UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO FFCLRP - DEPARTAMENTO DE BIOLOGIA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ENTOMOLOGIA “Morfologia funcional da coloração das asas em Odonata”. Rhainer Guillermo Nascimento Ferreira Tese apresentada à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP, como parte das exigências para a obtenção do título de Doutor ENTOMOLOGIA RIBEIRÃO PRETO - SP 2013 em Ciências, Área: UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO FFCLRP - DEPARTAMENTO DE BIOLOGIA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ENTOMOLOGIA “Morfologia funcional da coloração das asas em Odonata”. Rhainer Guillermo Nascimento Ferreira Orientador: Pitágoras da Conceição Bispo Tese apresentada à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP, como parte das exigências para a obtenção do título de Doutor em Ciências, Área: ENTOMOLOGIA RIBEIRÃO PRETO - SP 2013 i Ferreira, Rhainer Guillermo Nascimento Morfologia funcional da coloração das asas em Odonata. Ribeirão Preto, 2013. iv + 150p. Tese apresentada à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP, como parte das exigências para a obtenção do título de Doutor em Ciências, Área: ENTOMOLOGIA Orientador: Pitágoras da Conceição Bispo 1. libélula, 2. comportamento animal, 3.seleção sexual, 4. evolução, 5. territorialidade, 6. Calopterygidae, 7. Libellulidae, 8. Polythoridae. ii Ao meu Deus, à minha esposa Ana Carolina e ao meu filho Davi (e filhos por vir). iii "In the distance tower still higher [scientific] peaks which will yield to those who ascend them still wider prospects and deepen the feeling whose truth is emphasized by every advance in science, that great are the works of the Lord." J.J. Thomson iv Agradecimentos Agradeço primeiramente ao meu Deus, Jesus Cristo, pelo privilégio de poder observar e estudar a natureza e de ter aprendido com grandes professores e grandes instituições.Agradeço à minha esposa Ana Carolina Vilarinho, pelo apoio e pela caminhada durante todo este tempo, pelo carinho e por tudo quanto não tenho palavras para agradecer. Agradeço ao meu filho Davi, que me deu esperança e ainda maior motivação para continuar lutando. Agradeço aos meus pais, sogros, irmã, cunhadas e cunhados que sempre nos apoiaram como família. Agradeço à Igreja Presbiteriana Independente de Assis, por terem nos recebido como família, especialmente à Prof. Inaiê Do Valle e André do Valle. Sou eternamente grato a todos vocês. Agradeço ao meu orientador Dr. Pitágoras da Conceição Bispo da UNESP de Assis, por confiar e acreditar no meu trabalho, sempre disposto a ajudar e a ensinar, nunca negando absolutamente nada que eu precisasse. Professor, a sua humildade, bondade e profissionalismo nunca serão esquecidos. Agradeço aos meus colegas e amigos do Laboratório de Biologia Aquática da UNESP de Assis, especialmente Dr. Ricardo Cardoso Leite, Dr. Marcos Carneiro Novaes, Dr. Aurélio Fajar Tonetto e Dr. Cleto K. Pires, sem a amizade de vocês, nada disso seria possível. Agradeço aos meus amigos em Assis, Sérgio Henrique Rocha Batista e Lucas Suzigan Nachtigall pelos anos de amizade. A todos meus agradecimentos de coração. Agradeço ao meu co-orientador Dr. Stanislav Gorb da Universidade de Kiel na Alemanha, que também confiou e acreditou no meu trabalho e me recebeu de maneira incrível em seu laboratório. Obrigado pelas conversas, pela orientação profissional e pessoal. Agradeço também à equipe do Departamento de Morfologia Funcional da v Universidade de Kiel, especialmente a Esther Appel, Dr. Alexander Kovalev, Joachim Oesert, Emre Kizilkan, Jana Willkommen e Lars Heepe pela amizade e pelo inestimável apoio e orientação no trabalho. Agradeço ao Programa de Pós-Graduação em Entomologia da FFCLRP-USP pelos cinco anos de aprendizado e pelo apoio logístico e financeiro. Agradeço principalmente à secretária Renata Andrade, um exemplo de profissionalismo e caráter. Sem a Renata o programa não seria a mesma coisa. Sempre prestativa, resolveu todos os problemas que surgiram no meu mestrado e doutorado como uma mãe. Por favor, receba meus mil agradecimentos e milhões de desculpas pela dor de cabeça. Agradeço também a todos os professores que contribuíram para minha formação, especialmente Dr. Dalton Amorim e Dr. Fabio S. Nascimento pelos ensinamentos, pelo apoio e pela ajuda quando mais precisei. Agradeço à Profa. Marlene Froehlich pela orientação no estágio PAE. Agradeço à Dra. Neusa Hamada e ao Dr. Ulisses Neiss do INPA por terem me recebido em Manaus e por terem me auxiliado com a pesquisa na Reserva Ducke. Agradeço também ao Dr. Marcelo H. Gehlen da USP de São Carlos, ao Dr. Alexandre Marletta da UFU e ao Dr. Eralci Therezio pela colaboração com os trabalhos de espectrometria e fluorescência. Agradeço ao Dr. Kleber Del Claro da UFU e sua família pela constante orientação, apoio e amizade. Agradeço aos meus alunos Diogo Silva Vilela e Ayrton Hideo Hirata pela colaboração nos trabalhos de campo. Agradeço ao pessoal do Laboratório de Ecologia Comportamental e de Interações pelos anos de amizade e parceria. Agradeço à CAPES e ao CNPq pelo apoio financeiro. vi Índice Resumo 1 Abstract 2 Introdução 3 Referências 7 CAPÍTULO I - Morfologia da coloração das asas em Odonata 10 Resumo 11 Introdução 12 Material e métodos 14 Resultados 20 Discussão 40 Referências 46 CAPÍTULO II - O comportamento territorial e reprodutivo de três espécies Neotropicais de Odonata: Chalcopteryx scintillans (Zygoptera: 52 Polythoridae), Mnesarete pudica (Zygoptera: Calopterygidae) e Zenithoptera lanei (Anisoptera: Libellulidae) Resumo 52 Introdução 54 Material e métodos 55 Resultados 56 Discussão 65 Referências 68 vii CAPÍTULO III – A função das asas no comportamento de corte de 71 Mnesarete pudica (Odonata: Calopterygidae) Resumo 72 Introdução 73 Material e métodos 75 Resultados 78 Discussão 79 Referências 80 CAPÍTULO IV - O papel da pigmentação, UV e fluorescência das asas como 85 sinais em Mnesarete pudica (Odonata: Calopterygidae) Resumo 86 Introdução 87 Material e métodos 89 Resultados 96 Discussão 103 Referências 106 CAPÍTULO V - Aspectos funcionais da pruinosidade das asas de 115 Zenithoptera lanei (Odonata: Libellulidae) Resumo 116 Introdução 117 Material e métodos 118 Resultados 123 Discussão 125 Referências 126 viii Capítulo VI - A função da coloração das asas no comportamento territorial deChalcopteryx scintillans (Odonata: Polythoridae) e Mnesarete pudica 128 (Odonata: Calopterygidae) Resumo 129 Introdução 130 Material e métodos 131 Resultados 136 Discussão 143 Referências 147 Conclusões gerais 150 Anexo I – Artigo: The Role of Wing Pigmentation, UV and Fluorescence as Signals in a Neotropical Damselfly Anexo II – Artigo: Male and female interactions during courtship of the Neotropical damselfly Mnesarete pudica (Odonata: Calopterygidae) Anexo III – Artigo: Description of the larva of Mnesarete pudica (Hagen in Selys, 1853) (Odonata: Calopterygidae) and notes on known genera of South American Calopterygidae larvae ix Resumo Na Natureza, os animais possuem particularidades como comportamentos territoriais e de corte que exibem suas colorações conspícuas que chamam a atenção dos cientistas desde os primórdios das ciências biológicas. Diversos grupos animais apresentam padrões de coloração que são utilizados como sinais intra-específicos para a comunicação. Estes sinais podem ser derivados de pigmentos, de cores estruturais, de fluorescência ou bioluminescência. Embora estes sinais tenham sido estudados por mais de um século, a morfologia funcional de caracteres coloridos nos animais tem sido pouco explorada. Portanto, esta tese como objetivo principal estudar a morfologia e as propriedades óticas de ornamentos sexuais em insetos da ordem Odonata, com o intuito de testar a sua função no comportamento reprodutivo e territorial. Três espécies neotropicais de libélulas foram utilizadas como modelos neste estudo: Chalcopteryx scintillans (Zygoptera: Polythoridae) da floresta amazônica, Zenithoptera lanei (Anisoptera: Libellulidae) e Mnesarete pudica (Zygoptera: Calopterygidae). Os resultados obtidos relacionam a coloração com o comportamento nessas espécies, sugerindo que estruturas e pigmentos presentes nas asas são sinais utilizados por estes animais no reconhecimento sexual, nas disputas territoriais e no comportamento de corte, tendo o potencial de indicar a qualidade dos indivíduos. Palavras-chave: libélula, comportamento animal, seleção sexual, evolução, territorialidade, Calopterygidae, Libellulidae, Polythoridae. 1 Abstract In Nature, animals carry particularities such as courtship and territorial behaviors which show their conspicuous coloration and call the attention of scientists since the primordial ages of biological sciences. Several animal groups exhibit coloration patterns which are used as intraspecific signals for communication. These signals can be derived from pigments, structural colors, fluorescence and bioluminescence. Although such signals have been studied for more than a century, the functional morphology os colorful characters in animals have been underexplored. Therefore, this thesis had the goal of studying the morphology and optical properties of sexual ornaments in insects of the order Odonata, regarding their function in reproductive and territorial behavior. Three Neotropical species of dragonflies and damselflies were used as models in this study: Chalcopteryx scintillans (Zygoptera: Polythoridae) da floresta amazônica, Zenithoptera lanei (Anisoptera: Libellulidae) e Mnesarete pudica (Zygoptera: Calopterygidae). The results obtained show the relationship between coloration and behavior in these species, suggesting that wing structures and pigmentation are signals used by these animals during sexual recognition, territorial contests and courtship behavior, with the potential role of individual quality indicators. Keywords: dragonfly, animal behavior, sexual selection, evolution, territoriality, Calopterygidae, Libellulidae, Polythoridae. 2 Introdução A Natureza, na forma dos animais, nos apresenta diversas formas e especialmente vários padrões de coloração belíssimos que intrigam a humanidade e chamam a atenção de olhos humanos através das eras. A cor na natureza pode ser produzida por quatro diferentes sistemas: por pigmentos que absorvem parte do espectro da luz, por estruturas que refletem parte do espectro da luz, por compostos que absorvem a luz em determinado comprimento de onda e emitem fluorescência, ou por reações químicas que criam bioluminescência (Kemp et al. 2012). Como exemplos, temos os pigmentos carotenoides em pássaros (Endler 1980) e pteridinas em peixes (Grether et al. 2001); a emissão de fluorescência em crustáceos (Mazel et al. 2004) e psitacídeos (Arnold et al. 2002); as cores estruturais de borboletas (Kemp 2007, Kemp & Rutowski 2007), peixes e pássaros (Doucet & Meadows 2009); e a bioluminescência de vagalumes (Kemp et al. 2012). Desde Darwin (1874), a ciência tem procurado desvendar os mecanismos de produção de coloração nos animais e, com maior ênfase, os processos evolutivos responsáveis pelo surgimento de inúmeros padrões de coloração, ornamentos e comportamentos complexos associados. Várias pesquisas buscaram conhecer, não apenas os aspectos morfológicos, mas também os aspectos funcionais que podem fornecer dados para o estudo da evolução de caracteres ornamentais. Por exemplo, Doucet & Meadows (2009) fizeram uma extensa revisão da funcionalidade da iridescência nos animais, indicando a função de cores estruturais como sinais intra-específicos de reconhecimento sexual e de qualidade dos machos durante disputas territoriais. Pigmentos e fluorescência também tiveram sua funcionalidade abordada em vários trabalhos, como por exemplo, os trabalhos com 3 pássaros, insetos e aranhas que mostram que a maior pigmentação indica o melhor status territorial dos machos, assim como a reflexão ultravioleta e a fluorescência (Keyser & Hill 2000, Kemp 2007, Lim & Li 2013, Arnold et al. 2002, Lim et al. 2007, Guillermo-Ferreira & Del-Claro 2011, Guillermo-Ferreira et al. 2013). A evolução e as forças seletivas agindo para o surgimento dessas características ainda não são claras.Em Coleoptera e Lepidoptera, por exemplo, cores estruturais apareceram várias vezes em grupos distantes (Seago et al. 2009, Ingram & Parker 2008), sugerindo a convergência evolutiva e os inúmeros fatores que podem levar ao surgimento de sistemas complexos de coloração. Uma vez que geralmente existe dimorfismo sexual, com machos mais coloridos do que as fêmeas, a seleção sexual parece ser a principal pressão seletiva atuando no processo evolutivo da coloração. O surgimento de ornamentos sexuais ou caracteres sexuais secundários é comumente relacionado com a seleção sexual (Darwin 1874, Zahavi 1975, Andersson 1994), mas estudos também mostram que a interação com o ambiente, principalmente com a iluminação, pode influenciar na evolução de padrões de coloração conspícuos (Meadows et al. 2009). Embora a evolução de caracteres secundários tenha sido estudada por mais de um século, os estudos que investigam a morfologia por trás da coloração e sua relação com a biologia e evolução dos animais são escassos. Portanto, a presente tese teve como objetivo principal analisar a morfologia funcional dos padrões de coloração em animais e suas implicações para a evolução dos ornamentos sexuais. Para isso, insetos da ordem Odonata foram utilizados como modelo devido à grande diversidade de padrões de coloração nas asas destes animais e os comportamentos territoriais e reprodutivos complexos associados. Três espécies neotropicais foram escolhidas como modelos para este estudo:Chalcopteryx scintillans (Zygoptera: Polythoridae) da floresta 4 amazônica,Zenithoptera lanei (Anisoptera: Libellulidae) e Mnesarete pudica (Zygoptera: Calopterygidae) do Cerrado brasileiro. Deste modo, os principais objetivos desta tese foram: 1) Analisar as propriedades óticas da coloração das asas através de espectros de reflectância e transmissão 2) Estudar a morfologia das asas e identificar pigmentos e estruturas capazes de produzir coloração 3) Investigar os aspectos funcionais da coloração das asas na comunicação intra-específica Para atingir estes objetivos, os resultados obtidos foram divididos em seis capítulos: CAPÍTULO I - Morfologia da coloração das asas em Odonata. Este capítulo analisou a morfologia e as propriedades óticas das asas. CAPÍTULO II - O comportamento territorial e reprodutivo de três espécies Neotropicais de Odonata: Chalcopteryx scintillans (Zygoptera: Polythoridae), Mnesarete pudica (Zygoptera: Calopterygidae) e Zenithoptera lanei (Anisoptera: Libellulidae). Este capítulo teve como objetivo descrever o comportamento das espécies de estudo, criando uma base para os capítulos seguintes. CAPÍTULO III – A função das asas no comportamento de corte de Mnesarete pudica (Odonata: Calopterygidae). Este capítulo investigou o papel das asas como sinais no comportamento de corte e indicadores da qualidade dos machos. 5 CAPÍTULO IV - O papel da pigmentação, UV e fluorescência das asas como sinais em Mnesarete pudica (Odonata: Calopterygidae). Este capítulo analisou a função de propriedades óticas das asas no reconhecimento sexual e etário. CAPÍTULO V - Aspectos funcionais da pruinosidade das asas de Zenithoptera lanei (Odonata: Libellulidae). Este capítulo estudou a função da cera das asas no comportamento territorial dos machos. Capítulo VI - A função da coloração das asas no comportamento territorial deChalcopteryx scintillans (Odonata: Polythoridae) e Mnesarete pudica (Odonata: Calopterygidae). Este capítulo analisou a influência da coloração nas lutas entre machos com o intuito de identificar pressões seletivas que conduzem à evolução de caracteres secundários. 6 Referências Andersson, M. (1994) Sexual selection. Princeton (NJ): Princeton University Press. Arnold, K.E., Owens, I.P.F. & Marshall, N. J. (2002).Fluorescent signaling in parrots. Science, 295: 92. Darwin, C. (1874) The descent of man and selection in relation to sex. London: John Murray. Doucet, S. M., & Meadows, M. G. (2009). Iridescence: a functional perspective. Journal of The Royal Society Interface, 6: S115-S132. Endler JA. 1980. Natural selection on color patterns in Poecilia reticulata. Evolution. 34:76–91. Grether GF, Hudon J, Endler JA. 2001. Carotenoid scarcity, synthetic pteridine pigments and the evolution of sexual coloration in guppies (Poecilia reticulata). Proc R Soc Lond B Biol Sci. 268:1245–1253. Guillermo-Ferreira, R. & Del-Claro, K. (2011). Resource defense polygyny by Hetaerina rosea Selys (Odonata: Calopterygidae): Influence of age and wing pigmentation. Neotropical Entomology, 40: 78-84. Guillermo-Ferreira, R., Therézio, E.M., Gehlen, M.H., Bispo, P.C., Marletta, A. (2013) The role of wing pigmentation, UV reflection and fluorescence as signals in a Neotropical damselfly. Journal of Insect Behavior, DOI 10.1007/s10905-013-9406-4. 7 Ingram, A.L. & Parker, A.R. (2008).A review of the diversity and evolution of photonic structures in butterflies, incorporating the work of John Huxley (The Natural History Museum, London from 1961 to 1990). Philosophical Transactions of the Royal Society B, 363: 2465–2480. Kemp, D.J. (2007). Female mating biases for bright ultraviolet iridescence in the butterfly Eurema hecabe (Pieridae). Behavioral Ecology, 19: 1-8. Kemp, D.J., & Rutowski, R.L. (2007). Condition dependence, quantitative genetics, and the potential signal content of iridescent ultraviolet butterfly coloration. Evolution, 61: 168-183. Kemp, D.J., Herberstein, M.E., & Grether, G.F. (2012).Unraveling the true complexity of costly color signaling. Behavioral Ecology, 23: 233-236. Keyser, A.J. & Hill, G. (2000). Structurally based plumage coloration is an honest signal of quality in male blue grosbeaks. Behavioural Ecology, 11:202-209. Lim, M. L., & Li, D. (2013). UV-Green Iridescence Predicts Male Quality during Jumping Spider Contests. PloS one, 8(4), e59774. Lim, M.L.M., Land, M.F.L, & Li, D.Q. (2007).Sex-specific UV and fluorescence signals in jumping spiders. Science, 315: 481-481. Mazel, C.H., Cronin, T.W., Caldwell, R.L. & Marshall, N. J. (2004).Fluorescent enhancement of signaling in a mantis shrimp. Science, 303: 51–51. Meadows, M.G., Butler, M.W., Morehouse, N.I., Taylor, L.A., Toomey, M.B., McGraw, K.J. & Rutowski, R.L. (2009). Iridescence: views from many angles. Journal of The Royal Society Interface 6, S203–S211. 8 Seago, A.E., Brady, P., Vigneron, J.-P.& Schultz, T.D. (2009). Gold bugs and beyond: a review of iridescence and structural colour mechanisms in beetles (Coleoptera). Journal of The Royal Society Interface 6, S165–S184. Zahavi A. 1975. Mate selection: a selection for a handicap. Journal of Theoretical Biology, 53:205–214. 9 CAPÍTULO I Morfologia da coloração das asas em Odonata 10 Ferreira, R.G.N. Capítulo I CAPÍTULO I - Morfologia da coloração das asas em Odonata Resumo As cores em Odonata consistem de pigmentos e estruturas que refletem a luz em comprimentos de onda específicos. Entretanto, os mecanismos que produzem estes efeitos visuais ainda são pouco explorados e o estudo da morfologia funcional da coloração das asas é escasso. Portanto, o presente estudo combinou técnicas de espectrometria da luz e de microscopia, investigando a correlação entre estruturas e pigmentos presentes nas asas e a coloração produzida por estes elementos. Nesta tese, os aspectos funcionais destes componentes da coloração das asas foram analisados em três espécies neotropicais: Chalcopteryx scintillans (Zygoptera: Polythoridae), Mnesarete pudica (Zygoptera: Calopterygidae) e Zenithoptera lanei (Anisoptera: Libellulidae). Os resultados apresentados neste capítulo mostram que a coloração metálica em C. scintillans e Z. lanei é derivada da combinação do pigmento escuro com um sistema estrutural multi-camadas que gera iridescência com dependência angular. Já M. pudica, apresenta apenas pigmentação vermelha na mesocutícula e exocutícula translúcida que proporciona maior transmissão de luz através das asas. As três espécies apresentam cera na epicutícula, a qual é combinada com o pigmento e estruturas das asas para criar os efeitos visuais observados. Palavras-chave: morfologia, microscopia eletrônica de varredura, microscopia eletrônica de transmissão, espectros de reflectâncias, ótica, insetos. 11 Ferreira, R.G.N. Capítulo I Introdução Em Odonata, vários grupos tanto em Anisoptera como em Zygoptera apresentam padrões de coloração conspícuos nas asas. Vários destes grupos apresentam comportamentos complexos como displays sexuais e territoriais (Pajunen 1966, Córdoba-Aguillar & Cordero-Rivera 2005, Guillermo-Ferreira & Bispo 2012). Recentemente, foi evidenciado que os padrões de coloração têm um papel importante na biologia destes animais, influenciando em disputas entre machos (Contreras-Garduno et al. 2008; Guillermo-Ferreira & Del-Claro 2011a), na escolha de parceiros pelas fêmeas (Siva-Jothy 1999) e no reconhecimento sexual (Schultz & Fincke 2009). A coloração neste grupo pode ser de origem estrutural (Vukusic et al. 2000, 2004; Vukusic 2006) ou derivada de pigmentos (Chapman 1998; Hooper et al. 1999, Silsby 2001). Entretanto, até recentemente, tais padrões de coloração foram quase exclusivamente estudados em macroescala. Considerando a grande importância da coloração no comportamento e na evolução dos animais, especialmente em referência a variações inter-específicas, é importante salientar a necessidade de estudos mais detalhados em microescala (e.g. Schultz & Fincke 2009, Kuitunen & Gorb 2011, Stavenga et al. 2012, Nixon et al. 2013). A grande maioria dos estudos focaram na pigmentação alar e sua relação com o comportamento do macho e seu sucesso reprodutivo (Córdoba-Aguilar & CorderoRivera 2005). Entretanto, poucos estudos investigaram a relação entre as cores estruturais e o comportamento e biologia em Odonata. Como raro exemplo, Vukusic et al. (2004) evidenciaram que a iridescência das asas de machos de Neurobasis chinensis 12 Ferreira, R.G.N. Capítulo I chinensis (Linnaeus, 1758) (Zygoptera: Calopterygidae), usadas em displays de corte (Kumar & Prasad 1977) tem origem estrutural, derivada de uma cutícula com múltiplas camadas e pigmentos associados com alta absorbância, que aumentam a saturação da cor estrutural refletida. Schultz e Fincke (2009) também evidenciaram que a iridescência nas asas de Megaloprepus caerulatus (Drury, 1782) (Zygoptera: Pseudostigmatidae) possui uma origem estrutural similar. Além disso, também demonstram que a pruinosidade nas asas, essencial para o reconhecimento sexual, é produzida por filamentos de cera cuticulares, possivelmente envolvidos na produção de sinais ultravioleta para co-específicos. De fato, a reflexão UV já foi descrita para diversas espécies de Odonata (Hilton 1986, Gorb et al. 2000). Recentemente, Kuitunen e Gorb (2011) evidenciaram que as variações de cor entre os machos podem ocorrer devido a variações ontogenéticas na cobertura de cera cuticular, tanto em Calopteryx splendens (Harris, 1782) como em C. virgo (Linnaeus, 1758). Entretanto, pouco se sabe sobre a morfologia por trás dos padrões de coloração Odonata e os seus aspectos funcionais. Portanto, a presente tese teve como objetivo principal analisar diferentes mecanismos de produção de coloração em asas de Odonata, com o intuito final de investigar a sua função no comportamento destes animais e identificar possíveis pressões seletivas atuando na evolução destes caracteres. O presente capítulo investigou asas de três espécies com asas coloridas e comportamentos complexos, sendo o primeiro estudo a analisar o papel da cera epicuticular na produção de coloração em Odonata e sua interação com sistemas pigmentares e estruturais que produzem efeitos óticos. 13 Ferreira, R.G.N. Capítulo I Material e Métodos Espécies de estudo As espécies de estudo foram Zenithoptera lanei Santos, 1941 (Anisoptera: Libellulidae), Mnesarete pudicaHagen in Selys, 1853 (Zygoptera: Calopterygidae), eChalcopteryx scintillansMacLachlan, 1870 (Zygoptera: Polythoridae). Machos de C. scintillans possuem as asas anteriores hialinas (Fig. 1a), enquanto as asas posteriores possuem uma coloração estrutural púrpura na superfície dorsal (Fig. 1b) e cobre na superfície ventral (Fig. 1c). Machos de M. pudica possuem uma pigmentação vermelha nas asas, sendo que as asas anteriores (Fig. 1d) são menos pigmentadas do que as asas posteriores (Fig. 1e). Machos de Z. lanei possuem uma pigmentação escura nas asas com uma faixa hialina na altura do nodo e uma mancha hialina na parte apical, sendo que a superfície ventral apresenta uma coloração metálica vermelha (Fig. 1f) e a superfície dorsal apresenta uma coloração azul brilhante (Fig. 1g). 