junho 2014 - n.º 38
e o Cidadão
Enfermagem
MÃOS DE ENFERMEIROS
QUE ALIVIAM DOR ONCOLÓGICA
REPORTAGEM
A ENFERMEIRA AUTARCA
O ENFERMEIRO TRIATLISTA
ENTREVISTA
TERAPIAS NÃO CONVENCIONAIS
URGENTE RECONHECER
COMPETÊNCIAS A ENFERMEIROS
O ENFERMEIRO COMENTA...
Secção Regional do Centro
e o Cidadão
Enfermagem
Como o cidadão vê a Enfermagem
e o Cidadão
Enfermagem
Editorial
pág.03
TEMOS QUALIDADE…
E ACESSO AOS CUIDADOS DE SAÚDE, TEMOS?
Isabel de Jesus Oliveira*
Temos consciência, comparando com a realidade europeia (e
arrisco mundial), que efetivamente prestamos excelentes
cuidados de saúde à população portuguesa. Os que prestamos,
claro, e aqueles a que os cidadãos têm acesso… resta saber o que
fica por prestar.
Temos igualmente consciência de que nem todos os
portugueses têm acesso ao mesmo tipo de cuidados e que nem
todas as necessidades em cuidados de saúde são satisfeitas com
qualidade e em tempo útil. Negar isto seria “tapar o sol com a
peneira…”
Evoluímos? Certamente! Os cuidados e o acesso aos cuidados
de saúde são hoje melhores do que há 30 anos atrás. Mas
corremos o risco, no presente, de retornar ao passado.
Os profissionais de saúde existem nos serviços em número cada
vez menor, com exigências técnicas, científicas e burocráticas
cada vez maiores e pouco ou nenhum reconhecimento do valor
que desempenham para a construção e crescimento de uma
sociedade saudável e produtiva.
Recentemente, em visita a um agrupamento de centros de saúde,
pudémos verificar estas mesmas dificuldades. Cerca de 38 000
utentes sem enfermeiro de família… 38 000 mil cidadãos sem
Ficha Técnica
Dia Internacional da Criança 2014 – Ordem dos Enfermeiros
Diretora
Isabel Oliveira
Coordenação, Produção e Edição
Gabinete de Comunicação e Imagem - GCI Centro
Colaboram neste número
Ana Raquel Meira Costa, Ângela Quinteiro, António Alves, Cristina Manuela Santos, Diana
Filipa Santos Pires, Francisco Fontes, Isabel de Jesus Oliveira, João Oliveira, José António
Ferreira, José Carlos Januário, Maria João Nicolau, Marisa Rodrigues, Marta Cristina da Silva
Gouveia, Paulo Jorge Santos Rosa, Susana M. F. Seca, Susana Oliveira Corado, Tânia Cameira
Fotografia
Isabel de Jesus Oliveira, José António Ferreira, Francisco Fontes, Piranha Tattoo, arquivo
GCI Centro, autores
acesso a cuidados de enfermagem. E porquê? Bem, a
explicação é bem mais complicada do que seria expectável à
primeira vista. Profissionais que se reformam e não são
substituídos, dificuldades (quase impossibilidades, diria) na
contratação de novos profissionais, concursos que abrem para a
admissão de novos profissionais, mas que não fecham, nem
andam para lado nenhum…! O discurso dos gestores destas
unidades é inevitavelmente o mesmo: “Estamos dependentes de
autorização da tutela. Já pedimos… já alertamos, mas não
temos autorização para contratar mais” associado à frase “A
ordem é cortar!” Cortar nos recursos humanos, nos materiais, na
motivação, na resiliência, na esperança…
Teremos que começar também a cortar na Saúde dos
Portugueses…?
De que nos serve termos os melhores cuidados de saúde que a
ciência e tecnologia podem oferecer à população? De que nos
serve termos dos melhores profissionais de saúde do mundo, se
não existem em número suficiente e se a população não tem
acesso a eles…?
*Presidente do Conselho Diretivo Regional da Secção Regional do Centro
da Ordem dos Enfermeiros
Dia Internacional da Criança 2014 – Ordem dos Enfermeiros
Contactos
Telf.: 239 487 810; Fax.: 239 487 819
[email protected]
Propriedade
Ordem dos Enfermeiros
Secção Regional do Centro
Telf.: 239 487 810; Fax.: 239 487 819
E-mail: [email protected]
Edição eletrónica
http://www.ordemenfermeiros.pt/sites/centro/Paginas/default.aspx
Conteúdos vídeo
https://www.youtube.com/channel/UCydm4zJs7ZVpab6hWTY-MFQ
Ilustração
António Alves, Alunos da EB1 de Ribeira de Frades (Coimbra)
Conceção Gráfica Filipe Marques/Academia do Design
Deposito Legal
178374/02
Tiragem 14.000 exp.
Paginação Paulo Oliveira/PMP
Distribuição GCI - Centro, Jornal de Notícias/Diário de Notícias
e o Cidadão
Enfermagem
Divulgação
PSICOSE.
UM MODELO DE INTERVENÇÃO PRECOCE
Marta Cristina da Silva Gouveia*
«O meu filho está estranho… começou por dizer que 'eles' o andavam a
vigiar. Ele acha que as pessoas lhe querem fazer mal… ultimamente já
nem vê televisão, pois achava que falavam com ele e que lhe emitiam
sinais. Há semanas que anda muito pelo quarto. Mal fala connosco. E
quando o faz grita e ralha por coisas insignificantes. Fala sozinho. Ri-se
sozinho. Não come a comida que lhe faço... Há dias começou a dizer que
eu lhe queria fazer mal….Ele diz e faz coisas sem sentido. Tem medo.
Ou então cria enredos estranhos. Isola-se. Agora já não quer sair de
casa. Não permite que abra as janelas…não posso ligar a TV…»
(exemplo de relato do familiar de um possível doente a vivenciar o
primeiro episódio psicótico).
Medo, insegurança, ansiedade, raiva…
Estes serão decerto alguns dos sentimentos que nos assolam em situação de
doença, sobretudo quando não sabemos do que se trata. Quando não
sabemos nada a seu respeito. Apenas percebemos que ela é altamente
incapacitante e interfere nas dinâmicas laborais, sociais,
familiares…percebemos que comunicar com o nosso familiar se torna
complicado, sabemos que ele está hiperalerta e possivelmente também com
medo…
Para piorar a situação, a pessoa com a doença não reconhece que está
doente… não se vê como tal. Não tem juízo crítico1 nem insight2. E agora?
O que fazer nestas situações?
Este é o possível retrato de um doente que nos chega à consulta. Famílias
receosas, angustiadas, cansadas e com medo. Não sabem o que fazer com o
seu familiar doente. Para não falar deste jovem que precisa urgentemente de
ajuda.
A equipa de intervenção no primeiro surto psicótico tem por objetivos a
redução da duração e severidade do episódio psicótico inicial e diminuição
da morbilidade associada. Pretende a melhoria do prognóstico,
promovendo uma recuperação mais rápida. Neste sentido, presta um apoio
psicossocial assertivo evitando ao máximo o abandono do tratamento com
uma ação preventiva no sentido de evitar recaídas. A equipa é constituída
por psiquiatras, pedopsiquiatra, terapeuta ocupacional, assistente social,
psicóloga e duas enfermeiras especialistas na área de enfermagem de saúde
mental e psiquiátrica.
Neste sentido, a abordagem ao doente é feita em equipa e tende a haver
partilha e discussão dos casos. Cada doente é assistido por um médico
psiquiatra e um terapeuta de referência (TR). Enquanto enfermeira
pertencente à equipa desempenho também o papel de TR. O TR é a pessoa
que está mais próxima do doente. Para além das consultas com o psiquiatra,
são marcadas todo um conjunto de consultas onde são tidas diferentes
abordagens terapêuticas que nos permitem informar o doente e promover
ao máximo o seu processo de recuperação. Neste processo são usadas
diversas estratégias, nomeadamente intervenções motivacionais,
educacionais e cognitivo-comportamentais.
Os sintomas da psicose encaixam em cinco categorias. São elas a cognição,
a perceção, a emoção, o comportamento e a interação social (Laraia e
Stuart, 2001). Genericamente pode dizer-se que a psicose se refere a uma
rutura com a realidade. Interfere na capacidade da pessoa reconhecer o que
é real, controlar as suas emoções, pensar com clareza, emitir juízos e
comunicar (CIR, 2009). O impacto desta doença é sentido em várias áreas
da vida da pessoa, pelo que a intervenção nesta perturbação deve ter inicio o
mais precocemente possível. O objetivo é, inicialmente, reduzir ao máximo
o tempo de doença não tratada. Iniciado o tratamento, pretende-se melhorar
o conhecimento do próprio em relação ao seu estado procurando conferirlhe insight2 e crítica1 para a sua situação. Neste processo englobamos a
família, e sempre que necessário procuramos intervir nas estruturas da
comunidade. Deste modo, promove-se a adesão ao tratamento com vista à
recuperação da pessoa, e consegue-se melhorar o conhecimento de todos os
envolvidos relativamente à psicose. Este processo é fundamental no
sentido de reduzir estigma e discriminação e, em paralelo, o distanciamento
social. O doente é seguido no mínimo ao longo de dois anos, após os quais é
encaminhado para os cuidados de saúde primários ou para a consulta de
psiquiatria geral.
O processo de reabilitação é complexo e por vezes moroso, contudo o plano
de intervenção é elaborado em parceria com a pessoa com a doença, e o
enfermeiro TR procura o estabelecimento de relações de confiança e
parceria, fomentando o insight2 sobre os seus problemas e a capacidade de
encontrar novas vias de resolução.
Ao longo dos nossos cinco anos de existência podemos dizer que este tipo
de intervenção tem tido resultados muito positivos e comprovamos, tal
como é dito na literatura, que as expectativas para os doentes são muito
positivas. Este tipo de intervenção promove a saúde mental do doente. As
famílias passam a estar mais informadas, menos ansiosas e têm, juntamente
com a pessoa com doença, um papel ativo no processo de recuperação. É,
sem dúvida potenciada a vivência de vidas mais produtivas e com
significado.
