A TRANSFORMAÇÃO DA PAISAGEM NA ILHA DOS MARINHEIROS
EM RIO GRANDE (RS) À LUZ DA RESILIÊNCIA SOCIOECOLÓGICA.
CUNHA, Neide da Silva (1); QUEVEDO NETO, Pedro de Souza (2)
1. Universidade Federal do Rio Grande ( FURG). Instituto de Ciências Humanas e da Informação
(ICHI). Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Geografia (PPGeo)
[email protected]
2. Universidade Federal do Rio Grande ( FURG). Instituto de Ciências Humanas e da Informação
(ICHI). Doutor em Geografia, professor do Programa de Pós-Graduação em Geografia (PPGeo)
[email protected]
RESUMO
O Sistema Sócio-ecológico Ilha dos Marinheiros, integra o 2º Distrito do município de Rio Grande
(RS). Esta paisagem cultural foi constituída a partir das ações dos colonizadores portugueses sobre o
meio natural há mais de dois séculos, envolvendo a atividade agrícola e a pesca artesanal. O colapso
destas atividades repercute nos modos de vida dos ilhéus, que enfrentam um contexto de mudanças
rápidas. O turismo sustentado nos atrativos culturais e naturais surge como alternativa de fonte de
renda para a comunidade, entretanto as transformações da paisagem podem comprometer as qualidades dos recursos paisagísticos. Entre os fatores indutores destas mudanças estão: a expansão
urbana, as residências secundárias, a especulação imobiliária e o turismo sem planejamento, o que
pode gerar mudanças não desejáveis relativamente aos atrativos turísticos. Diante deste panorama
entende-se que o pensamento resiliente oferece uma importante contribuição para que as transformações sejam percebidas como oportunidades para desenvolver uma gestão adaptativa da paisagem
como recurso turístico.
Palavras-chave: Transformação; paisagem; resiliência; gestão adptativa; recurso turístico.
1. Introdução
Este trabalho tem por objetivo apresentar o cerne de uma dissertação de mestrado em curso
de pesquisa, a qual pretende realizar um estudo de caso da Ilha dos Marinheiros no município de Rio Grande (RS), aqui entendida como um Sistema Sócioecológico (SSE), sistema
caracterizado pela integração dos sistemas sociais e ecológicos (HOLLING, 1998), por isto
um sistema complexo, dotado de diversidade, incertezas e imprevisibilidade. O estudo visa
avaliar a resiliência deste sistema frente a rápidas mudanças. Entender os SSE tem se tornado imperativo diante da crise ambiental que atinge nosso planeta, visto que todos estão
interligados formando o SSE global.
Esta Ilha está situada na porção nordeste do município de Rio Grande (RS), com coordenadas 32°00’00”S e 52°09’00”O, mais precisamente no estuário da Lagoa dos Patos, na enseada estuarina denominada Saco do Arraial (COSTA e TAGLIANI, 2011, p.53). De acordo
com o relatório final do Subprojeto da Ilha dos Marinheiros (MMMA/PROBIO/CNPQ, 2006,
p.5), intitulado “Estudo de caso da Ilha dos Marinheiros, estuário da Laguna dos Patos, RS,
Brasil: Diagnóstico Ambiental, Modelo de Elevação Digital e avaliação de vulnerabilidade
frente a cenários de elevação do nível do mar”, esta Ilha possui características que a tornam
especial no contexto da região, tais como: Representatividade em área (40km²), diversidade
de ambientes (dunas, matas, terraços, marismas, lagoas), importante significado cultural e
científico, presença marcante de uma população tradicional (pescadores, agricultores), processo ligados às condições estuarinas (salinidade, erosão e transporte eólico) influenciando
os ambientes terrestres dos seus entornos em graus distintos e afetando diretamente a comunidade residente, e grande potencial turístico.
