R. Periodontia - Junho 2010 - Volume 20 - Número 02 COOPERAÇÃO CONSCIENTE: PROGRAMAS DE MOTIVAÇÃO AOS RETORNOS PERIÓDICOS PERIODONTAIS – REVISÃO DE LITERATURA Compliance: motivation programs to periodic periodontal recalls - Literature review Mariana Rocha Guglielmetti1, Juliana Assef Ganhito2, Cássio Volponi Carvalho3, Giuseppe Alexandre Romito4, Marina Clemente Conde4, Giorgio De Micheli5 RESUMO Após o tratamento periodontal ativo, a saúde periodontal é alcançada devido à eliminação ou controle da infecção. Porém, indivíduos que desenvolveram periodontite possuem grande risco de apresentar recorrência da doença, mesmo após um efetivo tratamento periodontal ter sido realizado. Para que o paciente possa manter em longo prazo o estado de saúde obtido com o tratamento, é necessário que se mantenha um programa de manutenções periódicas, com rechamadas em intervalos de tempo regulares, de acordo com a necessidade de cada caso. Este controle e manutenção profissional constituem o único meio de garantir os efeitos benéficos do tratamento e, consequentemente, a sobrevida da dentição. Em geral, o grau de cooperação dos pacientes a estes retornos, entretanto, é bastante baixo. Alguns métodos de motivação foram propostos na literatura para esta finalidade, e esta revisão bibliográfica se propõe a encontrar métodos efetivos de motivação e que possam ser aplicados na clínica periodontal para que um maior número de pacientes colaborem com o programa de controle e manutenção proposto. O envio de cartas e a realização de telefonemas são métodos bastante recomendados. Além disso, a constante estimulação do paciente através de reforços positivos, e principalmente a explicação ao paciente sobre a importância da terapia de manutenção são outros métodos de motivação sugeridos na literatura. UNITERMOS: Periodontite; Cooperação do Paciente; Tratamento periodontal; Motivação. R Periodontia 2010; 20:07-13. 1 Especialista em Periodontia pela FFO- FUNDECTO – USP 2 Professora mestre do curso de especialização de Periodontia da FFO - FUNDECTO USP 3 Professor doutor do curso de especialização de Periodontia da FFO - FUNDECTO USP 4 Professor doutor assistente do curso de especialização de Periodontia da FFO - FUNDECTO USP Professor doutor da disciplina de Periodontia do departamento de Estomatologia da Universidade São Paulo 5 Professor coordenador do curso de especialização de Periodontia da FFO- FUNDECTO USP. Professor livre docente da disciplina de Periodontia do departamento de Estomatologia da Universidade de São Paulo Recebimento: 03/03/10 - Correção: 16/04/10 - Aceite: 12/05/10 INTRODUÇÃO A saúde periodontal é resultado da eliminação ou controle da infecção através dos procedimentos executados durante o tratamento periodontal ativo. Todavia, tal tratamento tem pouco ou nenhum significado em relação à manutenção da saúde periodontal em longo prazo, se um programa periódico de controle e manutenção não for realizado (Axelsson & Lindhe, 1981; Novaes Jr et al., 1996). Uma vez obtida a saúde periodontal com estabilidade dos níveis clínicos de inserção, ausência de sinais clínicos de inflamação e um controle de placa compatível com saúde, a fase de manutenção periodontal é instituída, devendo terminar apenas se houver perda total dos dentes. Manutenção periodontal (AAP, 2003), terapia periodontal de suporte (AAP, 1998), terapia de manutenção periódica (Schallhorn & Snider, 1981), controle e manutenção periódicos (Todescan, 1993), ou simplesmente controle e manutenção (Carvalho & Todescan, 1977), são os termos utilizados para tais procedimentos, iniciados após o tratamento periodontal e que continuam em intervalos de tempo variados, de acordo com a necessidade de cada caso, visando à sobrevida da dentição. A manutenção profissional pós-terapêutica é, 7 periojun2010 08-11-10.pmd 7 11/17/2010, 10:27 AM R. Periodontia - 20(2):7-13 portanto, parte integrante do tratamento periodontal, pois constitui o único meio de garantir a manutenção dos efeitos benéficos do tratamento por um longo período (Axelsson & Lindhe, 