0
Insper Instituto de Ensino e Pesquisa
Faculdade de Economia e Administração
Sara Brolhato de Oliveira
TRANSFORMAÇÃO ESTRUTURAL E PRODUTIVIDADE NO
BRASIL
São Paulo
2012
1
Sara Brolhato de Oliveira
Transformação Estrutural e Produtividade no Brasil
Monografia apresentada ao curso de Ciências
Econômicas, como requisito parcial para
obtenção do grau de Bacharel do Insper Instituto
de Ensino e Pesquisa.
Orientador:
Prof. Dr. Naercio Aquino Menezes Filho – Insper
São Paulo
2012
2
Oliveira, Sara Brolhato de
Transformação Estrutural e Produtividade no Brasil / Sara
Brolhato de Oliveira. – São Paulo: Insper, 2012.
35 f.
Monografia: Faculdade de Economia e Administração. Insper
Instituto de Ensino e Pesquisa.
Orientador: Prof. Dr. Naercio Aquino Menezes Filho
1.Transformação Estrutural 2. Produtividade 3. Crescimento
3
Sara Brolhato de Oliveira
Transformação Estrutural e Produtividade no Brasil
Monografia apresentada à Faculdade de
Economia do Insper, como parte dos requisitos
para conclusão do curso de graduação em
Economia.
Aprovado em Dezembro 2012
EXAMINADORES
___________________________________________________________________________
Prof. Dr. Naercio Aquino Menezes Filho
Orientador
___________________________________________________________________________
Prof. Dr. Eduardo de Carvalho Andrade
Examinador
___________________________________________________________________________
Prof. Dr. Eduardo Correia de Souza
Examinador
4
Agradecimentos
Primeiramente, ao meu orientador Naercio Menezes, sem o qual esse trabalho não
teria sido possível. Obrigada pelo apoio, sugestões e ajuda durante todo o ano.
Também agradeço minha família e amigos, que tanto me apoiaram nesses quatro anos
de graduação e estiveram presentes em todos os momentos, tanto nos felizes quanto nos mais
difíceis.
5
Dedicatória
Dedico este trabalho a meu pai, que nunca conteve esforços para que eu tivesse a
melhor educação possível, e com quem aprendi que, com esforço, é possível alcançar
qualquer objetivo que se queira.
6
Resumo
OLIVEIRA, Sara Brolhato de. Transformação Estrutural e Produtividade no Brasil. São
Paulo, 2012. 35p. Monografia – Faculdade de Economia e Administração. Insper Instituto de
Ensino e Pesquisa.
Este artigo analisa a dinâmica do processo de transformação estrutural brasileiro entre 1950 e
2005, com o objetivo de identificar os fatores relevantes para a realocação do fator trabalho
entre três setores da economia (agricultura, indústria e serviços) e as consequências desse
processo sobre a produtividade agregada. Foram utilizados dados de valor adicionado e
número de trabalhadores para 10 setores desagregados da economia. Os resultados mostram
que o baixo crescimento produtivo do setor de serviços, juntamente com uma maior parcela
da população alocada nesse setor, contribuiu para a diminuição do crescimento da
produtividade agregada brasileira, relativamente a outros países. Além disto, conclui-se que o
Brasil pode aumentar sua produtividade no curto prazo realocando o trabalho para setores
mais produtivos. Por fim, o crescimento da produtividade do trabalho nos setores parece
explicar razoavelmente bem o processo de transformação estrutural no Brasil.
Palavras-chave: Transformação estrutural, produtividade, crescimento.
7
Abstract
OLIVEIRA, Sara Brolhato de. Structural Transformation and Productivity in Brazil. São
Paulo, 2012. 35p. Monograph – Faculdade de Economia e Administração. Insper Instituto de
Ensino e Pesquisa.
This work focuses on the dynamics of the structural transformation process occurred in Brazil
from 1950 to 2005, and its main goal is to identify the relevant factors determining the
reallocation of labor between three sectors of the economy (agriculture, industry and
services), along with the consequences observed over aggregate productivity. Data regarding
value added and number of workers for 10 subsectors were obtained for the analysis. Results
show that the low productivity growth of services, along with a larger share of the population
working in this sector, contributed to the diminishing Brazilian aggregate productivity growth.
Also, there is evidence that Brazil can improve aggregate productivity in the short run by
reallocating labor to more productive sectors. Last, sectoral labor productivity growth seems
to reasonably explain the process of structural transformation in Brazil.
Keywords: Structural transformation, productivity, growth.
8
Sumário
1 Introdução. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .11
2 Revisão da Literatura. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .14
3 Metodologia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .19
4 Dados. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21
5 Análise Descritiva . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 24
6 Conclusão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 32
Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 34
9
Lista de tabelas
Tabela 1 – Médias Históricas das Variáveis Utilizadas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .27
Tabela 2 – Crescimento Histórico do Produto, Produtividade e Emprego . . . . . . . . . . . .30
Tabela 3 – Crescimento Médio do Valor Adicionado, Produtividade e Emprego nos Setores
Brasileiros . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .30
10
Lista de Figuras
Figura 1 – Evolução da Proporção Setorial do Trabalho no Brasil. . . . . . . . . . . . . . . . . .25
Figura 2 – Evolução da Proporção Setorial do Trabalho nos Estados Unidos . . . . . . . . .25
Figura 3 – Evolução da Produtividade Setorial no Brasil. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27
Figura 4 – Evolução da Produtividade Setorial nos Estados Unidos . . . . . . . . . . . . . . . . 28
Figura 5 – Decomposição da Produtividade Brasileira. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31
11
1 Introdução
A produtividade agregada é um conceito de crescente debate e estudo, uma vez que se
tem percebido sua importante influência sobre a produção e o crescimento da renda de um
país. Se o Brasil estivesse, desde 1960, crescendo à mesma taxa do resto do mundo1, sua
renda per capita seria quase 25% maior do que a atual2.
Como a produtividade agregada é composta pelas produtividades setoriais ponderadas
pelas respectivas participações desses setores na economia, o processo de transformação
estrutural pelo qual os países passam durante seu desenvolvimento é fator crucial para a
determinação da produtividade agregada.
Parte do processo de transformação estrutural é explicada como uma transferência de
fatores de produção de setores mais produtivos para setores menos produtivos. Na maioria dos
países subdesenvolvidos, a transformação estrutural ocorre de maneira a transferir fatores de
produção do setor agrícola para o setor de indústria, e, posteriormente, realocá-los na direção
do setor de serviços. Como a produtividade no setor de serviços desses países é geralmente
baixa, essa realocação fará com que o país incorra em uma menor produtividade agregada3.
