0 Insper Instituto de Ensino e Pesquisa Faculdade de Economia e Administração Sara Brolhato de Oliveira TRANSFORMAÇÃO ESTRUTURAL E PRODUTIVIDADE NO BRASIL São Paulo 2012 1 Sara Brolhato de Oliveira Transformação Estrutural e Produtividade no Brasil Monografia apresentada ao curso de Ciências Econômicas, como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel do Insper Instituto de Ensino e Pesquisa. Orientador: Prof. Dr. Naercio Aquino Menezes Filho – Insper São Paulo 2012 2 Oliveira, Sara Brolhato de Transformação Estrutural e Produtividade no Brasil / Sara Brolhato de Oliveira. – São Paulo: Insper, 2012. 35 f. Monografia: Faculdade de Economia e Administração. Insper Instituto de Ensino e Pesquisa. Orientador: Prof. Dr. Naercio Aquino Menezes Filho 1.Transformação Estrutural 2. Produtividade 3. Crescimento 3 Sara Brolhato de Oliveira Transformação Estrutural e Produtividade no Brasil Monografia apresentada à Faculdade de Economia do Insper, como parte dos requisitos para conclusão do curso de graduação em Economia. Aprovado em Dezembro 2012 EXAMINADORES ___________________________________________________________________________ Prof. Dr. Naercio Aquino Menezes Filho Orientador ___________________________________________________________________________ Prof. Dr. Eduardo de Carvalho Andrade Examinador ___________________________________________________________________________ Prof. Dr. Eduardo Correia de Souza Examinador 4 Agradecimentos Primeiramente, ao meu orientador Naercio Menezes, sem o qual esse trabalho não teria sido possível. Obrigada pelo apoio, sugestões e ajuda durante todo o ano. Também agradeço minha família e amigos, que tanto me apoiaram nesses quatro anos de graduação e estiveram presentes em todos os momentos, tanto nos felizes quanto nos mais difíceis. 5 Dedicatória Dedico este trabalho a meu pai, que nunca conteve esforços para que eu tivesse a melhor educação possível, e com quem aprendi que, com esforço, é possível alcançar qualquer objetivo que se queira. 6 Resumo OLIVEIRA, Sara Brolhato de. Transformação Estrutural e Produtividade no Brasil. São Paulo, 2012. 35p. Monografia – Faculdade de Economia e Administração. Insper Instituto de Ensino e Pesquisa. Este artigo analisa a dinâmica do processo de transformação estrutural brasileiro entre 1950 e 2005, com o objetivo de identificar os fatores relevantes para a realocação do fator trabalho entre três setores da economia (agricultura, indústria e serviços) e as consequências desse processo sobre a produtividade agregada. Foram utilizados dados de valor adicionado e número de trabalhadores para 10 setores desagregados da economia. Os resultados mostram que o baixo crescimento produtivo do setor de serviços, juntamente com uma maior parcela da população alocada nesse setor, contribuiu para a diminuição do crescimento da produtividade agregada brasileira, relativamente a outros países. Além disto, conclui-se que o Brasil pode aumentar sua produtividade no curto prazo realocando o trabalho para setores mais produtivos. Por fim, o crescimento da produtividade do trabalho nos setores parece explicar razoavelmente bem o processo de transformação estrutural no Brasil. Palavras-chave: Transformação estrutural, produtividade, crescimento. 7 Abstract OLIVEIRA, Sara Brolhato de. Structural Transformation and Productivity in Brazil. São Paulo, 2012. 35p. Monograph – Faculdade de Economia e Administração. Insper Instituto de Ensino e Pesquisa. This work focuses on the dynamics of the structural transformation process occurred in Brazil from 1950 to 2005, and its main goal is to identify the relevant factors determining the reallocation of labor between three sectors of the economy (agriculture, industry and services), along with the consequences observed over aggregate productivity. Data regarding value added and number of workers for 10 subsectors were obtained for the analysis. Results show that the low productivity growth of services, along with a larger share of the population working in this sector, contributed to the diminishing Brazilian aggregate productivity growth. Also, there is evidence that Brazil can improve aggregate productivity in the short run by reallocating labor to more productive sectors. Last, sectoral labor productivity growth seems to reasonably explain the process of structural transformation in Brazil. Keywords: Structural transformation, productivity, growth. 8 Sumário 1 Introdução. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .11 2 Revisão da Literatura. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .14 3 Metodologia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .19 4 Dados. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21 5 Análise Descritiva . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 24 6 Conclusão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 32 Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 34 9 Lista de tabelas Tabela 1 – Médias Históricas das Variáveis Utilizadas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .27 Tabela 2 – Crescimento Histórico do Produto, Produtividade e Emprego . . . . . . . . . . . .30 Tabela 3 – Crescimento Médio do Valor Adicionado, Produtividade e Emprego nos Setores Brasileiros . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .30 10 Lista de Figuras Figura 1 – Evolução da Proporção Setorial do Trabalho no Brasil. . . . . . . . . . . . . . . . . .25 Figura 2 – Evolução da Proporção Setorial do Trabalho nos Estados Unidos . . . . . . . . .25 Figura 3 – Evolução da Produtividade Setorial no Brasil. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27 Figura 4 – Evolução da Produtividade Setorial nos Estados Unidos . . . . . . . . . . . . . . . . 28 Figura 5 – Decomposição da Produtividade Brasileira. