ANAIS ELETRÔNICOS ENILL Encontro Interdisciplinar de Língua e Literatura | 10 a 12 de novembro de 2011 Itabaiana/SE: Departamento de Letras, Vol.02, ISSN: 2237-9908 A IMAGEM DAS MINORIAS SOCIAIS NO LIVRO DIDÁTICO1 Moniza de Oliveira Santos (UFS)2 RESUMO Este trabalho propõe uma discussão sobre a construção de imagens das minorias sociais no Livro Didático (doravante LD). Nesse sentido, procuramos entender se essas imagens perpassam discursos com um valor social estigmatizado. Observamos ainda que o LD está num contexto em que há grande monitoramento do saber, por conta disso ele se constitui um material em que há a institucionalização de um discurso de “verdade” absoluta, logo o seu conteúdo não pode ser refutado. A partir daí, tudo que é incluído pelo LD é tido como um conhecimento “único”, por meio do qual temos a cristalização de discursos que elegem alguns sujeitos como superiores; outros, como inferiores. Tais discursos, por sua vez, são reiterados a partir da memória discursiva, que diz respeito aos discursos que repetimos a partir de uma partilha da memória social. Esses aspectos corroboram a construção de uma imagem negativa dos sujeitos, e, consequentemente, a instituição de estereótipos. Nesse contexto, trazemos à tona as teorias da Análise do Discurso de linha francesa, bem como as contribuições das Ciências sociais para esclarecer sobre a construção de imagens dessas minorias sociais no Livro Didático. Palavras-Chave: Livro Didático, Estereótipos, Minorias sociais INTRODUÇÃO Esta pesquisa visa discutir a construção de imagens das minorias sociais, tendo como objeto de análise o Livro Didático de Língua Portuguesa (doravante LD). É nesse sentido que procuramos verificar se os discursos que representam os sujeitos partícipes dessas minorias, figuratizados no interior do LD, perpassam um valor social estigmatizado, estereotipado. A partir de tais discursos, analisamos a construção do ethos discursivo das minorias sociais. Com efeito, por este trabalho lidar com as noções de minorias sociais, estereótipos, ethos discursivo, é condição sine quo non descrevê- 1 Este trabalho é um recorte do meu Trabalho de Conclusão de Curso, o qual foi orientado pela professora Drª Maria Emília de Rodat de Aguiar Barreto Barros. E-mail: [email protected] (Adjunto 2/ UFS). 2 Estudante do curso de Letras UFS/Itabaiana. E-mail: [email protected]. 1 ANAIS ELETRÔNICOS ENILL Encontro Interdisciplinar de Língua e Literatura | 10 a 12 de novembro de 2011 Itabaiana/SE: Departamento de Letras, Vol.02, ISSN: 2237-9908 los. Ainda sobre o assunto, destacamos o lugar que Livro Didático ocupa no ambiente escolar. Nesse contexto, utilizamos os ensinamentos de Amossy (2008), segundo a qual os estereótipos podem ser definidos como representações culturais preexistentes, que modelam a visão de si, do locutor e de sua plateia. Quanto ao ethos discursivo, segundo a perspectiva de Maingueneau (1993 apud AMOSSY, 2008, p. 31), o ethos não é dito explicitamente, mas mostrado, como pode ser confirmado a seguir: “O que o orador pretende ser, ele o dá a entender e mostra: não diz que é simples ou honesto, mostra-o por sua maneira de se exprimir. O ethos está, dessa maneira, vinculado ao exercício da palavra [...]” (MAINGUENEAU 1993, P. 138). A partir da noção de ethos, refletimos sobre a maneira como o Livro Didático de Cereja e Magalhães, do 8º ano, constrói a imagem das minorias sociais e, consequentemente, instaura estereótipos. Daí entendermos que os textos selecionados pelos autores em questão são formadores de opinião. E, como bem afirma Foucault (1996), os livros são fontes que perpassam o discurso eleito como verdadeiro; por conseguinte, há uma força discursiva capaz de instaurar “verdades”. É relevante destacarmos ainda que este trabalho está circunscrito às Ciências Sociais, devido à necessidade de definir minoria social numa perspectiva sociológica; à Teoria da Argumentação, dada a definição de ethos discursivo. Essa definição, por sua vez, remonta a Retórica Aristotélica, a qual é revisada por Maingueneau (1993) e Amossy (2008); acrescenta-se a esses autores a noção de estereótipo. Desse modo, para essa discussão apresentamos uma a seguir uma abordagem sobre as minorias sociais. 