Este sistema constitui-se há mais de dois séculos pela integração das atividades da pesca
artesanal, da agricultura familiar e da cultura dos colonizadores portugueses, o que resultou
em uma paisagem cultural, ou seja, uma obra conjugada do homem e da natureza, um bem
cultural, que ilustra a evolução da sociedade e dos povoamentos ao longo dos tempos (UNESCO, 2010), mas que atualmente caminha para uma transformação supostamente não
desejada, tanto por seus habitantes como por visitantes que apreciam este lugar. As rápidas
mudanças poderão alcançar um estágio de transformação que venha a culminar na perda
de aspectos da cultura local, como o declínio das atividades agrícolas e pesqueiras, consequentemente da qualidade da paisagem, essenciais à resiliência deste sistema. Entre os
fatores indutores das mudanças estão (i) o colapso dos recursos pesqueiros, que vem decrescendo desde a década de 90 do século XX, (BRASIL, 2009); (ii) a expansão urbana, dos
municípios de Rio Grande e São José do Norte( município vizinho), que estão abrigando
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vultosos empreendimentos ligados ao advento do Pólo Naval, o que exerce pressão em todas as áreas próximas a estes municípios; (iii) as residências secundárias, atraídas pela
ambiência do lugar; (iv) o do empobrecimento da população e a oferta de imóveis a baixos
preços; (v) a especulação imobiliária que procura adquirir os imóveis e colocá-los no mercado com um valor agregado pelas amenidades do lugar; (vi) o turismo sem planejamento,
cuja expansão facilitada pela construção de uma ponte de acesso, o que antes ocorria apenas por pequenos barcos ou balsa com horários restritos.
Estas mudanças requerem uma resposta adaptativa, antes que os limiares das transformações sejam atingidos e o sistema caminhe para uma situação não desejável. Neste sentido
entende-se que a atividade turística pode ser uma oportunidade para a conservação deste
sistema, se praticada sob princípios sustentáveis, visto que os atributos paisagísticos desta
Ilha já atraem alguns turistas.
A situação observada na Ilha dos Marinheiros, não se trata de um caso isolado, ocorre também em diversos territórios marinhos-costeiros. Mudanças rápidas que causam degradação
do meio biofísico podem comprometer de forma sistêmica a sustentabilidade ambiental das
zonas costeiras, fato que demanda estudos voltados para a busca de soluções e formas de
gestão que venham ao encontro da complexidade com que estes problemas se apresentam
no presente. As formas de gestão, centralizadas na esfera governamental e com abordagens fragmentadas tem se mostrado insuficientes como ações capazes de promover a sustentabilidade,
O pensamento resiliente é motivado pela rede de pesquisadores de diversos países, a Aliance Resilience (AR), que colaboram para explorar a dinâmica dos SSEs. O corpo de conhecimento desenvolvido por esta rede abrange os conceitos de resiliência, adaptabilidade
e transformabilidade entre outros, e abre um caminho inovador para formas de gestão focadas não só em mudar, mas também em aprender sobre os SSEs. Sob este paradigma pretende-se dar seguimento a esta pesquisa, visto que contribui para a conservação da paisagem na Ilha dos Marinheiros, à medida em que a qualidade dos atributos visuais é entendida
como o principal apelo para às atividades turísticas, e que a manutenção desta atividade é
intrínseca a sustentabilidade do sistema como um todo. Sob este viés este estudo tem por
objetivo geral: avaliar a resiliência socioecológica da paisagem da Ilha dos Marinheiros. Como objetivos específicos pretende-se: (i) caracterizar a paisagem como um recurso turístico;
(ii) Avaliar a transformação da paisagem como resultado das práticas espaciais de apropriação e uso dos recursos paisagísticos; (iii) pesquisar a repercussão do fenômeno de residências secundárias sobre a qualidade da paisagem nesta Ilha; (iv) Identificar o estado desejá3° COLÓQUIO IBERO-AMERICANO PAISAGEM CULTURAL, PATRIMÔNIO E PROJETO - DESAFIOS E PERSPECTIVAS
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vel dos recursos paisagísticos, no que tange aos atributos visuais da paisagem, tanto por
parte dos moradores como por turistas que visitam esta Ilha.
