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Um estudo sobre memória, identidade e midiatização: O Acre não existe
A study about memory, identity and mediatization: “Acre doesn't exist”
1
Giselle Xavier Lucena
Resumo: Este trabalho trata da midiatização da memória de um lugar, tendo como
foco uma representação que circula nas redes sociais na internet sobre o Acre,
estado brasileiro localizado na região amazônica. Tal representação defende
categoricamente que “o Acre não existe”, e assim, atualiza um processo de
negação histórica vivida pelo estado desde sua origem. Além de ter sido o último
estado a ser anexado ao Brasil, enfrentou, durante sua constituição e ocupação
territorial, vários momentos de negação, recusa e descaso político por parte do
governo brasileiro. O estudo foi realizado por meio de pesquisa bibliográfica e
documental sobre a história do Acre, relacionando-a com os conceitos de
midiatização, interações midiatizadas, memória e identidade.
Palavra chave: Memória. Identidade. Midiatização. Acre.
Abstract: This work deals with the mediatization of the memory of a place,
focusing on a representation that circulates in the social networks on the internet
about the Acre, a Brazilian state located in the Amazon region. This representation
supports categorically that "Acre doesn't exist", and so, update a historical denial
process experienced by the state since it was origin. Besides being the last state to
be attached to Brazil, faced, during the constitution and territorial occupation,
many moments of denial, refusal and political neglect by the Brazilian government.
The study was conducted through bibliographical and documentary research on
the history of Acre, relating it to the concepts of media coverage, mediatized
interactions, memory and identity.
Keywords: Memory. Identity. Mediatization. Acre.
1. A começar pela memória e identidade
A memória pode ser considerada como um diálogo entre o passado e o presente. A
memória é uma condução criativa e imaginária que nos leva a encontrar o passado de forma
mediada pelo presente, em processos de negação ou afirmação; intercambiando lugares, sujeitos e
objetos. “Lembrar não é reviver, mas refazer. É reflexão, compreensão do agora a partir do outrora;
é sentimento, reaparição do feito e do ido, não sua mera repetição” (BOSI, 2004, p. 20).
A memória também é configurada como um valor disputado e vulnerável ao chamado
trabalho de enquadramento da memória, exercido por historiadores e por ações políticas de um
lugar, além do trabalho da própria memória em si, onde se aponta que “cada vez que uma memória
está relativamente constituída, ela efetua um trabalho de manutenção, de coerência, de unidade, de
continuidade, da organização” (POLLAK, 1992, p. 206) e passar a trabalhar por si só. Além disso,
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as memórias - coletivas e individuais - se constituem por acontecimentos vividos pessoalmente de
forma direta ou indireta; por pessoas e personagens, sejam realmente encontradas ou encontradas
pelo Outro; e, também, pelos lugares de memória, sejam simbólicos ou topográficos. Ou seja, a
memória é tanto fundada em fatos reais e concretos, como também na projeção deles, por isso, “a
memória é, em parte, herdada, não se refere apenas à vida física da pessoa. A memória também
sofre flutuações que são funções do momento em que ela é articulada, em que ela está sendo
expressa” (POLLAK, 1992, p. 204).
A memória está imersa em subjetividades, pois é composta pela seleção consciente ou
inconsciente, pela interpretação e subjetivação, cujos princípios variam de grupo para outro. Ela é
carregada pelo indivíduo que está sempre compartilhando interações com a sociedade
(HALBWACHS apud KESSEL, 2011). A presença do Outro na produção da memória “garante o
sentimento de identidade do indivíduo calcado numa memória compartilhada não só no campo
histórico, do real, mas sobretudo no campo simbólico” (KESSEL, 2011, p. 03).
Neste aspecto, é possível compreender que memória e identidade caminham juntas.
Historicamente, a definição dos campos identitários foi assunto de Estado na construção do
nacionalismo, com o intuito de se legitimar e produzir a unidade necessária para a constituição da
nação. Na identidade nacional, as histórias e seus símbolos conectam presente e passado. Assim, o
Estado busca homogeneizar a população e seus costumes e dialetos, impondo línguas oficiais e a
unificação de sistemas, criando uma delimitação espacial e uma unidade na definição de etnicidade
e na construção de uma memória. É isso o que nos permite classificarmo-nos como brasileiro,
alemão, italiano etc.
A narrativa da nação, tal como é contada e recontada nas histórias e nas literaturas
nacionais, na mídia e na cultura popular. Essas fornecem uma série de estórias,
imagens, panoramas, cenários, eventos históricos, símbolos e rituais nacionais que
simbolizam ou representam as experiências partilhadas, as perdas, os triunfos e os
desastres que dão sentido à nação. (...) ela dá significado e importância à nossa
monótona existência, conectando nossas vidas cotidianas com um destino nacional
que preexiste a nós e continua existindo após nossa morte. (HALL, 2006, p. 52).
