seja, as representações são padrões que devem ser seguidos, pois os
sujeitos que não se adéquam a essa realidade, não são compreendidos ou aceitos pela
sociedade. É desse processo de modelos sociais que decorrem os discursos que marcam
alguns indivíduos como superiores e outros como inferiores, seja pela idade, pela etnia,
pela posição social, ou mesmo pela recusa a aderir um padrão qualquer. Esse processo
de exclusão se apresenta, muitas vezes, camuflado por discursos institucionalizados, os
quais contribuem para a asseveração das relações de desprestígio. Prosseguindo a
discussão, trazemos no tópico abaixo uma abordagem sobre as categorias discursivas,
haja vista este trabalho estar circunscrito à Análise do Discurso.
1.2 ANÁLISES DO DISCURSO: EM BUSCA DA DISCURSIVIZAÇÃO
Tendo em vista a relevância das teorias da Análise do Discurso (doravante AD)
para este trabalho, destacamos que essa ciência não pretende estudar a língua como um
sistema abstrato, mas como a língua no mundo, como maneiras de significar. Por isso,
tal ciência está para além da análise gramatical ou análise frasal, pois ela enfatiza o
trabalho com o exercício da linguagem, de modo que esta produz sentido. Esse
procedimento está diretamente relacionado ao homem e a sua realidade social, tal como
postula Orlandi (2002, p. 15): “E a palavra discurso, etimologicamente, tem em si a
ideia de curso, percurso, de correr por, de movimento. O discurso é assim palavra em
movimento, prática de linguagem: com o estudo do discurso observa-se o homem
falando”.
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Nessa perspectiva, é importante considerar o estudo do interdiscurso e do
intradiscurso: “O interdiscurso é um conjunto de formulações feitas e já esquecidas que
determinam o que dizemos. Para que minhas palavras tenham sentido é preciso que elas
já façam sentido” (ORLANDI, 2002, p. 33). Esse mecanismo faz menção ao que
falamos, sendo que o nosso discurso não nos pertence, mas provém do discurso do
outro, ou seja, do já dito e esquecido, e também do dizível (da memória). Já o
intradiscurso diz respeito ao que é dito em determinadas situações, referindo-se à
reformulação do dizer (a atualidade). Paralelo a isso, analisamos o que vem a ser
memória discursiva, a qual está relacionada ao interdiscurso, pois o que o sujeito fala
acaba sendo esquecido, e com o tempo o seu discurso cai no que se pode chamar de
anonimato, passando a ser reproduzido por nós, por meio de um processo de
ressignificação.
É relevante notar, segundo o pensamento de Orlandi (2007), que o silêncio
produz vários sentidos, nele destacamos que o não-dito pode ser visto como o silêncio.
Ao contrário do que se pensa, que o silêncio é vazio de sentido, há múltiplos sentidos
produzidos mediante o silêncio. Quanto à proibição da palavra, mais uma forma de
silêncio, ressaltamos que esse aspecto diz respeito à interdição da palavra ou à censura.
É um aspecto político da linguagem, a política do silêncio ou do silenciamento, isto é, o
sujeito é assujietado, isso porque ele só pode ocupar e falar a partir de certos lugares,
outros não lhe são permitidos que ocupe. Esse aspecto Orlandi defende da seguinte
maneira: “Aí entra toda a questão de ‘tomar’ a palavra, ‘tirar’ a palavra, obrigar a dizer,
fazer calar, silenciar etc. Em face dessa sua dimensão política o silêncio pode ser
considerado tanto parte da retórica da dominação (a da opressão) [...]” (ORLANDI,
2007, p. 29). Nesse sentido, trazemos uma discussão sobre o ethos discursivo das
minorias sociais.
1.2 PERSPECTIVAS SOBRE O ETHOS DISCURSIVO
Neste tópico, trazemos à baila os estudos de Amossy (2008), a qual retoma os
postulados de Perelman e Tyteca em a Nova Retórica; e de outros autores que
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contribuem para a discussão sobre o ethos discursivo. A fim de definirmos tal conceito,
utilizamos as palavras de Amossy (2008), segundo a qual o ethos tem o seguinte
significado: “Todo ato de tomar a palavra implica em uma imagem de si. Para tanto, não
é necessário que o locutor faça seu auto-retrato, detalhe suas qualidades nem mesmo
que fale explicitamente de si. [...] Assim, deliberadamente ou não, o locutor efetua em
seu discurso uma apresentação de si.” (AMOSSY, 2008, p. 09).