1 AS MINORIAS SOCIAIS E O LIVRO DIDÁTICO DE LÍNGUA PORTUGUESA Nessa pesquisa, trabalhamos o conceito de minoria como sendo de um grupo desprestigiado socialmente. Tais sujeitos são discriminados de tal modo que não têm direito, sequer, à voz. Isso acontece, uma vez que são discriminados devido a sua raça, 2 ANAIS ELETRÔNICOS ENILL Encontro Interdisciplinar de Língua e Literatura | 10 a 12 de novembro de 2011 Itabaiana/SE: Departamento de Letras, Vol.02, ISSN: 2237-9908 etnia, religião e outros; são silenciados pelas classes dominantes. E esse processo de subjugação é recorrente há anos, traz consigo um discurso que aponta para a inferioridade desses sujeitos. Como exemplo disso, trazemos o ponto de vista de Sodré (s/d, p. 1) para colaborar com essa perspectiva sobre as minorias sociais, que está proposto da seguinte maneira: “[...] (são) frações de classe comprometidas com as diversas modalidades de luta assumidas pela questão social. Por isso, são considerados minorias os negros, os homossexuais, as mulheres, os povos indígenas, os ambientalistas, os antineoliberalistas, etc.”. Ademais, segundo a perspectiva de Barros (s/d), existem discursos institucionais que prevaleceram sobre outros, considerados inferiores. Diante disso, notamos o fato de que houve larga disseminação de um discurso discriminatório, segundo o qual o seu responsável é considerado o pai da ciência moderna. Daí procede a força que tal discurso apresenta, pois representa um discurso de verdade. Eis a constatação desse argumento: [...] a relação entre emoção e razão não significava apenas uma questão de ‘pensar’ ou não. A função de raciocinar era incumbida, única e exclusivamente, à alma – de acordo com Descartes, um dos pais da ciência moderna – e não mente. O que pensa é aquele que é provido de espírito. O emotivo age a partir das disposições dos seus órgãos, e possuem espíritos, todavia, são espíritos animais que agem, sem a necessidade de raciocinar. Descartes, muito provavelmente, refere-se à ação do corpo por intermédio de reflexos e da digestão. A partir da conhecida frase ‘Penso, logo existo’, chegou à conclusão de que, mesmo que não possuísse corpo, ele ainda conseguia refletir, pensar, por intermédio de seu espírito. (BARROS, s/d, p. 2) Sobre o que foi enunciado acima, é relevante lembrarmos que nesse contexto, crianças, negros, mulheres e escravos eram considerados como aqueles que não possuíam alma, consequentemente, não tinham direitos políticos, não tinham direito de opinar sobre quaisquer coisas, portanto, não tinham voz; por conseguinte, não raciocinavam. O fato de tais sujeitos serem considerados como aqueles que não tinham espírito desencadeia a sua incapacidade de refletir ou raciocinar, segundo a teoria 3 ANAIS ELETRÔNICOS ENILL Encontro Interdisciplinar de Língua e Literatura | 10 a 12 de novembro de 2011 Itabaiana/SE: Departamento de Letras, Vol.02, ISSN: 2237-9908 cartesiana (BARROS, s/d). Com isso, entendemos que o pensamento acerca das minorias remonta a um tempo passado, reiterado a partir do interdiscurso (o dito e esquecido), da memória discursiva (o que possibilita a reiteração do interdiscurso). Essa circulação discursiva, por sua vez, é concretizada a partir de livros, de textos, da mídia, etc. Conforme o ponto de vista defendido por Moscovici (2007), existe uma padronização dos sujeitos e das coisas a partir das representações sociais. Segundo esse autor, as