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Assim, a memória aparece como um dos elementos a partir dos quais podemos nos
identificar e nos constituir como uma comunidade unificada. A memória nacional se faz através de
práticas oficiais como a comemoração de datas específicas e feriados, reconhecimento de hinos,
bandeiras, personagens e heróis da pátria que, juntos, compõem a formação do sentimento de
pertencimento ao oferecer códigos de referência para a identificação de indivíduos, grupos e povos.
Consideramos, portanto, a memória como um fenômeno construído social e
individualmente, em diálogo ao sentimento de identidade que, por sua vez, é caracterizado como a
imagem de si que construímos para nós mesmos, e para apresentar aos outros também, pois “as
identidades são para usar e exibir, não para armazenar e manter” (BAUMAN, 2005, p. 96).
Assim como a memória, as identidades são valores negociados e disputados, construídas
em confrontos individuais, coletivos e intergrupais (POLLAK, 1992). E, se a memória serve de
ancoragem e é resultado da identidade; é preciso - mesmo que a identidade se construa em
sentimentos de oposição e contraste - que as imagens e os discursos sobre o passado sejam
organizados com credibilidade e coerência, e sejam continuamente ajustados. “Manter a coesão
interna e defender as fronteiras daquilo que um grupo tem em comum, em que se inclui o território
(no caso de Estados), eis as duas funções essenciais da memória comum” (POLLAK, 1989, p. 09).
É importante considerar, ainda, que a identidade é continuamente reformulada no conjunto
de representações que nos rodeiam. Em diferentes momentos, assumimos diferentes identidades,
“identidades que não são unificadas ao redor de um ‘eu’ coerente. Dentro de nós há identidades
contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações estão
sendo continuamente deslocadas” (HALL, 2006, p. 13). São narrativas do eu continuamente sendo
reescritas e reinterpretadas, por isso, “em vez de falar da identidade como uma coisa acabada,
deveríamos falar de identificação, e vê-la como um processo em andamento” (HALL, 2006, p. 39).
Com a multiplicação dos sistemas de significação e representação cultural, somos levados a
uma situação de confronto “por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades
possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar - ao menos temporariamente”
(HALL, 2006, p. 13). O cenário de superabundância de imagens e significados de mundo, coloca
em dúvida os pontos referenciais até então coerentes, pois desloca as estruturas e processos centrais
da sociedade e abalam os quadros de referência que, antes, nos ofereciam estabilidade da coerência
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e da unidade - assegurada pela memória e que nos ajudavam na configuração identitária. O que não
é a internet, senão um catálogo desnorteante que coloca à nossa disposição - em certo grau de
controle - diversas representações como possibilidades para formação de opinião, contato com o
mundo, imenso e ao mesmo tempo que fugidio?
Neste aspecto, Bonin (2006) fala em múltiplos palimpsestos midiatizados de memória e
observa que, ao se referirem ao passado, as mídias, muitas vezes, o descontextualiza e o reduz a
uma citação. Assim como a identidade, passado (a história) se fragmenta, e o mesmo também
acontece com a memória.
O passado deixa, então, de ser parte da memória e se converte em ingrediente de
pastiche – operação que permite mesclar fatos, sensibilidades, estilos e textos de
qualquer época, sem articulação com os contextos e movimentos de fundo de uma
época. Deste modo, o passado não pode iluminar o presente nem relativizá-lo, já que
não permite tomar distância do que se está vivendo. (BONIN, 2006, p. 139-140).
As mídias também podem ser reconhecidas como lugares de memória, ou lugares de
fabricação do presente, mas que contribuem para “debilitar o passado, a consciência histórica. A
aceleração tecnocultural estaria levando à perda da noção do tempo e à instalação num presente
contínuo” (BONIN, 2006, p. 139). Por outro lado, é possível apontar uma febre de memória que
expressa a:
(...) necessidade de ancoragem temporal que sentem as sociedades (e os grupos) cuja
temporalidade é sacudida pela revolução tecnológica informacional, que dissolve as
coordenadas espaço-temporais do mundo da vida, dimensões que também ancoram a
memória (BONIN, 2006, p. 140).
Reconhecemos a internet, portanto, como lugar de interações que, ao configurar
subjetividades e identidades, configura também a memória. Além disso, embora o contexto da
midiatização seja do tempo fugidio e da memória descontrolada, a internet oferece a possibilidade
da permanente disponibilidade dos conteúdos, a memória sem limites. A questão do tempo fugidio
na internet também traz ao debate os agenciamentos de arquivamento e disponibilidade de
conteúdos na rede. O próprio Orkut não seria como um museu na rede?
Os dispositivos midiáticos formam hoje lugar privilegiado para os agenciamentos
envolvendo a memória coletiva e, sobretudo, o enquadramento da memória.