Nesse sentido, essa autora observa que a imagem do locutor parte de sua
maneira de agir, de como ele se comunica e até mesmo das coisas que ele acredita. De
modo, Goffman (2008) destaca ainda que tal imagem é fruto das construções sociais, o
que esse autor defende da seguinte maneira: “[...] a apresentação de si é tributária dos
papéis sociais e dos dados situacionais. Uma vez que é inerente a toda troca verbal e
submetida
a
uma
regulamentação
sociocultural,
ela
supera
largamente
a
intencionalidade do sujeito que fala e age” (p. 13).
Percebemos também, na visão de Maingueneau (2008) que o ethos do orador é
mostrado em seu discurso, e a construção da imagem desse sujeito parte do seu
comportamento – dos seus atos. Nesse sentido, o ethos discursivo também contribui
para a adesão dos sujeitos a uma certa posição discursiva. Pois o sujeito se adéqua a tal
posição com o objetivo de convencer o outro sobre seus argumentos, o qual está ligado
a um comportamento igualmente utilizado, à luz da Retórica aristotélica. Essa autora
traz ainda uma abordagem sobre o estereótipo, como pode ser visto a seguir: “O ethos
implica em um controle tático do corpo, apreendido por meio de um comportamento
global. Caráter e corporalidade do fiador (locutor) apóiam-se, então, sobre um conjunto
difuso de representações valorizadas e desvalorizadas [...]” (MAINGUENEAU, 2008, p.
72)
Segundo esse pesquisador francês, notamos que a caracterização dos sujeitos
acontece através de representações valorizadas ou desvalorizas, as quais correspondem
aos estereótipos, e estão disseminadas nas várias instâncias do saber e das artes. A partir
daí, observamos que o Livro Didático também apresenta em seu conteúdo imagens
negativas, consequentemente, há, nesse material didático, a presença de estereótipos e a
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contribuição para a asseveração de imagens desprestigiadas dos sujeitos. Para que essa
hipótese seja devidamente averiguada, no próximo tópico, trazemos analisamos três
textos do LD de Língua Portuguesa.
2 ANÁLISE DOS CORPORA
Nosso propósito com essa pesquisa é refletir sobre a maneira como o Livro
Didático de Cereja e Magalhães, do 8º ano, constrói a imagem das minorias sociais e,
consequentemente, instaura estereótipos, tudo isso numa análise qualitativa de dados.
Nesse contexto, como bem afirma Foucault (1996), os livros são fontes que perpassam o
discurso eleito como verdadeiro; por conseguinte, há uma força discursiva capaz de
instaurar “verdades”. Nesse sentido, procedemos à seleção de textos, de múltiplos
gêneros discursivos, haja vista entendermos a necessidade de investigarmos o ethos
discursivo dessas minorias, a partir de múltiplas materialidades discursivas. Nessa
perspectiva, para efetivarmos a investigação, a partir de múltiplos gêneros discursivos,
selecionamos três textos que apresentem tanto linguagem verbal quanto a não-verbal
(ou uma das duas), dada a extensão desta pesquisa. Justificamos esse número porque
este trabalho trata de uma análise discursiva.
Nesse sentido propomos a seguir a análise dos corpora:

Análise do corpus 1
O presente excerto foi retirado do livro investigado (8º ano, p. 40); ele
incorpora a parte que se referente à seguinte atividade: Cruzando linguagens. A partir
de tal atividade, notamos que os autores da coleção propõem: primeiramente, a leitura
do cartum de Quino; em seguida, pedem para se observar o comentário feito pela dona
da casa, destacando se ela parece gostar de criança, e por quê; por fim, pergunta de que
modo a menina está vestida, quais são os seus brinquedos; para que está sendo
preparada.
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O discurso perpassado nessa imagem é o de que os lugares sociais são
devidamente fixados, tal como é reiterado pela memória discursiva, a qual se refere a
uma memória social, de discursos que são naturalizados. Desse modo, o que o sujeito
fala acaba sendo esquecido, e com o tempo o seu discurso cai no que se pode chamar de
anonimato, passando a ser reproduzido pelos sujeitos, por meio de um processo de
ressignificação. Quanto ao processo de determinação das posições dos sujeitos,
Moscovici (2007) argumenta que existe uma padronização dos sujeitos e das coisas a
partir das representações sociais, que convencionalizam os objetos, pessoas ou
acontecimentos que encontram. Dessa maneira, destacamos que os modelos sociais
decorrem dos discursos que marcam alguns indivíduos como superiores e outros como
inferiores, seja pela idade, pela etnia, seja mesmo pela posição social, tal como está
construído nessa charge. Isso contribui para naturalização das relações de subjugo.
