Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 12 • maio 2014 Edição Especial • Homenageado F E R N A N D O T A R A L L O A NEUTRALIZAÇÃO ENTRE RURAL E URBANO NO PORTUGUÊS BRASILEIRO1 Tânia Ferreira Rezende2 (UFG) [email protected] RESUMO: Este artigo discute a neutralização entre a fala rural e a fala urbana, a partir da descrição e análise da posição do adjetivo adnominal no SN, considerado como parte da mudança da ordem Adjetivo/Nome (AN) para a ordem Nome/Adjetivo (NA), que envolve as línguas românicas e que se desenvolve na língua portuguesa desde seus primórdios. Para tanto, os resultados da análise da frequência de ocorrência da ordem AN, nos dados sob análise, são comparados aos resultados do levantamento da frequência de ocorrência de AN na fala rural de Barra Longa, em Minas Gerais, e aos resultados de análises do mesmo fenômeno, empreendidas por Nobre (1989), Cohen (1990), Boff (1991) e Muller et al. (2002), com dados do século XX, da língua portuguesa escrita e do português brasileiro urbano, oral e escrito. Os dados que compõem o corpus deste estudo foram recolhidos na área rural das regiões do centro e do norte de Goiás, por estas serem as regiões goianas que apresentam maior grau de isolamento geográfico e cultural e baixa densidade demográfica. As comunidades de fala selecionadas para pesquisa foram Pombal, comunidade afro-brasileira, situada no município de Santa Rita do Novo Destino, Traíras, comunidade remanescente de antigo julgado formado durante o ciclo do ouro, e Acaba Vida, comunidade de migrantes oriundos de Governador Valadares, em Minas Gerais. Os resultados das descrições e análises dos dados e a discussão dos resultados permitem repensar o pressuposto do conservadorismo da fala rural goiana e apontam para a neutralização entre o rural e o urbano, no que diz respeito à posição do adjetivo no SN. PALAVRAS-CHAVE: adjetivo, nome, conservação linguística, mudança linguística. ABSTRACT: This article aims to discuss the neutralization between the rural speech and the urban speech, throughout description and analysis of the adnominal adjective position in NP, considered as part of the change AN>NA that happens to Romanic languages and that is being developed in Portuguese language since its earliest periods. In order to verify the maintenance degree of the rural speech from Goiás, the results from the frequency analysis of AN order in the data studied are compared to the results from the frequency analysis of AN order in rural speech of Barra Longa, in Minas Gerais. They are also compared to analysis of the same phenomenon, with written Portuguese data from the twentieth century and from contemporary urban Brazilian Portuguese, oral and written. The empirical data analyzed in this study was collected in rural areas in Goiás, in central and north regions of the State, since these regions present a major degree of geographic and cultural isolation and low demographic density. The speech communities selected to this research were Pombal, an Afro-Brazilian community, located in the surroundings of Santa Rita do Novo Destino; Traíras, a community that remained from an ancient village formed during the gold cycle; and Acaba Vida, a community composed by migrants coming from Governador Valadares, in Minas Gerais. The results of the descriptions and analyses of the data studied and the discussion of the results enable us to relativize the maintenance of the rural speech of Goiás and 1 Esta discussão é a reelaboração de um recorte da análise de minha tese de doutorado intitulada “A mudança Adjetivo/Nome>Nome/Adjetivo e o Conservadorismo da Fala Rural Goiana”, defendida no Programa de Pós-Graduação em Linguística, Linha B – Variação e Mudança no Português do Brasil, na Universidade Federal de Minas Gerais, em 2008. 2 Professora Adjunta da Faculdade de Letras/Universidade Federal de Goiás. Doutora em Estudos Linguísticos – Variação e Mudança Linguística no Brasil – pela Universidade Federal de Minas Gerais. Web-Revista SOCIODIALETO: Bach., Linc., Mestrado Letras UEMS/Campo Grande, v. 4, nº 12, mai. 2014 73 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 12 • maio 2014 Edição Especial • Homenageado F E R N A N D O T A R A L L O point to the possibility of the similarities between rural and urban, concerning the adjective position in NP. KEY WORDS: adjective, noun, language maintenance, language change. 1 Introdução Há um pressuposto quase consensual entre os linguistas brasileiros que a área rural, por estar isolada, tende a conservar padrões linguísticos que nos centros urbanos, sob pressão da escrita e da escola, inovam mais rapidamente (MIAZZI, 1972; BORTONI-RICARDO, 2005; BORGES; SALLES, 2005; ANDRADE, 2007). Em geral, entende-se o isolamento das áreas rurais como sendo geográfico – distanciamento dos centros urbanos desenvolvidos – e cultural – baixa ou nenhuma escolaridade dos indivíduos, bem como o distanciamento de contextos e situações de letramento; neste sentido, o isolamento pode ser encontrado também em áreas urbanas. O conservadorismo linguístico, por seu turno, pode ser visto como a manutenção de características ou tendências linguísticas de períodos anteriores da língua portuguesa (LP) no português brasileiro (PB). No PB, são considerados conservadores os traços linguísticos característicos do português arcaico tardio (século XVI) (MELO, 1975), os quais já foram inovados no português europeu (PE) e, provavelmente, no padrão linguístico urbano culto do PB. Com respeito à fala do Centro-Oeste brasileiro, de colonização mais tardia, afirmações apoiadas na historiografia local das décadas de 70 e 80 (BORGES; SALLES, 2005; ANDRADE, 2007), as quais, por sua vez, seguem o olhar dos cronistas viajantes europeus (PALACÍN, 1981; PALACÍN; MORAES, 1989; PALACÍN, 1994; PALACÍN et al., 1995), apontam para um total isolamento dessa região, nos séculos XVIII e XIX, e, consequentemente, para o conservadorismo dos hábitos sociais, culturais e linguísticos da população. Assim, a fala de Goiás, estado situado no CentroOeste do Brasil, é sumariamente considerada tão conservadora quanto a fala rural brasileira (BORGES; SALLES, 2005; ANDRADE, 2007; MATTOS, 2013). Web-Revista SOCIODIALETO: Bach., Linc., Mestrado Letras UEMS/Campo Grande, v. 4, nº 12, mai. 2014 74 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 12 • maio 2014 Edição Especial • Homenageado F E R N A N D O T A R A L L O Diante disso, tendo em vista as atuais mudanças conjunturais e estruturais pelas quais passam as áreas rurais brasileiras, sobretudo na região Centro-Oeste, objetiva-se com o presente artigo discutir a neutralização entre a fala rural e a fala urbana, a partir dos resultados de um estudo sobre a fala rural goiana, isto é, a fala rural de um estado ruralizado, que, de acordo com os pressupostos apresentados anteriormente, constituem o extremo da conservação linguística no Brasil. Visa ainda esta discussão contribuir com os estudos sobre a história de formação e fixação do português em Goiás e com o entendimento da manutenção linguística no curso de avançados processos de mudança linguística. O ponto de partida desta discussão são as propostas de neutralização linguística rural/urbana de Cohen (2007) e de Rezende Santos (2008), para defender que a noção de isolamento, aliada à ideia de decadência, que permeia a historiografia tradicional sobre Goiás, e a noção de conservadorismo linguístico da fala rural e da fala goiana, na bibliografia consultada, refletem uma concepção idealizada de língua e uma visão essencializada das áreas rurais. Sob outras perspectivas de análise, a caracterização da fala goiana e da fala rural brasileira poderá ser outra, conforme veremos neste trabalho. Além dessa defesa, propõe-se também a reflexão acerca das categorias sociais pré-estabelecidas e generalizadas para o estudo da variação e da mudança linguísticas em comunidades, ao mesmo tempo, específicas e complexas em sua constituição sóciohistórica e humana. A argumentação em favor da neutralização rural/urbano, na linguagem, é evidenciada e sustentada pelos resultados de estudos sobre a posição do adjetivo no SN, um fenômeno linguístico socialmente não marcado, com vistas a depreender a frequência de ocorrência das ordens adjetivo + nome (AN) e nome + adjetivo (NA), comparando-se os resultados da análise da fala rural goiana (Rezende Santos, 2008) a resultados de estudos semelhantes realizados com a fala urbana, culta e coloquial, oral e escrita, por Cohen (1989), Nobre (1989), Boff (1990), Müller et al. (2002), Callou e Serra (2003) e Callou et al. (s/d). Web-Revista SOCIODIALETO: Bach., Linc., Mestrado Letras UEMS/Campo Grande, v. 4, nº 12, mai. 2014 75 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 12 • maio 2014 Edição Especial • Homenageado F E R N A N D O T A R A L L O Para a análise da posição do adjetivo no SN da fala