Acredita-se que alcançar estes objetivos poderá contribuir com estratégias para a conservação da qualidade da paisagem através da co-gestão adaptativa (processo dinâmico, contínuo e auto-organizativo do aprender-fazendo) e do turismo planejado sob princípios sustentáveis, fatores participantes da resiliência sócioecológica. Co-gestão adaptativa é uma abordagem emergente para a gestão dos SSEs, que combina aprendizagem, adaptação e colaboração em que os direitos e responsabilidades são compartilhados (WALKER, 2006).
Esta pesquisa se valerá da abordagem quanti-qualitativa de caráter exploratório. A pesquisa
de campo contará com entrevistas semi-estruturadas com moradores e turistas em visita a
esta Ilha. Para identificar as preferências paisagísticas, será utilizada a técnica do fototeste,
que consiste em apresentar fotografias previamente selecionadas, para que os avaliadores
estabeleçam a ordem de preferência. Esta técnica requer procedimentos como levantamento fotográfico, escolha das imagens, elaboração de índices de valores e critérios para aplicação ainda em fase de elaboração. Pretende-se também fazer uso de ferramentas do Diagnóstico Rural Participativo (DRP), um conjunto de técnicas e ferramentas elaborado pelo
Ministério do Desenvolvimento Agrário MDA), o qual dispõe de dinâmicas de grupo que
possibilitam o diálogo, compartilhamento e problematização do processo.
2. O Sistema Socioecológico (SSE) Ilha dos Marinheiros
Considerou-se como marco temporal para definir o início da constituição deste sistema o
ano de 1737, por ser o primeiro ano de ocupação pelos portugueses na Ilha dos Marinheiros
quando foi fundada a atual cidade do Rio Grande, cujos interesses visavam bloquear o avanço dos espanhóis que disputavam estas terras meridionais. No entanto esta Ilha já era
ocupada por indígenas que praticavam a caça, a pesca ou algum tipo de cultivo para o consumo (RUIVO, 1994, p.148), portanto seria impreciso tentar estabelecer desde quando a
natureza começou a ser transformada neste local pela ação humana.
A paisagem observada atualmente nesta Ilha é resultado de processos de usos da terra
aliados aos conhecimentos dos portugueses, que perceberam as potencialidades dos recursos naturais deste local, como a fertilidade do solo, a qualidade da água e a abundância de
pescado, o que possibilitou o desenvolvimento das atividades da pesca e agricultura, fazendo destas práticas a base de seus sustentos e do modo de vida e configurando assim uma
paisagem que expressa a identidade desta comunidade ilhéu. Os aspectos desta cultura
podem ser observados nos canteiros das diversas hortaliças que estão dispostos por vários
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trechos que contornam os 35,4 km em volta desta Ilha, nos equipamentos de pesca dos
pátios das residências, nos barcos navegando ou ancorados, nos jardins floridos com rosas
e dálias de várias cores, nas construções mais antigas, em fim estes são alguns exemplos
do patrimônio tangível. Entretanto quem visita esta Ilha, pode observar também que o patrimônio destes ilhéus está presente nas festas, nos pratos típicos, nas histórias e costumes
desta comunidade de descendência portuguesa, que ao longo dos anos foram imprimindo
suas marcas neste lugar.
Entender os SSEs é de fundamental importância para a problemática de gestão ambiental
frente a crise socioambiental que afeta a sociedade contemporânea. SSE é um conceito que
considera a sociedade de risco como um sistema sócio-ecológico. SSEs são sistemas complexos, integrados, nos quais os seres humanos são parte da natureza, (Berkes e Folke,
1998). Embora a proteção dos ecossistemas marinhos e terrestres da área costeira brasileira esteja presente nas pautas das diversas esferas de gestão pública, federal, estadual ou
municipal, as formas convencionais de gestão, que excluem a participação das comunidades locais, não tem se mostrado bem sucedidas no enfrentamento às questões que ameaçam a sustentabilidade.