14 Ferreira, R.G.N. Capítulo I Figura 1. Chalcopteryx scintillans (Zygoptera: Polythoridae): asa anterior (a), asa posterior em vista ventral (b) e em vista dorsal (c). Mnesarete pudica (Zygoptera: Calopterygidae): asa anterior (d) e asa posterior (e). Zenithoptera lanei (Anisoptera: Libellulidae): asa em vista dorsal (f) e vista ventral (g). Caracterização da coloração das asas Medidas de reflectância, transmitância e dependência angular. As propriedades óticas das asas de machos foram medidas.Os espectros de reflectância foram medidos com uma fonte de luz alógena de Deutério Tungstênio (DH-2000-BAL, Ocean Optics Inc, Dunedin, Flórida, EUA) direcionada para a amostra em uma inclinação de 90o. A fonte de luz produz luz do ultravioleta ao infravermelho (200 a 1100 nm) e foi guiada através de uma fibra-ótica de 200 µm posicionada a 2 mm da 15 Ferreira, R.G.N. Capítulo I amostra. A luz refletida foi coletada pela mesma fibra-ótica e guiada a um espectrômetro (HR-4000, Ocean Optics), o qual transferiu os dados ao software Spectra Suite (Ocean Optics). Os espectros de transmitância foram medidos através do mesmo equipamento, mas a luz foi coletada e guiada ao espectrômetro por uma fibra-ótica equipada com uma lente coletora posicionada sob a amostra. A dependência angular da reflectância foi medida com a fibra-ótica coletora posicionada a 2 mm em um ângulo de 45o em relação à amostra. A fonte de luz foi posicionada a uma distância fixa de 13.5 cm da amostra, com a possibilidade de variação angular entre 10 e 90o. As medidas de reflectância foram feitas com as asas montadas em suporte de veludo preto em posição ventral e dorsal. As medidas foram feitas com asas em posição rostro-caudal em relação à fonte de luz. Espectros de reflectância e transmitância foram obtidos de cinco pontos padronizados em cada superficie da asa. A dependência angular foi medida em apenas um ponto, variando apenas o ângulo de incidência da luz. Os espectros de reflectância foram plotados no software Origin 8 Pro, onde tiveram os valores do espectro do veludo negro subtraídos (controle escuro), e depois divididos pelo espectro obtido de uma amostra padrão para referência (controle claro, Ocean Optics). Portanto, os resultados apresentados são referentes à porcentagem de luz refletida referente a esta amostra padrão. Os espectros de transmissão passaram pelo mesmo processo, mas foram divididos pelo espectro total da luz emitida pela fonte de luz DH-2000-BAL. Para estimar a cor, foram calculados os valores de brilho, tonalidade e saturação (Endler 1990) de acordo com o padrão internacional CIELAB para medidas de coloração. A tonalidade foi medida como o ângulo de tom de acordo com a roda de 16 Ferreira, R.G.N. Capítulo I cores; croma foi medida como a saturação da cor e brilho como a intensidade da luz refletida pela amostra. Estas variáveis foram calculadas da seguinte forma: ∫ Onde B1 é a reflectância total, Bx é a reflectância relativa em intervalos específicos de comprimento de onda (i.e. r = 600– 700, y = 500–600, g = 400–500, & b = 300–400), R é a proporção de luz refletida no comprimento de onda (λ) i. Todas estas medidas foram feitas usando o software CLR v. 1.05 (Montgomerie 2008). A influência da cera epicuticular na coloração Remoção da cera. Para investigar a influência dos cristais de cera nos padrões de coloração das asas, a cera foi removida pela imersão das asas em 20mL de clorofórmio(60oC) por 20 segundos (Kuitunen & Gorb 2011). Após a remoção dacera, as propriedades óticas foram medidas utilizando o método descrito anteriormente. Após as análises espectrais, as amostras foram examinadas por microscopia eletrônica de varredura (MEV) para estimar a quantidade de resíduos de cera restantes. 17 Ferreira, R.G.N. Capítulo I Microscopia eletrônica de varredura. As asas foram analisadas em vista dorsal, ventral e em seção transversal para a caracterização e medição dos cristais de cera presentes na superfície. Ouro-paládio foi pulverizado sobre as amostras (espessura de 10 nm), e examinadas em um MEV (Hitachi S-4800; Hitachi Ltd., Tóquio, Japão) a 3 kV. Fotografias foram tiradas em cinco posições pré-estabelecidas em magnitude de 15,000×. O processo foi feito também com amostras que passaram pela remoção da cera com clorofórmio. A influência de estruturas cuticulares na coloração Microscopia eletrônica de varredura. As asas foram quebradas em seção transversal para a visualização das estruturas internas da cutícula. Foi observado se as asas apresentavam camadas, nanoesferas ou outras estruturas que podem resultar em efeitos óticos. Ouro-paládio foi pulverizado sobre as amostras (espessura de 10 nm), e examinadas em um MEV (Hitachi S-4800; Hitachi Ltd., Tóquio, Japão) a 3 kV. As amostras foram percorridas para evidenciar as estruturas e fotografias foram tiradas incialmente em magnitude de 15,000×, e ad libitum. Microscopia eletrônica de transmissão e microscopia de luz. Para a microscopia de luz (ML) e a microscopia eletrônica de transmissão (MET), seções das asas com dimensões em torno de 0.5 x 0.5 cm foram fixadas em uma solução de 2.5% glutaraldeído em 1x (pH 7.4) tampão fostato-salino (PBS) por 8 - 12 h a 4°C, lavadas três vezes em 1x PBS por 20 minutos cada e uma vez em água bidestilada por 10 minutos a 4°C, fixadas em 1% OsO4 aquoso por uma hora a 4°C, e lavadas três vezes em água bidestilada por 20 minutos cada. Após este processo, as amostras foram 18 Ferreira, R.G.N. Capítulo I desidratadas emuma série de etanol 30-100% a 4°C, infiltradas com Epon/etanol e subsequentemente inseridas em Epon 812 (Glycidether 100, Carl Roth GmbH, Karlsruhe, Alemanha). As amostras em Epon foram polimerizadas a 60°C por 48 h e depois cortadas em seções semi-finas de 1 - 3 µm de espessura para ML e seções ultrafinas de 50 - 80 nm de espessura para MET em um ultramicrótomo Leica EM UC7 (Leica Microsystems GmbH, Wetzlar, Alemanha). As amostras foram então analisadas em um MET (Tecnai Bio TWIN, FEI) e um ML (Axioplan Zeiss). Modelos teóricos de multi-camadas. Para investigar se as multi-camadas, quando encontradas, são responsáveis pela coloração das asas, modelos teóricos foram produzidos utilizando a espessura das camadas e o índice de refração real (n) e imaginário (k) de cada camada. As espessuras das camadas foram medidas nas imagens de MET no programa Adobe Photoshop. Os índices de refração foram baseados na literatura (Stavenga et al. 2012, Nixon et al. 2013), considerando camadas escuras como camadas pigmentadas com melanina (n=1,76; k=0.17), camadas claras como camadas de quitina não pigmentadas (n=1,56; k=0,03) e as camadas superficiais (n=1,38; k=0,0). Os valores das espessuras (em nm) e os valores de n e k foram plotados no programa OpenFilters, que cria uma curva teórica de espectro de reflectância baseada nestas informações. A curva teórica obtida foi então comparada com as curvas reais obtidas por espectros de reflectância reais. 19 Ferreira, R.G.N. Capítulo I Resultados Mnesarete pudica Os resultados de MEV (Fig. 2), não apresentaram nenhuma estrutura intracuticular que pudesse ser responsável por efeitos visuais. A cera epicuticular possui aparência típica, medindo 0,36 ± 0,1µm (N=10) de comprimento na superfície dorsal e 0,34 ± 0,1µm (N=10) na superfície ventral, não havendo diferença entre as duas superfícies (teste t de Student, t=0.5777, P>0.05). Figura 2. Seção transversal da asa de um macho de Mnesarete pudica, mostrando os cristais de cera (W) nas superfícies dorsal e ventral e a ausência de estruturas intracuticulares. Barras representam 1µm. 20 Ferreira, R.G.N. Capítulo I Os resultados mostram que as asas de machos de M. pudica apresentam baixa reflectância e alta transmitância (Figura 3). Os resultados também mostram que a remoção da cera resulta no aumento da reflectância (Fig. 3a) e redução da transmissão (Fig. 3b). Os resultados de MET (Fig. 4a,b) e ML (Fig. 4c) mostram que o pigmento vermelho está concentrado na mesocutícula, entre duas lâminas de exocutícula esclerotizada, o que permite a transmissão da luz pela exocutícula hialina. Os resultados do experimento de dependência angular (Fig. 5a) mostram que a remoção da cera resulta no aumento da dependência angular em todas as variáveis que compõem a coloração, saturação no vermelho (Fig. 5b), saturação no ultravioleta (Fig. 5c), croma ou saturação (Fig. 5d), brilho (Fig. 5e) e tonalidade ou matiz (Fig. 5f), todas com um pico em 40º após a remoção da cera. Em estado natural, as asas vermelhas dos machos aparentemente não apresentam um pico distinguível em nenhuma variável. Figura 3. Espectro de reflectância (a) e transmissão (b) da asa de Mnesarete pudica antes (azul) e depois (vermelho) da remoção da cera epicuticular. Barras representam o desvio padrão. 21 Ferreira, R.G.N. Capítulo I Figura 4. Micrografias de microscopia eletrônica de transmissão (a,b) e de microscopia de luz (c) da asa de um macho de Mnesarete pudica (Odonata: Calopterygidae). A figura mostra a mesocutícula pigmentada (M) entre duas lâminas de exocutícula esclerotizada (E), e a epicutícula com cristais de cera (W). O pigmento vermelho (p) pode ser observado na mesocutícula. Barras representam 1µm em (a e b) e 10 µm em (c). 22 Ferreira, R.G.N. Capítulo I Figura 5. (a) Esquema do setup para as medidas de dependência angular, com o detector posicionado a 45o em relação à amostra e uma fonte de luz móvel 10 a 900. A dependência angular dos resultados para as asas vermelhas de machos com relação à saturação no vermelho (b), saturação no ultravioleta (c), saturação ou croma (d), brilho (e) e tonalidade ou matiz (f) antes (linhas negras) e depois (linhas vermelhas) da remoção da cera epicuticular com clorofórmio. 23 Ferreira, R.G.N. Capítulo I Zenithoptera lanei Os resultados mostram que a superfície ventral das asas de machos de Z. lanei refletem principalmente comprimentos de onda na faixa do vermelho (600-700nm) (Fig. 6a) enquanto a superfície dorsal reflete principalmente no ultravioleta (300-400nm) e azul (400-450nm) (Fig. 6b). Os espectros de transmissão das superfícies dorsal e ventral são semelhantes, com pico de transmissão no vermelho e absorbância no ultravioleta, característico de pigmentos melânicos (Stavenga et al. 2012). A remoção da cera epicuticular gerou redução quase total da reflexão pela superfície ventral, enquanto houve uma redução entre 350 e 600nm na superfície dorsal e aumento entre 600 e 700nm. Figura 6. Espectros de reflectância e transmissão da superfície ventral (a,c) e dorsal (b,d) da asa de machos de Zenithoptera lanei antes (azul) e depois (vermelho) da remoção da cera epicuticular. Barras representam o desvio padrão. 24 Ferreira, R.G.N. Capítulo I A remoção da cera aumentou também a quantidade de luz transmitida pela superfície ventral entre 500 e 700m (Fig. 6c), não havendo grande diferença na transmissão pela superfície dorsal (Fig. 6d). Os experimentos de dependência angular sugerem que a remoção da cera da superfície dorsal cria um efeito visual dependente do ângulo, quase inexistente quando comparado com a superfície intacta, para as variáveis brilho, saturação UV e saturação total (Fig. 7a,b,d). A variável tonalidade apresentou dependência angular em estado natural e após a remoção da cera, com pouca alteração nos resultados (Fig. 7c). Figura 7. A dependência angular dos resultados para a superfície dorsal de machos de Zenithoptera lanei (Odonata: Libellulidae) com relação ao brilho (a), à saturação no ultravioleta (b), tonalidade (c) e saturação ou croma (d) antes (linhas negras) e depois (linhas vermelhas) da remoção da cera epicuticular com clorofórmio. 25 Ferreira, R.G.N. Capítulo I Na superfície ventral, a remoção da cera alterou o grau de maior brilho e saturação de 40 para 60º (Fig. 8a,c) e alterou o perfil da saturação UV e da tonalidade (Fig.8b,d). Figura 8. A dependência angular dos resultados para a superfície ventral de machos de Zenithoptera lanei (Odonata: Libellulidae) com relação ao brilho (a), à saturação no ultravioleta (b), tonalidade (c) e saturação ou croma (d) antes (linhas negras) e depois (linhas vermelhas) da remoção da cera epicuticular com clorofórmio. Os cristais de cera cobrem quase toda a superfície das asas. Entretanto, os cristais apresentam diferentes formatos nas superfícies dorsal e ventral tanto sem seção 26 Ferreira, R.G.N. Capítulo I transversal (Fig. 9a) como em vista frontal (Fig. 9b,c). Na superfície dorsal, os cristais formam uma estrutura composta, consistindo de uma base filamentosa e um ápice no formato de folha, enquanto que na superfície ventral os cristais apresentam o formato típico filamentoso e curto. Em seção transversal, os cristais são significativamente maiores na superfície dorsal (teste t de Student, t=6.606, p<0.00001). Na superfície dorsal os cristais mediram 0,80±0,32µm e, na superfície ventral, 0,54±0,13 µm. 27 Ferreira, R.G.N. Capítulo I Figura9.Seção transversal da asa deZenithoptera lanei, mostrando a diferença entre os cristais de cera nas superfícies dorsal e ventral (a). Vista superior das superfícies dorsal (b) e ventral (c), mostrando a diferença no formato dos cristais de cera (W). Barras representam 1µm. 28 Ferreira, R.G.N. Capítulo I Além dos cristais de cera, as asas de Z. lanei apresentam outras estruturas na cutícula, identificadas como traquéias e uma rede de traquéolas envoltas em uma mesocutícula esponjosa (Fig. 10 e 11) . A exocutícula é pigmentada e ainda apresenta camadas, as quais podem resultar na cor metálica observada nas asas(Fig. 12a,b; Tabela 1). Tabela 1. Espessura e índices de refração das camadas na exocutícula das asas de Zenithoptera lanei. Dorsal Camada 1 2 3 4 5 6 Espessura (nm) 30 60 50 80 30 60 Ventral Índice de refração Espessura (nm) 1,38 1,70 1,56 1,70 1,56 1,70 30 60 140 100 30 Índice de refração 1,38 1,70 1,56 1,70 1,56 Figura 10. Micrografias de microscopia eletrônica de varredura da asa de um macho de Zenithoptera lanei (Odonata: Libellulidae) em corte transversal (a) e longitudinal (b), mostrando a mesocutícula esponjosa (E) e as traquéias (T). Barras representam 1µm. 29 Ferreira, R.G.N. Capítulo I Figura 11. Micrografias de microscopia eletrônica de transmissão (a,b) e de microscopia de luz (c) da asa de um macho de Zenithoptera lanei (Odonata: Libellulidae). A figura mostra traquéias (T) inseridas em uma mesocutícula (M) esponjosa (E) entre duas lâminas de exocutícula pigmentada (Ex) que apresentam camadas de diferentes índices de refração (C). Barras representam 0,5µm em (a,b) e 10 em (c). 30 Ferreira, R.G.N. Capítulo I Figura 12. Espectros de reflectância reais de Zenithoptera lanei antes (linha negra) e depois da remoção da cera (linha vermelha), comparados com o modelo teórico (linha azul) do efeito visual gerado pelas multi-camadas da superfície dorsal (a).Espectros de reflectância real (linha negra) e teórico (linha vermelha) do efeito visual gerado pelas multi-camadas da superfície ventral (b). 31 Ferreira, R.G.N. Capítulo I Chalcopteryx scintillans Os espectros de reflectância da asa posterior de machos de C. scintillans mostram que a superfície ventral (Fig. 13a) apresenta dois picos de maior reflexão, um em torno de 340nm e outro em torno de 670nm, sugerindo uma coloração derivada da mistura do ultravioleta com o vermelho. A remoção da cera da superfície ventral resulta na redução da reflectância, chegando a uma diferença de 60% na faixa do ultravioleta (300-400nm). Os espectros de reflectância da superfície dorsal (Fig. 13b) apresentam um único pico em torno de 670nm, resultando na cor cobre vista na parte dorsal da asa. A remoção da cera com clorofórmio resulta na diminuição da reflectância na faixa de 600700nm, mas um aumento na reflectância de 300 a 600nm. Os espectros de transmissão, tanto da superfície ventral (Fig. 13c) como da superfície dorsal (Fig. 13d), apresentam uma curva com alta transmissão de 600 a 700nm, proveniente do pigmento melânico (Stavenga et al. 2012). A remoção da cera reduz a transmissão da luz em ambas as superfícies, sugerindo maior absorbância devido ao pigmento escuro. 32 Ferreira, R.G.N. Capítulo I Figura 13. Espectros de reflectância e transmissão da superfície ventral (a,c) e dorsal (b,d) da asa de machos de Chalcopteryx scintillans antes (azul) e depois (vermelho) da remoção da cera epicuticular. Barras representam o desvio padrão. Os resultados de dependência angular mostram que a superfície dorsal apresenta maior brilho e saturação em 40º (Fig. 14a,c) e alteração da tonalidade da cor de acordo com o ângulo (Fig. 14d), mas não há dependência angular na saturação UV (Fig. 14b). A remoção da cera altera o ângulo de maior brilho e saturação para 60º, altera o perfil da saturação UV e da tonalidade. 33 Ferreira, R.G.N. Capítulo I Figura 14. A dependência angular dos resultados para a superfície dorsal de machos de Chalcopteryx scintillans (Odonata: Polythoridae) com relação ao brilho (a), à saturação no ultravioleta (b), saturação (c) e tonalidade (d) antes (linhas negras) e depois (linhas vermelhas) da remoção da cera epicuticular com clorofórmio. Os resultados de dependência angular mostram que a superfície ventral apresenta maior brilho e saturação em 60º (Fig. 15a,c) e alteração da saturação UV e da tonalidade da cor de acordo com o ângulo (Fig. 15b,d). A remoção da cera altera o ângulo de maior brilho e saturação para 40º, altera o perfil da saturação UV e da tonalidade. 34 Ferreira, R.G.N. Capítulo I Figura 15. A dependência angular dos resultados para a superfície ventral de machos de Chalcopteryx scintillans (Odonata: Polythoridae) com relação ao brilho (a), à saturação no ultravioleta (b), saturação (c) e tonalidade (d) antes (linhas negras) e depois (linhas vermelhas) da remoção da cera epicuticular com clorofórmio. Os resultados de MET mostram que a exocutícula, tanto na superfície ventral como na dorsal, apresenta camadas de diferentes índices de refração (Fig. 16), o que resulta no efeito ótico metálico dependente do ângulo de incidência da luz, gerado por interferência por multi-camadas. A exocutícula possui camadas de quitina melanizadas 35 Ferreira, R.G.N. Capítulo I e não melanizadas dispostas de maneira alternada, as quais produzem a coloração metálica observada nas asas por interferência (Fig. 17a,b; Tabela 2). Tabela 2. Espessura e índices de refração das camadas na exocutícula das asas de Chalcopteryx scintillans. Dorsal Camada 1 2 3 4 5 6 7 8 Espessura (nm) Ventral Índice de refração 30 85 95 100 90 95 105 95 1,38 1,70 1,56 1,70 1,56 1,70 1,56 1,70 Espessura (nm) 30 70 40 60 70 Índice de refração 1,38 1,70 1,56 1,70 1,56 36 Ferreira, R.G.N. Capítulo I Figura 16. Micrografias de microscopia eletrônica de transmissão (a) e de microscopia de luz (b) da asa de um macho de Chalcopteryx scintillans (Odonata: Polythoridae), mostrando a mesocutícula espessa (M) e as camadas de diferentes índices de refração (C) presentes na exocutícula pigmentada, tanto na superfície ventral (à esquerda) como na superfície dorsal (à direita). Barras representam 0,5µm em (a) e 10 µm em (b). 37 Ferreira, R.G.N. Capítulo I Figura 17. Espectros de reflectância de Chalcopteryx scintillans real (linha negra) e teórico (linha vermelha) do efeito visual gerado pelas multi-camadas da superfície dorsal (a) e ventral (b). Os resultados de MEV (Fig. 18) também apresentaram a mesma estrutura intracuticular. A cera epicuticular não possui aparência típica, com os cristais interligados entre si por uma base de cera em vez de filamentos separados entre si como em M. pudica. Os cristais medem 0,28 ± 0,06µm (N=10) de comprimento na superfície dorsal 38 Ferreira, R.G.N. Capítulo I e 0,18 ± 0,04µm (N=10) na superfície ventral, havendo diferença entre as duas superfícies (teste t de Student, t=3.8186, P<0.01). Figura 18. Micrografia de microscopia eletrônica de varredura da asa de um macho de Chalcopteryx scintillans (Odonata: Polythoridae), mostrando a cera epicutilar em vista dorsal, com cristais interligados (a). A figura (b) mostra as camadas de diferentes índices de refração (C) presentes na exocutícula,e os cristais de cera (W) de diferentes tamanhos nas superfícies dorsal (acima) e ventral (abaixo). Barras representam 1µm. 39 Ferreira, R.G.N. Capítulo I Discussão Vários mecanismos de produção da coloração das asas têm sido evidenciados para Odonata. A maioria possui pigmentos na cutícula (Stavenga et al. 2012), alguns apresentam efeitos visuais metálicos derivados da estrutura multi-camadas da cutícula (Vukusic et al. 2004, Nixon et al. 2013), e outros possuem estruturas especializadas como nanoesferas (e.g. Matrona basilares, Appel et al., comunicação pessoal) e cera cuticular que também contribui para a coloração (Gorb 1995, Gorb et al. 2000). O presente estudo mostra que a coloração nas asas de Odonata pode apresentar vários componentes, os quais são apresentados a seguir. Mnesarete pudica Libélulas da família Calopterygidae são mundialmente conhecidas por suas asas coloridas que, em alguns casos, apresentam cores estruturais. Entretanto, na espécie neotropical M. pudica, não foi encontrada nenhuma estrutura na membrana da asa que pudesse ser responsável pela criação de efeitos visuais além da cera epicuticular. Não foram encontradas camadas ou nanoesferas que poderiam criar o efeito observado nas asas. Portanto, a coloração das asas em machos de M. pudica aparentemente é derivada de uma combinação de efeitos provenientes da pigmentação, da cutícula translúcida e da cera epicuticular. 40 Ferreira, R.G.N. Capítulo I No caso de M. pudica, a pigmentação localizada na mesocutícula e a exocutícula desprovidade de pigmentos permitem a transmissão da luz, sendo que os espectros de reflectância e transmissão mostram uma grande diferença entre a reflexão e transmissão da asa pigmentada. Em outras palavras, as asas de machos de M. pudica transmitem muito mais luz do que refletem, diferentemente de Z. lanei e C. scintillans. A cera tem um papel ativo neste efeito visual, uma vez que a sua remoção resulta no aumento da reflectividade e na redução da capacidade de transmissão das asas. De fato, nanoestruturas presentes na cutícula de insetos são conhecidas como filtros antireflexos, como por exemplo, em asas de cigarras (Stoddart et al. 2006) e no corpo de libélulas (Kuitunen & Gorb 2011). A função da pigmentação e da reflexão ultravioleta proveniente da cera na comunicação intra-específica, foi testada no Capítulo 4. Zenithoptera lanei Os resultados mostraram que a coloração das asas em Z.laneiapresenta três diferentes componentes: a pruinosidade azul derivada de uma cera cuticular composta por duas camadas, a coloração escura do pigmento, e o efeito metálico (vermelho ventral e azul dorsal) derivado da interferência por multi-camadas. A pruinosidade em Odonata também é conhecida como um tipo de coloração estrutural que reflete luz (Hilton 1986). A cor é derivada de filamentos e cristais de cera que cobrem corpos e asas (Gorb 1995, Gorb et al. 2000). Tais estruturas, além de produzir cor, apresentam propriedades hidrofóbicas e auto-limpantes que permitem ao animal entrar em contato com a água (Hasan et al. 2012), crucial para um inseto 41 Ferreira, R.G.N. Capítulo I aquático que pode inclusive submergir durante a oviposição (e.g. Guillermo-Ferreira & Del-Claro 2011b, 2012). No presente estudo, os resultados mostram que a pruinosidade azul nas asas de Z. laneié derivada da estrutura composta da cobertura de cera cuticular. A asa apresenta duas camadas diferentes, uma camada inferior com longos filamentos e uma camada superior composta por cristais com forma de folhas. Os resultados sugerem que estas estruturas são responsáveis pela coloração azul desta espécie, vulgarmente conhecida como a libélula-morpho, fazendo referência às borboletas azuis do gênero Morpho. Provavelmente, esta coloração possui um papel na comunicação intra-específica como sinais para o reconhecimento sexual e para disputas territoriais. No Capítulo 5, a função da cera na comunicação será testada, uma vez que a cera é danificada ou removida com contato, a idade e o comportamento territorial podem gerar variações entre os machos, funcionando como um sinal direto do status do macho. Além da cera e das camadas cuticulares, Z. laneiaprenseta um sistema traqueal na membrana das asas. O sistema respiratório dos insetos consiste de traquéias e traquéolas, as quais formam uma rede de tubos que suprem todo o corpo com oxigênio. Durante o desenvolvimento, o sistema traqueal das asas é localizado dentro do lúmen entre a cutícula dorsal e ventral, junto com a hemolinfa e os nervos. Na medida em que a asa se desenvolve, as lâminas integumentais se fundem e degradam as células e traquéias para formar a membrana da asa. As áreas remanescentes formam as nervuras, que contêm nervos, traquéias e vasos (Wooton 1992). A cutícula das nervuras esclerotiza e fornece rigidez e força para as asas, influenciando no voo e na resistência a fraturas (Wooton 1992, Dirks & Taylor 2012). 42 Ferreira, R.G.N. Capítulo I O único caso reportado na literatura de insetos que possuem traquéias na membrana da asa após o desenvolvimento remete aos besouros aquáticos(Coleoptera: Dytiscidae),cujos élitros ricamente traqueados funcionam como um sistema de respiração subaquática (Smrz 1981, Kehl & Dettner 2009). As asas das libélulas são conhecidas pela sua função no voo e pela agilidade que concedem a estes animais (Wakeling & Ellington 1997, Wooton 1991), pela complexidade de sua estrutura (Newman 1982, Jongerius & Lentink 2010) e pela composição de materiais da cutícula (Gorb 1999, Appel & Gorb 2011), mas não existe referência a funções respiratórias como em besouros. Portanto, o presente estudo é o primeiro a evidenciar traquéias nas membranas das asas de um inseto voador. As traquéias nas asas de Z. lanei formam uma rede, que não é observada em nenhuma outra espécie. Entretanto, sua função ainda precisa ser investigada. No contexto do presente estudo, as traquéías podem contribuir para a coloração das asas de duas maneiras. Primeiro, as traquéias são geralmente abundantes em tecidos com alta atividade metabólica, como glândulas (Gilliot 2005). As asas de odonatos apresentam uma camada de cera epicuticular secretada por um sistema de glândulas e poros na membrana (Gorb 1997,Gorb et al. 2000)Geralmente, a cera possui uma morfologia padrão, que se assemelha a filamentos (Gorb et al. 2000), mas conforme foi apresentado neste estudo, a superfície dorsal das asas de Z. lanei apresenta uma camada espessa e complexa de cera. Portanto, o sistema traqueal na membrana da asa pode ser uma adaptação para a intensa demanda de oxigênio das células produtoras de cera. Segundo, sabe-se que as traquéias e traquéolas que formam o tapetum nos olhos de borboletas criam um filme de interferência que resulta em coloração 43 Ferreira, R.G.N. Capítulo I estrutural(Stavenga 2002). Uma vez que os machos de Z. laneipossuem uma coloração metálica nas asas, é possível que as traquéias contribuam para este efeito visual. Além disso, a exocutícula apresenta um sistema estrutural de multi-camadas, o que cria um efeito visual metálico (Vukusic et al. 2004, Nixon et al. 2013), auxilidado à cera epicuticular que funciona como um filtro que permite a reflexão da luz em determinado comprimento de onda. A remoção da cera reduz a reflectância, provavelmente possibilitando que o pigmento absorva comprimentos de onda que antes eram refletidos pela exocutícula. Deste modo, o Capítulo 5 investigará se a remoção da cera influencia no comportamento territorial dos machos, indicando uma possível função da cera cuticular e as consequências da perda dos nanocristais. Chalcopteryx scintillans Assim como observado em Neurobasis chinensis (Vukusic et al. 2004), Matronoidescyaneipennis (Nixon et al. 2013) e Matrona basilaris(Appel et al., comunicação pessoal)a coloração metálica das asas de machos de C. scintillans é proveniente das multi-camadas presentes na cutícula. Entretanto, os resultados aqui obtidos sugerem que este efeito visual é dependente da cera epicuticular que, quando removida, reduz a reflectância da asa e consequentemente o efeito visual. Assim como em Z. lanei, a exocutícula pigmentada e com camadas de diferentes índices de refração gera o efeito metálico, sendo que o pigmento escuro aumenta a pureza da luz refletida absorvendo outros comprimentos de onda (Kinoshita et al. 2008). A cera epicuticular parece também ter um papel crucial na criação do efeito iridescente das asas. Após a remoção da cera, os espectros de reflectância sofrem uma redução drástica na intensidade, sem grandes alterações nos espectros de transmissão. 