1981). A responsabilidade da manutenção é tanto do paciente, cooperando com as instruções relativas ao controle do biofilme dental, como do periodontista que deve estabelecer uma frequência de rechamadas apropriadas, adequadas para a necessidade de cada caso, além de se assegurar que o paciente está sendo mantido sob controle (Novaes Jr et al., 1996). A fase de controle e manutenção periódicos é igualmente ou mais impor tante que os procedimentos terapêuticos (De Micheli et al., 2001). Para alguns autores, estes não são justificados sem um programa de controle e manutenção periódicos (Novaes Jr et al.,1999; De Micheli et al., 2001; Novaes Jr & Novaes, 1999). É importante, portanto, que haja estímulo e interesse por parte dos pacientes em participar ativamente da terapia de manutenção. O nosso trabalho se propõe, através de uma revisão da literatura, encontrar os melhores métodos de motivação aos retornos periódicos periodontais com o objetivo de aplicá-los na clínica periodontal. REVISÃO DE LITERATURA A terapia periodontal de suporte (TPS) é uma extensão do tratamento periodontal (AAP, 1998). Pacientes que desenvolveram periodontite possuem um grande risco de apresentar recorrência da doença para o resto de suas vidas, mesmo após receber um efetivo tratamento periodontal (Hancock & New ell, 2001). Portanto, a prevenção de uma nova doença ou recorrência deve ser realizada na fase da terapia periodontal de suporte (Ainamo & Ainamo, 1996; Carvalho et al., 2005; De Micheli et al., 2001; Novaes Jr et al., 1996; Novaes Jr et al., 1999; Wilson, 1987). Atualmente, parece não haver dúvidas sobre a importância dos retornos periódicos para o sucesso do tratamento periodontal (Ainamo & Ainamo, 1996; Axelsson & Lindhe, 1981; Carvalho et al., 2005; De Micheli et al., 2001; Lindhe & Nyman, 1975; Novaes Jr et al., 1996; Novaes Jr et al., 1999; Wilson, 1987), sendo o controle e manutenção igualmente ou mais importante que a fase ativa do tratamento (De Micheli et al., 2001). Tão logo é finalizado o tratamento periodontal, a responsabilidade da manutenção é bilateral: o paciente deve colaborar com as instruções relativas ao controle de placa e o clínico deve estabelecer uma frequência de rechamadas apropriada assegurando que mantém o paciente sob controle (Novaes et al., 1996). Indivíduos que não demonstram interesse ou que são incapazes de participar de programas de manutenção irão, na maioria dos casos, ter sua condição periodontal deteriorada (Ainamo & Ainamo, 1996). De acordo com a AAP (2003), os objetivos terapêuticos da manutenção periodontal são prevenir ou minimizar a recorrência da progressão da doença em pacientes previamente tratados de periodontite, periimplantite ou gengivite; prevenir ou reduzir a incidência de perda de dentes e implantes e aumentar a probabilidade de diagnosticar e tratar outras condições ou doenças encontradas na cavidade bucal. O sucesso do controle, em longo prazo, da doença periodontal e complicações referentes aos implantes dependem de ativa assistência de manutenção periodontal (AAP, 2003). Pacientes tratados de periodontite e que cooperam com o intervalo da TPS apresentam menor perda de inserção do que aqueles que não demonstram colaboração com os intervalos propostos (AAP, 1998). Aqueles que participaram de um cuidadoso programa de rechamadas estiveram, após seis anos, aptos a manter excelentes padrões de higiene bucal e níveis de inserção inalterados. Em contraste, pacientes que após o tratamento periodontal ativo não foram mantidos em um programa supervisionado de manutenção apresentaram sinais óbvios de periodontite recorrente; e aqueles que mantiveram intervalos regulares na terapia de manutenção apresentaram menores perdas de inserção e dentárias (Axelsson & Lindhe, 1981). Em um estudo conduzido por Novaes Jr et al. (1996), houve uma significativa variação na porcentagem de sangramento à sondagem entre pacientes que participavam da terapia periodontal de suporte e os que não participavam após tratamento periodontal ativo. A perda dental em alguns pacientes