Constituindo-se em pólos de convergência das dinâmicas sociais, as mídias
(sobretudo as de caráter jornalístico) armazenam informações que se convertem em
fontes para historiografia, como também recuperam acontecimentos pregressos
podendo imprimir a eles novos enquadramentos (HENN, 2006, p. 179).
Notamos, portanto, o paradoxo de se viver cada vez mais o embate entre pluralização dos
sentidos, fruto das interações mais intensas e abertas no espaço midiatizado, e a busca de sentidos
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mais estáveis, de lugares de memória que ancorem a possibilidade de reconhecimento e identidade.
Recursos e estratégias - sejam individuais ou coletivas, criadas de forma espontânea ou impostas
pelo Estado e pelo mercado -, fazem com que a sociedade se aproprie, se identifique e se sinta
protegida e representada, ao mesmo tempo em que viva a experiência da diluição de fronteiras
simbólicas e identitárias. Deparamo-nos com a incerteza e com o desconhecido, que geram medo e
trazem a sensação de ameaça para este sentimento de pertencimento.
2. A rede no cenário da midiatização
A presença predominante da mídia sobre uma série de fenômenos e instituições sociais,
bem como a importância cultural e social exercida pelos meios de comunicação nas mediações e
interações da sociedade, é o que chamamos, conforme Hjarvard (2012), de midiatização. Ela
possibilita a produção e distribuição de produtos simbólicos, e insere outros fluxos de
comunicação. É importante considerar que “os meios de comunicação são guiados por uma espécie
de lógica semiótica e sua influência central consiste em que eles submetem toda comunicação e
todo discurso a um único código dominante” (HJARVARD, 2012, p. 61).
Segundo Baudrillard (HJARVARD, 2012), isso significa que nossas percepções e
construções da realidade tenham como ponto de partida representações mediadas e guiadas pelas
mediações criadas e ambientadas pelos meios de comunicação. “O que é midiatizado não é o que
sai na imprensa diária, na televisão ou no rádio: é o que é reinterpretado pela forma do signo,
articulado em modelos e administrado pelo código” (Baudrillard apud Hjarvard, 2012, p. 61). Ao
falarmos em midiatização da sociedade, visualizamos um “processo pelo qual a sociedade, em grau
cada vez maior, está submetida a ou torna-se dependente da mídia e de sua lógica” (HJARVARD,
2012, p. 64).
Midiatização pode ser afirmada, portanto, como um contexto onde relações com o mundo
são primordialmente mediadas pelas mídias, por onde se firmam e se transformam tanto a
percepções de mundo, quanto uma infinidade de problemas que colocam em jogo não apenas
questões globais, como a ecologia, imigração, terrorismo, mas também existenciais, como crises de
identidade, crenças, etc (LIPOVETSKY; SERROY, 2011).
As redes sociais na internet se apresentam, nesse contexto, como uma forma de
organização, possibilitando interações e relações entre pessoas que atuam em causa própria, em
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defesa do outro ou de alguma organização, configurando um espaço onde se encontram “interrelações, associações encadeadas, interações, vínculos não-hierarquizados, todos envolvendo
relações de comunicação e/ou intercâmbio de informação e trocas culturais ou interculturais”
(AGUIAR, 2007, p. 02). As redes sociais na internet possibilitam dinâmicas específicas de
participação, fluxos e trocas de conteúdos.
Uma rede sempre possui uma temática que motiva e aglutina pessoas, no entanto, no
cenário midiatizado da internet, ela se caracteriza pela sua instabilidade, fluidez e dinâmica nãolinear, podendo ganhar variações e unir ou separar os membros de acordo com interesses
específicos, em fluxo contínuo ou descontínuo, “em função de determinadas circunstâncias que
animam, fragmentam ou estancam a intercomunicação” (AGUIAR, 2007, p. 08). Da mesma forma
como variam as estruturas e as dinâmicas de cada rede, variam também os graus de participação
que dependem conforme o interesse dos integrantes nas temáticas e nos conteúdos da rede e
daqueles grupos, do fluxo de mensagem que estimulam a participação e a interação entre os
membros, entre outros (AGUIAR, 2007).
A dinamicidade das redes possibilita alguns padrões de organização, seja de forma
cooperativa, competitiva ou geradora de conflito, e assim, revela como variam suas estruturas e
vínculos. Em outras palavras, conforme os conteúdos compartilhados ou o uso que se faz da rede,
são acionados processos de cooperação, competição e conflito que determinam a manutenção,
dinamicidade e vivacidade da rede. (RECUERO, 2005).
