Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação Um estudo sobre memória, identidade e midiatização: O Acre não existe A study about memory, identity and mediatization: “Acre doesn't exist” 1 Giselle Xavier Lucena Resumo: Este trabalho trata da midiatização da memória de um lugar, tendo como foco uma representação que circula nas redes sociais na internet sobre o Acre, estado brasileiro localizado na região amazônica. Tal representação defende categoricamente que “o Acre não existe”, e assim, atualiza um processo de negação histórica vivida pelo estado desde sua origem. Além de ter sido o último estado a ser anexado ao Brasil, enfrentou, durante sua constituição e ocupação territorial, vários momentos de negação, recusa e descaso político por parte do governo brasileiro. O estudo foi realizado por meio de pesquisa bibliográfica e documental sobre a história do Acre, relacionando-a com os conceitos de midiatização, interações midiatizadas, memória e identidade. Palavra chave: Memória. Identidade. Midiatização. Acre. Abstract: This work deals with the mediatization of the memory of a place, focusing on a representation that circulates in the social networks on the internet about the Acre, a Brazilian state located in the Amazon region. This representation supports categorically that "Acre doesn't exist", and so, update a historical denial process experienced by the state since it was origin. Besides being the last state to be attached to Brazil, faced, during the constitution and territorial occupation, many moments of denial, refusal and political neglect by the Brazilian government. The study was conducted through bibliographical and documentary research on the history of Acre, relating it to the concepts of media coverage, mediatized interactions, memory and identity. Keywords: Memory. Identity. Mediatization. Acre. 1. A começar pela memória e identidade A memória pode ser considerada como um diálogo entre o passado e o presente. A memória é uma condução criativa e imaginária que nos leva a encontrar o passado de forma mediada pelo presente, em processos de negação ou afirmação; intercambiando lugares, sujeitos e objetos. “Lembrar não é reviver, mas refazer. É reflexão, compreensão do agora a partir do outrora; é sentimento, reaparição do feito e do ido, não sua mera repetição” (BOSI, 2004, p. 20). A memória também é configurada como um valor disputado e vulnerável ao chamado trabalho de enquadramento da memória, exercido por historiadores e por ações políticas de um lugar, além do trabalho da própria memória em si, onde se aponta que “cada vez que uma memória está relativamente constituída, ela efetua um trabalho de manutenção, de coerência, de unidade, de continuidade, da organização” (POLLAK, 1992, p. 206) e passar a trabalhar por si só. Além disso, www.compos.org.br - nº do documento: 03A306C2-B8EB-4552-A9DF-CBC13E539AB9 Page 1 Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação as memórias - coletivas e individuais - se constituem por acontecimentos vividos pessoalmente de forma direta ou indireta; por pessoas e personagens, sejam realmente encontradas ou encontradas pelo Outro; e, também, pelos lugares de memória, sejam simbólicos ou topográficos. Ou seja, a memória é tanto fundada em fatos reais e concretos, como também na projeção deles, por isso, “a memória é, em parte, herdada, não se refere apenas à vida física da pessoa. A memória também sofre flutuações que são funções do momento em que ela é articulada, em que ela está sendo expressa” (POLLAK, 1992, p. 204). A memória está imersa em subjetividades, pois é composta pela seleção consciente ou inconsciente, pela interpretação e subjetivação, cujos princípios variam de grupo para outro. Ela é carregada pelo indivíduo que está sempre compartilhando interações com a sociedade (HALBWACHS apud KESSEL, 2011). A presença do Outro na produção da memória “garante o sentimento de identidade do indivíduo calcado numa memória compartilhada não só no campo histórico, do real, mas sobretudo no campo simbólico” (KESSEL, 2011, p. 03). Neste aspecto, é possível compreender que memória e identidade caminham juntas. Historicamente, a definição dos campos identitários foi assunto de Estado na construção do nacionalismo, com o intuito de se legitimar e produzir a unidade necessária para a constituição da nação. Na identidade nacional, as histórias e seus símbolos conectam presente e passado. Assim, o Estado busca homogeneizar a população e seus costumes e dialetos, impondo línguas oficiais e a unificação de sistemas, criando uma delimitação espacial e uma unidade na definição de etnicidade e na construção de uma memória. É isso o que nos permite classificarmo-nos como brasileiro, alemão, italiano etc. A narrativa da nação, tal como é contada e recontada nas histórias e nas literaturas nacionais, na mídia e na cultura popular. Essas fornecem uma série de estórias, imagens, panoramas, cenários, eventos históricos, símbolos e rituais