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Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande
Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande
ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 12 • maio 2014
Edição Especial • Homenageado
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A NEUTRALIZAÇÃO ENTRE RURAL E URBANO NO
PORTUGUÊS BRASILEIRO1
Tânia Ferreira Rezende2 (UFG)
[email protected]
RESUMO: Este artigo discute a neutralização entre a fala rural e a fala urbana, a partir da descrição e
análise da posição do adjetivo adnominal no SN, considerado como parte da mudança da ordem
Adjetivo/Nome (AN) para a ordem Nome/Adjetivo (NA), que envolve as línguas românicas e que se
desenvolve na língua portuguesa desde seus primórdios. Para tanto, os resultados da análise da frequência
de ocorrência da ordem AN, nos dados sob análise, são comparados aos resultados do levantamento da
frequência de ocorrência de AN na fala rural de Barra Longa, em Minas Gerais, e aos resultados de
análises do mesmo fenômeno, empreendidas por Nobre (1989), Cohen (1990), Boff (1991) e Muller et al.
(2002), com dados do século XX, da língua portuguesa escrita e do português brasileiro urbano, oral e
escrito. Os dados que compõem o corpus deste estudo foram recolhidos na área rural das regiões do
centro e do norte de Goiás, por estas serem as regiões goianas que apresentam maior grau de isolamento
geográfico e cultural e baixa densidade demográfica. As comunidades de fala selecionadas para pesquisa
foram Pombal, comunidade afro-brasileira, situada no município de Santa Rita do Novo Destino, Traíras,
comunidade remanescente de antigo julgado formado durante o ciclo do ouro, e Acaba Vida, comunidade
de migrantes oriundos de Governador Valadares, em Minas Gerais. Os resultados das descrições e
análises dos dados e a discussão dos resultados permitem repensar o pressuposto do conservadorismo da
fala rural goiana e apontam para a neutralização entre o rural e o urbano, no que diz respeito à posição do
adjetivo no SN.
PALAVRAS-CHAVE: adjetivo, nome, conservação linguística, mudança linguística.
ABSTRACT: This article aims to discuss the neutralization between the rural speech and the urban
speech, throughout description and analysis of the adnominal adjective position in NP, considered as part
of the change AN>NA that happens to Romanic languages and that is being developed in Portuguese
language since its earliest periods. In order to verify the maintenance degree of the rural speech from
Goiás, the results from the frequency analysis of AN order in the data studied are compared to the results
from the frequency analysis of AN order in rural speech of Barra Longa, in Minas Gerais. They are also
compared to analysis of the same phenomenon, with written Portuguese data from the twentieth century
and from contemporary urban Brazilian Portuguese, oral and written. The empirical data analyzed in this
study was collected in rural areas in Goiás, in central and north regions of the State, since these regions
present a major degree of geographic and cultural isolation and low demographic density. The speech
communities selected to this research were Pombal, an Afro-Brazilian community, located in the
surroundings of Santa Rita do Novo Destino; Traíras, a community that remained from an ancient village
formed during the gold cycle; and Acaba Vida, a community composed by migrants coming from
Governador Valadares, in Minas Gerais. The results of the descriptions and analyses of the data studied
and the discussion of the results enable us to relativize the maintenance of the rural speech of Goiás and
1
Esta discussão é a reelaboração de um recorte da análise de minha tese de doutorado intitulada “A
mudança Adjetivo/Nome>Nome/Adjetivo e o Conservadorismo da Fala Rural Goiana”, defendida no
Programa de Pós-Graduação em Linguística, Linha B – Variação e Mudança no Português do Brasil, na
Universidade Federal de Minas Gerais, em 2008.
2
Professora Adjunta da Faculdade de Letras/Universidade Federal de Goiás. Doutora em Estudos
Linguísticos – Variação e Mudança Linguística no Brasil – pela Universidade Federal de Minas Gerais.
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point to the possibility of the similarities between rural and urban, concerning the adjective position in
NP.
KEY WORDS: adjective, noun, language maintenance, language change.
1 Introdução
Há um pressuposto quase consensual entre os linguistas brasileiros que a área
rural, por estar isolada, tende a conservar padrões linguísticos que nos centros urbanos,
sob pressão da escrita e da escola, inovam mais rapidamente (MIAZZI, 1972;
BORTONI-RICARDO, 2005; BORGES; SALLES, 2005; ANDRADE, 2007).
Em geral, entende-se o isolamento das áreas rurais como sendo geográfico –
distanciamento dos centros urbanos desenvolvidos – e cultural – baixa ou nenhuma
escolaridade dos indivíduos, bem como o distanciamento de contextos e situações de
letramento; neste sentido, o isolamento pode ser encontrado também em áreas urbanas.
O conservadorismo linguístico, por seu turno, pode ser visto como a manutenção
de características ou tendências linguísticas de períodos anteriores da língua portuguesa
(LP) no português brasileiro (PB). No PB, são considerados conservadores os traços
linguísticos característicos do português arcaico tardio (século XVI) (MELO, 1975), os
quais já foram inovados no português europeu (PE) e, provavelmente, no padrão
linguístico urbano culto do PB.
Com respeito à fala do Centro-Oeste brasileiro, de colonização mais tardia,
afirmações apoiadas na historiografia local das décadas de 70 e 80 (BORGES;
SALLES, 2005; ANDRADE, 2007), as quais, por sua vez, seguem o olhar dos cronistas
viajantes europeus (PALACÍN, 1981; PALACÍN; MORAES, 1989; PALACÍN, 1994;
PALACÍN et al., 1995), apontam para um total isolamento dessa região, nos séculos
XVIII e XIX, e, consequentemente, para o conservadorismo dos hábitos sociais,
culturais e linguísticos da população. Assim, a fala de Goiás, estado situado no CentroOeste do Brasil, é sumariamente considerada tão conservadora quanto a fala rural
brasileira (BORGES; SALLES, 2005; ANDRADE, 2007; MATTOS, 2013).
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Diante disso, tendo em vista as atuais mudanças conjunturais e estruturais pelas
quais passam as áreas rurais brasileiras, sobretudo na região Centro-Oeste, objetiva-se
com o presente artigo discutir a neutralização entre a fala rural e a fala urbana, a partir
dos resultados de um estudo sobre a fala rural goiana, isto é, a fala rural de um estado
ruralizado, que, de acordo com os pressupostos apresentados anteriormente, constituem
o extremo da conservação linguística no Brasil. Visa ainda esta discussão contribuir
com os estudos sobre a história de formação e fixação do português em Goiás e com o
entendimento da manutenção linguística no curso de avançados processos de mudança
linguística.
O ponto de partida desta discussão são as propostas de neutralização linguística
rural/urbana de Cohen (2007) e de Rezende Santos (2008), para defender que a noção
de isolamento, aliada à ideia de decadência, que permeia a historiografia tradicional
sobre Goiás, e a noção de conservadorismo linguístico da fala rural e da fala goiana, na
bibliografia consultada, refletem uma concepção idealizada de língua e uma visão
essencializada das áreas rurais. Sob outras perspectivas de análise, a caracterização da
fala goiana e da fala rural brasileira poderá ser outra, conforme veremos neste trabalho.
Além dessa defesa, propõe-se também a reflexão acerca das categorias sociais
pré-estabelecidas e generalizadas para o estudo da variação e da mudança linguísticas
em comunidades, ao mesmo tempo, específicas e complexas em sua constituição sóciohistórica e humana.
A argumentação em favor da neutralização rural/urbano, na linguagem, é
evidenciada e sustentada pelos resultados de estudos sobre a posição do adjetivo no SN,
um fenômeno linguístico socialmente não marcado, com vistas a depreender a
frequência de ocorrência das ordens adjetivo + nome (AN) e nome + adjetivo (NA),
comparando-se os resultados da análise da fala rural goiana (Rezende Santos, 2008) a
resultados de estudos semelhantes realizados com a fala urbana, culta e coloquial, oral e
escrita, por Cohen (1989), Nobre (1989), Boff (1990), Müller et al. (2002), Callou e
Serra (2003) e Callou et al. (s/d).
