DISTRITOS MUNICIPAIS: ENTRE A MODERNIDADE DA CIDADE E
A TRADIÇÃO DO CAMPO
Marcia Alves Soares da Silva
Mestre em Geografia pela Universidade Federal Fluminense (UFF)
Técnica em Economia Solidária na Incubadora de Empreendimentos Solidários (IESol UEPG)
[email protected]
Eixo temático: Relação campo-cidade
INTRODUÇÃO
A discussão sobre distritos municipais ainda não está consolidada, visto que há poucos
trabalhos sobre a temática, especialmente do ponto de vista conceitual, bem como na área da
Geografia. Neste sentido, a partir das análises e discussões realizadas na UEPG, nos anos de
2010 e 2011, sob coordenação do Prof. Dr. Leonel Brizolla Monastirsky, pôde-se levantar a
hipótese de que os distritos municipais brasileiros podem ser considerados como híbridos
rurais-urbanos, numa relação dialética entre rural e urbano, já que os mesmos geralmente
estão situados na área rural, porém são considerados pelo Poder Público como pertencentes à
zona urbana, inclusive pagando os mesmos impostos dos moradores das áreas urbanas. Além
da questão locacional, seus modos de vida e anseios transitam nestes dois espaços geográficos
(MONASTIRSKY et al, 2009), onde nesta visão, os distritos podem ser vistos como locais de
transição, já que mantém em seu contexto relações presentes tanto no campo quanto na
cidade, onde nitidamente essa interação provoca mudanças no cotidiano dos moradores
distritais. Esse hibridismo causa uma confusão identitária, já que ao mesmo tempo em que se
percebem como moradores rurais, estes moradores mantém vínculos expressivos com o
distrito-sede para suprirem necessidades básicas do dia-a-dia, o que inclui o que chamamos de
“modernidades”, ou seja, bens materiais que representam uma melhor “qualidade de vida”
para estes moradores. Podemos considerar que as influências das “modernidades” podem ser
um risco no sentido de preservação de determinados elementos do modo de vida rural, a partir
do desaparecimento destes elementos mais tradicionais em nome de uma vida moderna e
urbana. Estas influências do modo de vida urbano não se restringem às questões materiais
(“modernidades”), mas principalmente aos hábitos, valores, cultura, ideologias e identidade
que os moradores distritais mantêm com o seu território vivido.
Dentro da dinâmica e da lógica capitalista, as culturas e as relações sociais, são
influenciadas a todo o momento pela indústria do consumo e pela propagação de
informações através da mídia. A mídia hegemônica é uma forte e eficaz estratégia na
difusão de novos hábitos, valores, interesses e gostos aos indivíduos, onde as culturas mais
tradicionais, como no caso do Distrito de Uvaia (Ponta Grossa – PR), local onde foi realizada
esta pesquisa, sentem essa imposição de forma distinta, justamente pelo hibridismo ao qual
estão sujeitos.
Na atual conjuntura, a busca pela preservação das tradições, das culturas, acontece
para atender a indústria cultural, ou seja, muitas vezes não há o intuito de se preservar a
identidade e a memória coletiva que não seja para gerar lucro. A ideia de preservação da
singularidade num mundo globalizado que tende a homogeneização dos gostos e interesses,
parte da premissa da cultura como mercadoria e não como um patrimônio relevante para os
indivíduos e para a sociedade como um todo. O Distrito de Uvaia, sente a influência do
processo de globalização através do acesso às modernidades advindas do espaço
urbano de Ponta Grossa (PR), seja por estar próxima espacialmente de Ponta Grossa ou pelas
relações constantes que os moradores do distrito mantém com os citadinos. Neste sentido, esta
pesquisa, já finalizada, tem por objetivo apresentar algumas considerações acerca da relação
dialética entre rural e urbano, do ponto de vista cultural, tendo o hibridismo dos distritos
municipais como pano de fundo.
DESENVOLVIMENTO
A discussão no campo da geografia sobre o rural e o urbano ou o campo e a cidade não
tem sido consensual e é bastante ampla. Os geógrafos analisam essa relação dialética sob
diversas óticas, geralmente partindo do viés espacial. O Poder Público, através do IBGE tem
sua própria definição do rural e do urbano, sendo que para alguns geógrafos essa definição
não propriamente condiz com a verdade. Alguns teóricos analisam esses dois espaços a partir
de definições demográficas, outros a partir das relações sociais historicamente produzidas e
ainda alguns pensam esses dois espaços através de suas delimitações territoriais.
Sobre a questão distrital, é pertinente analisar este espaço a partir de estudos que
contemplem abordagens acerca da relação dialética entre o campo e a cidade, ou seja, o rural
e o urbano (BAUCHROWITZ, 2009), embora seja importante pensar essa relação não como
dicotômica e sim interdependente.
No Brasil, os distritos são subdivisões municipais, que tem como o intuito uma melhor
administração, principalmente com relação ao direcionamento de políticas públicas. Assim,
eles pertencem a uma esfera de dominação municipal, ou seja, estão ligados diretamente com
o município sede.
Embora a dicotomia entre campo e cidade, rural e urbano, tenha aparentemente se
amenizado, com a inserção de tecnologias no campo, denominado por alguns como a
“urbanização do campo”, ainda não foi superada, principalmente dentro do senso comum, que
ainda pensam o campo como um ambiente culturalmente atrasado. Já a cidade é vista como
inovadora, moderna, abarrotada de tecnologias e infraestrutura, em constante evolução, e
influenciada pela rapidez dos fluxos, informações e comunicação, graças a aliança entre
técnica e redes.