No caso brasileiro, embora o nível produtivo se apresente ainda superior ao de alguns
dos principais países em desenvolvimento, como China e Índia, a taxa de crescimento da
produtividade brasileira comparativamente a esses países tem se mostrado bastante inferior.
Enquanto os níveis produtivos das economias chinesa e indiana apresentaram crescimento
anual de, respectivamente, 8% e 5% entre 1993 e 2010, a produtividade brasileira cresceu
apenas 1,2% ao ano entre 1991 e 2010. O baixo desempenho da produtividade tem
contribuído em grande parte para explicar o motivo pelo qual o Brasil não apresenta uma
trajetória de convergência em direção aos países desenvolvidos4.
Baixos níveis de produtividade (tanto setorial como agregada) podem ser prejudiciais
de várias maneiras. Um exemplo é de como a competitividade internacional de produtos
brasileiros são afetados. O custo unitário do trabalho no Brasil cresce mais do que o aumento
produtivo dos fatores, o que implica em um encarecimento na produção e, consequentemente,
na perda de competitividade internacional. Esse fenômeno pode ocorrer, por exemplo, devido
a fatores como elevada carga tributária, alto custo de energia, logística ineficiente, baixa taxa
1
Desconsiderando a América Latina e o Caribe.
Pagés (2010).
3
Duarte e Restuccia (2009).
4
Ambrozio e Sousa (2012).
2
12
de inovação nas empresas ou deficiência na formação de mão de obra, que são características
de baixa produtividade na produção5.
Uma vertente da literatura sobre transformação estrutural tem exclusivamente como
objetivo relatar a maneira pela qual esse fenômeno ocorre, ou seja, quais variáveis são
determinantes para o deslocamento dos fatores de produção entre os setores. Dos dois
principais argumentos, um é apresentado, por exemplo, por Ngai e Pissarides (2004), e
sustenta que o nível e o crescimento da produtividade setorial são os principais fatores que
incentivam o deslocamento de trabalhadores entre as diferentes atividades econômicas. O
outro, iniciado com o trabalho de Clark (1940), defende que à medida que a renda nacional
aumenta, há diferentes pressões de demanda para os bens de cada setor. Dessa forma, o setor
que produzisse bens com uma elasticidade renda maior tenderia a crescer mais, atraindo
fatores de produção, mesmo apresentando baixa produtividade.
Esse estudo tem como objetivo investigar como a produtividade setorial e a
transformação estrutural contribuem para a formação da produtividade agregada no Brasil e,
portanto, para seu crescimento. Para isso, será feita uma análise sobre o comportamento das
produtividades de três setores (agricultura, indústria e serviços) ao longo das últimas décadas,
juntamente com a participação de cada um desses setores na economia. O estudo pretende
identificar onde se encontram as principais causas da baixa produtividade brasileira, e propor
planos de ação que contribuam para a elevação do nível de produtividade agregada.
Também serão examinadas as possíveis consequências da baixa produtividade
brasileira sobre o crescimento da economia. Ao longo da última década, o valor adicionado
setorial brasileiro tem crescido praticamente às mesmas taxas que o emprego nesses mesmos
setores. Esse fato evidencia que o crescimento do produto brasileiro se dá via aumento do
emprego, e não da produtividade6. Busca-se verificar a ocorrência desse processo, que pode
impedir o crescimento brasileiro a taxas sustentáveis no longo prazo, a menos que haja um
aumento produtivo significante.
Adicionalmente, é desejado verificar a validade das explicações presentes na literatura
sobre a dinâmica do processo de transformação estrutural, ou seja, as variáveis relevantes para
o deslocamento do fator trabalho no Brasil.
O diagnóstico de possíveis motivos para o baixo crescimento brasileiro é
imprescindível para a identificação de espaços para aperfeiçoamento, adoção de medidas
corretivas e de estímulos que possam acelerar o crescimento do país. Dessa forma, seria
5
6
Bonelli (2012).
Ambrozio e Sousa (2012).
13
possível a implementação de políticas com a finalidade de aumentar a produtividade agregada
brasileira, contribuindo assim para a elevação do produto interno bruto e da renda per capita.
Os resultados principais apontam que a baixa produtividade do trabalho no setor de
serviços contribuiu para a desaceleração da convergência brasileira em direção a economias
desenvolvidas, principalmente a partir da década de 80. Uma maneira para contornar esse
baixo crescimento seria aumentar a eficiência alocativa do trabalho, ou seja, realocar a mão de
obra para setores mais produtivos. Mesmo assim, o crescimento contínuo no longo prazo só
será possível se a produtividade brasileira crescer a taxas consideráveis comparativamente aos
outros países.
Este artigo está divido em seis seções, incluindo esta introdução. A segunda seção
apresenta uma revisão da literatura existente sobre a dinâmica do processo de transformação
estrutural nas economias. A terceira seção define as variáveis construídas para análise e o
método de decomposição da produtividade utilizado. A quarta seção oferece uma explicação
mais detalhada da fonte dos dados, apresentando também vantagens e desvantagens da base
de dados usada. Na quinta seção estão contidos os resultados obtidos através da análise, e a
sexta seção compacta as principais conclusões.
14
2 Revisão da Literatura
Duas explicações para o processo de transformação estrutural na literatura empírica
são recorrentemente discutidas. A primeira delas apresenta uma abordagem “tecnológica”, e
atribui a ocorrência desse processo às diferentes taxas de crescimento produtivo entre os
setores. De acordo com essa explicação, as economias se moveriam de setores com baixo
valor adicionado por pessoa (produtividade) para aqueles com um nível maior de valor
adicionado por pessoa. Essa dinâmica ocorreria pois um setor altamente produtivo tenderia a
apresentar salários mais altos, refletindo o valor adicionado gerado por cada trabalhador, e
atrairia, portanto, maior parcela da mão de obra qualificada.
Um dos trabalhos que apresentam evidências favoráveis a essa vertente explicativa é o
de Kravis et al. (1983). Entretanto, só são considerados nesse estudo os setores de indústria e
serviços.