*Enfermeira Especialista em Saúde Mental e Psiquiatria
1
Juízo crítico – é um processo de avaliação que precede um resultado (decisão ou ação)
(Trzepacz e Baker, 2001, p. 203).
Insight – “numa perspetiva prática, a avaliação do insight foca-se na capacidade dos
doentes para reconhecerem que estão doentes, compreenderem que os seus problemas são
desvios do normal, compreenderem que os seus comportamentos podem afetar terceiros e
reconhecerem que a terapêutica pode ser útil para o alívio dos sintomas”(Trzepacz e Baker,
2001, p. 198)
2
BIBLIOGRAFIA
CIR - Cuidados Integrados e Recuperação. Manual de Trabalho, Versão 1.3. Coordenação
Nacional Para a Saúde Mental. “PROFORM” – Programa de formação em saúde mental
comunitária. Coimbra, Fevereiro de 2009.
LARAIA, Michele; STUART, Gail – Enfermagem Psiquiátrica: Princípios e Prática. 6ª edição.
Porto Alegre: Artmed Editora, 2001. ISBN 0-8151-2603-4.
TRZEPACZ, Paula T. e BAKER, Robert W. – Exame Psiquiátrico do Estado Mental. 1ª edição.
Lisboa. Climepsi Editores, 2001. 240p. ISBN: 972-84.
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Entrevista / O que os enfermeiros também fazem…
pág.05
TÂNIA CAMEIRA
A ENFERMEIRA PRESIDENTE DE JUNTA DE FREGUESIA
Presidente da Junta de Freguesia de Marmeleiro, no concelho da
Guarda, a enfermeira Tânia Cameira cumpre o seu terceiro
mandato. Filha da terra, foi eleita pela primeira vez em 2005, aos
27 anos.
Estreante na liderança autárquica, inspirou-se nas competências
da Enfermagem e na experiência adquirida a cuidar.
Simplesmente o que estava em causa era dar asas à «maravilhosa
experiência que é a de ajudar o outro», o cidadão.
Lidar com doentes e com a fragilidade da vida humana continua a
impulsionar o seu desempenho na vida autárquica, e na
Enfermagem. Ambas as atividades estão centradas no cidadão. É
este quem interessa e importa. Tânia Cameira revela-se a
Enfermagem e o Cidadão.
Também gostaria de valorizar os enfermeiros; é uma nobre profissão
que merece ser acarinhada.
EC: Gostaria de acrescentar outros aspetos que considere
relevantes da sua atividade de autarca na relação com a
enfermagem e a saúde?
TC: Existe uma complementaridade destas duas atividades. A saúde é
sem dúvida um dos aspetos a ter em conta nos objetivos e no
desempenho da vida como autarca. Ambas as atividades estão
centradas no cidadão, é este quem interessa e importa.
Enfermagem e o Cidadão (EC): Como surge a atividade de autarca
na sua vida?
Tânia Cameira (TC): A atividade de autarca surge na minha vida de
uma forma natural e ao mesmo tempo inesperada. Na altura, e falo de há
nove anos atrás, dois cidadãos da minha freguesia lançaram me o
convite de encabeçar uma lista e assim concorrer às autárquicas. Sem
qualquer tipo de experiência nesta área e após alguma reflexão aceitei o
convite partindo assim para a aventura sem imaginar qual seria o
resultado. Sem contar venci as eleições e um mundo de novas
experiências e responsabilidades surgiu na minha vida.
EC: Em que medida a enfermeira está presente no seu dia-a-dia
como autarca? Como consegue conciliar ambas as atividades?
TC: Confesso que a minha formação como enfermeira e a experiência
que, então à data, tinha nesta profissão foram sem dúvida nenhuma o
meu suporte nos desígnios das minhas novas funções. Tinha já presente
o que era ajudar o próximo e contribuir de alguma forma para o bem
comum. Existe nos enfermeiros esta preparação que é específica e que
nos conduz a esta maravilhosa experiência que é a de ajudar o outro.
Numa outra dimensão, mas também na vida de autarca está presente
ajudar a criar condições que melhorem a qualidade de vida das pessoas.
Não é fácil conciliar ambas as atividades, pois é necessária muita
disponibilidade. No entanto, tenho ao longo destes anos e com algum
esforço tentado levar a bom porto o meu despenho nestas duas vidas
que acabam por se complementar.
EC: Ser enfermeira contribui para ser autarca? Como?
TC: Como já referi na resposta anterior ser enfermeira foi a minha
verdadeira força motriz na vida de autarca, lidar com doentes e com a
fragilidade da vida humana continua a impulsionar o meu desempenho
na vida autárquica. Vale a pena continuar acreditar no ser humano e a
tentarmos dar o nosso contributo.
EC: A Enfermagem contribui para um olhar diferente sobre a sua
vida, sobre o mundo?
TC: Em primeiro lugar a enfermagem cedo me ensinou que enquanto
seres humanos apresentamos fragilidades; lidar com a doença ajudanos a sermos pessoas mais humildes e dispostas a ajudar. Aprende-se a
dar muito valor à nossa vida e a ver o mundo com outros olhos.
EC: Se pudesse alterar, o que tornaria diferente na saúde para os
portugueses?
TC: Apostaria na saúde de cuidados primários, investiria na educação
e na prevenção, promovendo uma cultura para a saúde e hábitos
saudáveis.
Biografia
Com 35 anos, casada, uma filha, enfermeira de
profissão.
Desde 2005 é Presidente de Junta de Freguesia
de Marmeleiro (Guarda) pelo Partido Social
Democrata.
Natural desta freguesia, estudou enfermagem
na Escola Superior de Saúde da Guarda, onde
em 2000 concluiu a licenciatura.
A exercer há 14 anos a profissão de
enfermagem, desempenha funções na ULS da
Guarda - Hospital Sousa Martins, no Serviço
de Cirurgia de Ambulatório.
Em 2013 conclui o mestrado em Gestão de Administração Pública na Escola
Superior de Tecnologia e Gestão do Instituto Politécnico da Guarda.
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O DOENTE MENTAL E A FAMÍLIA
Marisa Rodrigues*
Uma em cada quatro pessoas poderá ser afetada ao longo do seu percurso
de vida por um problema de saúde mental, segundo dados da Organização
Mundial de Saúde (2001). Estudos realizados nos últimos 15 anos provam
que as perturbações psiquiátricas tornaram-se a principal causa de
incapacidade e uma das principais causas de morbilidade nas sociedades
atuais. Das 10 principais causas de incapacidade, cinco são perturbações
psiquiátricas (Comissão Nacional para a Reestruturação dos Serviços de
Saúde Mental, 2007).
Entre as doenças mentais que provocam maior deterioração da
personalidade, das capacidades e funcionamento encontra-se a
esquizofrenia.
A esquizofrenia é uma doença mental crónica, de alta prevalência, afetando 1%
da população ao longo da vida. Compromete enormemente a capacidade
produtiva e social dos indivíduos e causa enorme impacto nas suas famílias. É
uma doença mental muito incapacitante, porque tem o seu início normalmente
no final da adolescência ou início da idade adulta, caracterizando-se por
alterações relevantes no pensamento e comportamento da pessoa doente.
Um doente com esquizofrenia pode apresentar vários sintomas da doença, em
que alguns se caracterizam por perda da noção da realidade. O doente pode criar
uma realidade fantasiosa, na qual acredita plenamente a ponto de duvidar da
realidade do mundo e das pessoas ao seu redor. É o que chamamos de delíio. O
delírio pode ter diversas temáticas. As mais comuns são a idéia de estar a ser
perseguido por alguém, de ser observado ou de que as pessoas falam dele ou
sabem de tudo que se passa na sua vida. Outras idéias fantasiosas, como
religiosas, de culpa, de ciúme ou de grandeza também podem ocorrer.
Outro sintoma igualmente importante é a alucinação. A pessoa pode ouvir ou
ver coisas que não existem ou não estão presentes, como escutar vozes
dialogando entre si ou se referindo à própria pessoa, insultando-a ou ordenando
que faça algo.
Assim como no delírio, o doente não tem nenhum controle sobre as alucinações.
Também na esquizofrenia o doente pode apresentar falta de vontade e de
iniciativa em iniciar algumas atividades da vida quotidiana, o que não deve ser
visto pelos familiares como sinal de preguiça ou má vontade.
É importante que os familiares procurem compreender o doente, com as suas
diferenças e limitações e estejam informados em que consiste esta doença que se
chama esquizofrenia, porque as orientações políticas e de saúde vão no sentido
de se manterem os doentes mentais na comunidade, o que realça a importância
da família no cuidar do doente no domicílio.
Contudo, verifica-se que as necessidades das famílias associadas à tarefa do
cuidar continuam a merecer pouca atenção por parte dos profissionais de saúde.
Neste contexto, o enfermeiro tem um papel primordial na intervenção com a
família, podendo começar logo no internamento reunindo o familiar para saber
quais as suas dificuldades no ato de cuidar e que informação tem acerca da
doença. Para dar resposta às dificuldades e necessidades da família os
enfermeiros estão a desenvolver intervenções familiares, nomeadamente
sessões de psicoeducação, que têm como principal objetivo: informar a família
acerca da doença e da forma como lidar com o doente; reduzir os níveis de stress
do ambiente familiar e melhorar os padrões de comunicação na família e as
estratégias de coping (Organização Mundial de Saúde, 2002).
O enfermeiro desta forma capacita a família de competências para oferecer bons
cuidados ao seu familiar no domicílio, ficando a conhecer a vivência com a
pessoa de quem cuida.
Família tem falta de informação sobre a doença
Como enfermeira trabalho na área da psiquiatria no internamento, e verifiquei
que os cuidadores informais/família têm falta de informação acerca da doença
do seu familiar e dificuldades na forma como lidar com ele. Para colmatar essas
dificuldades desenvolvo atividades com a família, nomeadamente as sessões de
psicoeducação.