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Para a análise da posição do adjetivo no SN da fala rural goiana, empreendida
em Rezende Santos (2008), cujos resultados ora se rediscutem, foram gerados dados a
partir da documentação da oralidade de três comunidades rurais, situadas nas
mesorregiões do Centro e do Norte de Goiás. São elas: Pombal, comunidade de afrobrasileiros, situada no município de Santa Rita do Novo Destino; Traíras, antigo arraial
minerífero, um dos maiores julgados administrativos da Capitania de Goiás, durante os
séculos XVIII e XIX, situado no município de Niquelândia3; neste mesmo município,
situa-se também a comunidade de migrantes mineiros de Acaba Vida4; e os dados de
fala da área rural de Barra Longa, na região do Carmo, em Minas Gerais.5
A pesquisa de campo, etnográfica, na modalidade pesquisa participante, foi
realizada em dois períodos: entre os anos de 1996 e 2000 e entre 2001 e 2004. Os dados
foram gerados por meio da gravação de conversas espontâneas e entrevistas com
homens e mulheres sem escolarização formal ou com até 3 anos (primário incompleto)
de estudo escolar; somente um dos entrevistados tem 12 anos (segundo grau completo)
de escolarização. Os participantes da pesquisa estão distribuídos em três grupos etários:
(1) 12-32 (4 = 1 mulher e 3 homens), (2) 40-58 (13 = 6 mulheres e 7 homens), (3) de 60
acima (20 = 9 mulheres e 11homens), apresentando baixo, médio e alto grau de
interação social, tanto interna à comunidade (com os de dentro das comunidade, os
amigos mais próximos, os parentes etc) quanto externa (com os de fora das
comunidades, das cidades vizinhas, de Goiânia, de Brasília, como os pesquisadores das
universidades e dos movimentos sociais, os agentes de saúde, os funcionários das
secretarias de educação dos municípios e do estado, políticos, que vão até as
comunidades; e os médicos e outros, quando os participantes se deslocam para fora de
suas respectivas comunidades) das comunidades.
3
Dados pertencentes ao acervo do Obiah Grupo Intercultural de Estudos Transdisciplinares da
Linguagem, resultantes dos projetos de pesquisa “Estudo da Fala Goiana” (1997-2006) e “Das trilhas do
ouro aos trilhos de ferro: entrada e difusão da língua portuguesa em Goiás” (2007-2011).
4
Dados constantes dos anexos de Pádua (2002).
5
Material do banco de dados do projeto “Pelas trilhas de Minas: a língua e as bandeiras nas Gerais”,
desenvolvido na Universidade Federal de Minas Gerais, sob a coordenação da Profª Drª Maria Antonieta
Amarante de Mendonça Cohen, a quem agradeço pela gentileza em ceder os dados.
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A interação social entre os participantes, além de sua importância primária para
a presente discussão, foi considerada na interpretação dos resultados, devido às
dificuldades em encontrar pessoas, cujo perfil social refletisse as estratificações sociais
canônicas exigidas para um tratamento sociolinguístico mais ortodoxo dos dados. O
grau de interação social, interna e externa, foi depreendido nas entrevistas, por meio de
perguntas diretas sobre a mobilidade dos participantes e de seus parentes, quando as
informações sobre essa questão dadas nas narrativas e conversas espontâneas não eram
consideradas suficientes.
O grau de significância da distribuição do adjetivo no SN e das ordens AN e
NA, nos dados, é aferido por meio do teste do Chi Quadrado, efetuado através dos
recursos
disponibilizados
em:
<http://faculty.vassar.edu/lowry/newcs.html>.
apresentação dos resultados são empregados os seguintes símbolos:
Na
(chi-quadrado),
df (grau de liberdade) e p (probabilidade de ocorrência da ordem AN).
A noção de mudança linguística associada à manutenção linguística, defendida
por Jakobson (1995) e por Milroy (1992), em que na mudança há um princípio de
continuidade, sincronia dinâmica ou sincronia diacrônica, nos termos de Jakobson
(1995), é considerada nas discussões, pois o fenômeno se revelou mais um problema de
manutenção do que de mudança linguística. A teoria da variação e da mudança
linguística e as metodologias de geração e tratamento dos dados Sociolinguística
Variacionista (WEINREICH; LABOV; HERZOG, 1968; LABOV, 1972; 1994; 2001;
2010) embasam teoricamente a análise dos dados e a discussão dos resultados.Esta
discussão poderá contribuir para o conhecimento de alguns processos de formação do
PB no Centro-Oeste do Brasil, especificamente no território atualmente denominado de
estado de Goiás, para a elucidação de possíveis diferenças/semelhanças entre os falares
rural e urbano, repensando as noções de isolamento geográfico-cultural e de
conservadorismo linguístico, e reelaborando a relação entre rural e urbano para além da
oposição expressa seja na polarização seja no contínuo. Poderá contribuir ainda para as
discussões sobre a manutenção linguística no curso de avançados processos de mudança
linguística.
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2 As comunidades sociolinguísticas goianas
2.1 O Quilombo de Pombal
A comunidade de Pombal fica a 250 km de Goiânia, a 190 km de Brasília e a
seis km à direita da BR 080 (sentido Brasília-Belém), às margens do Rio Maranhão, no
Município de Santa Rita do Novo Destino, no Vale do São Patrício, Mesorregião do
Centro Goiano, Microrregião de Ceres. O município de Santa Rita do Novo Destino,
recentemente emancipado, até o ano de 1996 pertencia ao município de Barro Alto.
Este, por sua vez, até o ano de 1958, data de sua emancipação política, pertencia ao
município de Pirenópolis.
Assim, tendo em vista que muitos dos pombalenses mais velhos (acima de 80
anos de idade) nasceram na comunidade e, segundo os relatos dos mais antigos, seus
pais também nasceram na região, pode-se deduzir que a comunidade de Pombal se
formou em um território pertencente ao município de Pirenópolis, no final do século
XIX.
A fundação Cultural Palmares (www.palmares.gov.br/sicab), com base em
dados de 2005, registra a existência de 216 habitantes em Pombal. De acordo com as
informações obtidas em nosso próprio levantamento, dentro dos limites de Pombal
residem cerca de 203 habitantes. São famílias distribuídas em fazendas e sítios, às
margens de três córregos e com três descendências distintas: Córrego do Puba – os
Borges Cardoso, oriundos de Pirenópolis; Córrego Pombal – os Borges Vieira, oriundos
de Minas Gerais; e Córrego do Chiqueiro – os Borges dos Santos e os Borges
Rodrigues, oriundos de Água Quente, município de Niquelândia.
Com relação ao perfil social da comunidade, o analfabetismo predomina entre a
população acima de 67 anos de idade e, nas faixas intermediárias (de 40 a 58 anos de
idade), as pessoas que estudaram frequentaram a escola por, no máximo, dois ou três
anos. Entre os jovens de 25 a 35 anos de idade, a maioria possui até quatro anos de
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escolaridade e alguns poucos frequentaram a escola por até 12 anos, concluindo o
Ensino Médio.
De acordo com dados fornecidos pela secretaria Municipal de Educação de
Santa Rita do Novo Destino, a comunidade de Pombal possuía 12 escolas em 1998,
atendendo crianças do Ensino Fundamental, no sistema multisseriado. Em 1999, esse
número foi reduzido para sete e a prefeitura, a partir de então, disponibilizou um carro
para transportar os alunos de Pombal, que já tenham concluído o Ensino Fundamental,
até o povoado de Verdelândia para cursar o Ensino Médio. Atualmente, todas as escolas
da comunidade foram fechadas e os alunos que querem cursar o ensino Fundamental se
deslocam até a Placa, povoado à margem da BR 080, a 7 km da comunidade, ou
Verdelândia, distrito de Santa Rita do Novo Destino.
As pessoas não-escolarizadas apresentam diferentes níveis de letramento,
dependendo do contato com situações ou culturas de letramento. Alguns pombalenses
não-escolarizadas, que possuem alto grau de mobilidade geográfica, podem apresentar
níveis de letramento alto, pois interagem cotidianamente com a tecnologia da escrita,
em diferentes contextos e situações.
Dado que a principal atividade da comunidade é a agricultura familiar, os
homens em geral são lavradores, trabalham em suas próprias lavouras e na lavoura
comunitária coordenada pela prefeitura e pela antiga Emater-GO, agora Agência Rural.
As mulheres cuidam da casa, dos filhos e, eventualmente, dos netos. Algumas são
professoras e outras são merendeiras na escola da comunidade. Todas elas, quando
necessário, auxiliam os homens na lavoura. Com a recente chegada da mineradora
Anglo-América a Barro Alto, muitos pombalenses estão deixando a comunidade para
“trabalhar fichado na Firma”.
Há circulação de dinheiro na comunidade e as atividades agropecuárias são o
principal meio de sustentabilidade. Atualmente, com os benefícios recebidos dos
governos federal e estadual a circulação de dinheiro aumentou. Embora a presença de
religiões evangélicas seja significativa, predomina na comunidade o sincretismo
religioso, com ênfase no catolicismo. A população de Pombal se caracteriza ainda pela
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ancianidade, uma vez que os jovens saem para outras localidades em busca de trabalho,
escola e melhores condições de vida.