44 Ferreira, R.G.N. Capítulo I Estes resultados sugerem que, sem a cera, a maior parte da luz é absorvida pelo pigmento na primeira camada da exocutícula, indicando que o sistema multi-camadas depende da cera para produzir o efeito metálico. A iridescência das asas em Odonata pode ter a mesma função encontrada em outros animais, agindo como indicador de stress durante o desenvolvimento e de qualidade genética (Meadows et al. 2009, Doucet & Meadows 2009), influenciando no reconhecimento específico (Kinoshita et al. 2002), reconhecimento sexual (Lim et al. 2007), reconhecimento etário (Doucet et al. 2006) , interações agonísticas (Lim & Li 2006) e seleção sexual (Kemp 2007, 2008). Esta hipótese foi testada no Capítulo 6, investigando a função da iridescência como um indicador da qualidade dos machos durante disputas territoriais. 45 Ferreira, R.G.N. Capítulo I Referências Appel, E., & Gorb, S. N. (2011).Resilin-bearing wing vein joints in the dragonfly Epiophlebia superstes. Bioinspiration & biomimetics, 6(4): 046006. Chapman, R. F. (1998) The Insects. Structure and Function. Cambridge Univ. Press, Cambridge. Contreras-Garduno, J., Buzatto, B.A., Serrano-Meneses, M.A., Najero-Cordero, K., & Córdoba-Aguilar, A. (2008) The size of the red wing spot of the American rubyspot as a heightened condition-dependent ornament. Behavioral Ecology, 19: 724732. Córdoba-Aguilar, A. & Cordero Rivera, A. (2005). Evolution and ecology of Calopterygidae (Zygoptera: Odonata): status of knowledge and research perspectives. Neotropical Entomology, 34: 861-879. Dirks, J. H., & Taylor, D. (2012). Veins Improve Fracture Toughness of Insect Wings. PloS one, 7(8): e43411. Doucet, S. 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O presente estudo realizou observações comportamentais com o intuito de descrever o comportamento de corte e de luta dos machos de três espécies de libélulas neotropicais. Os resultados mostram que os machos apresentam comportamentos que envolvem displays com as asas durante interações com machos rivais e com fêmeas. Estes resultados criaram a base para os estudos da função da coloração nestes comportamentos nos capítulos seguintes. Palavras-chave: comportamento reprodutivo, etologia, história natural, cortejo. 53 Ferreira, R.G.N. Capítulo II Introdução Estudos comportamentais são a base para estudos sobre a evolução da comunicação intra-específica nos animais. Estes estudos permitem identificar comportamentos que permitem estudos mais complexos focados em aspectos distintos da biologia do animal. Em Odonata, tanto o comportamento reprodutivo com o comportamento territorial são bem estudados em espécies da América do Norte, Europa e Japão (Corbet 1999), mas dados para grupos tropicais ainda são escassos. O presente estudo teve como objetivo descrever o comportamento de corte e de luta das espécies de estudo utilizadas nesta tese: Chalcopteryx scintillans (Zygoptera: Polythoridae), Mnesarete pudica (Zygoptera: Calopterygidae) e Zenithotera lanei (Anisoptera: Libellulidae). A família Polythoridae consiste de 57 espécies Neotropicais, distribuídas entre os Andes e a floresta Amazônica (Garrison et al. 2010). Pouco se sabe sobre seu comportamento e, embora a maioria apresente padrões conspícuos de coloração nas asas, não há detalhamento de displays territoriais e de corte neste grupo. Em Calopterygidae, embora o comportamento de espécies Neárticas e Paleárticas é bem documentado, o comportamento de grandes grupos tropicais como Mnesarete, SaphoeUmmaainda são desconhecidos. Este estudo pode fornecer informações valiosas não apenas sobre a evolução e biologia destes animais, mas também dados para distinção taxonômica dos grupos. Por exemplo, uma vez que não existem caracteres suficientes para a separação dos gêneros MnesareteeHetaerina (Garrison 2006), o último não apresentando corte (Guillermo-Ferreira & Del-Claro 2011, Córdoba-Aguilar & Cordero-Rivera 2005), estudos com Mnesarete species podem apresentar traços que permitam a separação dos dois gêneros. De fato, Garrison (2006) previu que diferenças 54 Ferreira, R.G.N. Capítulo II no comportamento de corte eventualmente podem ser encontradas entre HetaerinaeMnesarete. Para Libellulidae, o comportamento territorial e reprodutivo é bem estudado, com poucas variações e ausência de comportamento de corte e displays territoriais (Corbet 1999). Entretanto, o padrão de coloração, a morfologia da cera epicutilar, as traquéias nas asas (Capítulo 1) e o comportamento de fechar as asas (Pujol-Luz & Vieira 1998) únicos deZenithopteratornam este gênero em uma incógnita, merecedor de um estudo detalhado de seu comportamento. Material e métodos O estudo foi conduzido com C. scintillans em um igarapé na Reserva Florestal Adolpho Ducke, Manaus, Amazonas, Brasil (2º57'07.4"S/ 59º 57'27.6"W; altitude 75 m) em Novembro de 2012 e com M. pudica e Z. laneiem um riacho e uma lagoa em Assis, São Paulo, Brasil (22º38’S, 50º27’W; altitude 522 m) entre Março e Julho de 2010 e entre Setembro e Dezembro de 2012. Foram feitas observações comportamentais das 10:00 h (quando os machos estão ativos) às 15:00 h (quando a atividade territorial declina). Os machos foram marcados com tinta corretiva branca atóxica no tórax e abdômen. Pra descrever os comportamentos de corte e de luta, o método de amostragem de sequências (sequence sampling method, Altmann 1974) e o método ad libitum (Altmann 1974). O comportamento territorial foi classificado de acordo com as seguintes categorias (Pajunen 1966): (i) peseguição, um macho persegue um rival por um curto period (<5s) sem nenhum padrão comportamental específico; (ii) 55 Ferreira, R.G.N. Capítulo II ameaçafrontal, os machos voam face a face exibindo as asas um para o outro; (iii) ameaça reversa, um macho voa com abdômen direcionado para o rival; (iv) ameaça lateral, os machos voam lado a lado, (v) voo em círculos, os machos voam em círculos em perseguição mútua; (vi) voo ―rocking‖, os machos ascendem em voo e mergulham fazendo displays mútuos de ameaça em círculos ou ziguezague. O comportamento de corte foi categorizado de acordo com as seguintes categorias: (i) voo de corte (Heymer 1973), quando o macho paira no ar e se movimenta formando um arco na frente da fêmea; (ii) display em cruz (Waage 1973), quando o macho pousa e abre suas asas formando um ―X‖; (iii) display flutuante (Gibbons & Pain 1992), o macho pousa na água e flutua; (iv) o display ―wingclapping‖, quando o macho abre as asas lentamente e as fecha em um movimento súbito (Bick & Bick 1978). Estes comportamentos, de luta e corte, são descritos para Calopterygidae e, portanto, podem existir variações para Chalcopteryx e Mnesarete e inexistência em Zenithoptera, mas não existe descrição do comportamento para estes gêneros. Resultados Chalcopteryx scintillans O comportamento de corte (Fig. 19a) inicia quando a fêmea se aproxima do território do macho. O macho intercepta a fêmea em voo e apresenta seu voo de corte (i), pairando na frente da fêmea segurando as asas posteriores imóveis enquanto voa com as asas anteriores (N=6). A fêmea pode pousar e fazer um display de rejeição, abrindo as asas, e se retirar do território (N=2) ou corresponder ao display do macho (N=4) e exibir um padrão de voo similar ao display de ameaça frontal dos machos, 56 Ferreira, R.G.N. Capítulo II seguindo o macho até o recurso de oviposição defendido pelo macho (i.e. tronco caído no igarapé). A fêmea pousa no território e o macho agarra seu protórax com os cercos, assumindo a posição do tandem e iniciando a cópula. Após a cópula, o macho libera a fêmea e paira sobre o local de oviposição com as asas posteriores imóveis e pousa sobre o tronco e realiza o display ―wingclapping‖ (iv). A fêmea pode tentar abandonar o local e ser novamente cortejada pelo macho, em uma aparente tentativa de convencê-la a ovipositar no seu território (N=2), às vezes com sucesso (N=1), ou pousar diretamente sobre o tronco e iniciar a oviposição (N=4). Durante a oviposição, o macho e a fêmea fazem o display ―wingclapping‖ um para o outro. Não foram observados o display em cruz (ii) ou o display flutuante (iii). As cópulas (N=6) duram 628 ± 297 segundos (de 390 a 1140 segundos) e as oviposições (N=6) duram 52 ± 42 minutos (de 7 a 112 minutos). As interações entre os machos (Fig. 19b) consistiam de ―rounds‖, onde os machos lutavam entre si por um período e, após uma pausa, voltavam a lutar. Todas as lutas (N=33 rounds) envolveram disputas aéreas compostas de displays de ameaça (ii) frontal e (iii) reversa, com voos ―rocking‖ ascendentes (vi) ocasionais em círculos (v) (N=6 rounds). Nenhuma perseguição (i) foi observada, uma vez que todos os machos observados entraram em longas disputas. As lutas duraram 308 ± 1013 segundos (de 10 a 5160 segundos). 57 Ferreira, R.G.N. Capítulo II Figura 19. O comportamento de corte (a) de Chalcopteryx scintillans (Zygoptera: Polythoridae), com o macho voando com as asas anteriores enquanto segura as asas posteriores imóveis; e o comportamento de luta (b) com dois machos exibindo as asas um para o outro em um display de ameaça frontal. 58 Ferreira, R.G.N. Capítulo II Mnesarete pudica Machos e fêmeas foram geralmente encontrados perto da água, mas alguns indivíduos foram observados lutando e cortejando até 5 m longe das margens do riacho. Quando uma fêmea se aproximava de um território, o macho geralmente não respondia à sua presença até que voasse em patrulha pelo seu território, quando o macho finalmente voa em direção à fêmea e se aproxima dela. Com a aproximação do macho, a fêmea pode imediatamente apresentar um de três comportamentos distintos: (a) a fêmea apresenta o display de rejeição (35/111, 31.53%), o que faz com que o macho se retire; (b) a fêmea pode voar e abandonar seu poleiro e escapar do macho (32/111, 28.83%), ou (c) a fêmea bate as asas em um display de receptividade (wingflapping, Guillermo-Ferreira & Bispo 2012) (44/111, 39.64%), que leva o macho a realizar o seu display de corte completo. O display de corte começa com o (i) voo de cortejo; entretanto, o macho não paira em arco na frente da fêmea (como em outros calopterigídeos), mas voa em círculos ao redor da fêmea (Fig. 20). Após o voo de cortejo, o macho pousa perto da fêmea e abre as suas asas (Fig. 21a), balançando o corpo de um lado para outro (Fig. 21b) e ocasionalmente girando ao redor do poleiro enquanto o segura (N=5). Este comportamento pode ser considerado o (ii) display em cruz desta espécie. O macho geralmente repete esta sequencia de voo de cortejo seguido pelo display em cruz por até cinco vezes consecutivas e ininterruptas para a mesma fêmea. O (iii) display flutuante não foi observado nesta espécie, mas o ―wingclapping‖ (iv) foi bastante observado (N=110) quando os machos estão pousados em seu território. 59 Ferreira, R.G.N. Capítulo II Figura 20. O comportamento de corte em Mnesarete pudica (Zygoptera: Calopterygidae), em que o macho voa em círculos ao redor da fêmea. Após o display de corte, se a fêmea para de bater as asas e fica imóvel, o macho monta na fêmea agarrando a parte dorsal de suas asas e, com os cercos abdominais, agarra o seu protórax formando o tandem pré-cópula. O display dura 5.23±1.65 s (N=52; de 1–9 s), e o macho geralmente para de cortejar e permanece imóvel perto da fêmea se ela continuar a bater as asas. O macho também pode tentar agarrar a fêmea a força sem display de corte. 60 Ferreira, R.G.N. Capítulo II Figura 21. A sequência comportamental do comportamento de corte em Mnesarete pudica (Zygoptera: Calopterygidae), em que os machos pousam após voarem em círculos, e abrem as asas (a) balançando o corpo de uma lado para o outro com as asas abertas (b). Os encontros entre machos e fêmeas (Fig. 22) podem ser divididos em três tipos de acordo com as sequencias comportamentais: (a) tipo I, quando a interação se inicia quando o macho encontra a fêmea após patrulhar o território; (b) tipo II, quando um macho tenta copular com uma fêmea durante uma disputa territorial; (c) tipo III, quando a fêmea pousa no território do macho e este se aproxima. Dos 111 eventos de corte, 93 foram classificados como tipo I, 12 como tipo II e seis como tipo III. Notavelmente, apenas duas cópulas foram resultantes das 111 interações observadas. Após a cópula, o macho libera e volta a defender o território, enquanto a fêmea abandona o território para ovipositar em outro lugar. 61 Ferreira, R.G.N. Capítulo II Figura 22. Fluxograma das interações entre machos e fêmeas de Mnesarete pudica: Tipo I, o macho patrulha o território e encontra uma fêmea pousada; Tipo II, o macho interage com a fêmea durante uma disputa territorial com outro macho; Tipo III, a fêmea pousa no território e o macho se aproxima imediatamente. Legendas: quadrados significam ações dos machos e círculos ações das fêmeas. O fluxo segue da esquerda para a direita, os números e a espessura das linhas representam a quantidade de eventos observados. Abreviações: PER = o macho persegue a fêmea; COP = Cópula; CRT = Corte; DPT = disputa territorial entre machos; PSR = a fêmea pousa no território do macho; FUG = a fêmea foge do macho; TND = o macho tenta assumir a posição de tandem com a fêmea; PTR = o macho patrulha o território; STP = o macho cessa o comportamento de corte; X = a fêmea abre as asas em sinal de recusa. 62 Ferreira, R.G.N. Capítulo II O comportamento de luta pôde ser classificado com perseguições curtas (i) e longas disputas com displays de ameaça. As disputas aéreas geralmente se iniciavam quando um macho encontra um rival em seu território após uma patrulha ou intercepta um intruso em voo. Estas disputas eram compostas de displays de ameaça reversos (iii) e laterais (iv), nunca frontais (ii). Ocasionalmente os machos exibiam o voo ―rocking‖ (vi, Fig. 23) com trajetória em ziguezague (N=4), em formato de ―8‖ (N=7) ou em forma elíptica (N=46), mas nunca ascendente ou em círculos, enquanto o rival observa. Figura 23. A disputa territorial em Mnesarete pudica, mostrando a trajetória de voo de um dos machos (a), que pode ser elíptica, em forma de ―8‖ ou em ziguezague, enquanto o rival observa (b). 63 Ferreira, R.G.N. Capítulo II Zenithoptera lanei Os machos geralmente são encontrados pousados no território, patrulhando de tempos em tempos (N=18). Estes machos realizam o display de abrir e fechar as asas quando pousados no território (Fig. 24a,b), mesmo quando sozinhos. Entretanto, quando outro indivíduo se aproxima, macho ou fêmea, o macho ergue o abdômen e direciona a cabeça para o intruso ou para a fêmea e abre as asas totalmente, expondo a superfície azul das asas (Fig. 24c, N=10). As lutas consistem de perseguições com trajetórias aleatórias até os machos subirem em espiral no ar e pairar exibindo suas asas (N=8). As cópulas acontecem quando a fêmea pousa no território do macho (N=6), o qual voa até ela e a agarra imediatamente, sem comportamento de corte. Após a cópula, o macho pode acompanhar a fêmea durante a oviposição (N=4) ou deixa-la sozinha (N=2). Figura 24. Displays dos machos de Zenithoptera lanei: macho pousado realizando os displays de abrir (a) e fechar as asas (b), e o display direcionado às fêmeas e aos intrusos (c). 64 Ferreira, R.G.N. Capítulo II Discussão O comportamento de C. scintillans se assemelha ao comportamento de Neurobasis (Calopterygidae) (Kumar & Prasad 1977, Günther 2006), em que os machos lutam com displays de ameaça e voos ascendentes, e cortejam as fêmeas voando com as asas hialinas anteriores enquanto mantêm as asas anteriores imóveis mostrando a superfície dorsal iridescente das asas. Este comportamento provavelmente foi selecionado em concordância com as cores estruturais das asas que dependem do ângulo de incidência da luz (Capítulo 1). A coloração cobre-metálica das asas posteriores é derivada de uma combinação entre a cera epicuticular e os sistema multi-camadas da exocutícula que geram interferência e dependência angular (Capítulo 1). A espessura e os respectivos índices de refração destas camadas são responsáveis pela variação nos espectros de reflectância (Land et al. 2007), e portanto podem influenciar nos resultados das lutas e da corte. Os aspectos funcionais da coloração dos machos foram testados no Capítulo 6. O comportamento de corte em M. pudica pode ser considerado tão complexo como o comportamento de grupos próximos como Calopteryx maculata (Johnson 1962, Waage 1973), C. aequabilis (Waage 1973), C. virgo (Pajunen 1966), C. haemorrhoidalis (Córdoba-Aguilar 2000), C. dimidiata (Waage 1988) eC. amata (Meek & Herman 1990). Nestas espécies, os machos também mostram as asas para as fêmeas durante a corte. Entretanto, M. pudica os machos apresentam certas diferenças que devem ser consideradas: (I) machos deCalopteryx voam em arco na frente da fêmea, enquanto voam em círculos ao redor da fêmea em M. pudica fly; (II) Calopteryx realiza o display em cruz pousado ou voando sobre o substrato de oviposição, mostrando-o para a fêmea, enquanto M. pudica realiza este display diretamente para a fêmea, 65 Ferreira, R.G.N. Capítulo II pousando ao seu lado e mostrando as asas; (III) emCalopteryxexiste o display flutuante, o qual não foi observado em M. pudica; (IV) emC. maculata (Waage 1973) eP. caligata (Robertson 1982), o comportamento de corte se inicia principalmente quando o macho intercepta uma fêmea em voo, enquanto emM. pudica a corte se inicia quando macho patrulha seu território e encontra uma fêmea pousada. As fêmeas podem passar horas dentro do território, mas o macho não as corteja enquanto não voar em patrulha. Este comportamento sugere que os machos procuram ativamente por fêmeas quando estão voando, inclusive durante as disputas aéreas com outros machos. Após a corte, o macho simplesmente para com os displays sem nenhuma razão aparente, o que também se difere das outras espécies que possuem altas taxas na frequência de cópulas (e.g. Waage 1973, Córdoba-Aguilar 2000). Também foram observados eventos em que os machos cortejam as mesmas fêmeas várias vezes no mesmo dia. Alguns estudos sugerem que em algumas espécies, o cortejo dos machos possuem vários componentes e, por este motivo, as fêmeas necessitam de repetições para que possam avaliar a qualidade do macho (Borgia 1995, Sullivan 1994, Patricelli et al. 2002). Portanto, as repetidas cortes de M. pudicapodem ocorrer porque as fêmeas precisam de sinais cumulativos provenientes dos machos para exercer a sua escolha. Durante o display em cruz, os machos de M. pudicabalançam de um lado para o outro enquanto seguram no poleiro, um comportamento nunca observado em Odonata. Porque o sinal recebido pelas fêmeas pode variar de acordo com o ângulo de incidência e reflexão da luz (Capítulo 1, Schultz & Fincke 2009), sugere-se que este comportamento possa ser interpretado como uma adaptação para aumentar o sinal da pigmentação vermelha recebido pelas fêmeas de acordo com o ângulo, similar à mesma 66 Ferreira, R.G.N. Capítulo II adaptação em pavões (Dakin & Montgomerie 2009). Nas lutas, da mesma forma, os machos mudam de posição e realizam displays complexos na frente dos machos rivais. Os aspectos funcionais da coloração das asas dos machos na corte foram testados no Capítulo 3, no reconhecimento específico no Capítulo 4 e nas lutas no Capítulo 6. O fato de que M. pudica possuir um comportamento complexo de luta e de corte é surpreendente, uma vez que o gênero irmão Hetaerina (Garrison 2006) não apresenta nenhuma corte e as lutas são apenas voos em círculos (Guillermo-Ferreira & Del-Claro 2011, Córdoba-Aguilar & Cordero-Rivera 2005). Portanto, como Garrison (2006) havia previsto, estudos comportamentais com espécies de Mnesaretepodem apresentar traços que podem separar estes dois gêneros, se outras espécies também apresentarem comportamentos complexos. Em Z. lanei, o comportamento é único em Libellulidae (Corbet 1999), em que os machos mostram a coloração azul da parte dorsal das asas com a aproximação de um intruso (e.g. Pujol-Luz & Vieira 1998) ou de uma fêmea. Provavelmente, esta coloração é um sinal de ameaça para intrusos e/ou um sinal de cortejo para as fêmeas. Considerando que este padrão de coloração é proveniente de nanoestruturas presentes na cobertura de cera das asas, este sinal pode ter variação nos machos e ser um indicador da qualidade do macho para rivais e para potenciais parceiras. No Capítulo 5, a função da cera epicuticular nas interações entre os machos e as assimetrias entre os machos na cobertura de cera e na cor foram testados. 67 Ferreira, R.G.N. Capítulo II Referências Altmann, J. (1974). Observational study of behaviour: sampling methods. Behaviour, 49: 227-267. Bick, G.H. & Bick, J,C. (1978). The significance of wing clapping in Zygoptera.Odonatologica, 7: 5-10. Borgia, G. (1995). 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Entretanto, a influência da pigmentação alar e os sinais usados por machos e fêmeas durante o comportamento de corte ainda não são bem compreendidos. Portanto, o presente estudo teve como objetivo investigar a função da coloração das asas como um indicador da qualidade dos machos e seu papel na atração de fêmeas. Além disso, este estudo analisou os sinais usados por machos e fêmeas durante a corte e suas interações, a fim de identificar comportamentos que possam mediar a corte. Os resultados aqui obtidos sugerem que a pigmentação é um indicador da qualidade do macho, influenciando na atração de fêmeas. A análise dos sinais inter-sexuais sugere que o comportamento de corte do macho é mediado por comportamentos da fêmea que pode estimular ou inibir o display de cortejo, ou até sinalizar receptividade para a cópula. O presente estudo conclui que as fêmeas escolhem os machos baseando-se na sua pigmentação, a qual indica o potencial do macho em defender os melhores territórios. Palavras-chave: territorialidade, seleção sexual, comportamento animal, evolução, caracteres secundários. 72 Ferreira, R.G.N. Capítulo III Introdução O comportamento de corte é um componente importante do sucesso reprodutivo em vários táxons animais (Andersson 1994). A teoria da seleção sexual considera que as perspectivas de machos e fêmeas durante interações sexuais podem diferir (Thornhill & Alcock 1983). Estas interações geralmente envolvem sinais intersexuais, os quais regulam os investimentos feitos por machos e fêmeas. Os machos, por exemplo, precisam perceber a receptividade das fêmeas e concentrar esforços em interações de potencial sucesso (Bonduriansky 2001, King 2005), uma vez que o cortejo de uma fêmea não receptiva implica em perda de tempo e de energia (Hoefler 2008). As fêmeas geralmente utilizam sinais para indicar sua receptividade de diversas maneiras, dentre as quais se podem citar sinais acústicos (e.g. Wirmer et al. 2010), feromônios (e.g. Maxwell et al. 2010), sinais visuais e mecânicos (e.g. Waage 1984). Em espécies com comportamento de corte elaborado, as fêmeas geralmente exibem sinais específicos para estimular este comportamento (e.g.Baird 2004), demonstrar receptividade à cópula (e.g.Waage 1984), ou demonstrar que não estão receptivas (Hughes & Hughes 1985). Os machos, por sua vez, modulam seu comportamento de acordo com estes sinas das fêmeas (e.g. Waage 1984, Patricelli et al. 2002). Por exemplo, os machos de Ptilonorhynchus violaceus aumentam a intensidade do comportamento de corte de acordo com o quanto as fêmeas se abaixam (Patricelli et al. 2002). Em Odonata, o comportamento de corte é bem estudado (Corbet 1999), especialmente em Calopterygidae devido aos seus displays complexos e diferentes 73 Ferreira, R.G.N. Capítulo III estratégias de cópula (Córdoba-Aguilar & Cordero 2005). O comportamento de corte varia bastante entre as espécies deste grupo, partindo de voos simples em que o macho de Phaon paira no ar para exibir suas asas, a displays complexos em Calopteryx, Vestalis, Mnais (Córdoba-Aguilar & Cordero 2005) eNeurobasis (Kumar & Prasad 1977, Günther 2006). Neste grupo, os machos são territoriais, lutando contra rivais em displays aéreos (Waage 1988, Córdoba-Aguilar 2000, Guillermo-Ferreira & Del-Claro 2011). Estes também apresentam asas com uma pigmentação conspícua e marcante, a qual tem um papel importante nos displays comportamentais complexos exibidos pelos machos durante a corte e as disputas territoriais (Córdoba-Aguilar & Cordero 2005). Esta pigmentação alar é um ornamento sexual que se correlaciona com a quantidade de reservas de gordura e imunidade do macho, indicando a sua qualidade (Koskimaki et al. 2004, Contreras-Garduño et al. 2006) e influenciando nos resultados da competição entre os machos (Grether 1996) e na escolha de parceiros sexuais das fêmeas (SivaJothy 1999). No presente estudo, o caso da libélula neotropical M. pudica é apresentado, procurando estender o conhecimento sobre a função da coloração das asas dos machos no seu sucesso reprodutivo. Para isso, foi investigado o papel da coloração das asas dos machos na atração de fêmeas e na indicação de qualidade do macho, assim como os sinais visuais utilizados por fêmeas e machos para mediar as interações durante a corte. 