Ngai e Pissarides (2004), na tentativa de explicar o processo de transformação
estrutural em economias multissetoriais e com diferentes níveis produtivos entre os setores,
elaboraram um modelo que permitisse a coexistência entre transformação estrutural (sendo o
diferencial produtivo entre os setores o principal fator levando a esse processo) e uma
trajetória de crescimento constante (constant aggregate growth path). Supondo que as
economias apresentem alguns dos fatos estilizados de Kaldor7 e considerando os setores
usuais de agricultura, indústria e serviços, o modelo foi capaz de prever consideravelmente
bem a participação de cada setor no produto dos Estados Unidos, para o período observado.
Quanto às mudanças de longo prazo da participação dos setores na economia, o
modelo implica que se o preço relativo dos serviços em termos de bens produzidos pela
indústria está aumentando, ao mesmo tempo em que o preço relativo dos bens produzidos
pelo setor agrícola está diminuindo, a ordenação das taxas de crescimento da produtividade
será tal que
, sendo
as taxas de crescimento da produtividade dos
setores de agricultura, indústria e serviços, respectivamente. Sendo assim, o crescimento da
produtividade do setor agrícola estará sempre acima do crescimento produtivo médio
ponderado da economia, e o crescimento produtivo dos serviços estará sempre abaixo. A
previsão do modelo8, então, é de que a participação do emprego no setor produtor de bens
agrícolas deve diminuir indefinidamente, enquanto a parcela da mão de obra alocada no setor
terciário deve aumentar. O comportamento inicial da participação do fator trabalho no setor
7
Razão capital-produto e taxa de retorno do capital constantes.
Esse resultado é alcançado dadas restrições na forma funcional da função utilidade dos indivíduos, e
considerando que os bens produzidos pelos diferentes setores sejam fracamente substitutos.
8
15
da indústria dependerá do crescimento da produtividade desse setor. Se esse for inferior ao
crescimento médio ponderado da economia, haverá um aumento da participação de mão de
obra na indústria, caso contrário, haverá diminuição. De qualquer forma, espera-se que
eventualmente a participação da indústria diminua, uma vez que o crescimento produtivo
médio tenderá a diminuir, dada a maior participação do setor com produtividade baixa, o de
serviços. Como as previsões foram satisfatórias, concluiu-se que o fator tecnológico é
realmente importante na realocação de mão de obra entre os setores. Entretanto, o modelo
previu uma queda mais lenta do que a observada para a participação da força de trabalho na
agricultura. Os autores apontam que apenas o crescimento produtivo talvez não seja suficiente
para explicar o declínio da agricultura. Talvez fosse necessária alguma outra característica,
como, por exemplo, o fato de a elasticidade renda dos produtos agrícolas ser menor do que
um.
A segunda explicação é baseada nas preferências dos indivíduos, e engloba o último
ponto citado por Ngai e Pissarides (2004). Diferenças nas elasticidades-renda dos bens
produzidos pelos setores da economia seriam capazes de levar à transformação estrutural,
mesmo em uma situação onde o crescimento produtivo fosse igual entre os setores. De acordo
com essa hipótese, à medida que a renda aumenta, uma proporção maior dessa quantia seria
gasta com o consumo de bens cujo valor absoluto da elasticidade-renda é maior do que um,
provocando um aumento da participação do setor produtor desses bens na economia, e uma
redução da participação dos demais.
Clark (1940) argumenta que a participação do setor de serviços na economia teria um
comportamento pró-cíclico, uma vez que haveria uma maior demanda por bens produzidos
pelo setor terciário à medida que a renda aumenta, dada a elasticidade renda por serviços
maior que um. Essa explicação, contudo, não seria capaz de explicar aumentos da
participação dos serviços na economia em períodos de crise, ou seja, quando a renda diminui,
o setor de serviços deve necessariamente diminuir.
De acordo com Fuchs (1968), a explicação de que a transformação estrutural ocorra
via preferências dos indivíduos é capaz de justificar a forte expansão do setor de serviços na
economia mundial ao longo do último século. Primeiramente, a elasticidade-renda da
demanda por serviços seria maior do que um, implicando que aumentos de salário ao longo
dos anos sejam gastos, na maior parte, com bens provenientes do setor de serviços. Além
disso, o aumento da demanda por serviços seria uma escolha eficiente à medida que a renda
aumenta, dado que o custo de oportunidade de outras atividades que não o trabalho se eleva
com um crescimento do salário, e a terceirização de serviços se torna uma escolha racional.
16
Ainda, o crescimento da produtividade tenderia a ser menor nesse setor, o que implicaria na
necessidade de uma maior quantidade do fator trabalho para suprir a demanda crescente por
serviços9.
Na tentativa de determinar as implicações do processo de transformação estrutural no
crescimento das Economias, Baumol10 contribuiu com dois estudos significativos na literatura
de crescimento econômico e apresentou uma análise das possíveis consequências de um
aumento da participação do setor de serviços sobre o crescimento dos países. Ele dividiu a
economia em dois setores, um denominado “progressivo”, o qual usa capital e tecnologia
como insumos, e um chamado de “estagnado”, que utiliza apenas trabalho para a produção de
serviços. Baumol identificou que, devido à mobilidade dos fatores, os custos de produção e os
preços dos serviços do setor estagnado tenderiam a aumentar indefinidamente. Com o passar
do tempo, se a demanda por serviços for elástica com relação à renda ou inelástica em relação
ao preço, o setor estagnado irá atrair uma maior porção da força de trabalho para satisfazer a
demanda por seus produtos. Se esse processo ocorrer, a taxa de crescimento da economia será
declinante, uma vez que a maior parte da força de trabalho migra para esse setor.
Ngai e Pissarides (2004) evidenciam o comportamento durante o processo de
transformação estrutural apontado por Baumol, embora discordem que uma economia na
situação ilustrada esteja condenada a crescer a taxas declinantes. Nesse caso, a taxa de
crescimento do setor progressivo da economia seria de suma importância para a determinação
da taxa de crescimento da economia.
Fuchs (1968) critica a abordagem da elasticidade renda, pois enxerga categorias
distintas de bens sendo produzidos no setor de serviços, dependendo de sua finalidade. A
demanda por serviços consumidos pelas famílias (serviços pessoais) realmente sofreria efeito
a partir de um aumento na renda, o que não ocorreria necessariamente com serviços suprindo
a demanda intermediária da economia. Outlon (1999) argumenta que os estudos de Baumol
restringiam a categoria de serviços observada, dando ênfase aos bens consumidos pelas
famílias, e apresentando, portanto, uma conclusão viesada.