periodontais foi relatada como sendo inversamente proporcional à frequência na TPS (AAP, 1998). Assim, alcançada a estabilidade periodontal, a terapia periodontal de suporte realizada em intervalos periódicos é o único meio de prevenir a recorrência da doença periodontal e reduzir a incidência da perda dental (De Micheli et al., 2001). A cooperação com o intervalo sugerido de rechamadas afeta profundamente o resultado do tratamento. Para os pacientes previamente tratados de periodontite, intervalos menores que seis meses são sugeridos, sendo que quatro vezes por ano parece ser eficaz (AAP, 1998). O intervalo da TPS deve ser individualizado de acordo com as necessidades de cada paciente, devendo-se levar em consideração o número de dentes, cooperação do paciente, eficácia e cooperação com a higiene bucal, condição sistêmica, frequência prévia à TPS, acesso à instrumentação, história prévia de doença periodontal e profundidade dos sulcos (AAP, 1998; Hancock & New ell, 2001). Um intervalo de três meses se 8 periojun2010 08-11-10.pmd 8 11/17/2010, 10:27 AM R. Periodontia - 20(2):7-13 aplica à maioria dos pacientes (AAP, 1998; Hancock &New ell, 2001; AAP, 2003). Se o paciente não é colaborador com os intervalos propostos, o resultado do tratamento periodontal e o programa de terapia de suporte serão comprometidos (Hancock & New ell, 2001). A literatura médica sugere que pacientes com doenças crônicas tendem a cooperar pobremente, especialmente se a doença não é percebida pelo paciente como particularmente uma ameaça à vida (Ainamo & Ainamo, 1996; Wilson, 1987), se a terapia consome muito tempo, ou se os sintomas não incomodam o paciente (Ainamo & Ainamo, 1996). No tratamento periodontal, muitas das nossas melhores tentativas terapêuticas são anuladas devido ao comportamento não colaborador do paciente (Ower, 2003; Wilson, 1987). Dentre alguns fatores que podem afetar o comportamento dos pacientes frente aos intervalos sugeridos para retorno, destacam-se a idade, gênero e o tipo de tratamento empregado durante a fase ativa da terapia. Novaes et al. (1996) observaram que em relação ao gênero, as mulheres cooperaram mais com os retornos (76,5%). Neste estudo, os pacientes que receberam tratamento cirúrgico se mostraram mais colaboradores com a manutenção (70,7%), assim como aqueles de idade mais avançada. Novaes Jr. et al. (1996) não encontraram diferenças na cooperação em relação ao gênero, mas observaram que os pacientes submetidos à cirurgia durante a fase ativa do tratamento foram mais colaboradores. Checchi et al. (1994) não encontrou diferenças estatisticamente significantes em relação ao gênero e ao tipo de tratamento recebido, porém relatou maior índice de cooperação entre os pacientes mais jovens. No trabalho de Novaes Jr. & Novaes (1999), também não houve diferença relacionada ao gênero dos pacientes e o grau de cooperação, e em relação ao tipo de tratamento que receberam, mas o índice de pacientes colaboradores foi maior nos de idade mais avançada. Os mesmos autores, em 2001, também concluíram que o gênero não fora considerado um fator para a colaboração, mas que os pacientes mais velhos e que foram submetidos a tratamentos cirúrgicos se mostraram mais cooperadores com a manutenção (Novaes Jr. & Novaes, 2001). Carvalho et al. (2005) demonstrou que não houve associação significativa entre o gênero e o grau de cooperação. Alguns fatores foram sugeridos para se tentar entender as razões de pacientes que não colaboram com os retornos. O medo é o principal motivo de não cooperação em odontologia ressaltado por alguns autores, que deve ser minimizado (De Micheli et al., 2001; Hancock & New ell, 2001; Wilson, 1987). Problemas econômicos foram sugeridos como um fator que pode distanciar o paciente da colaboração com o tratamento (Checchi et al., 1994; Novaes Jr. et al., 1999; Ower, 2003; Wilson, 1987), assim como eventos estressantes (Ainamo & Ainamo, 1996; De Micheli et al., 2001; Ower, 2003), depressão, alcoolismo e conceitos individuais (Ainamo & Ainamo, 1996). O status socioeconômico do