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31 11 1 Introdução A produtividade agregada é um conceito de crescente debate e estudo, uma vez que se tem percebido sua importante influência sobre a produção e o crescimento da renda de um país. Se o Brasil estivesse, desde 1960, crescendo à mesma taxa do resto do mundo1, sua renda per capita seria quase 25% maior do que a atual2. Como a produtividade agregada é composta pelas produtividades setoriais ponderadas pelas respectivas participações desses setores na economia, o processo de transformação estrutural pelo qual os países passam durante seu desenvolvimento é fator crucial para a determinação da produtividade agregada. Parte do processo de transformação estrutural é explicada como uma transferência de fatores de produção de setores mais produtivos para setores menos produtivos. Na maioria dos países subdesenvolvidos, a transformação estrutural ocorre de maneira a transferir fatores de produção do setor agrícola para o setor de indústria, e, posteriormente, realocá-los na direção do setor de serviços. Como a produtividade no setor de serviços desses países é geralmente baixa, essa realocação fará com que o país incorra em uma menor produtividade agregada3. No caso brasileiro, embora o nível produtivo se apresente ainda superior ao de alguns dos principais países em desenvolvimento, como China e Índia, a taxa de crescimento da produtividade brasileira comparativamente a esses países tem se mostrado bastante inferior. Enquanto os níveis produtivos das economias chinesa e indiana apresentaram crescimento anual de, respectivamente, 8% e 5% entre 1993 e 2010, a produtividade brasileira cresceu apenas 1,2% ao ano entre 1991 e 2010. O baixo desempenho da produtividade tem contribuído em grande parte para explicar o motivo pelo qual o Brasil não apresenta uma trajetória de convergência em direção aos países desenvolvidos4. Baixos níveis de produtividade (tanto setorial como agregada) podem ser prejudiciais de várias maneiras. Um exemplo é de como a competitividade internacional de produtos brasileiros são afetados. O custo unitário do trabalho no Brasil cresce mais do que o aumento produtivo dos fatores, o que implica em um encarecimento na produção e, consequentemente, na perda de competitividade internacional. Esse fenômeno pode ocorrer, por exemplo, devido a fatores como elevada carga tributária, alto custo de energia, logística ineficiente, baixa taxa 1 Desconsiderando a América Latina e o Caribe. Pagés (2010). 3 Duarte e Restuccia (2009). 4 Ambrozio e Sousa (2012). 2 12 de inovação nas empresas ou deficiência na formação de mão de obra, que são características de baixa produtividade na produção5. Uma vertente da literatura sobre transformação estrutural tem exclusivamente como objetivo relatar a maneira pela qual esse fenômeno ocorre, ou seja, quais variáveis são determinantes para o deslocamento dos fatores de produção entre os setores. Dos dois principais argumentos, um é apresentado, por exemplo, por Ngai e Pissarides (2004), e sustenta que o nível e o crescimento da produtividade setorial são os principais fatores que incentivam o deslocamento de trabalhadores entre as diferentes atividades econômicas. O outro, iniciado com o trabalho de Clark (1940), defende que à medida que a renda nacional aumenta, há diferentes pressões de demanda para os bens de cada setor. Dessa forma, o setor que produzisse bens com uma elasticidade renda maior tenderia a crescer mais, atraindo fatores de produção, mesmo apresentando baixa produtividade. Esse estudo tem como objetivo investigar como a produtividade setorial e a transformação estrutural contribuem para a formação da produtividade agregada no Brasil e, portanto, para seu crescimento. Para isso, será feita uma análise sobre o comportamento das produtividades de três setores (agricultura, indústria e serviços) ao longo das últimas décadas, juntamente com a participação de cada um desses setores na economia. O estudo pretende identificar onde se encontram as principais causas da baixa produtividade brasileira, e propor planos de ação que contribuam para a elevação do nível de produtividade agregada. Também serão examinadas as possíveis consequências da baixa produtividade brasileira sobre o crescimento da economia. Ao longo da última década, o valor adicionado setorial brasileiro tem crescido praticamente às mesmas taxas que o emprego nesses mesmos setores. Esse fato evidencia que o crescimento do produto brasileiro se dá via aumento do emprego, e não da produtividade6. Busca-se verificar a ocorrência desse processo, que pode impedir o crescimento brasileiro a taxas sustentáveis no longo prazo, a menos que haja um aumento produtivo significante. Adicionalmente, é desejado verificar a validade das explicações presentes na literatura sobre a dinâmica do processo de transformação estrutural, ou seja, as variáveis relevantes para o deslocamento do fator trabalho no Brasil. O diagnóstico de possíveis motivos para o baixo crescimento brasileiro é imprescindível para a identificação de espaços para aperfeiçoamento, adoção de medidas corretivas e de estímulos que possam acelerar o crescimento do país. Dessa forma, seria 5 6 Bonelli (2012). Ambrozio e Sousa (2012). 13 possível a implementação de políticas com a finalidade de aumentar a produtividade agregada brasileira, contribuindo assim para a elevação do produto interno bruto e da renda per capita. Os resultados principais apontam que a baixa produtividade do trabalho no setor de serviços contribuiu para a desaceleração da convergência brasileira em direção a economias desenvolvidas, principalmente a partir da década de 80. Uma maneira para contornar esse baixo crescimento seria aumentar a eficiência alocativa do trabalho, ou seja, realocar a mão de obra para setores mais produtivos. Mesmo assim, o crescimento contínuo no longo prazo só será possível se a produtividade brasileira crescer a taxas consideráveis comparativamente aos outros países. Este artigo está divido em seis seções, incluindo esta introdução. A segunda seção apresenta uma revisão da literatura existente sobre a dinâmica do processo de transformação estrutural nas economias. A terceira seção define as variáveis construídas para análise e o método de decomposição da produtividade utilizado. A quarta seção oferece uma explicação mais detalhada da fonte dos dados, apresentando também vantagens e desvantagens da base de dados usada. Na quinta seção estão contidos os resultados obtidos através da análise, e a sexta seção compacta as principais conclusões. 