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No interior das redes sociais na internet, as interações, de maneira midiatizada, se
caracterizam também por serem difusas: as respostas não são imediatas e pontuais, mas, sim,
repercutidas e redirecionadas. Nesse sentido, as informações, símbolos e significados passam por
“processos de redeterminação como um trabalho de ‘edição’ do material objetivado
mediaticamente, pelo usuário que o (re)inscreve em sua conjuntura, realizando articulações através
das mediações que acione” (BRAGA, 2007, p. 153). Assim são criados e propagados campos
simbólicos, usos e interações do vivido, do revisto, mediado pelas representações já existentes ou
oferecendo a elas novos significados. Dessa forma, compreende-se o que Braga (2007) chama de
tendência à descontextualização e recontextualização, que marca a criação e propagação de campos
simbólicos, usos e interações do vivido, do revisto, mediado pelas representações já existentes ou
oferecendo a elas novos significados.
Por interações, compreendemos processos simbólicos e práticos que organizam trocas entre
os seres humanos e viabilizam as diversas ações e objetivos (BRAGA, 2007). A busca por
abrangência geográfica e populacional; por rapidez nas comunicações e maior permanência das
mensagens (registro)[1]; bem como a busca pela maior diversidade e agilidade de captura,
objetivação, transformação, transmissão e circulação de informações e comportamentos sociais
levam a uma “crescente tendência no sentido de que as interações sociais se tornem diferidas e
difusas, através de desenvolvimento tecnológico” (BRAGA, 2007, p. 146). A midiatização permite
criar múltiplas formas de representações e registro de objetos e situações e, mais, possibilita colocalas em circulação, seja e formas de imagens, sons ou textos, referenciais ou imaginários.
Para que objetivações sociais circulem em âmbito diferido e difuso com pertinência,
é preciso que se elaborem com alguns graus de abstração das contingências
específicas caracterizadoras dos momentos de elaboração expressiva. (...) Com a
mediatização, até as referências mais “personalizadas” tornam-se anônimas e
tipificadas, pelo desprendimento estrutural das contingências, que só serão
reconstruídas pelo “receptor”. (BRAGA, 2007, p. 152).
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A este respeito, Recuero (2012) fala em conversação em rede, que, para ela, se define como
práticas que são limitadas por questões técnicas dos espaços on-line, e que constroem apropriações,
sentidos e convenções peculiares. “Essas conversações têm novos formatos e são constantemente
adaptadas e negociadas para acontecer dentro das limitações, possibilidades e características das
ferramentas” (RECUERO, 2012, p. 17). A interação na rede apresenta uma forma conversacional
pública e coletiva ao mobilizar e ser permeada por pessoas que se conhecem, ou que não se
conhecem ou que ainda se conhecerão.
Após a introdução sobre os conceitos de memória, identidade, midiatização e dinâmicas nas
redes sociais na internet, seguiremos com um breve histórico a respeito do Estado do Acre, com o
objetivo de tratar, na sequência, da negação do Acre que circula no ambiente online.
3. Breve histórico acreano
“Terras incontestavelmente bolivianas” ou “tierras no descobiertas”: era assim,
respectivamente, que os governos brasileiro e boliviano consideravam o Acre. (COSTA, 1973;
BASTOS, 2005). No final do século XIX, aqueles territórios se tornaram alvo de cobiça
internacional, uma vez que o mercado externo demandou maior produção da borracha. Foi quando
a questão das fronteiras passou a gerar graves conflitos entre as nacionalidades. Para o Brasil, a
demarcação de suas fronteiras era clara, no entanto, “contrariamente acontecia à Bolívia. Nas suas
reclamações havia indecisão, havia incoerência nas suas pretensões sobre regiões que mostrava
desconhecer” (COSTA, 1973, p. 08). Em 1895, quando surgem as primeiras tentativas bolivianas
de posse do Acre, os brasileiros[2] já estavam ali situados há pelo menos 15 anos: o povoamento
do Acre por parte dos nordestinos data de 1877 - com seringais estabilizados, enviando produtos
para consumidores na Inglaterra, França, Alemanha, Holanda e Estados Unidos[3].
É este um dos principais motivos do acirramento da disputa pelo Acre: a incerteza das suas
fronteiras e a ascensão do preço da borracha no mercado internacional e a baixa densidade
populacional na região, que dificultava o aumento a produção. A Bolívia não tinha condições de
ocupar o Acre, pois era até então um país predominantemente rural, dedicado à extração de minério
e a agricultura, além disso, não havia mão-de-obra excedente, devido à mortalidade ocorrida
durante a Guerra do Pacífico, na qual a Bolívia perdera o acesso ao mar (OLIVEIRA, 2008). Foi
por isso que o governo boliviano não incentivou a ida de trabalhadores para o Acre, como fez o
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Brasil, que mobilizou um grande fluxo de mão-de-obra nordestina, vindos, principalmente, do
Ceará. Só em 1877, saíram do Ceará mais de 14 mil pessoas rumo à Amazônia. No ano seguinte, a
corrente emigratória alcançou 54 mil indivíduos.