A complexidade da definição de distritos municipais
Com a pouca produção específica sobre o tema, o estudo no Brasil sobre distritos é
bastante restrito, principalmente no âmbito da geografia urbana e agrária, dificultando assim a
visibilidade dos mesmos. Talvez por isso, percebe-se uma negligência do poder público com a
população, no que diz respeito a políticas públicas básicas como saúde e educação, ou seja, as
demandas necessárias as comunidades distritais municipais. Essas demandas estão
relacionadas com a construção de infraestrutura básica e aquisição e aproximação de
“modernidades”, que na visão dos moradores distritais representam melhor qualidade de vida
(MONASTIRSKY et al, 2009).
Embora a definição de distrito não esteja bem consolidada, pode-se compreender esse
espaço a partir da definição e da relação dialética do rural e do urbano, já que os mesmos
situam-se geralmente na área rural, porém são considerados como pertencentes à zona urbana
pelo Poder Público. No caso brasileiro, os distritos municipais podem ser considerados como
híbridos rurais-urbanos, porque seus modos de vida e seus anseios transitam nesses dois
espaços geográficos (MONASTIRSKY et al, 2009).
Pinto (2003) apud Araujo (2008) define distritos como:
Uma subdivisão do município que tem como sede a vila, que é o povoado de maior
concentração populacional. Ele não tem autonomia administrativa. Funciona como
um local de organização da pequena produção e atendimento das primeiras
necessidades da população residente em seu entorno, cujo comando fica a cargo da
sede do município [a cidade]. O distrito tem a mesma denominação de sua vila e,
somente pode ser criado por meio de lei municipal. No entanto, os requisitos
exigidos para a criação de um distrito são estabelecidos por meio de lei estadual. O
município não pode, por si só, instalar distritos adotando critérios próprios. Faz-se
necessário que um povoado atenda todas as exigências determinadas pela legislação
estadual para que o município, por meio de uma lei municipal aprovada pela Câmara
de Vereadores local, o eleve à categoria de distrito (PINTO, 2003, p.57 apud
ARAUJO, 2008, p.38).
Sobre distritos é importante destacar que embora estejam localizados na zona rural do
município, a sede dos distritos é considerada parte integrante da zona urbana, e sua população
é contada em Censos e dados populacionais oficiais como sendo população urbana, levando
várias sedes de Distritos que possuem algumas dezenas ou centenas de casas serem definidas
como urbanas, ignorando outros critérios de diferenciação, como a questão de ocupação,
traços culturais, raízes históricas, etc. Assim, a relevância maior não está na questão do rural
ou urbano, e sim na dinâmica que se processa nessa localidade, a maneira como os indivíduos
sobrevivem e as relações (sociais, políticas e econômicas) que tecem entre si e como se
relacionam com o mundo (LEMES et al, 2009).
O município de Ponta Grossa também prevê em lei algumas diretrizes relacionadas aos
distritos. Na Lei Orgânica de 2005 afirma que compete ao município criar, organizar e
suprimir distritos, observando a legislação pertinente. Cabe ainda aos serviços municipais a
expansão do transporte coletivo às áreas suburbanas e aos distritos administrativos. Além
disso, as propostas de diretrizes do Plano Diretor deverão ser aplicadas também nos Distritos
e adequadas às peculiaridades e necessidades locais. Sobre educação prevê a construção de
escolas nos distritos quando houver clientela mínima de quinze alunos e também a criação de
bibliotecas públicas.
Em Uvaia, esses serviços não estão presentes, pois não há escolas, há um pequeno
hospital, mas que não conta com atendimento médico, somente odontológico e apenas uma
vez por semana. Um dos moradores entrevistados, o senhor Paulo Henrique Weiber informou
que o Distrito possuía um cartório, mas que hoje o cartório de Uvaia fica no bairro Sabará. Na
sua visão, alguns problemas de serviços e infraestrutura em Uvaia estão relacionados com o
fato de que sede do Distrito é no Bairro Sabará, que fica em Ponta Grossa: “[...] porque a sede
do Distrito ficou como sendo Sabará, veja a distância, nós estamos a 20 km do Sabará aqui.
[…] Nós aqui não temos nada, o pessoal do Sabará tem, a gente não tem o mínimo...”.
(Entrevista, 26 setembro 2011)
O que se busca nessa pesquisa é identificar os distritos, em especial o caso de Uvaia,
não como “simples áreas administrativas”, mas perceber que há o sentimento de
pertencimento dos moradores do local, que geralmente é muito mais consolidado do que os
moradores da área urbana. As relações sociais em âmbito urbano, ou os fluxos como abordaria
Santos (2006) são cada vez mais rápidos, dinâmicos, numerosos e são resultados indiretos ou
diretos das ações, modificando seu valor e significado. O que se percebe então, não só na
realidade distrital, mas também em outras realidades rurais, é que os imperativos da vida
urbana (rapidez dos fluxos, prazos, horários, racionalidade) estão cada vez mais invadindo o
campo modernizado, onde as consequências da globalização impõem práticas estritamente
ritmadas (SANTOS, 2006).
Com essa modernização que invade o campo, percebe-se que os moradores anseiam
por modernidades advindas do contexto urbano, apresentado assim traços rurais e urbanos,
este principalmente pela influência do município sede. Alentejano (2003) afirma que:
Enquanto a dinâmica urbana pouco depende de relações com a terra, tanto do ponto
de vista econômico, como social ou espacial, o rural está diretamente associado a
terra, embora as formas como estas relações se dão sejam diversas e complexas. (...)