Com o propósito de investigar o diferencial produtivo entre países pobres e ricos,
Duarte e Restuccia (2009) consideraram também a divisão da economia em três setores:
agricultura, indústria e serviços. A partir dessa divisão, os autores concluíram que diferenciais
de produtividade entre países pobres e ricos são mais evidentes nos setores de agricultura e
serviços. Sendo assim, um maior crescimento na produtividade desses dois setores seria
9
Jorgenson e Gollop (1992).
Baumol (1967) e Baumol et al. (1985).
10
17
crucial para uma diminuição na distância entre as produtividades agregadas de países
considerados pobres e ricos.
Uma possível explicação apontada por esses autores para a menor produtividade no
setor de serviços seria a de que, como esse setor está menos sujeito à competição
internacional, haveria uma menor competitividade e, portanto, menor incentivo à inovação.
Sobre as características recorrentes do processo de transformação estrutural, vários
estudos clássicos como Clark (1940), Kuznets (1957), Chenery (1960) e Maddison (1980)
expõem que a migração de fatores ocorre primeiramente do setor agrícola para os setores de
indústria e serviços, e, posteriormente, à medida que o crescimento econômico continua,
ocorra a migração de fatores dos setores agrícola e industriais para o de serviços.
Entretanto, como indica Pagés (2010), se a produtividade dos setores que recebem os
fatores de produção não aumentar, a produtividade agregada irá diminuir, como simples
consequência de uma maior participação econômica de um setor não produtivo. Esse seria o
processo ocorrido na América Latina nas últimas décadas, conforme o processo de
industrialização moveu fatores do setor de agricultura para o de serviços, diminuindo a
produtividade agregada da região. Sobre esse fenômeno, Pilat (2007) indica que os países
pobres podem diminuir os diferenciais de produtividade agregada estimulando a
produtividade dos setores mais defasados comparativamente aos países ricos.
Vários autores chamam atenção para o setor de serviços, que apresenta
recorrentemente o menor nível produtivo dentre os setores. Essa ideia surgiu com os
fisiocratas, que viam o setor terciário como sendo pouco dinâmico e intensivo em mão de
obra. Por isso, o progresso técnico via incorporação de máquinas e equipamentos não é
possível, ou pelo menos não se mostra tão simples como nos outros setores. De acordo com
Duarte e Restuccia (2009), uma possível explicação para a menor produtividade dos serviços
seria a de que, como esse fator está menos sujeito à competição internacional, haveria menor
competitividade, e, portanto, menor incentivo à inovação.
Entre os estudos que dão grande importância ao setor de agricultura como fator
explanatório dos diferenciais de produtividade, temos Restuccia, Yang e Zhu (2004), que
apontam a baixa produtividade e alta participação desse setor na economia como sendo
responsáveis pela posição econômica dos países pobres. Nesses países, haveria a presença de
barreiras que impediriam a inovação e modernização dos insumos na agricultura. Já Gollin,
Parente e Rogerson (2002) apontam que, para que um país passe pelo processo de
industrialização, o que acarretaria em um aumento da renda per capita nacional, é importante
que a sua produtividade no setor agrícola seja elevada, o que impulsionaria esse processo.
18
Mesmo assim, os autores relembram que, no longo-prazo, será a produtividade dos outros
setores da economia que determinarão a posição de um país comparativamente a países
desenvolvidos.
Ainda sobre o processo de desenvolvimento dos países menos desenvolvidos e
diminuição do diferencial de produtividades, Abramovitz (1986) acredita que, quanto maior
for o hiato tecnológico e, portanto, produtivo entre dois países, maior será o potencial do
crescimento da produtividade do país menos desenvolvido (seguidor), em relação ao país mais
desenvolvido (líder). Conforme o nível de produtividade desses países se aproxima, menor
será a velocidade de convergência produtiva do país seguidor.
O autor também inicia uma análise institucional da produtividade, citando a existência
de uma interação entre a oportunidade tecnológica a que um país tem acesso e sua
“capacidade social”, que mediria de certa forma a capacidade de absorção e utilização das
tecnologias disponíveis. Essa medida dependeria não apenas de fatores como nível de
educação ou investimento em capital humano, mas também do desempenho institucional em
estimular atividades econômicas eficientes, promover incentivos à inovação, garantir a
concorrência, difundir a informação e conhecimento disponível, entre outros.
Aprofundando a abordagem institucional da produtividade agregada, Baily e Solow
(2001) concluem que, da mesma maneira que algumas instituições são capazes de retardar o
crescimento produtivo, há instituições que podem estimulá-lo. Dessa maneira, seria possível a
imposição de regulações que contribuiriam para o avanço produtivo, como, por exemplo,
restrição de comportamentos anticompetitivos ou obrigatoriedade de divulgação de certas
informações pelas empresas aos consumidores potenciais.
Hall e Jones (1996) também apontam para o importante detalhe de que as instituições
que afetam a produtividade não dependem apenas de medidas reguladoras do Governo.
Também é determinante o sistema de moral e ética suportado pelas instituições não
governamentais.
19
3 Metodologia
Para a realização do estudo, será feita, primeiramente, uma análise descritiva de
algumas variáveis selecionadas. Busca-se, nesse momento, identificar relações entre essas
variáveis para o Brasil e acompanhar o comportamento da economia brasileira nas últimas
décadas, relacionando seu movimento com os estudos da literatura nas áreas de transformação
estrutural e crescimento produtivo.
Utilizou-se prioritariamente a base de dados presente em Timmer e Gaaitzen (2009),
que apresenta informações de valor adicionado e número de trabalhadores para 10 setores
desagregados da economia brasileira, para os anos de 1950 a 2005. A partir desses dados, foi
feita a agregação para três setores, agricultura11, indústria12 e serviços13, os quais serão
utilizados em todo estudo.
Para a construção das variáveis, foi feita a suposição de que apenas esses setores
compõem a economia. Sendo assim, o produto interno bruto foi calculado como sendo a soma
dos valores adicionados dos diferentes setores da economia, e o número de trabalhadores da
economia como a soma dos trabalhadores que atuam nesses três setores agregados. Foram
construídas também as variáveis de proporção setorial no produto14, proporção setorial do
trabalho15, produtividade setorial16 e produtividade agregada17.
Na posterior análise dos efeitos da transformação estrutural sobre o mercado de
trabalho, será feito o uso da Pesquisa Nacional por Amostra de Município (PNAD) e Pesquisa
Industrial Anual (PIA), através das quais serão obtidos dados de salário, escolaridade, e custo
de trabalho para o Brasil.