rural goiana, empreendida em Rezende Santos (2008), cujos resultados ora se rediscutem, foram gerados dados a partir da documentação da oralidade de três comunidades rurais, situadas nas mesorregiões do Centro e do Norte de Goiás. São elas: Pombal, comunidade de afrobrasileiros, situada no município de Santa Rita do Novo Destino; Traíras, antigo arraial minerífero, um dos maiores julgados administrativos da Capitania de Goiás, durante os séculos XVIII e XIX, situado no município de Niquelândia3; neste mesmo município, situa-se também a comunidade de migrantes mineiros de Acaba Vida4; e os dados de fala da área rural de Barra Longa, na região do Carmo, em Minas Gerais.5 A pesquisa de campo, etnográfica, na modalidade pesquisa participante, foi realizada em dois períodos: entre os anos de 1996 e 2000 e entre 2001 e 2004. Os dados foram gerados por meio da gravação de conversas espontâneas e entrevistas com homens e mulheres sem escolarização formal ou com até 3 anos (primário incompleto) de estudo escolar; somente um dos entrevistados tem 12 anos (segundo grau completo) de escolarização. Os participantes da pesquisa estão distribuídos em três grupos etários: (1) 12-32 (4 = 1 mulher e 3 homens), (2) 40-58 (13 = 6 mulheres e 7 homens), (3) de 60 acima (20 = 9 mulheres e 11homens), apresentando baixo, médio e alto grau de interação social, tanto interna à comunidade (com os de dentro das comunidade, os amigos mais próximos, os parentes etc) quanto externa (com os de fora das comunidades, das cidades vizinhas, de Goiânia, de Brasília, como os pesquisadores das universidades e dos movimentos sociais, os agentes de saúde, os funcionários das secretarias de educação dos municípios e do estado, políticos, que vão até as comunidades; e os médicos e outros, quando os participantes se deslocam para fora de suas respectivas comunidades) das comunidades. 3 Dados pertencentes ao acervo do Obiah Grupo Intercultural de Estudos Transdisciplinares da Linguagem, resultantes dos projetos de pesquisa “Estudo da Fala Goiana” (1997-2006) e “Das trilhas do ouro aos trilhos de ferro: entrada e difusão da língua portuguesa em Goiás” (2007-2011). 4 Dados constantes dos anexos de Pádua (2002). 5 Material do banco de dados do projeto “Pelas trilhas de Minas: a língua e as bandeiras nas Gerais”, desenvolvido na Universidade Federal de Minas Gerais, sob a coordenação da Profª Drª Maria Antonieta Amarante de Mendonça Cohen, a quem agradeço pela gentileza em ceder os dados. Web-Revista SOCIODIALETO: Bach., Linc., Mestrado Letras UEMS/Campo Grande, v. 4, nº 12, mai. 2014 76 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 12 • maio 2014 Edição Especial • Homenageado F E R N A N D O T A R A L L O A interação social entre os participantes, além de sua importância primária para a presente discussão, foi considerada na interpretação dos resultados, devido às dificuldades em encontrar pessoas, cujo perfil social refletisse as estratificações sociais canônicas exigidas para um tratamento sociolinguístico mais ortodoxo dos dados. O grau de interação social, interna e externa, foi depreendido nas entrevistas, por meio de perguntas diretas sobre a mobilidade dos participantes e de seus parentes, quando as informações sobre essa questão dadas nas narrativas e conversas espontâneas não eram consideradas suficientes. O grau de significância da distribuição do adjetivo no SN e das ordens AN e NA, nos dados, é aferido por meio do teste do Chi Quadrado, efetuado através dos recursos disponibilizados em: <http://faculty.vassar.edu/lowry/newcs.html>. apresentação dos resultados são empregados os seguintes símbolos: Na (chi-quadrado), df (grau de liberdade) e p (probabilidade de ocorrência da ordem AN). A noção de mudança linguística associada à manutenção linguística, defendida por Jakobson (1995) e por Milroy (1992), em que na mudança há um princípio de continuidade, sincronia dinâmica ou sincronia diacrônica, nos termos de Jakobson (1995), é considerada nas discussões, pois o fenômeno se revelou mais um problema de manutenção do que de mudança linguística. A teoria da variação e da mudança linguística e as metodologias de geração e tratamento dos dados Sociolinguística Variacionista (WEINREICH; LABOV; HERZOG, 1968; LABOV, 1972; 1994; 2001; 2010) embasam teoricamente a análise dos dados e a discussão dos resultados.Esta discussão poderá contribuir para o conhecimento de alguns processos de formação do PB no Centro-Oeste do Brasil, especificamente no território atualmente denominado de estado de Goiás, para a elucidação de possíveis diferenças/semelhanças entre os falares rural e urbano, repensando as noções de isolamento geográfico-cultural e de conservadorismo linguístico, e reelaborando a relação entre rural e urbano para além da oposição expressa seja na polarização seja no contínuo. Poderá contribuir ainda para as discussões sobre a manutenção linguística no curso de avançados processos de mudança linguística. Web-Revista SOCIODIALETO: Bach., Linc., Mestrado Letras UEMS/Campo Grande, v. 4, nº 12, mai. 2014 77 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 12 • maio 2014 Edição Especial • Homenageado F E R N A N D O T A R A L L O 2 As comunidades sociolinguísticas goianas 2.1 O Quilombo de Pombal A comunidade de Pombal fica a 250 km de Goiânia, a 190 km de Brasília e a seis km à direita da BR 080 (sentido Brasília-Belém), às margens do Rio Maranhão, no Município de Santa Rita do Novo Destino, no Vale do São Patrício, Mesorregião do Centro Goiano, Microrregião de Ceres. O município de Santa Rita do Novo Destino, recentemente emancipado, até o ano de 1996 pertencia ao município de Barro Alto. Este, por sua vez, até o ano de 1958, data de sua emancipação política, pertencia ao município de Pirenópolis. Assim, tendo em vista que muitos dos pombalenses mais velhos (acima de 80 anos de idade) nasceram na comunidade e, segundo os relatos dos mais antigos, seus pais também nasceram na região, pode-se deduzir que a comunidade de Pombal se formou em um território pertencente ao município de Pirenópolis, no final do século XIX. A fundação Cultural Palmares (www.palmares.gov.br/sicab), com base em dados de 2005, registra a existência de 216 habitantes em Pombal. De acordo com as informações obtidas em nosso próprio levantamento, dentro dos limites de Pombal residem cerca de 203 habitantes. São famílias distribuídas em fazendas e sítios, às margens de três córregos e com três descendências distintas: Córrego do Puba – os Borges Cardoso, oriundos de Pirenópolis; Córrego Pombal – os Borges Vieira, oriundos de Minas Gerais; e Córrego do Chiqueiro – os Borges dos Santos e os Borges Rodrigues, oriundos de Água Quente, município de Niquelândia. Com relação ao perfil social da comunidade, o analfabetismo predomina entre a população acima de 67 anos de idade e, nas faixas intermediárias (de 40 a 58 anos de idade), as pessoas que estudaram frequentaram a escola por, no máximo, dois ou três anos. Entre os jovens de 25 a 35 anos de idade, a maioria possui até quatro anos de Web-Revista SOCIODIALETO: Bach., Linc., Mestrado Letras UEMS/Campo Grande, v. 4, nº 12, mai. 2014 78 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 12 • maio 2014 Edição Especial • Homenageado F E R N A N D O T A R A L L O escolaridade e alguns poucos frequentaram a escola por até 12 anos, concluindo o Ensino Médio. De acordo com dados fornecidos pela secretaria Municipal de Educação de Santa Rita do Novo Destino, a comunidade de Pombal possuía 12 escolas em 1998, atendendo crianças do Ensino Fundamental, no sistema multisseriado. Em 1999, esse número foi reduzido para sete e a prefeitura, a partir de então, disponibilizou um carro para transportar os alunos de Pombal, que já tenham concluído o Ensino Fundamental, até o povoado de Verdelândia para cursar o Ensino Médio. Atualmente, todas as escolas da comunidade foram fechadas e os alunos que querem cursar o ensino Fundamental se deslocam até a Placa, povoado à margem da BR 080, a 7 km da comunidade, ou Verdelândia, distrito de Santa Rita do Novo Destino. As pessoas não-escolarizadas apresentam diferentes níveis de letramento, dependendo do contato com situações ou culturas de letramento. Alguns pombalenses não-escolarizadas, que possuem alto grau de mobilidade geográfica, podem apresentar níveis de letramento alto, pois interagem cotidianamente com a tecnologia da escrita, em diferentes contextos e situações. Dado que a principal atividade da comunidade é a agricultura familiar, os homens em geral são lavradores, trabalham em suas próprias lavouras e na lavoura comunitária coordenada pela prefeitura e pela antiga Emater-GO, agora Agência Rural. As mulheres cuidam da casa, dos filhos e, eventualmente, dos netos. Algumas são professoras e outras são merendeiras na escola da comunidade. Todas elas, quando necessário, auxiliam os homens na