representações convencionalizam os objetos, pessoas ou acontecimentos que encontram. Ou seja, as representações são padrões que devem ser seguidos, pois os sujeitos que não se adéquam a essa realidade, não são compreendidos ou aceitos pela sociedade. É desse processo de modelos sociais que decorrem os discursos que marcam alguns indivíduos como superiores e outros como inferiores, seja pela idade, pela etnia, pela posição social, ou mesmo pela recusa a aderir um padrão qualquer. Esse processo de exclusão se apresenta, muitas vezes, camuflado por discursos institucionalizados, os quais contribuem para a asseveração das relações de desprestígio. Prosseguindo a discussão, trazemos no tópico abaixo uma abordagem sobre as categorias discursivas, haja vista este trabalho estar circunscrito à Análise do Discurso. 1.2 ANÁLISES DO DISCURSO: EM BUSCA DA DISCURSIVIZAÇÃO Tendo em vista a relevância das teorias da Análise do Discurso (doravante AD) para este trabalho, destacamos que essa ciência não pretende estudar a língua como um sistema abstrato, mas como a língua no mundo, como maneiras de significar. Por isso, tal ciência está para além da análise gramatical ou análise frasal, pois ela enfatiza o trabalho com o exercício da linguagem, de modo que esta produz sentido. Esse procedimento está diretamente relacionado ao homem e a sua realidade social, tal como postula Orlandi (2002, p. 15): “E a palavra discurso, etimologicamente, tem em si a ideia de curso, percurso, de correr por, de movimento. O discurso é assim palavra em movimento, prática de linguagem: com o estudo do discurso observa-se o homem falando”. 4 ANAIS ELETRÔNICOS ENILL Encontro Interdisciplinar de Língua e Literatura | 10 a 12 de novembro de 2011 Itabaiana/SE: Departamento de Letras, Vol.02, ISSN: 2237-9908 Nessa perspectiva, é importante considerar o estudo do interdiscurso e do intradiscurso: “O interdiscurso é um conjunto de formulações feitas e já esquecidas que determinam o que dizemos. Para que minhas palavras tenham sentido é preciso que elas já façam sentido” (ORLANDI, 2002, p. 33). Esse mecanismo faz menção ao que falamos, sendo que o nosso discurso não nos pertence, mas provém do discurso do outro, ou seja, do já dito e esquecido, e também do dizível (da memória). Já o intradiscurso diz respeito ao que é dito em determinadas situações, referindo-se à reformulação do dizer (a atualidade). Paralelo a isso, analisamos o que vem a ser memória discursiva, a qual está relacionada ao interdiscurso, pois o que o sujeito fala acaba sendo esquecido, e com o tempo o seu discurso cai no que se pode chamar de anonimato, passando a ser reproduzido por nós, por meio de um processo de ressignificação. É relevante notar, segundo o pensamento de Orlandi (2007), que o silêncio produz vários sentidos, nele destacamos que o não-dito pode ser visto como o silêncio. Ao contrário do que se pensa, que o silêncio é vazio de sentido, há múltiplos sentidos produzidos mediante o silêncio. Quanto à proibição da palavra, mais uma forma de silêncio, ressaltamos que esse aspecto diz respeito à interdição da palavra ou à censura. É um aspecto político da linguagem, a política do silêncio ou do silenciamento, isto é, o sujeito é assujietado, isso porque ele só pode ocupar e falar a partir de certos lugares, outros não lhe são permitidos que ocupe. Esse aspecto Orlandi defende da seguinte maneira: “Aí entra toda a questão de ‘tomar’ a palavra, ‘tirar’ a palavra, obrigar a dizer, fazer calar, silenciar etc. Em face dessa sua dimensão política o silêncio pode ser considerado tanto parte da retórica da dominação (a da opressão) [...]” (ORLANDI, 2007, p. 29). Nesse sentido, trazemos uma discussão sobre o ethos discursivo das minorias sociais. 