Luis Vicente Miguelez O espaço ectópico da contratransferência pulsional > revista de psicanálise > artigos > p. 18-24 ano XVI, n. 169, maio/2003 Todo tratamento analítico conduz a uma interrogação sobre a particular maneira em que o analista é agarrado pelo laço transferencial. Indagar sobre os modos desse acontecimento me levou a ocupar-me da contratransferência. Se bem ela forma parte dos conceitos freudianos relativos à cura, hoje em dia o termo se vê substituído pelo da resistência do analista. A diversidade com a qual os fenômenos da contratransferência se apresentam impõem a sustentação de sua pertinência na prática clínica. Este texto afeta a tais fenômenos desde uma ótica algo diferente à tradicional. A partir de recortar da massa de ditos fenômenos aqueles que apresentam certas características em comum, estabelece-se um modo de intervenção do analista que tem seu fundamento em uma nova concepção dos mesmos. A intervenção em um ato que permite um olhar, uma demanda do Outro do paciente e que permite reposicionar sua situação na trama subjetiva da qual toma parte. > Palavras-chave: Contratransferência, resistência, ato, enunciação, transferência, olhar >18 All analytic treatment leads to questions about the specific way in which the analyst becomes involved in the transferential bond. How this takes place, therefore, stirred up my interest in countertransference. Although this notion is one of Freud’s concepts on treatment, today the term has been replaced by that of the analyst’s resistance. The diversity with which phenomena related to countertransference appear justify its use in clinical practice. This text discusses these phenomena from a point of view that is somewhat different from the traditional. Based on phenomena that show certain common characteristics, a mode of intervention by the analyst is presented that is based on a new conception of these phenomena. This type of intervention consists of an act that allows a look, or a demand, by the patient’s Other that lets her reposition her place in the subjective scheme she is a part of. > Key words: Countertransference, resistance, act, enunciation, transference, look artigos freudiana também bastante polêmica, aquela que anuncia que a comunicação mais frutífera que se produz em uma análise é a de inconsciente a inconsciente. Ao redor da mesma época, em “O futuro da terapia psicanalítica”, Freud introduz o termo da contratransferência, aquilo “que surge no meio sob a influência do enfermo sobre seu sentir inconsciente” e agrega que, como regra geral, são necessários seu reconhecimento e superação. A contratransferência neste plano tem um valor resistencial. A situação transferencial, carregada de paixões amorosas e assassinas, move no analista sentimentos que deverá poder manejar para poder continuar com a cura. A profundidade alcançada pela própria análise é posta em jogo por essa turbulência transferencial. É necessário avançar o máximo possível na análise do analista, pois a resistência passa fundamentalmente pelo não analisado por ele. Outra direção foi se impondo em meados dos anos 1950. Considerou-se então a contratransferência como um reflexo dos sentimentos, das intenções ou desejos inconscientes do paciente. Os sentimentos contratransferenciais informam ao analista sobre os impulsos inconscientes que lhe dirige o paciente em qualidade de objeto de transferência. A imagem do analista como um espelho vai se cristalizando. Puro reflexo dos impulsos conscientes ou inconscientes do paciente. Essa concepção transforma em abuso o possível uso da contratransferência. As conseqüências deste abuso resultaram em uma falsa implicância do analista nas análises que conduzia. Aportarei, da minha parte, do meu lado, outra interpretação do fenômeno contra- pulsional > revista de psicanálise > ano XVI, n. 169, maio/2003 Questionar-se sobre a presença do analista na cura é animar-se a usar um conceito que é controvertido, obscuro, difícil, que foi deixado de lado nestes últimos tempos. Refiro-me ao conceito da contratransferência. Criticado corretamente em seu devido momento na obra de Lacan, pelo abuso que se fazia dele e por certa concepção da análise que refletia, caiu em um total descrédito entre os analistas. Arrastou