lavoura. Com a recente chegada da mineradora Anglo-América a Barro Alto, muitos pombalenses estão deixando a comunidade para “trabalhar fichado na Firma”. Há circulação de dinheiro na comunidade e as atividades agropecuárias são o principal meio de sustentabilidade. Atualmente, com os benefícios recebidos dos governos federal e estadual a circulação de dinheiro aumentou. Embora a presença de religiões evangélicas seja significativa, predomina na comunidade o sincretismo religioso, com ênfase no catolicismo. A população de Pombal se caracteriza ainda pela Web-Revista SOCIODIALETO: Bach., Linc., Mestrado Letras UEMS/Campo Grande, v. 4, nº 12, mai. 2014 79 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 12 • maio 2014 Edição Especial • Homenageado F E R N A N D O T A R A L L O ancianidade, uma vez que os jovens saem para outras localidades em busca de trabalho, escola e melhores condições de vida. O principal meio de transporte em Pombal é o cavalo, às vezes puxando carroça. Há, porém, um ônibus que passa dia sim, dia não, levando as pessoas para Barro Alto ou Niquelândia. Algumas pessoas têm bicicleta ou motocicleta. Muitos dos Borges Vieira possuem automóveis, mesmo que em péssimas condições. Fora disso, andam a pé, de carona com fazendeiros que transitam pela região ou com os leiteiros que recolhem o leite em fazendas vizinhas. Dadas as dificuldades de deslocamento, em geral, as pessoas mais velhas saem pouco da comunidade. Apesar das incertezas e da escassez de fontes documentais sobre as origens históricas de Pombal, em 05/04/2005, a Fundação Cultural Palmares conferiu à comunidade o título de terra remanescente de quilombos (www.palmares.gov.br/sicab), sob o amparo do Art. 216 dos Atos das Disposições Gerais da Constituição brasileira de 1988. 2.2 O antigo julgado de Traíras Traíras situa-se no município de Niquelândia, antiga São José do Tocantins, na Mesorregião do Norte Goiano, Microrregião de Porangatu, a 380 km de Goiânia, pela BR 153, e a 260 km de Brasília, pela BR 414. O arraial de Traíras foi fundado em 1735, por Antônio de Souza Bastos e Manoel Rodrigues Thomaz, em função das muitas minas de ouro da região do rio Tocantins. Durante os anos da mineração, foi um dos mais importantes julgados do Norte, contando com uma casa de fundição, paróquia, cartório, cadeia pública, comércio de secos e molhados e uma escravaria considerável, com uma média de 4.000 peças para o período mineratório (BERTRAN, 1998). Com o fim das minas do Tocantins – São José do Tocantins, Traíras, Água Quente, Cocal e Muquém – em meados do século XIX, Traíras caiu em decadência, conseguindo manter, por algum tempo, a matriz e uma festa de devoção, em louvor a Nossa Senhora da Conceição, que movimentava o Julgado. Em 1833, Traíras deixa de ser julgado e passa a distrito de São José do Tocantins. Web-Revista SOCIODIALETO: Bach., Linc., Mestrado Letras UEMS/Campo Grande, v. 4, nº 12, mai. 2014 80 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 12 • maio 2014 Edição Especial • Homenageado F E R N A N D O T A R A L L O A casa de fundição, já em desuso, deixa totalmente de funcionar, o cartório é fechado, a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição fica em ruínas depois de um incêndio acidental e a imagem da Santa é levada para São José; a Igreja de São Sebastião tem seu padroeiro roubado e fica praticamente sem função e o prédio da cadeia é destruído por um incêndio também acidental. As pessoas ilustres deixam o distrito, geralmente em direção à capital, no Sul do Estado, levando consigo uma parte da escravaria e deixando para trás apenas alguns negros, poucos brancos e os indígenas “arredios” que transitavam por lá. Nos dias atuais, Traíras está praticamente desabitada. As poucas famílias remanescentes, somando não mais que 20 pessoas, a maioria com mais de 50 anos de idade, moram em casas em avançado estado de depreciação e vivem de aposentadorias ou outros benefícios do governo. Dos antigos prédios públicos restam apenas ruínas, as igrejas destruídas nunca foram reconstruídas e as imagens sagradas nunca foram restituídas por falta de local adequado e seguro para colocá-las. Além das casas residenciais, há apenas um bar em funcionamento. A decadência de Traíras, iniciada com o fim da mineração, se acentuou profundamente com a emancipação de São José do Tocantins e, principalmente, com a instalação das empresas Companhia Níquel Tocantins, do Grupo Votorantim, e Codemi, do Grupo Anglo-América, na década de 1930, para explorar o solo na extração de minério. Em 1755, o povoado de São José do Tocantins (ou São José do Alto Tocantins) foi elevado à categoria de distrito de Traíras e, em 1833, foi elevado à categoria de vila e sede do município. Traíras, então, passou a distrito de São José do Tocantins. Em 1938, com a descoberta das jazidas de níquel, a população de São José do Tocantins cresceu muito e rapidamente. A vila alcançou, desta forma, a categoria de cidade e, em 1943, em homenagem ao minério que salvou a situação econômica do município, a cidade passou a se chamar Niquelândia. A maior parte da população remanescente de Traíras, no século XX, segundo os relatos dos moradores entrevistados, era descendente de bandeirantes, filhos (mestiços) de portugueses e brasileiros, e de mineiros. A historiografia, no entanto, noticia a Web-Revista SOCIODIALETO: Bach., Linc., Mestrado Letras UEMS/Campo Grande, v. 4, nº 12, mai. 2014 81 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 12 • maio 2014 Edição Especial • Homenageado F E R N A N D O T A R A L L O presença de índios e negros na região. Os índios foram dizimados ou aldeados e os negros fugiram, morreram ou simplesmente foram embora, restando apenas uma pequena porção deles, os quais foram absorvidos pelas empresas de mineração de Niquelândia e não residem mais em Traíras. A pequena população de Traíras, portanto, salvo raras exceções, é bastante clara. Da mesma forma que nas demais comunidades rurais goianas, em Traíras predominam a ancianidade e o analfabetismo, e a mobilidade geográfica de seus habitantes, em geral, é alta, ainda que haja aqueles cuja mobilidade seja baixa. As pessoas não-escolarizadas que possuem alta mobilidade geográfica possuem também alto nível de letramento. Dadas as precárias condições de vida no local, há mais homens que mulheres residindo em Traíras. Os homens, em geral, são aposentados e lidam em suas lavouras de subsistência e as mulheres cuidam da casa e da família; as crianças existentes no povoado estão todas abaixo da idade escolar. Não há escolas em Traíras e, por isso, quando as crianças atingem a idade escolar, normalmente, as famílias que querem colocar os filhos para estudar, deixam o local. Estes não retornam, pois o povoado não oferece condições de vida, tais como emprego, por exemplo. Entre os trairenses predomina o catolicismo e, como não há igrejas nem padres no povoado, aos domingos e dias santos as pessoas vão para a cidade assistir à missa. Durante a quaresma, em alguns dias santos e durante o mês de dezembro, advento do natal, os trairenses rezam o terço em suas casas, juntamente com os vizinhos. 2.3 A comunidade de Acaba Vida Acaba Vida é uma das regiões rurais do povoado de Faz Tudo (Taveiras), município de Niquelândia, na Mesorregião do Norte Goiano, Microrregião de Porangatu, a 300 km de Goiânia. Trata-se de uma região de difícil acesso pelos acidentes geográficos e pela falta de estradas, dificultando o deslocamento dos Web-Revista SOCIODIALETO: Bach., Linc., Mestrado Letras UEMS/Campo Grande, v. 4, nº 12, mai. 2014 82 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 12 • maio 2014 Edição Especial • Homenageado F E R N A N D O T A R A L L O moradores do lugar. É habitada por migrantes mineiros, oriundos principalmente da área rural de Governador Valadares, em Minas Gerais. De acordo com os relatos dos entrevistados, as famílias mineiras residentes em Acaba Vida descendem de imigrantes italianos que foram para Minas Gerais no final do século XIX e início do século XX, durante o período de imigração estrangeira para o Brasil. Historicamente, Acaba Vida foi área de exploração pelos bandeirantes em busca de índios e ouro, nos séculos XVIII e XIX (BERTRAN, 1998). Por essa época, não houve ocupação do lugar, que ficou despovoado, como muitas áreas do Norte Goiano, até a década de 70, do século XX. No curso do espírito desbravador da Marcha para o Oeste, empreendimento do Governo Vargas, lançado em 1940, com o intuito de colonizar o Centro-Oeste brasileiro, o então Governador de Goiás, Pedro Ludovico Teixeira, lançou um programa de povoamento do Norte. Entretanto, os migrantes que se dirigiram para o Estado preferiram ficar nas regiões Sul e Central e o Norte continuou praticamente desocupado. Com a segunda política de incentivo à povoação e ao desenvolvimento da agricultura no Norte de Goiás, a partir da