1.2 PERSPECTIVAS SOBRE O ETHOS DISCURSIVO Neste tópico, trazemos à baila os estudos de Amossy (2008), a qual retoma os postulados de Perelman e Tyteca em a Nova Retórica; e de outros autores que 5 ANAIS ELETRÔNICOS ENILL Encontro Interdisciplinar de Língua e Literatura | 10 a 12 de novembro de 2011 Itabaiana/SE: Departamento de Letras, Vol.02, ISSN: 2237-9908 contribuem para a discussão sobre o ethos discursivo. A fim de definirmos tal conceito, utilizamos as palavras de Amossy (2008), segundo a qual o ethos tem o seguinte significado: “Todo ato de tomar a palavra implica em uma imagem de si. Para tanto, não é necessário que o locutor faça seu auto-retrato, detalhe suas qualidades nem mesmo que fale explicitamente de si. [...] Assim, deliberadamente ou não, o locutor efetua em seu discurso uma apresentação de si.” (AMOSSY, 2008, p. 09). Nesse sentido, essa autora observa que a imagem do locutor parte de sua maneira de agir, de como ele se comunica e até mesmo das coisas que ele acredita. De modo, Goffman (2008) destaca ainda que tal imagem é fruto das construções sociais, o que esse autor defende da seguinte maneira: “[...] a apresentação de si é tributária dos papéis sociais e dos dados situacionais. Uma vez que é inerente a toda troca verbal e submetida a uma regulamentação sociocultural, ela supera largamente a intencionalidade do sujeito que fala e age” (p. 13). Percebemos também, na visão de Maingueneau (2008) que o ethos do orador é mostrado em seu discurso, e a construção da imagem desse sujeito parte do seu comportamento – dos seus atos. Nesse sentido, o ethos discursivo também contribui para a adesão dos sujeitos a uma certa posição discursiva. Pois o sujeito se adéqua a tal posição com o objetivo de convencer o outro sobre seus argumentos, o qual está ligado a um comportamento igualmente utilizado, à luz da Retórica aristotélica. Essa autora traz ainda uma abordagem sobre o estereótipo, como pode ser visto a seguir: “O ethos implica em um controle tático do corpo, apreendido por meio de um comportamento global. Caráter e corporalidade do fiador (locutor) apóiam-se, então, sobre um conjunto difuso de representações valorizadas e desvalorizadas [...]” (MAINGUENEAU, 2008, p. 72) Segundo esse pesquisador francês, notamos que a caracterização dos sujeitos acontece através de representações valorizadas ou desvalorizas, as quais correspondem aos estereótipos, e estão disseminadas nas várias instâncias do saber e das artes. A partir daí, observamos que o Livro Didático também apresenta em seu conteúdo imagens negativas, consequentemente, há, nesse material didático, a presença de estereótipos e a 6 ANAIS ELETRÔNICOS ENILL Encontro Interdisciplinar de Língua e Literatura | 10 a 12 de novembro de 2011 Itabaiana/SE: Departamento de Letras, Vol.02, ISSN: 2237-9908 contribuição para a asseveração de imagens desprestigiadas dos sujeitos. Para que essa hipótese seja devidamente averiguada, no próximo tópico, trazemos analisamos três textos do LD de Língua Portuguesa. 2 ANÁLISE DOS CORPORA Nosso propósito com essa pesquisa é refletir sobre a maneira como o Livro Didático de Cereja e Magalhães, do 8º ano, constrói a imagem das minorias sociais e, consequentemente, instaura estereótipos, tudo isso numa análise qualitativa de dados. Nesse contexto, como bem afirma Foucault (1996), os livros são fontes que perpassam o discurso eleito como verdadeiro; por conseguinte, há uma força discursiva capaz de instaurar “verdades”. Nesse sentido, procedemos à seleção de textos, de múltiplos gêneros discursivos, haja vista entendermos a necessidade de investigarmos o ethos discursivo dessas minorias, a partir de múltiplas materialidades discursivas. Nessa perspectiva, para efetivarmos a investigação, a partir de múltiplos gêneros discursivos, selecionamos três textos que apresentem tanto linguagem verbal quanto a não-verbal (ou uma das duas), dada a extensão desta