Também será realizada uma decomposição dos ganhos de produtividade agregada
brasileiros, com o objetivo de investigar quais seriam as razões do aumento produtivo do país
durante o período analisado18. Essa tarefa será feita da seguinte forma:
(1)
11
Inclui os setores de agricultura, atividades florestais e pesca.
Inclui os setores de mineração, manufatura, construção e infraestrutura para serviços públicos.
13
Inclui os setores de serviços relacionados a atacado, varejo, hotéis, restaurantes, transporte, estocagem,
comunicação, finanças, seguros, serviços imobiliários, sociais, pessoais e governamentais.
14
Calculada como o valor adicionado setorial dividido pelo produto interno bruto.
15
Calculada como o número de trabalhadores de cada setor dividido pelo número total de trabalhadores na
economia.
16
Calculada como o valor adicionado setorial ponderado pelo número de trabalhadores operando nesse setor.
17
Calculada como a soma das produtividades setoriais da economia, ponderadas pela proporção setorial do
trabalho de cada setor.
18
De maneira análoga ao exposto em Ambrozio e Sousa (2012).
12
20
A produtividade agregada da economia é representada por . Consequentemente,
representa a mudança de produtividade registrada entre dois anos. A variável
indica a
proporção setorial do trabalho, ou seja, a participação de cada setor na economia levando em
conta o número de trabalhadores. As produtividades setoriais são representadas por , e os
subescritos
e
indicam, respectivamente, os setores e os diferentes anos para os quais a
decomposição é feita.
O primeiro termo da composição, denominado efeito tecnológico, capta o quanto do
aumento da produtividade agregada deveu-se a aumentos de produtividade dentro dos setores
da economia. Já o segundo termo, representando o efeito composição, tem o objetivo de medir
o quanto da variação produtiva foi consequência da migração do fator trabalho para outros
setores com maior produtividade.
21
4 Dados
A base de dados utilizada para análise nesse estudo foi elaborada por Timmer e
Gaaitzen (2009), e apresenta séries históricas do valor adicionado19 e número de
trabalhadores20 de diversos países, em 10 setores da economia. Os setores considerados foram
divididos tomando como base a classificação da International Standard Industrial
Classification21 (ISIC) abrangendo o período de 1950 a 2005. O objetivo primordial dos
autores se baseou na construção de dados que apresentassem consistência e permitissem a
comparação dos níveis de produtividade entre os países.
As séries para os Estados Unidos do período pós 1970 derivam da publicação do EU
KLEMS (Março de 2008). Para o período anterior a 1970, as taxas de crescimento
apresentadas por van Ark (1996) foram aplicadas nos níveis obtidos a partir do EU KLEMS,
uma vez que não é possível comparar os valores adicionados das duas fontes, devido a
diferenças de classificação dos setores e ajustes feitos às séries ao longo dos anos.
No caso da América Latina, as estatísticas de longo prazo de valor adicionado setorial
e nível de emprego publicadas são incompletas. Não há nenhuma organização internacional
que publique essas informações de modo que seja possível a comparação entre os países, as
séries existentes são curtas e apresentam quebras devido a mudanças no ano base, sem
nenhum procedimento corretivo. A base de dados apresentada por Timmer e Gaaitzen (2009)
seria, portanto, uma tentativa de transpor esses problemas e permitir a comparação
internacional de produtividades.
Para que seja possível comparar as produtividades de longo prazo, é necessário que os
dados apresentem três tipos de consistência. A consistência intertemporal de cada série
garante que os dados sejam comparáveis ao longo do tempo, significando que não há
mudanças na classificação das atividades, nos métodos da obtenção dos dados e no ano base
para o cálculo das estatísticas. A consistência interna das séries em relação ao valor
adicionado e ao emprego implica que a mesma classificação industrial na decomposição dos
setores foi usada para as duas variáveis, fazendo com que a produtividade setorial seja
refletida de maneira correta. Por último, a consistência internacional requer que sejam usadas
as mesmas classificações para os setores e mesmas definições das variáveis utilizadas (valor
adicionado e emprego).
19
Em milhões de unidades monetárias.
Em milhares.
21
Apenas descreve a atividade exercida por cada setor, desconsiderando outras possíveis classificações, tais
como a estrutura de posse ou modo de organização legal das instituições envolvidas.
20
22
A obtenção dos dados de valor adicionado (em preços correntes e constantes) para os
países da América Latina foi feita pelos autores através das contas nacionais. Como a maioria
dos países usa como base as definições apresentadas pelo Sistema de Contas Nacionais das
Nações Unidas (UN System of National Accounts), esses dados apresentam alto nível de
comparabilidade entre os países. Entretanto, é importante notar que os dados estão sujeitos a
mudanças na metodologia dos institutos nacionais responsáveis pela coleta dos dados e
construção das estatísticas, como, por exemplo, inclusão de novas atividades no cálculo do
produto, mudanças na classificação setorial de atividades ou mudança no ano base para
cálculo das taxas de crescimento das variáveis.
Para a série de valor adicionado a preços constantes do Brasil, os autores utilizaram
como base o ano 2000 (ano mais recente disponível), e obtiveram os dados através da
Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe das Nações Unidas (UN ECLAC 22).
Para a extrapolação dos dados no período de 1950 a 1990, utilizaram as taxas de crescimento
expostas em Mulder (1998). Para os anos a partir de 1991, foram usadas as taxas
disponibilizadas pelas contas nacionais, contabilizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE). A série de valor adicionado a preços correntes não pôde ser extrapolada
para o período anterior a 1990, devido à hiperinflação. Todavia, essa série não será utilizada
no presente estudo.
Quanto ao número de trabalhadores, usou-se a definição de que o nível de emprego
consiste no total de pessoas empregadas, incluindo todos os trabalhadores assalariados,
profissionais autônomos e trabalhadores familiares. O nível de emprego referente aos anos de
1950 a 1989 foram extrapolados a partir das taxas de crescimento expostas em Mulder (1996).
Já para o período posterior, os autores coletaram o número de trabalhadores por meio das
contas nacionais (1990 a 2003) e pelo censo (2004 e 2005), ambos divulgados pelo IBGE.
Como as contas nacionais não detalham suficientemente o setor de serviços, usou-se a
Pesquisa Anual de Comércio para o setor de Varejo, a Pesquisa Anual de Serviços para o
setor de Transportes e Comunicação, e o censo para os demais setores.