fundação da Colônia Agrícola Nacional (CANG), fase denominada por Baiocchi (1999) e Guimarães (1988) de “movimento migratório”, pecuaristas mineiros e baianos, dentre outros, vieram para Goiás, em busca de terras para lavouras e pastagem para o gado, estabelecendo-se, principalmente, na região Norte. Nesse período, a área rural de Faz Tudo, inclusive Acaba Vida, foi efetivamente povoada por famílias de Minas Gerais. Em Acaba Vida, não há escolas. Aqueles que desejam estudar precisam se deslocar até Faz Tudo. Entre os adultos de Acaba Vida e de Faz Tudo predomina o analfabetismo e os escolarizados frequentaram escola por, no máximo, quatro anos (curso primário). Alguns indivíduos não-escolarizados apresentam alta mobilidade geográfica, interna e externa à comunidade, e alto nível de letramento. A principal atividade dos moradores de Acaba Vida e de Faz Tudo é a lavoura de subsistência ou agricultura familiar. Algumas famílias se ocupam também da criação de gado. Assim, a ocupação básica dos homens é a lavoura e das mulheres são as lidas Web-Revista SOCIODIALETO: Bach., Linc., Mestrado Letras UEMS/Campo Grande, v. 4, nº 12, mai. 2014 83 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 12 • maio 2014 Edição Especial • Homenageado F E R N A N D O T A R A L L O domésticas e, eventualmente, a lavoura. Em Faz Tudo, há casas comerciais e, portanto, alguns indivíduos são comerciantes. Uma parte dos habitantes de Acaba Vida é protestante e a outra é católica. No povoado de Faz Tudo, há igrejas protestante e católica. Assim, os protestantes e os católicos podem frequentar a igreja no próprio local. Apesar disso, os membros desta comunidade também têm o hábito de realizar cultos (os protestantes) e rezas ou terços (os católicos) em suas casas, em datas comemorativas. Maiores informações sobre a comunidade de Acaba Vida encontram-se em Pádua (2002). 2.4 A comunidade mineira de Barra Longa Dados de fala da área rural de Barra Longa, em Minas Gerais, a partir de três entrevistas com pessoas acima de 80 anos de idade e baixo grau de escolaridade, foram tomados para comparação com os dados da fala rural de Goiás e com os resultados de análises da oralidade e da escrita urbanas da LP. A afirmação de Melo (1946, p. 112) que “a fala de Minas Gerais é o denominador-comum da dialetação da LP no Brasil”, a constituição sócio-histórica de toda a região do Carmo e o pressuposto de que a fala goiana sofre influência da fala mineira, baseada na intensa migração de mineiros para Goiás, desde o final do século XIX, justificam a escolha de Barra Longa para a comparação realizada. Barra Longa está situada na região do Carmo, Mesorregião da Zona da Mata e Microrregião de Ponte Nova, a 172 km de Belo Horizonte e 82 km de Ouro Preto, a antiga Vila Rica. A região do Carmo, penetrada e ocupada desde o final do século XVII, teve seus primeiros arraiais e vilas fundados pelos bandeirantes, no século XVIII, com a exploração do ouro, nas Gerais. O Arraial Barra de Matias Barbosa, que daria origem à atual cidade de Barra Longa, foi fundado em 1736, alcançando o estatuto de Freguesia em 1741. Sua emancipação política data de 1 de janeiro de 1939. Para mais detalhes sobre Barra Longa e a região do Carmo, em Minas Gerais, remeto o leitor a Mendes (2000) e Seabra (2004). Web-Revista SOCIODIALETO: Bach., Linc., Mestrado Letras UEMS/Campo Grande, v. 4, nº 12, mai. 2014 84 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 12 • maio 2014 Edição Especial • Homenageado F E R N A N D O T A R A L L O Considerando as três comunidades goianas, participaram da pesquisa 38 pessoas entre homens e mulheres, com pouca ou nenhuma escolaridade, distribuídos em três faixas etárias: (1) 12-32 (4 = 1 mulher e 3 homens), (2) 40-58 (13 = 6 mulheres e 7 homens), (3) de 60 acima (20 = 9 mulheres e 11homens), apresentando baixo, médio e alto grau de interação social, tanto interna quanto externa. 3 A posição do adjetivo no SN no PB contemporâneo De acordo com a tradição gramatical (CUNHA; CINTRA, 2001; FARACO; MOURA, 2000; NEVES, 2000) e com descrições linguísticas, constantes da literatura pertinente, a ordem não-marcada do SN no PB é NA, com ocorrências de AN para algumas classes de adjetivos, em combinação com determinados nomes, em contextos específicos. Assim, há, de acordo com sua posição no SN, as seguintes classes de adjetivos: (1) adjetivos que só ocorrem antepostos: “É um mero funcionário”, (2) adjetivos que só ocorrem pospostos: “mesa redonda”, (3) adjetivos que ocorrem antepostos e pospostos, com alteração de sentido: “pobre menino”/”menino pobre” e (4) adjetivos que podem ocorrer antes ou depois do nome, com sutis nuances de sentido: “boa pessoa”/“pessoa boa”. Do ponto de vista sincrônico, de acordo com os resultados de análises sobre o fenômeno em questão, o quadro da posição do adjetivo no SN português, nos séculos XX e XXI, é como segue, em (1): Web-Revista SOCIODIALETO: Bach., Linc., Mestrado Letras UEMS/Campo Grande, v. 4, nº 12, mai. 2014 85 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 12 • maio 2014 Edição Especial • Homenageado F E R N A N D O T A R A L L O (1) DISTRIBUIÇÃO DO ADJETIVO NO SN PORTUGUÊS CONTEMPORÂNEO FONTE Cohen (1986-1989) Nobre (1989) GÊNERO TEXTUAL ESCRITA científico científico literário cartas pessoais - PADRÃO/ ESTILO ORALIDADE culto, formal coloquial, informal culto, informal FREQUÊNCIA DE AN FREQUÊNCIA DE NA 93/442 (21%) 41/438 (9%) 52/195 (27%) 68/403 (17%) 218/1140 (19%) 41/106 (39%) 136/1170 (12%) 349/442 (78%) 397/438 (91%) 143/195 (73%) 335/403 (83%) 922/1140 (81%) Boff (1991) 65/106 (61%) Müller et al. (2002) 1034/1170 (88%) Fonte: elaboração própria da autora com base nos resultados de Cohen (1986-1989), Nobre (1989), Boff (1991) e de Müller et. Al. (2002). O quadro acima mostra a predominância da ordem NA, na LP e no PB, no século XX, independentemente da modalidade de uso da língua (oral/escrita), do gênero da escrita (científico, literário, cartas pessoais), do padrão de uso linguístico (culto, coloquial) e do estilo ou grau de formalidade, com expressiva tendência de ocorrência da ordem AN na escrita mais subjetiva – cartas pessoais e textos literários. Nas modalidades escrita e oral, considerando-se a média de frequência de AN, tem-se: 19% (227/1.181) de ocorrência na escrita e 16% (422/2.713) na oralidade. A diferença de 3 pontos percentuais (19 - 16 = 3) e o resultado do cálculo do Chi Quadrado ( = 7.7, df: 1, p 0.0055, S = 0.0452) mostram que a distribuição de AN nas modalidades de uso da língua não é significante e que a probabilidade de AN ocorrer na escrita é a mesma que na oralidade. A escrita apresenta três gêneros textuais: científico, literário e cartas pessoais. De acordo com os resultados, AN tende a ocorrer mais nas cartas pessoais e nos textos literários do que nos textos científicos. São 15% (134/880) de ocorrência de AN nos textos científicos, 27% (52/195) nos textos literários e 39% (41/106) nas cartas pessoais. Embora haja maior diferença entre os percentuais de frequência de gênero para gênero, com a liderança das cartas pessoais, o resultado do cálculo do Chi Quadrado ( = 41.85, df: 2, p < .0001, S = 0.1882) indica que a distribuição da ordem AN por gênero textual não é significante. Web-Revista SOCIODIALETO: Bach., Linc., Mestrado Letras UEMS/Campo Grande, v. 4, nº 12, mai. 2014 86 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 12 • maio 2014 Edição Especial • Homenageado F E R N A N D O T A R A L L O A oralidade urbana apresenta dois padrões de uso: culto e coloquial, sendo que o padrão culto apresenta dois estilos, formal e informal, e o padrão coloquial apresenta somente o estilo informal. Os percentuais de ocorrência entre os padrões linguísticos são os seguintes: 13% (204/1.573) de ocorrências de AN na fala urbana culta, e 19% (218/1.140) na fala urbana coloquial. O resultado do cálculo do Chi Quadrado ( = 18.59, df: 1, p < .0001, S = 0.0838) indica que a distribuição de AN por padrão linguístico não é significante. Quanto aos estilos, no padrão culto formal, ocorrem 17% (68/403) de AN, no padrão culto informal são 12% (136/1170) de AN, e no padrão coloquial informal ocorrem 19% (218/1140) de AN. De acordo com o resultado do cálculo do Chi Quadrado ( = 0.51, df: 1, p 0.4751, S = 0.0152), a distribuição de AN por estilo de uso linguístico não é significante. Os resultados apresentados no quadro (1), complementados pelos resultados do cálculo do Chi Quadrado, sugerem que a ordenação dos constituintes do SN pode não sofrer avaliação social, nem negativa nem positiva, ainda que nenhum teste de atitude tenha sido aplicado pelas autoras consultadas, uma vez que não há assimetria significativa entre a fala culta formal, a fala culta informal e a fala coloquial, nem entre a oralidade e a escrita. Pelo exposto, na presente discussão, a posição do adjetivo em relação ao substantivo é