nacionais que simbolizam ou representam as experiências partilhadas, as perdas, os triunfos e os desastres que dão sentido à nação. (...) ela dá significado e importância à nossa monótona existência, conectando nossas vidas cotidianas com um destino nacional que preexiste a nós e continua existindo após nossa morte. (HALL, 2006, p. 52). www.compos.org.br - nº do documento: 03A306C2-B8EB-4552-A9DF-CBC13E539AB9 Page 2 Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação Assim, a memória aparece como um dos elementos a partir dos quais podemos nos identificar e nos constituir como uma comunidade unificada. A memória nacional se faz através de práticas oficiais como a comemoração de datas específicas e feriados, reconhecimento de hinos, bandeiras, personagens e heróis da pátria que, juntos, compõem a formação do sentimento de pertencimento ao oferecer códigos de referência para a identificação de indivíduos, grupos e povos. Consideramos, portanto, a memória como um fenômeno construído social e individualmente, em diálogo ao sentimento de identidade que, por sua vez, é caracterizado como a imagem de si que construímos para nós mesmos, e para apresentar aos outros também, pois “as identidades são para usar e exibir, não para armazenar e manter” (BAUMAN, 2005, p. 96). Assim como a memória, as identidades são valores negociados e disputados, construídas em confrontos individuais, coletivos e intergrupais (POLLAK, 1992). E, se a memória serve de ancoragem e é resultado da identidade; é preciso - mesmo que a identidade se construa em sentimentos de oposição e contraste - que as imagens e os discursos sobre o passado sejam organizados com credibilidade e coerência, e sejam continuamente ajustados. “Manter a coesão interna e defender as fronteiras daquilo que um grupo tem em comum, em que se inclui o território (no caso de Estados), eis as duas funções essenciais da memória comum” (POLLAK, 1989, p. 09). É importante considerar, ainda, que a identidade é continuamente reformulada no conjunto de representações que nos rodeiam. Em diferentes momentos, assumimos diferentes identidades, “identidades que não são unificadas ao redor de um ‘eu’ coerente. Dentro de nós há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas” (HALL, 2006, p. 13). São narrativas do eu continuamente sendo reescritas e reinterpretadas, por isso, “em vez de falar da identidade como uma coisa acabada, deveríamos falar de identificação, e vê-la como um processo em andamento” (HALL, 2006, p. 39). Com a multiplicação dos sistemas de significação e representação cultural, somos levados a uma situação de confronto “por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar - ao menos temporariamente” (HALL, 2006, p. 13). O cenário de superabundância de imagens e significados de mundo, coloca em dúvida os pontos referenciais até então coerentes, pois desloca as estruturas e processos centrais da sociedade e abalam os quadros de referência que, antes, nos ofereciam estabilidade da coerência www.compos.org.br - nº do documento: 03A306C2-B8EB-4552-A9DF-CBC13E539AB9 Page 3 Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação e da unidade - assegurada pela memória e que nos ajudavam na configuração identitária. O que não é a internet, senão um catálogo desnorteante que coloca à nossa disposição - em certo grau de controle - diversas representações como possibilidades para formação de opinião, contato com o mundo, imenso e ao mesmo tempo que fugidio? Neste aspecto, Bonin (2006) fala em múltiplos palimpsestos midiatizados de memória e observa que, ao se referirem ao passado, as mídias, muitas vezes, o descontextualiza e o reduz a uma citação. Assim como a identidade, passado (a história) se fragmenta, e o mesmo também acontece com a memória. O passado deixa, então, de ser parte da memória e se converte em ingrediente de pastiche – operação que permite mesclar fatos, sensibilidades, estilos e textos de qualquer época, sem articulação com os contextos e movimentos de fundo de uma época. Deste modo, o passado não pode iluminar o presente nem relativizá-lo, já que não permite tomar distância do que se está vivendo. (BONIN, 2006, p. 139-140). As mídias também podem ser reconhecidas como lugares de memória, ou lugares de fabricação do presente, mas que contribuem para “debilitar o passado, a consciência histórica. A aceleração tecnocultural estaria levando à perda da noção do tempo e à instalação num presente contínuo” (BONIN, 2006, p. 139). Por outro lado, é possível apontar uma febre de memória que expressa a: (...) necessidade de ancoragem temporal que sentem as sociedades (e os grupos) cuja temporalidade é sacudida pela revolução tecnológica informacional, que dissolve as coordenadas espaço-temporais do mundo da vida, dimensões que também ancoram a memória (BONIN, 2006, p. 140). Reconhecemos a internet, portanto, como lugar de interações que, ao configurar subjetividades e identidades, configura também a memória. Além disso, embora