Os brinquedos da criança reiteram o mundo de onde ela advém: o trabalho
doméstico, figurativizado pelas vassouras, espanador, pano de chão. As vestimentas da
criança também levam a esse mesmo mundo (chapéu, avental). Tudo isso corrobora a
construção de imagem segundo a qual existe uma perpetuação desses papéis (do
nascimento como filho de escravo até se tornar escravo propriamente). Isso significa
que a criança também será doméstica tal como a mãe o é. Além desses aspectos,
levamos em conta a linguagem verbal, principalmente no que se refere ao sufixo –INHO
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(criaturinha, roupinha), ora figurativizando o carinho ora a humildade do lugar de onde
advém. Ademais, a ideia de que os empregados são partícipes das “nossas famílias”
vem à tona com a expressão “como se fosse da família”. Essa ideia traz como
consequência o pagamento indevido desses trabalhadores, corroborando o estado de
escravidão em que vivem. Daí a perpetuação de seus papéis. Retomamos, a partir dessa
ideia, a própria arquitetura das casas e apartamentos, em que são construídos espaços
para serem ocupados por essas pessoas. Tais espaços, por sua vez, reiteram as antigas
senzalas das fazendas brasileiras, no período feudal. Isso reitera a ideia de que esse
tempo ainda não passou.
É importante ainda observar que a charge em análise é de um autor argentino.
Isso revela que os discursos perpassados por ela são universais. Dito de outro modo, os
empregados domésticos continuam a ocupar os mesmos espaços nas casas dos senhores
e, consequentemente, conservam o mesmo status social, no Brasil, na Argentina
(segundo os limites dessa charge). Tal perspectiva, por sua vez, não é questionada pelos
autores do LD, uma vez que eles não se prontificam a incentivar essa análise, dadas as
perguntas que fazem para o estudante. E, como se tem observado em outras pesquisas, o
professor se detém unicamente na exploração do texto, segundo os autores do LD. Por
conseguinte, a colocação dessa charge no interior do LD, ao contrário de promover
discussões sobre o silenciamento da posição do trabalhador doméstico como escravo,
naturaliza essa mesma situação.

Análise do corpus 2
Quanto ao corpus 8, inserido do tópico O discurso citado nos textos
ficcionais (8º ano, p. 27), destacamos que o autor chama atenção sobre os vários
discursos (do narrador, do menino, do jornaleiro e do motorista), presentes nesse texto.
A partir disso, ele pede que se identifiquem as falas do menino e o sinal de pontuação
usado para introduzi-las.
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Ressaltamos, primeiramente, que esta imagem retoma um discurso de que todo
sujeito que mora ou trabalha na rua, como é o caso deste garoto jornaleiro, é de má
índole. Embora essa imagem seja produzida em um contexto de piadas, e por isso
pareça uma simples brincadeira, proveniente do discurso humorístico, o fato é que, na
medida em que se instaura que “Vinte e três pessoas são enganadas por um menino!”,
recorre-se ao discurso de que não somente esse menino é desonesto, mas também todos
que vivem do trabalham nas ruas. Esse discurso também é corroborado pela memória
discursiva, a qual remete a uma memória social, pois, na medida em que os discursos
circulam, eles são reproduzidos e legitimados pela sociedade.
Nesse sentido, destacamos que a imagem que fica marcada desses sujeitos
(trabalhadores ou moradores de rua) é negativa, decorrente de construções sociais. É
válido destacarmos ainda que essa imagem negativa diz respeito à construção de
estereótipos, os quais fazem parte de “[...] um conjunto difuso de representações
valorizadas e desvalorizadas.” (MAINGUENEAU, 2008, p. 72). É nessa perspectiva
que enfatizamos que o estereótipo reforça uma imagem negativa do sujeito, a qual é
reiterada por meio de um discurso discriminatório. E, na medida em que o Livro
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Didático traz para o seu interior essas imagens, ele contribui na legitimação desses
discursos.

Análise do corpus 3
Este cartum de Hubert faz parte do livro já mencionado (8º ano, p. 41). Ele
integraliza a tarefa Trocando ideias, em que o autor propõe 04 questões concernentes a
uma crônica trabalhada anteriormente; notamos que essas questões não fazem nenhuma
ponte com o texto de Hubert.