14 2 Revisão da Literatura Duas explicações para o processo de transformação estrutural na literatura empírica são recorrentemente discutidas. A primeira delas apresenta uma abordagem “tecnológica”, e atribui a ocorrência desse processo às diferentes taxas de crescimento produtivo entre os setores. De acordo com essa explicação, as economias se moveriam de setores com baixo valor adicionado por pessoa (produtividade) para aqueles com um nível maior de valor adicionado por pessoa. Essa dinâmica ocorreria pois um setor altamente produtivo tenderia a apresentar salários mais altos, refletindo o valor adicionado gerado por cada trabalhador, e atrairia, portanto, maior parcela da mão de obra qualificada. Um dos trabalhos que apresentam evidências favoráveis a essa vertente explicativa é o de Kravis et al. (1983). Entretanto, só são considerados nesse estudo os setores de indústria e serviços. Ngai e Pissarides (2004), na tentativa de explicar o processo de transformação estrutural em economias multissetoriais e com diferentes níveis produtivos entre os setores, elaboraram um modelo que permitisse a coexistência entre transformação estrutural (sendo o diferencial produtivo entre os setores o principal fator levando a esse processo) e uma trajetória de crescimento constante (constant aggregate growth path). Supondo que as economias apresentem alguns dos fatos estilizados de Kaldor7 e considerando os setores usuais de agricultura, indústria e serviços, o modelo foi capaz de prever consideravelmente bem a participação de cada setor no produto dos Estados Unidos, para o período observado. Quanto às mudanças de longo prazo da participação dos setores na economia, o modelo implica que se o preço relativo dos serviços em termos de bens produzidos pela indústria está aumentando, ao mesmo tempo em que o preço relativo dos bens produzidos pelo setor agrícola está diminuindo, a ordenação das taxas de crescimento da produtividade será tal que , sendo as taxas de crescimento da produtividade dos setores de agricultura, indústria e serviços, respectivamente. Sendo assim, o crescimento da produtividade do setor agrícola estará sempre acima do crescimento produtivo médio ponderado da economia, e o crescimento produtivo dos serviços estará sempre abaixo. A previsão do modelo8, então, é de que a participação do emprego no setor produtor de bens agrícolas deve diminuir indefinidamente, enquanto a parcela da mão de obra alocada no setor terciário deve aumentar. O comportamento inicial da participação do fator trabalho no setor 7 Razão capital-produto e taxa de retorno do capital constantes. Esse resultado é alcançado dadas restrições na forma funcional da função utilidade dos indivíduos, e considerando que os bens produzidos pelos diferentes setores sejam fracamente substitutos. 8 15 da indústria dependerá do crescimento da produtividade desse setor. Se esse for inferior ao crescimento médio ponderado da economia, haverá um aumento da participação de mão de obra na indústria, caso contrário, haverá diminuição. De qualquer forma, espera-se que eventualmente a participação da indústria diminua, uma vez que o crescimento produtivo médio tenderá a diminuir, dada a maior participação do setor com produtividade baixa, o de serviços. Como as previsões foram satisfatórias, concluiu-se que o fator tecnológico é realmente importante na realocação de mão de obra entre os setores. Entretanto, o modelo previu uma queda mais lenta do que a observada para a participação da força de trabalho na agricultura. Os autores apontam que apenas o crescimento produtivo talvez não seja suficiente para explicar o declínio da agricultura. Talvez fosse necessária alguma outra característica, como, por exemplo, o fato de a elasticidade renda dos produtos agrícolas ser menor do que um. A segunda explicação é baseada nas preferências dos indivíduos, e engloba o último ponto citado por Ngai e Pissarides (2004). Diferenças nas elasticidades-renda dos bens produzidos pelos setores da economia seriam capazes de levar à transformação estrutural, mesmo em uma situação onde o crescimento produtivo fosse igual entre os setores. De acordo com essa hipótese, à medida que a renda aumenta, uma proporção maior dessa quantia seria gasta com o consumo de bens cujo valor absoluto da elasticidade-renda é maior do que um, provocando um aumento da participação do setor produtor desses bens na economia, e uma redução da participação dos demais. Clark (1940) argumenta que a participação do setor de serviços na economia teria um comportamento pró-cíclico, uma vez que haveria uma maior demanda por bens produzidos pelo setor terciário à medida que a renda aumenta, dada a elasticidade renda por serviços maior que um. Essa explicação, contudo, não seria capaz de explicar aumentos da participação dos serviços na economia em períodos de crise, ou seja, quando a renda diminui, o setor de serviços deve necessariamente diminuir. De acordo com Fuchs (1968), a explicação de que a transformação estrutural ocorra via preferências dos indivíduos é capaz de justificar a forte expansão do setor de serviços na economia mundial ao longo do último século. Primeiramente, a elasticidade-renda da demanda por serviços seria maior do que um, implicando que aumentos de salário ao longo dos anos sejam gastos, na maior parte, com bens provenientes do setor de serviços. Além disso, o aumento da demanda por serviços seria uma escolha eficiente à medida que a renda aumenta, dado que o custo de oportunidade de outras atividades que não o trabalho se eleva com um crescimento do salário, e a terceirização de serviços se torna uma escolha racional. 16 Ainda, o crescimento da produtividade tenderia a ser menor nesse setor, o que implicaria na necessidade de uma maior quantidade do fator trabalho para suprir a demanda crescente por serviços9. Na tentativa de determinar as implicações do processo de transformação estrutural no crescimento das Economias, Baumol10 contribuiu com dois estudos significativos na literatura de crescimento econômico e apresentou uma análise das possíveis consequências de um aumento da participação do setor de serviços sobre o crescimento dos países. Ele dividiu a economia em dois setores, um denominado “progressivo”, o qual usa capital e tecnologia como insumos, e um chamado de “estagnado”, que utiliza apenas trabalho para a produção de serviços. Baumol identificou que, devido à mobilidade dos fatores, os custos de produção e os preços dos serviços do setor estagnado tenderiam a aumentar indefinidamente. Com o passar do tempo, se a demanda por serviços for elástica com relação à renda ou inelástica em relação ao preço, o setor estagnado irá atrair uma maior porção da força de trabalho para satisfazer a demanda por seus produtos. Se esse processo ocorrer, a taxa de crescimento da economia será declinante, uma vez que a maior parte da força de trabalho migra para esse setor. Ngai e Pissarides (2004) evidenciam o comportamento durante o processo de transformação estrutural apontado por Baumol, embora discordem que uma economia na situação ilustrada esteja condenada a crescer a taxas declinantes. Nesse caso, a taxa de crescimento do setor progressivo da economia seria de suma importância para a determinação da taxa de crescimento da economia. Fuchs (1968) critica a abordagem da elasticidade renda, pois enxerga categorias distintas de bens sendo