Estas sessões desenvolvidas com a família são realizadas também com o
propósito de esta perceber que assume um papel primordial na prestação de
cuidados à pessoa com esquizofrenia e que o processo de cuidar é muito mais do
que a alimentação, a higiene, a mobilidade e a administração da medicação. É
também estar alerta acerca dos sinais de recaída do doente (alterações no
comportamento e pensamento do doente). Para evitar as recaídas a família deve
saber lidar com o comportamento do doente e reconhecer quando o está a
precisar da sua ajuda e da dos profissionais, conhecendo possíveis fatores
desencadeantes de anteriores recaídas e também informações acerca da doença.
Estudos têm demonstrado que os cuidadores informais muitas vezes não sabem
como resolver os problemas por desconhecerem a doença mental. Torna-se
fundamental que as famílias sejam perspetivadas nas suas singularidades e,
como tal, necessitam de ser ouvidas para receberem o apoio adequado.
Apesar do contexto socioeconómico em que vivemos é importante que não haja
a destruturação da família, porque segundo estudos ainda são na maioria dos
casos os familiares diretos que apoiam estes doentes, assumindo desta forma o
papel de cuidadores informais (cuidador não profissional de saúde).
Os cuidadores informais destes doentes passam por várias dificuldades que
muitas vezes não são valorizadas pelos profissionais de saúde. Cuidar de um
doente mental é algumas vezes dificultado pelas características da
esquizofrenia, que em muitos casos o doente recusa admiti-la, tem uma postura
negativa face ao seu tratamento, abandonando-o.
O tratamento principal da esquizofrenia passa pela toma da medicação, contudo
a adesão ao tratamento é um das principais obstáculos e está intimamente ligado
às recaídas. A questão dos efeitos secundários é uma dificuldade para muitos
doentes com esquizofrenia e demarca muitas vezes a não adesão ao tratamento.
O empenhamento apropriado das famílias é de facto de extrema importância
para a evolução mais favorável da doença. O ambiente social e emocional dentro
da família está claramente correlacionado com as recaídas na esquizofrenia.
*Enfermeira Especialista em Saúde Mental e Psiquiatria
BIBLIOGRAFIA
COMISSÃO NACIONAL PARA A REESTRUTURAÇÃO DOS SERVIÇOS DE SAÚDE
MENTAL – Relatório, proposta de plano de ação para a reestruturação e desenvolvimento dos
serviços de saúde mental em Portugal 2007/2016. Ministério da Saúde, 2007. p. 84-85.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE - Relatório mundial da saúde 2001- saúde mental:
nova compreensão, nova esperança. Lisboa:1ª ed. Direção Geral de Saúde. 2002. ISBN 972675-082-2.
e o Cidadão
Enfermagem
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pág.07
“TATUAGENS & PIERCINGS”
ARTE OU UM RISCO PARA A SAÚDE?
Ângela Quinteiro*
As tatuagens e piercings são uma opção pessoal e podem ser vistos
de várias formas. Para uns é uma forma de marcar um estilo, para
outros uma necessidade de querer gravar algo importante, ou
então um simples prazer de enfeitar o corpo. No entanto, há que ter
em conta que, no que diz respeito às tatuagens, é algo definitivo e
não deve deixar-se que um impulso se sobreponha à razão. Ambas
as artes têm riscos para a saúde, que devem ser tidos em conta antes
da tomada de uma decisão definitiva.
- ser informado pelo profissional sobre riscos e cuidados pós-técnica;
- observar se o profissional usa luvas diferentes para cada procedimento e se abre as agulhas, tubos de tinta e todo o material envolvido
(bandejas e recipientes) de pacotes fechados e esterilizados, e se as
agulhas são destruídas em frente ao cliente.
Após fazer uma tatuagem ou colocar um piercing há que ter em conta
determinados cuidados para evitar infeções indesejadas.
Foto Loja Piranha Tattoo
Da aplicação de uma tatuagem ou de um piercing pode advir uma
alergia ao material, infeções cutâneas localizadas e risco de contração
de hepatite B e C ou HIV (se o material não for esterilizado). Nos
piercings, em particular, existem riscos de traumatismos e atingimento
de nervos relevantes (se o profissional não tiver conhecimentos
mínimos de anatomia), hemorragias (principalmente nos piercings
orais e genitais), dentes e gengivas danificadas e alterações nas funções
normais da boca (nos piercings orais), alterações do fluxo urinário (nos
genitais) e endocardites. Devido à alta vascularização da língua, este é
um local muito suscetível a hemorragias na aplicação de um piercing.
Os cidadãos com contraindicação para fazer tatuagens são todos
aqueles que tenham o sistema imunitário debilitado, que tenham
alterações nos seus valores hematológicos, que tenham doenças de pele
(em especial psoríase), que tenham alergia a pigmentos de tinta e metal,
cidadãos com epilepsia ou hemofílicos e cidadãos que não tenham a
vacina contra o tétano atualizada. Todo o cidadão deve ter a noção de
que se fizer uma tatuagem ou se aplicar um piercing não pode doar
sangue durante um ano, devido ao risco de incubação de qualquer tipo
de infeção sanguínea.
Cuidados?…muitos antes de fazer
Antes de se fazer um piercing ou uma tatuagem o cidadão comum deve
ter em conta vários aspetos preventivos, tais como:
- verificar a credibilidade profissional da loja e dos seus profissionais;
- pedir para visitar a loja e verificar se o local é arejado, limpo,
iluminado e se possui sala de esterilização;
- ser questionado pelo profissional sobre situação de infeções atuais,
problemas de saúde e atualização de vacina do tétano;
Sem sexo até 12 semanas com piercing genital
Como tal, após colocar um piercing o cidadão deve evitar coçar o local
de aplicação, limpar diariamente com soro fisiológico (higienizando
sempre as suas mãos), evitar, durante a cicatrização, banhos de mar ou
de piscina e exposição ao sol. No caso dos piercings orais deve lavar os
dentes com antissético sem álcool após beber, comer ou fumar, e evitar
beber bebidas alcoólicas e comer comidas picantes. Relativamente aos
piercings genitais deve evitar-se a relação sexual até á cicatrização
(entre 4 a 12 semanas, dependendo do local da aplicação), e no que diz
respeito aos piercings faciais, deve evitar-se a colocação de
maquilhagem.
Após a execução de uma tatuagem o cidadão deverá manter o curativo
durante 24 horas. Após remover o curativo deve lavar a pele 2 a 3 vezes
por dia com água e sabão neutro e secar sem esfregar (se formar crosta
esta não deve ser removida), deve aplicar creme hidratante e
cicatrizante (sem perfumes), vestir roupa larga e sem fibras sintéticas
para evitar o traumatismo e a irritação da pele.
Em ambas as situações, no caso de verificar sinais de infeção evidentes
no local (dor, rubor, calor ou drenagem de qualquer tipo de líquido)
deve dirigir-se de imediato ao seu médico assistente.
Tendo em conta as palavras de Pitágoras “antes de fazer alguma coisa,
pense, quando achar que já pode fazê-la, pense novamente”!
Ponderação e noção dos riscos acima de tudo!
*Enfermeira
e o Cidadão
Enfermagem
Reportagem
ENFERMEIROS QUE NAS MÃOS
TÊM REMÉDIO PARA A DOR ONCOLÓGICA
NO INSTITUTO PORTUGUÊS DE ONCOLOGIA DE COIMBRA FRANCISCO GENTIL
José António Ferreira1 e Francisco Fontes2
Maria Lisete perdeu os dois seios, mas o mal continuou a alastrar. A
Maria Albertina sofre com as metástases que já se disseminaram
pela zona lombar. São duas das muitas, e muitos, doentes que
diariamente procuram no Instituto Português de Oncologia de
Coimbra Francisco Gentil (IPO) a redenção do cancro.
São também duas histórias de pessoas cujas vidas melhoraram
graças à ousadia e persistência de um pequeno grupo de enfermeiras
e enfermeiros.
Em 2005 começaram a praticar a massagem terapêutica para aliviar
colegas das dores do corpo e da alma geradas por um quotidiano de
chumbo a melhorar vidas desoladas.
A massagem resultava em colegas. Porque não com ela amansar as dores
oncológicas, a dor emocional e a dor da doença? O sucesso chegou, nos
resultados sentidos pelos pacientes. O toque, o movimento e a pressão de
mãos sabedoras conseguiam iludir as fortíssimas dores resultantes da
doença, que até potentes fármacos não conseguiam dissipar.
Sem artes de magia, nem de curandices, mas apenas pelo saber da
enfermagem, e da aprendizagem contínua, confinavam essas dores a
zonas de escuridão, sabendo que não conseguiriam isolar as frestas, e que
a dor oncológica gradualmente se imporia na sua brutalidade. O bemestar alcançado, mesmo que efémero, sempre traria luz aos dias dos seus
pacientes.
Maria Lisete e Maria Albertina recuperaram a alegria de viver
Maria Lisete e Maria Albertina recuperaram a alegria de viver, e de estar
com os outros, graças a esse tratamento não farmacológico de alívio da
dor. No seu infortúnio sentem-se hoje bafejadas pela fortuna, por terem
sido integradas em programas dessas terapias.
No início eram poucas enfermeiras e enfermeiros. Hoje já chegam à
dezena. De projeto experimental, em 2011 passou a Grupo de Terapias
Não Farmacológicas da Unidade da Dor. Os resultados paulatinamente
aferidos, e os testemunhos e evidências dos doentes, foram confirmando
que consorciando-se as duas terapias, a farmacológica e a não
farmacológica, o alívio da dor atinge níveis não antes alcançáveis.
Atualmente o grupo de dez enfermeiros consegue atender cinco doentes
em cada um dos dois dias da semana que lhes estão reservados, a terça e
quarta-feira. A expetativa é aumentar, paulatinamente. É já prática
terapêutica consolidada no Instituto Português de Oncologia de
Coimbra, a única instituição pública de saúde do país que a integrou entre
os serviços que presta à comunidade.