pesquisa. Justificamos esse número porque este trabalho trata de uma análise discursiva. Nesse sentido propomos a seguir a análise dos corpora: Análise do corpus 1 O presente excerto foi retirado do livro investigado (8º ano, p. 40); ele incorpora a parte que se referente à seguinte atividade: Cruzando linguagens. A partir de tal atividade, notamos que os autores da coleção propõem: primeiramente, a leitura do cartum de Quino; em seguida, pedem para se observar o comentário feito pela dona da casa, destacando se ela parece gostar de criança, e por quê; por fim, pergunta de que modo a menina está vestida, quais são os seus brinquedos; para que está sendo preparada. 7 ANAIS ELETRÔNICOS ENILL Encontro Interdisciplinar de Língua e Literatura | 10 a 12 de novembro de 2011 Itabaiana/SE: Departamento de Letras, Vol.02, ISSN: 2237-9908 O discurso perpassado nessa imagem é o de que os lugares sociais são devidamente fixados, tal como é reiterado pela memória discursiva, a qual se refere a uma memória social, de discursos que são naturalizados. Desse modo, o que o sujeito fala acaba sendo esquecido, e com o tempo o seu discurso cai no que se pode chamar de anonimato, passando a ser reproduzido pelos sujeitos, por meio de um processo de ressignificação. Quanto ao processo de determinação das posições dos sujeitos, Moscovici (2007) argumenta que existe uma padronização dos sujeitos e das coisas a partir das representações sociais, que convencionalizam os objetos, pessoas ou acontecimentos que encontram. Dessa maneira, destacamos que os modelos sociais decorrem dos discursos que marcam alguns indivíduos como superiores e outros como inferiores, seja pela idade, pela etnia, seja mesmo pela posição social, tal como está construído nessa charge. Isso contribui para naturalização das relações de subjugo. Os brinquedos da criança reiteram o mundo de onde ela advém: o trabalho doméstico, figurativizado pelas vassouras, espanador, pano de chão. As vestimentas da criança também levam a esse mesmo mundo (chapéu, avental). Tudo isso corrobora a construção de imagem segundo a qual existe uma perpetuação desses papéis (do nascimento como filho de escravo até se tornar escravo propriamente). Isso significa que a criança também será doméstica tal como a mãe o é. Além desses aspectos, levamos em conta a linguagem verbal, principalmente no que se refere ao sufixo –INHO 8 ANAIS ELETRÔNICOS ENILL Encontro Interdisciplinar de Língua e Literatura | 10 a 12 de novembro de 2011 Itabaiana/SE: Departamento de Letras, Vol.02, ISSN: 2237-9908 (criaturinha, roupinha), ora figurativizando o carinho ora a humildade do lugar de onde advém. Ademais, a ideia de que os empregados são partícipes das “nossas famílias” vem à tona com a expressão “como se fosse da família”. Essa ideia traz como consequência o pagamento indevido desses trabalhadores, corroborando o estado de escravidão em que vivem. Daí a perpetuação de seus papéis. Retomamos, a partir dessa ideia, a própria arquitetura das casas e apartamentos, em que são construídos espaços para serem ocupados por essas pessoas. Tais espaços, por sua vez, reiteram as antigas senzalas das fazendas brasileiras, no período feudal. Isso reitera a ideia de que esse tempo ainda não passou. É importante ainda observar que a charge em análise é de um autor argentino. Isso revela que os discursos perpassados por ela são universais. Dito de outro modo, os empregados domésticos continuam a ocupar os mesmos espaços nas casas dos senhores e, consequentemente, conservam o mesmo status social, no Brasil, na Argentina (segundo os limites dessa charge). Tal perspectiva, por sua vez, não é questionada pelos autores do LD, uma vez que eles não se prontificam a incentivar essa análise, dadas as perguntas que fazem para o estudante. E, como se tem observado em outras