74 Ferreira, R.G.N. Capítulo III Material e métodos M. pudica é uma libélula comum do sudeste do Brasil (Costa 1986), e os machos desta espécie são facilmente reconhecidos pela coloração vermelha (Costa 1986; Garrison 2006). Todas as espécies de Mnesarete são confinadas na América do Sul (Garrison 2006). O estudo foi realizado em um córrego na Reserva Ecológica do ―Clube de Caça e Pesca Itororó de Uberlândia‖, Uberlândia, Minas Gerais, Brasil (15°57′S, 48°12′W; altitude 863 m; 640 ha) em Março e Julho de 2010, e em outro riacho localizado em uma fazenda em Assis, São Paulo, Brasil (22°38′S, 50°27′W; altitude 522 m) em Julho de 2010. Foram feitas 30 h de observações comportamentais das 10h (quando os animais iniciam comportamentos de corte e de luta) até às 15h (quando a atividade sexual e territorial declina). Após este horário, os animais tendem a permanecer imóveis na beira do riacho (Costa 1986). Para estudar os sinais comportamentais inter-sexuais durante as interações entre machos e fêmeas, fêmeas vivas foram coladas pela parte dorsal do tórax a uma linha de algodão com Duco cement (e.g., Fincke 1994), uma cola especial de secagem instantânea e de fácil remoção após o experimento, possibilitando a soltura do espécime sem leva-lo à morte. A linha foi então colada a uma varinha de madeira de 20 cm (e.g., Miller & Fincke 1999), e finalmente, as fêmeas foram apresentadas para machos territoriais pousados no riacho. As fêmeas eram apresentadas passando-se a varinha na frente do macho testado. A linha media cerca de 2 cm, o que permitia a fêmea se movimentar na 75 Ferreira, R.G.N. Capítulo III varinha, mas não voar. A varinha era segura pelo observador, o qual a mantinha a 5 cm do macho. Este método é bastante utilizado em estudos comportamentais com Odonata, e foi estabelecido como uma técnica que não interfere no comportamento dos animais ou em sua sobrevivência. Após a apresentação, os machos se aproximaram da fêmea e as respostas das fêmeas e o comportamento correspondente do macho foram anotados. Seguindo Waage (1984), foram identificados três tipos de sinais femininos: (a) estender das asas, considerado um display de rejeição, quando as fêmeas estendem as quatro asas, levantam o abdômen e mantêm esta posição até o afastamento do macho; (b) ―wingflipping‖, quando a fêmea bate as asas várias vezes em rápida sucessão, ainda pousada, o que é um sinal de receptividade ao cortejo do macho; e (c) permanecer imóvel, o que é um sinal neutro. Os machos geralmente respondem à imobilidade das fêmeas como elas estivessem os convidando para a cópula (e.g., Calopteryx maculata, Waage 1984). Para simular os sinais femininos e confirmar o significado destes sinais através do comportamento de resposta do macho, foi realizado um experimento com o mesmo método descrito acima, utilizando uma varinha, mas com uma manipulação experimental. Para simular o comportamento das fêmeas de permanecer imóvel com a aproximação do macho, três fêmeas foram apresentadas com as asas coladas, de modo que elas não poderiam nem bater nem estender as asas. Também foram apresentadas seis fêmeas com as asas livres, as quais poderiam realizar ambos os displays de rejeição e de receptividade. Cada fêmea foi apresentada somente para três machos diferentes. Após o experimento, foram obtidas 11 respostas dos machos a fêmeas que permaneceram imóveis (9 com manipulação e 2 eventos 76 Ferreira, R.G.N. Capítulo III naturais), cinco respostas dos machos a fêmeas que bateram as asas e 11 respostas a fêmeas que estenderam as asas. O comportamento de resposta dos machos foi classificado como: (a) parar, quando o macho se aproximou da fêmea ou até tentou agarrá-la, mas se retirou; (b) cortejo, quando o macho cortejou a fêmea; e (c) tandem, quando o macho assumiu a posição de tandem que precede a cópula. A diferença entre as respostas dos machos aos sinais comportamentais das fêmeas foi comparada utilizando-se o teste G no programa Statistica 9.0. Para avaliar a função da pigmentação no comportamento de corte, 21 machos foram capturados, marcados e observados por 15 minutos utilizando o método do animal focal (Altmann 1974), anotando o número de fêmeas visitantes que cada macho cortejou. Para avaliar se a pigmentação dos machos é um indicador de qualidade, foi anotado o número de machos intrusos em cada território, uma medida da qualidade do território. Considerando que os machos em melhores condições defendem os melhores territórios e cortejam mais fêmeas, a pigmentação foi correlacionada com estas variáveis utilizando o coeficiente de correlação de Spearman no programa Statistica 10. A pigmentação foi medida por fotografias digitais das asas no programa Adobe Photoshop, medindo a porcentagem da área da asa coberta por pigmento. Todos os machos rivais e as fêmeas também foram marcados com líquido corretivo branco no tórax e abdômen. 77 Ferreira, R.G.N. Capítulo III Resultados As respostas dos machos foram diferentes de acordo com os sinais das fêmeas (G teste, gl=4, p<0.0001). Seis machos agarraram as fêmeas com asas imobilizadas sem display de corte e assumiram o tandem, enquanto três outros machos se retiraram (Tabela 3). Cinco machos responder com comportamento de corte às fêmeas que bateram as asas. Nenhum macho prosseguiu para o tandem após o display de corte. Dez machos se retiraram e um assumiu o tandem quando a fêmea estendeu as asas. Em dois eventos, as fêmeas permaneceram imóveis naturalmente quando apresentadas para os machos, o que levou os machos a formarem o tandem. Houve correlação positiva entre a pigmentação alar dos machos e o número de fêmeas visitantes (coeficiente de Spearman rs = 0,49; p = 0,02) e com a qualidade do território (coeficiente de Spearman rs = 0,67; p = 0,0007). Tabela 3. Respostas dos machos (Parou, Tandem e Corte) aos sinais das fêmeas (Bater asas, Estender asas e Imóvel) em Mnesarete pudica. Parou Tandem Corte Wingflipping 0 0 5 Estender asas 10 1 0 Imóvel 3 8 0 78 Ferreira, R.G.N. Capítulo III Discussão A seleção sexual pode favorecer a habilidade de ajustar o comportamento de corte de maneira efetiva em resposta ao comportamento das fêmeas (Patricelli et al. 2006). Neste cenário, as fêmeas fornecem informações para os machos sobre a sua vontade copular e sobre o desempenho da corte do macho e os machos, por sua vez, usam estas informações para aumentar seu sucesso reprodutivo interagindo apenas com fêmeas receptivas ao seu cortejo (West & King 1988; Patricelli et al. 2002, 2006). O comportamento de corte em M. pudicaparece ser dependente dos sinais das fêmeas. Os resultados mostram que as fêmeas batem as asas para estimular a corte dos machos. Sem este display das fêmeas, os machos tendem a agarrar as fêmeas sem nenhum cortejo e assumir o tandem, assim como ocorre em Calopteryx maculata (Odonata: Calopterygidae) (Waage 1984). Os machos também evitam interações nas quais as fêmeas abrem as asas em sinal de rejeição, assim como em Calopteryx (Waage 1984). Estes resultados corroboram a hipótese de Waage (1984) de que o display ―wingflipping‖ das fêmeas é um sinal de receptividade e mostram como o comportamento de machos e fêmeas podem co-evoluir para criar sinais mútuos de atração e repulsão. Uma vez que as fêmeas sofrem com o assédio dos machos e cópulas forçadas, os quais reduzem a longevidade das fêmeas (Córdoba-Aguilar 2009) e impedem as fêmeas de avaliar os machos, a seleção pode ter favorecido fêmeas que exibem comportamentos que regulam o comportamento dos machos. Portanto, sugere-se neste estudo que a evolução em M. pudicapode ter selecionado um display que sinaliza a receptividade das fêmeas à corte, mas não à cópula, permitindo às fêmeas a possibilidade de avaliar os machos antes de copular e evitar cópulas forçadas sem repulsar os machos (e.g. 79 Ferreira, R.G.N. Capítulo III Patricelli et al. 2004). O comportamento de corte dos machos e a pigmentação das asas podem ter evoluído em resposta a estes sinais femininos de maneira a mostrar a sua qualidade para as fêmeas. De fato, os resultados aqui obtidos sugerem que machos com asas mais pigmentadas atraem mais fêmeas e cortejam mais, além de defenderem os melhores territórios. Apenas um estudo com Calopterygidae mostra esta função da pigmentação alar na atração de fêmeas em Odonata (Siva-Jothy 1999). Este autor sugere que os machos com asas pigmentadas atraem mais fêmeas e possuem maior sucesso reprodutivo. Portanto, o presente estudo permite a conclusão de que o comportamento de corte em M. pudica é fruto de uma combinação entre sinais mecânicos de machos e fêmeas e o sinal visual da pigmentação dos machos. Referências Altmann, J. (1974). Observational study of behaviour: sampling methods. Behaviour 49: 227-267. Andersson M (1994). Sexual selection.Princeton University Press. Baird, T.A. (2004). Reproductive coloration in female collared lizards, Crotophytus collaris, stimulates courtship by males. Herpetologica, 60: 337-348. Bonduriansky, R. (2001). The evolution of male mate choice in insects: a synthesis of ideas and evidence. Biological Reviews, 76:305–339 80 Ferreira, R.G.N. Capítulo III Contreras-Garduño, J., Canales-Lazcano, J., & Córdoba-Aguilar, A. (2006) Wing pigmentation, immune ability and fat reserves in males of the rubyspot damselfly Hetaerina americana. J Ethol 24:165-173. Corbet, P.S. (1999).Dragonflies: Behavior and Ecology of Odonata, Comstock, Ithaca, NY. 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Capítulo IV CAPÍTULO IV - O papel da pigmentação, UV e fluorescência das asas como sinais em Mnesarete pudica (Odonata: Calopterygidae) Resumo Padrões de pigmentação, reflexão ultravioleta e emissão de fluorescência estão geralmente envolvidos no reconhecimento sexual e funcionar como indicadores de qualidade em vários táxons animais. No presente estudo, foram investigados os aspectos funcionais da coloração das asas na libélula Mnesarete pudica. Nesta espécie, existe dimorfismo sexual na coloração das asas e apresentam mudança ontogenética: os machos e fêmeas jovens possuem asas com pigmentação negra, se tornando vermelha nos machos e marrom nas fêmeas durante a maturação sexual. Primeiro, foi investigado se a reflectância UV e a emissão de fluorescência também varia de acordo com sexo e idade. Segundo, um experimento comportamental investigou as respostas comportamentais a estes sinais. A pigmentação e o UV foram manipulados para avaliar se a resposta comportamental de machos e fêmeas altera após estes tratamentos. Os resultados mostram que a pigmentação vermelha dos machos induz o comportamento agressivo de outros machos e sexual das fêmeas. Os resultados também mostram que ao reduzir a fluorescência e a reflexão UV, machos e fêmeas alteram seu comportamento e não reconhecem os animais manipulados como co-específicos. Machos e fêmeas também não reagiram a indivíduos jovens. Estes resultados sugerem que sinais UV, assim como em aranhas e borboletas, têm um papel importante na comunicação intraespecífica nesta espécie, e possivelmente em Odonata. Palavras-chave: seleção sexual, territorialidade, Zygoptera, coloração, cores estruturais, espectrometria. 86 Ferreira, R.G.N. Capítulo IV Introdução Desde a publicação da teoria da seleção sexual por Darwin (1874), os cientistas têm se interessado nos aspectos funcionais, e na evolução da caracteres secundários nos animais. Uma hipótese sugere que a seleção sexual pode dar forma aos ornamentos coloridos através da competição entre os machos e da preferência das fêmeas por certo ornamento (Darwin 1874; Andersson 1994) ou através do conflito sexual (Arnqvist & Rowe 2005), favorecendo machos que pagam o alto custo envolvido em sua produção. Um vasto número de estudos foram realizados no intuito de identificar múltiplas fonts de coloração e seus aspectos funcionais na comunicação intra-específica. Por exemplo, vários autores encontraram dimorfismo sexual em ornamentos iridescentes (Lim & Li 2006, Button & Dawson 2008, Rutowski & Rajyaguru 2013), que refletem ultravioleta (Pearn et al. 2001, 2003; Kemp 2006; Lim & Li 2007; Lim et al. 2007, 2008), emitem fluorescência (Arnold et al. 2002; Mazel et al. 2004; Lim et al. 2007, Barreira et al. 2012) ou na pigmentação (Anderson & Grether 2010a,b) os quais possuem um papel no reconhecimento específico e na seleção sexual. Estes vários mecanismos produtores de coloração podem ser finalmente combinados para resultar em efeitos visuais complexos (e.g. metálicos, iridescentes ou caleidoscópicos, Fox 1976; Farrant 1997; Kemp et al. 2012), ou para aumentar a efetividade do sinal (Mazel et al. 2004; Bridge & Eaton 2005) que pode ter um efeito final na comunicação intraespecífica. Recentemente, a coloração marcante das asas de Odonata tem tornado o grupo em um modelo chave para o estudo da evolução da coloração em animais (Córdoba-Aguilar 87 Ferreira, R.G.N. Capítulo IV 2008). Neste grupo, os mecanismos de produção de cor vão de cores estruturais (Vukusic et al. 2000, 2004; Vukusic 2006; Nixon et al. 2013), pigmentos (Chapman 1998; Hooper et al. 1999; Silsby 2001; Stavenga et al. 2012), reflexão ultravioleta (UV) através da dispersão da luaz por filamentos de cera (Hilton 1986; Gorb et al. 2000) à emissão de fluorescência pela excitação de resilina (Gorb 1999; Appel & Gorb 2011). Em Calopterygidae, a pigmentação alar desenvolve gradualmente durante a maturação sexual do adulto, se tornando um sinal dependente do status nutricional do individuo (Alvarez et al. 2013), que correlaciona com sua imunidade, reservas de gordura e sucesso reprodutivo (Córdoba-Aguilar et al. 2003; Contreras-Garduño et al. 2008). Evidências sugerem que a pigmentação é selecionada pelo favorecimento de machos em melhores condições durante disputas territoriais e displays de corte, tendo um papel importante na competição entre machos (Contreras-Garduño et al. 2008; Koskimäki et al. 2004), na escolha de parceiros pelas fêmeas (Siva-Jothy 1999) e no reconhecimento de parceiros sexuais (Svensson et al. 2007) através da sinalização das asas. Entretanto, somente um estudo investigou a função da coloracao estrutural como um sinal intra-específico me Odonata (Schultz & Fincke 2009). De acordo com este estudo, a iridescência UV das asas, proveniente da cera epicuticular, serve como um sinal no reconhecimento sexual e pode indicar indiretamente o status territorial do macho. Portanto, o presente estudo teve como objetivo estender o conhecimento sobre a função da pigmentação e sinais dependentes do UV refletido pela cera cuticular na comunicação intra-específica. Em particular, foi estudada a espécie Neotropical Mnesarete pudica Hagen in Selys (Zygoptera: Calopterygidae), dando atenção especial para a dependência etária e 88 Ferreira, R.G.N. Capítulo IV no dimorfismo sexual na pigmentação, na reflexão ultravioleta e na emissão de fluorescência das asas, com o intuito de testar seu papel no reconhecimento de parceiros sexuais e potenciais rivais. Este teste foi realizado pela manipulação dos sinais visuais e a observação da resposta comportamental de machos e fêmeas reprodutivos. Material e métodos Espécie de estudo M. pudica é uma libélula comum da América do Sul, cujos machos possuem as quarto asas cobertas parcialmente por um pigmento vermelho, enquanto as fêmeas apresentam uma coloração pálida nas asas (Costa 1989). Os machos defendem territórios em riachos, exibindo as asas para machos rivais durante disputas. Os machos também apresentam um comportamento complexo de corte, em que os machos voam ao redor das fêmeas e depois pousam para exibir as quatro asas abertas (Guillermo-Ferreira & Bispo, 2012). Diferenças sexuais e etárias Os indivíduos de M. pudica (Fig. 25a) foram classificados de acordo com o sexo e idade. Existe um dimorfismo sexual contrastante nesta espécie. As asas dos machos são 89 Ferreira, R.G.N. Capítulo IV vermelhas enquanto as asas das fêmeas possuem uma coloração marrom pálida e translúcida. Os machos com asas vermelhas foram classificados como ―machos maduros‖ (Fig. 25b), e as fêmeas com asas translúcidas como ―fêmeas maduras‖ (Fig. 25c). Os indivíduos tenerais de ambos os sexos possuem asas brilhantes e flexíveis, com uma pigmentação negra. Portanto, machos e fêmeas com estas características foram classificados como ―machos juvenis‖ (Fig. 25d) e ―fêmeas juvenis‖ (Fig. 25e). Indivíduos juvenis são raramente observados em interações sexuais ou territoriais. Indivíduos sexualmente maduros apresentam asas com menor brilho e flexibilidade (Raihani et al. 2008). 90 Ferreira, R.G.N. Capítulo IV Figura25. Imagens de Mnesarete pudica: (a, b) macho maduro, (c) fêmea madura, (d) macho juvenil, (e) fêmea juvenil. O círculo na imagem (a) representa o local onde foram medidos os espectros de reflectância. 91 Ferreira, R.G.N. Capítulo IV Análise da reflexão UV, da emissão de fluorescência e da pigmentação das asas de machos e fêmeas Espectros de emissão. Os espectros de emissão das asas de machos e fêmeas foram feitos com um Microscópio Confocal de Fluorescência acoplado a um espectrômetro Maya 2000 Pro (Ocean Optics). O instrumento é base do em um microscópio Olympus com um controlador piezelétrico digital e uma estação (PI modelos E-710.3CD e P-517.3CD) para o escaneamento nanométrico. A excitação foi providencia por uma fonte de luz Coherent Cube 405 nm CW, um diodo operando a baixa tensão de 10 mW. A excitação foi convertida em um feixe de laser circular polarizado usando placas de zero ordem (Del Mar Photonics) e focado sobre a amostra na objetiva Olympus ,UPLFLN 40X. A emissão foi separada do laser de excitação usando cubos dicróicos (Chroma z405lp e z532lp) e filtros Notch (Semrock NF02405U-25 e NF01-532U-25). As asas foram colocadas em uma placa de petri (Ted Pella). Espectros de reflectância.Os espectros de reflectância foram obtidos com uma fonte de luz halógena de deutério tungstênio (Ocean Optics) que iluminou as asas através de uma fibra ótica de quartzo (Ocean Optics) orientada diretamente para a amostra em um ângulo de 90º. Uma segunda fibra ótica de quartzo coletou a luz refletida e a guiou até um espectrômetro de 200-800nm (USB4000 – Ocean Optics). Os espectros foram medidos na região marcada na Figura. Os resultados são apresentados como médias (± SE) de quatro asas. 92 Ferreira, R.G.N. Capítulo IV Com estas análises, foi possível caracterizar as diferenças sexuais e etárias na coloração. Foi calculada a media (± SE) do matiz UV (ʎmax, o pico de reflectância entre 300 nm e 400 nm) e brilho (a soma das intensidades de 300 nm to 400 nm) das asas (e.g. Schultz & Fincke 2009), e as diferenças entre os sexos e as idades foram analisadas utilizando o teste t de Student. Os testes foram feitos para todos os controles e tratamentos descritos a seguir (N=4 em cada categoria). Experimento comportamental O trabalho de campo foi realizado entre Novembro de 2010 e Janeiro de 2011 em um riacho localizado em Assis, São Paulo, Brasil (22º38’S, 50º27’W; altitude 522 m). O experimento comportamental foi feito colando-se os animais (modelos) à ponta de uma linha branca de algodão com Duco cement (e.g. Fincke 1994). A outra ponta foi colada em uma varinha de madeira (e.g. Miller & Fincke 1999; Schultz & Fincke 2009). Os modelos foram apresentados para machos e fêmeas sexualmente ativos (indivíduos teste) pousados na lagoa, fazendo movimentos com o modelo imitando o seu comportamento de voo e permitindo-o pousar perto dos indivíduos teste. Foram apresentados quatro indivíduos em cada tipo de controle e tratamento. Cada modelo foi apresentado para apenas cinco indivíduos teste, os quais foram previamente marcados com corretivo branco no tórax e abdômen, para evitar reações do mesmo animal. Desta forma, cada indivíduo teste foi testado apenas uma vez. O experimento foi realizado entre 10:00 e15:00 h, período de atividade territorial e sexual. 93 Ferreira, R.G.N. Capítulo IV Os modelos foram coletados com uma rede entomológica imediatamente antes das sessões experimentais. Estes animais estavam ativos no local e, após a captura, foram utilizados no experimento e colocados em um recipiente de plástico para futuras análises de espectrometria. Todo o processo não durou mais de 10 minutos. Todos os machos maduros utilizados e testados no experimento foram identificados como machos territoriais ativos, observando seu comportamento de defesa de território. Todas as fêmeas maduras estavam pousadas na vegetação em torno do riacho e apresentaram sinais de receptividade à corte dos machos. A reação dos machos foi categorizada como: sexual (o macho realizou um display de corte ou tentou assumir a posição de tandem com o modelo); agressiva (o macho realizou um display de ameaça); neutral (o macho abriu as asas, ignorou ou se aproximou do modelo, mas logo se retirou sem interação alguma). A reação das fêmeas foi categorizada como: sexual (a fêmea realizou o display ―wing-flipping‖); agressiva (a fêmea atacou o modelo); neutra (a fêmea abriu as asas, ignorou o modelo ou mudou de poleiro). O display de ―wing-flipping‖ é um sinal de receptividade das fêmeas (Waage 1984; Guillermo-Ferreira & Bispo 2012). O sinal de ameaça é um sinal territorial utilizado pelos machos durante as lutas (Pajunen 1966). O comportamento de abrir as asas, também utilizado contra outros insetos, é um comportamento para repelir alguém que se aproxime demais (Corbet 1999). Para analisar a resposta de machos e fêmeas à pigmentação dos machos, a coloração das asas de fêmeas foi manipulada pintando-as totalmente de vermelho com uma caneta marcadora (Faber Castell®). O marcador vermelho foi usado para simular o pigmento vermelho das asas dos machos. Para investigar o efeito do UV, a reflexão UV e a fluorescência foram reduzidas experimentalmente aplicando-se em todas as asas 94 Ferreira, R.G.N. Capítulo IV uma solução de dois ingredientes comuns em protetor solar que absorvem a luz UV. Estes componentes foram o Parsol® MCX, que absorve UV-B, e Parsol® 1789, que absorve UV-A. Este método é reconhecido para a redução da reflexão UV e da fluorescência (Arnold et al. 2002; Heiling et al. 2005). A solução foi espalhada suavemente sobre as asas com a ajuda de um cotonete, com o cuidado de deixar uma fina camada sobre as asas. Para investigar o papel da pigmentação e do UV como sinais etários, machos e fêmeas jovens também foram utilizados no experimento, comparando-se a resposta comportamental dos indivíduos teste e os espectros de reflectância dos indivíduos modelo. Machos e fêmeas maduros sem nenhuma manipulação da cor foram utilizados como controles. Portanto, os modelos apresentados foram: (N=4 modelos N=20 indivíduos teste em cada controle e tratamento): (a) Macho maduro; (b) Fêmea madura; (1) Fêmea madura com as asas pintadas de vermelho (Fêmea vermelha); (2) Macho juvenil; (3) Macho maduro com solução bloqueadora de UV (Macho UV-); (4) Fêmea juvenil; (5) Fêmea madura com solução bloqueadora de UV (Fêmea UV-). Cada tratamento foi comparado com seu respectivo controle com o teste do qui-quadrado com correção de Yates: 1 vs. a; 2 vs. a; 3 vs. a; 4 vs. b; 5 vs. b. 95 Ferreira, R.G.N. Capítulo IV Resultados Análise da reflexão UV, da emissão de fluorescência e da pigmentação das asas de machos e fêmeas Quando as asas são focadas no microscópio sob excitação em 405 nm, os padrões de emissão obtidos mostram auto-fluorescência. Os espectros de emissão (Fig. 26) das asas sob excitação UV mostram que o pigmento vermelho do macho emite fluorescência vermelha em 650 nm quando excitado, ao contrário da fêmea que emite moderadamente com pico em torno de 520 nm. Isso significa que o pigmento possui fluoróforos absorvendo luz em 405 nm que podem emitir energia em um comprimento de onda 200 nm maior. Este comportamento espectral aponta para a combinação da reflexão primária do pigmento com os padrões secundários de emissão. Ododata é conhecido por ter receptores visuais na região do vermelho 600 – 650 nm, concordando o espectro de emissão do pigmento vermelho (Briscoe & Chittka 2001). 96 Ferreira, R.G.N. Capítulo IV Figura 26. Espectros de emissão das asas de machos (linha vermelha) e fêmeas (linha pontilhada) de Mnesarete pudicasob excitação em 405nm, indicando que as asas dos machos emitem fluorescência vermelha sob luz UV. Os resultados mostram que os espectros de reflectância das fêmeas com as asas pintadas de vermelho se assemelham ao dos machos (Fig. 27a). Os espectros dos machos juvenis são diferentes dos espetros dos machos maduros (Fig. 27b). Os resultados também mostram que o Parsol® aplicado nas asas de machos (Fig. 27c) e fêmeas (Fig. 28a) reduz a reflectância no UV. Comparando-se fêmeas juvenis e maduras, percebe-se que a reflectância das asas reduz com a idade (Fig. 28b). Não há diferença entre machos e fêmeas com relação ao brilho UV (t=-0.3, p>0.05), mas os machos apresentam menores valores de UV ʎmax (t=3.47, p=0.013). Não há diferença no UV ʎmax de machos e fêmeas pintadas de vermelho (t=-0.2857, p>0.05), assim como no brilho UV (t=0.6889, p>0.05). Machos maduros possuem maior UV 97 Ferreira, R.G.N. Capítulo IV ʎmaxquando comparados a juvenis (t=8.52, p=0.001), e machos UV- (t=-11.62, p=0.0003). Machos maduros também apresentaram maior brilho UV quando comparados a juvenis (t=2.92, p=0.02) e machos UV- (t=3.91, p=0.03). Fêmeas maduras apresentaram maior UV ʎmax que juvenis (t=3.4641, p=0.02) e fêmeas UV(t=5.63, p=0.03). Fêmeas maduras possuem maior brilho UV quando comparadas com juvenis (t=4.374, p=0.005) e fêmeas UV- (t=7.0936, p=0.0004). 98 Ferreira, R.G.N. Capítulo IV Figura 27. Espectros de reflectância das asas de machos maduros (linhas sólidas) e (a) fêmea com asas pintadas de vermelho, (b) macho juvenile e (c) macho com redução de UV (300-400nm) (todos representados por linhas pontilhadas). 99 Ferreira, R.G.N. Capítulo IV Figura28. Espectros de reflectância das asas de fêmeas maduras (linha sólida) e (a) fêmeas com redução de UV (300-400nm) e (b) fêmeas juvenis (ambas representadas por linhas pontilhadas). The reflectance spectra of the wings of mature female (solid line) and (a) juvenile female and (b) UV- female (both represented by dashed lines). UV (300-400nm). 100 Ferreira, R.G.N. Capítulo IV Experimento comportamental Os machos responderam sexualmente às fêmeas controle e agressivamente aos machos controle (Tabela 4). As fêmeas responderam sexualmente aos machos controle e com comportamentos neutros às fêmeas controle. Isto implica que a manipulação experimental não alterou o comportamento dos animais. Machos territoriais reagiram agressivamente e fêmeas sexualmente a fêmeas pintadas de vermelho (Tabela 4). Ao aplicar Parsol® (UV-) nas asas de machos e fêmeas, tanto machos como fêmeas reagiram de forma neutral. As respostas de machos e fêmeas maduros foram neutras em relação às respostas a indivíduos maduros (Tabela 4). 