As relações econômicas passam pela importância maior ou menor que a terra tem
como elemento de produção, reprodução ou valorização. As relações sociais incluem
as dimensões simbólica, afetiva, cultural, bem como os processos de herança e
sucessão. As relações espaciais estão vinculadas aos arranjos espaciais de ocupação
da terra, distribuição da infra-estrutura e das moradias. Assim, independente das
atividades desenvolvidas, sejam elas industriais, agrícolas, artesanais ou de serviços,
das relações de trabalho existentes, sejam, assalariadas, pré-capitalistas ou familiares
e do maior ou menor desenvolvimento tecnológico, temos a terra como elemento
que perpassa e dá unidade a todas essas relações, muito diferente do que acontece
nas cidades, onde a importância econômica, social e espacial da terra é muito
reduzida (ALENTEJANO, 2003, p.32).
Bauchrowitz (2009) analisa os distritos como sendo uma divisão territorial, de
natureza administrativa, com características predominantemente rurais (áreas de campo) com
indícios de urbanidade, porém mantendo as características rurais, ligadas às atividades do
setor primário. Os mesmos são contextualizados em escala local, com forte relação ao distrito
sede, onde a população se aproxima de equipamentos indispensáveis para “melhorar’’ a sua
qualidade de vida. Juntamente com Monastirsky (2009) compartilha a opinião com relação
aos anseios por “modernidades’’ e infra-estrutura básica nessas comunidades distritais.
Contudo nem sempre são atendidos onde o Poder Público muitas vezes atua de forma
negligente, por não reconhecer ou identificar quais são as verdadeiras necessidades dos
indivíduos que vivem nesse espaço.
Estes traços urbanos estão relacionados com os anseios e interesses dessas
comunidades às modernidades advindas do contexto urbano. Nesse caminho, adotou-se o
termo “modernidades” a partir da perspectiva de Monastirsky et al (2009, p. 3) que o utiliza
para “indicar a aquisição e/ou aproximação de produtos e
simbologia das inovações tecnológicas
serviços que apresentam a
que permeia as mudanças constantes, rápidas e
permanentes da sociedade capitalista industrial”.
Dessa
maneira,
entende-se
por
modernidades
os
bens
materiais
como
eletroeletrônicos, celulares, televisão, computador e também a internet, antes não pertencentes
ao contexto rural, além dos hábitos e ideologias da vida urbana. As características culturais e
sociais que se estabelecem nesses espaços, se encontram influenciados pelas modernidades
oferecidas graças à proximidade com os núcleos urbanos - facilitado pela infraestrutura de
transporte e comunicação – e aos acessos que os moradores distritais tem aos meios
midiáticos.
As pessoas sentem esse fenômeno da modernidade, como no caso dos moradores dos
distritos de Ponta Grossa, de forma distinta, já que estão numa situação de dualidade entre a
zona rural e a zona urbana, possuindo, portanto, características culturais tanto do espaço rural
como do urbano. Sabe-se que as relações sociais dentro do âmbito urbano são bem mais
dinâmicas e intensas do que no rural, principalmente em função das infraestruturas
encontradas na zona urbana. Vemos assim uma relação dialética entre manter a tradição e a
qualidade de vida (convívio com a natureza, sossego, segurança, ritmo de vida mais lento)
com a aproximação dos equipamentos, serviços e produtos oferecidos pela mídia e presentes
nos centros urbanos.
Essas trocas culturais acontecem principalmente devido a comunicação, seja entre os
moradores distritais e os moradores de Ponta Grossa, ou seja, pela influência da mídia na vida
dos moradores de Uvaia. Claval (2001) pensa que o contato entre os povos de culturas
distintas resulta em enriquecimento mútuo, ou seja, a comunicação é um fator essencial para
que esse contato ocorra e para que haja trocas culturais. Assim, percebe-se que a relação que
Uvaia mantém com a cidade de Ponta Grossa em primeiro momento acontece a partir da
comunicação e consequentemente ocorrem as trocas culturais (ideologias, valores, hábitos),
sendo que as trocas culturais urbanas acontecem de forma muito mais forte e incisiva no
contexto rural de Uvaia.
Vez e voz aos entrevistas
Para compreender como se processa a relação dos moradores do distrito de Uvaia no
que diz respeito a aspectos culturais, anseios por “modernidades” e a relação com o espaço
urbano de Ponta Grossa foi necessário a participação dos mesmos através de questionários
semi-estruturados e também entrevistas, estas realizadas com os moradores mais antigos do
Distrito. Dessa maneira, poderia se compreender os hábitos, práticas, o cotidiano dos
moradores distritais, que são carregados de sentido, distintos no tempo e no espaço.
Com relação ao questionário, os moradores foram indagados sobre diversas questões
referentes ao seu cotidiano, como hábitos alimentares e religiosos, vestuário, suas etnias,
utensílios e equipamentos que possuíam em suas casas, elementos em anexo a casa, como
galinheiro, paiol, poço, pomar, horta, como eram suas relações com os vizinhos, com que
frequência vão à cidade mais próxima (no caso Ponta Grossa) e que serviços utilizam na
Cidade. Essas questões revelam como funciona a dinâmica do território vivido, bem como as
relações que os moradores desse espaço hibrido mantém com o modo de vida urbano de Ponta
Grossa, além de compreender como se processa as representações coletivas nesse contexto.
Dessa maneira, levou-se em consideração não só aspectos culturais materiais, mas
também a imaterialidade provinda dos valores, tradições, hábitos, histórias da comunidade
distrital e que hoje são influenciados pelo modo de vida urbano, graças à proximidade e a
interação que mantém com Ponta Grossa (pela falta de infraestrutura no Distrito), a relação
que mantém com os moradores esporádicos, e também por influência da mídia.