o contexto da midiatização seja do tempo fugidio e da memória descontrolada, a internet oferece a possibilidade da permanente disponibilidade dos conteúdos, a memória sem limites. A questão do tempo fugidio na internet também traz ao debate os agenciamentos de arquivamento e disponibilidade de conteúdos na rede. O próprio Orkut não seria como um museu na rede? Os dispositivos midiáticos formam hoje lugar privilegiado para os agenciamentos envolvendo a memória coletiva e, sobretudo, o enquadramento da memória. Constituindo-se em pólos de convergência das dinâmicas sociais, as mídias (sobretudo as de caráter jornalístico) armazenam informações que se convertem em fontes para historiografia, como também recuperam acontecimentos pregressos podendo imprimir a eles novos enquadramentos (HENN, 2006, p. 179). Notamos, portanto, o paradoxo de se viver cada vez mais o embate entre pluralização dos sentidos, fruto das interações mais intensas e abertas no espaço midiatizado, e a busca de sentidos www.compos.org.br - nº do documento: 03A306C2-B8EB-4552-A9DF-CBC13E539AB9 Page 4 Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação mais estáveis, de lugares de memória que ancorem a possibilidade de reconhecimento e identidade. Recursos e estratégias - sejam individuais ou coletivas, criadas de forma espontânea ou impostas pelo Estado e pelo mercado -, fazem com que a sociedade se aproprie, se identifique e se sinta protegida e representada, ao mesmo tempo em que viva a experiência da diluição de fronteiras simbólicas e identitárias. Deparamo-nos com a incerteza e com o desconhecido, que geram medo e trazem a sensação de ameaça para este sentimento de pertencimento. 2. A rede no cenário da midiatização A presença predominante da mídia sobre uma série de fenômenos e instituições sociais, bem como a importância cultural e social exercida pelos meios de comunicação nas mediações e interações da sociedade, é o que chamamos, conforme Hjarvard (2012), de midiatização. Ela possibilita a produção e distribuição de produtos simbólicos, e insere outros fluxos de comunicação. É importante considerar que “os meios de comunicação são guiados por uma espécie de lógica semiótica e sua influência central consiste em que eles submetem toda comunicação e todo discurso a um único código dominante” (HJARVARD, 2012, p. 61). Segundo Baudrillard (HJARVARD, 2012), isso significa que nossas percepções e construções da realidade tenham como ponto de partida representações mediadas e guiadas pelas mediações criadas e ambientadas pelos meios de comunicação. “O que é midiatizado não é o que sai na imprensa diária, na televisão ou no rádio: é o que é reinterpretado pela forma do signo, articulado em modelos e administrado pelo código” (Baudrillard apud Hjarvard, 2012, p. 61). Ao falarmos em midiatização da sociedade, visualizamos um “processo pelo qual a sociedade, em grau cada vez maior, está submetida a ou torna-se dependente da mídia e de sua lógica” (HJARVARD, 2012, p. 64). Midiatização pode ser afirmada, portanto, como um contexto onde relações com o mundo são primordialmente mediadas pelas mídias, por onde se firmam e se transformam tanto a percepções de mundo, quanto uma infinidade de problemas que colocam em jogo não apenas questões globais, como a ecologia, imigração, terrorismo, mas também existenciais, como crises de identidade, crenças, etc (LIPOVETSKY; SERROY, 2011). As redes sociais na internet se apresentam, nesse contexto, como uma forma de organização, possibilitando interações e relações entre pessoas que atuam em causa própria, em www.compos.org.br - nº do documento: 03A306C2-B8EB-4552-A9DF-CBC13E539AB9 Page 5 Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação defesa do outro ou de alguma organização, configurando um espaço onde se encontram “interrelações, associações encadeadas, interações, vínculos não-hierarquizados, todos envolvendo relações de comunicação e/ou intercâmbio de informação e trocas culturais ou interculturais” (AGUIAR, 2007, p. 02). As redes sociais na internet possibilitam dinâmicas específicas de participação, fluxos e trocas de conteúdos. Uma rede sempre possui uma temática que motiva e aglutina pessoas, no entanto, no cenário midiatizado da internet, ela se caracteriza pela sua instabilidade, fluidez e dinâmica nãolinear, podendo ganhar variações e unir ou separar os membros de acordo com interesses específicos, em fluxo contínuo ou descontínuo, “em função de determinadas circunstâncias que animam, fragmentam ou estancam a intercomunicação” (AGUIAR, 2007, p. 08). Da mesma forma como variam as estruturas e as dinâmicas de cada rede, variam também os graus de participação que dependem conforme o interesse dos integrantes nas temáticas e nos conteúdos da rede e daqueles grupos, do fluxo de mensagem que estimulam a participação e a interação entre os membros, entre outros (AGUIAR, 2007). A dinamicidade das redes possibilita alguns padrões de organização, seja de forma