101 Ferreira, R.G.N. Capítulo IV Tabela 4. Respostas dos machos e fêmeas de Mnesarete pudica a machos e fêmeas com padõres de coloração naturais e manipulados. Valores de P são dados para testes de qui-quadrado com correção de Yates, usados para comparar os resultados de cada tratamento com seu respectivo controle (1 vs a; 2 vs a; 3 vs a; 4 vs b; 5 vs b). Resposta do macho Sexual Agressiva Neutra P a) Macho maduro 0 15 5 b) Fêmea madura 16 0 4 1) Fêmea vermelha 2 15 3 0.71 2) Macho juvenil 1 0 19 0.00004 3) Macho UV- 0 4 16 0.006 4) Fêmea juvenil 5 0 15 0.001 5) Fêmea UV- 5 0 15 0.001 Resposta da fêmea Sexual Agressiva Neutra P a) Macho maduro 16 0 4 b) Fêmea madura 3 6 11 1) Fêmea vermelha 12 0 8 0.3 2) Macho juvenil 5 0 15 0.001 3) Macho UV- 8 0 12 0.023 4) Fêmea juvenil 1 0 19 0.048 5) Fêmea UV- 2 0 18 0.06 102 Ferreira, R.G.N. Capítulo IV Discussão Em vários grupos animais, a reflexão UV e a emissão de fluorescência têm um papel importante na sinalização intra-específica, influenciando no reconhecimento sexual e na escolha de parceiros (Pearn et al. 2001, 2003; Arnold et al. 2002; Mazel et al. 2004; Kemp 2006; Lim & Li 2006, 2007; Lim et al. 2007, 2008; Barreira et al. 2012). No presente estudo, os resultados mostraram o dimorfismo sexual na reflexão UV e na fluorescência na libélula M. pudica. Após examinar os efeitos da redução do UV nos comportamentos agressivos e de corte, os resultados sugerem que o UV pode efetivamente ter um papel na sinalização sexual em Odonata. Os resultados também mostram que a combinação do UV com a pigmentação dos machos é um pré-requisito para a corte e para as disputas territoriais, uma vez que as respostas intra-sexuais foram menos expressivas quando o pigmento refletia mas o UV foi reduzido. Adicionalmente, a simples adição de um pigmento a asas de fêmeas fizeram ambos machos e fêmeas confundi-las com machos. As evidências sugerem que o UV pode afetar a pigmentação, combinando com o pigmento para criar outros efeitos visuais (Fox 1976; Farrant 1997), ou para acentuar o sinal (Bridge & Eaton 2005, Mazel et al. 2004) – afetando a percepção do sinal por outros indivíduos (Mougeot et al. 2007). Estudos com outros invertebrados também mostraram que cores estruturais, iridescência e reflexão em UV podem ser sinais dependentes da condição fisiológica (e.g. status nutricional) direcionados a co-específicos (Kemp & Rutowski 2007; Lim & Li 2007). Estes sinais UV podem indicar a qualidade e o status reprodutivo do animal, influenciando na escolha das fêmeas (Kemp 2007), no reconhecimento sexual e etário (Lim & Li 2006, 2007). Em Odonata, as estruturas responsáveis pela reflexão UV são 103 Ferreira, R.G.N. Capítulo IV cristais e filamentos de cera que refletem a luz UV (e.g. Capítulo 1; Gorb 1999; Gorb et al. 2000) e resilina que, quando excitada no UV, emite fluorescência (Gorb 1999; Appel & Gorb 2011). Recentemente, Kuitunen e Gorb (2011) mostraram que as variações inter-machos podem ocorrer na cobertura de cera cutilar no corpo de Calopteryx splendens (Harris 1782) e C. virgo (Linnaeus 1758). Uma vez que a boa condição das estruturas das asas, como a cera, pode ser necessária para a impermeabilização das asas, propriedades mecânicas, voo, termorregulação e comunicação (Gorb et al. 2000; Gorb et al. 2009), os sinais UV podem também ser indicadores dependentes da qualidade do macho em Odonata, influenciando na longevidade, territorialidade e sucesso reprodutivo. Em termos do papel da pigmentação e do UV como sinais etários, machos e fêmeas juvenis apresentam uma pigmentação escura nas asas e reduzida reflexão UV. A maturação da coloração com a idade é comum em Odonata (e.g. Cordero 1987; Córdoba-Aguilar 1993). Nos machos, os resultados parecem indicar que o pigmento negro é um estado não desenvolvido do pigmento vermelho, que se desenvolve com o tempo. Contreras-Garduño et al. (2008) mostram que a pigmentação em outro calopterigídeo, Hetaerina americana, pode levar cerca de 20 dias para desenvolver completamente. O mesmo pode ocorrer com as fêmeas, que também possuem pigmentos nas asas. O experimento comportamental mostrou que esta diferença na coloração dos indivíduos juvenis pode ser um sinal para o reconhecimento etário, como observado em outros invertebrados (Lim & Li 2007; Kemp 2006). Deste modo, ambos pigmento e UV dos juvenis podem funcionar como um traço de isolamento. Por exemplo, a coloração das fêmeas pode servir como uma maneira de evitar p assédio dos 104 Ferreira, R.G.N. Capítulo IV machos e custos inerentes (Córdoba-Aguilar 2009). Para os machos, o desenvolvimento tardio da coloração pode ter a mesma função como em pássaros, considerado uma estratégia de mimetismo de fêmeas (Rohwer et al. 1980) ou um sinal de subordinação para evitar os custos envolvidos com as lutas durante a maturação sexual (Lyon & Montgomerie 1986). A coloração das asas, aliada à capacidade tricromática dos olhos compostos de odonatos (Bybee et al. 2012), transformaram as asas em instrumentos para a comunicação intra-específica, contendo informações interpretadas por indivíduos da mesma espécie, ou até hetero-específicos. Sinais coloridos são geralmente selecionados sexualmente, e há evidências de que a pigmentação nos machos de Calopterygidae é um ornamento dependente da condição do macho (Contreras-Garduño et al. 2008; CórdobaAguilar et al. 2003) que tem influência na preferência das fêmeas (Siva-Jothy 1999). Diferentes componentes da cor em libélulas podem ter sido selecionadas para aumentar a intensidade do sinal (Endler 1990), para conter diferentes informações (Grether et al. 2004) e/ou para servir em diferentes propósitos e ocasiões (Rutowski et al. 2010).Estudos futuros devem avaliar estes aspectos na sinalização UV em Odonata e outros invertebrados, uma vez que existem estudos recentes que sugerem o papel da coloração UV na comunicação intra-específica (Lim & Li 2007; Kemp & Rutowski 2007) e no sucesso reprodutivo (Kemp 2007; Detto and Backwell 2009). O presente estudo conclui que a pigmentação, a reflexão UV e a emissão de fluorescência em libélulas, podem agir juntas na comunicação destes animais, criando sinais visuais de reconhecimento sexual e etário, pré-requisitos para o comportamento reprodutivo e territorial. Assim como foi sugerido para borboletas e aranhas (Lim & Li 105 Ferreira, R.G.N. Capítulo IV 2007; Kemp & Rutowski 2007), odonatos podem também se tornar um modelo para o estudo do papel da reflexão UV e da fluorescência na comunicação de invertebrados. Referências Álvarez, H. A., Serrano‐Meneses, M. A., Reyes‐Márquez, I., Jiménez‐Cortés, J. G., & Córdoba‐Aguilar, A. (2013). Allometry of a sexual trait in relation to diet experience and alternative mating tactics in two rubyspot damselflies (Calopterygidae: Hetaerina). Biological Journal of the Linnean Society, 108(3): 521-533. Anderson, C. N., & Grether, G. F. (2010).Character displacement in the fighting colours of Hetaerina damselflies. Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences, 277(1700): 3669-3675. Anderson, C. N., & Grether, G. F. (2010).Interspecific aggression and character displacement of competitor recognition in Hetaerina damselflies.Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences, 277(1681): 549-555. Andersson, M. (1994) Sexual selection. 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Foram feitas medidas de espectrometria de reflectância e imagens de microscopia eletrônica de varredura, a fim de analisar a correlação entre variações morfológicas nas nanoestruturas de cera presentes nas asas dos machos e variações nas suas propriedades óticas, no intuito de identificar assimetrias entre os machos na coloração das asas. Também foi realizada uma manipulação experimental em que a cera foi parcialmente removida das asas para testar se a agressão dos machos é reduzida quando se deparam com indivíduos com menor quantidade de cera nas asas. Os resultados mostram que existe correlação entre a coloração e formato dos cristais de cera na epicutícula. Os resultados também mostram que esta variação morfológica pode influenciar no comportamento agressivo de machos rivais. Portanto, o presente estudo conclui que a pruinosidade em Z. lanei pode ser um caractere indicador da qualidade do macho e influenciar em disputas territoriais. Palavras-chave: morfologia funcional, territorialidade, ótica, competição. 116 Ferreira, R.G.N. Capítulo V Introdução A pruinosidade em Odonata é reconhecida com um tipo de coloração estrutural que reflete a luz ultravioleta (Hilton 1986), derivada de filamentos e cristais epicuticulares que cobrem o corpo de adultos (Gorb 1995, Gorb et al. 2000). Entretanto, os aspectos funcionais desta característica de odonatos ainda são pouco explorados e, não há evidência de sua influência no comportamento e sucesso reprodutivo dos animais. As libélulas do gênero Zenithoptera apresentam nas asas uma pruinosidade azul singular (e.g. Pujol-Luz 1993) que, auxiliado ao fato de pertencerem a um dos dois únicos gêneros de Anisoptera capazes do dobrar as asas (Ris 1910, Jurzitza 1982), as torna únicas. Pujol-Luz & Vieira (1998) sugeriram que os machos de Zenithoptera abrem as asas mostrando a pruinosidade dorsal em um display territorial contra machos intrusos, fechando as asas quando em repouso. Entretanto, estes autores apresentam apenas especulações e não realizaram nenhum experimento para testar esta hipótese. Portanto, o presente estudo teve como objetivo investigar os aspectos funcionais da pruinosidade na superfície dorsal das asas de machos de Zenithoptera lanei, avaliando o seu papel como um sinal utilizado durante disputas territoriais. No Capítulo 1, os resultados mostraram que a pruinosidade nesta espécie é derivada de uma estrutura única entre Odonata, composta por duas camadas de cera, uma filamentosa e uma em forma de folhas. Deste modo, este estudo procurou identificar variações individuais na cobertura de cera e na coloração, e também 117 Ferreira, R.G.N. Capítulo V manipulou a cera epicutilar dorsal para imitar esta variação e observar seu efeito no comportamento de machos rivais. Material e métodos Espécie de estudo. Machos de Z. lanei apresentam colorações distintas nas duas superficies das asas. A superfície dorsal é coberta pro uma pruinosidade azul (Fig. 29a) enquanto a superfície ventral é quase inteiramente negra como reflexões vermelhometálicas dependendo da incidência da luz (Fig 29b). Para responder se existe variação individual no formato da cera e na consequente coloração das asas, análises de espectrometria e de microscopia foram feitas nas asas de dez machos, procurando uma relação entre a variação individual na coloração e a morfologia dos cristais de cera epicuticulares. 118 Ferreira, R.G.N. Capítulo V Figura 29. Um macho de Zenithoptera lanei mostrando a superfície dorsal das asas com pruinosidade azul (a) e a superfície ventral com pigmentação negra (b). Medidas de reflectância. As propriedades óticas das asas de machos foram medidas em cinco pontos pré-estabelecidos com base nas nervuras (i.e. triângulo, prénodais, pós-nodais, oblíqua e pterostigma).Os espectros de reflectância foram medidos com uma fonte de luz alógena de Deutério Tungstênio (DH-2000-BAL, Ocean Optics Inc, Dunedin, Florida, EUA) direcionada para a amostra em uma inclinação de 90o. A fonte de luz produz luz do ultravioleta ao infravermelho (200 a 1100 nm) e foi guiada através de uma fibra-ótica de 200 µm posicionada a 2 mm da amostra. A luz refletida foi coletada pela mesma fibra-ótica e guiada a um espectrômetro (HR-4000, Ocean Optics), o qual transferiu os dados ao software Spectra Suite (Ocean Optics). 119 Ferreira, R.G.N. Capítulo V Microscopia eletrônica de varredura (MEV). As asas foram analisadas em vista dorsal, ventral e em seção longitudinal para a caracterização e medição dos cristais de cera presentes na superfície. Ouro-paládio foi pulverizado sobre as amostras (espessura de 10 nm), e examinadas em um MEV (Hitachi S-4800; Hitachi Ltd., Tóquio, Japão) a 3 kV. Cinco fotografias foram tiradas em cada uma das cinco posições pré-estabelecidas em magnitude de 300.000x e 10.000x. Os cristais de cera foram classificados de acordo com o formato: i) formato de filamento (Fig. 30a); ii) formato de folha (Fig. 30b); e de acordo com o dano: i) intacto (Fig. 30a,b); ii) dano severo ou colapso dos cristais (Fig. 30c); iii) arranhões ou pouco dano (Fig. 30d). As imagens foram feitas nas mesmas regiões das asas onde as os espectros foram feitos, e a correlação entre a coloração e o formato dos cristais ou o nível de dano foi analisada através de uma ANOVA fatorial no programa Statistica 10. Para estimar a cor, foram calculados os valores de brilho, tonalidade e croma (Endler 1990) de acordo com o padrão internacional CIELAB para medidas de coloração. A tonalidade foi medida como o ângulo de tom de acordo com a roda de cores; croma foi medida como a saturação da cor e brilho como a intensidade da luz refletida pela amostra. Estas variáveis foram calculadas da seguinte forma: ∫ Onde B1 é a reflectância total, Bx é a reflectância relativa em intervalos específicos de comprimento de onda (i.e. r = 600– 700, y = 500–600, g = 400–500, & b 120 Ferreira, R.G.N. Capítulo V = 300–400), R é a proporção de luz refletida no comprimento de onda (λ) i. Todas estas medidas foram feitas usando o software CLR v. 1.05 (Montgomerie 2008). Dos valores de saturação, foram extraídos os valores da saturação no ultravioleta (300-400nm) e no azul (400-450nm). Figura 30. Cristais de cera intactos com formato filamentoso (a) e com formato de folhas (b). A figura (c) mostra cristais com dano severo e a figura (d) mostra arranhões na cera. Barras representam 1µm em (a,b,c) e 50µm em (d). 121 Ferreira, R.G.N. Capítulo V Experimento comportamental. O experimento comportamental foi feito em uma lagoa em Assis, São Paulo, Brasil (22º38’S, 50º27’W; altitude 522 m) entre Outubro de 2011e Janeiro de 2012. Foram feitas observações comportamentais das 10:00 h (quando os machos estão ativos) às 15:00 h (quando a atividade territorial declina). Os machos foram marcados com tinta corretiva branca atóxica no tórax e abdômen. Os machos usados neste experimento (modelos) foram colados a uma linha com Duco cement e apresentados a machos territoriais (e.g. Schultz & Fincke 2009, Guillermo-Ferreira & Bispo 2012). Os modelos foram apresentados para machos territoriais pousados na lagoa, fazendo movimentos com o modelo imitando o seu comportamento de voo e permitindo-o pousar perto dos indivíduos testados. Foiapresentado um total de seis machos, três com a cera na superfície dorsal das asas removida com uma caneta marcadora preta (Faber Castell) na ponta da asa (região do pterostigma, <15%) e três com a cera removida até a base das asas (região do triângulo, >50%). Cada modelo foi apresentado para apenas cinco machos territoriais, e as respostas comportamentais destes machos foram observadas. Estas respostas foram classificadas como: (a) não territorial, quando o macho territorial apenas se aproximou do modelo, mas logo retornou ao seu território ou o macho territorial tentou assumir a posição de tandem com o modelo; (b) territorial, quando o macho pairou no ar exibindo as asas pro rival ou o atacou agarrando-o com as pernas e mordendo suas asas. As respostas comportamentais foram comparadas entre controles (com a cera removida apenas nas pontas das asas) e tratamentos (com a cera removida até a base das asas) através do teste do qui-quadrado no programa Statistica 10. 122 Ferreira, R.G.N. Capítulo V Resultados Os resultados mostram que existe relação entre a morfologia dos cristais de cera e o brilho e a saturação da cor, mostrando que existe variação na estrutura e na coloração das asas dos machos (Tabela 5). O brilho e a saturação da cor são maiores onde há maior quantidade de cristais de cera em forma de folha (Figura 31). Os resultados do experimento comportamental (Tabela 6) mostram que esta variação influencia no comportamento de resposta de machos rivais, uma vez que são mais agressivos com machos com maior quantidade de cera nas asas (Qui-quadrado, g.l.=1, p=0,02). Tabela 5. Resultados de ANOVA fatorial entre o formato e o dano dos cristais de cera nas asas de Zenithoptera lanei (Odonata: Libellulidae) e variáveis relacionadas com a coloração das asas (i.e. brilho, saturação, tonalidade, saturação UV e saturação Azul). Coloração Brilho Saturação Tonalidade Saturação UV Saturação Azul Fonte de coloração F p Formato 6,24 0,01 Dano 0,1 0,89 Formato 9,57 0,003 Dano 0,12 0,87 Formato 2,16 0,14 Dano 0,72 0,48 Formato 0,6 0,44 Dano 0,35 0,7 Formato 1,56 0,21 Dano 0,69 0,5 ANOVA fatorial, resultados significativos marcados em negrito. 123 Ferreira, R.G.N. Capítulo V Figura 31. Relação entre o formato da cera (filamento ou folha) e o brilho (a) e a saturação (b) da cor das asas de machos de Zenithoptera lanei (Odonata: Libellulidae) Tabela 6. Resultados do teste do qui-quadrado comparando a resposta comportamental de machos de Zenithoptera lanei (Odonata: Libellulidae) a machos com a cera epicuticular removida na ponta das asas (<15%) ou até a base das asas (>50%). Coloração Não territorial Territorial p Ponta da asa 3 12 0,02 Base da asa 9 6 124 Ferreira, R.G.N. Capítulo V Discussão Como Pujol-Luz & Vieira (1998) sugeriram, os resultados aqui apresentados mostram que a coloração azul das asas de Zenithoptera podem ser sinais de qualidade dos machos que os utilizam em disputas territoriais. Esta coloração é proveniente dos cristais de cera presentes na superfície dorsal das asas, cujo formato de folhas se assemelha a cristais que produzem o mesmo efeito no corpo de algumas libélulas, dispersando a luz em efeito Tyndall, produzindo a coloração azul (Parker 2000). Os resultados aqui apresentados também sugerem que existe variação entre machos na densidade relativa entre cristais filamentosos e cristais em forma de folha. Os resultados ainda sugerem que o formato de folha dos cristais é o que fornece brilho e saturação à cor, o que pode afetar o sinal visual na comunicação intra-específica. Considerando o pico de reflectância da pruinosidade em Z. lanei no ultravioleta (UV), o sinal UV nesta espécie pode se assemelhar com o sinal produzido por aranhas e borboletas, os quais são dependentes da condição fisiológica do macho e influenciam na seleção sexual e nas disputas territoriais (Lim & Li 2007; Kemp and Rutowski 2007). A espessa e complexa camada de cera em Z. laneipode significar um grande custo fisiológico pros machos, custos que nem todos conseguem pagar e cobrir a asa com estes cristais complexos. Portanto, o presente estudo conclui que há variação entre os machos na pruinosidade das asas, o que afeta as interações territoriais entre machos, e sugere que a cera em Z. lanei é um sinal dependente da condição dos machos, indicando sua qualidade para machos e fêmeas. 125 Ferreira, R.G.N. Capítulo V Referências Endler, J.A. (1990) On the measurement and classification of color in studies of animal color patterns. Biol. J. Linn. Soc. 41: 315-352. Gorb S.N., Kesel, A. & Berger, J. (2000) Microsculpture of the wing surface in Odonata: evidence for cuticular wax covering. Arthropod Structure and Development, 29:129–135. Gorb, S.N. (1995). Scanning electron microscopy of pruinosity in Odonata Odonatologica: 24, 225-228. Guillermo-Ferreira R, Bispo PC (2012) Male and female interactions during courtship of the Neotropical damselfly Mnesarete pudica (Odonata: Calopterygidae). Acta Etholgica, 15:173–178. Hilton DFJ (1986) A survey of some Odonata for ultraviolet patterns. Odonatologica 15:335–345 Jurzitza, G. (1982). Die Unterscheidung der Mannchen von Zenithoptera jasciata (Linnaeus, 1758), Z. viola Ris, 1910, und Z. lanei Santos, 1941 (Anisoptera: Libellulidae). Odonatologica, 11(4):331-338. Kemp, D.J. & Rutowski, R.L. 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Durantes estas lutas, espera-se que os machos avaliem características morfológicas ou fisiológicas, que ditam o resultado das disputas e indica o potencial de defesa de recurso dos machos. Em teoria, os machos adquirem informações dos rivais e decidem se lutam ou não para evitar gastos de energia desnecessários. Considerando os pigmentos e estruturas presentes nas asas de odonatos, o presente estudo investigou os aspectos funcionais da coloração das asas de machos de duas espécies de Zygoptera, testando se os machos avaliam estes caracteres durante as lutas. Os resultados sugerem que os machos podem avaliar a pigmentação dos oponentes na espécie Chalcopteryx scintillans e tomam decisões baseadas no potencial do rival, mas não no seu próprio potencial. Já em Mnesarete pudica, os machos lutam em avaliação mútua, avaliando também o próprio potencial de luta. Palavras-chave: territorialidade, teoria dos jogos, libélula, comportamento territorial, competição. 129 Introdução Lutas por recursos são eventos comuns entre machos de várias espécies de animais (Huntingford & Turner 1987). Uma vez que encontros agressivos são energeticamente caros (Marden & Waage 1990), algumas espécies apresentam comportamentos complexos de exibição durante as lutas e ornamentos morfológicos que sinalizam o seu potencial de defesa de recurso (PDR, Parker 1974). Teóricos predizem que os machos adquirem informações do rival através destes displays e ornamentos, decidindo se retirar da luta quando os custos de lutar são potencialmente altos (Enquist & Leimar 1983, Kemp & Alcock 2003, Keil & Watson 2010). Em Odonata, os machos geralmente se enfrentam em disputas aéreas sem contato físico, sendo que o resultado das lutas é frequentemente determinado pela pigmentação alar dos machos (Guillermo-Ferreira & Del-Claro 2011, Contreras-Garduño et al. 2008), um indicador de qualidade e PDR (Córdoba-Aguilar 2002, Contreras-Garduño et al 2006, Serrano-Meneses et al 2007). Disputas aéreas entre libélulas são atualmente consideradas ―energetic wars of attrition‖ ((E-WOA, Marden & Waage 1990), um modelo teórico que prediz que os machos avaliam apenas a si mesmos através de um limiar energético, ou seja, lutando até a fadiga (Elwood & Arnott 2012). Entretanto, considerando o grande número de espécies com asas coloridas, os diversos mecanismos de produção de cor em Odonata e a influência destes caracteres no resultado das lutas, é possível que os machos avaliem a coloração das asas durante as disputas. A avalição entre competidores geralmente é compreendida como um evento em que os machos comparam as suas habilidades, em um modelo teórico que prediz que o resultado da luta é decidido pela diferença no PDR dos machos rivais (Enquist & 130 Leimar 1983). Recentemente, Elwood & Arnott (2012) enumeraram cinco modelos básicos de avaliação durante as disputas e os classificaram de acordo com a relação entre o PDR dos rivais e a duração da disputa: (i) auto-avaliação pura (Arnott & Elwood 2009), quando o PDR do macho perdedor se correlaciona positivamente com a duração da disputa, enquanto o PDR do vencedor apresenta uma pequena correlçao positiva ou nenhuma correlação com a duração da luta; (ii) avaliação somente do oponente (Arnott & Elwood 2009), quando o PDR do perdedor não se relaciona com a duração, enquanto o PDR do vencedor se correlaciona negativamente com a duração da luta; e (iii) o modelo gavião/pombo (Maynard Smith & Price 1973), o modelo da avaliação cumulativa (Payner 1998) e o modelo de avaliação sequencial (Enquist & Leimar 1983), em que nestes três modelos existe correlação positiva entre a duração das lutas e o PDR do perdedor e negativa com o PDR do vencedor (Elwood & Arnott 2012). Portanto, baseando-se nas previsões de Elwood & Arnott (2012), o presente estudo teve como objetivo analisar a função da coloração das asas de Odonata nas disputas territoriais, investigando se os machos avaliam diferentes componentes da coloração durante as lutas. Material e métodos O estudo foi realizado com as espécies Chalcopteryx scintillansMcLachlan, 1870 (Zygoptera: Polythoridae), cujo habitat se encontra nos igarapés da Floresta Amazônica, e Mnesarete pudica Hagen in Selys (1853), cujo habitat se encontra em riachos do Cerrado. O estudo foi conduzido com C. scintillans em um igarapé na Reserva Florestal Adolpho Ducke, Manaus, Amazonas, Brasil (2º57'07.4"S/ 59º 57'27.6"W; altitude 75 m) 131 e com M. pudica em um riacho em Assis, São Paulo, Brasil (22º38’S, 50º27’W; altitude 522 m) entre Setembro e Dezembro de 2012. Foram feitas observações comportamentais das 10:00 h (quando os machos estão ativos) às 15:00 h (quando a atividade territorial declina). Os machos foram marcados com tinta corretiva branca atóxica no tórax e abdômen. Foram observadas 20 lutas de M. pudica e 17 de C. scintillans, onde foi observada a duração da disputa e a identidade de vencedores e perdedores. O vencedor foi considerado o macho que permaneceu no território após a luta, e o perdedor o macho que abandonou o local. Para determinar se a coloração das asas se correlaciona com o PDR dos machos, os machos foram coletados para avaliação da pigmentação alar, da coloração refletida e transmitida pela asa. A pigmentação alar foi medida utilizando fotografias das asas e analisadas no programa Adobe® Photoshop©. A pigmentação foi calculada pela relação área pigmentada/área total da asa. A coloração refletida e transmitida pelas asas foi medida através de espectrometria. Os espectros de reflectância foram medidos com uma fonte de luz alógena de Deutério Tungstênio (DH-2000-BAL, Ocean Optics Inc, Dunedin, Florida, EUA) direcionada para a amostra em uma inclinação de 90o, a qual foi posicionada em um suporte de veludo preto. A fonte de luz produz luz do ultravioleta ao infravermelho (200 a 1100 nm) e foi guiada através de uma fibra-ótica de 200 µm posicionada a 2 mm da amostra. A luz refletida foi coletada pela mesma fibra-ótica e guiada a um espectrômetro (HR-4000, Ocean Optics), o qual transferiu os dados ao software Spectra Suite (Ocean Optics). Os espectros de transmitância foram medidos através do mesmo equipamento, mas a luz foi coletada e guiada ao espectrômetro por uma fibra-ótica equipada com uma lente coletora posicionada sob a amostra. 