Mas os interesses do governo brasileiro em enviar aquela população ao Acre são
controversos: o cenário vivido pelo Nordeste daquela época era a da crise pelo enfraquecimento da
produção açucareira, agravado pelas secas. O Governo Federal fazia a propaganda de incentivo à
migração, mas não dava nenhum suporte estrutural ou político, com assessores, médicos, guias.
Para Euclides da Cunha, a preocupação maior do poder público não era ocupar o território, mas não
deixar que ações bárbaras infestassem o Brasil, por isso, os enviavam ao Acre, “o que equivalia a
expatriá-los dentro da própria pátria. (...) Os banidos levavam a missão dolorosíssima e única de
desaparecerem” (CUNHA, 1999, p. 34).
Quando a Bolívia tentou ocupar e administrar o Acre, os brasileiros que já estavam lá, ao
verem seus direitos e interesses econômicos ameaçados, começaram a se unir para confrontar a
Bolívia. Os Estados Unidos também cobiçavam a região e, por isso, passou a apoiar o país
boliviano. A aliança entre os dois países foi descoberta e denunciada por Luiz Galvez, um
jornalista espanhol que vivia no Pará. Ele foi convidado a traduzir um documento sigiloso que
determinava o apoio militar norte-americano à Bolívia em caso de guerra com o Brasil, em virtude
daqueles territórios hoje acreanos. Galvez foi para o Acre, juntou-se aos movimentos de resistência
que lá havia e determinou: “se a pátria não nos quer, criamos outra!”, e fundou a República de
Galvez (NEVES, 2003). Em 14 de julho de 1899, foi criado, então, o Estado Independente do Acre.
Este episódio está fortemente registrado na memória acreana. Exemplo disso está
apresentado na Figura 1, que mostra um monumento em homenagem a Luiz Galvez, localizado em
frente à Assembleia Legislativa, no Centro de Rio Branco. Na bandeira, está grafada a frase,
creditada a Galvez, que contribui para evidenciar a recusa brasileira em relação ao Acre.
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Figura 1 - Monumento em homenagem a Galvez
Fonte: foto do autor
Foram oito meses de independência sob o governo do “presidente” Galvez, até que Campos
Sales, presidente do Brasil, enviou tropas da marinha brasileira para prender o espanhol e devolver
aquelas terras à Bolívia. Mesmo com o apoio do Governo do Brasil, o exército boliviano não foi
capaz de vencer o confronto com os seringueiros e seringalistas acreanos.
Em 1903, num acordo com a Bolívia, o Brasil comprou o Acre e, como parte do negócio,
se comprometeu em construir a ferrovia Madeira-Mamoré, que preservaria o escoamento das
exportações bolivianas. Segundo Narloch (2009), teria surgido nesta época a expressão “ir para o
Acre” como sinônimo de morrer, encontrada no dicionário Aurélio (1996): o verbete “morrer” traz,
entre suas definições, a expressão “ir para o Acre”, assim como “ir para o beleléu” ou “ir para a
cucuia”. Dos 22 mil operários envolvidos na construção da ferrovia, estima-se que mais de cinco
mil teriam morrido, principalmente em função de doenças tropicais desconhecidas.
Assim, depois do processo histórico conhecido como “Revolução Acreana”, em 1903, o
Acre se tornou brasileiro. No entanto, permaneceu como Território Federal, uma subcategoria de
Estado, durante 60 anos. Isso significava que os prefeitos e governadores eram indicados pelo
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presidente do Brasil, e toda a arrecadação de impostos sobre a borracha acreana pertencia aos
cofres da União. Depois dos nordestinos atingidos pela seca e pela miséria, eram enviados para o
Acre, agora, os fracassados políticos, além de líderes políticos presos, como os da Revolta da
Vacina. Este cenário pode ser ilustrado com charge “Geographia Política (Figura 2), publicada no
Jornal do Brasil, em 1904, que considera o Acre a Sibéria do Brasil[4].
FIGURA 2 - Charge “Geographia Política”
Fonte: JORNAL DO BRASIL apud SILVA, 2010, p. 212
Dessa forma, é possível compreender que o Acre, desde sua origem, era visto como “um
deserto, um vazio, uma sociedade desorganizada, uma vaga geográfica e lugar de morte. (...) Todos
foram então condenados a viver — e morrer — no Acre” (SILVA, 2010, p. 224). Para Silva
(2010), a expressão “ir para o Acre” como sinônimo de morrer surgiu em associação às
características geográficas da região acreana: seu clima, suas doenças e as dificuldades de acesso
como uma ida sem volta, o que se somava com o envio de pessoas para o Acre como uma forma de
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punição, ou seja, derivava daí uma morte simbólica, pois quem ia para o Acre, “geralmente entrava
para o rol daqueles de quem não se tinha mais notícias no lugar de onde partira. Isso porque ao ‘ir
para o Acre’ perdiam-se, muitas vezes por completo, os laços dos que partiam com aqueles que
ficavam” (SILVA, 2010, p. 221).