O principal meio de transporte em Pombal é o cavalo, às vezes puxando carroça.
Há, porém, um ônibus que passa dia sim, dia não, levando as pessoas para Barro Alto
ou Niquelândia. Algumas pessoas têm bicicleta ou motocicleta. Muitos dos Borges
Vieira possuem automóveis, mesmo que em péssimas condições. Fora disso, andam a
pé, de carona com fazendeiros que transitam pela região ou com os leiteiros que
recolhem o leite em fazendas vizinhas. Dadas as dificuldades de deslocamento, em
geral, as pessoas mais velhas saem pouco da comunidade. Apesar das incertezas e da
escassez de fontes documentais sobre as origens históricas de Pombal, em 05/04/2005, a
Fundação Cultural Palmares conferiu à comunidade o título de terra remanescente de
quilombos (www.palmares.gov.br/sicab), sob o amparo do Art. 216 dos Atos das
Disposições Gerais da Constituição brasileira de 1988.
2.2 O antigo julgado de Traíras
Traíras situa-se no município de Niquelândia, antiga São José do Tocantins, na
Mesorregião do Norte Goiano, Microrregião de Porangatu, a 380 km de Goiânia, pela
BR 153, e a 260 km de Brasília, pela BR 414. O arraial de Traíras foi fundado em 1735,
por Antônio de Souza Bastos e Manoel Rodrigues Thomaz, em função das muitas minas
de ouro da região do rio Tocantins.
Durante os anos da mineração, foi um dos mais importantes julgados do Norte,
contando com uma casa de fundição, paróquia, cartório, cadeia pública, comércio de
secos e molhados e uma escravaria considerável, com uma média de 4.000 peças para o
período mineratório (BERTRAN, 1998). Com o fim das minas do Tocantins – São José
do Tocantins, Traíras, Água Quente, Cocal e Muquém – em meados do século XIX,
Traíras caiu em decadência, conseguindo manter, por algum tempo, a matriz e uma festa
de devoção, em louvor a Nossa Senhora da Conceição, que movimentava o Julgado. Em
1833, Traíras deixa de ser julgado e passa a distrito de São José do Tocantins.
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A casa de fundição, já em desuso, deixa totalmente de funcionar, o cartório é
fechado, a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição fica em ruínas depois de um
incêndio acidental e a imagem da Santa é levada para São José; a Igreja de São
Sebastião tem seu padroeiro roubado e fica praticamente sem função e o prédio da
cadeia é destruído por um incêndio também acidental. As pessoas ilustres deixam o
distrito, geralmente em direção à capital, no Sul do Estado, levando consigo uma parte
da escravaria e deixando para trás apenas alguns negros, poucos brancos e os indígenas
“arredios” que transitavam por lá.
Nos dias atuais, Traíras está praticamente desabitada. As poucas famílias
remanescentes, somando não mais que 20 pessoas, a maioria com mais de 50 anos de
idade, moram em casas em avançado estado de depreciação e vivem de aposentadorias
ou outros benefícios do governo. Dos antigos prédios públicos restam apenas ruínas, as
igrejas destruídas nunca foram reconstruídas e as imagens sagradas nunca foram
restituídas por falta de local adequado e seguro para colocá-las. Além das casas
residenciais, há apenas um bar em funcionamento. A decadência de Traíras, iniciada
com o fim da mineração, se acentuou profundamente com a emancipação de São José
do Tocantins e, principalmente, com a instalação das empresas Companhia Níquel
Tocantins, do Grupo Votorantim, e Codemi, do Grupo Anglo-América, na década de
1930, para explorar o solo na extração de minério.
Em 1755, o povoado de São José do Tocantins (ou São José do Alto Tocantins)
foi elevado à categoria de distrito de Traíras e, em 1833, foi elevado à categoria de vila
e sede do município. Traíras, então, passou a distrito de São José do Tocantins. Em
1938, com a descoberta das jazidas de níquel, a população de São José do Tocantins
cresceu muito e rapidamente. A vila alcançou, desta forma, a categoria de cidade e, em
1943, em homenagem ao minério que salvou a situação econômica do município, a
cidade passou a se chamar Niquelândia.
A maior parte da população remanescente de Traíras, no século XX, segundo os
relatos dos moradores entrevistados, era descendente de bandeirantes, filhos (mestiços)
de portugueses e brasileiros, e de mineiros. A historiografia, no entanto, noticia a
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presença de índios e negros na região. Os índios foram dizimados ou aldeados e os
negros fugiram, morreram ou simplesmente foram embora, restando apenas uma
pequena porção deles, os quais foram absorvidos pelas empresas de mineração de
Niquelândia e não residem mais em Traíras.
A pequena população de Traíras, portanto, salvo raras exceções, é bastante clara.
Da mesma forma que nas demais comunidades rurais goianas, em Traíras predominam a
ancianidade e o analfabetismo, e a mobilidade geográfica de seus habitantes, em geral, é
alta, ainda que haja aqueles cuja mobilidade seja baixa. As pessoas não-escolarizadas
que possuem alta mobilidade geográfica possuem também alto nível de letramento.
Dadas as precárias condições de vida no local, há mais homens que mulheres
residindo em Traíras. Os homens, em geral, são aposentados e lidam em suas lavouras
de subsistência e as mulheres cuidam da casa e da família; as crianças existentes no
povoado estão todas abaixo da idade escolar.
Não há escolas em Traíras e, por isso, quando as crianças atingem a idade
escolar, normalmente, as famílias que querem colocar os filhos para estudar, deixam o
local. Estes não retornam, pois o povoado não oferece condições de vida, tais como
emprego, por exemplo. Entre os trairenses predomina o catolicismo e, como não há
igrejas nem padres no povoado, aos domingos e dias santos as pessoas vão para a cidade
assistir à missa. Durante a quaresma, em alguns dias santos e durante o mês de
dezembro, advento do natal, os trairenses rezam o terço em suas casas, juntamente com
os vizinhos.
2.3 A comunidade de Acaba Vida
Acaba Vida é uma das regiões rurais do povoado de Faz Tudo (Taveiras),
município de Niquelândia, na Mesorregião do Norte Goiano, Microrregião de
Porangatu, a 300 km de Goiânia. Trata-se de uma região de difícil acesso pelos
acidentes geográficos e pela falta de estradas, dificultando o deslocamento dos
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moradores do lugar. É habitada por migrantes mineiros, oriundos principalmente da área
rural de Governador Valadares, em Minas Gerais.
De acordo com os relatos dos entrevistados, as famílias mineiras residentes em
Acaba Vida descendem de imigrantes italianos que foram para Minas Gerais no final do
século XIX e início do século XX, durante o período de imigração estrangeira para o
Brasil. Historicamente, Acaba Vida foi área de exploração pelos bandeirantes em busca
de índios e ouro, nos séculos XVIII e XIX (BERTRAN, 1998). Por essa época, não
houve ocupação do lugar, que ficou despovoado, como muitas áreas do Norte Goiano,
até a década de 70, do século XX.
No curso do espírito desbravador da Marcha para o Oeste, empreendimento do
Governo Vargas, lançado em 1940, com o intuito de colonizar o Centro-Oeste
brasileiro, o então Governador de Goiás, Pedro Ludovico Teixeira, lançou um programa
de povoamento do Norte. Entretanto, os migrantes que se dirigiram para o Estado
preferiram ficar nas regiões Sul e Central e o Norte continuou praticamente desocupado.
Com a segunda política de incentivo à povoação e ao desenvolvimento da agricultura no
Norte de Goiás, a partir da fundação da Colônia Agrícola Nacional (CANG), fase
denominada por Baiocchi (1999) e Guimarães (1988) de “movimento migratório”,
pecuaristas mineiros e baianos, dentre outros, vieram para Goiás, em busca de terras
para lavouras e pastagem para o gado, estabelecendo-se, principalmente, na região
Norte.
Nesse período, a área rural de Faz Tudo, inclusive Acaba Vida, foi efetivamente
povoada por famílias de Minas Gerais. Em Acaba Vida, não há escolas. Aqueles que
desejam estudar precisam se deslocar até Faz Tudo. Entre os adultos de Acaba Vida e de
Faz Tudo predomina o analfabetismo e os escolarizados frequentaram escola por, no
máximo, quatro anos (curso primário). Alguns indivíduos não-escolarizados apresentam
alta mobilidade geográfica, interna e externa à comunidade, e alto nível de letramento.