132 Os espectros de reflectância foram plotados no software Origin 8 Pro, onde tiveram os valores do espectro do veludo negro extraídos (controle escuro), e depois divididos pelo espectro obtido de uma amostra padrão para referência (controle claro, Ocean Optics) . Portanto, os resultados apresentados são referentes à porcentagem de luz refletida referente à esta amostra padrão. Os espectros de transmissão passaram pelo mesmo processo, mas foram divididos pelo espectro total da luz emitida pela fonte de luz DH-2000-BAL. Para estimar a cor, foram calculados os valores de brilho, tonalidade e croma (Endler 1990) de acordo com o padrão internacional CIELAB para medidas de coloração. A tonalidade foi medida como o ângulo de tom de acordo com a roda de cores; croma foi medida como a saturação da cor e brilho como a intensidade da luz refletida pela amostra. Estas variáveis foram calculadas da seguinte forma: ∫ Onde B1 é a reflectância total, Bx é a reflectância relativa em intervalos específicos de comprimento de onda (i.e. r = 600– 700, y = 500–600, g = 400–500, & b = 300–400), R é a proporção de luz refletida no comprimento de onda (λ) i. Todas estas medidas foram feitas usando o software CLR v. 1.05 (Montgomerie 2008). Os valores de saturação no vermelho e saturação no ultravioleta também foram comparados entre os machos de M. pudica, uma vez que os espectros desta espécie possuem dois picos nestes comprimentos de onda. Os valores da pigmentação alar, da tonalidade, do croma 133 e do brilho foram comparados entre vencedores e perdedores utilizando o teste pareado de Wilcoxon. Para responder se os machos avaliam o próprio PDR e o de rivais, a relação entre a duração das disputas e o(s) indicador(es) do PDR (i.e. a pigmentação, a tonalidade, o croma e/ou o brilho) de perdedores e vencedores, assim como a assimetria entre o PDR dos oponentes, foi analisada utilizando o coeficiente de correlação de Spearman. Adicionalmente, foi feito um experimento comportamental que consistiu da apresentação de machos de M. pudica com pouca pigmentação alar (machos ―modelo‖ com pigmentação menor do que 90%) a dois tipos de machos territoriais: tipo I) machos com pigmentação alar maior do que 90% e, tipo II) machos com pigmentação alar menor do que 90%. Para isto, machos modelo (N=10)foram colados a uma linha com Duco cement, a qual foi colada em uma varinha. Estes machos tiveram as asas parcialmente pintadas de vermelho com um marcador (Faber Castell) e foram apresentados para machos tipo I (N=20) e tipo II (N=20) e suas respostas comportamentais foram anotadas. As respostas foram classificadas como: a) neutra, quando o macho muda de poleiro, ou se apenas se aproxima do macho modelo, mas recua imediatamente, ou abre as asas em sinal de repulsão; b) ameaça, quando o macho paira no ar e exibe displays de ameaça com as asas voltadas para o macho modelo; e c) ataque, quando o macho voa em direção ao modelo, agarra e morde suas asas. Logo após estes testes, os machos modelo tiveram as suas quatro asas completamente pintadas de vermelho com um marcador (Faber Castell) que possui uma coloração semelhante a das asas (Capítulo 4), e foram reapresentados para os mesmos machos, anotando suas respostas novamente. Cada modelofoi apresentado para apenas quatro machos territoriais, totalizando cinco machos modelo apresentados para cara tipo (I ou II). Todos os machos foram marcados 134 com líquido corretivo branco no tórax e abdômen. Se os machos avaliam o oponente, espera-se que os machos alterem as respostas comportamentais após a manipulação. Se os machos avaliam apenas a si mesmos, espera-se que não haja alteração nas respostas. As respostas dos machos foram comparadas com o teste do qui-quadrado com correção de Yates. Todos os testes estatísticos foram realizados no software Statistica 10©. 135 Resultados C. scintillans (N=17) Os vencedores apresentaram maior pigmentação alar quando comparados com os machos perdedores (Wilcoxon, t=24.0, p<0.05, Fig. 32). Figura 29. A diferença da pigmentação alar entre machos vencedores e perdedores de disputas territoriais de Chalcopteryx scintillans (Odonata: Polythoridae). Barras representam o desvio padrão. O (*) denota diferença estatística. Não houve diferença entre perdedores e vencedores quando comparados em relação ao brilho (Wilcoxon, t=67.0, p>0.05), saturação (Wilcoxon, t=56.2, p>0.05), mas sim com relação à tonalidade (Wilcoxon, t=33.5, p<0.05, Fig. 33) da superfície 136 dorsal. Não houve diferença entre perdedores e vencedores quando comparados em relação ao brilho (Wilcoxon, t=58.0, p>0.05), saturação (Wilcoxon, t=60.0, p>0.05) e tonalidade (Wilcoxon, t=59.0, p>0.05) da superfície ventral. Não houve diferença significativa nos espectros de transmissão entre perdedores e vencedores quando comparados em relação ao brilho (i.e. intensidade de luz transmitida) (Wilcoxon, t=42.0, p<0.05), saturação (Wilcoxon, t=47.0, p>0.05), e tonalidade (Wilcoxon, t=52.0, p<0.05). Figura 33. Espectros de reflectância da superfícia dorsal mostrando a diferença da coloração alar entre machos vencedores (azul) e perdedores (vermelho) de disputas territoriais de Chalcopteryx scintillans (Odonata: Polythoridae). Barras representam o desvio padrão. As linhas verticais em azul e vermelho representam a tonalidade das asas de vencedores e perdedores, respectivamente. O (*) denota diferença estatística com relação à tonalidade. 137 A pigmentação dos vencedores foi negativamente correlacionada com a duração das lutas (Spearman rs=-0,6429; p<0,01; Fig. 31), enquanto a pigmentação dos perdedores não teve nenhuma relação com a duração das disputas (Spearman rs=0,2985; p>0,05). Não houve correlação entre a duração das lutas e a tonalidade da asa de vencedores (Spearman rs=0.2074, p>0.05) e perdedores (Spearman rs=0,0592; p>0,05). Não houve correlação entre a diferença entre a tonalidade da asa de vencedores e perdedores e a duração das disputas (Spearman rs=-0,2238; p>0,05). Também não houve correlação entre a duração das lutas e a diferença entre a pigmentação dos machos rivais (Spearman rs=-0,1357; p>0,05). Figura 31. Correlação entre a pigmentação alar de machos vencedores e a duração das disputas em Chalcopteryx scintillans (Odonata: Polythoridae). (Spearman rs=-0.6429, p<0.01). 138 M. pudica (N=20) Os vencedores apresentaram maior pigmentação alar quando comparados com os machos perdedores (Wilcoxon, t=28,0; p<0,01; Fig. 32). Figura 32. A diferença da pigmentação alar entre machos vencedores e perdedores de disputas territoriais de Mnesarete pudica (Odonata: Calopterygidae). Barras representam o desvio padrão. O (*) denota diferença estatística. Não houve diferença entre perdedores e vencedores quando comparados em relação ao brilho (Wilcoxon, t=83,0; p>0,05), saturação no vermelho (Wilcoxon, t=83,0; p>0,05), saturação no ultravioleta (Wilcoxon, t=73,0; p>0,05), saturação (Wilcoxon, t=72,0; p>0,05), e tonalidade (Wilcoxon, t=95,0; p<0,05) dos espectros de reflectância. 139 Houve diferença significativa nos espectros de transmissão entre perdedores e vencedores quando comparados em relação ao brilho (i.e. intensidade de luz transmitida) (Wilcoxon, t=45,0; p<0,05, Fig. 33), mas não em relação à saturação no vermelho (Wilcoxon, t=95,0; p>0,05), saturação no ultravioleta (Wilcoxon, t=100,0; p>0,05), saturação (Wilcoxon, t=80,0; p>0,05), e tonalidade (Wilcoxon, t=82,0; p<0,05). Figura 33. Espectros de transmissão mostrando a diferença da coloração alar entre machos vencedores (azul) e perdedores (vermelho) de disputas territoriais de Mnesarete pudica (Odonata: Calopterygidae). Barras representam o desvio padrão. O (*) denota diferença estatística com relação à intensidade de luz transmitida. 140 A pigmentação dos perdedores foi positivamente correlacionada com a duração das lutas (Spearman rs=0,6832; p<0,001; Fig. 34), enquanto a pigmentação dos vencedores não teve nenhuma relação com a duração das disputas (Spearman rs=0,0617; p>0,05). Não houve correlação entre a duração das lutas e a intensidade da luz transmitida pelas asas de vencedores (Spearman rs=0,1159; p>0,05) e perdedores (Spearman rs=0,0940; p>0,05). Houve correlação negativa entre a diferença entre a pigmentação da asa de vencedores e perdedores e a duração das disputas (Spearman rs=-0,5349; p<0,05). Não houve correlação entre a duração das lutas e a diferença entre a intensidade da luz transmitida pela asa dos machos rivais (Spearman rs=-0,0263; p>0,05). Os resultados da manipulação experimental (Tabela 7) mostram que machos tipo I (pigmentação >90%) alteram seu comportamento quando o oponente tem sua pigmentação aumentada experimentalmente (Qui-quadrado x2 = 13,735; gl = 2; p<0,001), mas machos tipo II (pigmentação <90%) não alteraram seu comportamento (Qui-quadrado x2 = 0,63; gl = 2; p>0,05). 141 Tabela 7. Reposta comportamental dos machos territoriais de Mnesarete pudica a machos com a pigmentação experimentalmente manipulada. Machos territoriais: Tipo I (pigmentação >90%) e machos Tipo II (pigmentação <90%). Machos com pigmentação manipulada: A (pigmentação <90%) e B (pigmentação 100%). Neutra Ameaça Ataque Tipo I x A 13 2 5 Tipo I x B 4 15 1 Tipo II x A 14 6 0 Tipo II x B 12 6 2 Figura 34. Correlação entre a pigmentação alar de machos perdedores e a duração das disputas em Mnesarete pudica (Odonata: Calopterygidae). (Spearman rs=0.6832, p<0.001). 142 Discussão A coloração das asas em Odonata é proveniente de pigmentos e estruturas que criam efeitos visuais conspícuos. Embora alguns estudos tenham abordado a função da pigmentação das asas no comportamento territorial (Contreras-Garduño et al. 2008, Guillermo-Ferreira & Del-Claro 2011) e reprodutivo (Siva-Jothy 1999), não há evidência direta da função das cores estruturais além do reconhecimento específico (Schultz & Fincke 2009). No presente estudo, os resultados mostram que as cores estruturais de C. scintillans podem ser consideradas sinais para intra-específicos durante disputas territoriais. Estas cores são derivadas de camadas sobrepostas de diferentes índices de refração, que criam um efeito visual cobre-metálico dependente do ângulo de incidência da luz (Capítulo 1). A variação na espessura destas camadas (i.e. estrutura física da asa, o que pode influenciar no voo) e na concentração de pigmentos (um indicador de qualidade, necessário para o efeito visual) resulta em variações na coloração metálica, tornando esta cor um possível indicador da qualidade dos machos (e.g. Lim & Li 2013). Entretanto, o mesmo não pode ser dito para a reflexão UV proveniente da cera epicuticular em M. pudica, a qual não teve nenhuma influência sobre as disputas. Para machos de M. pudica, surpreendentemente a reflexão não parece ser importante na sinalização intra-específica, mas sim a transmissão. Neste contexto, a cera epicutilar pode ter um papel crucial, uma vez que pode reduzir a transmissão e aumentar a reflexão do sinal (Capítulo 1). Um estudo anterior avaliou o papel da reflexão como um sinal em outro calopterigídeo de asas translúcidas, Hetaerina americana (ContrerasGarduño et al. 2007), e também não encontrou relação entre a reflexão e os resultados de lutas territoriais. Portanto, a pigmentação alar em calopterigídeos podem apresentar 143 dois componentes: a área da asa pigmentada e a concentração do pigmento, determinada pela transmitância das asas. O fato de M. pudica depender da transmissão para a sinalização e C. scintillans depender da reflexão sugere que o ambiente pode ter exercido uma pressão seletiva para o surgimento de diferentes caracteres secundários (i.e cera e pigmento), uma vez que M. pudica habita locais abertos do Cerrado e C. scintillans florestas fechadas da Amazônia. A evolução pode ter ocorrido de maneira a selecionar uma cera e um pigmento em M. pudica que permite a transmissão da luz, enquanto em C. scintillans a cera e o pigmento impedem a transmissão da luz e aumentam a sua reflexão (Capítulo 1).A função de estruturas morfológicas que resultam em coloração estrutural foi observada em outros grupos, como aranhas da família Salticidae que utilizam cores estruturais como sinais intra-específicos de qualidade durante disputas territoriais (Lim & Li 2012). Embora inúmeras evidências sugiram que padrões de coloração influenciam nos resultados das lutas em insetos, tais estudos apenas focam nas assimetrias entre os machos rivais e não consideram se os indivíduos avaliam de fato a coloração durante as lutas. Portanto, o presente estudo investigou se a coloração das asas em Odonata é avaliada pelos machos rivais durante as lutas. O modelo mais aceito para o grupo é o EWOA que prediz que os rivais lutam até um deles atingir um limiar energético mínimo e desistir de lutar (Payne & Pagel 1996, 1997, Marden & Waage 1990). Entretanto, embora as reservas de gordura torácicas predigam o resultado das lutas em Odonata (Plaistow & Siva-Jothy 1996, Koskimaki et al. 2004, Contreras-Garduño et al. 2006, Serrano-Meneses et al. 2008), os machos não desistem da luta baseando-se em seu próprio status energético (Marden & Rollins 1994). Uma vez que estas reservas de gordura alimentam o voo, os machos podem ser capazes de avaliar o status energético do rival através do seu desempenho em voo (i.e. força muscular produzida) e decidir 144 abandonar a disputa baseando-se em assimetrias na taxa de degradação do desempenho de voo (Marden & Rollins 1994, Marden & Cobb 2004). Considerando que muitas espécies possuem asas coloridas, um ornamento que influencia nas lutas (Grether 1996, Siva-Jothy 1999, Córdoba-Aguilar & CorderoRivera 2005, Guillermo-Ferreira & Del-Claro 2011) e é um sinal conspícuo do PDR do macho, de sua reserva de gordura, imunidade (Rantala et al. 2000, Contreras-Garduño et al. 2006, 2007, Serrano-Meneses et al. 2008) e força muscular (Contreras-Garduño et al. 2008), o presente estudo testou a hipótese de que os machos deveriam avaliar a coloração das asas dos rivais para decidir lutar ou não. Os resultados aqui apresentados para C. scintillans corroboram esta hipótese. Uma vez que a duração das disputas se correlacionou negativamente com a pigmentação dos machos vencedores e não teve nenhuma relação com PDR dos perdedores, este estudo sugere que as lutas territoriais nesta espécie seguem o modelo de avaliação somente do oponente (―opponent-only assessment model‖, Arnott & Elwood 2009, Elwood & Arnott 2012). A ausência de correlação entre a duração das disputas e a diferença de PDR entre os oponentes sugere que os machos não seguem o modelo de avaliação mútua, corroborando o modelo de avaliação do oponente. Já os resultados obtidos para M. pudica sugerem que esta espécie segue o modelo de auto-avaliação pura (―pure self-assessment model‖, Arnott & Elwood 2009), em que os machos não adquirem nenhuma informação do oponente. A duração das disputas teve correlação positiva com o PDR dos perdedores, mas não teve correlação com o PDR dos vencedores. Entretanto, ao analisar a correlação entre a duração das lutas e a diferença de PDR entre os oponentes, os resultados sugerem uma avaliação mútua. A manipulação experimental mostra que os machos avaliam o oponente para decidir se lutam ou não. Aliado ao fato de haver agressão física entre oponentes de PDR 145 assimétricos, estes resultados sugerem que os machos avaliam a si mesmos e ao oponente durante as lutas. Em conclusão, o presente estudo sugere que diferentes espécies de Odonata,sob diferentes pressões seletivas, podem apresentar padrões de coloração pigmentares e estruturais únicos,os quais criam sinais específicos avaliados pelos machos durante disputas territoriais. Tanto em C. scintillans como em M. pudica, os machos aparentemente avaliam apenas a pigmentação, mas não a coloração em si. Entretanto, uma vez que o pigmento Uma vez que pigmentos em C. scintillans são difíceis de serem vistos em uma floresta fechada, cores metálicas e brilhantes podem ser uma adaptação para serem vistos em contraste com o ambiente escuro. Em M. pudica, os machos podem ter sido selecionados para aproveitar o ambiente com alta insolação e se destacar contra o céu azul. Em um ambiente ensolarado, uma asa altamente reflexiva poderia ofuscar o sinal intra-específico e chamar a atenção de predadores. Futuros estudos devem investigar a interação entre o ambiente e a coloração das asas sob uma perspectiva evolutiva e filogenética. Referências Arnott, G. & Elwood, R. W. 2009.Assessment of fighting ability in animal contests.Animal Behaviour, 77: 991-1004. Contreras-Garduno, J., Canales-Lazcano, J., &Córdoba-Aguilar, A. (2006). Wing pigmentation, immune ability, fat reserves and territorial status in males of the rubyspot damselfly, Hetaerina americana. Journal of Ethology, 24(2): 165-173. doi: DOI 10.1007/s10164-005-0177-z 146 Contreras-Garduno, J., Buzatto, B.A., Serrano-Meneses, M.A., Najero-Cordero, K., & Córdoba-Aguilar, A. (2008) The size of the red wing spot of the American rubyspot as a heightened condition-dependent ornament. Behavioral Ecology, 19: 724732. Córdoba-Aguilar, A., & Cordero Rivera, A. (2005) Evolution and ecology of Calopterygidae (Zygoptera: Odonata): status of knowledge and research perspectives. Neotropical Entomology, 34: 861-879. Elwood, R. W. & Arnott, G. 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Ao estudar os aspectos funcionais destes padrões de coloração, conclui-se que as diferentes estruturas combinadas com os pigmentos tem a função de sinalizar a qualidade dos machos em disputas territoriais e nas interações com as fêmeas. Futuros estudos devem aprofundar o conhecimento sobre a evolução destas estruturas e da coloração, investigando principalmente a correlação destas características com a fisiologia destes animais. Deste modo, estes estudos fornecerão dados que determinação se estas estruturas morfológicas nas asas são dependentes da condição dos machos, assim como é a pigmentação. 150 Author's personal copy J Insect Behav DOI 10.1007/s10905-013-9406-4 The Role of Wing Pigmentation, UV and Fluorescence as Signals in a Neotropical Damselfly Rhainer Guillermo-Ferreira & Eralci M. Therézio & Marcelo H. Gehlen & Pitágoras C. Bispo & Alexandre Marletta Revised: 20 July 2013 / Accepted: 24 July 2013 # Springer Science+Business Media New York 2013 Abstract Pigmentation patterns, ultraviolet reflection and fluorescent emission are often involved in mate recognition and mate quality functions in many animal taxa. We investigated the role of wing ultra-violet reflection, fluorescence emission, and pigmentation on age and sexual signals in the damselfly Mnesarete pudica. In this species, wings are sexually dimorphic in colour and exhibit age dependency: males and females show a smoky black colouration when young, turning red in mature males while it turns brown in females. First, we investigated wing UV patterns through reflectance and emission spectra. Second, behavioural experiments were undertaken to show male and female responses to manipulated wing pigmentation and experimentally reduced UV (UV-). Reflectance spectra of the wings of juvenile and mature males and females were used to show the differences between controls and individuals with manipulated colouration used in the behavioural experiment. UV-reduced, females with wings painted red, and control males and females were R. Guillermo-Ferreira Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, SP, Brazil E. M. Therézio : A. Marletta Instituto de Física, Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, MG, Brazil M. H. Gehlen Instituto de Química de São Carlos-Universidade de São Paulo, São Carlos, SP, Brazil R. Guillermo-Ferreira : P. C. Bispo Departamento de Ciências Biológicas, Faculdade de Ciências e Letras de Assis, Universidade Estadual Paulista, Assis, SP, Brazil R. Guillermo-Ferreira (*) Departamento de Ciências Biológicas, LABIA-Laboratório de Biologia Aquática, Faculdade de Ciências e Letras de Assis-UNESP, Av. Dom Antônio, 2100, 19.806-900 Assis, SP, Brazil e-mail: [email protected] E. M. Therézio Depto. de Matemática, Universidade Federal de Mato Grosso, Campus Rondonópolis, Rondonópolis, MT, Brazil Author's personal copy J Insect Behav tethered and presented to conspecific males and females, and their behavioral responses were recorded. The male red wing pigmentation and females with red wings elicited an aggressive response in territorial males and a sexual response in females. Both males and females showed neutral responses towards individuals with reduced UV. Wing signals of juvenile individuals also provoked neutral responses. These results suggest that UV, together with pigmentation, plays a role during mate recognition in males and females. Other than butterflies and spiders, it seems that fluorescence signals and UV reflectance can also be part of communication in odonates. Keywords Sexual selection . territoriality . Odonata . Calopterygidae . colouration . structural colour Introduction Since Darwin’s publication of sexual selection theory (1874), scientists have been interested in the functional aspects and in the evolution of colourful traits in animals. One hypothesis suggests that sexual selection may shape coloured ornaments via mate competition (carried out mainly by males), mate choice (carried out mainly by females) (Darwin 1874; Andersson 1994) or sexual conflict (Arnqvist and Rowe 2005), favouring males that pay the high costs involved in their production. Extensive research has been devoted to the identification of multiple colouration sources and their functional aspects in intra-specific communication. For instance, authors have found sexual and age specific iridescence (Lim and Li 2006; Rutowski and Rajyaguru 2013), ultraviolet reflection (Pearn et al. 2001, 2003; Kemp 2006; Lim and Li 2007; Lim et al. 2007, 2008), fluorescence emission (Arnold et al. 2002; Mazel et al. 2004; Lim et al. 2007; Barreira et al. 2012) and pigmentation (Anderson and Grether 2010a, b) that play a role in species recognition and mate choice. Furthermore, these colour-producing mechanisms can be combined to result in more complex visual effects e.g. metallic, iridescent or kaleidoscopic (Fox 1976; Farrant 1997; Doucet and Meadows 2009; Kemp et al. 2012), or increased output of the signal (Mazel et al. 2004; Bridge and Eaton 2005) that may have an influence in signalling. In recent times, the remarkable colours of Odonata wings have turned them into a key model for the study of the evolution of animal colour patterns (Córdoba-Aguilar 2008). In this group, the mechanisms of colour production range from structural colours (Vukusic et al. 2000, 2004; Vukusic 2006; Nixon et al. 2013), pigments (Chapman 1998; Hooper et al. 1999; Silsby 2001; Stavenga et al. 2012), ultraviolet (UV) reflection through broadband scattering by cuticular wax filaments (Hilton 1986; Gorb et al. 2000) to fluorescence emission by the excitation of resilin (Gorb 1999; Appel and Gorb 2011). Within the Odonata, no other group has received more attention in relation to colouration than the Calopterygidae (reviewed by Córdoba-Aguilar and CorderoRivera 2005). In these animals, several species exhibit species-specific pigmentation patterns on their wings (e.g. Silsby 2001) and iridescent structural colours (e.g. Vukusic et al. 2004). Wing pigmentation develops gradually during adult sexual maturation and is a condition dependent signal (Alvarez et al. 2013), that correlates with male immunocompetence, fat reserves and male reproductive success (CórdobaAguilar et al. 2003; Contreras-Garduño et al. 2008). Author's personal copy J Insect Behav Several pieces of evidence suggest that wing pigmentation is selected by favouring males in better condition during territorial contests and courtship displays, playing an important role in male-male competition (Contreras-Garduño et al. 2008; Koskimäki et al. 2004), female choice (Siva-Jothy 1999) and mate recognition (Svensson et al. 2007) by signalling individual quality. Furthermore, pigmentation patterns seem to be used along with behavioural displays for sexual discrimination and species identification (Waage 1975, 1979; Anderson and Grether 2010a, b). However, only one study has addressed the function of wing structural colouration as signals in inter and intra-sexual signalling in Odonata (Schultz and Fincke 2009). According to this study, UV iridescence and UV-reflecting wax filaments on the wings may serve as signals in mate recognition and may indicate male quality and territorial status. Thus, here we have extended the knowledge on the function of pigmentation and UV in intra-specific signaling. In particular, we have studied the Neotropical damselfly Mnesarete pudica Hagen in Selys (Zygoptera: Calopterygidae), testing the prediction that UV reflection, fluorescence emission and wing pigmentation would be used as signals of development status and sexual identity in this species. This study was carried out by recording the behavioral response of conspecific males and females to individuals of different sex and age according to the following considerations: 1) if UV and fluorescence are sexual signals, we expected to find sexual dimorphism in these traits and reduced reaction of conspecifics when the signal from these traits were experimentally reduced; 2) if male wing pigmentation is a signal of sexual identity, we expected that conspecifics would react to females with their wings painted red as if they were males; 3) if UVand wing pigmentation of juveniles is a signal of age, we expected to find differences in these traits between mature and juvenile individuals, as well as neutral responses from mature individuals towards juveniles. Materials and Methods Study Species M. pudica is a common South American calopterygid damselfly, in which males have the four wings covered by a red pigmentation and those of the females present a dull brown colouration (Costa 1986). The males defend stream patches, chasing and engaging in long contests with other males, during which the males make territorial displays showing their wings to each other. The males also show a complex courtship display, in which the male hovers around the female and perches near her to display his wings (Guillermo-Ferreira and Bispo 2012). Ethics Statement All necessary permits were obtained for the described field studies. Animal collection and manipulation in all field and laboratory experiments conform to Brazilian law under the permanent license numbered 11364–1 from IBAMA (Brazilian Institute of Environment and Renewable Natural Resources), the Brazilian regulatory body concerned with protection of wildlife. Field