Capitulo 14
“Não, não pares!
É graça divina começar bem.
Graça maior é persistir na caminhada certa, manter o ritmo.
Mas a graça das graças e não desistir. Podendo ou não, caindo
, embora aos pedaços, chegar ao fim.”
D. Hélder Câmara
Problemas na Patagônia
Não há nada que deprima mais do que férias forçadas. Um coisa que devera vir
naturalmente com objetivo claro e simples de nos dar prazer passa a ser uma coisa
obrigatória, um tempo fora do seu controle onde você acaba fazendo coisas que não quer.
Foi mais ou menos o que aconteceu conosco, embora a palavra férias esteja um pouco fora
do contexto. Depois de viajar mais de 8.000 quilômetros em direção ao sul, finalmente
estávamos na direção norte e em certo sentido, voltando para casa. Nosso plano era
atravessar o mais rápido possível a caríssima Patagônia Argentina e entrar no “barato”
Chile através de Bariloche. Pobres mortais, mas sabíamos o que nos esperava.
Depois da parada no estreito de Magalhães e de mais uma fantástica travessia pelo
lendário canal, rumamos em direção a cidade de Rio Gallegos com a intenção de pararmos
somente em Comandante Luis Piedrabuena. Depois de uma parada para abastecermos o
Pégaso com água, pegamos a ruta 3 em direção norte. Em menos de 5 quilômetros e antes
que pudéssemos perceber a temperatura do motor subiu e a água do motor ferveu. Queimo
a junta do cabeçote.
Eu desconfio que o problema já vinha de algum tempo, apesar de ter chegado a esta
conclusão somente alguns dias depois. Neste momento, a beira de uma estrada, começou o
meu “curso de mecânica pesada” ou “Como desmontar 3 vezes um motor Mercedes Benz
hablando em castelhano”. Baixei o carro do reboque e fui procurar um mecânico. Encontrei
um tal de Hugo que nos atendeu muito bem, veio até o ônibus e diagnosticou o problema.
Ficamos 3 dias estacionados em frente a sua oficina, enquanto para meu desespero ele abria
e fechava o motor.
Quando saímos, senti que alguma coisa não estava bem, mais impulsionado pela
necessidade de viajar e pela “santa ignorância em assuntos mecânicos” voltamos a estrada
em direção norte. Pouco a pouco começava a sentir confiança de que tudo estava bem, até
que 100 quilômetros depois, no meio do deserto patagônico o motor ferveu de novo e
parou. Que situação! Lá fora soprava um vento de 70 Km/h. Parei um caminhoneiro na
estrada e pedi uma sugestão. Ele me indicou um mecânico em Piedrabuena e me
aconselhou a ir devagar e completando a água sempre que o motor começasse a esquentar.
Novamente em Piedrabuena
Fizemos isto e no começo da noite, voltamos a civilização, mesmo que esta palavra
esteja descrevendo um lugar tão pequeno como Piedrabuena. Na Patagônia, qualquer lugar
com mais de duas pessoas já pode ser considerado como cidade. A Província de Santa Cruz
por exemplo, tem uma densidade demográfica de 0,7 hab/km2. O estado inteiro só tem 20
cidades. Dá pra imaginar a nossa alegria em chegar em uma delas.
Encontramos o melhor e único mecânico diesel da cidade, um senhor meio esquisito
e um pouco surdo. Depois viemos descobrir que a sua surdez é mais forte ou mais fraca
dependendo da ocasião e dos interesses. Estacionamos em um terreno baldio ao lado de um
ônibus velho ( o que nos parecia um mal presságio) e ai ficamos por mais de 15 dias.
O diagnóstico era que o cabeçote tinha sido colocado errado em Rio Gallegos e por isto ele
esquentou, rachou e tinha que ser trocado. Fora isto, ele desconfiava que a parte de baixo
do motor havia sido avariada, mas não podia fazer nada pois na cidade não havia recurso. A
retífica mais próxima ficava a 800 quilômetros.
Com pouco dinheiro no bolso, enfrentamos um problema adicional, pois não havia
nenhum caixa eletrônico em um raio de 200 quilômetros de onde estávamos. Depois de
muita conversa consegui algum dinheiro em espécie e mandei buscar um cabeçote novo em
Baia Blanca, a 2.000 quilômetros dali. Aproveitamos o tempo e passeamos por
Piedrabuena, este verdadeiro oásis no deserto. Dentro da cidade há muitas árvores e o maior
rio da região. Quando se esta nas margens do Santa Cruz tem-se a impressão de que se
pode caminhar por baixo das árvores por horas sem fim e que a região está cercada de
bosques. Triste impressão. Se você caminhar mais de 200 metros as árvores acabam e o
seco deserto mostra sua cara. Sem escolha ou opção ficamos ali, enfrentando um frio de
zero grau, um vento de arrastar pedras pela rua e uma geada forte que caia toda manhã.