cooperativa, competitiva ou geradora de conflito, e assim, revela como variam suas estruturas e vínculos. Em outras palavras, conforme os conteúdos compartilhados ou o uso que se faz da rede, são acionados processos de cooperação, competição e conflito que determinam a manutenção, dinamicidade e vivacidade da rede. (RECUERO, 2005). www.compos.org.br - nº do documento: 03A306C2-B8EB-4552-A9DF-CBC13E539AB9 Page 6 Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação No interior das redes sociais na internet, as interações, de maneira midiatizada, se caracterizam também por serem difusas: as respostas não são imediatas e pontuais, mas, sim, repercutidas e redirecionadas. Nesse sentido, as informações, símbolos e significados passam por “processos de redeterminação como um trabalho de ‘edição’ do material objetivado mediaticamente, pelo usuário que o (re)inscreve em sua conjuntura, realizando articulações através das mediações que acione” (BRAGA, 2007, p. 153). Assim são criados e propagados campos simbólicos, usos e interações do vivido, do revisto, mediado pelas representações já existentes ou oferecendo a elas novos significados. Dessa forma, compreende-se o que Braga (2007) chama de tendência à descontextualização e recontextualização, que marca a criação e propagação de campos simbólicos, usos e interações do vivido, do revisto, mediado pelas representações já existentes ou oferecendo a elas novos significados. Por interações, compreendemos processos simbólicos e práticos que organizam trocas entre os seres humanos e viabilizam as diversas ações e objetivos (BRAGA, 2007). A busca por abrangência geográfica e populacional; por rapidez nas comunicações e maior permanência das mensagens (registro)[1]; bem como a busca pela maior diversidade e agilidade de captura, objetivação, transformação, transmissão e circulação de informações e comportamentos sociais levam a uma “crescente tendência no sentido de que as interações sociais se tornem diferidas e difusas, através de desenvolvimento tecnológico” (BRAGA, 2007, p. 146). A midiatização permite criar múltiplas formas de representações e registro de objetos e situações e, mais, possibilita colocalas em circulação, seja e formas de imagens, sons ou textos, referenciais ou imaginários. Para que objetivações sociais circulem em âmbito diferido e difuso com pertinência, é preciso que se elaborem com alguns graus de abstração das contingências específicas caracterizadoras dos momentos de elaboração expressiva. (...) Com a mediatização, até as referências mais “personalizadas” tornam-se anônimas e tipificadas, pelo desprendimento estrutural das contingências, que só serão reconstruídas pelo “receptor”. (BRAGA, 2007, p. 152). www.compos.org.br - nº do documento: 03A306C2-B8EB-4552-A9DF-CBC13E539AB9 Page 7 Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação A este respeito, Recuero (2012) fala em conversação em rede, que, para ela, se define como práticas que são limitadas por questões técnicas dos espaços on-line, e que constroem apropriações, sentidos e convenções peculiares. “Essas conversações têm novos formatos e são constantemente adaptadas e negociadas para acontecer dentro das limitações, possibilidades e características das ferramentas” (RECUERO, 2012, p. 17). A interação na rede apresenta uma forma conversacional pública e coletiva ao mobilizar e ser permeada por pessoas que se conhecem, ou que não se conhecem ou que ainda se conhecerão. Após a introdução sobre os conceitos de memória, identidade, midiatização e dinâmicas nas redes sociais na internet, seguiremos com um breve histórico a respeito do Estado do Acre, com o objetivo de tratar, na sequência, da negação do Acre que circula no ambiente online. 3. Breve histórico acreano “Terras incontestavelmente bolivianas” ou “tierras no descobiertas”: era assim, respectivamente, que os governos brasileiro e boliviano consideravam o Acre. (COSTA, 1973; BASTOS, 2005). No final do século XIX, aqueles territórios se tornaram alvo de cobiça internacional, uma vez que o mercado externo demandou maior produção da borracha. Foi quando a questão das fronteiras passou a gerar graves conflitos entre as nacionalidades. Para o Brasil, a demarcação de suas fronteiras era clara, no entanto, “contrariamente acontecia à Bolívia. Nas suas reclamações havia indecisão, havia incoerência nas suas pretensões sobre regiões que mostrava desconhecer” (COSTA, 1973, p. 08). Em 1895, quando surgem as primeiras tentativas bolivianas de posse do Acre, os brasileiros[2] já estavam ali situados há pelo menos 15 anos: o povoamento do Acre por parte dos nordestinos data de 1877 - com seringais estabilizados, enviando produtos para consumidores na Inglaterra, França, Alemanha, Holanda e Estados Unidos[3]. É este um dos principais motivos do acirramento da disputa pelo Acre: a incerteza das suas fronteiras e a ascensão do preço da borracha no mercado internacional e a baixa densidade populacional na região, que dificultava o