produzidos no setor de serviços, dependendo de sua finalidade. A demanda por serviços consumidos pelas famílias (serviços pessoais) realmente sofreria efeito a partir de um aumento na renda, o que não ocorreria necessariamente com serviços suprindo a demanda intermediária da economia. Outlon (1999) argumenta que os estudos de Baumol restringiam a categoria de serviços observada, dando ênfase aos bens consumidos pelas famílias, e apresentando, portanto, uma conclusão viesada. Com o propósito de investigar o diferencial produtivo entre países pobres e ricos, Duarte e Restuccia (2009) consideraram também a divisão da economia em três setores: agricultura, indústria e serviços. A partir dessa divisão, os autores concluíram que diferenciais de produtividade entre países pobres e ricos são mais evidentes nos setores de agricultura e serviços. Sendo assim, um maior crescimento na produtividade desses dois setores seria 9 Jorgenson e Gollop (1992). Baumol (1967) e Baumol et al. (1985). 10 17 crucial para uma diminuição na distância entre as produtividades agregadas de países considerados pobres e ricos. Uma possível explicação apontada por esses autores para a menor produtividade no setor de serviços seria a de que, como esse setor está menos sujeito à competição internacional, haveria uma menor competitividade e, portanto, menor incentivo à inovação. Sobre as características recorrentes do processo de transformação estrutural, vários estudos clássicos como Clark (1940), Kuznets (1957), Chenery (1960) e Maddison (1980) expõem que a migração de fatores ocorre primeiramente do setor agrícola para os setores de indústria e serviços, e, posteriormente, à medida que o crescimento econômico continua, ocorra a migração de fatores dos setores agrícola e industriais para o de serviços. Entretanto, como indica Pagés (2010), se a produtividade dos setores que recebem os fatores de produção não aumentar, a produtividade agregada irá diminuir, como simples consequência de uma maior participação econômica de um setor não produtivo. Esse seria o processo ocorrido na América Latina nas últimas décadas, conforme o processo de industrialização moveu fatores do setor de agricultura para o de serviços, diminuindo a produtividade agregada da região. Sobre esse fenômeno, Pilat (2007) indica que os países pobres podem diminuir os diferenciais de produtividade agregada estimulando a produtividade dos setores mais defasados comparativamente aos países ricos. Vários autores chamam atenção para o setor de serviços, que apresenta recorrentemente o menor nível produtivo dentre os setores. Essa ideia surgiu com os fisiocratas, que viam o setor terciário como sendo pouco dinâmico e intensivo em mão de obra. Por isso, o progresso técnico via incorporação de máquinas e equipamentos não é possível, ou pelo menos não se mostra tão simples como nos outros setores. De acordo com Duarte e Restuccia (2009), uma possível explicação para a menor produtividade dos serviços seria a de que, como esse fator está menos sujeito à competição internacional, haveria menor competitividade, e, portanto, menor incentivo à inovação. Entre os estudos que dão grande importância ao setor de agricultura como fator explanatório dos diferenciais de produtividade, temos Restuccia, Yang e Zhu (2004), que apontam a baixa produtividade e alta participação desse setor na economia como sendo responsáveis pela posição econômica dos países pobres. Nesses países, haveria a presença de barreiras que impediriam a inovação e modernização dos insumos na agricultura. Já Gollin, Parente e Rogerson (2002) apontam que, para que um país passe pelo processo de industrialização, o que acarretaria em um aumento da renda per capita nacional, é importante que a sua produtividade no setor agrícola seja elevada, o que impulsionaria esse processo. 18 Mesmo assim, os autores relembram que, no longo-prazo, será a produtividade dos outros setores da economia que determinarão a posição de um país comparativamente a países desenvolvidos. Ainda sobre o processo de desenvolvimento dos países menos desenvolvidos e diminuição do diferencial de produtividades, Abramovitz (1986) acredita que, quanto maior for o hiato tecnológico e, portanto, produtivo entre dois países, maior será o potencial do crescimento da produtividade do país menos desenvolvido (seguidor), em relação ao país mais desenvolvido (líder). Conforme o nível de produtividade desses países se aproxima, menor será a velocidade de convergência produtiva do país seguidor. O autor também inicia uma análise institucional da produtividade, citando a existência de uma interação entre a oportunidade tecnológica a que um país tem acesso e sua “capacidade social”, que mediria de certa forma a capacidade de absorção e utilização das tecnologias disponíveis. Essa medida dependeria não apenas de fatores como nível de educação ou investimento em capital humano, mas também do desempenho institucional em estimular atividades econômicas eficientes, promover incentivos à inovação, garantir a concorrência, difundir a informação e conhecimento disponível, entre outros. Aprofundando a abordagem institucional da produtividade agregada, Baily e Solow (2001) concluem que, da mesma maneira que algumas instituições são capazes de retardar o crescimento produtivo, há instituições que podem estimulá-lo. Dessa maneira, seria possível a imposição de regulações que contribuiriam para o avanço produtivo, como, por exemplo, restrição de comportamentos anticompetitivos ou obrigatoriedade de divulgação de certas informações pelas empresas aos consumidores potenciais. Hall e Jones (1996) também apontam para o importante detalhe de que as instituições que afetam a produtividade não dependem apenas de medidas reguladoras do Governo. Também é determinante o sistema de moral e ética suportado pelas instituições não governamentais. 