A abordagem da resiliência socioecológica oferece uma perspectiva inovadora focada na
capacidade adaptativa dos sistemas para absorver perturbações, se reorganizar enquanto
estiver passando por uma mudança, e ainda manter essencialmente a mesma função, estrutura, identidade e feedbacks e aprender com as mudanças (WALKER et al., 2004). Sob esta
ótica um SSE pode ser gestado de forma adaptativa, ou seja, de forma flexível e participativa envolvendo diversos conhecimentos e responsabilidades compartilhadas entre usuários
locais, agências governamentais, instituições de pesquisa e outras partes interessadas. A
cogestão adaptativa consiste neste sistema de gestão, que admite simultaneamente o teste
de diferentes políticas e destaca o processo dinâmico, contínuo e auto-organizativo do aprender-fazendo ( BERKES e FOLKE, 1998).
Embora esta pesquisa esteja na fase inicial, o que já foi investigado até o momento, através
de revisão bibliográfica, reforça a concepção de que o SSE Ilha dos Marinheiros apresenta
características de um sistema com capacidade adaptativa. Ao longo de mais de dois séculos
esta comunidade já experimentou alternadas fases de crises e apogeu. No período entre
1835 e 1840, ocorreu o fato que colaborou para o crescimento e desenvolvimento da Ilha, o
comerciante de Rio Grande, Thomas Messiter, recebeu do Marquês de Lisboa os primeiros
bacelos de parreiras, introduzindo assim a viticultura na Ilha e no Rio Grande do Sul. A partir
daí o desenvolvimento tornou-se acelerado nesta ilha, atraindo cada vez mais imigrantes
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portugueses, aumentando significativamente a população ilhéu. Porém em 1927 esta prosperidade sofreria um forte impacto, relacionado à concorrência dos vinhos produzidos pelo
mercado organizado da serra gaúcha que através do Sindicato Vinícola Rio Grandense,
formado neste ano, conseguiu fortalecer e especializar a indústria serrana. Apesar das novas condições a produção continuou e se manteve até 1945, quando surgiu uma praga e
dizimou as parreiras. A situação social se modificou bastante, além deste brusco impacto na
economia, o contexto pós-guerra fez cessar a vinda de mais imigrantes portugueses que
poderiam contribuir com a produtividade econômica. Mesmo com um contexto de crise,
quem ficou passou a dedicar-se à agricultura e à pesca enfrentando as adversidades e fazendo com que estas práticas resistissem até os dias atuais, (MORISSOM, 2003).
As paisagens das parreiras e dos cestos de uvas foram cedendo lugar à expansão da produção de hortaliças e das atividades pesqueiras. O sistema agrícola encontra-se bem diversificado com o cultivo de hortaliças como cebola, alface, beterraba, tomate, morango e outros de acordo com o calendário agrícola bem conhecido pelos agricultores. O sistema pesqueiro se baseia na captura de espécies como tainha (Mugil spp), corvina (Micropogonias
furnieri) e camarão-rosa (Farfantepenaeus paulensis), sendo este último a principal fonte de
renda deste sistema, devido ao valor comercial deste produto, no entanto esta espécie é
dependente de fatores ambientais tais como pluviosidade, o que pode ocasionar anos sucessivos sem a esperada safra do camarão, ficando os pescadores neste período na dependência do seguro defeso1, ou de outras espécies menos rentáveis. Nas entressafras os
pescadores dedicam-se também a confecção de redes de pesca e a marcenaria naval, arte
vinda dos antepassados portugueses que passaram seu ofício de pai para filho (MORISSOM, 2003).
Estas paisagens expressam a relação que o povo ilhéu tem com a terra e o mar, expressam
também sua forma simbólica, talvez não visível ou não percebida, mas impregnada de significados. Em cada espécie plantada, em cada embarcação construída, em cada modo de
lançar uma rede ou em outras práticas, estão conhecimentos e aprendizados acumulados
ao longo dos anos e registrados no fazer de cada dia. Os canteiros alinhados, as divisões
das propriedades feitas com canaviais, a vegetação, as dunas, as lagoas, tudo tem uma
história a ser contada, mesmo que somente a aparência material seja percebida. Todos es1
Seguro Defeso é uma política estratégica que protege as espécies e garante renda aos pescadores. Todo pescador profissional que exerce suas atividades de forma individual ou em regime de economia familiar fica impedido de pescar durante a reprodução das espécies. Nesse período, em que o tempo de proibição é definido por
lei, os pescadores profissionais recebem o Seguro mensalmente, na quantia de um salário mínimo. (Ministério da
Pesca e Aqüicultura (BRASIL, Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA) ).