paciente também pode afetar a colaboração. Pacientes de classes sociais mais baixas podem ser influenciados pelo custo da terapia de manutenção, enquanto aqueles de classes sociais mais privilegiadas estão mais aptos a serem motivados (Hancock & New ell, 2001; Ow er, 2003; Wilson, 1987). Outros fatores relatados foram esquecimento (Ainamo & Ainamo, 1996) e a idéia de que eles não necessitariam continuar o tratamento com retornos periódicos (Korpi & Henricksen, 2001). Os cuidados oferecidos por higienistas dentais, e não pelos cirurgiões-dentistas, também podem não ser bem aceitos pelos pacientes (Novaes et al., 1996). De acordo com Weinstein et al. (1996), o comportamento para a prática de uma boa higiene bucal pelo paciente depende de três princípios para ser efetuado corretamente: conhecimento, habilidade e motivação. O conhecimento e a habilidade são pré-requisitos importantes para a prática da higiene bucal, porém não são suficientes por si só para se assegurar que a higienização está sendo regularmente efetuada. Apresentar comportamento cooperador com o tratamento é um fator estritamente relacionado com a motivação. Algumas sugestões para melhorar a motivação, e consequentemente o nível de compliance dos pacientes foram sugeridas como simplificar as instruções do comportamento que deve ser seguido pelo paciente, acomodar suas sugestões às necessidades do paciente para que ele se satisfaça mais facilmente, relembrar o paciente da próxima consulta através de telefonemas ou cartas, comunicar-se com o paciente para assegurar de que não haja dúvidas em relação aos cuidados de manutenção. Ainda assim, passar por escrito todas as informações fornecidas, reforçar positivamente os cuidados de higiene enfatizando as melhorias alcançadas pelo paciente, e finalmente, identificar não cooperadores em potencial antes do início da terapia é muito importante (Wilson, 1987). Wilson et al. (1993) se propuseram a analisar os efeitos e esforços para melhorar motivação e os níveis de compliance dos pacientes, durante cinco anos. Os esforços para aumentar a cooperação incluíram consultas oferecidas cedo pela manhã, antes do trabalho e também em finais de semana selecionados; treinamento foi fornecido para as THDs dos clínico-gerais, assim o paciente poderia optar por continuar 9 periojun2010 08-11-10.pmd 9 11/17/2010, 10:27 AM R. Periodontia - 20(2):7-13 a terapia periodontal de suporte com o especialista ou clínico-geral, de acordo com sua conveniência. Além disso, a próxima consulta era marcada antes que o paciente saísse do consultório, e lembrada através de telefonemas e carta. Toda a equipe era educada sobre a importância da terapia periodontal de suporte, inclusive os pacientes que eram informados sobre a importância da cooperação. Aqueles que não haviam sido colaboradores anteriormente foram informados das possíveis consequências negativas desse comportamento e as razões para essa atitude foram expostas para tentar contorná-las quando possível. Esses esforços mostraram um aumento da cooperação completa de 16%, no início do estudo, para 32%, e a diminuição de 34% para 20% dos pacientes não colaboradores. Em um trabalho realizado por Checchi et al. (1994), a importância das rechamadas fora enfatizada aos pacientes durante a fase ativa do tratamento periodontal e foram informados de que sem uma higiene bucal apropriada e manutenções periódicas a terapia iria se mostrar ineficiente em um prazo mais longo. Os pacientes foram relembrados por telefonemas e cartas da próxima consulta de manutenção. 