consigo algumas perguntas e reflexões necessárias sobre o que acontece com o analista durante a análise, e que importam de forma decisiva no direcionamento do tratamento. Em princípio não podemos desconhecer que somos afetados pelo paciente, pelo padecimento e o dizer desse outro que golpeia nosso ser. Afirmar que pagamos a direção de uma cura com nosso juízo, nossa palavra e com nossa pessoa não é dizer muito se não precisamos qual o cunho da moeda em curso. O título deste texto talvez desperte em alguns associações e, em outros, curiosidade. Minha intenção é poder conceitualizar aqueles fenômenos contratransferenciais que se me apresentaram na clínica e que tiveram um valor positivo na direção de um tratamento ou, dito de forma mais específica, contribuíram com o desenvolvimento de uma cura analítica. Perguntei-me por que conservar o termo contratransferência para referir-me a um modo particular da intervenção do analista durante o tratamento. Apesar da pouca consideração da qual goza, entendo que é parte daqueles conceitos freudianos sobre os quais vale a pena seguir trabalhando. É uma porta à constante interrogação sobre o que cura na psicanálise. Relacioná-lo-ei com outra afirmação >19 artigos pulsional > revista de psicanálise > ano XVI, n. 169, maio/2003 >20 transferencial. Uma dimensão diferente a da resistência do analista e a da resposta especular dos desejos reprimidos do paciente. Trata-se da extração de novos alcances da postura freudiana da comunicação de inconsciente a inconsciente no interior de uma cura analítica. Para avançar nessa direção é necessário recordar brevemente em quais condições uma análise é desenvolvida. Se bem em um tratamento analítico nos encontramos em uma relação de dois, não se trata de uma situação dual. É um acontecimento no qual participam duas pessoas, mas cuja estrutura determinante não é dual. Não se desenvolve no campo da interação de duas pessoas, fundamentalmente porque a subjetividade da qual se trata é a do paciente, e é essa a que vai se desdobrar na análise. O trabalho sobre essa subjetividade leva consigo a posta em jogo de uma trama onde os outros significativos do paciente intervêm. Esse desdobramento é produzido no marco de uma cena transferencial onde o analista fica fundamentalmente tomado não como sujeito de uma relação intersubjetiva, mas como objeto da transferência em uma dimensão fantasmática. Nesse contexto, vale perguntar-se de que maneira os sentimentos contratransferenciais que são despertados no analista podem ser aproveitados pelo trabalho da análise. Em um trabalho anterior, “Brincar com a palavra”, fiz menção a uma vinheta Winnicott, da qual voltarei a fazer uso. Tal vinheta clínica refere-se a um paciente que apresentava o sintoma de considerar-se inautêntico, de maneira que tudo o que lhe sucedia na vida estava marcado por esse profundo sentimento de inautenticidade. Interessa-me recortar do caso a intervenção que Winnicott faz: sublinhar o fato de que surge do bom uso da contratransferência. Winnicott não fala, no caso mencionado, de contratransferência, mas sou eu quem lê em tal intervenção um bom uso dela. A intervenção de Winnicott pode ser dividida em dois momentos. O primeiro é quando diz ao paciente “Vejo-o e o escuto falar como uma mulher referindo-se à inveja do pênis, sabendo que em meu divã tem um homem”. Após um breve silêncio, o paciente comenta: “Se eu falasse dessa mulher a alguém, tratariam-me de louco”, então Winnicott conclui: “Não, o louco sou eu, porque estou vendo e escutando a um homem e, sem embargo, se me apresenta um olhar de mulher”. Parafraseando Pessoa, podemos dizer que se trata de uma interpretação em drama que põe a descoberto um lugar de enunciação que não é nem do paciente, nem do analista. Este enunciado corresponde ao lugar desde onde é visto o paciente. Põe em jogo uma peculiar olhada materna. Aquela que desmentia a realidade do nascimento do paciente, sustentada pelo desejo extremamente poderoso de ter uma menina. A intervenção do analista coloca em descoberto que é sob o império desse olhar que os sentimentos de inautenticidade do paciente ganham sentido. Olhada louca, à qual permanecia aferrado, respondendo com sua inautenticidade à demanda materna. Quando Winnicott