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tes elementos interagem resultando em uma paisagem singular apreciada por visitantes que
se encantam com a estética deste lugar, tal qual descrito por (MORISSOM, 2003, p.238) “a
terra fértil que faz da Ilha dos Marinheiros em recanto reflorescente, [...] Um casarão que o
tempo fez cair, [...] impressionam o visitante com uma linguagem muda”. No entanto se houver uma alteração drástica das interações sócio-espaciais que caracterizam este sistema,
este aspecto atrativo da paisagem poderá ser perdido.
Paisagens são sistemas dinâmicos, portanto transformações são esperadas, a questão é
como as mudanças acontecem, com que intensidade e que direção tomam. A capacidade
adaptativa é capacidade de moldar as mudanças e aprender com a experiência. Em sistemas ecológicos está relacionada à diversidade genética, a diversidade biológica e a heterogeneidade de mosaicos de paisagens. Em sistemas sociais está relacionada com instituições e redes de conhecimento que aprendam a criar flexibilidade na resolução dos problemas e equilíbrio entre os interesses (FOLKE et al., 2002). Ao aproximar as abordagens do
pensamento resiliente com a realidade do SSE Ilha dos Marinheiros, percebe-se que há
possibilidades deste sistema se adaptar às mudanças, se souber aderir a um processo de
co-gestão adaptativa. Parte das possibilidades podem estar contidas nos atributos paisagísticos deste sistema, que já se inclui como um roteiro turístico, portanto como um recurso
turístico. Contudo, se os novos usos das paisagens significam novas oportunidades, também significam novos desafios.
A Ilha conta atualmente com 1259 habitantes e uma taxa negativa de crescimento anual de
(-0,50% ) (IBGE, 2010), distribuídos em cinco setores assim denominados: Porto Rei, Bandeirinhas, Fundos, Coréia e Marambaia, que se distinguem pelo tipo de infra-estrutura e aspectos econômicos. A distinção mais percebida é entre os setores do Porto Rei e Coréia. O
Porto Rei é considerado o principal setor da Ilha, conta com boa infra-estrutura e abriga o
maior número de habitantes. É diversificado economicamente, neste setor encontra-se o
cultivo de hortifrutigrangeiros e de algumas espécies de flores, conta com a produção da
tradicional jurupiga, uma bebida feita de preferência de uva branca, amassada com os pés
ou prensada (MORISSOM,2003), conta também com comércio de bares, lancherias e armazéns. Este setor já experimenta também uma maior diversificação de atividades voltadas
para o turismo. Entre os pontos turísticos relevantes estão a lagoa do Porto Rei e o Recanto
Nossa Senhora de Lourdes, inaugurado em 26 de maio de 2007, cujo objetivo principal é
propiciar um espaço aprazível à reflexão, oração e convívio com a natureza. Em frente ao
Santuário encontra-se também outra atração, um quiosque onde pode ser servido o típico
café da Ilha, acompanhado de pratos preparados com os produtos locais.
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Enquanto o setor do Porto Rei apresenta uma prosperidade no aspecto econômico, os moradores da Coréia enfrentam a precariedade econômica, visto que dependem quase que
exclusivamente da pesca. E por não disporem de meios de transporte dependem de atravessadores para comercializar o pescado, o que reduz mais ainda o ganho com a venda do
produto. Neste se observa a precariedade de saneamento básico, o que ressalta ainda mais
as condições de pobreza. O empobrecimento destes moradores leva-os de se desfazerem
das propriedades por valores bem inferiores aos praticados no mercado imobiliário. Diante
desta situação estes imóveis são adquiridos por profissionais liberais e aposentados provenientes da cidade de Rio Grande, para moradia de lazer. Estas moradias apresentam boa
infra-estrutura apresentando um visível contraste com as humildes residências dos moradores. Algumas propriedades são adquiridas para fins de atividades econômicas de pecuária e
agricultura em pequena escala sendo em caráter experimental, e com a utilização de mão
de obra local a custo baixo (FAURG, 2006, p.19).