aumento a produção. A Bolívia não tinha condições de ocupar o Acre, pois era até então um país predominantemente rural, dedicado à extração de minério e a agricultura, além disso, não havia mão-de-obra excedente, devido à mortalidade ocorrida durante a Guerra do Pacífico, na qual a Bolívia perdera o acesso ao mar (OLIVEIRA, 2008). Foi por isso que o governo boliviano não incentivou a ida de trabalhadores para o Acre, como fez o www.compos.org.br - nº do documento: 03A306C2-B8EB-4552-A9DF-CBC13E539AB9 Page 8 Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação Brasil, que mobilizou um grande fluxo de mão-de-obra nordestina, vindos, principalmente, do Ceará. Só em 1877, saíram do Ceará mais de 14 mil pessoas rumo à Amazônia. No ano seguinte, a corrente emigratória alcançou 54 mil indivíduos. Mas os interesses do governo brasileiro em enviar aquela população ao Acre são controversos: o cenário vivido pelo Nordeste daquela época era a da crise pelo enfraquecimento da produção açucareira, agravado pelas secas. O Governo Federal fazia a propaganda de incentivo à migração, mas não dava nenhum suporte estrutural ou político, com assessores, médicos, guias. Para Euclides da Cunha, a preocupação maior do poder público não era ocupar o território, mas não deixar que ações bárbaras infestassem o Brasil, por isso, os enviavam ao Acre, “o que equivalia a expatriá-los dentro da própria pátria. (...) Os banidos levavam a missão dolorosíssima e única de desaparecerem” (CUNHA, 1999, p. 34). Quando a Bolívia tentou ocupar e administrar o Acre, os brasileiros que já estavam lá, ao verem seus direitos e interesses econômicos ameaçados, começaram a se unir para confrontar a Bolívia. Os Estados Unidos também cobiçavam a região e, por isso, passou a apoiar o país boliviano. A aliança entre os dois países foi descoberta e denunciada por Luiz Galvez, um jornalista espanhol que vivia no Pará. Ele foi convidado a traduzir um documento sigiloso que determinava o apoio militar norte-americano à Bolívia em caso de guerra com o Brasil, em virtude daqueles territórios hoje acreanos. Galvez foi para o Acre, juntou-se aos movimentos de resistência que lá havia e determinou: “se a pátria não nos quer, criamos outra!”, e fundou a República de Galvez (NEVES, 2003). Em 14 de julho de 1899, foi criado, então, o Estado Independente do Acre. Este episódio está fortemente registrado na memória acreana. Exemplo disso está apresentado na Figura 1, que mostra um monumento em homenagem a Luiz Galvez, localizado em frente à Assembleia Legislativa, no Centro de Rio Branco. Na bandeira, está grafada a frase, creditada a Galvez, que contribui para evidenciar a recusa brasileira em relação ao Acre. www.compos.org.br - nº do documento: 03A306C2-B8EB-4552-A9DF-CBC13E539AB9 Page 9 Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação Figura 1 - Monumento em homenagem a Galvez Fonte: foto do autor Foram oito meses de independência sob o governo do “presidente” Galvez, até que Campos Sales, presidente do Brasil, enviou tropas da marinha brasileira para prender o espanhol e devolver aquelas terras à Bolívia. Mesmo com o apoio do Governo do Brasil, o exército boliviano não foi capaz de vencer o confronto com os seringueiros e seringalistas acreanos. Em 1903, num acordo com a Bolívia, o Brasil comprou o Acre e, como parte do negócio, se comprometeu em construir a ferrovia Madeira-Mamoré, que preservaria o escoamento das exportações bolivianas. Segundo Narloch (2009), teria surgido nesta época a expressão “ir para o Acre” como sinônimo de morrer, encontrada no dicionário Aurélio (1996): o verbete “morrer” traz, entre suas definições, a expressão “ir para o Acre”, assim como “ir para o beleléu” ou “ir para a cucuia”. Dos 22 mil operários envolvidos na construção da ferrovia, estima-se que mais de cinco mil teriam morrido, principalmente em função de doenças tropicais desconhecidas. Assim, depois do processo histórico conhecido como “Revolução Acreana”, em 1903, o Acre se tornou brasileiro. No entanto, permaneceu como Território Federal, uma subcategoria de Estado, durante 60 anos. Isso significava que os prefeitos e governadores eram indicados pelo www.compos.org.br - nº do documento: 03A306C2-B8EB-4552-A9DF-CBC13E539AB9 Page 10 Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação presidente do Brasil, e toda a arrecadação de impostos sobre a borracha acreana pertencia aos cofres da União. Depois dos nordestinos atingidos pela seca e pela miséria, eram enviados para o Acre, agora, os fracassados políticos, além de líderes políticos presos, como os da Revolta da Vacina. Este cenário pode ser ilustrado com charge “Geographia Política (Figura 2), publicada no Jornal do Brasil, em 1904, que considera o Acre a Sibéria do Brasil[4]. FIGURA 2 - Charge “Geographia Política” Fonte: JORNAL DO BRASIL apud SILVA, 2010, p. 212 Dessa forma, é possível compreender que o Acre, desde sua origem, era visto como “um deserto, um vazio, uma sociedade