38% dos pacientes se mostraram cooperadores ao final de 1 ano e este número caiu para 20% ao final de quatro anos. A taxa de pacientes não cooperadores subiu de 37% para 46% após o segundo ano pós-terapia ativa. Novaes et al., em 1996, conduziram um estudo em que foram utilizados diferentes meios para se alcançar um nível maior de colaboração com a manutenção, como panfletos explicativos antes do início do tratamento, consultas confirmadas por meio de cartas e telefonemas, uso de repetidas cartas e panfletos quando de abstenção prolongada, e diálogo com o clínico geral que encaminhou o paciente. O resultado mostrou que 25% dos pacientes não cooperaram, 40% cooperaram regularmente e 34% irregularmente. Os autores acreditam que uma atenção pessoal do clínico é fundamental para se obter compliance em longo prazo. Apesar de este conceito consumir maior tempo e ser custoso em muitas clínicas, os cuidados oferecidos por higienistas dentais podem não ser bem aceitos por parte dos pacientes. De acordo com Novaes Jr. et al. (1996), para que haja uma maior motivação e consequentemente colaboração dos pacientes durante a TPS, estes devem ser conscientizados da importância da saúde, e não doença, o que é muitas vezes difícil de explicar. Ressaltam ainda que o profissional deve ser mais agressivo na motivação e explicação da importância da manutenção. Outro trabalho analisou 874 pacientes durante cinco anos após o tratamento periodontal ativo e a taxa de não cooperação foi de 46,8%. Segundo os autores, para motivar mais esses pacientes, instruções acerca da importância da terapia periodontal de suporte devem ser oferecidas, além de esforços extras como, por exemplo, telefonemas e cartas para lembrá-los da próxima consulta de manutenção (Novaes Jr. & Novaes, 1999). Estes mesmos autores, em 2001, afirmaram que é extremamente importante estabelecer um perfil dos pacientes com grande risco à não cooperação para educá-los e motiválos durante o tratamento periodontal ativo (Novaes Jr. & Novaes, 2001). Korpi & Henricksen (2001) fizeram uma análise bastante importante acerca da motivação. Para eles é necessário identificar fatores que possam motivar os pacientes e focar o tratamento apenas nesses fatores. Deve-se torná-los claros, simples e compreensíveis. Os autores afirmam que inicialmente o paciente deve ter em mente que a doença periodontal é uma progressão; devemos não apenas explicálo em que estágio da doença ele se encontra, mas toda a sua progressão e desenvolvimento. Este é, segundo os autores, o principal ensinamento ao paciente em relação à doença periodontal que começa então a questionar em qual estágio da doença se encontra e o que é necessário para evitar a sua progressão. Esta deve ser explicada visualmente para que o paciente tenha um bom entendimento do assunto abordado. A utilização de desenhos esquemáticos ajuda a enfatizar os detalhes e processos que se quer discutir. A doença periodontal deve ser o único assunto de motivação inicialmente e o assunto “tratamento” não deve ser discutido até que o paciente entenda que ele realmente tem uma doença que necessita de tratamento imediato. De acordo com os autores, a descrição visual da progressão da doença periodontal para o paciente é o melhor meio de motivação para prevenção e tratamento. É extremamente importante eliminar ou minimizar o medo do paciente para que uma efetiva mudança de comportamento ocorra. Segundo Hancock & Newell (2001), não é indicado sobrecarregar o paciente com procedimentos excessivos, difíceis e que consomem muito tempo de uma só vez, pois o propósito de cada procedimento de higiene deve ser claramente compreendido pelo paciente que poderá então obser var as mudanças positivas em sua saúde periodontal. O conhecimento do paciente das causas de sua doença normalmente não os motiva a praticar uma boa higiene, ao contrário do que afirmam Korpi & Henricksen (2001). Algumas sugestões para se melhorar a cooperação seriam simplificar as instruções aos pacientes, se adaptar às suas necessidades, melhorar a comunicação, fornecer reforços 10 periojun2010 08-11-10.pmd 10 11/17/2010, 10:27 AM R. Periodontia - 20(2):7-13 positivos e enfatizar a necessidade de manutenção antes e durante o tratamento periodontal ativo (Hancock & New ell, 2001). De Micheli et al. (2001) sugerem alguns métodos para motivar a cooperação do paciente, como a simplificação das técnicas de higiene bucal, recordação sobre as visitas agendadas por meio de telefonemas ou cartas, reforços positivos, sem críticas e sim com ajuda construtiva, e a identificação dos