A principal atividade dos moradores de Acaba Vida e de Faz Tudo é a lavoura
de subsistência ou agricultura familiar. Algumas famílias se ocupam também da criação
de gado. Assim, a ocupação básica dos homens é a lavoura e das mulheres são as lidas
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domésticas e, eventualmente, a lavoura. Em Faz Tudo, há casas comerciais e, portanto,
alguns indivíduos são comerciantes. Uma parte dos habitantes de Acaba Vida é
protestante e a outra é católica. No povoado de Faz Tudo, há igrejas protestante e
católica. Assim, os protestantes e os católicos podem frequentar a igreja no próprio
local. Apesar disso, os membros desta comunidade também têm o hábito de realizar
cultos (os protestantes) e rezas ou terços (os católicos) em suas casas, em datas
comemorativas. Maiores informações sobre a comunidade de Acaba Vida encontram-se
em Pádua (2002).
2.4 A comunidade mineira de Barra Longa
Dados de fala da área rural de Barra Longa, em Minas Gerais, a partir de três
entrevistas com pessoas acima de 80 anos de idade e baixo grau de escolaridade, foram
tomados para comparação com os dados da fala rural de Goiás e com os resultados de
análises da oralidade e da escrita urbanas da LP.
A afirmação de Melo (1946, p. 112) que “a fala de Minas Gerais é o
denominador-comum da dialetação da LP no Brasil”, a constituição sócio-histórica de
toda a região do Carmo e o pressuposto de que a fala goiana sofre influência da fala
mineira, baseada na intensa migração de mineiros para Goiás, desde o final do século
XIX, justificam a escolha de Barra Longa para a comparação realizada.
Barra Longa está situada na região do Carmo, Mesorregião da Zona da Mata e
Microrregião de Ponte Nova, a 172 km de Belo Horizonte e 82 km de Ouro Preto, a
antiga Vila Rica. A região do Carmo, penetrada e ocupada desde o final do século XVII,
teve seus primeiros arraiais e vilas fundados pelos bandeirantes, no século XVIII, com a
exploração do ouro, nas Gerais. O Arraial Barra de Matias Barbosa, que daria origem à
atual cidade de Barra Longa, foi fundado em 1736, alcançando o estatuto de Freguesia
em 1741. Sua emancipação política data de 1 de janeiro de 1939. Para mais detalhes
sobre Barra Longa e a região do Carmo, em Minas Gerais, remeto o leitor a Mendes
(2000) e Seabra (2004).
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Considerando as três comunidades goianas, participaram da pesquisa 38 pessoas
entre homens e mulheres, com pouca ou nenhuma escolaridade, distribuídos em três
faixas etárias: (1) 12-32 (4 = 1 mulher e 3 homens), (2) 40-58 (13 = 6 mulheres e 7
homens), (3) de 60 acima (20 = 9 mulheres e 11homens), apresentando baixo, médio e
alto grau de interação social, tanto interna quanto externa.
3 A posição do adjetivo no SN no PB contemporâneo
De acordo com a tradição gramatical (CUNHA; CINTRA, 2001; FARACO;
MOURA, 2000; NEVES, 2000) e com descrições linguísticas, constantes da literatura
pertinente, a ordem não-marcada do SN no PB é NA, com ocorrências de AN para
algumas classes de adjetivos, em combinação com determinados nomes, em contextos
específicos. Assim, há, de acordo com sua posição no SN, as seguintes classes de
adjetivos:
(1) adjetivos que só ocorrem antepostos: “É um mero funcionário”,
(2) adjetivos que só ocorrem pospostos: “mesa redonda”,
(3) adjetivos que ocorrem antepostos e pospostos, com alteração de sentido: “pobre
menino”/”menino pobre” e
(4) adjetivos que podem ocorrer antes ou depois do nome, com sutis nuances de
sentido: “boa pessoa”/“pessoa boa”.
Do ponto de vista sincrônico, de acordo com os resultados de análises sobre o
fenômeno em questão, o quadro da posição do adjetivo no SN português, nos séculos
XX e XXI, é como segue, em (1):
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(1)
DISTRIBUIÇÃO DO ADJETIVO NO SN PORTUGUÊS CONTEMPORÂNEO
FONTE
Cohen (1986-1989)
Nobre (1989)
GÊNERO
TEXTUAL
ESCRITA
científico
científico
literário
cartas pessoais
-
PADRÃO/ ESTILO
ORALIDADE
culto, formal
coloquial, informal
culto, informal
FREQUÊNCIA
DE AN
FREQUÊNCIA
DE NA
93/442 (21%)
41/438 (9%)
52/195 (27%)
68/403 (17%)
218/1140 (19%)
41/106 (39%)
136/1170 (12%)
349/442 (78%)
397/438 (91%)
143/195 (73%)
335/403 (83%)
922/1140 (81%)
Boff (1991)
65/106 (61%)
Müller et al. (2002)
1034/1170
(88%)
Fonte: elaboração própria da autora com base nos resultados de Cohen (1986-1989), Nobre (1989), Boff
(1991) e de Müller et. Al. (2002).
O quadro acima mostra a predominância da ordem NA, na LP e no PB, no
século XX, independentemente da modalidade de uso da língua (oral/escrita), do gênero
da escrita (científico, literário, cartas pessoais), do padrão de uso linguístico (culto,
coloquial) e do estilo ou grau de formalidade, com expressiva tendência de ocorrência
da ordem AN na escrita mais subjetiva – cartas pessoais e textos literários.
Nas modalidades escrita e oral, considerando-se a média de frequência de AN,
tem-se: 19% (227/1.181) de ocorrência na escrita e 16% (422/2.713) na oralidade. A
diferença de 3 pontos percentuais (19 - 16 = 3) e o resultado do cálculo do Chi
Quadrado (
= 7.7, df: 1, p 0.0055, S = 0.0452) mostram que a distribuição de AN nas
modalidades de uso da língua não é significante e que a probabilidade de AN ocorrer na
escrita é a mesma que na oralidade.
A escrita apresenta três gêneros textuais: científico, literário e cartas pessoais.
De acordo com os resultados, AN tende a ocorrer mais nas cartas pessoais e nos textos
literários do que nos textos científicos. São 15% (134/880) de ocorrência de AN nos
textos científicos, 27% (52/195) nos textos literários e 39% (41/106) nas cartas pessoais.
Embora haja maior diferença entre os percentuais de frequência de gênero para gênero,
com a liderança das cartas pessoais, o resultado do cálculo do Chi Quadrado (
=
41.85, df: 2, p < .0001, S = 0.1882) indica que a distribuição da ordem AN por gênero
textual não é significante.
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A oralidade urbana apresenta dois padrões de uso: culto e coloquial, sendo que o
padrão culto apresenta dois estilos, formal e informal, e o padrão coloquial apresenta
somente o estilo informal. Os percentuais de ocorrência entre os padrões linguísticos
são os seguintes: 13% (204/1.573) de ocorrências de AN na fala urbana culta, e 19%
(218/1.140) na fala urbana coloquial. O resultado do cálculo do Chi Quadrado (
=
18.59, df: 1, p < .0001, S = 0.0838) indica que a distribuição de AN por padrão
linguístico não é significante. Quanto aos estilos, no padrão culto formal, ocorrem 17%
(68/403) de AN, no padrão culto informal são 12% (136/1170) de AN, e no padrão
coloquial informal ocorrem 19% (218/1140) de AN. De acordo com o resultado do
cálculo do Chi Quadrado (
= 0.51, df: 1, p 0.4751, S = 0.0152), a distribuição de AN
por estilo de uso linguístico não é significante.
Os resultados apresentados no quadro (1), complementados pelos resultados do
cálculo do Chi Quadrado, sugerem que a ordenação dos constituintes do SN pode não
sofrer avaliação social, nem negativa nem positiva, ainda que nenhum teste de atitude
tenha sido aplicado pelas autoras consultadas, uma vez que não há assimetria
significativa entre a fala culta formal, a fala culta informal e a fala coloquial, nem entre
a oralidade e a escrita.
Pelo exposto, na presente discussão, a posição do adjetivo em relação ao
substantivo é considerada um fenômeno linguístico não marcado socialmente.
Fenômenos não marcados não atraem a atenção do falante nem do ouvinte e, por isso,
os falantes não se preocupam em evitar uma variante e reforçar outra. Ou seja, não há
policiamento social em relação a fenômenos linguísticos não marcados.
Callou e Serra (2003) e Callou et al. (s/d) apresentam resultados da análise, em
pesos relativos, da aplicação da regra de anteposição em dados escritos da imprensa
brasileira, que confirmam a predominância da ordem NA no PB dos séculos XX e XXI,
reiterando os resultados apresentados no quadro (1).
Com relação à natureza dos constituintes do SN, segundo Cohen (1986-1989),
Nobre (1989) e Boff (1991), a ordem AN tende a ocorrer em SN cristalizado, com
predominância dos adjetivos de sentido avaliativo (ou subjetivo). Na escrita,
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considerando-se o gênero textual, a frequência de AN é mais alta no gênero literário e
nas
cartas
pessoais,
exatamente
os
gêneros
que
mais
favorecem
a
subjetividade/avaliação.
