Aspecto e Negação no PB Cláudio C. e C. Gonçalves Universidade Federal de Santa Catarina Centro de Comunicação e Expressão Bloco A, Sala 213 Florianópolis – SC – Brasil [email protected] Abstract. In this paper I look into some DRT algorithms to capture the order of events in discourse. I give evidence that such algorithms do not generalize over Romance as they were meant to and propose a modification. Keywords. Order of events in discourse; imperfectives; negation; discourse representation theory. Resumo. Neste artigo eu investigo um algoritmo na DRT que foi arquitetado para capturar a ordem dos eventos no discurso nas línguas românicas. Eu mostro que ele não consegue uma generalização sobre essas línguas e proponho uma modificação. Palavras-chave. Ordem dos eventos no discurso; imperfeito; imparfait; negação, teoria de representação do discurso. 1. Introdução Este trabalho trata de fenômenos do sistema aspectual do PB. Toma-se como ponto de partida o paper de de Swart & Molendijk (1999) – S&M (1999) - para o sistema aspectual do francês na DRT (Discourse Representation Theory de Kamp & Reyle 1993). S&M têm que o Imparfait e o Passé Simple (PS) do francês são operadores de tempo (tense) aspectualmente sensitivos. A motivação empírica para isso é que tanto o Imparfait quanto o PS tem escopo sobre a negação e quantificação. O mesmo não é o caso com o past simple e o progressive do inglês. O PB, como o Francês, tem uma tempo imperfectivo, o Imperfeito. E, como o inglês, tem uma forma de cópula seguida de gerúndio (estar – ndo), tipicamente chamada progressivo. A semântica do Imperfeito tem diferenças importantes quando comparada à sua contraparte no Francês. O mesmo vale para o Progressivo com respeito ao Inglês. No entanto, as semelhanças são óbvias e seria desejável ter um framework com nível de abstração adequado para: (a) generalizar sobre as três línguas; e (b) motivar suas diferenças a partir de fenômenos independentes. 2. O que é DRT? Para uma primeira aproximação, DRT é uma teoria de semântica dinâmica desenvolvida para explicar fenômenos da interface entre contexto e significado. Seu funcionamento básico é o de um algoritmo que lê pedaços das árvores sintáticas interpretando-as e Estudos Lingüísticos XXXIV, p. 456-461, 2005. [ 456 / 461 ] introduzindo referentes de forma adequada. Cada referente introduzido traz consigo uma condição que também é representada na DRS (como ficará mais claro no exemplo abaixo). Os referentes são introduzidos numa DRS, abreviação de estrutura de representação do discurso em inglês. À medida que o discurso progride a DRS vai crescendo e acumulando referentes. As novas sentenças são interpretadas contra esse pano de fundo. Ou seja, a interpretação semântica se dá frase a frase, mas em relação às partes da DRS que já existem. Para concluir essa primeira aproximação, é importante dizer que a DRT é uma variação notacional do CPC (Cálculo de Predicados Clássico) e, como tal, mantém várias das limitações desse tipo de sistema formal como ferramenta para estudos das línguas naturais. 3. Imparfait, Passé Simple e Negação. Nesta seção vou resenhar a abordagem de de Swart & Molendijk (1999). Esses autores usam fenômenos do francês e do inglês para discutir alguns pontos da teoria exposta em K&R (1993) no que toca a representação de eventos e a função da negação no discurso. Presume-se que, cf. de Swart (1998) entre outros, que (1) é a estrutura gramatical para tempo e aspecto. (1) TEMPO [ASPECTO [DESCRIÇÃO DO EVENT O]] Presume-se também que a relação entre as sentenças de um discurso são restringidas por informação aspectual e que eventos tipicamente acontecem um depois do outro. A partir dessas duas últimas presunções teríamos que, num discurso onde temos (para n >1) n sentenças denotando eventos, obtemos a relação retórica narrativa entre elas. Nessa perspectiva, uma narrativa é uma maneira de seqüenciar eventos. A noção de relação retórica foi introduzida por Asher 1993, v. tb. Asher & Lascarides 1993, 1998. Há também uma outra presunção, a interpretação do tempo Imparfait do francês. S&M seguem mais uma vez o trabalho de Asher (1993) ao atribuir ao Imparfait a seguinte Regra de Interpretação no discurso, que não tolera a descontinuidade temporal. (2) If D describes an eventuality e1 and D is taken as the