não cooperadores já no início do tratamento. Assim, para os autores, a comunicação é considerada o elemento chave para o sucesso do tratamento, o que exige um maior envolvimento por parte do profissional. Quando situações pessoais estiverem influenciando o desempenho do paciente, os autores recomendam que a palestra padrão seja substituída por uma aproximação individual. A fim de se obter a cooperação do paciente e motivá-lo a seguir os conselhos sugeridos é essencial, segundo Ower (2003) que o paciente compreenda a natureza e a etiologia do processo da doença e as mudanças morfológicas resultantes. Explicar-lhe em detalhes, de maneira compreensível, é tão importante quanto ensinar as técnicas de controle de placa propriamente ditas, pois, de acordo com o autor, não faz sentido instruir o paciente a higienizar os sulcos profundos se ele não compreende o que são e onde eles estão localizados. Sugere ainda que, inicialmente, não haja intervenção profissional no controle de placa para que o paciente perceba que sua correta higienização apenas, já é muito importante para a melhora do quadro clínico e se sinta mais motivado a colaborar. Ressalta que a prática de higiene bucal é entediante para a maioria dos pacientes e propõe combiná-la com outros hábitos, como ouvir música ou tomar banho, o que pode minimizar o tédio e assegurar melhor a cooperação consciente. O autor indica o uso de pastilhas evidenciadoras pelo paciente para que ele mesmo possa monitorar seu índice de placa. O estudo conduzido por Car valho (2006) com 420 pacientes do Programa de Controle e Manutenção da FOUSP pretendeu avaliar a cooperação dos pacientes envolvidos no Programa, de 1998 a 2003. Foram empregadas medidas para motivação dos pacientes objetivando a melhora do nível de cooperação a cada visita. Dentre elas, a confirmação do horário da próxima consulta através de telefonemas; comunicação pessoal com o paciente, informando-o sobre a doença periodontal, sua progressão e importância do controle; e incentivo ao paciente em relação ao seu controle de placa. A cooperação completa aumentou de 18,2% para 67,9%, e a taxa de não colaboradores passou de 73,6% para 9,5%. DISCUSSÃO A motivação aos retornos periódicos deve ser extremamente enfatizada, principalmente àqueles pacientes que tendem a cooperar menos com os intervalos propostos. Com relação ao gênero, a maioria dos autores não encontrou diferenças estatisticamente significantes (Carvalho et al., 2005; Checchi et al., 1994; Novaes Jr. et al., 1996; Novaes Jr. & Novaes, 1999; Novaes Jr. & Novaes, 2001). Porém, pacientes com idade mais avançada geralmente cooperam mais (Novaes et al., 1996; Novaes Jr & Novaes, 1999; Novaes Jr. & Novaes, 2001), assim como aqueles que foram submetidos à cirurgia durante a fase ativa da terapia periodontal (Novaes et al., 1996; Novaes Jr. et al., 1996; Novaes Jr. & Novaes, 2001). As principais razões para o comportamento não colaborador são normalmente o medo do tratamento (De Micheli et al., 2001; Hancock & New ell, 2001; Wilson, 1987), fatores socioeconômicos (Checchi et al., 1994; Hancock & New ell, 2001; Novaes Jr. et al., 1999; Ow er, 2003; Wilson, 1987), eventos estressantes (Ainamo & Ainamo, 1996; De Micheli et al., 2001; Ow er, 2003) e o fato do paciente acreditar que os retornos periódicos não são importantes para a manutenção da saúde periodontal adquirida com o tratamento (Korpi & Henricksen, 2001). Na tentativa de amenizar as razões encontradas para tal comportamento, algumas sugestões para motivar o paciente e com isso melhorar o nível de compliance, foram propostas por alguns autores. A confirmação da consulta por meio de cartas e/ou telefonemas é um meio bastante recomendado (Carvalho, 2006; Checchi et al., 1994; De Micheli et al., 2001; Novaes et al., 1996; Novaes Jr. & Novaes, 1999; Wilson et al., 1993; Wilson, 1987), sendo simples e de baixo custo para ser executado. Este método isoladamente, porém, não fora utilizado em nenhum trabalho para se tentar aumentar a proporção de pacientes colaboradores, mas sim em conjunto