19 3 Metodologia Para a realização do estudo, será feita, primeiramente, uma análise descritiva de algumas variáveis selecionadas. Busca-se, nesse momento, identificar relações entre essas variáveis para o Brasil e acompanhar o comportamento da economia brasileira nas últimas décadas, relacionando seu movimento com os estudos da literatura nas áreas de transformação estrutural e crescimento produtivo. Utilizou-se prioritariamente a base de dados presente em Timmer e Gaaitzen (2009), que apresenta informações de valor adicionado e número de trabalhadores para 10 setores desagregados da economia brasileira, para os anos de 1950 a 2005. A partir desses dados, foi feita a agregação para três setores, agricultura11, indústria12 e serviços13, os quais serão utilizados em todo estudo. Para a construção das variáveis, foi feita a suposição de que apenas esses setores compõem a economia. Sendo assim, o produto interno bruto foi calculado como sendo a soma dos valores adicionados dos diferentes setores da economia, e o número de trabalhadores da economia como a soma dos trabalhadores que atuam nesses três setores agregados. Foram construídas também as variáveis de proporção setorial no produto14, proporção setorial do trabalho15, produtividade setorial16 e produtividade agregada17. Na posterior análise dos efeitos da transformação estrutural sobre o mercado de trabalho, será feito o uso da Pesquisa Nacional por Amostra de Município (PNAD) e Pesquisa Industrial Anual (PIA), através das quais serão obtidos dados de salário, escolaridade, e custo de trabalho para o Brasil. Também será realizada uma decomposição dos ganhos de produtividade agregada brasileiros, com o objetivo de investigar quais seriam as razões do aumento produtivo do país durante o período analisado18. Essa tarefa será feita da seguinte forma: (1) 11 Inclui os setores de agricultura, atividades florestais e pesca. Inclui os setores de mineração, manufatura, construção e infraestrutura para serviços públicos. 13 Inclui os setores de serviços relacionados a atacado, varejo, hotéis, restaurantes, transporte, estocagem, comunicação, finanças, seguros, serviços imobiliários, sociais, pessoais e governamentais. 14 Calculada como o valor adicionado setorial dividido pelo produto interno bruto. 15 Calculada como o número de trabalhadores de cada setor dividido pelo número total de trabalhadores na economia. 16 Calculada como o valor adicionado setorial ponderado pelo número de trabalhadores operando nesse setor. 17 Calculada como a soma das produtividades setoriais da economia, ponderadas pela proporção setorial do trabalho de cada setor. 18 De maneira análoga ao exposto em Ambrozio e Sousa (2012). 12 20 A produtividade agregada da economia é representada por . Consequentemente, representa a mudança de produtividade registrada entre dois anos. A variável indica a proporção setorial do trabalho, ou seja, a participação de cada setor na economia levando em conta o número de trabalhadores. As produtividades setoriais são representadas por , e os subescritos e indicam, respectivamente, os setores e os diferentes anos para os quais a decomposição é feita. O primeiro termo da composição, denominado efeito tecnológico, capta o quanto do aumento da produtividade agregada deveu-se a aumentos de produtividade dentro dos setores da economia. Já o segundo termo, representando o efeito composição, tem o objetivo de medir o quanto da variação produtiva foi consequência da migração do fator trabalho para outros setores com maior produtividade. 21 4 Dados A base de dados utilizada para análise nesse estudo foi elaborada por Timmer e Gaaitzen (2009), e apresenta séries históricas do valor adicionado19 e número de trabalhadores20 de diversos países, em 10 setores da economia. Os setores considerados foram divididos tomando como base a classificação da International Standard Industrial Classification21 (ISIC) abrangendo o período de 1950 a 2005. O objetivo primordial dos autores se baseou na construção de dados que apresentassem consistência e permitissem a comparação dos níveis de produtividade entre os países. As séries para os Estados Unidos do período pós 1970 derivam da publicação do EU KLEMS (Março de 2008). Para o período anterior a 1970, as taxas de crescimento apresentadas por van Ark (1996) foram aplicadas nos níveis obtidos a partir do EU KLEMS, uma vez que não é possível comparar os valores adicionados das duas fontes, devido a diferenças de classificação dos setores e ajustes feitos às séries ao longo dos anos. No caso da América Latina, as estatísticas de longo prazo de valor adicionado setorial e nível de emprego publicadas são incompletas. Não há nenhuma organização internacional que publique essas informações de modo que seja possível a comparação entre os países, as séries existentes são curtas e apresentam quebras devido a mudanças no ano base, sem nenhum procedimento corretivo. A base de dados apresentada por Timmer e Gaaitzen (2009) seria, portanto, uma tentativa de transpor esses problemas e permitir a comparação internacional de produtividades. Para que seja possível comparar as produtividades de longo prazo, é necessário que os dados apresentem três tipos de consistência. A consistência intertemporal de cada série garante que os dados sejam comparáveis ao longo do tempo, significando que não há mudanças na classificação das atividades, nos métodos da obtenção dos dados e no ano base para o cálculo das estatísticas. A consistência interna das séries em relação ao valor adicionado e ao emprego implica que a mesma classificação industrial na decomposição dos setores foi usada para as duas variáveis, fazendo com que a produtividade setorial seja refletida de maneira correta. Por último, a consistência internacional requer que sejam usadas as mesmas classificações para os setores e mesmas definições das variáveis utilizadas (valor adicionado e emprego). 19 Em milhões de unidades monetárias. Em milhares. 21 Apenas descreve a atividade exercida por cada setor, desconsiderando outras possíveis classificações, tais como a estrutura de posse ou modo de organização legal das instituições envolvidas. 20 22 A obtenção dos dados de valor adicionado (em preços correntes e constantes) para os países da América Latina foi feita pelos autores através das contas nacionais. Como a maioria dos países usa como base as definições apresentadas pelo Sistema de Contas Nacionais das Nações Unidas (UN System of National Accounts), esses dados apresentam alto nível de comparabilidade entre os países. Entretanto, é importante notar que os dados estão sujeitos a mudanças na metodologia dos institutos nacionais responsáveis pela coleta dos dados e construção das estatísticas, como, por exemplo, inclusão de novas atividades no cálculo do produto, mudanças na classificação setorial de atividades ou mudança no ano base para cálculo das taxas de crescimento das variáveis. Para a série de valor adicionado a preços constantes do Brasil, os autores utilizaram como base o ano 2000 (ano mais recente disponível), e obtiveram os dados através da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe das Nações Unidas (UN ECLAC 22). Para a extrapolação dos dados no período de 1950 a 1990, utilizaram as taxas de crescimento expostas em Mulder (1998). Para os