«O intuito é alargar. O benefício tem sido muito grande e o feedback
muito positivo com os nossos doentes. Quero crer que dentro de algum
Maria Albertina
Maria Lisete
tempo isso seja possível, e alargado aos cinco dias da semana», revela a
enfermeira Dulce Helena, Chefe do Serviço de Cirurgia do IPO e
coordenadora do grupo.
O conhecimento dos seus benefícios tem feito crescer a procura por
doentes, e o número de pacientes encaminhados pelos médicos tem
também aumentado, mas muitas vezes não é possível integra-los nos
programas de 8 semanas pré-estabelecidos para cada um.
«Não há espaço de manobra» - afirma - para os agendamentos, quer de
novos doentes, quer de doentes que obtém alta ao fim das oito semanas, e
que acabam por necessitar de reintegração passado algum tempo, porque
a dor oncológica não dá tréguas.
Maria Albertina há 14 anos é adepta das denominadas medicinas
complementares, mas só há quatro meses faz parte deste programa de
terapias não farmacológicas do IPO de Coimbra. Confessa a
Enfermagem e o Cidadão não ter qualquer dúvida de que elas deveriam
fazer parte dos cuidados oferecidos em todos os hospitais e centros de
saúde.
«Dão-nos uma força interior que não sabemos onde vamos buscar»
«Realmente acalmam-nos. Dão-nos uma força interior que não sabemos
onde vamos buscar. Estou sempre bem comigo mesmo. Deram-me essa
possibilidade e achei fantástico, e tenho usufruído dela com alma e
coração, e tem-me feito muito bem», afirma. Teve conhecimento dessa
via de alívio da dor numa altura em que andava a receber radioterapia.
Maria Lisete teve cancro da mama. Em 2007 realizou a mastectomia à
direita, e em 2008 à esquerda. Em 2009 teve «a sorte» de ser remetida à
Consulta da Dor, numa altura de «dores terríveis» que não cediam com
nenhum dos medicamentos prescritos.
«Realmente, estar doente é muito mau, mas ter dor é muito pior. Dor que
não cede a nada, dor que martiriza, dor que desgasta e nos tira até um
bocado de dignidade, porque é brutal. A luz no meu caminho foi a
Consulta da Dor. Não só a medicação da dor, mas o acompanhamento
terapêutico da dor sob a forma de massagem, com mãos mágicas,
solícitas, tranquilas, que apaziguavam as dores da alma e as dores do
corpo», explica.
Ao olhar para trás, Maria Lisete afirma que isso foi o que a «salvou
verdadeiramente», pois ajudou-a a cuidar de si, a reativar um papel na
família, a lidar com o medo, a recuperar a autoestima, a mobilidade, a
maneira de estar positiva na vida perante as adversidades.
«Os enfermeiros dão-nos tudo. Dão-nos o amor, o carinho. Ao fazeremnos as massagens transmitem-nos aquilo que pensam. Isso é muito
importante, porque nos transmitem confiança», observa Maria
Albertina.
e o Cidadão
Enfermagem
Reportagem
A estes testemunhos da peregrinação pelo IPO na tentativa de estancar a
progressão da doença Maria Lisete acrescenta outros, na sua perspetiva
ainda mais dramáticos, que presenciou ou escutou nas cadeiras das salasde-espera. De quem foi levado a ver o mar em cadeira de rodas, de quem
não conseguia ler nem escrever «por causa das unhas arrancadas pela dor
excruciante».
Por lá passam «muitas outras heroínas, mulheres, que vêm fazer os
tratamentos, que partem nas carreiras a vomitarem-se todas, e que
chegam a casa e têm um pai acamado, um filho deficiente, um marido
que lhes bate, ou as abandona» porque a doença as mutilou, as forçou a
retirar um seio, os seios.
Doente quer oferecer Euromilhões para melhorar instalações
Ciente dos benefícios, não se conforma que o IPO de Coimbra ainda não
tenha conseguido encontrar instalações mais amplas para mais doentes
poderem beneficiar das massagens e demais terapias não
farmacológicas. Até já fez a promessa de doar uma parte do prémio do
Euromilhões, se lhe sair.
«O serviço é tão bom! Os profissionais que estão no grupo são todos
excelentes. É claro que uma pessoa tem preferência por aquelas mãos, ou
por aquelas outras mãos, mas todos estão imbuídos do mesmo espírito»,
afirma Maria Lisete.
Revela que as sessões de massagem têm corrido tão bem que às vezes até
se esquecia de tomar a medicação, mas «depois pagava caro, porque a
dor neuropática não se compadece disso». Sublinha que o bem-estar, a
ausência de dor após as sessões é de tal ordem que dá para esquecer que
se padece de doença oncológica.
«Eu costumava dizer: eu saio daqui com menos 20 anos e menos 20 quilos,
porque saio nas nuvens, sem dor nenhuma. Parece incrível! Até a mim me
parecia incrível, mas é a verdade. Dor zero, mobilidade toda. Claro que
passados alguns dias a coisa vai e vem, mas nunca mais tive aquele quadro
de dor, nem o quadro de atrofiamento psicológico à conta da dor», acentua.
pág.09
O bem-estar e relaxamento físico e psicológico foi presenciado por
Enfermagem e o Cidadão durante uma sessão que lhe proporcionou a
enfermeira Cristina Costeira, em que lhe aplicou técnicas de cariz
emocional e manipulativo.
Entre os serviços que o grupo oferece encontram-se a massagem, nas
suas várias vertentes, a aromoterapia, a reflexologia e a aplicação de
calor e frio.
Quando um doente é encaminhado para o grupo de enfermeiros das
terapias não farmacológicas de alívio da dor, este é avaliado sobre a sua
adequação a elas, e depois elaborado um plano individual de tratamento.
Na primeira sessão recebe os ensinos indicados para o seu caso, se
possível em conjunto com membros da família.
Também para cada doente é elaborado um registo da avaliação aos
parâmetros vitais, no início e no final de cada sessão do programa, e em
função disso as estratégias poderão ser reformuladas.
Personalização dos cuidados
«Personalizamos os cuidados de enfermagem. Os doentes são únicos e
os diagnósticos acabam por ser únicos, adaptados à pessoa», afirma a
enfermeira Cristina Costeira, que integra o grupo há três anos.
O sucesso destas terapias no IPO, segundo a coordenadora do grupo,
enfermeira Dulce Helena, muito se deve à preocupação que os
enfermeiros têm tido em se atualizar, em investigar e produzir ciência.
Entre eles há quem se tenha já doutorado nessa área, outros já
produziram trabalhos de mestrado. Esse esforço proporcionou ao grupo
em 2013 a atribuição do Prémio Prof. Luís Raposo.
A curiosidade e interesse de profissionais de outras instituições pelo que
os enfermeiros fazem no IPO de Coimbra também tem aumentado, mas
até agora apenas o do Porto disponibiliza algo do género, mas com
voluntários, nada com profissionais de enfermagem.
«Quando os doentes dizem ter uma dor de grau 6 ou 7, muito grande
mesmo, e após a sessão e quando vêm à sessão seguinte com uma dor
zero, não há nenhum cuidado de enfermagem que não valha a pena
quando nós temos esta mais-valia do doente», acentua a enfermeirachefe Dulce Helena.
Essa mais-valia foi bem visível nas duas Marias, a Albertina e a Lisete,
quando conversavam com Enfermagem e o Cidadão. Brilho nos olhos,
um sorriso a rasgar-se, com se imbuídas de uma bênção da
transcendência, ou apenas da imanência, de estarem a desfrutar em pleno
da graça que é cada instante da vida.
1
Enfermeiro
Assessor de Comunicação e Imagem
2
Enfermeira Chefe Dulce Helena
Enfermeira Cristina Costeira
e o Cidadão
Enfermagem
Divulgação
ENFERMEIRO: TERAPIA DE RELAXAMENTO
Paulo Jorge Santos Rosa*
As sociedades desenvolvidas são caracterizadas, cada vez mais, por um
ritmo frenético de mutações ao nível socioeconómico e cultural, podendo
por isso ser consideradas como palcos privilegiados de uma constante
experienciação de situações inovadoras e desafiadoras, muitas vezes de
cariz negativo, levando a uma sistemática necessidade de readaptação por
parte das pessoas.
A unicidade de cada pessoa, ao nível biopsicossocial, determina diferentes
capacidades de adaptação, podendo estas percorrer um continuum que pode ir
desde a simples experienciação da sensação de desconforto, passar pela geração
de emoções negativas como a angústia e ansiedade e, num pólo oposto, alcançar
níveis elevados de stress que poderão culminar num estado extremo de crise.
O stress pode ser conceptualizado como uma resposta específica do organismo
quando exposto a um estímulo entendido como ameaçador, podendo descreverse em três fases, alarme, resistência e exaustão, que constituem o Síndroma
Geral de Adaptação (Selye apud Payne, 2003).
Neste sentido, quando estamos perante um estímulo prolongado e intenso que
supera a capacidade de resistência e adaptação da pessoa, levando-a a atingir um
estado de exaustão cognitiva, emocional e comportamental, atinge-se uma
situação extrema de crise que se não for revertida poderá culminar no
desenvolvimento de uma patologia mais grave, a nível fisiológico e/ou mental,
ou mesmo conduzir à morte.
Não se podem conotar apenas aspectos negativos ao stress, a ele estão também
associados pontos positivos, tendo em conta que é indispensável à vida. Existe
um nível ótimo de stress, biologicamente necessário para cada pessoa, que
resulta como objetivo estimulador de todas as atividades. O stress comporta,
desta forma, duas situações distintas: “bom stress” – eustress, e o “mau stress” –
distress. O eustress é entendido como uma resposta harmoniosa, natural e sem
consequências graves, adaptada aos padrões fisiológico e psicológico da pessoa,
ou seja gerador de prazer. Por outro lado, o distress é entendido como uma
resposta exigida por um estímulo intenso e prolongado, com resultados
excessivos e, se superar a capacidade de resistência e adaptação da pessoa, pode
predispor para a doença (Vaz Serra, 1999).