study was approved and consented to by the farmland owner. The study species is not endangered or under protection. Author's personal copy J Insect Behav Sexual and Age Differences The individuals in M. pudica (Fig. 1a) were classified according to age and sex. There is a highly contrasting sexual dimorphism in this species. The wings of sexually mature males are covered by a bright red pigment, while the wings of females present a dull brown colouration. Males with red wings were classified as “mature males” (Fig. 1b), and females with light brown wings were classified as “mature females” (Fig. 1c). The juvenile individuals of both sexes present shiny and flexible wings, with a smoky black pigmentation. Thus, males and females with these characteristics were classified as “juvenile males” (Fig. 1d) and “juvenile females” (Fig. 1e). Juveniles are rarely observed in territorial or sexual interactions. Mature individuals present a less shiny colouration and the wings are not as flexible as those of juveniles (see Raihani et al. 2008 for a similar method). Analysis of UV Reflection, Fluorescence Emission and Pigmentation Colours of the Wings of Males and Females All the following measurements were made to investigate sexual dimorphism and age dependency of UV and pigmentation. Measurements were made in the basal part of Fig. 1 Images of Mnesarete pudica: a a mature male in perched position, the white circle shows the region where the spectra were measured (b) right forewings of a mature male (c) of a mature female, d of a juvenile male, and (e) of a juvenile female Author's personal copy J Insect Behav the right forewing (Fig. 1a) of four individuals in each sex and age category. Animals for these analyses were collected in Assis – SP, Brazil by one of the authors (RGF) and are stored as voucher specimens in the collection of aquatic insects of the Laboratory of Aquatic Biology of the São Paulo State University in Assis – SP. Emission Spectra The emission spectra of the wings of mature males and females were measured using Confocal Fluorescence Microscopy. Fluorescence images were obtained using a plate-scanning confocal microscope setup. The instrument is based on an IX71 Olympus microscope with a digital piezoelectric controller and stage (PI models E-710.3CD and P-517.3CD) for nanometric sample scanning. The excitation light was provided by a Coherent Cube 405 nm CW diode operating at a low power of 10 mW. The excitation was converted into a circularly polarised laser beam using zero order quarter wave plates (Del Mar Photonics) and focussed over the sample with an Olympus objective UPLFLN 40X. The emission signal was separated from the laser excitation beam by using dichroic cube Chroma z405lp and Notch filter Semrock NF02405U-25. Emission spectra were obtained in a spectrometer Maya 2000 Pro-Ocean Optics fiber coupled to the binocular side port of the Olympus IX71 microscope. The damselfly wings were supported in a glass-bottom Petri dish (Ted Pella). Reflectance Spectra The reflectance spectra were obtained with a deuterium tungsten halogen light source (Ocean Optics) that illuminated the wings through a quartz optical fiber (Ocean Optics) orientated directly at the wings with an angle of 90°. A second quartz optical fiber (Ocean Optics) collected the reflected light and guided it to a 200–800 nm spectrophotometer (USB4000 – Ocean Optics). The analysed materials were the wings of the model individuals. Results are presented as mean (± SE) of four wings of each model. With these analyses, it was possible to characterise the age and sexual differences of wing colour patterns. We calculated the mean (± SE) UV hue (λmax, the highest percentage of reflectance from 300 nm to 400 nm) and brightness (the summed percentage of reflection amplitudes from 300 nm to 400 nm) of wings (e.g. Schultz and Fincke 2009), and differences between sexes and age classes were analysed using the Student’s t-test. Tests were made for all control and treatments described below (N=4 in each category). Behavioural Experiment Fieldwork was performed between November 2010 and January 2011 at a stream located in Assis, São Paulo State, Brazil (22º38′S, 50°27′W; altitude 522 m). The behavioural experiment was made by tethering the individuals (model individuals) to the tip of a line using Duco cement (e.g. Fincke 1994). The other tip of the line was tied to a wooden stick (e.g. Miller and Fincke 1999; Schultz and Fincke 2009). The individuals were then presented to males and females (tested individuals) perched at the stream, making “flying movements” with the model and allowing it to perch near the tested individuals. Model presentation did not exceed 10 min. We presented four individuals of each type of manipulation and controls. Each model individual was presented to only five unique tested individuals that were previously marked with white Author's personal copy J Insect Behav correction fluid on thorax and abdomen, to avoid repeated reactions of the same animal. This way, each tested individual was assessed only once. This experiment was made between 10:00 and 15:00, which is the daily period of sexual activity. The models were collected with an insect net immediately before each experiment session took place. These individuals were active on the site and, after capturing, were immediately used in the experiment and stored in a plastic vial right after it (a process that took no more than 10 min). All mature males used in this experiment (tested and model individuals) were identified as territorial males, by observing their behaviour of territory defence. All mature females were perched on the vegetation around the stream, inside the territories of males, and have shown signs of receptivity to male courtship. The male reaction was categorised as: sexual (male made a courtship display, grabbed, and sometimes tried to assume tandem); aggressive (male made a threat display); neutral (male made the wingspread display, ignored or approached the model and retreated). The female reaction was categorised as: sexual (the female made the wing-flipping display); aggressive (the female grabbed the model); neutral (the female made the wingspread display, ignored the model, or changed perch). The wing-flipping is an active display of receptivity by females (Waage 1984; Guillermo-Ferreira and Bispo 2012). The threat display is a territorial signal made by males during contests (Pajunen 1966). The wingspread display is a warding-off signal, also used when other insects approach (Corbet 1999). To gather evidence of male and female responses to male wing pigmentation, we manipulated female wings using a red marker (Faber Castell®). The red marker was used to simulate the male red pigment by painting the four wings entirely. To investigate the effect of UV, we experimentally reduced fluorescence and UV reflection of males and females by applying a solution of two common ingredients of sunscreens that absorb UV light. These components were 2-ethylhexyl-p-methoxycinnamate (Parsol®) MCX), a UVB light absorber, and 4-tert-butyl-4- methoxydibenzoylmethane (Parsol® 1789), a UV-A light absorber. This method is known to reduce UV reflection and fluorescence emission (Arnold et al. 2002; Heiling et al. 2005). The solution was evenly spread on the four wings, with the help of a cotton swab and care was taken to leave a thin coat of the blocker in each treatment. To provide evidence of the role of UV and pigmentation as age signals, we used juvenile and mature individuals to compare the behavioural responses. Mature non-manipulated males and females were used as controls. Summarizing, the presented models were (N=4 models and N=20 tested individuals in each control and treatment): (a) Mature male; (b) Mature female; (1) Mature female with the wings painted red (Red female); (2) Juvenile male; (3) Mature male with UV absorbing solution (UV- male); (4) Juvenile female; (5) Mature female with UV absorbing solution (UV- female). Each treatment was compared to its respective control with the Chi-square test with Yates’ correction, as follows: 1 vs. a; 2 vs. a; 3 vs. a; 4 vs. b; 5 vs. b. Results Analysis of UV Reflection, Fluorescence Emission and Pigmentation Colours of the Wings of Males and Females When the wings of males were imaged in the scanning confocal microscope with UV excitation at 405 nm, the emission patterns obtained show clearly that auto-fluorescence Author's personal copy J Insect Behav occurs. The emission spectra of the wings with excitation in the near UV at 405 nm are illustrated in Fig. 2. In the case of female wings, the emission spectrum has only moderate intensity with a maximum centered near 520 nm. On the other hand, the male red wing gives a strong emission shifted by more than 250 nm with a maximum in 650 nm. This means that some of the intrinsic fluorophores absorbing at 405 nm can sensitise the red pigment of the male wing, producing its emission at a longer wavelength. This spectral behavior points to the role of the red pigment in mate recognition by primary colour and secondary emission patterns. The results show that the reflectance spectrum of the female with red painted wings (Red Female) resembles the male reflectance spectrum (Fig. 3a). The reflectance spectrum of juvenile males is different from the mature male spectrum (Fig. 3b). The results also show that the UV-absorbing Parsol® applied to male (Fig. 3c) and female wings (Fig. 4a) reduce the UV reflectance. By comparing juvenile and mature female spectra we notice that wing reflection decreases with ageing (Fig. 4b). There was no difference between male and female UV brightness (t = −0.3, p>0.05), but males presented lower values of UV λmax (t = 3.47, p = 0.013). There was no difference between the red painted wings of females and mature males wings UV λmax (t = −0.2857, p>0.05) and UV brightness (t = 0.6889, p>0.05). Mature males had higher UV λmax than juveniles (t = 8.52, p = 0.001) and UV- males (t = −11.62, p = 0.0003). Mature males also presented higher UV brightness when compared to juveniles (t = 2.92, p = 0.02) and UV- males (t = 3.91, p = 0.03). Mature females presented higher UV λmax than juveniles (t = 3.4641, p = 0.02) and UV- females (t = 5.63, p = 0.03). Mature females had higher UV brightness when compared to juveniles (t = 4.374, p = 0.005) and UV- females (t = 7.0936, p = 0.0004). The red-orange peak in the juvenile male spectrum may derive from developing red pigmentation in these individuals. Behavioural Experiment The males responded sexually to the control females and aggressively to the control males (Table 1). The females responded sexually to the control males and mostly neutrally to the Fig. 2 Emission spectra of male and female wings with excitation at 405 nm Author's personal copy J Insect Behav Fig. 3 The reflectance spectra of the wings of mature male (solid line) and (a) red female, (b) juvenile male and (c) UV- male (all represented by dashed lines). UV (300–400 nm). Bars represent standard error control females. This implies that tethering the individuals did not affect the behavioural responses. Author's personal copy J Insect Behav Fig. 4 The reflectance spectra of the wings of mature female (solid line) and (a) juvenile female and (b) UV- female (both represented by dashed lines). UV (300–400 nm). Bars represent standard error As predicted, the territorial males reacted with aggressive displays and the females responded sexually to females with the wings painted red (Table 1). By applying the UVabsorbing Parsol® (UV- individuals) to the wings of males and females, both territorial males and females responded mostly with neutral behaviors. The male responses to UVtreatments were significantly different from the responses to control individuals. However, UV- treatment did not affect female response towards other females, but decreased female reaction to mature males (Table 1). Territorial male response to juvenile males and females was significantly different from the response to male and female controls. The female response to juvenile males and females is significantly different from the response to mature individuals (Table 1). Discussion As predicted, our results show the sexual dimorphism in UV reflection and fluorescence in the damselfly M. pudica. After examining the effect of the UV reduction Author's personal copy J Insect Behav Table 1 Reponses by males and females of Mnesarete pudica to males and females with different natural and manipulated color patterns. P values are given for Chi-square tests with Yates’ correction, used to compare the results of each treatment with its relative control (1 vs a; 2 vs a; 3 vs a; 4 vs b; 5 vs b) Male response Sexual Aggressive Neutral P a) Mature male 0 15 5 b) Mature female 16 0 4 1) Red female 2 15 3 0.71 2) Juvenile male 1 0 19 0.00004 3) UV- male 0 4 16 0.006 4) Juvenile female 5 0 15 0.001 5) UV- female 5 0 15 0.001 Female response Sexual Aggressive Neutral P a) Mature male 16 0 4 b) Mature female 3 6 11 1) Red female 12 0 8 0.3 2) Juvenile male 5 0 15 0.001 3) UV- male 8 0 12 0.023 4) Juvenile female 1 0 19 0.048 5) UV- female 2 0 18 0.06 treatment on courtship and aggressive behavior consistency, the results suggest that UV may play a role in sexual signalling in this damselfly. In many animal taxa, UV reflection and fluorescent emission play an important role in intraspecific signalling, influencing in sexual recognition and mate choice (Pearn et al. 2001, 2003; Arnold et al. 2002; Mazel et al. 2004; Kemp 2006; Lim and Li 2006, 2007; Lim et al. 2007, 2008; Barreira et al. 2012). The results also corroborate our second prediction, since the simple addition of a red pigment to female wings made both males and females take the female models (red females, with red pigment and UV) as males. Additionally, the results also show that the combination of UV and male pigmentation is a prerequisite for courtship and territorial behaviours, since inter and intra-sexual response was lower when the red pigment was reflecting but UV was decreased (UV- males). Since Odonata is known to have visual receptors for red light in the region of 600–650 nm matching the emission spectrum of the male red pigment (see Briscoe and Chittka 2001), red emission in UV may combine to the pigment reflection to create the visual signal (e.g. Mazel et al. 2004). These results corroborate our initial predictions that male red pigmentation, along with UV and fluorescence emission, may function as signals during territorial fights and courtship displays. Indeed, evidence suggests that UV may affect the visual signal by combining with the pigmentation to create other visual effects (Fox 1976; Farrant 1997), or to accentuate the signal (Bridge and Eaton 2005; Mazel et al. 2004), also affecting the signal perception by others (Mougeot et al. 2007). Author's personal copy J Insect Behav In terms of the role of pigmentation and UV in age signalling, both juvenile males and females of M. pudica present a smoky brown/black pigmentation on wings and reduced UV reflection. The results presented here confirm our initial predictions, suggesting that juvenile wing pigmentation and UV may function as signals of development status. The maturation of colouration with age is common in odonates (e.g. Cordero 1987; Córdoba-Aguilar 1993). In males, the results from the reflectance spectra seem to indicate that the pigment may be present in the wings of juvenile males but in a much lower concentration or in an undeveloped stage, that do not allow a clear definition of the wing colour as occurs in the mature males, resembling the wing colouration of females (e.g. Calopteryx japonica, Stavenga et al. 2012). Contreras-Garduño et al. (2008) mentioned that the pigmentation of Hetaerina americana can take up to 20 days to develop completely. The same may occur in females that also have pigmented wings. The behavioural experiment results show that these colouration differences have an influence on age recognition, as observed in other invertebrates (Lim and Li 2007; Kemp 2006). Hence, both pigment and UV wing colouration of juveniles may function as an isolation trait. For instance, the colouration of females may serve to avoid male harassment and inherent costs (Córdoba-Aguilar 2009). For males, the delayed development of colouration may have the same function as in birds, which has been considered a female mimicry strategy (Rohwer et al. 1980) and a subordination signal to avoid fights (Lyon and Montgomerie 1986). In M. pudica, observations suggest that males may try to mate with juvenile males, which never engaged in a fight (RGF pers. observations). In conclusion, our study suggests that wing pigmentation, UV reflection and fluorescent emission in this calopterygid damselfly, may act together in intraspecific communication by creating visual signals of sex and age, potential prerequisites for mate recognition, courtship behavior and territoriality. Since colourful signals are usually sexually selected, and there are evidences that male wing pigmentation is a condition-dependent ornament (Contreras-Garduño et al. 2008; CórdobaAguilar et al. 2003) that has an influence on mate preference in calopterygid damselflies (Siva-Jothy 1999), UV reflection and fluorescent emission may also have a role in quality signaling (e.g. Schultz and Fincke 2009). Wing colouration, along with the trichromatic capability of odonate compound eyes (Bybee et al. 2012), has transformed wings into visual communication signals, which carry information for conspecifics that are able to interpret them. Studies in other invertebrates have shown that structural colour patterns, iridescence and UV reflection can be condition-dependent (i.e. nutritional status) signals directed to cospecifics (Kemp and Rutowski 2007; Lim and Li 2007). These UV signals may then indicate individual quality and reproductive status, influencing female mate choice (Kemp 2007), and mate and age recognition (Lim and Li 2006, 2007). In Odonata, the structures responsible for UV are probably wax crystals and filaments that may reflect UV light (e.g. Gorb 1999; Gorb et al. 2000) and resilin that is excited under UV and emits fluorescence (Gorb 1999; Appel and Gorb 2011). Recently, Kuitunen and Gorb (2011) found that inter-male variations may occur in cuticular wax coverage in Calopteryx splendens (Harris 1782) and C. virgo (Linnaeus 1758). Considering that wing structures, such as wax coverage (lipids) and resilin (protein), may imply physiological costs to the organism and that their good condition may be necessary for wing waterproofing and mechanical properties, flight, Author's personal copy J Insect Behav thermoregulation and communication (Gorb et al. 2000, 2009), UV reflection and fluorescence can also be a condition-dependent signals in odonates, with possible influence on male longevity, territorial status and mating success. As it has been shown for butterflies and spiders (Lim and Li 2007; Kemp and Rutowski 2007), odonates may also be a model for the study of the role of UV reflectance and fluorescence in invertebrate communication. Different components in colour patterns of these damselflies may have been selected to enhance signal output (Endler 1990), to contain different kinds of information (Grether et al. 2004) and exhibit different functions (Rutowski et al. 2010). Thus, future studies should address these aspects of UV signals in Odonata and other invertebrate groups, since there is recent evidence of the condition dependence of UV colouration (Lim and Li 2007; Kemp and Rutowski 2007) and its role in mate choice (Kemp 2007; Detto and Backwell 2009). Acknowledgments We acknowledge Ana Carolina Vilarinho for field assistance. We thank Gregory Grether for valuable comments on the manuscript. RGF thanks CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de nível Superior) for financial support. MHG thanks FAPESP (São Paulo Research Foundation) for financial support (projects 4617–6 and 8399–9) that allowed buildup of the fluorescence confocal microscope, and Professors Dr Johan Hofkens and Dr Kris P. F. Janssen for the use of the SIS software from MDS Laboratory of Department of Chemistry of Katholieke Universiteit Leuven. EMT and AM thanks to FAPEMIG (Minas Gerais Research Foundation), CAPES, CNPq (National Counsel of Technological and Scientific Development) and nanobio/INCT (National Institute of Science and Technology). PCB thanks to FAPESP (04/09711-8; 09/ 53233-7; 12/21196-8) and to CNPq (477349/2007-2; 301652/2008-2; 30757712011–2) for continuous support. References Álvarez HA, Serrano–Meneses MA, Reyes–Márquez I, Jiménez–Cortés JG, Córdoba–Aguilar A (2013) Allometry of a sexual trait in relation to diet experience and alternative mating tactics in two rubyspot damselflies (Calopterygidae: Hetaerina). Biol J Linn Soc 108:521–533 Anderson M (1994) Sexual selection. Princeton University Press, Princeton Anderson CN, Grether GF (2010a) Character displacement in the fighting colours of Hetaerina damselflies. Proc R Soc B 277:3669–3675 Anderson CN, Grether GF (2010b) Interspecific aggression and character displacement of competitor recognition in Hetaerina damselflies. 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The male–female interactions were composed of courtship displays, mounting, and chasing. The courtship behavior lasted 5.23±1.65 s and is very different from other calopterygids, consisting of hovering flights and the cross display made in front of females rather than on the oviposition site. The arrival and presence of females on a male territory are not sufficient to initiate sexual interactions; the male usually interacts with the female only after a patrolling flight. The females may present three distinct behaviors in response to Electronic supplementary material The online version of this article (doi:10.1007/s10211-012-0122-4) contains supplementary material, which is available to authorized users. R. Guillermo-Ferreira Departamento de Biologia, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, São Paulo, Brazil R. Guillermo-Ferreira : P. C. Bispo Departamento de Ciências Biológicas, Faculdade de Ciências e Letras de Assis, LABIA–Laboratório de Biologia Aquática, Universidade Estadual Paulista, Assis, São Paulo, Brazil e-mail: [email protected] R. Guillermo-Ferreira (*) Departamento de Ciências Biológicas, Faculdade de Ciências e Letras de Assis–UNESP, LABIA–Laboratório de Biologia Aquática, Av. Dom Antônio, 2100, 19.806-900 Assis, SP, Brazil e-mail: [email protected] male approach: (a) warding off signal (31.53%), (b) escape (28.83%), (c) and wing flipping (39.64%), which seems to stimulate male courtship. Females also may sit still, which induces males to react as if females were signaling they are willing to mate. In this paper, we also suggest that male courtship behavior is mediated by female signals. Keywords Reproductive behavior . Mnesarete . Calopterygidae . Odonata . Mate choice Introduction Courtship behavior is an important trait for reproductive success in many animal taxa (Andersson 1994). Sexual selection theory considers that male and female perspectives in sexual interactions may differ (Thornhill and Alcock 1983). These interactions often involve intersexual signals, which regulate the investment of males and females. Males, for example, have to perceive female receptivity to concentrate efforts in potentially successful interactions (Bonduriansky 2001; King et al. 2005) since courting a nonreceptive female would imply a waste of time and energy (Hoefler 2008). Females usually signal their receptivity by several ways, among which we may cite acoustic signals (e.g., Wirmer et al. 2010), pheromones (e.g., Maxwell et al. 2010), and mechanical signals (e.g., Waage 1984). In species with elaborate courtship behavior, females often exhibit unique signals to stimulate courtship (e.g., displays by female collared lizards, Baird 2004), demonstrate receptivity to mounting (e.g., Calopteryx damselflies, Waage 1984), or even to show non-receptivity (female whitespotted sawyer, Hughes and Hughes 1985). Furthermore, males modulate courtship behavior according to these female signals (e.g., Waage 1984; Patricelli et al. 2002). For example, male satin bowerbirds acta ethol (Ptilonorhynchus violaceus) increase display intensity according to female crouching intensity (Patricelli et al. 2002). In Odonata, male courtship behavior is well studied (Corbet 1999). The calopterygid damselflies are an intriguing group due to their complex behavioral displays and mating strategies (reviewed by Cordoba-Aguilar and Cordero 2005). The courtship behavior varies greatly among the species, going from simple hovering flights in Phaon to elaborated courtship displays in Calopteryx, Vestalis, and Mnais (reviewed by Cordoba-Aguilar and Cordero 2005) and Neurobasis (Kumar and Prasad 1977; Günther 2006). In calopterygids, males are usually territorial, defending oviposition sites and engaging in aerial contests for territories (Waage 1988; Córdoba-Aguilar 2000; Guillermo-Ferreira and Del-Claro 2011). This group also presents a remarkable wing pigmentation, which plays an important role in the complex behavioral displays exhibited during male courtship and territorial contests (Cordoba-Aguilar and Cordero 2005). This wing pigmentation is a condition-dependent ornament that correlates with male fat reserves and immunocompetence (Koskimaki et al. 2004; Contreras-Garduño et al. 2006) and also influences on male–male competition (Grether 1996) and female mate choice (Siva-Jothy 1999). Although the behavior of Nearctical and Palearctical species is well documented, the behavior of large tropical groups like Mnesarete, Sapho, and Umma is still unknown. Such behavioral studies may provide valuable information about the evolution and ecology of this group, as well as useful data for the distinction of taxonomic groups. For example, since there are insufficient morphological characters that separate the genus Mnesarete from Hetaerina (Garrison 2006), which presents no courtship behavior (Guillermo-Ferreira and Del-Claro 2011; Cordoba-Aguilar and Cordero-Rivera 2005), behavioral studies of other Mnesarete species may present a possible