desorganizada, uma vaga geográfica e lugar de morte. (...) Todos foram então condenados a viver — e morrer — no Acre” (SILVA, 2010, p. 224). Para Silva (2010), a expressão “ir para o Acre” como sinônimo de morrer surgiu em associação às características geográficas da região acreana: seu clima, suas doenças e as dificuldades de acesso como uma ida sem volta, o que se somava com o envio de pessoas para o Acre como uma forma de www.compos.org.br - nº do documento: 03A306C2-B8EB-4552-A9DF-CBC13E539AB9 Page 11 Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação punição, ou seja, derivava daí uma morte simbólica, pois quem ia para o Acre, “geralmente entrava para o rol daqueles de quem não se tinha mais notícias no lugar de onde partira. Isso porque ao ‘ir para o Acre’ perdiam-se, muitas vezes por completo, os laços dos que partiam com aqueles que ficavam” (SILVA, 2010, p. 221). Na fronteira com Peru e a Bolívia, o Acre foi o último Estado anexado ao Brasil. Corresponde a 1,92% do território nacional, tem 22 municípios, quase 750 mil habitantes, e completa, em 2015, 53 anos de Estado brasileiro. Na atualidade, em tempos de interações fortemente mediadas por processos midiatizados, especialmente com a internet e as redes sociais, encontramos uma constante forma de atualização e expansão da história aqui apresentada, é aquela que afirma categoricamente que “o Acre não existe”. A partir dessa, muitas outras representações, impressões e manifestações de tom jocoso ou não, circulam no espaço online, onde o Acre é inserido num circuito interativo de ressignificações. São essas questões relativas à atualização das representações sobre o Acre nas redes sociais na internet que trataremos a seguir. 4. O Acre na internet Quando se digita “Acre” no site de busca Google, entre os resultados que variam das descrições do termo como uma unidade de medida e o site do Governo do Estado, está o glossário da Desciclopédia, cuja definição para “Acre” começa com: “Você quis dizer: nada”. Criada em 2005, a Desciclopédia[5] é uma versão brasileira da Uncyclopedia, ou seja, uma wi-ki paródia da Wikipédia. Entre os 170 verbetes destacados como “Melhores Artigos”, está a página que define “Acre”. Nela, as definições para “Acre” seguem com uma série de afirmações jocosas a respeito da história, geografia, economia, religião, clima, biodiversidade, culinária, entre outros tópicos que enfatizam determinada ilusão, fantasia ou conspiração do Estado. O verbete, criado em março de 2006 e atualizado pela última vez em janeiro de 2015, registra quase 350 mil acessos. A página reúne também “motivos para não acreditar na existência do Acre”, “piadinhas que você ainda vai ouvir sobre o Acre (mas que no fundo até faz sentido)”, e tantas versões a respeito do Estado: GEOGRAFIA: O Acre faz fronteira com a Terra do Nunca ao Norte, Oz ao Sul, Terra Média a Leste e a Lagoa Azul a Oeste, onde se situa a Ilha de Lost. Lula sobre o Acre: Eu não sei de nada. Maluf sobre o Acre: Fui EU que fiz! www.compos.org.br - nº do documento: 03A306C2-B8EB-4552-A9DF-CBC13E539AB9 Page 12 Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação Padre Quevedo sobre o Acre: Isso non ecziste!!! Internet Explorer sobre Acre: 404 Not Found. Curupira sobre Acre: Acre? Isso é lenda População de Atlântida sobre Acre: Recebemos mais turistas por ano que eles. Alguém sobre Acre: Que Acre nada! O que não existe mesmo é Roraima! Ninguém fala dela! Zeca Pagodinho sobre Acre: Nunca vi nem comi eu só ouço falar! Presidente do Corinthians sobre Acre: O novo estádio do Corinthians será construído lá. James Bond: Se eu te contar onde o Acre está, terei que te matar depois. Sócrates sobre o Acre: Só sei que nada sei. (...) (DESCICLOPEDIA, 2014) A página da Desciclopédia aponta para as demais manifestações burlescas a respeito da negação do Acre que estão presentes em sites, blogs, páginas e perfis em diversas redes sociais. Tais representações misturam humor, produtos e personagens midiáticos, faz referências à história, ciência, filosofia, entre outros. Como mostra a Figura 3, é oferecido ao Acre o título da versão brasileira para o seriado Lost, uma premiada série de televisão norte-americana, de drama e ficção científica, que seguiu a vida dos sobreviventes de um acidente aéreo numa misteriosa ilha tropical. A imagem pode ser encontrada na página no Facebook do site de entretenimento “Não Salvo”, por onde foi curtida mais de 6 mil vezes e compartilhada quase 16 mil vezes, em 15 dias. www.compos.org.br - nº do documento: 03A306C2-B8EB-4552-A9DF-CBC13E539AB9 Page 13 Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação FIGURA 3 - E se as séries mais famosas do mundo fossem feitas no Brasil? Fonte: Página “Não Salvo”, Facebook, 2012 O perfil “Não Salvo” é famoso na internet, criado por Maurício Cid. Possui mais de 1 milhão de seguidores no Facebook. Entre os mais de 800 comentários na postagem, temos: Usuário a) Confesso que só achei graça na parte do ACRE kkkk (3 