O desenvolvimento socioeconómico e cultural das sociedades
modernas/desenvolvidas trouxe, de igual modo, diferentes perspetivas e
abordagens terapêuticas destas novas doenças civilizacionais, nomeadamente
através do incremento e valorização de psicoterapias, nas quais se pode
vislumbrar o relaxamento. Atualmente há um crescente interesse em relação a
terapias não farmacológicas, nomeadamente o relaxamento, em virtude de uma
maior consciencialização e preocupação com a segurança, eficácia e custo dos
medicamentos psicotrópicos.
A conceptualização do relaxamento tem sofrido uma evolução paralela ao
desenvolvimento das técnicas que lhe estão subjacentes. A conotação inicial
direcionada unicamente para uma dimensão física, caraterizada pela diminuição
da tensão muscular, assume atualmente uma perspectiva de maior
complexidade, à qual associa as dimensões psicológica e comportamental.
Neste sentido, o relaxamento pode ser definido como “um estado de consciência
caracterizado por sentimentos de paz, alívio de tensão, de ansiedade e medo”
(Ryman apud Payne, 2003, pág. 3).
No séc. XX, o relaxamento teve grande implantação e desenvolvimento,
essencialmente devido a dois autores, Heinrich Schultz (1884-1970) e Edmund
Jacobson (1888-1983). Schultz foi responsável pelo método de relaxamento
denominado “Treino Autogénico” que utilizava técnicas sugestivas e
interpretação psicanalíticas. Jacobson, pelo contrário, fazia uso de técnicas de
relaxamento muscular “Relaxamento Muscular Progressivo”, acreditando
que a tensão muscular estava associada a estados emocionais negativos como a
ansiedade, pelo que a diminuição progressiva da atividade muscular permitia a
redução concomitante da tensão psíquica, conduzindo a uma sensação de calma,
paz e bem-estar. Existem diversas técnicas e métodos de relaxamento, variando
em função dos seus mecanismos, benefícios e do grau de complexidade na
execução. O relaxamento profundo refere-se a procedimentos que visam obter
um efeito mais demorado, intenso e de grande amplitude, normalmente
executados na posição horizontal/dorsal. O relaxamento superficial diz
respeito à prática de técnicas que visam a obtenção imediata de uma sensação de
relaxamento, de menor amplitude e intensidade, muitas vezes concretizado
através da realização de versões encurtadas do relaxamento profundo.
Os objetivos da prática do relaxamento, no que respeita aos ganhos obtidos em
saúde, são inúmeros, ao nível da prevenção e tratamento das doenças, variando
de acordo com as técnicas utilizadas, competência do terapeuta e capacidades do
utente. Os seus benefícios poderão ser constatados ao nível da diminuição da
ansiedade, insónia, tensão arterial, frequência cardíaca e respiratória, cefaleias e
tensão muscular. Os resultados conseguidos, com a realização de determinada
técnica de relaxamento podem variar em função da observância de
determinados elementos que lhe estão subjacentes, designadamente o ambiente,
duração e frequência das sessões, posição corporal, tom de voz, indução de
imagens mentais de paz, respiração, uso de música, etc.
No ensino e realização de técnicas de relaxamento podem estar envolvidos
profissionais de saúde, entre os quais os enfermeiros. A prática corrente é
pautada por variantes que surgem como resultado das competências, do
conhecimento e experiência. O enfermeiro tem um papel importante no
reconhecimento da origem da ansiedade manifestada pelo doente, assim como
no seu controlo, através da identificação/utilização de métodos de ajustamento
adaptativo, usando como instrumento de trabalho o processo de enfermagem.
Durante a fase de avaliação são colhidos dados numa perspetiva
holística, considerando as dimensões, física e psicossocial, para
determinar a adaptação do doente ao stress. A formulação dos
diagnósticos de enfermagem tem por base o objetivo prioritário da
redução ou controlo do stress, de forma a minimizar os sintomas
desajustados e só a longo prazo o enfermeiro estabelecerá como meta o
incremento do potencial de bem-estar do doente. Na fase da execução,
inicialmente o enfermeiro concentra-se na execução da técnica e
posteriormente, numa fase mais tardia e de acordo com as capacidades
físicas e cognitivas do doente, o enfermeiro experimenta o papel de
instrutor. A evolução da prática exige uma avaliação em parceria,
enfermeiro-doente, acerca das técnicas utilizadas e se estas estão a
atingir os objetivos traçados, podendo conduzir à reformulação do
plano de intervenção (Townsend, 2002).
O relaxamento, tal como já foi referido anteriormente, inclui diversas
dimensões, como a fisiológica, psicológica e comportamental, pelo
que a sua avaliação, para ser exata, terá que ser multidimensional,
nomeadamente através do uso determinados parâmetros como os
questionários, autoavaliação, avaliação dos parâmetros fisiológicos,
observação e o número de sessões realizadas.
*Enfermeiro Especialista em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica, Centro Hospitalar
Universitário de Coimbra, Hospital do Sobral Cid (Serviço de Psiquiatria Forense)
Referências Bibliográficas
DAVIS, John [et al.] – Psiquiatria: Diagnóstico e Tratamento. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990.
MASSON, Suzane. – Os Relaxamentos. São Paulo: Manole, 1986.
PAYNE, Rosemary A. – Técnicas de Relaxamento – Um Guia Prático para Profissionais de Saúde.
Loures: Lusociência, 2003.
SERRA, A – O stress na vida de todos os dias. Edição do Autor. Coimbra, 1999.
TOWNSEND, Mary – Enfermagem Psiquiátrica: Conceitos e Cuidados. 3ª Edição. Rio de Janeiro:
Guanabara koogan, 2002.
e o Cidadão
Enfermagem
Entrevista / O que os enfermeiros também fazem…
pág.11
O ENFERMEIRO JOÃO OLIVEIRA
E A SUA PAIXÃO PELO TRIATLO
Enfermeiro de profissão, em 2011 João Oliveira apaixonou-se pelo
Triatlo, uma modalidade que conjuga três desportos que já
exercitava. Frequentemente vê a profissão interditar-lhe um
desporto que quotidianamente lhe ensina como cuidar melhor dos
cidadãos. Ganhe curiosidade e leia a entrevista que concedeu a
Enfermagem e o Cidadão.
Enfermagem e o Cidadão (EC): Como surge a prática de triatlo na
sua vida? Já praticou outras modalidades desportivas?
João Oliveira (JO): O triatlo surgiu de uma forma muito natural. Já
praticava ocasionalmente natação, atletismo e ciclismo mas de forma
isolada e sempre por lazer. Porém, no início de 2011 por curiosidade
decidi inscrever-me no Triatlo da Quarteira, onde experienciei a
sensação de realizar as 3 disciplinas numa prova só. Desde então o
gosto pela modalidade foi crescendo e comecei a participar com
regularidade em provas de triatlo.
Antes disso já tinha praticado atletismo durante alguns anos. Mesmo
durante o curso de enfermagem tive a oportunidade de participar nos
campeonatos universitários. Posso dizer que o desporto tem estado
sempre presente na minha vida.
EC: Como consegue conciliar a Enfermagem com treinos e
competição desportiva? Como é o seu dia-a-dia?
JO: A articulação entre a minha vida profissional e desportiva exige
muito esforço e dedicação para que consiga treinar e competir. Como
trabalho por turnos, não é fácil, pois não consigo criar rotinas de treino
e nem sempre consigo ter os dias das provas livres. Por isso, tento
aproveitar o tempo que tenho livre antes ou depois do trabalho para
treinar, mas nem sempre é possível ir à piscina ou fazer uma pequena
corrida, e há alguns dias em que simplesmente não há disponibilidade
para praticar desporto. Por outro lado, naqueles dias em que existe mais
tempo livre, quando estou de descanso ou folga, procuro ir andar de
bicicleta, uma vez que é a disciplina dentro do triatlo que exige mais
tempo de treino.
EC: Ser enfermeiro contribuiu de algum modo para a prática do
desporto? Como?
JO: Penso que não foi o facto de ser Enfermeiro que me fez iniciar no
triatlo, uma vez que já fazia desporto anteriormente. Por outro lado, a
enfermagem ajudou-me a entender a importância que a prática regular
de desporto tem enquanto estilo de vida saudável e nos inúmeros
benefícios que estão inerentes a isso, o que só me dá mais motivos para
continuar ligado desta forma ao Triatlo.
EC: A Enfermagem contribuiu para um olhar diferente sobre a
sua vida, sobre o mundo? E conjugando-a com a de desportista?
JO: Sem dúvida que sim, enquanto enfermeiro, no meu dia-a-dia
tenho-me deparado com situações/experiências que levantam diversas
questões e isso permite-me ter outra perspetiva da vida e da forma
como esta deve ser encarada. Pessoalmente procuro sentir-me bem
com aquilo que faço, gosto de estabelecer objetivos e tentar atingi-los.
No fundo procuro sempre superar-me e no Triatlo encontro essa
satisfação.
EC: Se pudesse alterar, o que tornaria diferente na Saúde para os
portugueses?
JO: Se pudesse alteraria os hábitos alimentares, pois penso que seriam
inúmeros os ganhos para a saúde dos portugueses. No entanto, constato
com satisfação uma maior adesão à prática de desporto e um maior
cuidado com a alimentação nos últimos anos, por isso penso que a
tendência é continuar neste caminho.
EC: Gostaria de acrescentar outros aspetos que considere
relevantes da sua atividade de desportista na relação com a
Enfermagem e Saúde?
JO: Já referi anteriormente que a prática de desporto é essencial para
a saúde de cada individuo, por isso, enquanto desportista e
enfermeiro vou continuar a promover a minha saúde e a das pessoas
com quem contato na minha profissão. Gostaria de tirar algum curso
em que conseguisse relacionar as duas vertentes, Enfermagem
Desportiva, por exemplo. É uma opção que ainda está em aberto.