considerada um fenômeno linguístico não marcado socialmente. Fenômenos não marcados não atraem a atenção do falante nem do ouvinte e, por isso, os falantes não se preocupam em evitar uma variante e reforçar outra. Ou seja, não há policiamento social em relação a fenômenos linguísticos não marcados. Callou e Serra (2003) e Callou et al. (s/d) apresentam resultados da análise, em pesos relativos, da aplicação da regra de anteposição em dados escritos da imprensa brasileira, que confirmam a predominância da ordem NA no PB dos séculos XX e XXI, reiterando os resultados apresentados no quadro (1). Com relação à natureza dos constituintes do SN, segundo Cohen (1986-1989), Nobre (1989) e Boff (1991), a ordem AN tende a ocorrer em SN cristalizado, com predominância dos adjetivos de sentido avaliativo (ou subjetivo). Na escrita, Web-Revista SOCIODIALETO: Bach., Linc., Mestrado Letras UEMS/Campo Grande, v. 4, nº 12, mai. 2014 87 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 12 • maio 2014 Edição Especial • Homenageado F E R N A N D O T A R A L L O considerando-se o gênero textual, a frequência de AN é mais alta no gênero literário e nas cartas pessoais, exatamente os gêneros que mais favorecem a subjetividade/avaliação. As hipóteses explicativas/interpretativas para a distribuição do adjetivo no SN português contemporâneo podem ser resumidas da seguinte forma: 1. trata-se de um fenômeno diacrônico, encaixado no realinhamento tipológico „OV/AN > VO/NA‟ em curso nas línguas românicas (Cohen, 1986-1989); 2. no processo de mudança AN > NA, nas línguas românicas, alguns itens (adjetivo/nome) mais frequentes em combinação, em uma situação de modificação particular, tendem a se cristalizar em uma determinada ordem, conservando-se como resíduos históricos de fases anteriores da língua (Cohen, 1986-1989); 3. os adjetivo de sentido avaliativo (subjetivo) podem ocorrer antes ou depois do nome e os de sentido descritivo (objetivo) só ocorrem depois do nome; a ordem AN é caracterizada pela ocorrência dos adjetivos avaliativos (Cohen, 1986-1989; Nobre, 1989; Boff, 1991; Callou & Serra, 2003; Callou et al., s/d; Rezende Santos, 2008); 4. adjetivos mais pesados (maior número de sílabas que o núcleo) tendem a ocorrer na ordem NA (Callou & Serra, 2003; Callou et al., s/d). 5. fatores socioculturais e registros linguísticos não influenciam na distribuição do adjetivo no SN (Nobre, 1989); 6. os adjetivos são gerados à direita do nome e os adjetivos avaliativos movem-se, opcionalmente, para a esquerda (Boff, 1991); 7. a perda progressiva do movimento opcional dos adjetivos avaliativos, no percurso histórico da língua, resultou na baixa frequência de adjetivos antepostos no PB contemporâneo (Boff, 1991). O conjunto das hipóteses, apresentado anteriormente, pode ser discutido tipologicamente, com base no Universal 19 de Greenberg (1978), segundo o qual as línguas com regra geral OV/AN não admitem exceções na colocação dos constituintes, ao passo que as línguas, cuja regra geral é VO/NA, admitem a ordem AN para uma minoria de adjetivos. Dessa forma, parece claro que os fatores internos, concernentes às possibilidades estruturais da língua, compõem o processo da mudança AN > NA, enquanto os fatores externos, relativos à estrutura sociocultural da comunidade de fala e Web-Revista SOCIODIALETO: Bach., Linc., Mestrado Letras UEMS/Campo Grande, v. 4, nº 12, mai. 2014 88 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 12 • maio 2014 Edição Especial • Homenageado F E R N A N D O T A R A L L O às situações e condições de uso da língua, em determinados momentos e contextos, aceleram ou retardam o ritmo da mudança. Com relação, especificamente, à mudança AN > NA, segundo Lehmann (1978), os adjetivos descritivos são os primeiros a mudar, seguidos, posteriormente, pelos avaliativos. A maioria das análises da mudança AN > NA (Waugh, 1977; Cohen, 19861989; Nobre, 1989) correlaciona a ordem dos constituintes à classe semântica do adjetivo, indicando que, nas línguas de regra geral NA, a minoria de adjetivos que antecedem o substantivo pertence à classe dos avaliativos (qualificativos, subjetivos), que são os últimos a mudarem de posição, e a totalidade dos adjetivos que sucedem o nome possui sentido descritivo (restritivo, objetivo). De acordo com os resultados de Cohen (1986-1989) e de Callou e Serra (2003), a mudança na posição do adjetivo no SN, na LP, já registrada no século XIV, se intensificou no século XVIII, passando por variações significativas no século XVI (Cohen (1986-1989) registra 31% de ocorrências de AN, em um dos textos do século XVI que analisa, e 65% no outro). Os gráficos, a seguir, apresentam o declínio da frequência de ocorrência da ordem AN, do século XIV ao XX, em termos percentuais (análise da frequência, com dados de Cohen (1986-1989)) e em peso relativo (dados de Callou & Serra (2003)). (2) FREQUÊNCIA MÉDIA DE OCORRÊNCIA DA ANTEPOSIÇÃO NA LP POR SÉCULO/% 90 80 70 IA 60 C N 50 Ê U Q 40 E R 30 F 20 10 0 82 71 76 51 48 34 20 XIV XV XVI XVII XVIII XIX XX PERÍODO Fonte: Cohen (1986-1989: 64). Web-Revista SOCIODIALETO: Bach., Linc., Mestrado Letras UEMS/Campo Grande, v. 4, nº 12, mai. 2014 89 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 12 • maio 2014 Edição Especial • Homenageado F E R N A N D O T A R A L L O (3) OCORRÊNCIA DE ANTEPOSIÇÃO NA LP POR SÉCULO (PESO RELATIVO) 70 65 58 60 52 50 A I C N Ê Ü Q E R F 40 36 30 20 10 0 XVII XVIII XIX XX PERÍODO Fonte: Callou e Serra (2003: 197). De acordo com Cohen (1986-1989), a mudança na posição do adjetivo no SN provocou alterações na classificação semântica dos adjetivos, resultando no quadro atual, em que AN = sentido avaliativo e NA = sentido descritivo. Afirma ainda a autora que a ordem AN, na LP, está ficando restrita a ocorrências dos itens gatilho (trigging), em estruturas específicas de SN – os compostos (compounds) e as frases-feitas (set phrases). Esse pressuposto é corroborado pela noção de contextos particulares (Neves, 2000), equivalente a expressões cristalizadas (Boff, 1991), em referência, principalmente, a documentos cartoriais (ou notariais) e eclesiásticos, que frequentemente são incorporados à oralidade, envolvendo classes específicas de adjetivos – “os de sentido especial” e de “difícil classificação”, para Borges Neto (1990) e Menuzzi (1992), respectivamente. O fato de no Rio de Janeiro, por exemplo, a ordenação dos constituintes do SN não estar correlacionada à estrutura sociocultural da comunidade de fala nem a uma modalidade de uso da língua – oral ou escrita – nem a um gênero de discurso – literário ou não-literário – nem ao grau de formalidade da situação/grau de padronização do uso linguístico (Nobre, 1989) fortalece a hipótese da mudança AN > NA, encaixada na deriva natural das línguas românicas, sendo, portanto, a mais adequada para o estudo da posição do adjetivo no SN da fala rural goiana, considerando as hipóteses estruturais Web-Revista SOCIODIALETO: Bach., Linc., Mestrado Letras UEMS/Campo Grande, v. 4, nº 12, mai. 2014 90 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 12 • maio 2014 Edição Especial • Homenageado F E R N A N D O T A R A L L O como aspectos que possibilitam a implementação da mudança, ou que aceleram ou retardam a mudança. Se há um curso natural da mudança AN > NA, nas línguas românicas, pode-se considerar que a ordem AN é a mais antiga, a conservadora, e a ordem NA, a mais recente, a inovadora. Pode ser também que essa equação não se aplique a esse fenômeno, dado seu grau de planificação. Vejamos. 3. A posição do adjetivo no SN na fala rural goiana Na fala rural goiana, nota-se uma baixa frequência de uso de adjetivos adnominais: em mais 3.000 SN inventariados nos dados, ocorrem 401 adjetivos. A tendência à baixa frequência de uso de adjetivos adnominais é noticiada por Scherre (1998), com os dados do Censu-RJ. Outra constatação, já esperada, é a baixa frequência de adjetivos antepostos ao nome. Do total de 401 adjetivos adnominais registrados nos dados, 105 (26%) estão antepostos e 296 (74%) estão pospostos ao nome. Todos os adjetivos antepostos são avaliativos e, dos pospostos, 22% (64/296) são avaliativos e 78% (232/296) são descritivos. Cerca de 50% dos SN, com adjetivo anteposto ou posposto, registrados nos dados, constitui estrutura cristalizada (EC), isto é, estruturas que não admitem a mobilidade dos constituintes, possuindo uma ordem, ou AN ou NA, fixa, conforme mostram os enunciados de (1) a (3): (1) Então no dia 12 que é dia de Santo Antone ( ) deve que a sinhora sabe que no dia 13 é o dia santo do Santo Antone. (PO) (2) ... e ela trabaia o dia ... quando é à noite ... iii ... mais crama ( ) 'tão ... a gente hoje 'tá cum cinqüenteisseis anos ... Trabalha todo santo dia ... né ... (AV) (3) Foi ... ele naceu ... „tava cum ... um ano de idade minha mãe morreu ... Aí ... quando ela „tava duente p‟a morrê ... ela cismô de dá ele a pai véi ela falô assim "ó ... se eu morrê ... Siliveste eu num vô dexá não purque vai dá muito trabai pr'oceis"...