pesquisas, o professor se detém unicamente na exploração do texto, segundo os autores do LD. Por conseguinte, a colocação dessa charge no interior do LD, ao contrário de promover discussões sobre o silenciamento da posição do trabalhador doméstico como escravo, naturaliza essa mesma situação. Análise do corpus 2 Quanto ao corpus 8, inserido do tópico O discurso citado nos textos ficcionais (8º ano, p. 27), destacamos que o autor chama atenção sobre os vários discursos (do narrador, do menino, do jornaleiro e do motorista), presentes nesse texto. A partir disso, ele pede que se identifiquem as falas do menino e o sinal de pontuação usado para introduzi-las. 9 ANAIS ELETRÔNICOS ENILL Encontro Interdisciplinar de Língua e Literatura | 10 a 12 de novembro de 2011 Itabaiana/SE: Departamento de Letras, Vol.02, ISSN: 2237-9908 Ressaltamos, primeiramente, que esta imagem retoma um discurso de que todo sujeito que mora ou trabalha na rua, como é o caso deste garoto jornaleiro, é de má índole. Embora essa imagem seja produzida em um contexto de piadas, e por isso pareça uma simples brincadeira, proveniente do discurso humorístico, o fato é que, na medida em que se instaura que “Vinte e três pessoas são enganadas por um menino!”, recorre-se ao discurso de que não somente esse menino é desonesto, mas também todos que vivem do trabalham nas ruas. Esse discurso também é corroborado pela memória discursiva, a qual remete a uma memória social, pois, na medida em que os discursos circulam, eles são reproduzidos e legitimados pela sociedade. Nesse sentido, destacamos que a imagem que fica marcada desses sujeitos (trabalhadores ou moradores de rua) é negativa, decorrente de construções sociais. É válido destacarmos ainda que essa imagem negativa diz respeito à construção de estereótipos, os quais fazem parte de “[...] um conjunto difuso de representações valorizadas e desvalorizadas.” (MAINGUENEAU, 2008, p. 72). É nessa perspectiva que enfatizamos que o estereótipo reforça uma imagem negativa do sujeito, a qual é reiterada por meio de um discurso discriminatório. E, na medida em que o Livro 10 ANAIS ELETRÔNICOS ENILL Encontro Interdisciplinar de Língua e Literatura | 10 a 12 de novembro de 2011 Itabaiana/SE: Departamento de Letras, Vol.02, ISSN: 2237-9908 Didático traz para o seu interior essas imagens, ele contribui na legitimação desses discursos. Análise do corpus 3 Este cartum de Hubert faz parte do livro já mencionado (8º ano, p. 41). Ele integraliza a tarefa Trocando ideias, em que o autor propõe 04 questões concernentes a uma crônica trabalhada anteriormente; notamos que essas questões não fazem nenhuma ponte com o texto de Hubert. Nesta imagem, chamamos atenção, em primeiro lugar, à forma como a empregada se exclui do papel de ser mulher brasileira. Fato que nos revela que esse discurso discriminatório foi imposto e aceito por ela. Pois o lugar que essa mulher ocupa como empregada doméstica é marcado socialmente como um lugar de desprestígio. Tal como Moscovici (2007) argumenta, as representações padronizam os objetos, os sujeitos e as posições sociais, pois essas convenções são aceitas e estabelecem hierarquização das posições sociais. Trata-se de um discurso de que pobre “não é gente”. Desse processo de exclusão, decorrem, por exemplo, os discursos que elegem as profissões de prestígio e as de desprestígio, como é o caso da empregada doméstica. Aqui, o status e a posição social de prestígio que alguns sujeitos têm os tornam valorizados ou não. 11 ANAIS ELETRÔNICOS ENILL Encontro Interdisciplinar de Língua e Literatura | 10 a 12 de novembro de 2011 Itabaiana/SE: Departamento de Letras, Vol.02, ISSN: 2237-9908 Além disso, o fato de ser mulher e negra faz suscitar discursos discriminatórios. Como pode ser visto no discurso de Descartes (Penso, logo existo). Segundo ele, a