Na fronteira com Peru e a Bolívia, o Acre foi o último Estado anexado ao
Brasil. Corresponde a 1,92% do território nacional, tem 22 municípios, quase 750 mil habitantes, e
completa, em 2015, 53 anos de Estado brasileiro. Na atualidade, em tempos de interações
fortemente mediadas por processos midiatizados, especialmente com a internet e as redes sociais,
encontramos uma constante forma de atualização e expansão da história aqui apresentada, é aquela
que afirma categoricamente que “o Acre não existe”. A partir dessa, muitas outras representações,
impressões e manifestações de tom jocoso ou não, circulam no espaço online, onde o Acre é
inserido num circuito interativo de ressignificações. São essas questões relativas à atualização das
representações sobre o Acre nas redes sociais na internet que trataremos a seguir.
4. O Acre na internet
Quando se digita “Acre” no site de busca Google, entre os resultados que variam das
descrições do termo como uma unidade de medida e o site do Governo do Estado, está o glossário
da Desciclopédia, cuja definição para “Acre” começa com: “Você quis dizer: nada”. Criada em
2005, a Desciclopédia[5] é uma versão brasileira da Uncyclopedia, ou seja, uma wi-ki paródia da
Wikipédia. Entre os 170 verbetes destacados como “Melhores Artigos”, está a página que define
“Acre”. Nela, as definições para “Acre” seguem com uma série de afirmações jocosas a respeito da
história, geografia, economia, religião, clima, biodiversidade, culinária, entre outros tópicos que
enfatizam determinada ilusão, fantasia ou conspiração do Estado. O verbete, criado em março de
2006 e atualizado pela última vez em janeiro de 2015, registra quase 350 mil acessos. A página
reúne também “motivos para não acreditar na existência do Acre”, “piadinhas que você ainda vai
ouvir sobre o Acre (mas que no fundo até faz sentido)”, e tantas versões a respeito do Estado:
GEOGRAFIA: O Acre faz fronteira com a Terra do Nunca ao Norte, Oz ao
Sul, Terra Média a Leste e a Lagoa Azul a Oeste, onde se situa a Ilha de Lost.
Lula sobre o Acre: Eu não sei de nada.
Maluf sobre o Acre: Fui EU que fiz!
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Padre Quevedo sobre o Acre: Isso non ecziste!!!
Internet Explorer sobre Acre: 404 Not Found.
Curupira sobre Acre: Acre? Isso é lenda
População de Atlântida sobre Acre: Recebemos mais turistas por ano que eles.
Alguém sobre Acre: Que Acre nada! O que não existe mesmo é Roraima!
Ninguém fala dela!
Zeca Pagodinho sobre Acre: Nunca vi nem comi eu só ouço falar!
Presidente do Corinthians sobre Acre: O novo estádio do Corinthians será
construído lá.
James Bond: Se eu te contar onde o Acre está, terei que te matar depois.
Sócrates sobre o Acre: Só sei que nada sei. (...)
(DESCICLOPEDIA, 2014)
A página da Desciclopédia aponta para as demais manifestações burlescas a respeito da
negação do Acre que estão presentes em sites, blogs, páginas e perfis em diversas redes sociais.
Tais representações misturam humor, produtos e personagens midiáticos, faz referências à história,
ciência, filosofia, entre outros.
Como mostra a Figura 3, é oferecido ao Acre o título da versão brasileira para o seriado
Lost, uma premiada série de televisão norte-americana, de drama e ficção científica, que seguiu a
vida dos sobreviventes de um acidente aéreo numa misteriosa ilha tropical. A imagem pode ser
encontrada na página no Facebook do site de entretenimento “Não Salvo”, por onde foi curtida
mais de 6 mil vezes e compartilhada quase 16 mil vezes, em 15 dias.
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FIGURA 3 - E se as séries mais famosas do mundo fossem feitas no Brasil?