As hipóteses explicativas/interpretativas para a distribuição do adjetivo no SN
português contemporâneo podem ser resumidas da seguinte forma:
1. trata-se de um fenômeno diacrônico, encaixado no realinhamento tipológico „OV/AN >
VO/NA‟ em curso nas línguas românicas (Cohen, 1986-1989);
2. no processo de mudança AN > NA, nas línguas românicas, alguns itens (adjetivo/nome) mais
frequentes em combinação, em uma situação de modificação particular, tendem a se cristalizar em
uma determinada ordem, conservando-se como resíduos históricos de fases anteriores da língua
(Cohen, 1986-1989);
3. os adjetivo de sentido avaliativo (subjetivo) podem ocorrer antes ou depois do nome e os de
sentido descritivo (objetivo) só ocorrem depois do nome; a ordem AN é caracterizada pela
ocorrência dos adjetivos avaliativos (Cohen, 1986-1989; Nobre, 1989; Boff, 1991; Callou & Serra,
2003; Callou et al., s/d; Rezende Santos, 2008);
4. adjetivos mais pesados (maior número de sílabas que o núcleo) tendem a ocorrer na ordem NA
(Callou & Serra, 2003; Callou et al., s/d).
5. fatores socioculturais e registros linguísticos não influenciam na distribuição do adjetivo no SN
(Nobre, 1989);
6. os adjetivos são gerados à direita do nome e os adjetivos avaliativos movem-se, opcionalmente,
para a esquerda (Boff, 1991);
7. a perda progressiva do movimento opcional dos adjetivos avaliativos, no percurso histórico
da língua, resultou na baixa frequência de adjetivos antepostos no PB contemporâneo (Boff,
1991).
O conjunto das hipóteses, apresentado anteriormente, pode ser discutido
tipologicamente, com base no Universal 19 de Greenberg (1978), segundo o qual as
línguas com regra geral OV/AN não admitem exceções na colocação dos constituintes,
ao passo que as línguas, cuja regra geral é VO/NA, admitem a ordem AN para uma
minoria de adjetivos. Dessa forma, parece claro que os fatores internos, concernentes às
possibilidades estruturais da língua, compõem o processo da mudança AN > NA,
enquanto os fatores externos, relativos à estrutura sociocultural da comunidade de fala e
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às situações e condições de uso da língua, em determinados momentos e contextos,
aceleram ou retardam o ritmo da mudança.
Com relação, especificamente, à mudança AN > NA, segundo Lehmann (1978),
os adjetivos descritivos são os primeiros a mudar, seguidos, posteriormente, pelos
avaliativos. A maioria das análises da mudança AN > NA (Waugh, 1977; Cohen, 19861989; Nobre, 1989) correlaciona a ordem dos constituintes à classe semântica do
adjetivo, indicando que, nas línguas de regra geral NA, a minoria de adjetivos que
antecedem o substantivo pertence à classe dos avaliativos (qualificativos, subjetivos),
que são os últimos a mudarem de posição, e a totalidade dos adjetivos que sucedem o
nome possui sentido descritivo (restritivo, objetivo).
De acordo com os resultados de Cohen (1986-1989) e de Callou e Serra (2003),
a mudança na posição do adjetivo no SN, na LP, já registrada no século XIV, se
intensificou no século XVIII, passando por variações significativas no século XVI
(Cohen (1986-1989) registra 31% de ocorrências de AN, em um dos textos do século
XVI que analisa, e 65% no outro).
Os gráficos, a seguir, apresentam o declínio da frequência de ocorrência da
ordem AN, do século XIV ao XX, em termos percentuais (análise da frequência, com
dados de Cohen (1986-1989)) e em peso relativo (dados de Callou & Serra (2003)).
(2)
FREQUÊNCIA MÉDIA DE OCORRÊNCIA DA
ANTEPOSIÇÃO NA LP POR SÉCULO/%
90
80
70
IA 60
C
N 50
Ê
U
Q 40
E
R 30
F
20
10
0
82
71
76
51
48
34
20
XIV
XV
XVI
XVII
XVIII
XIX
XX
PERÍODO
Fonte: Cohen (1986-1989: 64).
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(3)
OCORRÊNCIA DE ANTEPOSIÇÃO NA LP POR SÉCULO (PESO RELATIVO)
70
65
58
60
52
50
A
I
C
N
Ê
Ü
Q
E
R
F
40
36
30
20
10
0
XVII
XVIII
XIX
XX
PERÍODO
Fonte: Callou e Serra (2003: 197).
De acordo com Cohen (1986-1989), a mudança na posição do adjetivo no SN
provocou alterações na classificação semântica dos adjetivos, resultando no quadro
atual, em que AN = sentido avaliativo e NA = sentido descritivo. Afirma ainda a autora
que a ordem AN, na LP, está ficando restrita a ocorrências dos itens gatilho (trigging),
em estruturas específicas de SN – os compostos (compounds) e as frases-feitas (set
phrases). Esse pressuposto é corroborado pela noção de contextos particulares (Neves,
2000), equivalente a
expressões cristalizadas (Boff, 1991), em referência,
principalmente, a documentos cartoriais (ou notariais) e eclesiásticos, que
frequentemente são incorporados à oralidade, envolvendo classes específicas de
adjetivos – “os de sentido especial” e de “difícil classificação”, para Borges Neto (1990)
e Menuzzi (1992), respectivamente.
O fato de no Rio de Janeiro, por exemplo, a ordenação dos constituintes do SN
não estar correlacionada à estrutura sociocultural da comunidade de fala nem a uma
modalidade de uso da língua – oral ou escrita – nem a um gênero de discurso – literário
ou não-literário – nem ao grau de formalidade da situação/grau de padronização do uso
linguístico (Nobre, 1989) fortalece a hipótese da mudança AN > NA, encaixada na
deriva natural das línguas românicas, sendo, portanto, a mais adequada para o estudo da
posição do adjetivo no SN da fala rural goiana, considerando as hipóteses estruturais
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como aspectos que possibilitam a implementação da mudança, ou que aceleram ou
retardam a mudança.
Se há um curso natural da mudança AN > NA, nas línguas românicas, pode-se
considerar que a ordem AN é a mais antiga, a conservadora, e a ordem NA, a mais
recente, a inovadora. Pode ser também que essa equação não se aplique a esse
fenômeno, dado seu grau de planificação. Vejamos.
3. A posição do adjetivo no SN na fala rural goiana
Na fala rural goiana, nota-se uma baixa frequência de uso de adjetivos
adnominais: em mais 3.000 SN inventariados nos dados, ocorrem 401 adjetivos. A
tendência à baixa frequência de uso de adjetivos adnominais é noticiada por Scherre
(1998), com os dados do Censu-RJ. Outra constatação, já esperada, é a baixa frequência
de adjetivos antepostos ao nome. Do total de 401 adjetivos adnominais registrados nos
dados, 105 (26%) estão antepostos e 296 (74%) estão pospostos ao nome. Todos os
adjetivos antepostos são avaliativos e, dos pospostos, 22% (64/296) são avaliativos e
78% (232/296) são descritivos.
Cerca de 50% dos SN, com adjetivo anteposto ou posposto, registrados nos
dados, constitui estrutura cristalizada (EC), isto é, estruturas que não admitem a
mobilidade dos constituintes, possuindo uma ordem, ou AN ou NA, fixa, conforme
mostram os enunciados de (1) a (3):
(1)
Então no dia 12 que é dia de Santo Antone ( ) deve que a sinhora sabe que no
dia 13 é o dia santo do Santo Antone. (PO)
(2)
... e ela trabaia o dia ... quando é à noite ... iii ... mais crama ( ) 'tão ... a gente
hoje 'tá cum cinqüenteisseis anos ... Trabalha todo santo dia ... né ... (AV)
(3)
Foi ... ele naceu ... „tava cum ... um ano de idade minha mãe morreu ... Aí ...
quando ela „tava duente p‟a morrê ... ela cismô de dá ele a pai véi ela falô assim
"ó ... se eu morrê ... Siliveste eu num vô dexá não purque vai dá muito trabai
pr'oceis"...(PO)
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As EC representam 48% (194/401) das ocorrências de SN com adjetivos nos
dados. Do total de 194 EC, 101 (52%) estão em AN e 93 (48%) estão em NA. Das 105
ocorrências de AN, 101 (96%) são de EC. Equivale a dizer que, na fala rural goiana, a
ordem AN está quase restrita às EC.