trait that can separate both genera. Indeed, Garrison (2006) predicted that differences in courtship patterns would eventually be found to exist between Hetaerina and Mnesarete. Therefore, the objective of this study was to make the first description of male–female interactions in a Mnesarete species. We then present the case of Mnesarete pudica, describing male–female interactions, with special attention to the role of female signals on the stimulation and discouragement of male courtship and mounting behaviors. The behavior of M. pudica is also compared with the current data for other calopterygids and pertinent issues are discussed. Materials and methods M. pudica is a common damselfly in southeastern Brazil (Costa 1986), and the males of this species are easily recognized by the bright red wing pigmentation (Costa 1986; Garrison 2006). All Mnesarete species are confined to South America (Garrison 2006). We conducted our study of M. pudica in one stream at the Ecological Reserve of the “Clube de Caça e Pesca Itororó de Uberlândia”, Uberlândia, State of Minas Gerais, Brazil (15°57′S, 48°12′ W; altitude 863 m; 640 ha) in March and July 2010, and in another stream in a farm located in Assis, State of São Paulo, Brazil (22°38′S, 50°27′W; altitude 522 m) in July 2010. We made 30 h of behavioral observations from 1000 (when males begin to fight and court females) to 1500 hours (when sexual and fighting activity declines). After this time of the day, the damselflies tend to remain immobile (Costa 1986). To describe courtship behavior, we used the sequence sampling method (Altmann 1974), which consists of behavioral observations focused on the description of behavioral sequences. When a male–female interaction began, we noted the sequence of behaviors exhibited by both males and females until the end of the interaction. The classification of the courtship behavior (N0111 male–female interactions) was made according to the following categories: (1) courtship flight (Heymer 1973), when the male hovers in arc in front of the female; (2) cross display (Waage 1973), the male perches and spreads his wings forming an “X”; and (3) float display (Gibbons and Pain 1992), when the male falls to the water and floats with the current. Following Waage (1973) and Robertson (1982), we elaborated flow charts to describe male–female interactions based on 111 behavioral sequences observed using the sequence sampling method. Video recordings (Sony handycam) were used to record male courtship for the description of male and female wing movements. Data for male and female behavioral sequences come from direct observation. A hand chronometer was used to measure the duration of 52 courtship displays. To study the intersexual signals during male–female interactions, we tethered live females to a line using Duco cement (e.g., Fincke 1994). The line was then glued to a 20cm wood stick (e.g., Miller and Fincke 1999), and finally, the females were presented to males at the stream by holding and gently waving the stick in front of them. The line was around 2 cm long so that females could move freely but could not fly. The stick was held by one of the observers, who kept the stick around 5 cm away from the male. This method is widely used in Odonata behavioral studies, and it is established as a non-interfering technique to assess female normal behavior. The males approached the tethered female, and both the female behavior and the corresponding male behavioral response were recorded. Following Waage (1984), we identified three different female signals: (a) wing spread, when the female spreads the four wings, raises the abdomen, and keeps this position until the male retreats, which is a rejection signal, (b) wing flipping, when the female flaps her wings acta ethol several times in rapid succession, which is a receptivity signal, and (c) sit still, which is a neutral signal. Males usually react to female sitting still as if they were inviting copulation (e.g., Calopteryx maculata, Waage 1984). To simulate female signals, we made a series of manipulations. To simulate a female sitting still, we presented three females with their wings glued to avoid them to spread or flip the wings. We also presented six other females with their wings free, which could display both wing spread and wing flipping. Each of the females was presented to only three different males. After the experiment, we had a final number of 11 male responses to females sitting still (9 manipulated and 2 natural events), 5 male responses to females that presented the wing flipping display, and 11 male responses to female wing spread display. Male behavior was classified as: (a) stop, when the male approached or even grabbed the female but then retreated, (b) courtship, when the male courted the female, and (c) tandem, the male assumed the tandem with the female. The difference between male responses to female signals was compared using the G test in the software Statistica 9.0. Results Male courtship behavior and female response to male courtship The males and females are usually found at the water, but some individuals were found fighting and courting up to 5 m away from the stream margins. When a female approaches a territory, the male usually does not respond until patrolling the territory, when the male finally flies towards the female and approaches her. With a male approach, the female may immediately present three distinct behaviors: (a) the females spreads her wings in a refusal display (35/111, 31.53%), which makes the male retreat; (b) the female leaves her perch and escapes from the male (32/111, 28.83%), or (c) the female starts to flap her wings rapidly (44/111, 39.64%), which leads the male to give his full courtship display as shown in the video (Electronic supplementary material 1). The courtship display starts with the (1) courtship flight; however, the male does not hover in arc in front of the female (like other calopterygids do), but flies rapidly in circles around the female (Fig. 1). After the courtship flight, the male perches near the female and spreads his wings (Fig. 2a), swinging the body alternatively to the right and to the left (Fig. 2b) and occasionally spinning around the perch while holding it (N05). This behavior may be considered the (2) cross display in this species. The male usually repeats this sequence of courtship flight and cross display for up to five consecutive and uninterrupted times to the same female. At no time did we observe a (3) float display. After the courtship display, if the female sits still, Fig. 1 A male M. pudica hovering around a female and showing his wings. The male is represented by the dark winged damselfly and the female by the clear winged damselfly. The arrows indicate the male movements and the line the female perch. The wing positions during the flight were determined by analyzing video footage the male grabs the female wings and clasps her prothorax with his abdominal appendages to form the wheel position. This display lasts 5.23±1.65 s (N052; range, 1–9 s), and the male usually stops courting the female and stays immobile on the same perch occupied by the female. The male may also try to mount and chase the female without any courtship. The male–female encounters (Fig. 3) may be divided into: (a) type I, when the encounter initiates with the male finding a female after patrolling the site; (b) type II, when a male tries to mate with a female during a territorial contest; (c) type III, when the female lands and the male approaches. Of the 111 courtship events observed, 93 were classified as type I, 12 as type II, and 6 as type III. Interestingly Fig. 2 The male M. pudica perches near the female and spreads his wings (a), swinging from the middle of the perch to the left and to the right, while the female flaps her wings (b). The male is represented by the dark winged damselfly and the female by the clear winged damselfly. The line represents the perch acta ethol Fig. 3 Flow chart for male–female encounters in M. pudica: type I, male patrols and finds the female; type II, during a male–male contest, the male interacts with the female; type III, the female lands on the territory and the male approaches. Squares indicate male actions and circles, female actions. The flow is from left to right, and the numbers in the lines and the relative thickness of the lines indicate the number and percentage of encounters following a particular pathway. Numbers within the symbols indicate the number of times that the event occurred. CHS Chase female, COP copulation, CRT courtship, FGT male–male fighting, FLP female wing-flipping display, LND female lands on the territory, LVE female leaves the territory, MNT the male tries to mount the female, PTR patrol the territory, STP the male stops courting the female, and X the female spreads her wings in a refusal display though, in such a vast number of courtships only two copulations could be observed, and these females did not oviposit inside the territory, being released by the male right after copulation. As for the males, they returned to their territory, fighting rival males and courting females. One male was observed to court the female he had just mated five consecutive times. We found no ovipositing female, and seven males defended areas with no apparent oviposition resource. Other two males defended a site 5 m away from water, and they were still visited by females. Discussion Male response to female signals Male responses differed according to female signals (G test, df04, p<0.0001). Six males grabbed those females whose wings were immobilized without any courtship attempt and assumed the tandem, while the other three males retreated (Table 1). Five females with free wings made the wingflipping display and were courted by males. None of the courtships proceeded to tandem. Eleven females made the wing-spread display, leading ten males to retreat and one to assume the tandem. Two females with free wings sat still, leading males to assume the tandem. The courtship behavior in M. pudica can be considered as complex as the behavior of related species such as C. maculata (Johnson 1962; Waage 1973), Calopteryx aequabilis (Waage 1973), Calopteryx virgo (Pajunen 1966), Calopteryx haemorrhoidalis (Cordoba-Aguilar 2000), Calopteryx dimidiata (Waage 1988), and Calopteryx amata (Meek and Herman 1990). In these species, the males also show the wings to females during courtship. However, M. pudica males present certain differences that must be considered: (1) Calopteryx males fly in arc in front of the females, while M. pudica fly in circles around the female; (2) Calopteryx males make the cross display perching or hovering over the oviposition site, while M. pudica makes it perched near the female, Table 1 Male responses (stop, tandem, and courtship) to female signals (wing flipping, wing spread, and sitting still) in M. pudica Wing flipping Wing spread Sit still Stop Tandem Courtship 0 10 3 0 1 8 5 0 0 acta ethol spreading his wings in front of her; (3) in Calopteryx, there is the float display, that we did not observe in M. pudica; (4) in C. maculata (Waage 1973) and Platycypha caligata (Robertson 1982), the courtship initiates mainly when the male intercepts the female, while in M. pudica the courtship initiates when the male patrols the territory and finds a female perched inside it. Interestingly, the males court the female after patrolling or fighting. The females may spend hours perched near a male, and he does not court them until he flies in a patrol or engages in a fight. This suggests that males only court females when they fly in search for them. After courtship, the male just stops courting the female with no apparent reason in most cases, and does not proceed to copulation, which is also different from other species with high mating rates (e.g., Waage 1973, Cordoba-Aguilar 2000). We also observed males courting the same female several times during the day. Some studies suggest that in species where male courtship has multiple traits, females require repeated displays to assess male quality (Borgia 1995; Sullivan 1994; Patricelli et al. 2002). Thus, repeated courtship in M. pudica may occur because females need cumulative input signals from males to exert mate choice. During the cross display, M. pudica males swing to the right and to the left, a behavior that has never been observed in Odonata. Because the wing color reflection may vary with angle of view (Schultz and Fincke 2009), we suggest that this behavior could be interpreted as an adaptation to enhance the output of the color signal according to the female angle of view and sunlight direction, similar to the adaptation that occurs in peacocks (Dakin and Montgomerie 2009). Sexual selection may favor the ability to adjust courtship effectively in response to female behaviors (Patricelli et al. 2006). In this scenario, females provide information for males about their willingness to mate and male courtship effectiveness, and males use this information to enhance their reproductive success (West and King 1988; Patricelli et al. 2002, 2006). Male courtship behavior in M. pudica seems to be dependent on female signals. The results showed that females flip their wings to stimulate male courtship. Without the wing-flipping display, the males tend to grab the females without previous courtship and assume the tandem, similar to what occurs in C. maculata (Waage 1984). The males also avoided interactions when the females made the wingspread display, just like in Calopteryx (Waage 1984). These results corroborate Waage (1984) and show how male and female behavior may have co-evolved to create mutual signals of attraction and repulse. Since females suffer from male harassment and forced copulations, which decrease female longevity (CordobaAguilar 2009) and prevent females from assessing mates, selection should favor females that exhibit behaviors that regulate male courtship and mounting attempts. Thus, we suggest that in M. pudica selection may have favored a display that signals female receptivity to courtship but not to copulation, which avoids forced copulations but does not repulse potential mates (e.g., Patricelli et al. 2004). Through this signal, females have the opportunity to assess male quality and exert mate choice. Male courtship would then evolve in response to this female signal in a way they could show their quality to females. The fact that M. pudica has a complex courtship behavior is surprising since the close related genus Hetaerina (Garrison 2006) presents no courtship behavior (Guillermo-Ferreira and Del-Claro 2011; Cordoba-Aguilar and Cordero-Rivera 2005). Therefore, as Garrison (2006) predicted, behavioral studies of other Mnesarete species may present a possible trait that can separate both genera, if they also present such complex behaviors like M. pudica. The study of other Neotropical Mnesarete and Hetaerina species may also provide important data on the evolution of courtship behavior and male–female signals in Calopterygidae. Acknowledgments We acknowledge Ana Carolina Vilarinho for field assistance. RGF thanks CAPES for the financial support. PCB thanks FAPESP (04/09711-8; 09/53233-7) and CNPq (477349/2007-2; 301652/2008-2) for the constant support. We thank Ricardo Cardoso Leite, Aurélio Fajar Tonetto and Sérgio H. R. Batista for valuable comments on the manuscript. References Altmann J (1974) Observational study of behaviour: sampling methods. Behaviour 49:227–267 Andersson M (1994) Sexual selection. Princeton University Press, Princeton Baird TA (2004) Reproductive coloration in female collared lizards, Crotophytus collaris, stimulates courtship by males. Herpetologica 60:337–348 Bonduriansky R (2001) The evolution of male mate choice in insects: a synthesis of ideas and evidence. Biol Rev 76:305–339 Borgia G (1995) Why do bowerbirds build bowers? Am Sci 83:542– 548 Contreras-Garduño J, Canales-Lazcano J, Córdoba-Aguilar A (2006) Wing pigmentation, immune ability and fat reserves in males of the rubyspot damselfly Hetaerina americana. J Ethol 24:165–173 Corbet PS (1999) Dragonflies: behavior and ecology of Odonata. 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This species can be distinguished from others by presenting: a) five palpal and three premental setae; b) no posterodorsal hooks on abdominal segments; c) lateral spines only in S9-10. M. pudica is compared to other South American calopterygids and biological notes are presented. Key words: dragonfly, damselfly, nymph, naiad, taxonomy, Brazil, neotropical Introduction Damselflies of the family Calopterygidae present a wide distribution and are commonly associated with running waters. Adults are known by their colorful wings and complex sexual and territorial behaviors (Cordoba-Aguilar & Cordero-Rivera 2005). The family is represented by approximately 18 genera, of which five occur in South America. The two larger genera of Calopterygidae from South America are the New World genus Hetaerina Hagen in Selys and the exclusively South American genus Mnesarete Cowley (Garrison, 1990; 2006). The morphological discrimination between these two genera has been difficult, causing taxonomic confusion (Garrison 1990, 2006). In a recent revision of South American Calopterygidae, Garrison (2006) solved many taxonomic issues of Mnesarete taxonomy and described two new genera: Ormenophlebia and Bryoplathanon. However, although larvae of several Hetaerina have been studied (Geijskes 1943; Santos 1970ab, 1972; De Marmels 1985; 2007; Pessaq and Muzón 2004), the final instar larva of only one Mnesarete, M. grisea (Ris), has been described (Garrison 2006). As Mnesarete comprises 27 species, many of which are known from Brazil and may be sympatric with the other calopterygid genera (Garrison 2006), difficulties may arise in correctly applying names to larvae in taxonomic and ecological studies. Garrison (2006) was unable to reliably define generic traits to larvae assigned to three genera: Hetaerina, Mnesarete, and Ormenophlebia. Thus, descriptions of larvae of Mnesarete, Ormenophlebia, and Bryoplathanon are needed to better understand their taxonomy and to fashion a key for South American Calopterygidae larvae. Hence, in this paper, we describe the final instar larva of M. pudica (Hagen in Selys), a common damselfly from southern Brazil, and present biological and taxonomical notes. Methodology Last-instar larvae were collected at a first-order stream in Assis, São Paulo, Brazil (22º38’S, 50º27’W; altitude 522 m) by RGF and are deposited in the Aquatic Insects Collection of the Aquatic Biology Laboratory (FCLA, State Accepted by D. Paulson: 18 May 2012; published: 13 Sept. 2012 77 University of São Paulo). Relationship between adult and larvae was ascertained by rearing last instar larvae in the laboratory. Exuviae were preserved in 80% alcohol, and molted adults were placed in plastic containers allowing hardening of the exoskeleton. Mandibular formulae follow Watson (1956). Abdominal segments are given as S1–10; all measurements are in mm. Results and discussion Mnesarete pudica (Hagen in Selys, 1853) (Fig. 1) Material examined. Assis, São Paulo, Brazil (22º38’S, 50º27’W; altitude 522 m); 1♂ and 4♀ (reared), 13/III/ 2011; 2♂ and 1♀ exuviae. Measurements (mm, N=5). Total length (without caudal lamella; measurements taken dorsally): 14.02±1.1. Head: head length: 2.17±0.2 from labrum to occiput, head width: 3.2±0.11; prementum length: 3.19±0.25 along midline, prementum maximum width: 2.07±0.012, outer premental seta: 0.2. Thorax and legs: inner wing pads length: 4.16±0.13, outer wing pads length: 3.67±0.48; femur I1: 2.76±0.21; femur II2: 3.29±0.26; femur III3: 4.01±0.36; tibia 1: 3.01±0.19; tibia 2: 3.6±0.19; tibia 3: 4.08±0.26. Abdomen: total length: 8.24±1.29; S9 length: 0.65±0.08; S10 length: 0.66±0.09; cerci length: 0.24; female gonapophyses length: 1.05±0.13; lateral caudal lamella length: 6.23±0.5, width: 1.33±0.07. Description of final instar larva. Head: with rounded posterolateral margin and postocular tubercle; occiput concave (Fig. 1a), 2.25 times wide as long at its widest point; antenna seven segmented (Fig. 1b), first the longest, 1.83 longer than head; relative size of antennomeres: 1, 0.3, 0.2, 0.1, 0.06, 0.06, 0.06; labium with three premental setae on each side of cleft (Fig. 1c), one longer than the other two; exterior margin of ligula serrated; anterior margin of labial palp with three well developed and strongly incurved hooks (Fig. 1d), the inner one smallest; movable hook as long as external margin of palp; two large and three minute palpal setae; prementum when appressed extending to middle of second thoracic segment between mesothoracic coxae. Laccinia with six teeth (Fig. 1e). Mandibular formula: L 12345 x a(m1234)b/R 12345 y ab (Fig. 1f,g). Thorax: pronotum with one prominent midlateral projection on each side (Fig. 1h); wing pads extending to middle of S4 (Fig. 1i). Legs: with two dark bands on femur and tibia; no setae on femur, two mid-dorsal spines and several small setae on posterior edge of tibia (Fig. 1j). Abdomen: tan with posterior transversal darker stripes; no posterodorsal hooks on abdominal segments (Fig. 1i), a middorsal spined projection on S10 forming a ridge (Fig. 2a,b), lateral spines on S9-10 (Fig. 2c); female gonapophyses not reaching distal margin of S10 (Fig. 2b); male cercus cultriform and slightly curved downward (Fig. 1i, 2a); female cercus conical and not curved (Fig. 2b); lateral lamella lanceolate, triquetral, with spines along margins (Fig. 2d); central lamella foliaceous with rounded apex, not triquetral, with setae-like spines along margins (Fig. 2e). Biological notes. Larvae were collected in rapid flow streams, clinging to submerged grassy vegetation. Adults were also found at the stream. Both males and females aggregated on surrounding vegetation. Although adults can be found throughout the year, greater numbers of adults and last-instar larvae were found in March and April, possibly indicating a reproductive season immediately following the rainy season. Males of this species present broad wings covered by a red pigment, used in a remarkable courtship display when males show their colorful wings to females (Guillermo-Ferreira & Bispo 2012). Taxonomic notes. Mnesarete pudica larva differs from other South American calopterygids (with the exception of Hetaerina cruentata) in lacking lateral spines on S8. The combination of five palpal and three premental setae serves to differentiate this species from other calopterygids. Heckman (2008) diagnosed larvae of the genus Mnesarete by the presence of lateral spines on S8-10, which do not occur in M. pudica and thus cannot be used as a generic trait. We suggest that this genus may be diagnosed by the combination of the following characters: first segment of antenna not armed with setae and shorter than head and prothorax combined; and no posterodorsal hooks on S4–9. Since there are no remarkable characters that separate South American calopterygid genera, we present some comments that may help on the identification of the most common species. Comments on final instar larvae of South American Calopterygidae genera. Morphological data for this note were extracted from the following descriptions: Hetaerina (H. caja, Geijskes 1943; H. medinai, De Marmels 78 · Zootaxa 3482 © 2012 Magnolia Press GUILLERMO-FERREIRA & BISPO 2007; H. rosea, Pessaq & Muzón 2004); Iridictyon (I. trebbaui, De Marmels 1992); Ormenophlebia (O. imperatrix, Garrison 2006); Mnesarete (M. grisea, Garrison 2006; M. pudica, this paper). When comparing the larvae of M. pudica and M. grisea with Hetaerina larvae, we notice that these genera can be distinguished by the presence of setae on the first segment of the antenna in Hetaerina. FIGURE 1. Mnesarete pudica, final instar larva. (A) head, dorsal view; (B) antenna; (C) labium, dorsal view; (D) labial palp; (E) laccinia, ventral and lateral views; (F) left mandible, inner view; (G) right mandible, inner view; (H) pronotum, dorsal view; (I) lateral view of abdominal segments 4–10; (J) tibia. MNESARETE PUDICA LARVA Zootaxa 3482 © 2012 Magnolia Press · 79 FIGURE 2. Mnesarete pudica, final instar larva. (A) caudal view of male S10 showing spines and cerci; (B) lateral view of S8–10 showing female gonapophyses and cercus; (C) ventrolateral view of lateral carinae of S7–10 and male gonapophyses; (D) lateral lamella, with detail of part of border; (E) central lamella, with detail of part of border. Iridictyon larvae present the following characters that are not present in Mnesarete: meso- and metathoracic legs extending beyond apex of abdomen (CAUTION: check to see that abdominal segments are not collapsed or telescoped into each preceding segment); first antennal segment approximately as long as head and prothorax. Ormenophlebia imperatrix larva presents posterodorsal hooks on S4-S9, which cannot be found on Mnesarete larvae. These notes may be useful to identify the most common species in South America until a revision and a definitive key can be provided with sufficient data. Acknowledgements We thank Dr. Rosser W. Garrison, Dr. Natalia von Ellenrieder, Dr. Dennis Paulson and an anonymous referee for valuable comments. RGF thanks CAPES for financial support. PCB thanks FAPESP (04/09711-8; 09/53233-7) and CNPq (477349/2007-2; 301652/2008-2) for constant support. 80 · Zootaxa 3482 © 2012 Magnolia Press GUILLERMO-FERREIRA & BISPO References Córdoba-Aguilar, A. & Cordero Rivera, A. (2005). Evolution and ecology of Calopterygidae (Zygoptera: Odonata): Status of knowledge and research perspectives. Neotropical Entomology, 34, 861–879. De Marmels, J. (1985) On the true Hetaerina capitalis Selys, 1873 and its sibling species Hetaerina smaragdalis spec. nov. (Zygoptera: Calopterygidae). Odonatologica,14, 177–190. De Marmels, J. (1992) Odonata del cerro Guaiquinima (Edo. Bolivar) y zonas aledañas. Boletin de Entomología Venezolana, 7, 37–47. De Marmels, J. (2007) Thirteen new zygoptera larvae from Venezuela (Calopterygidae, Polythoridae, Pseudostigmatidae, Platystictidae, Protoneuridae, Coenagrionidae). Odonatologica, 36, 27–51. Garrison, R. W. 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