Fonte: Página “Não Salvo”, Facebook, 2012
O perfil “Não Salvo” é famoso na internet, criado por Maurício Cid. Possui mais de 1
milhão de seguidores no Facebook. Entre os mais de 800 comentários na postagem, temos:
Usuário a) Confesso que só achei graça na parte do ACRE kkkk (3 curtidas)
Usuário b) Teus seguidores do Acre vão ti boicotar!! Vai perder 30 visitas
mensais!! (14 curtidas)
Usuário c) kkkkk CHOREI NO ACRE (3 curtidas)
Usuário d) Acre? É de comer? (0 curtidas)
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Usuário e) Não, não é de comer, mas sua mãe sim! (15 curtidas)
Usuário f) Acreanos são gente boa, porém estressadinhos demais. Nos 9
meses que morei em Rio Branco, qualquer brincadeira referente ao estado era
motivo de xilique. Tenho parentes que são de lá, tenho amigos, mas isso é
uma piada, fiquem na sua. (8 curtidas)
Usuário g) O Acre é mesmo distante, mas o grau de mal informados que não
conhecem nem o próprio mapa do Brasil me surpreende mais do que a
distancia entre os estados kkkk vão estudar seus burros... (5 curtidas)
Conforme os comentários acima, percebemos que é acionado um conflito: de um lado
pessoas reproduzindo o suposto desconhecimento do Acre; de outro, usuários que ficam revoltados
com os comentários, entre eles, gente que quer que o acreano entenda que tais manifestações são
“apenas piada”; e, ainda, aqueles que parecem acreditar que os demais realmente desconhecem o
Acre.
Outro exemplo é a Figura 4, que mostra uma imagem de Paul Mccartney, ex-Beatles, com
o texto: “De volta ao Acre” e postada com a legenda “Paulinho adora ir para lugares que não
existem”. Em quatro dias, a imagem foi compartilhada mais de 130 vezes, e mais de 660 pessoas a
curtiram.
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FIGURA 4 - “Paulinho adora ir para lugares que não existem”
Fonte: Página “João Lennon”, Facebook, 2013
A página “João Lennon” tem mais de 130 mil curtidores e é descrita como: “E se John
Lennon e os Beatles fossem brasileiros? Seria mais ou menos assim”. Entre os 32 comentários para
esta postagem estão:
Usuário a) única que eu não consegui entender, que música é essa? (3
curtidas)
Usuário b) hahahaha back in the U.S.S.R.! hahahaha (31 curtidas)
Usuário c) U.S.S.R = Não existe mais / Acre = nunca existiu (27 curtidas)
Usuário d) só pros muito fortes! Uma das melhores! Hahah (7 curtidas)
Usuário e) o ACRE EXISTE! CALABOK (1 curtida)
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Conforme os comentários, a frase que acompanha a imagem faz um paralelo com a música
“Back in the USSR”: União das Repúblicas Socialistas Soviéticas foi um estado socialista que
existiu entre 1922 e 1991. Além disso, um dos comentários diz: “só para os fortes”, o que sugere
uma piada que poucos entenderão, ou seja, é uma piada, no mínimo, inteligente.
Outro exemplo é a postagem do humorista Danilo Gentili, ex-participante do programa
Custe o Que Custar - CQC. Sua página, no Facebook, já alcançou quase 4 milhões de curtidas. Na
virada de 2013 para 2014, o apresentador postou em seu perfil no Facebook uma foto sua diante de
fogos de artifício (FIGURA 5).
FIGURA 5 - “O Ano Novo acabou de começar aqui onde estou. Feliz 2012 Acre!”
Fonte: GENTILI, 2014
A postagem recebeu quase 123 mil curtidas, foi compartilhada mais de 1.500 vezes e
recebeu 5.500 comentários[6], eis alguns deles:
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Usuário a) Suas definições de processos foram atualizadas. (174 curtidas)
Usuário b) fake, não tem capivara tomando espumante, logo não é o acre
(3.162 curtidas)
Usuário c) Sou do acre, e não gostei dessa piada! Vou mandar meu T- Rex te
pegar... (794 curtidas)
Usuário e) Quem ta falando mal do Acre, que em 2014 estude mais
Geografia. _]_ (32 curtidas)
Usuário f) Com essa piada acho que você deveria ser humorista do Casseta e
Planeta. Beijos vou alimentar minha onça (28 curtidas)
Com os comentários revoltosos, Danilo Gentili se manifestou novamente e postou: “A
PIADA ERA SOBRE O FUSO-HORÄRIO - SOBRE O ACRE SER DISTANTE/LONGE. NÃO
SOBRE O LUGAR SER OU NÃO ATRASADO! Mas eu prometo que a próxima piada será como
o povo é analfabeto funcional"[7] (GENTILI, 2014). Por um lado, o humorista se revolta por achar
que algumas pessoas não entendem que é apenas uma piada. Por outro, Gentili parece não saber
que a revolta dos acreanos é acionada por uma manifestação identitária e que a questão do fusohorário despertou uma briga real entre sociedade civil e poder político local e nacional, durante três
anos.
Podemos também citar o meme “Willy Wonka Irônico”: Trata-se de uma cena do ator Gene
Wilder, que faz o papel de Willy Wonka, no musical de 1971, A Fantástica Fábrica de Chocolate.
Nela, o personagem pergunta para as crianças se elas gostariam de conhecer a nova máquina de sua
fábrica e faz uma expressão irônica (FIGURA 6).