enuncia “o louco sou eu”, ou seja, a segunda parte de sua intervenção, é necessário tomá-la ao pé da letra, pois introduz aquilo pelo qual o analista se encontra afetado, o olhar da mãe artigos Outros exemplos para somar ao de Winnicott são de minha própria clínica. Há uma paciente a quem desde o momento inicial do tratamento trato por você, a quem havia conhecido em circunstâncias de uma atividade docente, impõe-se- me tratar-lhe de a senhora. Tenho alguns atos falhos nesse sentido, coisa que a paciente me faz notar com certa graça. Ato falho atrás de ato falho, a situação tornase embaraçosa. Resulta fastidioso o fato de que tenha que me lembrar a cada vez que lhe dirijo a palavra, que tenho que me referir a ela como você. Termino por interrogar-me sobre esse a senhora que se me impõe e o faço juntamente com ela. Descubro que essa paciente, que se queixava de que em seu trabalho tinha dificuldades de relacionar-se com os demais, dirigia-se a todos tratando-os de você, e praticamente exigia que a tratassem da mesma maneira. Digo-lhe que suspeito que nisso há algo de uma menina. Tratase de uma mulher de mais de quarenta anos. Isso produz uma associação, uma recordação de sua infância, onde escuta, ou crê escutar, a mãe, sendo a paciente a última filha de uma longa seqüência de irmãos, dizendo-lhe que seja sempre uma menina pequena. Ela, por sua vez, pensava durante sua infância que se crescesse, sua mãe morreria, já que era mais velha que as mães de suas colegas. Outra vinheta: um paciente adolescente, um jovem de 19 anos de idade, uma pessoa atraente, inteligente, que estava totalmente paralisado na vida, fechado em si mesmo, consumia maconha diariamente de maneira que ficava praticamente o tempo inteiro inativo, sem poder desen- pulsional > revista de psicanálise > ano XVI, n. 169, maio/2003 do paciente, que vê uma mulher onde há um homem. Com sua intervenção, dará a ver o olhar desse Outro do paciente e, por um momento, sente-se verdadeiramente louco. O que possibilita esse dar a ver tem uma apresentação contratransferencial. O analista deixa-se tomar pelo que a palavra do outro lhe produz com relação à enunciação do que tal palavra sustenta. O dar a ver esse olhar, ao qual o paciente permanece alienado, precipita-se no analista conjuntamente com a afirmação “o louco sou eu”. Intui-se, seguindo o texto, que este fica surpreendido com o que acaba de dizer, que lhe desperta certo desconforto, certa estranheza, mas que ao mesmo tempo adquire muita consistência. Como se algo lutasse por encontrar uma formulação que é, por sua vez, essa enunciação realizada. Esta é uma característica importante a ser destacada, a que se apresente como algo perturbador, um desconforto com algo de estranheza, mas que sem embargo impõe-se ao dizer. Daí a ectopia que estabeleço no título. Falar de um espaço ectópico é referir-se a um fora do lugar, a um lugar problemático, difícil de localizar, a um topo anômalo. Um sentimento associado a uma idéia que o analista não pode situar inteiramente nem do lado do paciente e nem de seu próprio lado. É algo que o habita, algo pelo qual, poderia dizer-se também, está possuído. Investe esse caráter embaraçoso para o analista e ao mesmo tempo, um fora de lugar. Este é um ponto importante, delicado, mas necessário para reconhecer e diferenciar de qualquer sentimento que o analista tenha durante uma cura. >21 artigos pulsional > revista de psicanálise > ano XVI, n. 169, maio/2003 >22 volver nada do que era realmente capaz de fazer. Em um dado momento de seu tratamento, à raiz de um sonho e de sua interpretação, onde o paciente fica identificado com um cadáver distinguido, propõe-se trazer-me uma pasta com contos, desenhos e poemas. Eram realmente muito bons. Na sessão seguinte pergunta-me por meu parecer e lhe digo que me interessaram, que gostei. O paciente insiste: “De verdade? Você achou interessante?” E me encontro dizendo: “Sim. Pareceram-me mais interessantes que você”. Horror contratransferencial. Ele, ao cabo de um momento de silêncio, diz: “Você não sabe o alívio que me dá”. E me confessa que o tempo inteiro se dá conta de que o que quer fazer dele é uma obra de arte. Conta também que tem guardado tudo o que fez desde que tinha dois anos. Os desenhos que fez