Muitos dos moradores entrevistados moravam em Uvaia há muito tempo, alguns desde
que nasceram outros moravam em outras cidades, tinham parentes ou foram criados em
Uvaia, e depois de um tempo acabaram se mudando para o Distrito. Os indivíduos que
moravam na cidade, geralmente Ponta Grossa, quando indagados porque foram morar em
Uvaia, comumente a resposta era a busca por sossego, tranquilidade e segurança. Sobre isso,
uma das entrevistadas, a senhora Rita Antonia Hazelski, 47, monitora de ônibus escolar e que
mora em Uvaia há 17 anos, disse:
“Eu não abro mão de sair daqui pra morar em Ponta Grossa não (Por causa do
sossego?). Do sossego e a paz que a gente tem aqui nossa, muito bom. E Ponta
Grossa é muito barulho, eu vou uma vez por mês, pago conta, compro tudo o que
tem que comprar, faço tudo num dia pra eu não ter que ficar indo e voltando, indo e
voltando. Eu venho de lá tão estressada que nossa. Então eu já não gosto muito de ir,
não troco aqui por lá. Eu gosto de ficar aqui”. (Entrevista, 24 de setembro 2011).
Além da busca pelo sossego, tranquilidade e segurança, que também é buscada pelos
moradores esporádicos, percebe-se que há fortes vínculos dos moradores com relação ao
Distrito de Uvaia, onde muitos nasceram, cresceram e não gostariam de sair de lá, ou seja,
percebe-se a relação com o território vivido.
No total foram aplicados dezenove questionários e quatro entrevistas com alguns
moradores que moravam há mais tempo em Uvaia. Uma das primeiras questões do
questionário foi sobre a etnia dos moradores, o que poderia justificar algum hábito cultural
ainda presente. Sobre essa questão, as principais respostas foram de descendentes de alemães
e italianos (Gráfico 1). Contudo, ao longo do questionário, percebeu-se que não havia traços
culturais dessas etnias presentes no cotidiano dos moradores, nem com relação aos hábitos,
culinária, vestuário, histórias, festas ou rituais típicos.
Gráfico 1 – Etnia dos moradores participantes do questionário no distrito de Uvaia
Etnia
10
9
8
7
6
5
4
3
2
1
0
Alemão
Italiano
Polonês Português Brasileira
Sírio
Índio
Ucraniano Caboclo
Org.: SILVA, M. A. S. (2011)
Com relação a etnia, ainda foram questionados se se reuniam com a família, vizinhos ou
amigos para conversarem sobre histórias, lendas ou algo relacionado a cultura dos indivíduos (Gráfico
2), onde também foram perguntados se faziam e recebiam visitas dos vizinhos. Essas reuniões e visitas
mostram-se importantes, já que reforçam os laços identitários, bem como as relações sociais dos
indivíduos inseridos nesse contexto.
Gráfico 2 – Reuniões com os vizinhos, amigos e família para contarem histórias, lendas
Se reúnem (família, vizinhos) para conversar contar histórias, lendas?
12
10
8
6
4
2
0
Sim
Org.: SILVA, M. A. S. (2011)
Às vezes
Não
Sobre a primeira questão, grande parte se reunia para essas conversas com os vizinhos,
família e amigos, e sobre as visitas, muitos recebiam a visita de parentes da cidade,
geralmente Ponta Grossa, mas também havia os que não faziam visitas. Além disso, os
moradores foram indagados sobre como eram suas relações com os vizinhos e a grande
maioria respondeu que essa relação é boa, não há intrigas, o que aponta uma relação de
amizade, que geralmente ocorre há algum tempo. O interessante dessa questão, é que os
moradores se conhecem pelo nome, sabem a história de seus vizinhos, algo não tão presente
na vida dinâmica, rápida, fluída e fragmentada urbana. Essas relações com os vizinhos
também era motivada pelos hábitos religiosos, já que acontecem reuniões relacionadas à
Igreja, bem como as novenas e o recebimento da capelinha.
Essas informações e relações de comunicação, e que compõe a cultura, transitam entre
os indivíduos sem cessar, passando de uma geração a outra, de modo que a sociedade
permaneça viva ainda que os mais velhos desapareçam e sejam substituídos pelos mais jovens
(CLAVAL, 2006). Segundo Claval, essas informações circulam entre os vizinhos, amigos,
parceiros de trabalho ou negócio, onde há trocas de conhecimentos, descobrindo e
(re)valorizando crenças, atitudes, hábitos. Nesse viés, segundo o autor, “A cultura é feita de
informações que circulam entre os indivíduos e lhes permitem agir” (CLAVAL, 2002, p. 94).
Essas questões mostraram-se relevantes no sentido de compreender se as relações mais
tradicionais presentes no modo de vida rural, tal como as conversas de portão, a relação de
compadrio e o conto de causos ainda fazem parte da vida dos moradores de Uvaia. Assim,
percebeu-se que embora haja a influência do modo de vida urbano, em que algumas relações
sociais estão fragmentadas e fragilizadas, alguns hábitos tradicionais ainda permanecem vivos
no cotidiano dos moradores do Distrito, como as conversas de portão, a amizade entre os
vizinhos e a percepção que se pode contar com o próximo.
Sobre as construções em anexo as casas, muitos ainda possuíam elementos típicos do
modo de vida rural, como o paiol, galinheiro, poço, pomar, horta, entre outras questões,
conforme Gráfico 3. Muitos ainda utilizavam esses elementos, mas também alguns os
mantinham, mas não mais os utilizavam.
Gráfico 3 – Construções em anexo à casa dos moradores de Uvaia
Construções em anexo à casa dos moradores do Distrito de Uvaia
14
12
10
8
6
4
2
0
Horta
Pomar
Garagem
Paiol
Outros
Galinheiro
Despensa
Poço
Pocilga (porcos)
Casinha (banheiro)
Estrebaria
Org.: SILVA, M. A. S. (2011)
Além desses elementos típicos da vida rural, no questionário também havia questões
referentes aos equipamentos eletrônicos presentes na vida dos moradores, que de certa forma
foram incorporados por influências das “modernidades” advindas do meio urbano de Ponta
Grossa, do acesso a mídia e o apelo ao consumo da sociedade moderna (Quadro 2) Com
relação a isso, muitos reclamavam pela falta de acesso a internet e telefone residencial, onde
não tinham em suas casas, geralmente devido a falta de interesse das empresas privadas.