Nos dados sob análise, não há ocorrências de expressões notariais, próprias da
escrita oficial e da administração, mas há registros de expressões eclesiásticas,
peculiares à esfera sociodiscursiva de uso da linguagem referentes ao sistema de crenças
das comunidades estudadas, e expressões do cotidiano, como as apresentadas nos
enunciados (4) e (5).
(4)
(...) óia a Diná que é a no ... é ... é ... é nora do véi Dirs‟ ali né ela te ajuda a
professora de lá a professora de lá do Reberão é a fiia do Zué ... boa pessoa ...
Aqui todas iscol‟ajud‟ocê (PO)
(5)
chega lá suado ... c‟aquela aligria cum a gente ... aquela boa vontade: “não ...
ceis merece ... ceis num pode ficá desse jeito não ... ceis‟tá sofreno dimais aqui
(AV)
Não foram registradas, na fala rural goiana sob análise, ocorrências de
particípios passados na anteposição, nem mesmo nas EC, da forma como ocorre em (6),
com dados da fala rural de Barra Longa-MG:
(6)
nasci aqui... nasci... e depois... a minha mãe mo/morô lá no Corgo das
Quintas...onde é de... quando Craudionô ... falicido Craudionô ((ruídos)) era
ali que era a terra do meu pai (BL)
Dentre as EC, destaco ainda as que têm por núcleo um nome próprio, como em
(7) e (8):
(7)
(...) óia a Diná que é a no ... é ... é ... é nora do véi D.‟ ali né ela te ajuda a
professora de lá a professora de lá do Reberão é a fiia do Zué ... boa pessoa ...
Aqui todas iscol‟ajud‟ocê (PO)
(8)
Então no dia 12 que é dia de Santo Antone ( ) deve que a sinhora sabe que no
dia 13 é o dia santo do Santo Antone. (PO)
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Os itens „véi‟ (+ D [Npróprio]), em (7), e „santo‟ (+ Antone), em (8), integram
uma estrutura denominativa de pessoa, no primeiro caso, e de santo, no segundo. Desta
forma, os referidos itens não podem ser, sincronicamente, considerados e tratados como
adjetivos, embora o possam diacronicamente; os itens „boa‟, „mau‟, „divino‟ e „novo‟,
da forma como ocorrem nos enunciados (7), (9), (10) e (11), antepostos ao nome, em
EC, funcionam e devem ser analisados como „adjetivo‟; e o item „maió‟, como no
enunciado (12), funciona como „adjetivo‟, em estruturas não cristalizadas (En-C). São,
portanto, 4 ocorrências de adjetivos antepostos, em En-C, representando 4% (4/105) das
anteposições, 29 ocorrências de adjetivos antepostos, em EC, ou seja, 28% (29/105) das
anteposições, e 72 ocorrências de adjetivos antepostos a nome próprio, em EC,
funcionando como forma de tratamento, equivalentes a 68% (72/105) das anteposições.
(9)
Gente‟acha que era um mau ambiente né6(PO)
(10)
Esse que é nosso sistema véi antigoh é fulia de Nossa Senhora D‟Abadia fulia de
Divino Pai Eterno Divino Ispiurto Santo ... é/é o que nós canta ... eu canto viu
direto eu canto quem nasceu cum instinto de cigarra tem que fazê zuera né (PO)
(11)
Já tirei ... já tirei no Pombá ... já tirei fulia de Reis aqui ... no Capão Verde ... lá
onde a/lá no/perto/Santa Rita lá de Novo Destino ... po lá tudo nóis circula
tiran' fulia de Reis (PO)
(12)
A gente chegô pr‟aí co‟a maió dificurdade ... cũ‟a mulher e trêis filho ... e
sobrô p‟ra gente condo comprô as coisa p‟ra passá trêis mêis ... sobrô ũa
notinha de um conto de réis ... (AV)
Dado que as EC com adjetivos adnominais e formas de tratamento representam
96% das anteposições contra 4% das En-C, pode-se concluir que, exceto pelos 4% de
En-C, nos dados, a anteposição está restrita às ocorrências de EC, que são estruturas
residuais de fases pretéritas da língua, em que a ordem AN, era, primeiramente,
predominante e, posteriormente, coocorrente com a ordem NA (Cohen, 1989).
A situação de modificação que envolve os itens antepostos é configurada pela
combinação „adjetivo avaliativo, mais leve (menor que o núcleo em número de sílaba) +
6
O enunciado “mau ambiente” significa, nos dados, ambiente pesado, carregado, no sentido espiritual.
Decorre disso, a decisão de se entender e descrever a estrutura do enunciado como a combinação de
„adjetivo‟ + „nome‟.
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nome próprio‟, no caso de „véi/a‟ e „santo/a‟, e „adjetivo descritivo + nome comum‟, nas
demais ocorrências, mesmo aquelas, cujo resultado é uma unidade lexical com a função
de nome próprio, como o topônimo “Novo Destino”, em (11).
Assim, os traços combinatórios do adjetivo e do nome, que resultam em um
efeito de combinação mais ou menos cristalizado, na ordem AN, nas EC e nas En-C,
são: adjetivos avaliativos e mais leves, combinados a nomes com os seguintes traços:
em
EC
com
„véi/a‟
e
„santo/a‟,
respectivamente7:
[NÃO-COMUM]/[NÃO-
CONTÁVEL], [HUMANO]/[MATERIAL]/[ANIMADO]; e [NÃO-COMUM]/[NÃOCONTÁVEL], [SAGRADO]/[IMATERIAL]/[SAGRADO]; em EC com os demais
adjetivos, predominam os traços [COMUM]/[CONTÁVEL], [NÃO-HUMANO],
[IMATERIAL], [INANIMADO].
Entendendo que características linguísticas são influenciadas por características
socioculturais e históricas das comunidades de fala e dos falantes, com base nas tabelas
(1) e (2), discute-se a distribuição das ordens AN e NA por comunidade de fala e por
falante.
Tabela 1
Distribuição percentual de AN e NA por comunidade
POSIÇÃO
AN
CORPUS
%
NA
%
POMBAL
73/232
31
159/232
69
ACABA VIDA
14/90
16
76/90
84
TRAÍRAS
18/79
23
61/79
77
TOTAL
105/401
26
296/401
74
Fonte: elaboração própria da autora.
De acordo com o resultado do cálculo do Chi quadrado (
= 9.08, df: 2, p
0.0107, S = 0.1505), com base nos dados formalizados na tabela (1), a distribuição da
ordem AN, por comunidade de fala, não é significativa. Diante disso, outras amostras
7
Os traços nominais ligados por barras transversais indicam sobreposição de traços, por exemplo, um
nome não-comum é, necessariamente não-contável. O traço sagrado, atribuído especificamente ao
referente do nome modificado pelo adjetivo „santo‟ segue uma classificação contínua dos objetos e dos
fatos sócio-culturais, de acordo com uma categorização sócio-antropológica (cf. Sapir (1980), LéviStrauss (1989), Durkheim (1999) e Mauss (s/d)), em contraposição à tradicional categorização lógicoformal de Aristóteles (cf. BENVENISTE (1995)).
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foram incorporadas ao corpus inicial, para comparação: dados de fala de Nova Veneza e
da escrita dos Tapuia de Carretão e dos Karajá de Aruanã. Nestes dados, o quadro de
ocorrência de AN segue a mesma tendência dos demais, ou seja, predomina a ordem
NA, e a maioria das poucas ocorrências de AN constitui EC.
Diante desses resultados, decidi verificar se o perfil sociocultural do participante
– idade, grau de escolaridade, ocupação e grau de interação intra e entre comunidades –
pode estar influenciando na ocorrência de AN nos dados. O resultado é como segue
apresentado na tabela (2).
Tabela 2
Distribuição percentual de AN por participante
POSIÇÃO
INTERAÇÃO I INTERAÇÃO
AN
E
PARTICIPANTE
%
(1) PUAN
9
8.5
alta
média
(2) PUAG
5
5.0
baixa
baixa
(4) CHIBE
9
8.5
alta
alta
(7) CHITO
1
0.9
média
baixa
(8) PUMAJE
1
0.9
alta
alta
(10) PUOL
28
27
alta
alta
(11) SEBON
1
0.9
alta
alta
(12) PUNB
5
5.0
média
média
(14) PUSB
3
3.0
média
média
(16) POBEV
9
8.5
alta
média
(20) FATUA
3
3.0
alta
alta
(23) FATUB
2
2.0
alta
alta
(24) AVIC
2
2.0
alta
alta
(25) AVICA
3
3.0
alta
alta
(28) AVID
2
2.0
alta
alta
(29) AVID
2
2.0
alta
alta
(34) FATUI
2
2.0
baixa
baixa
(36) FOJOPE
18
17
alta
alta
TOTAL
105
100
Fonte: elaboração própria da autora.