temporal antecedent of a sentence E in the Imparfait, which describes a state s2 then *s2 e1 where means temporal discontinuity. Além disso, S&M fazem as seguintes perguntas sobre eventos no discurso: quais os referentes externos (i.e., no discurso) de frases negativas: intervalos de tempo ou eventos? O operador de negação é de natureza aspectual? A informação aspectual tem escopo sempre mais baixo que a negação? Para responder essas perguntas examina-se dados como os dos quatro grupos abaixo. O primeiro grupo diz respeito à representação da negação na DRS e a ordem dos eventos no discurso. O segundo grupo mostra os argumentos para tratar o Imparfait e o Passé Simple como um tempo verbal (tense) sensitivo ao aspecto. O terceiro mostra a representação dessas duas formas do francês na versão de S&M (1999), e ressalta o papel da coerção usada por esses autores. O quarto grupo mostra como a diferença entre PS e imparfait interage com a negação. Primeiro grupo de dados. Ordem dos eventos e a função da negação. Esses dados podem ser representados à lá K&R: nesse caso, as sentenças negadas denotam intervalos temporais, e não há alteração de ordem dos eventos quando se passa de um Estudos Lingüísticos XXXIV, p. 456-461, 2005. [ 457 / 461 ] discurso com frases afirmativas para outro com frases negativas. Pode-se também interpretar o PS negado como um evento negado e o Imparfait como um estado negado como querem S&M. (Os parênteses depois das sentenças indicam a ordem dos eventos, cada um deles está indicado pela inicial do verbo que o denota, por exemplo, ‘l’ abrevia leave. Lê-se ‘<’ como precede; ‘q’ como overlap; ‘d’ como ou precede ou overlap. Lêse ‘a < l’ o evento de chegada de Mary precedeu o de saída de Paul.) (3) a. Marie regarda Paul. Il lui sourit. (r < s) b. Marie regarda Paul. Il lui souriait. (r q s) (4) a. Marie regarda Paul. Il ne lui sourit pas. (r < s) b. Marie regarda Paul. Il ne lui souriait pas. (r q s) No entanto, o Imparfait negado não pode ser tratado como introduzindo uma variável de estado sob o escopo da negação. Para explicar como acontece que falte coesão ao discurso em (a) mas não ao discurso em (b). Em (b), temos uma seqüência de eventos onde o evento attraper não ocorre. (5) a. Depuis quelque temps, Jean courait après Pauline. ??Il l’attrapait. b. Depuis quelque temps, Jean courait après Pauline. Il ne l’attrapait pas. Segundo grupo de dados. Evidência para considerar o Imparfait e o PS como operadores temporais sensitivos a aspecto em comparação a, por exemplo, o be – ing do inglês. Os dados vão mostrar que o escopo do Imparfait e do PS é mais largo que o do be – ing, a verificação é mediante o comportamento deles com advérbios temporais quantificacionais always e toujours. O progressivo não tem escopo sobre o estado complexo que representa o advérbio always na DRS. (6) a. When Mary arrived, Paul was leaving. (a q l) b. When Mary arrived, Paul was always leaving. (a q l) (7) a. When Mary arrived, Paul left. ( a < l) b. When Mary arrived, Paul always left. (a < l) Em francês, a ordem dos eventos muda em contextos onde há advérbios de quantificação (toujours, always, sempre). O fato de os discursos com o PS e toujours apresentarem situações com características de aspecto terminativo enquanto aquelas com toujours e o Imparfait apresentarem situações com característica de aspecto durativo é o motivo para S&M (1999: 20) considerarem que têm escopo sobre o advérbio de quantificação. Assim são operadores de tempo sensitivos às características aspectuais da proposição. (8) a. Paul partit quand Marie rentra. (r < p) b. Paul partit toujours quand Marie rentra. (r d p) (9) a. Paul partait quand Marie rentrait. (r < p) b. Paul partait toujours quand Marie rentrait. (r d p) Estudos Lingüísticos XXXIV, p. 456-461, 2005. [ 458 / 461 ] Terceiro grupo. A caracterização do Imparfait e do PS usando coerção. (10) a. Max partait toujours quand Marie rentrait. b. [n, s, t, x, y: t<n, Paul(x), Marie(y), s =t t, MAX (s) [[e: e s, e [Rentrer (y)]] [e’: e < e’, e’[Partir (x)] ] ] ] Nessa DRS, temos que o Imparfait introduz um referente de estado ‘s’ na DRS principal. A relação quantificacional do advérbio é representada por ‘’, que estabelece que todo evento de chegada de Marie teve um evento de partida de Paul. Note que o referente de estado