Muitos moradores questionavam também o fato de terem que pagar IPTU (já que são
considerados da malha urbana), mas não tinham acesso a internet e telefone residencial,
justamente por estar distantes da área urbana de Ponta Grossa. Pensavam assim, que por
estarem pagando IPTU e serem considerados urbanos, poderiam ter acesso a esses serviços da
vida moderna.
Quadro 2 – Utensílios e Equipamentos que os moradores do Distrito possuem
Utensílios e Equipamentos
Número de moradores que
possuem esses utensílios e
equipamentos em suas
residências
Fogão à gás
19
TV
18
Celular
18
Máquina de lavar
17
Rádio
17
Geladeira
17
Móveis atuais
16
Aparelho de som
15
Panela de ferro
13
Fogão à lenha
13
Máquina costura
12
Móveis antigos
11
Enfeites
10
Computador
7
Fotos antigas nas paredes
5
Outras decorações
5
Internet
4
Telefone residencial
3
Panela de barro
1
Org.: SILVA, M. A. S. (2011)
Sobre essa questão, um dos moradores entrevistados, o comerciante Paulo Henrique
Weiber, 42, que mora em Uvaia desde que nasceu, afirmou que “Linha telefônica não adianta
você nem discutir com as operadoras porque não tem interesse comercial, é muita pouca
gente”, e também há a questão de estarem no meio rural, muito distante da cidade. Com
relação a internet, celular, telefone residencial, os moradores entrevistados foram indagados
da
seguinte
maneira:
“Você
tem
necessidade
ou
vontade
de
ter
acesso
a
tecnologias/modernidades da cidade? Ainda mantém os costumes tradicionais (festas,
comidas, crenças, lendas, vestimenta)?”. O senhor José Ricardo Hazelski, 49, comerciante
respondeu:
“Pois olha, vontade a gente tem, mas na verdade aqui, os políticos, que mandam né,
eu acho que é os que influi, temos fibra ótica ali, mas não serve para nada.
Simplesmente tem ai, mas se você quer uma internet não tem, você tem que pagar
particular. Se você quer um telefone, esse telefone ai, tem orelhão, mas funciona a
cada uma vez por semana. (Mas então você tem vontade de ter essas coisas,
internet, TV a cabo?) Ahh, com certeza. Isso na verdade não, porque televisão para
mim não deveria nem existir. (Sobre os costumes) Não, não, não, pior que não. Pra
você ter ideia eu nem sei falar em polaco, polonês, meu pai era polonês”.
(Entrevista, 24 de setembro 2011).
O anseio e vontade por ter acesso as “modernidades” foram unânimes entre os
entrevistados, em que todos acham importante ter celular e gostariam de ter acesso a internet.
Embora nos questionários não houvesse essa questão específica, os moradores geralmente
reclamavam a falta de um telefone residencial e internet. Dessa maneira, o que se percebeu, é
que mesmo distantes da zona urbana, gostariam de ter em suas casas as modernidades
provindas do espaço urbano.
Essa influência e o desejo na aquisição de bens materiais advindos do modo de vida
globalizante, causa conflitos nos indivíduos, relacionados a sua identidade e ao modo de vida
do campo, já que habitam um ambiente rural, mantém relações de ruralidade, mas ao mesmo
tempo, num conflito dialético, buscam se modernizarem e se enquadrarem na sociedade
capitalista de consumo. Em contrapartida, os moradores da cidade, ávidos na rapidez dos
fluxos da vida urbana, da compressão do espaço e do tempo, na fragmentação do sujeito, das
relações sociais, valorizam e exploram essas diferenças e riquezas culturais, buscando no
campo, o sossego, tranquilidade e a segurança inencontráveis na cidade.
Sobre a manutenção dos costumes tradicionais, passados de geração em geração, além
de informar que a pescaria é um costume de sua família e que se mantém até hoje presente, a
entrevistada Rita Antonia Hazelski ainda deu uma resposta um tanto quanto peculiar:
“Tem, a educação que meu pai passou pra mim eu passei pros meus filhos, meu filho
agora vai passar pra minha neta. Assim sempre a gente ter o que é nosso e não o dos
outros, isso ai já veio, nossa meu pai passou pra gente e eu passei pra eles, agora
passo pras minhas sobrinhas” (Entrevista, 24 de setembro 2011).
Essa resposta foi muito diferente, já que durante as entrevistas e aplicação de
questionários, percebeu-se que a maioria dos moradores não mantém as tradições de seus
antepassados, nem com relação à alimentação, hábitos, festas, vestimenta, entre outras
manifestações culturais, onde a educação, como sendo uma tradição familiar, não foi
mencionada. Outra tradição que a senhora Rita Antonia Hazelski mantém de seus
antepassados é a pescaria, já que os moradores do Distrito possuem uma relação com o rio
Tibagi, o que se pode relacionar também com o conceito de território vivido, de Haesbaert,
onde o Rio é um elemento que sempre esteve presente no cotidiano dos moradores de Uvaia.
Segundo a senhora Rita Antonia Hazelski:
“A pescaria do meu pai, isso se mantém. [...] Ai meu pai me ensinou a pescar, ele foi
embora, ai a gente vai pescar. Ali quando é tempo da Piracema a gente não vai, a
gente respeita, se a gente pega um peixe pequenininho a gente volta ele. Não destrói,
ali na beira do rio você não corta árvore, tudo para manter a natureza. E dai já vem
dos meus bisavô lá de trás, isso da pescaria. Então, eu vou pescar, meu irmão vai
pescar, meu filho mais velho gosta de pescar também, então vem vindo de tempo já
isso dai” (Entrevista, 24 de setembro 2011).