Biografia
Nome: João Pedro Teodósio Oliveira
Idade: 29 anos
Naturalidade: Leiria
Profissão: Enfermeiro
Local: Hospital do Litoral Alentejano
Modalidade que pratica: Triatlo
Clube: Desportivo Náutico da Marinha Grande
Dados desportivos relevantes:
2014: Triatlo Internacional Lisboa (Distancia
Half-Ironman): 11º Lugar
Duatlo Rio Maior: 15º Lugar
2013: Corrida de São Silvestre Lisboa: 36º Lugar
Triatlo Iberman Espanha (Distancia Ironman): 2º Lugar
Triatlo Olímpico Aveiro: 27º Lugar
Corrida do Tejo: 33º Lugar
Meia Maratona Almada: 7º Lugar
e o Cidadão
Enfermagem
Inovação
SHOWERCARE® BY IHCARE
SISTEMA INOVADOR DE HIGIENIZAÇÃO NO LEITO
Diana Filipa Santos Pires*
Idealizada pela jovem enfermeira Diana Pires, ShowerCare é uma
inovadora banheira insuflável com duche para acamados. Indicada,
quer para uso no lar, quer nas instituições de saúde. Pretende com ela
solucionar muitas das dificuldades de higienização dessas pessoas.
Para desenvolver a ideia de negócio criou a própria empresa, que em
2017 deverá lançar as primeiras banheiras no mercado. Em 2012 esta
ideia de negócio arrebatou três prémios: Prémio a2b/Bluepharma,
Prémio IPN-Incubadora e Prémio Novotecna/FabLab Coimbra. A
enfermeira Diana Pires desvenda algumas das virtualidades do seu
invento a Enfermagem e o Cidadão.
Desenho de alunos da Escola EB 1 de Ribeira de Frades (Coimbra)
A prestação de cuidados de saúde à pessoa e/ou utente acamado, com um grau
de dependência elevado a muito elevado, seja por incapacidade motora ou
indicação terapêutica, faz parte da realidade diária de inúmeras instituições
públicas e privadas, bem como de profissionais do sector. Esta prática tem por
consequência o surgimento de diversas dificuldades operacionais,
nomeadamente na prestação de cuidados de higiene básicos no leito.
Sendo os cuidados de higiene básicos, essenciais para a garantia de níveis
mínimos de conforto e dignidade do indivíduo acamado, bem como
imprescindíveis à intervenção clínica, estes assumem especial relevância
na prevenção de ocorrência de infeções.
A título de exemplo, se considerarmos que, em ambiente hospitalar, o
recurso a cateteres venosos periféricos, de resto a prática estabelecida e
recorrente, tem como principal causa de infeção a migração de
microrganismos da pele para o local de inserção do cateter (Brennan,
2011), pode afirmar-se que o principal problema associado aos cuidados de
higiene atualmente prestados, reside no facto de que estes são
frequentemente deficitários, o que conduz a situações de prevalência de
infeções hospitalares elevadas.
Em 2012 a taxa de infeções contraídas em contexto hospitalar foi de 10.6%,
contra 9,8% em 2009, o que denuncia um claro e preocupante agravamento
da situação. Por conseguinte, e de acordo com os relatórios produzidos por
entidades reconhecidas no sector, uma taxa elevada de infeções
hospitalares (IACS - Infeções Associadas aos Cuidados de Saúde)
evidencia uma deficitária qualidade na prestação de cuidados de saúde com
elevadas consequências a nível clínico, humano e financeiro.
Ao considerar as práticas atuais, e equipamentos disponíveis no mercado,
verifica-se que esta tarefa torna-se de difícil execução no terreno, mais
ainda quando se constata que as técnicas sofreram relativamente pouca
evolução desde a sua primeira implementação, inspirada nas “Notes on
Nursing” (Notas sobre Enfermagem) de 1860, onde Florence Nightingale
descreve técnicas e práticas de higienização para a redução das taxas de
infeção em ambiente hospitalar. Desde soluções mais tradicionais e com
maior índice de adoção tal como o uso de bacias de pequenas dimensões
com água e esponja, a soluções um pouco mais atuais, mas de reduzida
implementação, tais como dispositivos amovíveis para colocação
temporária no leito sob o paciente, ou ainda o recurso à condução do
indivíduo/utente a uma zona de banhos preparada para o efeito.
Em suma, é correto afirmar que a atenção aos cuidados de higiene em
ambiente hospitalar, nomeadamente na presença de infeção, se reveste de
importância para a recuperação do indivíduo. Todavia, esta temática não
tem merecido ou, tem no mínimo merecido reduzida atenção por parte dos
responsáveis das unidades hospitalares, corroborando os resultados de
estudos recentes, nos quais profissionais e pacientes afirmam que os
cuidados de higiene, que respetivamente prestam e recebem, nem sempre
são vistos como uma questão essencial, ficando a faltar para a sua
realização materiais e equipamentos (Hancart-Petitet, 2011).
É no seguimento da anterior constatação que surge a primeira
concretização tecnológica da iHCare, o sistema ShowerCare®.
Inovador sistema de higienização no leito
Este inovador sistema de higienização no leito, eleva a padrões nunca antes
experimentados a prática clínica de prestação de cuidados de higiene de
indivíduos acamados, com um grau de dependência elevado a muito
elevado, potenciando a eliminação da ocorrência de IACS, assegurando
simultaneamente elevados níveis de conforto e dignidade para as partes
envolvidas.
A implementação do sistema ShowerCare® em hospitais, clínicas,
unidades de cuidados continuados, paliativos e domicílios tem por objetivo
a melhoria global da higienização do utente / paciente acamado, o que
permite um eficaz e muito necessário meio de combate às IACS.
O sistema apresentado será uma valiosa ferramenta a favor da diminuição
do número de mortes por contração de IACS, proporcionando conforto e
privacidade ao utente e ainda uma redução das listas de espera por
diminuição do tempo de internamento por utente. O sistema apresenta
ainda como valor acrescentado o facto de permitir uma redução em 50% do
tempo despendido pelo profissional de saúde / cuidador na prestação dos
cuidados de higiene ao utente, o que por sua vez permite diminuir os gastos
totais associados à ocorrência de IACS, beneficiando as unidades de saúde
e por conseguinte os sistemas de saúde - públicos e/ou privados.
A iHCare perspetiva que o sistema ShowerCare® chegue ao mercado em
2017.
*
* Licenciada em Enfermagem pela Escola Superior
de Enfermagem de Coimbra, em Setembro de 2013.
Sócia fundadora da iHCare - Innovation Hospital Care. Lda, uma strat-up que aposta em
novas soluções tecnológicas na área da saúde, recorrendo a parcerias estratégicas, numa
lógica de open innovation com empresas altamente qualificadas.
Contactos: [email protected] [email protected]
BIBLIOGRAFIA
·BRENNAN, Patrick J. [et al.] - Guidelines for the Prevention of Intravascular Catheter-related
In- fections. CDC - Department of Health & Human Services [online] - USA, 2011, pp. 7 - 83.
·HANCART-PETITET, P. - Social and cultural dimensions of hygiene in Cambodian health
care faci- lities. BMC Public Health [online]. 2011, 1183. doi:10.1186/1471-2458-11-83.
·NIGHTINGALE, Florence - Notes on Nursing: what it is, and what it is not - Lane Library; New
York: D. Appleton and Company; Broadway 1860;
·PINA, Elaine et al - Prevalência de infecção adquirida no hospital e do uso de antimicrobianos
nos hospitais Portugueses - Inquérito 2012 - Departamento da Qualidade na Saúde - DGS.
e o Cidadão
Enfermagem
Divulgação
pág.13
DEGLUTIR
PODE SER UM PROBLEMA
Cristina Manuela Santos1 José Carlos Januário2 Maria João Nicolau3
As alterações na deglutição podem surgir em diversos contextos. Estão
associadas a uma variedade de estados de saúde que podem ter origens
e prognósticos variados. No entanto, as suas consequências podem ter
impactos significativos para a pessoa. A sensação e a necessidade de
comer são transmitidas aos centros cerebrais da fome e da sede
(hipotálamo). O ato de deglutir ocorre aproximadamente 600 vezes
num dia, e na vida intrauterina o feto de termo deglute
aproximadamente 500 mililitros de líquido amniótico por dia (Jotz et
al, 2009).
Deglutir é uma sequência de múltiplos estádios. Quando deglutimos o trato
respiratório é bloqueado enquanto o alimento ou bebida estiver a atravessar
a faringe para o esófago. A deglutição pode ocorrer por início cortical
voluntário ou por um reflexo (Miller et. al, 2002).
Sabemos que o processo de deglutição é mais lento nos idosos, existindo
por vezes descoordenação entre a fase oral e a faríngea, o que inclui a
proteção das vias aéreas. Episódios de disfagia podem ocorrer
frequentemente em pessoas com mais de 65 anos (Robbins J. et. al, 2007).
Os episódios de engasgamento, entrada do alimento nas vias respiratórias
causando tosse, falta de ar e até mesmo pneumonia, são um problema
comum e como vimos, a probabilidade de acontecer em pessoas idosas é
significativa. No entanto, podem ocorrer em indivíduos jovens, estando
normalmente associados a acidentes envolvendo cabeça e pescoço,
doenças da boca e garganta, ou ainda patologia neurológica. Este contexto
revela a importância do diagnóstico precoce para prevenção de pneumonia
e desnutrição, além de desidratação.
A maioria das pessoas com disfagia acredita que a sua condição não tem
tratamento possível, mas 39% acreditam que as suas dificuldades de
deglutição podem ser tratadas; 84% afirma que a alimentação deve ser uma
experiência agradável; 41% das pessoas afirmaram que experimentaram
ansiedade ou pânico durante as refeições e 36% relataram evitar comer na
presença de outras pessoas (Ekberg et al, 2002).
Vários autores têm efetuado estudos sobre os fatores de risco e o impacto da
disfagia na qualidade de vida, constatando haver relação entre a gravidade e
frequência da disfagia com o impacto na mesma, normalmente há perda na
satisfação em comer pela dificuldade em deglutir. A disfagia intermitente
foi associada à ansiedade e a disfagia progressiva foi associada com a
depressão. Existem indivíduos que experimentaram ansiedade ou pânico
durante as refeições e outros evitam comer na presença de terceiros.
Estamos na presença de um importante problema de saúde na comunidade
com substancial impacto na vida das pessoas afetadas, em termos físicos e
mentais. (Ekberg et al. 2002; Eslick e Talley, 2008).