da DRS principal é estabelecido pela relação ‘’ entre as duas sub-DRS com verbos no Imparfait. (11) a. Max partit toujours quand Marie rentra. b. [n, e, t, x, y: t < n, Paul (x), Marie (y), e t [ e [Cse [s, t’: MAX (s), s =t t’ [e’: e s, e’ [ Rentrer (y)] [e’’: e’ d e’’, e’’ [e’’ [Partir (x)] ] ] ] ] ] ] ] A DRS do PS é diferente da anterior primeiro porque o referente que esse tempo introduz na DRS principal é de evento ‘e’. Também, porque a relação de quantificação entre os eventos de chegar e partir é modificada pelo operador de coerção Cse, que transforma um estado em evento. Para a regra de inserção do operador C, ver o apêndice do paper de S&M. Moral da estória: de acordo com (1) e ‘common wisdom’ sobre operadores de tempo, o Imparfait e o PS introduzem referentes na DRS principal e têm escopo mais alto que a quantificação adverbial de advérbios como toujours. A relação que esse tipo de advérbio estabelece entre duas eventualidades é de estado, logo é do tipo adequado para o Imparfait. Mas não seria para o PS, em vista disso e da a aceitabilidade de discursos como (11), S&M estabelecem que a relação de quantificação em (10) ela sofre a coerção Cse que a transforma em evento. Essa descrição explica o fato de as relações de ordem entre os eventos dos discursos (10) e (11) ficar subespecificada. O motivo para isso é que o PS e o Imparfait atribuem um valor temporal à quantificação como um todo, não para cada um dos eventos que a compõem. Quarto grupo. A diferença de Imparfait e PS com respeito à negação. Depois de discutir os três grupos de dados acima, S&M mostram que, para que as ordens de eventos no discurso sejam corretamente computadas: (12) a. PS: b. IMPF: PRET [Cse [NEG [ Descrição do evento]]] PRET [NEG [ Descrição do evento]]] 4. Ordem de eventos em PB Relembrando, o objetivo deste ‘paper’ é compreender fenômenos de negação e aspecto no discurso. Pelo menos parcialmente, esse foi também a motivação tanto de K&R (1993) quanto de S&M (1998) para desenvolverem algoritmos dentro da DRT. Veremos agora que, para dados de todo semelhantes aos de K&R e S&M, o PB apresenta alguns fenômenos de ordem do discurso que esses autores não consideraram. Logo teremos de mexer no algoritmo proposto. Mas para fazer isso temos de saber primeiro o que queremos que tipo de fenômeno queremos capturar. Estudos Lingüísticos XXXIV, p. 456-461, 2005. [ 459 / 461 ] Vejamos primeiro que tipo de fenômenos ocorrem em PB e que não são mencionados em K&R (1993) e S&M (1998). Em (13) e (14) vemos que as ordem dos discursos em francês e correspondentes em PB não são as mesmas. (13) a. A Maria olhou pro João. Ele sorriu prá ela. (O < S) b. A Maria olhou pro João. Ele sorria prá ela. (?? O < S) / (S1…Sn < O < S) / (?? OqS) (14) a. A Maria olhou pro João. Ele não sorriu prá ela. (O < S) b. A Maria olhou pro João. Ele não sorria prá ela. (?? O < S) / (S1…Sn < O < S) / (?? OqS) Como vimos, S&M usam a co-ocorrência do Imparfait com a negação para tirar conclusões sobre o valor aspectual da negação. Eles presumem que o Imparfait denota estado e que é interpretado mediante a regra (2). E observam que a ordem dos eventos não se altera quando insere-se a negação em frases com o Imparfait, uma vez que ambos têm a mesma natureza, i.e., são estados. Os discursos (13) e (14) mostram que o mesmo vale para o PB com respeito ao Imperfeito e ao Pretérito Perfeito. No entanto, a ordem de eventos nos discursos com Imparfait era sobreposição e no caso do Imperfeito temos uma espécie de inversão dessa ordem: A leitura preferida para as sentenças (13 b) e (14 b) parece ser aquela que diz aproximadamente que Maria olhou para João por que, em outras ocasiões, João não tinha sorrido para ela. É isso que (S1…Sn < O < S) indica. Quanto às outras duas leituras, no meu dialeto, simplesmente não ocorrem. Mas como parece haver variação ainda não bem compreendida sobre isso, marquei essas leituras com ‘??’ ao invés de ‘*’. (Mas, note que o grau de aceitabilidade das leituras marcadas com ‘??’ não faz diferença para o problema que está sendo discutido. O que precisamos é obter a ordem de eventos indicada por (S1…Sn < O < S)). Isso é diferente do que S&M (1998: 8) presumem sobre o Imparfait e sobre estados e negações. Há mais diferenças. S&M presumem que estados incluam temporalmente o evento precedente. Isso não acontece nos discursos de (13 b) e (14 b). Para discursos onde há dois PS, S&M observam que a conexão retórica mais saliente entre as duas frases é a causalidade. Acabamos de ver que esse é o caso em (13 a) e (14 b) para os PP do PB: o motivo pelo qual Maria olhou para João em (13 a) foi que ele sorriu prá ela e em (14 a) foi que ele não sorriu prá ela. Mas, em contraste aos dados do francês, essa relação de causalidade não desaparece nos discursos onde há o – presumidamente estativo - Imperfeito. Outra diferença entre PB e francês, como caracterizado por S&M, é que o argumento para considerar PS e Imparfait operadores de tempo sensíveis a aspecto não funciona no PB. Relembrando, S&M chegam a essa conclusão depois de observar que PS e Imparfait tem escopo sobre o advérbio toujours. Nos dados abaixo veremos que o Pretérito Perfeito e o Imperfeito não tem o efeito de deixar a ordem dos eventos mais vaga como no francês. (15) a. Quando a Maria chegava, o João saía. (c < s) b. Quando a Maria chegava, o João sempre saía. (c < s) (16) a. Quando a Maria chegou, o João saiu. (c < s) b. Quando a Maria chegou, o João sempre saiu. (c < s) Estudos Lingüísticos XXXIV, p. 456-461, 2005. [ 460 / 461 ] A despeito dessas diferença empírica do PB ser um obstáculo à uma aplicação mais direta da teoria de S&M ao PB, ainda gostaríamos de obter uma generalização que valesse para as duas línguas. Isso é possível? Como? Sustento que isso é possível mediante a alteração de uma presunção da qual S&M partem com respeito à semântica do Imparfait. Como vimos na primeira seção, S&M seguem Asher & Lascarides (1993) ao atribuir ao Imparfait uma regra de interpretação no discurso que não aceita a descontinuidade temporal. A solução que eu vou propor é a exata inversão da regra. A interpretação default do Imperfeito no discurso envolve descontinuidade temporal. Assim a Regra de Interpretação temporal (2) é alterada para (17). (17) Se D é uma eventuality e1 e D é considerada o antecedente temporal de uma sentença E no Imperfeito, que descreve um estado s2 então s2 e1. (onde indica descontinuidade temporal) Por causa dos limites de espaço, só posso oferecer um esboço de como essa alteração captura os fenômenos que o PB apresenta e como se pode obter a generalização sobre o PB e o francês com respeito aos fenômenos sob foco. Primeiro a ordem dos eventos: A Regra de Interpretação (17) captura ordem (S1…Sn < O < S), uma vez que temos um intervalo 1de eventos descontínuos temos ‘espaço’ entre um outro para ‘inserir’ o evento denotado pelo PP, no caso dos discursos (13), olhou. Também pode-se explicar o fato de as relações de ordem entre os eventos não ficar mais vaga em discursos com sempre, apesar de o Imperfeito – tal qual o Imparfait - ter sobre esse tipo de advérbio. Relembrando, eventos relacionados por sempre são representados como uma condição na DRS (o símbolo era ‘’). Com a regra (17), essa condição é tomada pelo operador descontínuo de Imperfeito e ‘inserida’ num intervalo de tempo. Teríamos assim, um intervalo onde há vários subintervalos em que a condição (dois eventos relacionados por sempre) vale. De uma certa forma a regra (17) privilegia os fenômenos do PB. Mas isso pode ser visto como uma vantagem, a regra (2) além de privilegiar o Imparfait, é incompatível com o Imperfeito. Além disso, a regra (17) pode capturar a ordem dos eventos em francês. A leitura do Imparfait que ocasiona as ordens que vimos acima é basicamente a de um progressivo no passado. Em Gonçalves (a sair) é proposta uma teoria que analisa o progressivo como uma restrição da leitura habitual (i.e., que denota um intervalo descontínuo). Essa restrição é obtida quando a semântica do verbo interage com a semântica dos argumentos e com fatores pragmáticos: a leitura progressiva só ocorre se os argumentos denotarem Fases de Objetos (no sentido de Carlson 1977) que estejam pragmaticamente salientes. Proponho que um mecanismo semelhante possa capturar as ordens de eventos do francês. Referências: GONÇALVES, C (a sair) Estar – ndo as a generic. Revista de Letras. Curitiba: Editora da UFPR SWART, H. de e A Molendijk. (1999). Negation and the temporal structure of narrative discourse. Journal of Semantics 16 (1): 1 – 42. Estudos Lingüísticos XXXIV, p. 456-461, 2005. [ 461 / 461 ]