anos a partir de 1991, foram usadas as taxas disponibilizadas pelas contas nacionais, contabilizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A série de valor adicionado a preços correntes não pôde ser extrapolada para o período anterior a 1990, devido à hiperinflação. Todavia, essa série não será utilizada no presente estudo. Quanto ao número de trabalhadores, usou-se a definição de que o nível de emprego consiste no total de pessoas empregadas, incluindo todos os trabalhadores assalariados, profissionais autônomos e trabalhadores familiares. O nível de emprego referente aos anos de 1950 a 1989 foram extrapolados a partir das taxas de crescimento expostas em Mulder (1996). Já para o período posterior, os autores coletaram o número de trabalhadores por meio das contas nacionais (1990 a 2003) e pelo censo (2004 e 2005), ambos divulgados pelo IBGE. Como as contas nacionais não detalham suficientemente o setor de serviços, usou-se a Pesquisa Anual de Comércio para o setor de Varejo, a Pesquisa Anual de Serviços para o setor de Transportes e Comunicação, e o censo para os demais setores. A desvantagem da base de dados utilizada é que ela está suscetível à maneira como os diversos países formulam e calculam as variáveis de interesse, além de mudanças nesses métodos ao longo do tempo, podendo fazer com que os dados observados sejam inconsistentes temporalmente e internacionalmente. Um exemplo citado pelos autores é de que o Brasil tenderia a subestimar a participação do setor informal no produto, fazendo apenas 22 United Nations Economic Commission for Latin America and the Caribbean. 23 leves ajustes positivos no valor adicionado calculado nos setores formais. Enquanto isso, países como o México tenderiam a superestimar a participação do setor informal, possivelmente por ser uma atividade mais produtiva do que o setor formal. Essas diferenças não podem ser controladas, e os valores utilizados foram os efetivamente divulgados pelos países. A recente adoção de padrões internacionais pelos países tem o objetivo de minimizar essas divergências. Mesmo que haja problemas, os autores argumentam que a comparabilidade dos dados de produtividade entre os países é consistente, por evitar ou reduzir as falhas das bases de dados previamente disponíveis, que evidentemente apresentavam diversas quebras e não calculava as estatísticas de interesse dos países da mesma maneira. Esses dados teriam, pois, uma clara vantagem em relação aos outros disponíveis e seu uso seria desejável em uma situação onde se pretende analisar a produtividade de múltiplos países. 24 4 Análise Descritiva O foco desta seção será o de descrever o processo de transformação estrutural do Brasil, comparando-o com o processo ocorrido nos Estados Unidos e com estudos prévios envolvendo outros países. A partir disso, será feita uma análise do desenvolvimento da produtividade setorial do Brasil e da dinâmica do trabalho entre os setores, permitindo um melhor entendimento do papel da realocação desse fator na produtividade agregada da economia. Os processos de transformação estrutural das economias brasileira e americana no período de 1950 a 2005 podem ser analisados por meio do comportamento da proporção setorial do trabalho em cada um dos setores agregados utilizados (agricultura, indústria e serviços), isto é, da razão dos trabalhadores alocados em cada setor pelo número total de trabalhadores na economia. O comportamento dessa variável para os três setores utilizados pode ser visto na Figura 1 para o Brasil e Figura 2 para os Estados Unidos. Para ambos os países, o processo foi similar ao que geralmente é relatado pela literatura, ou seja, houve um marcante aumento da proporção do fator trabalho alocado para o setor de serviços e simultânea diminuição da utilização desse fator na agricultura. As duas economias diferem apenas na magnitude dos deslocamentos entre dois setores citados, e do comportamento da proporção setorial do trabalho no setor industrial. O Brasil, por em 1950 ainda se mostrar como uma economia majoritariamente agrária, apresentou uma redução muito brusca da proporção de mão de obra empregada no setor primário, acompanhada por um igualmente rápido aumento na proporção do trabalho no setor de serviços nas últimas cinco décadas. Atualmente, mais de 60% dos trabalhadores brasileiros estão envolvidos com a produção de serviços, e apenas cerca de 20% permanecem na agricultura. Os Estados Unidos já possuíam maior parte de sua força de trabalho envolvida com os serviços, e ao longo das décadas apenas reforçou a migração de trabalhadores para o setor terciário, apresentando em 2005 mais de 80% da força de trabalho envolvida com serviços, e menos de 10% no setor agrícola. O comportamento da indústria difere entre os dois países, uma vez que a proporção de trabalho na indústria brasileira aumenta alguns pontos percentuais até a década de 70, mas apresenta tendência decrescente a partir desse ponto. A diminuição da importância da indústria na economia indica a maturidade da industrialização no país, uma vez que a produtividade desse setor pode ser reforçada com capital físico, fazendo com que trabalhadores possam se mover para outros setores, nesse caso o de serviços. 25 Figura 1 - Evolução da Proporção Setorial do Trabalho no Brasil 0,70 0,60 0,50 0,40 0,30 0,20 0,10 1950 1952 1954 1956 1958 1960 1962 1964 1966 1968 1970 1972 1974 1976 1978 1980 1982 1984 1986 1988 1990 1992 1994 1996 1998 2000 2002 2004 0,00 Agricultura Indústria Serviços Fonte: Elaboração Própria Figura 2 - Evolução da Proporção Setorial do Trabalho nos Estados Unidos 0,90 0,80 0,70 0,60 0,50 0,40 0,30 0,20 0,10 1950 1952 1954 1956 1958 1960 1962 1964 1966 1968 1970 1972 1974 1976 1978 1980 1982 1984 1986 1988 1990 1992 1994 1996 1998 2000 2002 2004 0,00 Agricultura Indústria Serviços Fonte: Elaboração Própria Com o objetivo de entender o motivo desse deslocamento do fator trabalho, primeiramente será observado o comportamento da produtividade setorial da economia, ou seja, o valor adicionado por trabalhador de cada setor. Para tanto, pode-se observar as Figuras 3 e 4, que mostram o comportamento dessa variável ao longo dos anos utilizados no estudo para o Brasil e os Estados Unidos, respectivamente. Nota-se, mais uma vez, um comportamento em comum. A ordenação dos níveis produtivos em ambos os países eram 26 iguais em 1950, com o setor de serviços apresentando a maior produtividade, e o setor de agricultura, a menor, e em 2005 a indústria possuía maior valor agregado por trabalhador tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, pode-se