A desvantagem da base de dados utilizada é que ela está suscetível à maneira como os
diversos países formulam e calculam as variáveis de interesse, além de mudanças nesses
métodos ao longo do tempo, podendo fazer com que os dados observados sejam
inconsistentes temporalmente e internacionalmente. Um exemplo citado pelos autores é de
que o Brasil tenderia a subestimar a participação do setor informal no produto, fazendo apenas
22
United Nations Economic Commission for Latin America and the Caribbean.
23
leves ajustes positivos no valor adicionado calculado nos setores formais. Enquanto isso,
países como o México tenderiam a superestimar a participação do setor informal,
possivelmente por ser uma atividade mais produtiva do que o setor formal. Essas diferenças
não podem ser controladas, e os valores utilizados foram os efetivamente divulgados pelos
países. A recente adoção de padrões internacionais pelos países tem o objetivo de minimizar
essas divergências.
Mesmo que haja problemas, os autores argumentam que a comparabilidade dos dados
de produtividade entre os países é consistente, por evitar ou reduzir as falhas das bases de
dados previamente disponíveis, que evidentemente apresentavam diversas quebras e não
calculava as estatísticas de interesse dos países da mesma maneira. Esses dados teriam, pois,
uma clara vantagem em relação aos outros disponíveis e seu uso seria desejável em uma
situação onde se pretende analisar a produtividade de múltiplos países.
24
4 Análise Descritiva
O foco desta seção será o de descrever o processo de transformação estrutural do
Brasil, comparando-o com o processo ocorrido nos Estados Unidos e com estudos prévios
envolvendo outros países. A partir disso, será feita uma análise do desenvolvimento da
produtividade setorial do Brasil e da dinâmica do trabalho entre os setores, permitindo um
melhor entendimento do papel da realocação desse fator na produtividade agregada da
economia.
Os processos de transformação estrutural das economias brasileira e americana no
período de 1950 a 2005 podem ser analisados por meio do comportamento da proporção
setorial do trabalho em cada um dos setores agregados utilizados (agricultura, indústria e
serviços), isto é, da razão dos trabalhadores alocados em cada setor pelo número total de
trabalhadores na economia. O comportamento dessa variável para os três setores utilizados
pode ser visto na Figura 1 para o Brasil e Figura 2 para os Estados Unidos. Para ambos os
países, o processo foi similar ao que geralmente é relatado pela literatura, ou seja, houve um
marcante aumento da proporção do fator trabalho alocado para o setor de serviços e
simultânea diminuição da utilização desse fator na agricultura. As duas economias diferem
apenas na magnitude dos deslocamentos entre dois setores citados, e do comportamento da
proporção setorial do trabalho no setor industrial.
O Brasil, por em 1950 ainda se mostrar como uma economia majoritariamente agrária,
apresentou uma redução muito brusca da proporção de mão de obra empregada no setor
primário, acompanhada por um igualmente rápido aumento na proporção do trabalho no setor
de serviços nas últimas cinco décadas. Atualmente, mais de 60% dos trabalhadores brasileiros
estão envolvidos com a produção de serviços, e apenas cerca de 20% permanecem na
agricultura. Os Estados Unidos já possuíam maior parte de sua força de trabalho envolvida
com os serviços, e ao longo das décadas apenas reforçou a migração de trabalhadores para o
setor terciário, apresentando em 2005 mais de 80% da força de trabalho envolvida com
serviços, e menos de 10% no setor agrícola. O comportamento da indústria difere entre os
dois países, uma vez que a proporção de trabalho na indústria brasileira aumenta alguns
pontos percentuais até a década de 70, mas apresenta tendência decrescente a partir desse
ponto. A diminuição da importância da indústria na economia indica a maturidade da
industrialização no país, uma vez que a produtividade desse setor pode ser reforçada com
capital físico, fazendo com que trabalhadores possam se mover para outros setores, nesse caso
o de serviços.
25
Figura 1 - Evolução da Proporção Setorial do Trabalho no Brasil
0,70
0,60
0,50
0,40
0,30
0,20
0,10
1950
1952
1954
1956
1958
1960
1962
1964
1966
1968
1970
1972
1974
1976
1978
1980
1982
1984
1986
1988
1990
1992
1994
1996
1998
2000
2002
2004
0,00
Agricultura
Indústria
Serviços
Fonte: Elaboração Própria
Figura 2 - Evolução da Proporção Setorial do Trabalho nos Estados Unidos
0,90
0,80
0,70
0,60
0,50
0,40
0,30
0,20
0,10
1950
1952
1954
1956
1958
1960
1962
1964
1966
1968
1970
1972
1974
1976
1978
1980
1982
1984
1986
1988
1990
1992
1994
1996
1998
2000
2002
2004
0,00
Agricultura
Indústria
Serviços
Fonte: Elaboração Própria
Com o objetivo de entender o motivo desse deslocamento do fator trabalho,
primeiramente será observado o comportamento da produtividade setorial da economia, ou
seja, o valor adicionado por trabalhador de cada setor. Para tanto, pode-se observar as Figuras
3 e 4, que mostram o comportamento dessa variável ao longo dos anos utilizados no estudo
para o Brasil e os Estados Unidos, respectivamente. Nota-se, mais uma vez, um
comportamento em comum. A ordenação dos níveis produtivos em ambos os países eram
26
iguais em 1950, com o setor de serviços apresentando a maior produtividade, e o setor de
agricultura, a menor, e em 2005 a indústria possuía maior valor agregado por trabalhador
tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos.
Ao mesmo tempo, pode-se observar a Tabela 1, que apresenta os valores médios de
todas as variáveis construídas explicitadas na seção de Metodologia. Nota-se que o setor de
serviços obteve a menor taxa média de crescimento de produtividade setorial no período.
Conclui-se, dessa forma, que o processo de transformação estrutural responsável por aumentar
a proporção de trabalhadores no setor de serviços não se mostra condizente com a explicação
apresentada na literatura que afirma que o fator trabalho migrará para os setores mais
produtivos, em busca de maiores salários.
Um fato curioso é que a ordenação do crescimento médio da produtividade setorial no
Brasil e nos Estados Unidos está de acordo com o modelo apresentado em Ngai e Pissarides
(2004), isto é, o setor que apresenta maior crescimento é o da indústria, seguido pela
agricultura e, por último, o setor de serviços. De acordo com o modelo elaborado pelos
autores, os trabalhadores tenderiam a abandonar o setor com crescimento produtivo maior do
que a média da economia, passando para os setores com menor crescimento. No limite, o
emprego dos três setores tenderia a ser alocado entre os setores de manufatura e serviços.