Além dos hábitos, as festas são manifestações culturais que permanecem de forma
bastante viva em diversas comunidades, onde conseguem manter suas danças, comida,
vestimenta e músicas típicas. No Distrito, os moradores informaram que não há festas que
representam determinada cultura, sendo que geralmente as festas são religiosas, organizadas
pela Igreja do Distrito (Gráfico 4). A religião é algo bem presente e relevante para os
moradores do Distrito, onde a Igreja é um destaque arquitetônico em Uvaia.
Que festas são realizadas no Distrito?
20
18
16
14
12
10
8
6
4
2
0
Religiosas
Aniversários
Batizados
Casamentos
Em casa Festas no 'interior' Bailes
Rodeio
Gráfico 4 – Festas no Distrito
Org.: SILVA, M. A. S. (2011)
A grande maioria dos moradores questionados é cristão católico (Gráfico 5), mas
aceitam outras religiões, como o espiritismo ou protestante. Além disso, geralmente mantém
certas tradições da Igreja como as novenas, receber capelinhas, ir às missas, organizar as
festas religiosas.
Gráfico 5 – Religião dos moradores de Uvaia
Religião
18
16
14
12
10
8
6
4
2
0
Cristão/católico
Org.: SILVA, M. A. S. (2011)
Espírita
Outro
Cristão/protestante
Sobre a questão da influência das mídias e dos meios de comunicação, no Distrito, o
celular e a televisão são os meios de comunicação mais utilizados (Gráfico 6), mas na fala dos
sujeitos, era percebido que sentiam a falta e a necessidade de telefone residencial e internet.
Gráfico 6 – Frequência do uso dos meios de comunicação
Frequência do uso dos meios de comunicação pelos moradores do Distrito de Uvaia
18
16
14
12
Celular
Internet
TV
Telefone
10
8
6
4
2
0
Sempre
Ás vezes
Nunca
Org.: SILVA, M. A. S. (2011)
Quando entrevistado, o senhor Paulo Henrique Weiber foi informado que na Lei
Orgânica do Município de Ponta Grossa, previa a construção de bibliotecas nos distritos do
Município e quando indagado se sentia necessidade ou vontade de ter acesso a
tecnologias/modernidades da cidade relatou:
“Necessidade, a gente teria mais necessidade, seria uma linha telefônica, a gente não
tem linha telefônica, só celular. Internet é só por celular, acaba custando caro e a
qualidade é terrível […] Isso tem um reflexo muito grave nos estudantes né, que
não tem como pesquisar […] o problema nosso aqui, que não temos infra-estrutura
geral, seria parte do poder público fornecer, no caso de linha telefônica ou sinal de
internet” (Entrevista, 24 de setembro 2011).
No que diz respeito à relação que os moradores possuem com a “cidade grande”, no
questionário semi-estruturado, foram indagados quais eram os principais motivos que iam a
cidade (Gráfico 7), com que frequência e como se locomoviam até a cidade, geralmente Ponta
Grossa. Com base nisso, percebemos que há total falta de infraestrutura no Distrito, mesmo
sendo considerado da malha urbana de Ponta Grossa, onde os moradores necessitam ir a
Cidade para garantirem suas necessidades básicas, como alimentação, saúde e educação.
Gráfico 7 – Motivos da ida dos moradores a cidade
Motivos pelos quais os moradores vão até a cidade
18
16
14
12
10
8
6
4
2
0
Saúde
Compras
Visitas
Bancos
Shopping (cinema)
Estudo
Festas
Outros
Org.: SILVA, M. A. S. (2011)
Além disso, o principal meio de locomoção é a partir de carro próprio, embora
possuam ônibus em horário constante. Sobre isso, o entrevistado José Ricardo Hazelski
quando indagado que mudanças ele percebia entre o distrito de hoje e do passado, informou
que o ônibus foi uma das mudanças significativas no Distrito:
“Ahh! Melhorou bem né. Hoje você tem ônibus, antes tinha 3 ônibus por dia, hoje
você tem de a cada 2 horas um ônibus. Luz que não tinha. Hoje no caso, o pessoal,
tem mais gente, antes era pouquinho. (E você percebe alguma mudança nas casas,
tipo as pessoas terem mais coisas – bens materiais?) Mais coisa assim não, só tem
as mordomias, no caso mais satisfeito assim, porque era tudo meio grosseirão (O
que você entende por mordomia?) Mordomia eu acho que a pessoa tem o que quer,
no caso (Você diz de bens materiais?). É, bens materiais” (Entrevista, 24 de
setembro 2011).
Na entrevista, quando o Senhor José Ricardo Hazelski comentou que uma mudança
visível no Distrito do passado e do presente, são as “mordomias”, que em sua visão, é o
mesmo que atribuímos à questão das “modernidades”, ou seja, bens materiais, tecnologias,
que hoje já estão presentes no cotidiano dos moradores, e que comumente é associado a
“mordomia” e conforto, por isso a vontade em adquirir esses bens, que representariam uma
melhor qualidade de vida, bem como a inclusão na vida moderna.