Nesta imagem, chamamos atenção, em primeiro lugar, à forma como a
empregada se exclui do papel de ser mulher brasileira. Fato que nos revela que esse
discurso discriminatório foi imposto e aceito por ela. Pois o lugar que essa mulher
ocupa como empregada doméstica é marcado socialmente como um lugar de
desprestígio. Tal como Moscovici (2007) argumenta, as representações padronizam os
objetos, os sujeitos e as posições sociais, pois essas convenções são aceitas e
estabelecem hierarquização das posições sociais. Trata-se de um discurso de que pobre
“não é gente”. Desse processo de exclusão, decorrem, por exemplo, os discursos que
elegem as profissões de prestígio e as de desprestígio, como é o caso da empregada
doméstica. Aqui, o status e a posição social de prestígio que alguns sujeitos têm os
tornam valorizados ou não.
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Além disso, o fato de ser mulher e negra faz suscitar discursos
discriminatórios. Como pode ser visto no discurso de Descartes (Penso, logo existo).
Segundo ele, a mulher e o negro não tinham alma, consequentemente, não tinham
direitos políticos, não tinham direito de opinar sobre quaisquer coisas, logo, não tinham
voz; por conseguinte, não “existiam” como sujeitos participantes da sociedade. Por isso
destacamos que a imagem é resultado das construções sociais, o que Goffman (2008)
defende da seguinte maneira: “[...] a apresentação de si é tributária dos papéis sociais e
dos dados situacionais. Uma vez que é inerente a toda troca verbal e submetida a uma
regulamentação sociocultural, ela supera largamente a intencionalidade do sujeito que
fala e age” (p. 13).
Nesse caminho, é válido enfatizar ainda que a construção de imagem
desvalorizada dessa mulher remete aos estereótipos. Estes são assim definidos: “[...] um
conjunto difuso de representações valorizadas e desvalorizadas, de estereótipos sobre os
quais a enunciação se apóia e, por sua vez, contribui para reforça ou transformar.”
(MAINGUENEAU, 2008, p. 72). Isso significa que a reprodução de imagens das
minorias sociais no interior do Livro Didático acaba produzindo sentidos negativos em
relação a esses sujeitos, contribuindo para a asseveração de imagens desprestigiadas dos
sujeitos e de estereótipos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A nossa finalidade com a análise das minorias sociais no Livro Didático é
constatar que há relações de desprestígio estabelecidas a partir das imagens das
minorias, as quais são retomadas mediante a memória discursiva, ou seja, a circulação
dos discursos do outro através da nossa fala (o que possibilita a externalização do
interdiscurso). Essa circulação discursiva, por sua vez, é concretizada a partir de livros,
de textos, da mídia, etc. Nesse contexto, destacamos o quanto certos discursos podem
contribuir para a segregação dos sujeitos. Assim, conforme o ponto de vista defendido
por Moscovici (2007), existe uma padronização dos sujeitos e das coisas a partir das
representações sociais, da fixação de papéis. Nesse caminho, trazemos, esse estudioso
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argumenta da seguinte forma sobre a padronização dos sujeitos: “Todos os sistemas de
classificação, todas as imagens e todas as descrições que circulam dentro da sociedade,
mesmo as descrições científicas, implicam um elo de prévios sistemas e imagens, uma
estratificação na memória coletiva [...]” (MOSCOVICI, 2007, p. 37).
Nesse sentido, constatamos que a asseveração das imagens desprestigiadas
acontece porque os sujeitos tendem a aderir aos discursos em circulação e, mais que
isso, aos discursos com forte valor de verdade. Reiteramos que o LD é um lugar de
verdade, por isso tudo que faz parte dele também é verdade. Dessa maneira, uma vez
que a imagem do sujeito é o reflexo de construções sociais que convencionalizam
alguns sujeitos como superiores e outros como inferiores, essas construções estabelecem
uma relação de desprestígio. E, na medida em que tais imagens são reproduzidas pelo
livro Didático, há uma reiteração de imagens negativas; consequentemente, a criação de
estereótipos.
REFERÊNCIAS
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Contexto, 2008.
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Disponível
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http://www.comciencia.br/comciencia/?section=8&edicao=43&id=523 (acessado em
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reformulada, São Paulo: Atual, 2010.
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In: AMOSSY, R. (org.). Imagens de si no discurso: a construção do ethos. São Paulo:
Contexto, 2008.
MAINGUENEAU, D. Cenas da Enunciação. Curitiba: Criar Edições, 2006.
MAINGUENEAU, D. Ethos, cenografia, incorporação. In: AMOSSY, R. (org.).
Imagens de si no discurso: a construção do ethos. São Paulo: Contexto, 2008.
MOSCOVICI, S. Representações sociais: investigações em psicologia social.
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ORLANDI, E. P. Análise do discurso: princípios e procedimentos. Campinas, SP:
Pontes, 2002.
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M.
Por
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Disponível
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http://www.followscience.com/library_uploads/eaa9111f70589c3d3dbcbe5896df4f23/3
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