observar a Tabela 1, que apresenta os valores médios de todas as variáveis construídas explicitadas na seção de Metodologia. Nota-se que o setor de serviços obteve a menor taxa média de crescimento de produtividade setorial no período. Conclui-se, dessa forma, que o processo de transformação estrutural responsável por aumentar a proporção de trabalhadores no setor de serviços não se mostra condizente com a explicação apresentada na literatura que afirma que o fator trabalho migrará para os setores mais produtivos, em busca de maiores salários. Um fato curioso é que a ordenação do crescimento médio da produtividade setorial no Brasil e nos Estados Unidos está de acordo com o modelo apresentado em Ngai e Pissarides (2004), isto é, o setor que apresenta maior crescimento é o da indústria, seguido pela agricultura e, por último, o setor de serviços. De acordo com o modelo elaborado pelos autores, os trabalhadores tenderiam a abandonar o setor com crescimento produtivo maior do que a média da economia, passando para os setores com menor crescimento. No limite, o emprego dos três setores tenderia a ser alocado entre os setores de manufatura e serviços. Para testar a possibilidade de atuação da elasticidade renda na forte expansão do setor de serviços brasileiro, observou-se a correlação entre a taxa de crescimento do produto por trabalhador, representando os salários, e a taxa de crescimento da proporção dos trabalhadores atuando no setor de serviços, medindo o deslocamento de mão de obra. Essa ideia baseia-se na análise de Oliveira (2011), que desenvolve a ideia de acompanhar o crescimento conjunto entre a renda e a participação dos serviços na economia. Ao invés de simplesmente analisar o nível de ambas variáveis, acredita-se que as taxas de crescimento trarão uma melhor noção de causalidade, uma vez que essas duas variáveis apresentam aumento no período observado, e poderiam apresentar correlação alta mesmo sem haver uma interação entre as duas. Contudo, o índice de correlação linear entre as taxas de crescimento do PIB per capita e da proporção de trabalhadores atuando no setor terciário é de apenas 0,10, significando que pode não haver uma relação direta da renda sobre a demanda por serviços. 27 Tabela 1 - Médias Históricas das Variáveis Utilizadas Valores Médios das Variáveis PIB Crescimento do PIB Trabalhadores Crescimento da Força de Trabalho Nível Produtivo Crescimento Da Produtividade Produtividade da Agricultura Crescimento Produtivo da Agricultura Produtividade da Indústria Crescimento Produtivo da Indústria Produtividade dos Serviços Crescimento Produtivo dos Serviços Proporção da Agricultura no PIB Proporção da Indústria no PIB Proporção dos Serviços no PIB Proporção do Trabalho na Agricultura Proporção do Trabalho na Indústria Proporção do Trabalho nos Serviços Brasil EUA 562979,84 4870638,54 5,12% 3,22% 41437,74 103673,84 2,70% 1,63% 12,03 44,59 2,38% 1,56% 3,19 25,96 3,34% 3,98% 21,21 47,96 2,33% 2,33% 16,19 45,07 0,59% 1,13% 9,81% 1,66% 36,56% 26,94% 53,62% 71,40% 39,69% 3,58% 20,46% 26,27% 39,85% 70,15% Fonte: Elaboração Própria Figura 3 - Evolução da Produtividade Setorial no Brasil 35,00 30,00 25,00 20,00 15,00 10,00 5,00 1950 1952 1954 1956 1958 1960 1962 1964 1966 1968 1970 1972 1974 1976 1978 1980 1982 1984 1986 1988 1990 1992 1994 1996 1998 2000 2002 2004 0,00 Agricultura Fonte: Elaboração Própria Indústria Serviços 28 Figura 4 - Evolução da Produtividade Setorial nos Estados Unidos 1950 1952 1954 1956 1958 1960 1962 1964 1966 1968 1970 1972 1974 1976 1978 1980 1982 1984 1986 1988 1990 1992 1994 1996 1998 2000 2002 2004 100,00 90,00 80,00 70,00 60,00 50,00 40,00 30,00 20,00 10,00 0,00 Agricultura Indústria Serviços Fonte: Elaboração Própria Um fato importante de se notar é que, a partir da década de 80, a maior parte (ou o total) do crescimento do Produto Interno Bruto brasileiro se deveu ao aumento do número total de trabalhadores no país. Durante esse período, o crescimento da produtividade brasileira foi, em média, nulo. Vale lembrar que isso não significa que o valor adicionado total brasileiro tenha se mantido constante, apenas que o aumento no produto tenha sido proporcional ao aumento de trabalhadores. A Tabela 2 resume o crescimento da força de trabalho, do valor adicionado e da produtividade do Brasil e dos Estados Unidos em períodos de dez anos, exceto pelos cinco anos finais dos dados. Para uma análise mais aprofundada, a Tabela 3 apresenta as taxas de crescimento das variáveis citadas para os setores desagregados da economia. Como consequência, nas últimas décadas houve uma diminuição do processo de convergência do Brasil em relação aos Estados Unidos. Em 1950, um trabalhador brasileiro era capaz de produzir apenas 16% da produção de um trabalhador americano. A diferença produtiva entre os dois países foi minimizada em 1980, após uma tendência de convergência, quando a produtividade brasileira alcançou 40% da americana. Todavia, o Brasil piorou recorrentemente seu desempenho desde então, apresentando produtividade relativamente aos Estados Unidos de 24% em 2005. O crescimento brasileiro sem uma melhora produtiva é um fato preocupante, pois o aumento do valor adicionado baseado apenas em mais trabalhadores provavelmente não será 29 sustentável no longo prazo. Mesmo que o nível atual do valor adicionado por trabalhador seja alto, é indispensável que ele cresça ao longo dos anos, para que o Brasil não se distancie dos países desenvolvidos e emergentes, que apesar de apresentarem níveis de produtividade inferiores ao brasileiro, têm obtido crescimento produtivo surpreendente. Além disso, uma maior produtividade leva a maiores salários e, portanto, a uma maior renda per capita. A causa do baixo crescimento produtivo brasileiro é incerta. Uma das explicações existentes para o baixo crescimento da produtividade brasileira sugere que o fraco desempenho brasileiro não seja devido a uma baixa eficiência técnica, mas sim a uma ineficiência na alocação de trabalho entre os setores. Já foi visto em seções anteriores que existem duas maneiras de obter ganhos de produtividade: a primeira é chamada de efeito tecnológico, e consiste em aumentar a produtividade de algum dos setores da economia, resultando num aumento da produtividade agregada. A segunda maneira é chamada de efeito composição, e representa o ganho produtivo obtido através da realocação dos fatores de produção, sem modificações no nível de produtividade dos setores. Nesse caso, quando a mão de obra se desloca para um setor de maior produtividade, a produtividade agregada, que