Os demais setores são a Marambaia, considerada o segundo melhor setor em relação a
infra-estrutura (MMA/PROBIO/CNPQ, 2006), seguido dos setores Bandeirinhas onde predomina a atividade da pesca, mas também, (apesar de pouco expressivo) o cultivo de hortigrangeiros, porém com necessidade de insumos devido a pouca fertilidade do solo. A localidade denominada Fundos foi um dos setores que ganhou impulso na produção de hortigrangeiros, com a construção da ponte, devido à facilidade do escoamento da produção
para atacadistas do município de Rio Grande. No entanto pela falta de infra-estrutura este
setor possui lotes abandonados, tornando a área de pouco valor fundiário, mas com um elevado número de arrendatários que provavelmente já vislumbram a implementação de infraestrutura neste local e a consequente valorização dos imóveis deste setor.
Ao aproximar estas situações das teorias do pensamento resiliente, percebe-se a integração
complexa entre os sistemas naturais e humanos e as implicações que isto pode trazer para
a sustentabilidade do SSE, quando as relações entre as partes não são percebidas, ou se
percebidas são tratadas de forma isolada. O desenvolvimento sócio-econômico depende do
sistema ecológico, que pode ser degradado pelas condições de pobreza. Se apenas um
setor da Ilha está sendo beneficiado com o plus que os recursos turísticos estão trazendo
para o desenvolvimento econômico e social, os outros setores, ao caminharem para um estágio de pobreza poderão comprometer a sustentabilidade do todo. Por exemplo, a falta de
saneamento básico de alguns setores, atingirá os demais pelo inadequado descarte de lixo
e despejo de dejetos. A situação de pobreza dos pescadores poderão levar à sobreexploração dos recursos pesqueiros e ao descumprimento de regras quanto aos períodos
de proibição da pesca.
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As paisagens, entendidas como recursos turísticos de uso comum, estão sujeitas a diversos
interesses, o que poderá comprometer a sustentabilidade de todo um sistema, consequentemente a sustentabilidade da atividade turística. Os recursos turísticos são usados em comum por moradores, turistas e outros usuários, sem que seja possível ou aceitável socialmente a exclusão de qualquer grupo de usuários. Como conseqüência, o consumo dos recursos por um usuário reduz a quantidade, ou qualidade dos recursos disponíveis para outro. De acordo com (BRIASSOULIS,2002), os recursos sobre-explorados e degradados são
ameaças às atividades turísticas, pois à medida que as condições ambientais pioram e as
injustiças sociais aumentam, diminui a satisfação do turista, para Coriolano (2001, p.216217) o turista busca sonhos e ilusões, e nem sempre o real realiza estes sonhos, nem sempre pode proporcionar prazer, mas às vezes oferece o contrário, dor e sofrimento. Neste
sentido gestar os recursos turísticos significa cuidar da qualidade dos mesmos em todas as
suas dimensões.
A literatura sobre turismo ainda é incipiente, no entanto alguns estudos no Brasil, como os
de Coriolano (2006), Yázigi (2002) e Ruschmann (2008), indicam que a questão da sustentabilidade ambiental já faz parte das pesquisas na área do turismo e que este deva ser praticado de forma que contribua para a qualidade de vida das populações das áreas receptoras,
vise à conservação do patrimônio natural e cultural e desenvolva atividades que possam
garantir sua manutenção. O consensual é que a busca do contato com a natureza dinamizam o ramo do turismo nas últimas décadas. Segundo o Ministério do Turismo (2010), no
período de 2004 a 2010, dos turistas internacionais que vieram para o Brasil, 26,9% buscavam o ecoturismo e as aventuras em meio à natureza, perdendo apenas para os que buscavam as praias.