Essa influência da condição pós-moderna, com o apelo constante pela inovação e
aquisição de bens materiais, pelo consumo, onde a mídia e o capital atendem as grandes
corporações, ou seja, os atores hegemônicos, é uma questão que atinge também a escala local,
e geralmente não considera suas particularidades. Percebe-se assim uma decadência do que
antes era considerado essencial, onde as relações sociais passam a ser cada vez mais efêmeras,
assim como as mercadorias, os objetos, os sentimentos de pertencimento, e que atingem de
forma mais expressiva os jovens, no caso específico do Distrito. Quando indagado que
mudanças percebia no distrito de hoje e do passado, o senhor Paulo Henrique Weiber
respondeu:
“Decadência de um modo geral […]. Aqui tinha um posto de gasolina, tinha um
comércio forte, até pelo que eu me lembro a década de 80 o comércio daqui era
forte, dai depois caiu muito, hoje nem se fala, não dá nem pra você comparar. Tinha
muito mais moradores, muito mais emprego, hoje tá virando tipo um balneário, só
pra lazer. Então caiu muito, decadência pura e acho que tende a piorar mais. A única
coisa boa disso tudo é que aqui quase não tem criminalidade, praticamente zero”
(Entrevista, 24 de setembro 2011). .
Finalmente, a questão final da entrevista era se o morador se considerava urbano ou
rural. As respostas foram divergentes, onde dois deles pensavam serem urbanos, por terem
que pagar IPTU, luz, iluminação pública e os outros dois rurais, como afirma Paulo Henrique
Weiber:
“Rural, porque o tamanho da propriedade, do sistema de venda da gente, a gente não
sente falta de um monte de coisa que a cidade fornece (Tipo o que?). Tipo shopping,
diversão, os mais jovens sentem mais, minha filha por exemplo sente mais, mas a
gente não sente. O próprio sistema de vida da gente, de mexer com jardinagem,
mexer com horta, gado, então nossa vida acaba sendo mais pra rural do que urbano.
Digamos que seria um rural adaptado, com alguma coisa né, porque a gente quer ter
facilidade de internet, só isso” (Entrevista, 24 de setembro 2011).
Ainda sobre essa questão, os moradores entrevistados ficavam com dúvidas,
justamente por terem que pagar IPTU, serem considerados da malha urbana de Ponta Grossa,
mas perceberem que seu cotidiano, suas relações, hábitos, até mesmo a paisagem distrital são
nitidamente rurais. Percebia-se o sentimento em alguns moradores, de dúvidas e conflitos
sobre essa questão. De acordo com o senhor José Ricardo Hazelski:
“Pois olha, ai tá uma grande coisa. Eu acho que nós por tá aqui, fora, ser rural. Mas
se eu for requerer uma luz, que nem eu pago aqui, é comercial. Então as casas aqui
de baixo por exemplo, você paga IPTU, iluminação pública, o que significa? Que
nós somos urbanos dai né. E por outro lado é rural. (Você acha que é rural porque?)
Eu acho que é rural, por nós tá, nós não ter, porque como diz aquele ditado, de casa
uma ao lado da outra, porque se for urbano é um a parzinho do outro, divisa de cerca
como diz o ditado. E aqui, o mais, tem a vila aqui em baixo que é um parzinho do
outro, mas a maior parte é um distanciado do outro ai eu acho que é rural no caso.
Será que não tem nada a ver isso?” (Entrevista, 24 de setembro 2011).
Nas falas dos sujeitos, era visível que se sentiam rurais, mas gostaria de ter elementos
que os incorporassem na sociedade como um todo. Contudo, a desculpa para não
disponibilizar esse acesso as tecnologias, geralmente é pela distância do Distrito, bem como a
distância entre as casas dos moradores. Assim, indaguei ao senhor José Ricardo Hazelski
sobre a questão da distância, se o mesmo achava que um dia isso iria mudar e a resposta
surpreendeu:
“Ah vai, na próxima geração nossa é capaz de mudar, verdade moça. (Você acha
que vai demorar então?) Vai demorar, vai demorar. Você sabe porque? Porque aqui
tem um monte de casa, tudo dos 'forgado' de Ponta Grossa e eles querem vir dormir
aqui e não querem que incomodem. É só por isso que não cresce, só por isso. Eles
querem sair de lá e querem vir dormir aqui, não querem ter incômodo, uma fábrica,
uma coisa assim. Então eu acho que na próxima geração é capaz de melhorar”
(Entrevista, 24 de setembro 2011).
Nessa fala percebeu-se que o morador associa a falta de infraestrutura, o não
desenvolvimento local, falta de acesso as modernidades, devido à presença dos veranistas,
que buscam tranquilidade e sossego e que podem impedir algum tipo de desenvolvimento no
Distrito.
Dessa maneira, ao longo das entrevistas e aplicação dos questionários, confirmou-se o
distrito como um espaço híbrido, que mantém tanto relações rurais quanto urbanas, onde o
anseio por acesso as modernidades do modo de vida urbano é notável, como se pode perceber
nos equipamentos e utensílios presente no cotidiano dos moradores.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Considerando o rural também como um espaço dinâmico, percebe-se que as transformações
advindas do espaço urbano acontecem a partir das trocas, principalmente de informações e
comunicações. A transformação do espaço, bem como das relações sociais acontece ao longo
do tempo, ganhando novas formas e percepções no decorrer da história.
Nesse trabalho, a abordagem da cultura material e imaterial foi a mais relevante, no
sentido que essa condição tem forte influência no espaço geográfico, já que expressa valores,
sentidos, afetividades, representações, tanto individuais quanto coletivas. Por isso a
emergência na abordagem cultural, porque os indivíduos que mantém relações dentro do
ambiente rural, mas com influências urbanas, buscam ainda sim manter suas especificidades
culturais rurais, haja vista nas entrevistas, em que ainda mantém em seu cotidiano o paiol, a
estrebaria, o galinheiro, o pomar, a horta, elementos típicos do modo de vida rural.