é definida como uma simples ponderação entre as produtividades dos setores e os trabalhadores em cada um deles, aumenta. O crescimento da produtividade do trabalho brasileira foi decomposto nos dois efeitos explicitados acima conforme apresentado na seção de Metodologia, e os resultados encontram-se na Figura 5. Uma característica facilmente observável é que o efeito composição se mostra sempre menor do que o efeito tecnológico. Esse fato corrobora com o argumento diversas vezes defendido de que há possibilidade de ganhos produtivos para o Brasil através da realocação do trabalho para algum setor mais produtivo, no caso a indústria. A concentração de mão de obra em um setor pouco produtivo (produtor de serviços) contribui para o baixo desempenho brasileiro. De acordo com Ambrozio e Souza (2012), até a década de 70 a maior parte dos ganhos de produtividade brasileiros eram obtidos a partir do efeito composição, através da migração da população agrária para as cidades, concentrando o trabalho no setor de indústria e serviços. Após 1980, os ganhos tornaram-se provenientes do efeito tecnológico, principalmente, indicando que a fraca presença do efeito composição pode ter contribuído para a desaceleração da produtividade brasileira. Complementando esse argumento, Rodrik e McMillan (2011) apontam que o motivo da diferença entre países latino-americanos e asiáticos se encontra na capacidade de ganho produtivo via efeito composição, pois todos apresentam o efeito tecnológico de maneira similar. 30 Mesmo dada a importância do efeito composição no curto prazo, é preciso levar em conta que no longo prazo é indispensável o aumento da tecnologia e da eficiência dos setores. Mas Ambrozio e Souza (2012) ressaltam que um ponto importante e difícil dessa prática está na criação de vantagem comparativa em setores de alto valor agregado, que proporcionam um maior aumento na renda nacional. Os autores também citam que uma boa alternativa seria a redução do diferencial produtivo entre os setores. Tabela 2 - Crescimento Histórico do Produto, Produtividade e Emprego Brasil Cresc. PIB Cresc. Produtividade Cresc. Trabalhadores Eua Cresc. PIB Cresc. Produtividade Cresc. Trabalhadores 1951/1960 7,30% 4,43% 2,75% 1961/1970 1971/1980 1981/1990 1991/2000 2001/2005 7,07% 9,37% 1,46% 1,80% 2,28% 4,42% 5,35% -1,82% 0,73% -0,07% 2,54% 3,95% 3,37% 1,09% 2,37% 3,85% 2,38% 1,41% 3,70% 1,60% 2,07% 2,74% 0,72% 2,01% 3,04% 1,17% 1,84% 3,17% 1,61% 1,54% 2,43% 2,19% 0,22% Fonte: Elaboração Própria Tabela 3 - Crescimento Médio do Valor Adicionado, Produtividade e Emprego nos Setores Brasileiros Valor Adicionado Emprego Produtividade Agropecuária 3,71% 0,55% 3,34% Indústria Extrativa Manufatura Serviços Industriais de Utilidade Pública Construção Civil 5,29% 7,87% 5,20% 5,56% 5,12% 3,02% 2,63% 2,91% 1,88% 3,86% 2,33% 6,00% 2,39% 5,22% 1,59% Serviços Comércio, Hotelaria e Restaurantes Transporte, Estocagem e Comunicação Seguros, Serviços Financeiros e Imobiliários Serviços Sociais, Pessoais e Governamentais 5,43% 4,39% 6,26% 5,72% 5,68% 4,88% 4,89% 3,69% 5,30% 5,23% 0,59% -0,31% 3,15% 0,43% 0,56% Crescimento Médio de 1950 a 2005 Fonte: Elaboração Própria 31 Figura 5 - Decomposição da Produtividade Brasileira 2000/2005 1990/2000 1980/1990 1970/1980 1960/1970 1950/1960 -6 -4 -2 Variação da Produtividade Fonte: Elaboração Própria 0 2 Efeito Tecnológico 4 6 Efeito Composição 8 32 5 Conclusão A partir da análise realizada nesse estudo, pode-se concluir que de fato o processo de transformação estrutural no Brasil tem ocorrido como o previsto pela literatura empírica, isto é, tem havido uma forte tendência do aumento da importância do setor de serviços na economia, ao mesmo tempo em que a agricultura perde importância na parcela de trabalhadores. Vale ressaltar que essa mesma tendência é observada no resto do mundo. Apesar da crescente participação dos serviços na economia, o aumento da produtividade desse setor é baixo, apresentando menor crescimento produtivo do que a agricultura e a indústria. Isso implica que o crescimento do valor adicionado pelos serviços provém basicamente do maior número de trabalhadores alocados nesse setor. Esse pode ser o fator que tem afetado o crescimento da produtividade brasileira a partir de 1980, fazendo com que o Brasil se distanciasse da produtividade dos trabalhadores de países mais desenvolvidos, como exemplificado para os Estados Unidos. Além disso, é possível perceber que o Brasil possui um grande potencial de ganho produtivo a partir da realocação de trabalhadores para setores mais produtivos. Todavia, essa seria uma medida de aumento da eficiência na economia no curto prazo. Para que o país continue apresentando ganhos e consiga crescer tanto em produto quanto em renda, são necessárias medidas que aumentem a produtividade da economia, preferencialmente diminuindo a distância produtiva entre os setores. Os dados observados para o Brasil no período de 1950 a 2005 contrariam as hipóteses defendidas pela literatura de que a mão de obra tenderia a se deslocar para os setores mais produtivos da economia, ou então que haveria uma maior pressão por bens do setor de serviços à medida que a renda nacional aumenta. Mesmo assim, pode ser que esses efeitos estejam presentes simultaneamente, com efeitos de oferta e demanda interagindo de forma a realocar o trabalho entre os setores23. O modelo que mais se adequou ao caso Brasileiro foi o elaborado por Ngai e Pissarides (2004), que prevê, no limite, a uma alocação do trabalho entre os setores industrial e terciário. Para pesquisas futuras, seria interessante formular um modelo econométrico com o objetivo de obter mais detalhadamente a contribuição das variáveis estudadas na dinâmica da transformação estrutural brasileira. Também seria interessante utilizar modelos existentes na literatura, e calibrá-los para os dados brasileiros, para a verificação do poder explicativos dos 23 Peneder (2003) 33 mesmos. Esses próximos passos teriam como objetivo um maior aprofundamento no assunto, visto que um ponto fraco desse estudo é basear-se apenas em análises descritivas, e, de certo modo, incertas. 34 Referências ABRAMOVITZ, M. Catching Up, Forging Ahead, and Falling Behind. The Journal of Economic History, v. 46, n. 2, p. 385-406, 1986. AMBROZIO, A.; SOUSA, F. Decompondo a Produtividade Brasileira entre 1995 e 2008. Visão do Desenvolvimento, n. 101, 2012. Disponível em: < http://www.bndes.gov.br/SiteBNDES/export/sites/default/bndes_pt/Galerias/Arquivos/conhec imento/visao/Visao_101.pdf>. 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