San Julian
Depois que a peça chegou e o mecânico surdo conseguiu instalá-la, saímos com o
problema meio resolvido, sabendo que o motor poderia parar a qualquer momento. No
mesmo dia paramos em San Julian, um antigo porto a menos 200 quilômetros de
Piedrabuena. Foi muito bom conhecer algo novo depois de tantos dias parados. San Julian
é muito pequena e simples, além de ser uma porto desativado. O interessante é que foi aqui
que Fernando de Magalhães invernou na sua famosa volta ao mundo. Foi aqui também que
pela primeira vez ele avistou um dos gigantes nativos locais, os teuelches, que tinha mais
de dois metros de altura. Espantados com o seu tamanho eles o apelidaram de Patagon, ou
pés grandes. Daí surgiu o nome que designaria esta remota região como Patagônia.
Nesta mesma baia de águas tranqüilas, foi a nossa vez de fazer um descobrimento,
descobrimos as Toninas Overas. A bordo de uma lancha inflável de 11 metros e
acompanhados pelo Sr. Pinocho, nosso guia, fomos conhecer estes maravilhosos
mamíferos parente dos golfinhos.
A Tonina Overa é um animal endêmico da Patagônia central e que chama a atenção
pela sua docilidade e beleza. Este golfinho mede cerca de um metro de comprimento e é
todo branco com exceção de sua cabeça, cauda e barbatana dorsal, que são de um
contrastante negro. Conforme o barco avançava pelas águas calmas da baía, elas se
aproximavam e começavam a nos acompanhar, como que apostando uma corrida. A Ingrid
acreditava que elas seguiam o som do assobio e por isto assobiou todas as músicas que
conhecia. Não é científico, mas parece que deu certo. A certa altura fomos acompanhados
por um casal com e seu filhote por uns 20 minutos. Ficamos quase duas horas ali e
aproveitamos também para conhecer outros animais da região como a Paloma antártica, os
comoranes e as gaivotas austrais.
Fomos convidados a jantar em um restaurante na beira da baia, por dois amigos que
fizemos ali, Laura e seu pai. A Laura inclusive tinha feito um curso de português e junto
conosco matou um pouco da saudade de falar nossa língua.
Dormimos ao lado do restaurante e na manha seguinte o motor não pegou.
Descobrimos que o motor de arranque, que um eletricista de Piedrabuena havia “revisado”
não estava funcionado. Depois que um caminhão nos ajudou a dar partida, seguimos
viagem em direção a um lugar chamado “Três Cerros”. Digo lugar, pois ali, além dos três
cerros, só havia um posto de gasolina, outra raridade por aqui. Fomos muito bem recebido e
o gerente do posto nos deu luz e água.
Bosque Petrificado
No dia seguinte fomos de NIVA visitar o Monumento Nacional Bosque Petrificados
a uns 90 quilômetros dali. Entramos na planície em direção Oeste, por uma boa estrada de
terra e seguimos até o sopé da meseta central. No caminho paramos várias vezes para
admirar a paisagem e para coletar pedras. Esta é a mais nova mania da Família
Goldschmidt. Já temos uma quantidade bem variada de pedra guardadas no porta-malas do
ônibus. Por ser um terreno em constante erosão devido aos fortes ventos, a Patagônia é rica
em solos variados e reúne material de diversas épocas geológicas em um mesmo lugar.
Basta caminhar alguns quilômetros e a qualidade de pedras e extratos se modificam
radicalmente.
Depois de três horas entre paradas e viagem chegamos finalmente ao bosque
petrificado que fica aos pés de uma chapada com 300 metros de altura. Ali encontramos
dezenas de araucárias perfeitamente fossilizadas, todas caídas na mesma direção. A maioria
das árvores já tinha mais de 1.000 anos de idade quando caiu, algumas delas com 100
metros de altura. Por todo o percurso de aproximadamente mil metros, caminha-se
literalmente por cima de milhares de pedacinhos de árvores fossilizadas. Era
impressionante!
No parque é proibido coletar amostras, mais fora do parque, na beira da estrada, não
é difícil encontrar pequenos restos de árvores. Na verdade este é apenas um dos vários
bosques petrificados que há na Patagônia, há um outro em Sarmiento, e um terceiro perto
de Esquel, além de várias árvores isoladas espalhadas por diversas estâncias.