curtidas) Usuário b) Teus seguidores do Acre vão ti boicotar!! Vai perder 30 visitas mensais!! (14 curtidas) Usuário c) kkkkk CHOREI NO ACRE (3 curtidas) Usuário d) Acre? É de comer? (0 curtidas) www.compos.org.br - nº do documento: 03A306C2-B8EB-4552-A9DF-CBC13E539AB9 Page 14 Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação Usuário e) Não, não é de comer, mas sua mãe sim! (15 curtidas) Usuário f) Acreanos são gente boa, porém estressadinhos demais. Nos 9 meses que morei em Rio Branco, qualquer brincadeira referente ao estado era motivo de xilique. Tenho parentes que são de lá, tenho amigos, mas isso é uma piada, fiquem na sua. (8 curtidas) Usuário g) O Acre é mesmo distante, mas o grau de mal informados que não conhecem nem o próprio mapa do Brasil me surpreende mais do que a distancia entre os estados kkkk vão estudar seus burros... (5 curtidas) Conforme os comentários acima, percebemos que é acionado um conflito: de um lado pessoas reproduzindo o suposto desconhecimento do Acre; de outro, usuários que ficam revoltados com os comentários, entre eles, gente que quer que o acreano entenda que tais manifestações são “apenas piada”; e, ainda, aqueles que parecem acreditar que os demais realmente desconhecem o Acre. Outro exemplo é a Figura 4, que mostra uma imagem de Paul Mccartney, ex-Beatles, com o texto: “De volta ao Acre” e postada com a legenda “Paulinho adora ir para lugares que não existem”. Em quatro dias, a imagem foi compartilhada mais de 130 vezes, e mais de 660 pessoas a curtiram. www.compos.org.br - nº do documento: 03A306C2-B8EB-4552-A9DF-CBC13E539AB9 Page 15 Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação FIGURA 4 - “Paulinho adora ir para lugares que não existem” Fonte: Página “João Lennon”, Facebook, 2013 A página “João Lennon” tem mais de 130 mil curtidores e é descrita como: “E se John Lennon e os Beatles fossem brasileiros? Seria mais ou menos assim”. Entre os 32 comentários para esta postagem estão: Usuário a) única que eu não consegui entender, que música é essa? (3 curtidas) Usuário b) hahahaha back in the U.S.S.R.! hahahaha (31 curtidas) Usuário c) U.S.S.R = Não existe mais / Acre = nunca existiu (27 curtidas) Usuário d) só pros muito fortes! Uma das melhores! Hahah (7 curtidas) Usuário e) o ACRE EXISTE! CALABOK (1 curtida) www.compos.org.br - nº do documento: 03A306C2-B8EB-4552-A9DF-CBC13E539AB9 Page 16 Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação Conforme os comentários, a frase que acompanha a imagem faz um paralelo com a música “Back in the USSR”: União das Repúblicas Socialistas Soviéticas foi um estado socialista que existiu entre 1922 e 1991. Além disso, um dos comentários diz: “só para os fortes”, o que sugere uma piada que poucos entenderão, ou seja, é uma piada, no mínimo, inteligente. Outro exemplo é a postagem do humorista Danilo Gentili, ex-participante do programa Custe o Que Custar - CQC. Sua página, no Facebook, já alcançou quase 4 milhões de curtidas. Na virada de 2013 para 2014, o apresentador postou em seu perfil no Facebook uma foto sua diante de fogos de artifício (FIGURA 5). FIGURA 5 - “O Ano Novo acabou de começar aqui onde estou. Feliz 2012 Acre!” Fonte: GENTILI, 2014 A postagem recebeu quase 123 mil curtidas, foi compartilhada mais de 1.500 vezes e recebeu 5.500 comentários[6], eis alguns deles: www.compos.org.br - nº do documento: 03A306C2-B8EB-4552-A9DF-CBC13E539AB9 Page 17 Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação Usuário a) Suas definições de processos foram atualizadas. (174 curtidas) Usuário b) fake, não tem capivara tomando espumante, logo não é o acre (3.162 curtidas) Usuário c) Sou do acre, e não gostei dessa piada! Vou mandar meu T- Rex te pegar... (794 curtidas) Usuário e) Quem ta falando mal do Acre, que em 2014 estude mais Geografia. _]_ (32 curtidas) Usuário f) Com essa piada acho que você deveria ser humorista do Casseta e Planeta. Beijos vou alimentar minha onça (28 curtidas) Com os comentários revoltosos, Danilo Gentili se manifestou novamente e postou: “A PIADA ERA SOBRE O FUSO-HORÄRIO - SOBRE O ACRE SER DISTANTE/LONGE. NÃO SOBRE O LUGAR SER OU NÃO ATRASADO! Mas eu prometo que a próxima piada será como o povo é analfabeto funcional"[7] (GENTILI, 2014). Por um lado, o humorista se revolta por achar que algumas pessoas não entendem que é apenas uma piada. Por outro, Gentili parece não saber que a revolta dos acreanos é acionada por uma manifestação identitária e que a questão do fusohorário despertou uma briga real entre sociedade civil e poder político local e nacional, durante três anos. Podemos também citar o meme “Willy Wonka Irônico”: Trata-se de uma cena do ator Gene Wilder, que faz o papel de Willy Wonka, no musical de 1971, A Fantástica Fábrica de Chocolate. Nela, o personagem pergunta para as crianças se elas gostariam de conhecer a nova máquina de sua fábrica e faz uma expressão irônica (FIGURA 6). www.compos.org.br - nº do documento: 03A306C2-B8EB-4552-A9DF-CBC13E539AB9 