O processo de deglutição abrange três fases, que são a fase oral, fase
faríngea e fase esofágica. A fase oral consiste na formação do bolo
alimentar através da mastigação e a utilização da língua para o mover para a
faringe. A fase faríngea é a mais complexa da deglutição, porque deverá
haver um encerramento completo e adequado da via respiratória no sentido
de prevenir o engasgamento. A fase esofágica consiste na progressão do
bolo alimentar através da onda constritora iniciada pelos músculos da
faringe, durando esta fase entre 8 a 20 segundos. Qualquer alteração que a
pessoa apresente em uma ou mais destas três fases traduz-se em deglutição
comprometida ou dificuldade para deglutir.
A pessoa poderá apresentar como sintomas de disfagia recusa alimentar,
tosse durante ou após a deglutição (até três minutos após), sialorreia
(excesso de saliva que o doente vai deixando descair pela boca), alteração
da voz como por exemplo voz encharcada e presença de alimentos na boca
(não consegue deglutir a totalidade dos alimentos).
Para doentes com algumas destas alterações poderá ser suficiente fazer
pequenos ajustes na dieta, como usar espessante na água (os espessantes
modificam as características de consistência dos alimentos líquidos) para
esta adquirir uma consistência mais espessa que o doente possa tolerar.
Evitar alimentos sólidos, estar sentado a 90º e com a cabeça ligeiramente
fletida no sentido de prevenir a aspiração. Deve-se alimentar com pequenas
quantidades de cada vez, pausadamente, evitar distrações e não falar
enquanto come. Além disto é muito importante que o doente esteja desperto
quando é alimentado; se estiver sonolento diminui significativamente a
capacidade de deglutir.
Deve ser dada atenção ao ambiente mas também à escolha de alimentos,
temperatura, textura e sabor; são todas qualidades importantes para
desencadear a deglutição segura. Os alimentos devem ser agradáveis em
aparência e aroma como uma refeição normal e nutricionalmente completa;
alimentos que sejam viscosos, secos, duros de mastigar ou que se separem
na boca devem ser evitados.
Os líquidos são o maior desafio no tratamento da disfagia, pois podem mais
facilmente atingir a via aérea devido à sua falta de coesão. Daí vem a
necessidade de serem engrossados com espessantes.
Se tem dificuldade em engolir e se engasga frequentemente procure o seu
enfermeiro de família que o pode aconselhar ou encaminhar para o técnico
de saúde mais competente para o ajudar.
1
Enfermeira Generalista; 2Enfermeiro Especialista Enfermagem Reabilitação;
3
Enfermeira Generalista
Hospitais da Universidade de Coimbra - Medicina Interna (A) Enfermaria D
Bibliografia
Ekberg, O. - Social and psychological burden of dysphagia: its impact on diagnosis and treatment.
Dysphagia 17.2 (2002): 139-146.
Eslick, G D, and Talley, N J. - Dysphagia: epidemiology, risk factors and impact on quality of life--a
population-based study. Alimentary Pharmacology & Therapeutics. 27.10 (2008): 971-979.
Jotz, G.P; Dornelles, S. – Fisiologia Da Deglutição in Tratado da Deglutição e Disfagia.1ª Ed. Rio de
Janeiro: Livraria e Editora Revinter Ltda., 2009. ISBN: 978-85-372-0218.
Miller, R.M. et tal – Reabilitação da Fala, Linguagem, Deglutição e Audição in Medicina De
Reabilitação: princípios e prática. 3ª Ed. São Paulo: Editora Manole, 2002. ISBN 85-204-1052-9.
Robbins, JoAnne, Stephanie Kays, and Shirley McCallum. - Team management of dysphagia in the
institutional setting. Journal Of Nutrition For The Elderly 26.3-4 (2007): 59-104.
e o Cidadão
Enfermagem
Divulgação
CIRURGIA AMBULATÓRIA:
UMA REALIDADE EM CRESCIMENTO
Susana Oliveira Corado e Ana Raquel Meira Costa*
Apesar de já existirem relatos de cirurgias no domicílio que remontam aos
anos de 3000 AC, a cirurgia ambulatória tornou-se uma realidade mundial
somente na década de 60, do século XX, devido aos múltiplos avanços de
técnicas cirúrgicas e métodos anestésicos.
A Cirurgia Ambulatória (CA) é nos países desenvolvidos a área de maior
expansão cirúrgica nos últimos trinta anos. Em Portugal a atividade de
cirurgia ambulatória, estando em expansão, encontra-se com números
muito reduzidos se nos detivermos com os de outros países Europeus e da
América do Norte.
Para o estímulo à cirurgia ambulatória foi criada a Associação Portuguesa de
Cirurgia Ambulatória (APCA) que tem por objeto a formação e divulgação da
CA. Em Outubro de 2007 foi criada a Comissão Nacional para o
Desenvolvimento da Cirurgia de Ambulatório (CNADCA).
A popularidade da cirurgia ambulatória, que tem vindo a crescer nos nossos
contextos, encontra-se associada a um conjunto significativo de vantagens já
percecionadas pela sociedade e pelo utilizador. Destas destacam-se as clínicas
como: baixa incidência de complicações (dor, trombo-embolias, infeções),
diminuição de stress ao cliente, facilidade de recuperação em ambiente familiar
e regresso precoce às atividades diárias (componente familiar e atividade
profissional), em comparação com os clientes que ficam sujeitos a internamento
na cirurgia convencional. Também em matéria de organização dos cuidados se
verifica uma melhoria do acesso dos clientes à cirurgia. Com a redução das listas
de espera facilita-se o processo de agendamento e regista-se um aumento
significativo da eficiência hospitalar relativamente à cirurgia com
internamento. Numa altura em que as questões económicas estão em cima da
mesa, o recurso à cirurgia ambulatória possibilita uma vigorosa racionalização
da despesa em saúde.
O compromisso da cirurgia ambulatória traduz-se num modelo organizativo
centrado no cliente, que está associado a um significativo incremento da
qualidade com aumento da personalização e da humanização dos cuidados de
saúde.
Segundo a Associação Portuguesa de Cirurgia Ambulatória, esta consiste na
realização de uma intervenção cirúrgica programada, tradicionalmente efetuada
em regime de internamento, cuja alta ocorre até 24 horas após o procedimento
cirúrgico, frequentemente sem necessidade de pernoita hospitalar.
Vários estudos apontam alguns receios por parte dos clientes em aderir à
cirurgia ambulatória (Mottram, 2012; Moñiz Mora et al, 2000; Parris et al,
1988). Estes prendem-se com o facto de ficarem sem o profissional de saúde
após as 24 horas do ato cirúrgico. O profissional que mais é requisitado para este
acompanhamento por parte dos clientes e seus familiares é o enfermeiro.
Os percursos de melhoria da qualidade e segurança fez encarar a autonomia da
cirurgia ambulatória como fator indispensável para o sucesso e adesão com uma
equipa multidisciplinar dedicada. Os estudos referem que são os enfermeiros o
'core' dos projetos de cirurgia ambulatória através da defesa da humanização,
segurança e qualidade. Neste sentido manifesta-se a necessidade de uma
seleção, formação e motivação, separando, de forma transparente, as estruturas
da cirurgia ambulatória da cirurgia convencional, de acordo com a organização
mais adequada, com os benefícios da sua realização, nomeadamente a maior
rentabilização dos blocos e dos recursos humanos.
Os clientes para cirurgia ambulatória devem ser criteriosamente selecionados.
Esta seleção é feita pelo médico, mas é ao cliente que cabe a decisão, depois de
informado. Os critérios a cumprir são de âmbito social e clínico.
Os primeiros prendem-se com: aceitação pelo cliente em ser operado nas
condições oferecidas; ter transporte assegurado em veículo automóvel após a
alta; residir a menos de 60 minutos de distância do hospital; ter habitação com
condições adequadas de habitabilidade; ter possibilidade de comunicar à
distância (por telefone); ter a companhia de um adulto responsável nas primeiras
24 horas.
Hospital José Luciano de Castro, Anadia
Os de ordem clínica são referidos como: operação que se prevê de curta duração
(até 120 minutos); cliente com idade entre 1 e 90 anos e sem outras doenças
graves; doença que leva à cirurgia classificada como ASA I ou ASA II pelo
Anestesiologista (significa não ter outras doenças); situações em que a dor e o
desconforto do pós-operatório possam ser controlados com medicação por via
oral.
Os indicadores de qualidade em cirurgia ambulatória sublinham a segurança
desta tipologia cirúrgica, permitindo também uma ampla avaliação da
instituição, dos pontos fortes e fracos, contribuindo assim para a monitorização
e melhoria contínua da qualidade dos cuidados prestados.
Na Unidade de Cirurgia Ambulatória (UCA) do Hospital José Luciano de
Castro, Anadia, realizaram-se em 2012 um total de 863 cirurgias - 475 cirurgias
gerais (hérnias, varizes, quistos dermóides, cirurgia anal, tecidos moles), 243 de
ortopedia (túnel cárpico, fasciectomias, hallux valgus, artroscopias, quistos
sinoviais), 104 de urologia (orquidectomia, incontinência urinária, aperto
uretral, circuncisão) e 42 de oftalmologia (papiloma, excisão de chalázio).
Periodicamente são analisados alguns indicadores de qualidade: Consulta de
Enfermagem Pré-operatória, telefonema dia seguinte, visita domiciliária,
telefonema aos 30 dias e inquérito de satisfação.
A Consulta de Enfermagem Pré-operatória é uma atividade onde se privilegia o
contacto entre o cliente e o enfermeiro para avaliação dos critérios clínicos e
sociais, bem como a preparação pré-operatória. Está interligada com a Consulta
de Anestesiologia e habilita o cliente à realização da CA.
Os telefonemas do dia seguinte e aos 30 dias, são contactos efetuados com o
cliente, avaliando a evolução global (física, pessoal e profissional), existência
de complicações, ensinos e esclarecimento de dúvidas.