(PO) Web-Revista SOCIODIALETO: Bach., Linc., Mestrado Letras UEMS/Campo Grande, v. 4, nº 12, mai. 2014 91 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 12 • maio 2014 Edição Especial • Homenageado F E R N A N D O T A R A L L O As EC representam 48% (194/401) das ocorrências de SN com adjetivos nos dados. Do total de 194 EC, 101 (52%) estão em AN e 93 (48%) estão em NA. Das 105 ocorrências de AN, 101 (96%) são de EC. Equivale a dizer que, na fala rural goiana, a ordem AN está quase restrita às EC. Nos dados sob análise, não há ocorrências de expressões notariais, próprias da escrita oficial e da administração, mas há registros de expressões eclesiásticas, peculiares à esfera sociodiscursiva de uso da linguagem referentes ao sistema de crenças das comunidades estudadas, e expressões do cotidiano, como as apresentadas nos enunciados (4) e (5). (4) (...) óia a Diná que é a no ... é ... é ... é nora do véi Dirs‟ ali né ela te ajuda a professora de lá a professora de lá do Reberão é a fiia do Zué ... boa pessoa ... Aqui todas iscol‟ajud‟ocê (PO) (5) chega lá suado ... c‟aquela aligria cum a gente ... aquela boa vontade: “não ... ceis merece ... ceis num pode ficá desse jeito não ... ceis‟tá sofreno dimais aqui (AV) Não foram registradas, na fala rural goiana sob análise, ocorrências de particípios passados na anteposição, nem mesmo nas EC, da forma como ocorre em (6), com dados da fala rural de Barra Longa-MG: (6) nasci aqui... nasci... e depois... a minha mãe mo/morô lá no Corgo das Quintas...onde é de... quando Craudionô ... falicido Craudionô ((ruídos)) era ali que era a terra do meu pai (BL) Dentre as EC, destaco ainda as que têm por núcleo um nome próprio, como em (7) e (8): (7) (...) óia a Diná que é a no ... é ... é ... é nora do véi D.‟ ali né ela te ajuda a professora de lá a professora de lá do Reberão é a fiia do Zué ... boa pessoa ... Aqui todas iscol‟ajud‟ocê (PO) (8) Então no dia 12 que é dia de Santo Antone ( ) deve que a sinhora sabe que no dia 13 é o dia santo do Santo Antone. (PO) Web-Revista SOCIODIALETO: Bach., Linc., Mestrado Letras UEMS/Campo Grande, v. 4, nº 12, mai. 2014 92 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 12 • maio 2014 Edição Especial • Homenageado F E R N A N D O T A R A L L O Os itens „véi‟ (+ D [Npróprio]), em (7), e „santo‟ (+ Antone), em (8), integram uma estrutura denominativa de pessoa, no primeiro caso, e de santo, no segundo. Desta forma, os referidos itens não podem ser, sincronicamente, considerados e tratados como adjetivos, embora o possam diacronicamente; os itens „boa‟, „mau‟, „divino‟ e „novo‟, da forma como ocorrem nos enunciados (7), (9), (10) e (11), antepostos ao nome, em EC, funcionam e devem ser analisados como „adjetivo‟; e o item „maió‟, como no enunciado (12), funciona como „adjetivo‟, em estruturas não cristalizadas (En-C). São, portanto, 4 ocorrências de adjetivos antepostos, em En-C, representando 4% (4/105) das anteposições, 29 ocorrências de adjetivos antepostos, em EC, ou seja, 28% (29/105) das anteposições, e 72 ocorrências de adjetivos antepostos a nome próprio, em EC, funcionando como forma de tratamento, equivalentes a 68% (72/105) das anteposições. (9) Gente‟acha que era um mau ambiente né6(PO) (10) Esse que é nosso sistema véi antigoh é fulia de Nossa Senhora D‟Abadia fulia de Divino Pai Eterno Divino Ispiurto Santo ... é/é o que nós canta ... eu canto viu direto eu canto quem nasceu cum instinto de cigarra tem que fazê zuera né (PO) (11) Já tirei ... já tirei no Pombá ... já tirei fulia de Reis aqui ... no Capão Verde ... lá onde a/lá no/perto/Santa Rita lá de Novo Destino ... po lá tudo nóis circula tiran' fulia de Reis (PO) (12) A gente chegô pr‟aí co‟a maió dificurdade ... cũ‟a mulher e trêis filho ... e sobrô p‟ra gente condo comprô as coisa p‟ra passá trêis mêis ... sobrô ũa notinha de um conto de réis ... (AV) Dado que as EC com adjetivos adnominais e formas de tratamento representam 96% das anteposições contra 4% das En-C, pode-se concluir que, exceto pelos 4% de En-C, nos dados, a anteposição está restrita às ocorrências de EC, que são estruturas residuais de fases pretéritas da língua, em que a ordem AN, era, primeiramente, predominante e, posteriormente, coocorrente com a ordem NA (Cohen, 1989). A situação de modificação que envolve os itens antepostos é configurada pela combinação „adjetivo avaliativo, mais leve (menor que o núcleo em número de sílaba) + 6 O enunciado “mau ambiente” significa, nos dados, ambiente pesado, carregado, no sentido espiritual. Decorre disso, a decisão de se entender e descrever a estrutura do enunciado como a combinação de „adjetivo‟ + „nome‟. Web-Revista SOCIODIALETO: Bach., Linc., Mestrado Letras UEMS/Campo Grande, v. 4, nº 12, mai. 2014 93 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 12 • maio 2014 Edição Especial • Homenageado F E R N A N D O T A R A L L O nome próprio‟, no caso de „véi/a‟ e „santo/a‟, e „adjetivo descritivo + nome comum‟, nas demais ocorrências, mesmo aquelas, cujo resultado é uma unidade lexical com a função de nome próprio, como o topônimo “Novo Destino”, em (11). Assim, os traços combinatórios do adjetivo e do nome, que resultam em um efeito de combinação mais ou menos cristalizado, na ordem AN, nas EC e nas En-C, são: adjetivos avaliativos e mais leves, combinados a nomes com os seguintes traços: em EC com „véi/a‟ e „santo/a‟, respectivamente7: [NÃO-COMUM]/[NÃO- CONTÁVEL], [HUMANO]/[MATERIAL]/[ANIMADO]; e [NÃO-COMUM]/[NÃOCONTÁVEL], [SAGRADO]/[IMATERIAL]/[SAGRADO]; em EC com os demais adjetivos, predominam os traços [COMUM]/[CONTÁVEL], [NÃO-HUMANO], [IMATERIAL], [INANIMADO]. Entendendo que características linguísticas são influenciadas por características socioculturais e históricas das comunidades de fala e dos falantes, com base nas tabelas (1) e (2), discute-se a distribuição das ordens AN e NA por comunidade de fala e por falante. Tabela 1 Distribuição percentual de AN e NA por comunidade POSIÇÃO AN CORPUS % NA % POMBAL 73/232 31 159/232 69 ACABA VIDA 14/90 16 76/90 84 TRAÍRAS 18/79 23 61/79 77 TOTAL 105/401 26 296/401 74 Fonte: elaboração própria da autora. De acordo com o resultado do cálculo do Chi quadrado ( = 9.08, df: 2, p 0.0107, S = 0.1505), com base nos dados formalizados na tabela (1), a distribuição da ordem AN, por comunidade de fala, não é significativa. Diante disso, outras amostras 7 Os traços nominais ligados por barras transversais indicam sobreposição de traços, por exemplo, um nome não-comum é, necessariamente não-contável. O traço sagrado, atribuído especificamente ao referente do nome modificado pelo adjetivo „santo‟ segue uma classificação contínua dos objetos e dos fatos sócio-culturais, de acordo com uma categorização sócio-antropológica (cf. Sapir (1980), LéviStrauss (1989), Durkheim (1999) e Mauss (s/d)), em contraposição à tradicional categorização lógicoformal de Aristóteles (cf. BENVENISTE (1995)). Web-Revista SOCIODIALETO: Bach., Linc., Mestrado Letras UEMS/Campo Grande, v. 4, nº 12, mai. 2014 94 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 12 • maio 2014 Edição Especial • Homenageado F E R N A N D O T A R A L L O foram incorporadas ao corpus inicial, para comparação: dados de fala de Nova Veneza e da escrita dos Tapuia de Carretão e dos Karajá de Aruanã. Nestes dados, o quadro de ocorrência de AN segue a mesma tendência dos demais, ou seja, predomina a ordem NA, e a maioria das poucas ocorrências de AN constitui EC. Diante desses resultados, decidi verificar se o perfil sociocultural do participante – idade, grau de escolaridade, ocupação e grau de interação intra e entre comunidades – pode estar influenciando na ocorrência de AN nos dados. O resultado é como segue apresentado na tabela (2). Tabela 2 Distribuição percentual de AN por participante POSIÇÃO INTERAÇÃO I INTERAÇÃO AN E PARTICIPANTE % (1) PUAN 9 8.5 alta média (2) PUAG 5 5.0 baixa baixa (4) CHIBE 9 8.5 alta alta (7) CHITO 1 0.9 média baixa (8) PUMAJE 1 0.9 alta alta (10) PUOL 28 27 alta alta (11) SEBON 1 0.9 alta alta (12) PUNB 5 5.0 média média (14) PUSB 3 3.0 média média (16) POBEV 9 8.5 alta média (20) FATUA 3 3.0 alta alta (23) FATUB 2 2.0 alta alta (24) AVIC 2 2.0 alta alta (25) AVICA 3 3.0 alta alta (28) AVID 2 2.0 alta alta (29) AVID 2 2.0 alta alta (34) FATUI 2 2.0 baixa baixa (36) FOJOPE 18 17 alta alta TOTAL 105 100 Fonte: elaboração própria da autora. Conforme evidenciam os dados da tabela (2), a única característica que se revelou significante foi o grau de interação dos membros das comunidades sob análise com grupos internos e externos a elas. A maior frequência de AN está na fala dos participantes que apresentam maior grau de interação intra e entre comunidades, isto é, os participantes (10) e (36), os