mulher e o negro não tinham alma, consequentemente, não tinham direitos políticos, não tinham direito de opinar sobre quaisquer coisas, logo, não tinham voz; por conseguinte, não “existiam” como sujeitos participantes da sociedade. Por isso destacamos que a imagem é resultado das construções sociais, o que Goffman (2008) defende da seguinte maneira: “[...] a apresentação de si é tributária dos papéis sociais e dos dados situacionais. Uma vez que é inerente a toda troca verbal e submetida a uma regulamentação sociocultural, ela supera largamente a intencionalidade do sujeito que fala e age” (p. 13). Nesse caminho, é válido enfatizar ainda que a construção de imagem desvalorizada dessa mulher remete aos estereótipos. Estes são assim definidos: “[...] um conjunto difuso de representações valorizadas e desvalorizadas, de estereótipos sobre os quais a enunciação se apóia e, por sua vez, contribui para reforça ou transformar.” (MAINGUENEAU, 2008, p. 72). Isso significa que a reprodução de imagens das minorias sociais no interior do Livro Didático acaba produzindo sentidos negativos em relação a esses sujeitos, contribuindo para a asseveração de imagens desprestigiadas dos sujeitos e de estereótipos. CONSIDERAÇÕES FINAIS A nossa finalidade com a análise das minorias sociais no Livro Didático é constatar que há relações de desprestígio estabelecidas a partir das imagens das minorias, as quais são retomadas mediante a memória discursiva, ou seja, a circulação dos discursos do outro através da nossa fala (o que possibilita a externalização do interdiscurso). Essa circulação discursiva, por sua vez, é concretizada a partir de livros, de textos, da mídia, etc. Nesse contexto, destacamos o quanto certos discursos podem contribuir para a segregação dos sujeitos. Assim, conforme o ponto de vista defendido por Moscovici (2007), existe uma padronização dos sujeitos e das coisas a partir das representações sociais, da fixação de papéis. Nesse caminho, trazemos, esse estudioso 12 ANAIS ELETRÔNICOS ENILL Encontro Interdisciplinar de Língua e Literatura | 10 a 12 de novembro de 2011 Itabaiana/SE: Departamento de Letras, Vol.02, ISSN: 2237-9908 argumenta da seguinte forma sobre a padronização dos sujeitos: “Todos os sistemas de classificação, todas as imagens e todas as descrições que circulam dentro da sociedade, mesmo as descrições científicas, implicam um elo de prévios sistemas e imagens, uma estratificação na memória coletiva [...]” (MOSCOVICI, 2007, p. 37). Nesse sentido, constatamos que a asseveração das imagens desprestigiadas acontece porque os sujeitos tendem a aderir aos discursos em circulação e, mais que isso, aos discursos com forte valor de verdade. Reiteramos que o LD é um lugar de verdade, por isso tudo que faz parte dele também é verdade. Dessa maneira, uma vez que a imagem do sujeito é o reflexo de construções sociais que convencionalizam alguns sujeitos como superiores e outros como inferiores, essas construções estabelecem uma relação de desprestígio. E, na medida em que tais imagens são reproduzidas pelo livro Didático, há uma reiteração de imagens negativas; consequentemente, a criação de estereótipos. REFERÊNCIAS AMOSSY, R. (org.). Imagens de si no discurso: a construção do ethos. São Paulo: Contexto, 2008. BARROS, M. S. B. Produção / Reprodução do sentido de natureza: marginalização, primitivismo e atraso. Disponível em http://www.comciencia.br/comciencia/?section=8&edicao=43&id=523 (acessado em 20/8/2011, às 14h). CEREJA, W. R. e MAGALHÃES, T. C. Português: Linguagens. 8º ano. 6ª ed. reformulada, São Paulo: Atual, 2010. GOFFMAN, E. Perspectivas interacionais: de Erving Goffman à análise conversacional. In: AMOSSY, R. (org.). Imagens de si no discurso: a construção do ethos. São Paulo: Contexto, 2008. 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