Conforme evidenciam os dados da tabela (2), a única característica que se
revelou significante foi o grau de interação dos membros das comunidades sob análise
com grupos internos e externos a elas. A maior frequência de AN está na fala dos
participantes que apresentam maior grau de interação intra e entre comunidades, isto é,
os participantes (10) e (36), os quais se situam nos grupos etários, respectivamente, (4058 anos de idade) e (60 e +), ambos do gênero masculino, não-escolarizados, e
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lavradores aposentados; em seguida, vem a fala daqueles que apresentam alto grau de
interação interna e médio e alto grau de interação externa (1, 4 e 16), situados,
respectivamente, nas faixas etárias (40-58) e (60 e +), sendo dois do gênero masculino
(4 e 16) e um do gênero feminino (1); (1) e (16) são não-escolarizados e (4) possui em
torno de dois anos de estudo; (1) é merendeira da escola de uma das comunidades, e (4)
e (16) são lavradores; por fim, vem a fala dos demais participantes, que apresenta, em
maior número (8 pessoas), grau de interação externa e interna alto, ao lado de dois
participantes que apresentam baixo grau de interação interna e externa, dois que
apresentam médio grau de interação externa e interna e um apresentando médio grau de
interação interna e baixo grau de interação externa. Na fala dos demais participantes,
não há ocorrência de AN.
Apesar de alguns participantes com alto grau de interação intra e entre
comunidades apresentarem a mais alta frequência de AN, um grande número de
participantes com alto grau de interação intra e entre apresentam baixas taxas de
frequência de AN, levando à conclusão de que a posição do adjetivo no SN não é
influenciada pelo perfil sociocultural do participante, corroborando os resultados de
Nobre (1989) com dados do Rio de Janeiro.
4. A posição do adjetivo no SN-português: comparação entre a fala rural goiana e
as falas urbanas
Para efeito de comparação entre o padrão urbano e o rural, com relação à
posição do adjetivo no SN-português, nos séculos XX e XXI, amplia-se o quadro (1),
introduzindo-se os resultados do estudo da fala rural goiana. O resultado está
apresentado no quadro (4):
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(4)
DISTRIBUIÇÃO DO ADJETIVO NO SN PORTUGUÊS CONTEMPORÂNEO URBANO E RURAL
FONTE
Cohen (1986-1989)
GÊNERO
TEXTUAL
ESCRITA
científico
Nobre (1989)
PADRÃO/ ESTILO FREQUÊNCIA
ORALIDADE
DE AN
-
93/442 (21%)
349/442 (78%)
científico
-
41/438 (9%)
397/438 (91%)
literário
-
52/195 (27%)
143/195 (73%)
68/403 (17%)
335/403 (83%)
culto, formal
Boff (1991)
FREQUÊNCIA
DE NA
cartas pessoais
coloquial, informal
-
218/1140 (19%)
922/1140 (81%)
41/106 (39%)
65/106 (61%)
Müller et alii (2002)
-
culto, informal
136/1170 (12%) 1034/1170 (88%)
Fala rural goiana
-
coloquial, informal
105/401 (26%)
296/401 (74%)
Fonte: elaboração própria da autora.
Com base nos dados do quadro (4), nas médias de frequência de AN nos dados
da área urbana – 15% (422/2.733), na modalidade oral, em geral; e 19% (218/1140), na
modalidade oral coloquial, no estilo informal, em particular – e nos 24% (105/401) de
AN, na fala rural goiana, nota-se que esta variedade apresenta a mais alta taxa de
frequência de AN em comparação aos dados urbanos.
No entanto, deve-se considerar que 69% (72/105) das ocorrências de AN na fala
rural goiana são da combinação entre „véi/a‟ e „santo/a‟ + nome próprio, e que, nestas
combinações, os referidos itens não possuem o estatuto gramatical de adjetivo. Dado
que a combinação „adjetivo + nome próprio‟ não está presente em nenhuma das
amostras analisadas nos trabalhos referentes às variedades urbanas, para se desenvolver
uma discussão mais coerente da frequência de ocorrência de AN nos dados da fala rural
goiana, em comparação a dados da fala urbana, é mais adequado excluir os SN que
contenham a combinação „adjetivo + nome próprio‟. Desta forma, restaram, na fala
rural goiana, 10% (33/329) de ocorrências de AN, contra 19% de AN na fala urbana,
coloquial, informal.
Se por um lado há, em termos percentuais, no que se refere à posição do adjetivo
no SN, uma neutralização entre o padrão linguístico da fala urbana (culta/coloquial,
formal/informal) e o padrão linguístico da fala rural goiana (coloquial/informal), pois
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ambas estão apresentando baixas taxas de ocorrência de AN, por outro lado, o fato de a
ordem AN, na fala rural goiana, estar praticamente restrita a EC indica que a mudança
AN > NA, em franco desenvolvimento na LP e no PB, está em um estágio mais
adiantado na fala rural sob análise. Nesse caso, as EC representam o ponto final da
mudança.
Diante dos resultados apresentados, questiona-se o caráter conservador da fala
rural, no que diz respeito à mudança da posição do adjetivo no SN, pois na fala rural, da
mesma forma que na fala urbana, as ocorrências da ordem AN, em EC, constituem
resíduos linguísticos de fases anteriores da LP, conforme sinalizado por Cohen (1989).
O pressuposto apresentado no parágrafo anterior pode ser evidenciado a partir do
enunciado (13), a seguir, que mostra que o adjetivo grande, na fala e na escrita urbanas,
quando combinado a nomes dimensionais, revela nuanças de sentido diferente para cada
posição que ocupa no SN. No enunciado (14), da fala rural goiana, o adjetivo grande,
posposto a um nome dimensional, apresenta sentido ambíguo.
(13)
a) “... aí ele se tornou um grande lutador.”
b) “Ele é um lutador grande. Tem mais de 1m e 90 de altura.” (Nobre, 1989, p.
45)
(14)
Papai Grande, que é o guverno né (PO)
O adjetivo grande, em (14), não se refere à dimensão do referente do nome,
como, em geral, ocorre na LP. A mudança na posição do adjetivo no sintagma nominal,
desta forma, encontra-se em estágio mais avançado na fala rural do que na fala urbana
estudada por Nobre (1989) e Müller et al. (2002). Se comparados os resultados desta
pesquisa aos resultados de Cohen (1989) e de Nobre (1989), pode-se dizer que, na fala
rural analisada, a ordem Adjetivo/Nome se restringe a ocorrências com EC, embora
essas ocorram também com o adjetivo posposto; e que devido à ocorrência de AN
somente em EC, a mudança AN > NA, nas amostras sob análise, encontra-se em seu
estágio final e já não se correlaciona a fatores sociais.
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5. Conclusões
Tem-se, portanto, na fala rural goiana sob análise, de 401 adjetivos, 105
antepostos e 296 pospostos; dos 105 antepostos, 4 estão em En-C e 101 em EC; das 101
EC em AN, 71 ocorrências são dos itens „véi/a‟ e „santo/a‟, que requerem uma
classificação e análise diferenciadas; restam, então, 30 ocorrências de EC em AN. Na
ordem NA, as 296 ocorrências de adjetivos estão distribuídas em 93 EC e 203 En-C.
Ou seja, na ordem AN, as EC são estruturas de denominação sagrada (santo/a),
incluindo aqui os topônimos, ou humana (véi/a), resultantes da combinação entre um
„adjetivo‟ e um „nome próprio‟, independentemente de o referente do „nome próprio‟
ser humano ou não; e expressões do cotidiano, conforme registradas nos enunciados (2),
(4), (5) e (7).
Os adjetivos avaliativos „véi/a‟, „santo/a‟, de alta frequência nos dados,
prepostos a um nome próprio, independentemente de seu referente ser humano ou
sagrado, material ou imaterial, cria um efeito de combinação total (Jakobson, 1995), a
ponto de reanalisar sua classe e sua função no sintagma, caracterizando mudança
linguística por gramaticalização (Este processo está discutido em outro artigo, dedicado
somente à análise da mudança linguística).
Conforme mencionado no parágrafo anterior, a alta frequência do item cria um
efeito de combinação total, levando à reanálise ou gramaticalização, resultando em EC.
As EC representam, portanto, o estágio final da mudança. Esse resultado permite
afirmar que a manutenção da ordem AN é favorecida pelo processo de cristalização de
estruturas de alta frequência de uso. Assim, parece que frequência de uso e processo de
cristalização compõem, juntos, a base da manutenção linguística.