A visita domiciliária é o atendimento realizado no domicilio, 24 a 96 horas após
a cirurgia, com o objetivo de avaliar a evolução do cliente, assegurando a
recuperação da autonomia junto da família.
O Inquérito de Satisfação Pós Cirurgia é um documento que será preenchido
pelo cliente após a cirurgia, no sentido de avaliar a satisfação com a experiência
cirúrgica.
Com o desenvolvimento tecnológico e resultados obtidos, acredita-se que nos
próximos anos a percentagem de CA irá ocupar o maior espaço em relação à
cirurgia convencional.
*enfermeiras
BIBLIOGRAFIA
Ministério da Saúde (2008). Relatório Final – Cirurgia de Ambulatório: Um Modelo de Qualidade
Centrado no Utente. Lisboa: CNPDCA
Parris, W., Matt, D., Jamison, R., & Maxson, W. (1988). Anxiety and postoperative recovery in
ambulatory surgery patients. Anesthesia Progress, 35(2), 61-64.
Moñiz Mora, M., Vaz Leal, F., & Vázquez Rueda, F. (2000). [Evaluation of perioperative psychological
response to short-stay hospital surgery]. Anales Españoles De Pediatría, 53(3), 229-233.
Mottram, A. A. (2012). Day surgery patients' perceptions of risk: a qualitative research study.
Ambulatory Surgery, 17(4), 69-73.
SHERMAN, D. (1997). Developing quality assurance programs in ambulatory surgery. Nursing
Management, 28(9), 44-48.
e o Cidadão
Enfermagem
O Enfermeiro Comenta…
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TERAPIAS NÃO CONVENCIONAIS
URGENTE O RECONHECIMENTO
DA COMPETÊNCIA AOS ENFERMEIROS
Susana M. F. Seca*
Os enfermeiros, na busca constante da excelência na prática
profissional, assumem o dever de manter a atualização contínua
dos seus conhecimentos utilizando, tanto na tomada de decisão em
enfermagem como na fase de implementação de intervenções, os
conhecimentos e técnicas mais adequadas, incorporando os
resultados da investigação nas suas práticas [1, 2].
A prestação de cuidados de enfermagem pode ser complementada,
ampliada e enriquecida pelo conhecimento das terapias não
convencionais, nomeadamente a Medicina Tradicional Chinesa
(MTC), e em particular uma das suas técnicas mais populares, a
acupuntura.
Remetendo para a abordagem da MTC, enquanto terapia não
convencional com um impacto crescente na comunidade científica, e
para a essência da Enfermagem enquanto ciência humana, estamos
perante domínios do cuidar que concentram a sua atenção numa visão
holística da pessoa como ser único em constante interação com tudo o
que o rodeia, o que requer um atendimento personalizado de acordo
com seu estado clínico.
A utilização da MTC é distinguida pela capacidade de estimular
reações fisiológicas, tais como a ativação do sistema imunológico,
aumento do limiar da dor e do fluxo de sangue. Tem um vasto campo de
atuação, por exemplo: controle dos sinais e sintomas no pré e pósoperatório, como a ansiedade, a dor, incluindo a dor fantasma, náuseas
e vómitos, anestesia em pequenos procedimentos cirúrgicos. Os efeitos
secundários e / ou interações medicamentosas são diminutos, seja pela
redução do uso de alguns medicamentos, seja atuando nos órgãos ou
sistemas afetados, a fim de protegê-los [3]. Assume grande importância
na área de Medicina Preventiva, proporciona alívio dos sintomas e
ajuda, muitas vezes, através de uma variedade de distúrbios em que as
formas ocidentais de tratamento têm acesso limitado. É de baixo custo
e com efeitos colaterais mínimos.
A necessidade de implementar e melhorar as estratégias de abordagem
no cuidar à pessoa tem conduzido cada vez mais enfermeiros a investir
em formação qualificada e reconhecida no âmbito das terapias não
convencionais. Todos os enfermeiros que praticam terapias não
convencionais são sujeitos ao código deontológico e de ética da Ordem
dos Enfermeiros (OE) [4].
Surge assim a necessidade de o Conselho Nacional Executivo da
Ordem dos Enfermeiros dinamizar e propor as regras e critérios para a
criação de uma Competência em terapias não convencionais,
nomeadamente Medicina Chinesa e Acupunctura, aberta aos
profissionais de enfermagem que praticam estas modalidades
terapêuticas.
Não reconhecimento da Competência limita acesso pelos cidadãos
Já há alguns Hospitais e Centros de Saúde com consultas de terapias
não convencionais, mas o não reconhecimento da competência está a
condicionar a sua oferta pelos enfermeiros, ao cidadão em articular, e à
sociedade em geral.
À Ordem dos Enfermeiros deverá competir a aprovação da revisão dos
Critérios de Certificação dos cursos de terapias não convencionais
considerados relevantes para a prática da enfermagem, nomeadamente
de Pós-Graduação e Mestrado em Acupunctura ou Medicina Chinesa, e
igualmente a Atribuição da Competência aos profissionais
qualificados para tal, uniformizando a formação pós-graduada. E,
ainda, assegurar que os enfermeiros que optem por praticar terapias não
convencionais estejam devidamente treinados para executar com
segurança e eficácia a terapêutica, de acordo com o conhecimento
cientifico atual, tendo em conta indicações baseadas na evidência e
possíveis contraindicações e efeitos adversos destas técnicas.
OE deve liderar processo de reconhecimento
A associação pública representativa dos enfermeiros deverá ser o
principal órgão responsável pela promoção, divulgação e investigação
científica desta modalidade terapêutica entre os seus profissionais,
assim como pela idoneidade das entidades ou serviços formativos e
peritagens dos seus cursos.
O reconhecimento da competência pela OE permitirá a integração dos
conhecimentos científicos atuais na compreensão e aplicação das
Terapias Não Convencionais nas intervenções de enfermagem.
A prestação de cuidados de enfermagem recorrendo à inclusão de
terapias não convencionais pode ter uma importância incalculável para
as pessoas com doença aguda e crónica, ao fornecer estratégias para a
promoção, preservação e recuperação da saúde, prevenção de doenças
e redução do sofrimento e da doença.
No entanto, só a um profissional experiente e com treino adequado
deverá ser reconhecida a capacidade para saber escolher com
segurança qual a melhor opção no tratamento de cada situação clínica.
*Enfermeira. Mestrado em Medicina Tradicional Chinesa
Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, EPE, Coimbra - Portugal
Heidelberg School of Chinese Medicine, Heidelberg - Alemanha
BIBLIOGRAFIA
1
Diário da República – I série – A, (1998), Decreto – Lei nº104/ 98, de 21 de Abril, Artigo 76, Estatuto da
Ordem dos Enfermeiros. Portugal: Ministério da Saúde.
2
Ordem dos Enfermeiros. Competências do Enfermeiro de Cuidados Gerais. Grafinte. Lisboa. 2003.
3
Santos TS. Opinião dos alunos do 4º ano acerca da integração da Medicina Tradicional Chinesa no
plano curricular do curso de Licenciatura em Enfermagem. Porto: Universidade Fernando Pessoa,
faculdade de Ciências da Saúde. 2011: 34- 36.
4
OE, Parecer N.º 27/ 2008.
FALTA DE ENFERMEIROS COLOCA
EM RISCO CUIDADOS AOS CIDADÃOS
A Secção Regional do Centro Ordem dos Enfermeiros (OE) realizou recentemente visitas institucionais ao Hospital de Aveiro e às
urgências das Caldas da Rainha e expressou publicamente a sua preocupação com o que verificou.
Em ambas as situações estava em causa a segurança dos cuidados prestados aos cidadãos. Além do alerta público, foram notificados as
administrações dos respetivos hospitais, o Ministério da Saúde e as entidades fiscalizadoras competentes.
Após a visita a Aveiro o Bastonário da Ordem dos Enfermeiros, Enfº Germano Couto, confessou: «Vou daqui preocupado». Constatou o
elevado cansaço acumulado pelo aumento de horas de trabalho, para que os cidadãos não fiquem sem os cuidados de que necessitam.
No Serviço de Urgência das Caldas da Rainha a situação era caótica, com 30 ou 40, e mesmo 50 macas, quase em permanência, barrando
até a passagem dos profissionais de saúde para socorrer os doentes nelas deitados.
«Apetece-me perguntar se é preciso acontecer uma desgraça nos serviços de saúde para que se olhe convenientemente para esta realidade,
e se atue», alertou publicamente a Presidente do Conselho Diretivo da Secção Regional do Centro da OE, Enfª Isabel Oliveira.
E os doentes ficavam nas macas, uma semana, duas semanas, e casos houve que chegaram a um mês, ali deitados nos corredores, à espera
do internamento no serviço indicado.
AVEIRO INICIA CONFERÊNCIAS
NA REGIÃO CENTRO
O Salão Nobre do Centro Hospitalar do Baixo Vouga E.P.E., em Aveiro, encheu-se de enfermeiros interessados em participar, a 14 de
abril, na primeira sessão do ciclo de conferências que a SRC organizou para divulgar o Modelo de Desenvolvimento Profissional (MDP).
O Modelo de Desenvolvimento Profissional (MDP) visa a melhoria dos contextos da prática de enfermagem e dos cuidados que os
enfermeiros prestam aos cidadãos.
A segunda conferência decorreu dia 20 de maio no auditório da Escola Superior de Saúde de Leiria. A terceira realizou-se a 12 de junho no
auditório da Unidade Local de Saúde da Guarda.
A elevada participação nas sessões testemunha o acerto da Secção Regional do Centro da Ordem dos Enfermeiros sobre a decisão de
organizar o ciclo de conferências «Acreditação dos Contextos de Prática Clínica Passo a Passo…». Irá decorrer até janeiro de 2015 nas seis
capitais de distrito da Região Centro e na cidade da Covilhã.
Pretende-se informar os intervenientes do processo de acreditação, divulgando-o junto das Instituições de Saúde e seus Profissionais de
forma a promover a adesão ao mesmo, pelos benefícios que trará à prestação de cuidados aos cidadãos.
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