quais se situam nos grupos etários, respectivamente, (4058 anos de idade) e (60 e +), ambos do gênero masculino, não-escolarizados, e Web-Revista SOCIODIALETO: Bach., Linc., Mestrado Letras UEMS/Campo Grande, v. 4, nº 12, mai. 2014 95 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 12 • maio 2014 Edição Especial • Homenageado F E R N A N D O T A R A L L O lavradores aposentados; em seguida, vem a fala daqueles que apresentam alto grau de interação interna e médio e alto grau de interação externa (1, 4 e 16), situados, respectivamente, nas faixas etárias (40-58) e (60 e +), sendo dois do gênero masculino (4 e 16) e um do gênero feminino (1); (1) e (16) são não-escolarizados e (4) possui em torno de dois anos de estudo; (1) é merendeira da escola de uma das comunidades, e (4) e (16) são lavradores; por fim, vem a fala dos demais participantes, que apresenta, em maior número (8 pessoas), grau de interação externa e interna alto, ao lado de dois participantes que apresentam baixo grau de interação interna e externa, dois que apresentam médio grau de interação externa e interna e um apresentando médio grau de interação interna e baixo grau de interação externa. Na fala dos demais participantes, não há ocorrência de AN. Apesar de alguns participantes com alto grau de interação intra e entre comunidades apresentarem a mais alta frequência de AN, um grande número de participantes com alto grau de interação intra e entre apresentam baixas taxas de frequência de AN, levando à conclusão de que a posição do adjetivo no SN não é influenciada pelo perfil sociocultural do participante, corroborando os resultados de Nobre (1989) com dados do Rio de Janeiro. 4. A posição do adjetivo no SN-português: comparação entre a fala rural goiana e as falas urbanas Para efeito de comparação entre o padrão urbano e o rural, com relação à posição do adjetivo no SN-português, nos séculos XX e XXI, amplia-se o quadro (1), introduzindo-se os resultados do estudo da fala rural goiana. O resultado está apresentado no quadro (4): Web-Revista SOCIODIALETO: Bach., Linc., Mestrado Letras UEMS/Campo Grande, v. 4, nº 12, mai. 2014 96 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 12 • maio 2014 Edição Especial • Homenageado F E R N A N D O T A R A L L O (4) DISTRIBUIÇÃO DO ADJETIVO NO SN PORTUGUÊS CONTEMPORÂNEO URBANO E RURAL FONTE Cohen (1986-1989) GÊNERO TEXTUAL ESCRITA científico Nobre (1989) PADRÃO/ ESTILO FREQUÊNCIA ORALIDADE DE AN - 93/442 (21%) 349/442 (78%) científico - 41/438 (9%) 397/438 (91%) literário - 52/195 (27%) 143/195 (73%) 68/403 (17%) 335/403 (83%) culto, formal Boff (1991) FREQUÊNCIA DE NA cartas pessoais coloquial, informal - 218/1140 (19%) 922/1140 (81%) 41/106 (39%) 65/106 (61%) Müller et alii (2002) - culto, informal 136/1170 (12%) 1034/1170 (88%) Fala rural goiana - coloquial, informal 105/401 (26%) 296/401 (74%) Fonte: elaboração própria da autora. Com base nos dados do quadro (4), nas médias de frequência de AN nos dados da área urbana – 15% (422/2.733), na modalidade oral, em geral; e 19% (218/1140), na modalidade oral coloquial, no estilo informal, em particular – e nos 24% (105/401) de AN, na fala rural goiana, nota-se que esta variedade apresenta a mais alta taxa de frequência de AN em comparação aos dados urbanos. No entanto, deve-se considerar que 69% (72/105) das ocorrências de AN na fala rural goiana são da combinação entre „véi/a‟ e „santo/a‟ + nome próprio, e que, nestas combinações, os referidos itens não possuem o estatuto gramatical de adjetivo. Dado que a combinação „adjetivo + nome próprio‟ não está presente em nenhuma das amostras analisadas nos trabalhos referentes às variedades urbanas, para se desenvolver uma discussão mais coerente da frequência de ocorrência de AN nos dados da fala rural goiana, em comparação a dados da fala urbana, é mais adequado excluir os SN que contenham a combinação „adjetivo + nome próprio‟. Desta forma, restaram, na fala rural goiana, 10% (33/329) de ocorrências de AN, contra 19% de AN na fala urbana, coloquial, informal. Se por um lado há, em termos percentuais, no que se refere à posição do adjetivo no SN, uma neutralização entre o padrão linguístico da fala urbana (culta/coloquial, formal/informal) e o padrão linguístico da fala rural goiana (coloquial/informal), pois Web-Revista SOCIODIALETO: Bach., Linc., Mestrado Letras UEMS/Campo Grande, v. 4, nº 12, mai. 2014 97 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 12 • maio 2014 Edição Especial • Homenageado F E R N A N D O T A R A L L O ambas estão apresentando baixas taxas de ocorrência de AN, por outro lado, o fato de a ordem AN, na fala rural goiana, estar praticamente restrita a EC indica que a mudança AN > NA, em franco desenvolvimento na LP e no PB, está em um estágio mais adiantado na fala rural sob análise. Nesse caso, as EC representam o ponto final da mudança. Diante dos resultados apresentados, questiona-se o caráter conservador da fala rural, no que diz respeito à mudança da posição do adjetivo no SN, pois na fala rural, da mesma forma que na fala urbana, as ocorrências da ordem AN, em EC, constituem resíduos linguísticos de fases anteriores da LP, conforme sinalizado por Cohen (1989). O pressuposto apresentado no parágrafo anterior pode ser evidenciado a partir do enunciado (13), a seguir, que mostra que o adjetivo grande, na fala e na escrita urbanas, quando combinado a nomes dimensionais, revela nuanças de sentido diferente para cada posição que ocupa no SN. No enunciado (14), da fala rural goiana, o adjetivo grande, posposto a um nome dimensional, apresenta sentido ambíguo. (13) a) “... aí ele se tornou um grande lutador.” b) “Ele é um lutador grande. Tem mais de 1m e 90 de altura.” (Nobre, 1989, p. 45) (14) Papai Grande, que é o guverno né (PO) O adjetivo grande, em (14), não se refere à dimensão do referente do nome, como, em geral, ocorre na LP. A mudança na posição do adjetivo no sintagma nominal, desta forma, encontra-se em estágio mais avançado na fala rural do que na fala urbana estudada por Nobre (1989) e Müller et al. (2002). Se comparados os resultados desta pesquisa aos resultados de Cohen (1989) e de Nobre (1989), pode-se dizer que, na fala rural analisada, a ordem Adjetivo/Nome se restringe a ocorrências com EC, embora essas ocorram também com o adjetivo posposto; e que devido à ocorrência de AN somente em EC, a mudança AN > NA, nas amostras sob análise, encontra-se em seu estágio final e já não se correlaciona a fatores sociais. Web-Revista SOCIODIALETO: Bach., Linc., Mestrado Letras UEMS/Campo Grande, v. 4, nº 12, mai. 2014 98 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 12 • maio 2014 Edição Especial • Homenageado F E R N A N D O T A R A L L O 5. Conclusões Tem-se, portanto, na fala rural goiana sob análise, de 401 adjetivos, 105 antepostos e 296 pospostos; dos 105 antepostos, 4 estão em En-C e 101 em EC; das 101 EC em AN, 71 ocorrências são dos itens „véi/a‟ e „santo/a‟, que requerem uma classificação e análise diferenciadas; restam, então, 30 ocorrências de EC em AN. Na ordem NA, as 296 ocorrências de adjetivos estão distribuídas em 93 EC e 203 En-C. Ou seja, na ordem AN, as EC são estruturas de denominação sagrada (santo/a), incluindo aqui os topônimos, ou humana (véi/a), resultantes da combinação entre um „adjetivo‟ e um „nome próprio‟, independentemente de o referente do „nome próprio‟ ser humano ou não; e expressões do cotidiano, conforme registradas nos enunciados (2), (4), (5) e (7). Os adjetivos avaliativos „véi/a‟, „santo/a‟, de alta frequência nos dados, prepostos a um nome próprio, independentemente de seu referente ser humano ou sagrado, material ou imaterial, cria um efeito de combinação total (Jakobson, 1995), a ponto de reanalisar sua classe e sua função no sintagma, caracterizando mudança linguística por gramaticalização (Este processo está discutido em outro artigo, dedicado somente à análise da mudança linguística). Conforme mencionado no parágrafo anterior, a alta frequência do item cria um efeito de combinação total, levando à reanálise ou gramaticalização, resultando em EC. As EC representam, portanto, o estágio final da mudança. Esse resultado permite afirmar que a manutenção da ordem AN é favorecida pelo processo de cristalização de estruturas de alta frequência de uso. Assim, parece que frequência de uso e processo de cristalização compõem, juntos, a base da manutenção linguística. A frequência de ocorrência de AN e de NA, na fala rural goiana, é semelhante à frequência apresentada pela fala urbana, exceto pelas EC, ambiente predominante das ocorrências de AN na fala rural goiana. Dessa forma, na fala rural goiana, a mudança Web-Revista SOCIODIALETO: Bach., Linc., Mestrado Letras UEMS/Campo Grande, v. 4, nº 12, mai. 2014 99 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 12 • maio 2014 Edição Especial • Homenageado F E R N A N D O T A R