A frequência de ocorrência de AN e de NA, na fala rural goiana, é semelhante à
frequência apresentada pela fala urbana, exceto pelas EC, ambiente predominante das
ocorrências de AN na fala rural goiana. Dessa forma, na fala rural goiana, a mudança
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AN > NA, encontra-se mais adiantada que na fala urbana. Considerado o processo de
mudança linguística em questão, esse resultado permite afirmar que a fala rural é mais
inovadora do que a fala urbana. Diante disso, a noção de conservadorismo linguístico
requer uma problematização que leve em conta os fatores e as agências de conservação
linguística, tanto na área rural quanto na área urbana. A escolarização, mais intensa na
cidade que no campo, dada sua preocupação com a padronização das práticas
linguísticas, tendo como parâmetro o que se convencionou no Brasil ser a norma culta, é
uma poderosa agência de manutenção linguística, por coibir os usos estigmatizados ou
deselegantes da língua.
A área rural, por sua vez, por se relacionar de forma diferente com as práticas de
letramento e com as práticas linguísticas e por nutrir outros valores em relação à
linguagem, coíbe menos o uso das regras linguísticas estigmatizadas. Considerando que
muitas regras estigmatizadas são inovadoras no português e refletem a identidade
linguística do brasileiro, marcando inclusive o lugar de enunciação dos sujeitos, não é
surpresa que as inovações linguísticas caminhem mais rapidamente nas áreas rurais do
que nas urbanas.
Como a variação entre AN e NA não é socialmente estigmatizada, não é passível
de correção nem na escola nem nas esferas de maior poder social. Assim, o curso da
mudança AN > NA segue quase que no mesmo ritmo na fala rural e na fala urbana.
Enfim, com a análise de um fenômeno não marcado socialmente, pudemos constatar
que a fala rural e a fala urbana são igualmente conservadoras e inovadoras e que as
regras linguísticas socialmente estigmatizadas são atribuídas à fala rural e tomadas
como marcadores dos sujeitos rurais, devido à crença social de que na área rural estão
os sujeitos “culturalmente isolados”. Equivale a dizer que o sertão linguístico é
empurrado para o sertão geográfico.
No que concerne à correlação entre o perfil social dos participantes da pesquisa e
a ocorrência de AN ou NA, constatou-se que seja qual for a idade do participante, com
baixa, média ou alta mobilidade, a possibilidade de uso de AN é a mesma, exceto nas
EC, limitadas a itens específicos, como „bão/boa‟, „novo/a‟, „mau‟, e „santo/a‟, em
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estruturas específicas, como topônimos, denominações próprias, sagradas ou humanas, e
expressões do cotidiano. Conclui-se, portanto, que a aplicação da regra NA não está
correlacionada à faixa etária dos participantes, resultado esperado em uma mudança
praticamente totalizada. Por outro lado, a confirmação desse dado permite reafirmar o
estágio final da mudança AN > NA, na fala rural goiana, assim como na fala urbana.
Uma vez que todas as comunidades estudadas refletem o mesmo padrão de
ordenação do adjetivo em relação ao nome no SN, o perfil sociocultural do participante
não é significativo para o processo de mudança AN > NA, na fala rural goiana,
corroborando os resultados dos estudos com a fala urbana. Pode-se inferir do exposto
que, no estágio final de uma mudança linguística, a correlação com fatores sociais tende
a se perder. Esses resultados permitem ainda afirmar que a manutenção de AN em EC,
nos estudos em questão, não é influenciada pelo perfil social dos falantes.
O estudo da fala rural goiana, a partir das amostras de fala de comunidades com
diferentes formações sócio-históricas, inclusive com diferentes composições étnicas,
todas inseridas nos movimentos de ocupação do território goiano, ou durante o ciclo do
ouro ou durante o ciclo da agropecuária, permite entrever que, apesar de as
comunidades de fala sob análise serem, em muitos aspectos, distintas umas das outras,
podem apresentar um mesmo padrão linguístico, no que diz respeito particularmente à
ordenação dos constituintes do SN, talvez por ser este um fenômeno linguístico não
marcado socialmente e não identificador de classe ou grupo.
Por outro lado, o estudo de variedades rurais, em comparação com variedades
urbanas, aponta para uma provável neutralização, no aspecto morfossintático, entre o
rural e o urbano, uma vez que o rural se encontra em um estágio mais avançado da
mudança AN > NA. Esse estágio mais avançado de uma mudança em direção à fixação
de uma regra inovadora mostra que a fala rural, nesse caso, é menos conservadora do
que a urbana.
A fala rural é, portanto, tão conservadora e tão inovadora quanto a fala urbana,
apesar de os falantes de uma e de outra variedade linguística fazerem escolhas de regras
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linguísticas diferenciadas, as quais servem de identificação sociolinguística dos sujeitos
e de distinção entre as comunidades sociolinguísticas rurais e urbanas.
Considerando que o conceito de fala rural encobre atributos, tais como:
“oralidade”, “narratividade”, “isolamento”, “conservadorismo linguístico”, “baixa ou
nenhuma escolarização do falante”, “faixa etária mais alta”, ao passo que o conceito de
fala urbana encobre os seguintes atributos: “escrita”, “argumentatividade”, “alto grau de
interação social”, “inovação linguística”, “escolarização”, “juventude”, pode-se afirmar
que as agências de padronização linguística tornam a língua mais conservadora e o
distanciamento dessas agências permite a aceleração das inovações.
Por isso, dado o distanciamento entre as agências de padronização e as áreas
rurais brasileiras, a fala rural tende à inovação e não à conservação como se tem
defendido até então.
Outro ponto importante a se considerar é que as áreas rurais brasileiras vêm
passando por modificações conjunturais e estruturais e a visão idílica, essencializada da
vida simples, de um povo simples e humilde da roça, já não contempla mais a realidade
rural atual. É urgente a desessencialização da visão sobre a fala rural, sob pena de se
estudar um pressuposto teórico ou mitológico, fruto da imaginação do pesquisador.
O meio urbano também vem passando por modificações, afinal de contas, tudo
no mundo é dinâmico. Com a democratização da escola e a massificação do ensino
escolar, a variável “escolarização”, com a informação dos anos de estudos por meio de
documento, pode inclusive mascarar correlações mais importantes, pois a mesma
escolarização não equivale ao mesmo nível de letramento. Com a emancipação feminina
e a consequente inserção da mulher no mercado de trabalho, os padrões de fala da
mulher e do homem podem não estar tão distintos. Diante disso, faz-se necessário
repensar e reelaborar a noção de conservadorismo linguístico e, mais ainda, a equação
rural = conservador, assim como é premente a reelaboração das categorias sociais de
análise de fenômenos linguísticos.
Buscou-se com esta discussão apresentar uma nova perspectiva de entendimento
de fenômenos linguísticos com alto grau de planificação social, ou seja, sem avaliação
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social e, em consequência, uma nova perspectiva de avaliação e estudo da fala rural,
pelo viés da manutenção e não somente da mudança, a partir do encontro de muitos
falares diferenciados, nas misturas e nas formações híbridas, entre diferentes práticas
socioculturais da linguagem, seja na escrita ou na oralidade, sem estratificação entre as
práticas linguísticas nem entre os sujeitos que as exercem. Se o ponto de vista cria o
objeto, pode criar também o ponto de vista sobre o objeto, criando e recriando as
abordagens e as avaliações sobre o objeto.
6. Referências
ANDRADE, A. L. de. Formas de transmissão linguística: um estudo de caso sobre
documentos goianos. Estudos Linguísticos. XXXVI (2), maio-agosto, p. 200-209.
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Justiça/Secretaria de Estado dos Direitos Humanos, 1999.
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Mesa. Brasília: Verano Editora, 1998.
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sincrônica e diacrônica. Tese de Doutorado, inédita, Campinas-SP: Unicamp,1991.
BORGES NETO, J. Adjetivos – predicados extensionais, predicados intensionais.
Campinas-SP: Unicamp, 1991.
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brasileiro: primeiras reflexões. Anais do IV Encontro Internacional da Associação
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pp. 1541-1548.
BORTONI, S. M. A migração rural-urbana no Brasil: uma análise sociolinguística. In:
TARALLO, Fernando (Org.). Fotografias sociolinguísticas. Campinas-SP:
Unicamp/Pontes, 1989, p. 167-180.
BORTONI, S. M. Nós cheguemu na escola. E agora? São Paulo: Parábola, 2005.
BORTONI-RICARDO, S. M. Do campo para a cidade – estudo sociolinguístico de
migração e redes sociais. São Paulo: Parábola, 2011.
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ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 12 • maio 2014
Edição Especial • Homenageado
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Recebido Para Publicação em 20 de abril de 2014.
Aprovado Para Publicação em 9 de maio de 2014.
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