Para testar a possibilidade de atuação da elasticidade renda na forte expansão do setor
de serviços brasileiro, observou-se a correlação entre a taxa de crescimento do produto por
trabalhador, representando os salários, e a taxa de crescimento da proporção dos trabalhadores
atuando no setor de serviços, medindo o deslocamento de mão de obra. Essa ideia baseia-se
na análise de Oliveira (2011), que desenvolve a ideia de acompanhar o crescimento conjunto
entre a renda e a participação dos serviços na economia. Ao invés de simplesmente analisar o
nível de ambas variáveis, acredita-se que as taxas de crescimento trarão uma melhor noção de
causalidade, uma vez que essas duas variáveis apresentam aumento no período observado, e
poderiam apresentar correlação alta mesmo sem haver uma interação entre as duas. Contudo,
o índice de correlação linear entre as taxas de crescimento do PIB per capita e da proporção
de trabalhadores atuando no setor terciário é de apenas 0,10, significando que pode não haver
uma relação direta da renda sobre a demanda por serviços.
27
Tabela 1 - Médias Históricas das Variáveis Utilizadas
Valores Médios das Variáveis
PIB
Crescimento do PIB
Trabalhadores
Crescimento da Força de Trabalho
Nível Produtivo
Crescimento Da Produtividade
Produtividade da Agricultura
Crescimento Produtivo da Agricultura
Produtividade da Indústria
Crescimento Produtivo da Indústria
Produtividade dos Serviços
Crescimento Produtivo dos Serviços
Proporção da Agricultura no PIB
Proporção da Indústria no PIB
Proporção dos Serviços no PIB
Proporção do Trabalho na Agricultura
Proporção do Trabalho na Indústria
Proporção do Trabalho nos Serviços
Brasil
EUA
562979,84 4870638,54
5,12%
3,22%
41437,74 103673,84
2,70%
1,63%
12,03
44,59
2,38%
1,56%
3,19
25,96
3,34%
3,98%
21,21
47,96
2,33%
2,33%
16,19
45,07
0,59%
1,13%
9,81%
1,66%
36,56%
26,94%
53,62%
71,40%
39,69%
3,58%
20,46%
26,27%
39,85%
70,15%
Fonte: Elaboração Própria
Figura 3 - Evolução da Produtividade Setorial no Brasil
35,00
30,00
25,00
20,00
15,00
10,00
5,00
1950
1952
1954
1956
1958
1960
1962
1964
1966
1968
1970
1972
1974
1976
1978
1980
1982
1984
1986
1988
1990
1992
1994
1996
1998
2000
2002
2004
0,00
Agricultura
Fonte: Elaboração Própria
Indústria
Serviços
28
Figura 4 - Evolução da Produtividade Setorial nos Estados Unidos
1950
1952
1954
1956
1958
1960
1962
1964
1966
1968
1970
1972
1974
1976
1978
1980
1982
1984
1986
1988
1990
1992
1994
1996
1998
2000
2002
2004
100,00
90,00
80,00
70,00
60,00
50,00
40,00
30,00
20,00
10,00
0,00
Agricultura
Indústria
Serviços
Fonte: Elaboração Própria
Um fato importante de se notar é que, a partir da década de 80, a maior parte (ou o
total) do crescimento do Produto Interno Bruto brasileiro se deveu ao aumento do número
total de trabalhadores no país. Durante esse período, o crescimento da produtividade brasileira
foi, em média, nulo. Vale lembrar que isso não significa que o valor adicionado total
brasileiro tenha se mantido constante, apenas que o aumento no produto tenha sido
proporcional ao aumento de trabalhadores. A Tabela 2 resume o crescimento da força de
trabalho, do valor adicionado e da produtividade do Brasil e dos Estados Unidos em períodos
de dez anos, exceto pelos cinco anos finais dos dados. Para uma análise mais aprofundada, a
Tabela 3 apresenta as taxas de crescimento das variáveis citadas para os setores desagregados
da economia.
Como consequência, nas últimas décadas houve uma diminuição do processo de
convergência do Brasil em relação aos Estados Unidos. Em 1950, um trabalhador brasileiro
era capaz de produzir apenas 16% da produção de um trabalhador americano. A diferença
produtiva entre os dois países foi minimizada em 1980, após uma tendência de convergência,
quando a produtividade brasileira alcançou 40% da americana. Todavia, o Brasil piorou
recorrentemente seu desempenho desde então, apresentando produtividade relativamente aos
Estados Unidos de 24% em 2005.
O crescimento brasileiro sem uma melhora produtiva é um fato preocupante, pois o
aumento do valor adicionado baseado apenas em mais trabalhadores provavelmente não será
29
sustentável no longo prazo. Mesmo que o nível atual do valor adicionado por trabalhador seja
alto, é indispensável que ele cresça ao longo dos anos, para que o Brasil não se distancie dos
países desenvolvidos e emergentes, que apesar de apresentarem níveis de produtividade
inferiores ao brasileiro, têm obtido crescimento produtivo surpreendente. Além disso, uma
maior produtividade leva a maiores salários e, portanto, a uma maior renda per capita.
A causa do baixo crescimento produtivo brasileiro é incerta. Uma das explicações
existentes para o baixo crescimento da produtividade brasileira sugere que o fraco
desempenho brasileiro não seja devido a uma baixa eficiência técnica, mas sim a uma
ineficiência na alocação de trabalho entre os setores. Já foi visto em seções anteriores que
existem duas maneiras de obter ganhos de produtividade: a primeira é chamada de efeito
tecnológico, e consiste em aumentar a produtividade de algum dos setores da economia,
resultando num aumento da produtividade agregada. A segunda maneira é chamada de efeito
composição, e representa o ganho produtivo obtido através da realocação dos fatores de
produção, sem modificações no nível de produtividade dos setores. Nesse caso, quando a mão
de obra se desloca para um setor de maior produtividade, a produtividade agregada, que é
definida como uma simples ponderação entre as produtividades dos setores e os trabalhadores
em cada um deles, aumenta.