As sensações de prazer de estar em meio a natureza impulsionam também outro fenômeno
importante em estudos dos SSEs, as residências secundárias, ou residências de lazer, definidas pelo IBGE (2010), como “domicílio de uso ocasional que na data de referência servia
ocasionalmente de moradia, usados para descanso de fins de semana, férias ou outro fim,
mesmo que , na data de referência, seus ocupantes ocasionais estivessem presentes”. Os
estudos sobre esta temática são recentes no Brasil , Assis (2003) cita como trabalhos pioneiros os das geógrafas Odette Seabra (1979), que trata dos efeitos sócio-espaciais das
segundas residências (preço dos terrenos) no litoral de São Paulo e Olga Tulik (1995) que
avalia a dimensão e a distribuição das segundas residências no estado de São Paulo. Este
tipo de propriedade exige boas condições econômicas para manutenção deste desfrute,
portanto ter uma segunda residência como opção de lazer e descanso pode ser entendido
como um fator de status, que se manifesta no visual destes imóveis com conseqüente alte3° COLÓQUIO IBERO-AMERICANO PAISAGEM CULTURAL, PATRIMÔNIO E PROJETO - DESAFIOS E PERSPECTIVAS
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ração da paisagem e impactos que devem ser avaliados, sob pena deste fenômeno transformar de forma irreversível a paisagem com consequente perdas culturais, ambientais e
sociais. Segundo Tulik (1995, p.33), este fenômeno vem assumindo uma importância crescente que merece estudos em relação principalmente às repercussões espaciais e socioculturais, com destaque para a especulação imobiliária e alteração dos recursos naturais básicos.
Considerações finais
Avaliar a resiliência de um SSE é um processo que exige conexões entre teoria e experiência empírica, onde não há um caminho linear nem um manual a seguir, visto que os SSEs
estão sujeitos as incertezas e as surpresas. Resiliência é uma propriedade emergente dos
Sistemas Complexos Adaptativos, os quais apresentam como características, (i) não linearidade, o que está associado a dinâmica do estado do sistema, ou seja como o sistema se
movimenta em relação aos seus limiares, o que em SSE torna-se difícil a identificação. As
mudanças em sistemas sociais podem ser tão lentas que se tornam imperceptíveis, (ii)incertezas, (iii) propriedades emergentes, nos SSE é a resiliência, a capacidade de moldar
uma mudança de forma desejável, (iv) conexões transescalares, os SSEs existem ligados
em múltiplas escalas, no tempo e no espaço, as interações entre as escalas são de fundamental importância para o funcionamento dos sistemas, (v) auto-organização, recombinações de conhecimentos e experiências conducentes à inovações quando um sistemas está
atravessando um processo de adaptação. Embora não exista um manual que defina se um
sistema é resiliente ou não, algumas características são definidoras da resiliência, tais como
a quantidade de mudanças que um sistema pode sofrer e ainda assim manter os mesmos
controles sofre a sua função e estrutura, o grau de auto-organização e a capacidade de
construir e aumentar a capacidade de aprendizagem e adaptação. Alguns fatores de perda
de resiliência são indicados pela perda de biodiversidade, poluição tóxica , instituições fechadas e inflexíveis, subsídios perversos que encorajam o uso insustentáveis dos recursos
e foco na produção e aumento da eficiência. O aprimoramento da resiliência conta com o
papel fundamental da diversidade, tanto de recursos naturais e espécies dos sistemas naturais, como de redes, instituições, sabederes, conhecimentos ou outros elementos dos sistemas sociais.
As idéias aqui expostas estão fundamentadas nas concepções apresentadas pela Aliance
Resilience (AR), que oferece uma abordagem para guiar e organizar o pensamento nos estudos dos SSEs, no entanto os fundamentos teóricos são apenas uma parte que comple-
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mentará e será complementada com intensa experiência de trabalho de campo ainda por se
realizar no SSE Ilhados Marinheiros.
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YÁZIGI, E. A. Turismo e Paisagem. São Paulo: Contexto, 2002.
3° COLÓQUIO IBERO-AMERICANO PAISAGEM CULTURAL, PATRIMÔNIO E PROJETO - DESAFIOS E PERSPECTIVAS
Belo Horizonte, de 15 a 17 de setembro
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A TRANSFORMAÇÃO DA PAISAGEM NA ILHA DOS MARINHEIROS EM RIO GRANDE