É relevante pensar e destacar que as relações entre os indivíduos da sociedade urbana e
rural contribuem para a formação dos espaços, ao mesmo tempo em que os sujeitos
envolvidos nesse processo buscam o reforço de suas identidades. Assim, mesmo que haja
influências, não há perdas culturais e sim novas resignificações. Essas influências, dentro do
contexto rural, é uma busca por se adaptar a realidade da vida moderna, além da busca por
uma melhor qualidade de vida, com a introdução de elementos que facilitam a vida cotidiana.
Além da aquisição de bens, o distrito mantém vínculos expressivos com o distrito sede
para suprir necessidades básicas, devido à falta de infra-estrutura. Por isso a constante
necessidade de ir a “cidade grande” para usufruir de serviços essenciais tais como saúde,
educação, alimentação, vestimenta.
Foi interessante notar, que embora os moradores necessitem ir a Ponta Grossa ou ainda
haja o anseio na aquisição de bens materiais, ainda há a manutenção do sentimento de
pertencimento, bem como a identificação com a vida no Distrito, já que muitos revelaram que
não querem ir morar na cidade e também muitos moradores da cidade buscaram no sossego
do campo, uma nova vida, longe do caos e do estresse urbano.
Como uma transição entre o espaço rural e urbano, percebe-se entre os moradores que
há esse sentimento, pelo menos nos mais velhos, que ao terem acesso a uma cultura distinta
da sua realidade, buscam adaptá-la ao seu contexto. Porém, a problemática é no fato dos mais
jovens buscarem muitas vezes não a adaptação e sim a substituição da sua cultura tradicional,
em favor de uma cultura alienante, massificada e consumista.
Dessa maneira, políticas públicas de preservação da cultura local rural mostram-se
importantes, como as escolas rurais, já que buscam preservar as especificidades da vida no
campo, aliada com os anseios da escala global.
A questão em pauta não é a influência dessas “modernidades” nos sujeitos distritais, e
sim um possível desaparecimento dos elementos mais tradicionais em nome de uma vida
moderna e urbana, o que não condiz com a realidade no campo. A partir da participação dos
sujeitos envolvidos nesse processo, percebeu-se que essa influência é eminente, já que os
dados quantitativos mostraram a aquisição desses bens materiais. É evidente que esses traços
rurais e urbanos não se restringem a questões materiais, mas principalmente aos hábitos,
valores, cultura, ideologias e identidade que os moradores distritais mantêm com o seu
território vivido.
O problema é como uma sociedade capitalista de consumo age nessas culturas mais
tradicionais, onde segundo Milton Santos2, o homem deixou de ser o centro do mundo, hoje o
centro do mundo é o dinheiro em estado puro, proposto pelos economistas e imposto pela
mídia. Nessa visão, a mídia como uma intermediação, que propaga o poder de um pequeno
número de agências internacionais, estreitamente ligadas ao mundo da produção material, das
finanças, que controla de maneira eficaz a interpretação do que se está passando no mundo.
Santos afirma que vivemos num mundo em que propaganda nos faz crer que ele é algo
esperançoso, mas na realidade vivemos num mundo que todo dia se cria mais fontes de
perversidade. Dentro disso as grandes empresas possuem um faro aperfeiçoado com as armas
das ciências, da técnica e da informação, onde utilizam essa técnica como algum tipo de
dominação, que é indispensável para que sobrevivam.
O que se buscou discutir é como essa influência da globalização age nas culturas mais
tradicionais, onde Santos afirma que é a primeira vez na história da humanidade em que a
técnica central é a técnica da informação e o que se percebe é o “assassinato da
solidariedade”.
Em suma, buscou-se pensar que a preservação da cultura material ou imaterial, é uma
necessidade de sobrevivência face ao processo de globalização e mundialização da cultura.
Por isso a necessidade de estudos que dêem visibilidade aos atores sociais incorporados nesse
processo dialético, de hibridismo cultural, buscando a preservação de suas raízes culturais,
históricas e geográficas.
2
No documentário “Encontro com Milton Santos: O mundo global visto do lado de cá” (2001)
REFERÊNCIAS
ALENTEJANO, Paulo Roberto R. O que há de novo no rural brasileiro? Terra Livre, São
Paulo, n.15, p.87-112, 2000.
_____________. As relações campo-cidade no Brasil do século XXI. Terra Livre, São
Paulo, v. 2, n. 21, p. 25-39, ano 18, jul./dez. 2003.
ARAÚJO, Flávia Aparecida de. Quando o urbano e o rural se intercruzam: discussões
acerca da relação cidade-campo no distrito de Amanhece/Araguari (MG). Uberlândia,
2008 – Monografia ( Geografia – bacharelado) – Universidade Federal de Uberlândia – MG.
BAUCHROWITZ, L. Caracterização dos distritos de Guaragi e Uvaia: uma contribuição
para o planejamento distrital do poder público de Ponta Grossa (PR). Monografia de
Conclusão de Curso. Universidade Estadual de Ponta Grossa, 2009.
CLAVAL, Paul. A geografia cultural. 2ª ed. Florianópolis: UFSC, 2001.
LEMES, C. da Costa, et al. Urbano ou rural? Uma análise do Distrito de Ubatã, Orizona
(GO). XI Eregeo – Simpósio Regional de Geografia, 2009.
MONASTIRSKY, L.B.; ALBUQUERQUE, E.S.; BAUCHROWITZ, L.; LIMA, J. A escala
esquecida: modernização e políticas públicas nos distritos municipais. Francisco Beltrão:
Temas & Matizes, 2009.
SANTOS, Milton. Técnica espaço tempo. Globalização e meio técnico- científico
informacional. 3ª Ed. São Paulo: Hucitec, 1997.
_____________. Por uma outra globalização. Do pensamento único a consciência
universal. 6ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2001.
Download

distritos municipais: entre a modernidade da cidade e a tradição do