quando tinha dois anos os tem, todos juntos, nessa pasta da qual me trouxe uma parte. Os desenhos dos dois anos, a composição “a vaca”, da escola de primeiro grau, e esses trabalhos atuais, tudo indiscriminado. No plano de ser ele uma obra de arte, tudo estava posto sob o olhar materno. O “me interessam mais que você” com o qual me encontro dizendo separa a obra de arte de sua produção. Permite-o, de alguma maneira, separar a sua obra de si mesmo. Da exigência superegóica de ser uma obra de arte passa a poder trabalhar sobre o objeto que se desprende dele. Em pouco tempo chega a publicar, junto com um amigo, um comic, segue escrevendo e ordena suas escrituras para publicação. Separa o que considera bom do que não é bom. Por último, outra pequena vinheta. Refere-se ao esquecimento de um nome. Começava um tratamento e esqueci o nome do paciente, coisa que não acontece, mas o fato é que o esqueci completamente. Traz um inconveniente, o paciente não usa o seu nome para se referir a si próprio e então não me resta outra maneira de chegar ao seu nome se não voltar a perguntar-lhe. Isso se soma ao fato de que o paciente se queixa de falta de reconhecimento. Toda uma situação por demais incômoda. Ao cabo de um tempo, meu esquecimento se apresenta possuindo uma vinculação com o que é para ele seu nome. Sem saber por que isso se me impõe, pergunto-lhe quase intempestivamente como foi que lhe deram seu nome. Fico sabendo que o nome que carrega é o nome do avô, a quem detesta. É um nome que rejeita porque expressa a submissão de seu próprio pai a seu avô. Não é um nome que leve uma marca de respeito ou carinho, senão que a submissão ao avô. Além de tudo, e isto é o mais peculiar, é que ele – sem que praticamente ninguém saiba – se inventou um apelido, com o qual fala consigo mesmo. Dessa maneira, rejeita esse nome que não consegue assimilar nem fazer seu. Estes recortes clínicos descrevem sentimentos perturbadores, os quais encontrei-me suportando durante as análises. Em uma, a chateação diante do ato falho reiterado; em outra, a surpresa e o desconcerto pelo que lhe disse ao jovem, e, na última, a desorientação diante do esquecimento do nome de meu paciente. Estas emoções revelaram-se como algo ao qual deveria-se dar um lugar. Pressentia que estavam referidas a pontos nucleares das análises em curso, mas que não podia localizar. Apesar disso, tinha a certeza de que não vinham de conflitos próprios. artigos tro do paciente, é que se sente possuído por um sentimento estranho, de um fora de lugar, de uma perturbação que palpita por um ato, por um desenrolar-se disso. Por outra parte, faz-se necessário considerar a contratransferência em toda sua amplitude, ou seja, desde o sentimento que provoca no analista até sua intervenção em um ato. Essa circunstância situa à intervenção a borde de um abismo, já que pode tratarse de um ato ou de um acting . Põe ao analista ao borde do acting. Como se conduzir nessa beira do abismo? A análise é algo que importa ao singular, ao específico de cada analista. O que torna sua função eficaz é que esse possa trabalhar sobre sua implicação em cada análise. A arte singular com a qual devemos contar não nos exime de pensar conceitualmente o que fazemos espontaneamente. O fenômeno contratransferencial é um ruído que se produz na atenção flutuante. Altera a atenção serenamente flutuante de uma análise. Algo se impõe e empurra do lado do analista ao ato. Essas manifestações contratransferenciais que, entenda-se bem, não são qualquer sentimento que tenha o analista no transcurso de uma análise, possuem um caráter enigmático que é necessário interrogar, mas o tempo para tal interrogação é escasso. Há algo enigmático nesse fora de lugar que se apresenta também fora de tempo. É necessário reconhecer-lhes a dimensão de irrupção surpresiva que possuem. Há efetivamente uma questão de tempos diferentes nos exemplos clínicos aos pulsional > revista de psicanálise > ano XVI, n. 169, maio/2003 A intervenção que se precipita funciona na maneira da construção no sentido freudiano do termo, ou seja, é uma elaboração do analista, nesses casos, não consciente, destinada a reconstituir parte da história infantil do paciente. Que parte da história infantil? Fundamentalmente aquela na