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FIGURA 6 - Willy Wonka Irônico
Fonte: SILVA, Facebook, 2013
A relação entre dizer que o Acre não existe e a redação do ENEM refere-se ao fato de que o
tema do exame, em 2012, foi “o movimento imigratório para o Brasil no século XXI”. Entre os
textos de apoio, um tratava do grande número de haitianos que se dirigiram ao Acre depois do
terremoto em 2010; outro mostrava os destinos mais procurados pelos imigrantes bolivianos - entre
eles, o Brasil; um terceiro texto tratava da imigração para o Brasil nos séculos XIX e XX.
A imagem foi postada em 4 de novembro de 2012. Numa visita em janeiro de 2014,
somavam os seguintes números: 3.147 compartilhamentos, 157 curtidas, mais de 30 comentários,
entre eles:
Usuário a) O povo das outras regiões criticando o tema.. No mínimo são
sabiam o que escrever!! Rs (21 curtidas)
Usuário b) tomei um susto quando vi o tema. pensei ate que tava errado .-. (2
curtidas)
Usuário c) To orando por você que acha que o tema da redação era a
imigração dos haitianos para o Acre. (10 curtidas)
Usuário d) Não citei o Acre na minha redação! Mas só o fato de o Acre ter
protagonizado o tema da redação já me deixou empolgado e tanto!
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#EuAmooAcre E tenho orgulho de ser Acriano! (1 curtida)
Tais passagens, conteúdos e interações encontradas identificam a complexidade do material
aqui analisado e permitem relacionar os processos históricos de negação do estado do Acre às
dinâmicas de memória e interação sociais midiatizadas.
5. Considerações finais
Temos aqui as redes sociais na internet como ambientes que favorecem interações com
características complexas e ambíguas, e que abrem espaço para distorções e descontextualizações.
Em tal ambiente não-linear, deparamos com um cenário onde as estruturas não apresentam apenas
um sentido, mas, sim, múltiplos caminhos, destinos e finais. Evidenciamos, nesse ambiente, um
processo de atualização midiatizada da história do Acre, que se re-contextualiza ao ser mediada
pelas redes sociais, cujas dinâmicas de interação reproduzem e alimentam uma cadeia
representacional singular.
As representações do estado do Acre na internet acontecem tanto a partir de
acontecimentos midiáticos (ou jornalísticos), mas também em postagens aleatórias. Em todas as
postagens, encontramos comentários que acionam um jogo de negação-afirmação e percebemos o
que se pode chamar de lugares de memória. Afinal, tais representações e interações ficam
disponíveis nas redes por tempo indeterminado e podem ser continuamente encontras e editadas,
apresentando um passado histórico fragmentado, que se atualiza conforme as dinâmicas do
presente.
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Assim, tem-se a problemática do encontro entre diferentes intencionalidades e
subjetividades, além da disputa e sobreposição de sentidos: de um lado, a convocação da memória
que implica na atualização histórica de um passado específico; de outro, a reprodução de uma
brincadeira, de uma “piada para poucos”. Por um lado, tais representações oportunizam diversos
espaços interativos que revelam a dinamicidade das relações sociais nas redes; por outro, sugerem a
atualização midiática de processos históricos de um lugar, evidenciando também a atualização de
preconceitos e estereótipos. Em ambos os casos, parecem alimentar e atualizar, midiaticamente, o
que fundou a identidade acreana: os processos de negação e defesa de um lugar.
1
Mestre em Comunicação e Interações Midiatizadas pela PUC Minas, Professora do curso de
Comunicação Social da Universidade Federal do Acre - UFAC, [email protected]
1Isso aqui também pode ser frisado ao tratar da problemática do arquivamento para a memória. Uma das características
das interações nas redes sociais na internet, é a permanência das interações, “no sentido de que aquilo que foi publicado
permanece acessível no site” (RECUERO, 2013, p. 54).
2Em 1878, mais de 15 mil e, em 1990, já somavam 158 mil migrantes (MORAIS, 2008).
3Era o 1o Ciclo da Borracha - datado de 1879 a 1912.
4O termo faz alusão a uma região que existiu na Rússia, para onde eram enviados os opositores para exílio forçado, nos
tempos de Stálin.
5A rede de construção colaborativa de conteúdos possui mais de 51.500 membros-colaboradores e aproximadamente 45
mil artigos que simulam um formato científico, mas são dotados de humor e sarcasmo.
6Dados de 13 de janeiro de 2014.
7Reproduzimos os trechos em caixa alta, tal qual o autor o escreveu.
AGUIAR, Sonia. Redes sociais na internet: desafios à pesquisa. In: XXX CONGRESSO
BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 2007. Santos, SP. Anais... Sociedade
Brasileira
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