A L L O AN > NA, encontra-se mais adiantada que na fala urbana. Considerado o processo de mudança linguística em questão, esse resultado permite afirmar que a fala rural é mais inovadora do que a fala urbana. Diante disso, a noção de conservadorismo linguístico requer uma problematização que leve em conta os fatores e as agências de conservação linguística, tanto na área rural quanto na área urbana. A escolarização, mais intensa na cidade que no campo, dada sua preocupação com a padronização das práticas linguísticas, tendo como parâmetro o que se convencionou no Brasil ser a norma culta, é uma poderosa agência de manutenção linguística, por coibir os usos estigmatizados ou deselegantes da língua. A área rural, por sua vez, por se relacionar de forma diferente com as práticas de letramento e com as práticas linguísticas e por nutrir outros valores em relação à linguagem, coíbe menos o uso das regras linguísticas estigmatizadas. Considerando que muitas regras estigmatizadas são inovadoras no português e refletem a identidade linguística do brasileiro, marcando inclusive o lugar de enunciação dos sujeitos, não é surpresa que as inovações linguísticas caminhem mais rapidamente nas áreas rurais do que nas urbanas. Como a variação entre AN e NA não é socialmente estigmatizada, não é passível de correção nem na escola nem nas esferas de maior poder social. Assim, o curso da mudança AN > NA segue quase que no mesmo ritmo na fala rural e na fala urbana. Enfim, com a análise de um fenômeno não marcado socialmente, pudemos constatar que a fala rural e a fala urbana são igualmente conservadoras e inovadoras e que as regras linguísticas socialmente estigmatizadas são atribuídas à fala rural e tomadas como marcadores dos sujeitos rurais, devido à crença social de que na área rural estão os sujeitos “culturalmente isolados”. Equivale a dizer que o sertão linguístico é empurrado para o sertão geográfico. No que concerne à correlação entre o perfil social dos participantes da pesquisa e a ocorrência de AN ou NA, constatou-se que seja qual for a idade do participante, com baixa, média ou alta mobilidade, a possibilidade de uso de AN é a mesma, exceto nas EC, limitadas a itens específicos, como „bão/boa‟, „novo/a‟, „mau‟, e „santo/a‟, em Web-Revista SOCIODIALETO: Bach., Linc., Mestrado Letras UEMS/Campo Grande, v. 4, nº 12, mai. 2014 100 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 12 • maio 2014 Edição Especial • Homenageado F E R N A N D O T A R A L L O estruturas específicas, como topônimos, denominações próprias, sagradas ou humanas, e expressões do cotidiano. Conclui-se, portanto, que a aplicação da regra NA não está correlacionada à faixa etária dos participantes, resultado esperado em uma mudança praticamente totalizada. Por outro lado, a confirmação desse dado permite reafirmar o estágio final da mudança AN > NA, na fala rural goiana, assim como na fala urbana. Uma vez que todas as comunidades estudadas refletem o mesmo padrão de ordenação do adjetivo em relação ao nome no SN, o perfil sociocultural do participante não é significativo para o processo de mudança AN > NA, na fala rural goiana, corroborando os resultados dos estudos com a fala urbana. Pode-se inferir do exposto que, no estágio final de uma mudança linguística, a correlação com fatores sociais tende a se perder. Esses resultados permitem ainda afirmar que a manutenção de AN em EC, nos estudos em questão, não é influenciada pelo perfil social dos falantes. O estudo da fala rural goiana, a partir das amostras de fala de comunidades com diferentes formações sócio-históricas, inclusive com diferentes composições étnicas, todas inseridas nos movimentos de ocupação do território goiano, ou durante o ciclo do ouro ou durante o ciclo da agropecuária, permite entrever que, apesar de as comunidades de fala sob análise serem, em muitos aspectos, distintas umas das outras, podem apresentar um mesmo padrão linguístico, no que diz respeito particularmente à ordenação dos constituintes do SN, talvez por ser este um fenômeno linguístico não marcado socialmente e não identificador de classe ou grupo. Por outro lado, o estudo de variedades rurais, em comparação com variedades urbanas, aponta para uma provável neutralização, no aspecto morfossintático, entre o rural e o urbano, uma vez que o rural se encontra em um estágio mais avançado da mudança AN > NA. Esse estágio mais avançado de uma mudança em direção à fixação de uma regra inovadora mostra que a fala rural, nesse caso, é menos conservadora do que a urbana. A fala rural é, portanto, tão conservadora e tão inovadora quanto a fala urbana, apesar de os falantes de uma e de outra variedade linguística fazerem escolhas de regras Web-Revista SOCIODIALETO: Bach., Linc., Mestrado Letras UEMS/Campo Grande, v. 4, nº 12, mai. 2014 101 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 12 • maio 2014 Edição Especial • Homenageado F E R N A N D O T A R A L L O linguísticas diferenciadas, as quais servem de identificação sociolinguística dos sujeitos e de distinção entre as comunidades sociolinguísticas rurais e urbanas. Considerando que o conceito de fala rural encobre atributos, tais como: “oralidade”, “narratividade”, “isolamento”, “conservadorismo linguístico”, “baixa ou nenhuma escolarização do falante”, “faixa etária mais alta”, ao passo que o conceito de fala urbana encobre os seguintes atributos: “escrita”, “argumentatividade”, “alto grau de interação social”, “inovação linguística”, “escolarização”, “juventude”, pode-se afirmar que as agências de padronização linguística tornam a língua mais conservadora e o distanciamento dessas agências permite a aceleração das inovações. Por isso, dado o distanciamento entre as agências de padronização e as áreas rurais brasileiras, a fala rural tende à inovação e não à conservação como se tem defendido até então. Outro ponto importante a se considerar é que as áreas rurais brasileiras vêm passando por modificações conjunturais e estruturais e a visão idílica, essencializada da vida simples, de um povo simples e humilde da roça, já não contempla mais a realidade rural atual. É urgente a desessencialização da visão sobre a fala rural, sob pena de se estudar um pressuposto teórico ou mitológico, fruto da imaginação do pesquisador. O meio urbano também vem passando por modificações, afinal de contas, tudo no mundo é dinâmico. Com a democratização da escola e a massificação do ensino escolar, a variável “escolarização”, com a informação dos anos de estudos por meio de documento, pode inclusive mascarar correlações mais importantes, pois a mesma escolarização não equivale ao mesmo nível de letramento. Com a emancipação feminina e a consequente inserção da mulher no mercado de trabalho, os padrões de fala da mulher e do homem podem não estar tão distintos. Diante disso, faz-se necessário repensar e reelaborar a noção de conservadorismo linguístico e, mais ainda, a equação rural = conservador, assim como é premente a reelaboração das categorias sociais de análise de fenômenos linguísticos. Buscou-se com esta discussão apresentar uma nova perspectiva de entendimento de fenômenos linguísticos com alto grau de planificação social, ou seja, sem avaliação Web-Revista SOCIODIALETO: Bach., Linc., Mestrado Letras UEMS/Campo Grande, v. 4, nº 12, mai. 2014 102 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 12 • maio 2014 Edição Especial • Homenageado F E R N A N D O T A R A L L O social e, em consequência, uma nova perspectiva de avaliação e estudo da fala rural, pelo viés da manutenção e não somente da mudança, a partir do encontro de muitos falares diferenciados, nas misturas e nas formações híbridas, entre diferentes práticas socioculturais da linguagem, seja na escrita ou na oralidade, sem estratificação entre as práticas linguísticas nem entre os sujeitos que as exercem. Se o ponto de vista cria o objeto, pode criar também o ponto de vista sobre o objeto, criando e recriando as abordagens e as avaliações sobre o objeto. 6. Referências ANDRADE, A. L. de. Formas de transmissão linguística: um estudo de caso sobre documentos goianos. Estudos Linguísticos. XXXVI (2), maio-agosto, p. 200-209. Campinas-SP: IEL/Unicamp, 2007. Disponível em: <www.lafape.iel.unicamp.br>. Acesso em: 31 ago. 2007. BAIOCCHI, M. N. Kalunga – o povo da terra. Brasília-DF: Ministério da Justiça/Secretaria de Estado dos Direitos Humanos, 1999. BERTRAN, P. História de Niquelândia – do Distrito de Tocantins ao Lago de Serra da Mesa. Brasília: Verano Editora, 1998. BOFF, A. M. A posição dos adjetivos no interior do sintagma nominal: perspectivas sincrônica e diacrônica. Tese de Doutorado, inédita, Campinas-SP: Unicamp,1991. BORGES NETO, J. Adjetivos – predicados extensionais, predicados intensionais. Campinas-SP: Unicamp, 1991. BORGES, D. V. C.; SALLES, H. M. M. L. 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