O crescimento da produtividade do trabalho brasileira foi decomposto nos dois efeitos
explicitados acima conforme apresentado na seção de Metodologia, e os resultados
encontram-se na Figura 5. Uma característica facilmente observável é que o efeito
composição se mostra sempre menor do que o efeito tecnológico. Esse fato corrobora com o
argumento diversas vezes defendido de que há possibilidade de ganhos produtivos para o
Brasil através da realocação do trabalho para algum setor mais produtivo, no caso a indústria.
A concentração de mão de obra em um setor pouco produtivo (produtor de serviços) contribui
para o baixo desempenho brasileiro.
De acordo com Ambrozio e Souza (2012), até a década de 70 a maior parte dos ganhos
de produtividade brasileiros eram obtidos a partir do efeito composição, através da migração
da população agrária para as cidades, concentrando o trabalho no setor de indústria e serviços.
Após 1980, os ganhos tornaram-se provenientes do efeito tecnológico, principalmente,
indicando que a fraca presença do efeito composição pode ter contribuído para a
desaceleração da produtividade brasileira. Complementando esse argumento, Rodrik e
McMillan (2011) apontam que o motivo da diferença entre países latino-americanos e
asiáticos se encontra na capacidade de ganho produtivo via efeito composição, pois todos
apresentam o efeito tecnológico de maneira similar.
30
Mesmo dada a importância do efeito composição no curto prazo, é preciso levar em
conta que no longo prazo é indispensável o aumento da tecnologia e da eficiência dos setores.
Mas Ambrozio e Souza (2012) ressaltam que um ponto importante e difícil dessa prática está
na criação de vantagem comparativa em setores de alto valor agregado, que proporcionam um
maior aumento na renda nacional. Os autores também citam que uma boa alternativa seria a
redução do diferencial produtivo entre os setores.
Tabela 2 - Crescimento Histórico do Produto, Produtividade e Emprego
Brasil
Cresc. PIB
Cresc. Produtividade
Cresc. Trabalhadores
Eua
Cresc. PIB
Cresc. Produtividade
Cresc. Trabalhadores
1951/1960
7,30%
4,43%
2,75%
1961/1970 1971/1980 1981/1990 1991/2000 2001/2005
7,07%
9,37%
1,46%
1,80%
2,28%
4,42%
5,35%
-1,82%
0,73%
-0,07%
2,54%
3,95%
3,37%
1,09%
2,37%
3,85%
2,38%
1,41%
3,70%
1,60%
2,07%
2,74%
0,72%
2,01%
3,04%
1,17%
1,84%
3,17%
1,61%
1,54%
2,43%
2,19%
0,22%
Fonte: Elaboração Própria
Tabela 3 - Crescimento Médio do Valor Adicionado, Produtividade e Emprego nos Setores
Brasileiros
Valor
Adicionado
Emprego
Produtividade
Agropecuária
3,71%
0,55%
3,34%
Indústria
Extrativa
Manufatura
Serviços Industriais de Utilidade Pública
Construção Civil
5,29%
7,87%
5,20%
5,56%
5,12%
3,02%
2,63%
2,91%
1,88%
3,86%
2,33%
6,00%
2,39%
5,22%
1,59%
Serviços
Comércio, Hotelaria e Restaurantes
Transporte, Estocagem e Comunicação
Seguros, Serviços Financeiros e Imobiliários
Serviços Sociais, Pessoais e Governamentais
5,43%
4,39%
6,26%
5,72%
5,68%
4,88%
4,89%
3,69%
5,30%
5,23%
0,59%
-0,31%
3,15%
0,43%
0,56%
Crescimento Médio de 1950 a 2005
Fonte: Elaboração Própria
31
Figura 5 - Decomposição da Produtividade Brasileira
2000/2005
1990/2000
1980/1990
1970/1980
1960/1970
1950/1960
-6
-4
-2
Variação da Produtividade
Fonte: Elaboração Própria
0
2
Efeito Tecnológico
4
6
Efeito Composição
8
32
5 Conclusão
A partir da análise realizada nesse estudo, pode-se concluir que de fato o processo de
transformação estrutural no Brasil tem ocorrido como o previsto pela literatura empírica, isto
é, tem havido uma forte tendência do aumento da importância do setor de serviços na
economia, ao mesmo tempo em que a agricultura perde importância na parcela de
trabalhadores. Vale ressaltar que essa mesma tendência é observada no resto do mundo.
Apesar da crescente participação dos serviços na economia, o aumento da
produtividade desse setor é baixo, apresentando menor crescimento produtivo do que a
agricultura e a indústria. Isso implica que o crescimento do valor adicionado pelos serviços
provém basicamente do maior número de trabalhadores alocados nesse setor. Esse pode ser o
fator que tem afetado o crescimento da produtividade brasileira a partir de 1980, fazendo com
que o Brasil se distanciasse da produtividade dos trabalhadores de países mais desenvolvidos,
como exemplificado para os Estados Unidos.
Além disso, é possível perceber que o Brasil possui um grande potencial de ganho
produtivo a partir da realocação de trabalhadores para setores mais produtivos. Todavia, essa
seria uma medida de aumento da eficiência na economia no curto prazo. Para que o país
continue apresentando ganhos e consiga crescer tanto em produto quanto em renda, são
necessárias medidas que aumentem a produtividade da economia, preferencialmente
diminuindo a distância produtiva entre os setores.
Os dados observados para o Brasil no período de 1950 a 2005 contrariam as hipóteses
defendidas pela literatura de que a mão de obra tenderia a se deslocar para os setores mais
produtivos da economia, ou então que haveria uma maior pressão por bens do setor de
serviços à medida que a renda nacional aumenta. Mesmo assim, pode ser que esses efeitos
estejam presentes simultaneamente, com efeitos de oferta e demanda interagindo de forma a
realocar o trabalho entre os setores23. O modelo que mais se adequou ao caso Brasileiro foi o
elaborado por Ngai e Pissarides (2004), que prevê, no limite, a uma alocação do trabalho entre
os setores industrial e terciário.
Para pesquisas futuras, seria interessante formular um modelo econométrico com o
objetivo de obter mais detalhadamente a contribuição das variáveis estudadas na dinâmica da
transformação estrutural brasileira. Também seria interessante utilizar modelos existentes na
literatura, e calibrá-los para os dados brasileiros, para a verificação do poder explicativos dos
23
Peneder (2003)
33
mesmos. Esses próximos passos teriam como objetivo um maior aprofundamento no assunto,
visto que um ponto fraco desse estudo é basear-se apenas em análises descritivas, e, de certo
modo, incertas.
34
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