qual se encontrou desamparado frente a uma demanda impossível de um Outro significativo. O sujeito, no momento em que consulta, encontra-se dominado por um olhar ou uma demanda que é para ele inconsciente, e à qual responde com o seu sintoma. Podemos observar no caso que expõe Winnicott que a inautenticidade do paciente vem a sustentar o olhar louco da mãe. Nas outras vinhetas clínicass, vemos também o lugar que o sintoma ocupa em relação ao Outro. O que o analista traz ao presente, fazendo-se eco do indício contratransferencial que se lhe é manifesto, é o lugar desde o qual o paciente está sendo demandado pelo Outro. O analista traz ao aqui e agora da cura um enunciado que permanecia oculto. Não nos esqueçamos que é desde o Outro ao que se dirige, que o discurso retorna, constituindo-se. Certas emoções e condutas contratransferenciais apresentam ao analista a pista do que a demanda da satisfação do outro está causando no paciente. Em um sentido diferente do que foi teorizado até hoje, sugiro que o que o fenômeno contratransferencial pode pôr a descoberto não é o reflexo de impulsos inconscientes dirigidos ao analista, senão o que o Outro pretende dele. Isto, que é inconsciente, apresenta-se de maneira ectópica. Enquanto no analista ressoam ecos do Ou- >23 artigos pulsional > revista de psicanálise > ano XVI, n. 169, maio/2003 >24 quais fiz referência. Mas em todos os casos urge algo da ordem do ato. Se bem encontrar-se produzindo um ato falho é diferente de refletir sobre o que nos sucede, também há grande diferença entre não saber o que fazer com o ato falho e dar-lhe um lugar na cura. Não devemos esquecer que nossa natureza a esse respeito é dupla: temos algo de Prometeu, o previsor, o que compreende por adiantado, mas também de seu irmão, Epimeteu, o que compreende depois. Fazemos planos e a situação contratransferencial nos surpreende. É portanto importante interrogar esse caráter surpresivo, associado a ela. Em boa parte, o surpresivo da questão está dado pela sensação de não saber quem fala na intervenção que fazemos. Não falou somente um. A receptividade do inconsciente do analista põe, nesse caso, em jogo os outros que se dirigem ao paciente.. São intervenções que alteram o pretendido diálogo analítico, já que introduzem a um Outro em cena, por exemplo, a loucura do olhar materno do caso de Winnicott. Fazer com que o paciente ouça o que o habita enquanto demanda do Outro permite que seu discurso retorne desde o lugar ao qual verdadeiramente vai dirigido. Instala em ato uma enunciação verdadeira. Se a intervenção é acertada, tem força realizadora, performativa, que não se refere a algo do conteúdo, seja esse manifesto ou latente, não aponta a algo da ordem do enunciado, senão que sinala ao Outro ao qual o paciente está respondendo sem sabê-lo. Ou seja, põe a céu aberto uma enunciação elidida. Sobre a idéia do analista como espelho não compartilho dela se o espelho que o analista põe em jogo é o espelho de Nar- ciso. Seria algo diferente se o espelho desse a ver não ao analisante, mas ao olhar que constitui o quadro no qual o paciente se precipita. Para concluir, interessa-me remarcar que se a um analista lhe afeta, em todo o sentido da palavra, o que o paciente fala, aquele então está solicitado pelo desejo e complacência do Outro na cena transferencial. Sem que isso ocorra, é impossível que a interpretação seja um acontecimento revelador. Pode algo do que é comunicado de inconsciente a inconsciente dar a ver um olhar, fazer ouvir uma palavra significativa para o paciente, ou enredar a escuta do analista em seus próprios fantasmas. O estar advertido contra essas possibilidades permite ao analista considerar a contratransferência não somente em sua dimensão resistencial, mas também se valer dessas emoções em benefício da cura. Referências FREUD, S. El futuro de la terapia psicoanalítica. Obras completas . Madrid: Biblioteca Nueva, 1968. v. II _____ Consejos al médico en el tratamiento psicoanalítico. Obras Completas, op. cit. v. II. LACAN, J. La dirección de la cura y los princípios de su poder. In: Escritos I. Buenos Aires: Siglo XXI, 1972. WINNICOTT, D. Realidad y juego . Barcelona: Gedisa, 1979. Artigo recebido em fevereiro/2003 Aprovado para publicação em fevereiro/2003