Page 18 Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação FIGURA 6 - Willy Wonka Irônico Fonte: SILVA, Facebook, 2013 A relação entre dizer que o Acre não existe e a redação do ENEM refere-se ao fato de que o tema do exame, em 2012, foi “o movimento imigratório para o Brasil no século XXI”. Entre os textos de apoio, um tratava do grande número de haitianos que se dirigiram ao Acre depois do terremoto em 2010; outro mostrava os destinos mais procurados pelos imigrantes bolivianos - entre eles, o Brasil; um terceiro texto tratava da imigração para o Brasil nos séculos XIX e XX. A imagem foi postada em 4 de novembro de 2012. Numa visita em janeiro de 2014, somavam os seguintes números: 3.147 compartilhamentos, 157 curtidas, mais de 30 comentários, entre eles: Usuário a) O povo das outras regiões criticando o tema.. No mínimo são sabiam o que escrever!! Rs (21 curtidas) Usuário b) tomei um susto quando vi o tema. pensei ate que tava errado .-. (2 curtidas) Usuário c) To orando por você que acha que o tema da redação era a imigração dos haitianos para o Acre. (10 curtidas) Usuário d) Não citei o Acre na minha redação! Mas só o fato de o Acre ter protagonizado o tema da redação já me deixou empolgado e tanto! www.compos.org.br - nº do documento: 03A306C2-B8EB-4552-A9DF-CBC13E539AB9 Page 19 Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação #EuAmooAcre E tenho orgulho de ser Acriano! (1 curtida) Tais passagens, conteúdos e interações encontradas identificam a complexidade do material aqui analisado e permitem relacionar os processos históricos de negação do estado do Acre às dinâmicas de memória e interação sociais midiatizadas. 5. Considerações finais Temos aqui as redes sociais na internet como ambientes que favorecem interações com características complexas e ambíguas, e que abrem espaço para distorções e descontextualizações. Em tal ambiente não-linear, deparamos com um cenário onde as estruturas não apresentam apenas um sentido, mas, sim, múltiplos caminhos, destinos e finais. Evidenciamos, nesse ambiente, um processo de atualização midiatizada da história do Acre, que se re-contextualiza ao ser mediada pelas redes sociais, cujas dinâmicas de interação reproduzem e alimentam uma cadeia representacional singular. As representações do estado do Acre na internet acontecem tanto a partir de acontecimentos midiáticos (ou jornalísticos), mas também em postagens aleatórias. Em todas as postagens, encontramos comentários que acionam um jogo de negação-afirmação e percebemos o que se pode chamar de lugares de memória. Afinal, tais representações e interações ficam disponíveis nas redes por tempo indeterminado e podem ser continuamente encontras e editadas, apresentando um passado histórico fragmentado, que se atualiza conforme as dinâmicas do presente. www.compos.org.br - nº do documento: 03A306C2-B8EB-4552-A9DF-CBC13E539AB9 Page 20 Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação Assim, tem-se a problemática do encontro entre diferentes intencionalidades e subjetividades, além da disputa e sobreposição de sentidos: de um lado, a convocação da memória que implica na atualização histórica de um passado específico; de outro, a reprodução de uma brincadeira, de uma “piada para poucos”. Por um lado, tais representações oportunizam diversos espaços interativos que revelam a dinamicidade das relações sociais nas redes; por outro, sugerem a atualização midiática de processos históricos de um lugar, evidenciando também a atualização de preconceitos e estereótipos. Em ambos os casos, parecem alimentar e atualizar, midiaticamente, o que fundou a identidade acreana: os processos de negação e defesa de um lugar. 1 Mestre em Comunicação e Interações Midiatizadas pela PUC Minas, Professora do curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Acre - UFAC, [email protected] 1Isso aqui também pode ser frisado ao tratar da problemática do arquivamento para a memória. Uma das características das interações nas redes sociais na internet, é a permanência das interações, “no sentido de que aquilo que foi publicado permanece acessível no site” (RECUERO, 2013, p. 54). 2Em 1878, mais de 15 mil e, em 1990, já somavam 158 mil migrantes (MORAIS, 2008). 3Era o 1o Ciclo da Borracha - datado de 1879 a 1912. 4O termo faz alusão a uma região que existiu na Rússia, para onde eram enviados os opositores para exílio forçado, nos tempos de Stálin. 5A rede de construção colaborativa de conteúdos possui mais de 51.500 membros-colaboradores e aproximadamente 45 mil artigos que simulam um formato científico, mas são dotados de humor e sarcasmo. 6Dados de 13 de janeiro de 2014. 7Reproduzimos os trechos em caixa alta, tal qual o autor o escreveu. AGUIAR, Sonia. Redes sociais na internet: desafios à pesquisa. In: XXX CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 2007. Santos, SP. Anais... Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação. 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