Depois de dois dias ai, resolvemos seguir viagem e ir em direção a Comodoro
Rivadavia tentar conserta o motor de arranque. A cada nova partida precisávamos ser
rebocados por um caminhão e “pegar”o motor no tranco. Íamos bem devagar, pois
sabíamos que o motor não estava bem. Nossa intenção era passar rapidamente por
Comodoro e rumar para o Chile onde seria mais barato retificar o motor. Fomos recebidos
pelo Florêncio e pela Silvia, um casal que conhecemos quando passamos por aqui rumo ao
sul. Eles propuseram que estacionássemos o Pégaso em frente a sua padaria que possuíam,
pois ali teríamos água e luz. Como não havia camping perto da cidade, aceitamos a oferta
embora ainda não tivéssemos idéia do que iríamos passar.
Diário
Sandra
25/04 Olha ! Isso é que é AVENTURA!
Vocês se lembram quando falei que chorei muito só de pensar em deixar a encantadora
USHUAIA?. Pois é, acho que lá fundo algo se me avisava sobre os futuros dias que
iríamos passar ...
Tudo começou em Rio Gallegos, quando tivemos um problema com a junta do cabeçote
(queimou). O Peter tirou desceu o NIVA, voltou a procura de um mecânico. Eu fiquei
orando.
27/04 Passamos três dias encalhados lá na oficina do Hugo. Mexeu aqui, mexeu ali e
quando tentamos partir, por duas vezes tivemos problemas.
28/04 Partimos achando que tudo estivesse em ordem, quando ainda faltavam uns 170
quilômetros para a cidade mais próxima, o ônibus deu sinal de alerta, estava esquentando!
Seguimos controlando a velocidade pois o o Pégaso estava se esforçando muito. Você já
sentiu alguma vez a necessidade de descer e ajudar a empurrar o seu carro com pena dele.
Pois esse era o meu sentimento naquele momento vendo o Pégaso parando, parecia que
ele estava sofrendo muito.
08/05 Já estamos em Piedrabuena a 12 longos dias e a cidade toda já nos conhece, até
na rádio o Peter já deu entrevista. Fizemos amizade com um veterinário, o “Axel”, e
operamos a nossa Paine para que não tivesse mais gatinhos . E nada de conserto ...
11/05 Conseguimos comprar o cabeçote a custa de muita luta e pressão. Com esta demora
já estávamos mais íntimos do mecânico e de sua família, as crianças haviam se entrosados
com os filhos dele e eu com a esposa dele já estávamos trocando receitas de pão.
12/05 Partimos final/e sem olhar pra trás, ansiosos e ao mesmo tempo temerosos por não
se ter a certeza de que estava tudo bem, pois já sabíamos que teríamos que refazer o motor,
não sabíamos exata/e aonde.
Peter
13/05 Hoje quando deixávamos San Julian, fomos abordados por duas brasileiras. Elas
viram a nossa bandeira em cima do ônibus e vieram nos cumprimentar. Elas nos disseram
que existem 5 famílias brasileiras morando em San Julian, formando aqui uma verdadeira
colônia. Trocamos endereços e deixamos para trás um pouco da saudades de falar o bom
português. Próxima parada: Bosque Petrificado.Tchau!!!!!!
Sandra
14/05 Viajar pela Patagônia é muito mais do eu podia imaginar. Quebrar no meio dela
então, é uma aventura que jamais vou poder descrever. O que posso é tentar transmitir um
pouco da minha saudade por tudo que vi e curti nestes momentos e uma sensação de
impotência por sermos seres tão pequenos diante desta criação tão imensa e maravilhosa
de Deus. Se você também é um sonhador(a) e deseja ir pra Patagônia nos consulte, vai ser
bom reviver nossos momentos passados aqui.
15/05 Depois de conhecer o bosque petrificado, partimos em direção a Comodoro
Rivadavia. Com muito custo o Peter conseguiu um caminhão que pudesse puxar o Pégaso
para dar a partida. Seguimos sem desligar o motor, parando pra fotografar ou colher
pedras que nos pareciam interessantes. Cada um de nós tirou uma fotografia na placa de
quilometragem que indicava a sua data de nascimento. O Erick foi no quilômetro 1990, a
Ingrid no 1992, o Peter no 1963 e eu, bem, o meu deixa pra lá!
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Não, não pares! É graça divina começar bem. Graça maior