com outros meios de motivação. Inicialmente, se deve identificar aqueles indivíduos que provavelmente não se mostrarão cooperadores com as rechamadas periódicas (De Micheli et al., 2001; Novaes Jr. & Novaes, 2001; Wilson, 1987), através da história pregressa de cooperação com o tratamento. É imprescindível explicar a estes pacientes a importância da terapia de manutenção, antes de iniciado o tratamento, para que ele compreenda as conseqüências negativas em longo prazo frente a um comportamento não colaborador com as rechamadas (Carvalho, 2006; Checchi et al., 1994; Hancock & New ell, 2001; Korpi & Henricksen, 2001; Novaes Jr. et al., 1996; Novaes Jr. 11 periojun2010 08-11-10.pmd 11 11/17/2010, 10:27 AM R. Periodontia - 20(2):7-13 & Novaes, 1999; Wilson et al., 1993; Wilson, 1987). Durante o tratamento periodontal reforços positivos devem ser dados ao paciente em relação aos seus cuidados de higiene para que ele se sinta mais estimulado a cooperar (Carvalho, 2006; De Micheli et al., 2001; Hancock & New ell, 2001; Weinstein et al., 1996; Wilson, 1987). Além disso, simplificar as instruções de higiene bucal, explicando-as de forma clara e tornado-as compreensíveis, é um fator que ajuda consideravelmente na motivação, de acordo com Wilson (1987), Weinstein et al. (1996), Korpi & Henrickensen (2001), e Hancock & New ell (2001). Ower (2003) sugere ainda que inicialmente o controle de placa seja realizado somente pelo paciente e sem qualquer intervenção profissional para que ele perceba, na melhora de seu quadro clínico, a importância de uma correta higienização. Com estes esforços Wilson et al. (1993), Checchi et al. (1994) e Novaes et al. (1996) obtiveram um aumento do número de pacientes colaboradores em seus estudos utilizando os métodos de motivação propostos. No estudo de Carvalho (2006), o método de motivação aplicado influenciou de maneira ainda mais significativa a cooperação dos pacientes em relação aos retornos. Conforme já evidenciado por outros autores (Novaes et al., 1996; Novaes & Novaes Jr., 1999) pode-se perceber que a motivação do paciente, alcançada através de informações capazes de conscientizá-lo em relação a sua condição periodontal e a necessidade de controle e manutenção, é essencial para que ele colabore com o regime proposto. Assim, Korpi & Henricksen (2001) sugerem interessantes medidas de motivação baseadas na compreensão do paciente acerca da doença periodontal. Tais autores afirmam que o paciente deve compreender a progressão e o desenvolvimento da doença periodontal por meio de métodos visuais e procurar entender o que é necessário para evitar que haja sua progressão. A doença periodontal, exemplificada através de desenhos esquemáticos, é o melhor método de motivação para o tratamento, segundo os autores. Ower (2003) sugere ainda mostrar ao paciente o que são as bolsas e onde elas estão localizadas, para que ele possa higienizá-las da melhor maneira possível. Além disso, recomenda o uso de pastilhas evidenciadoras pelo paciente, para que os depósitos de placa se tornem mais visíveis e a higienização facilitada. Certamente, aliando-se tais métodos visuais de motivação aos outros métodos previamente discutidos, o índice de colaboração pode se tornar ainda maior. É possível que ao longo dos anos os pacientes voltem a cooperar negativamente com a terapia de manutenção, apesar da motivação fornecida. Para que isso possa ser evitado, é primordial que meios de motivação sejam constantemente apresentados aos pacientes, para que haja uma crescente colaboração com o passar do tempo. CONCLUSÕES De acordo com a literatura consultada, podemos concluir que os meios de motivação sugeridos e aplicáveis na clínica periodontal, para estimular o paciente aos retornos periódicos, incluem: • a explicação da importância da terapia de manutenção ao paciente; • reforços positivos, como elogios; • programas de rechamadas por meio de cartas, telefonemas e e-mails; • o entendimento do paciente acerca da doença periodontal. ABSTRACT After active periodontal therapy, periodontal health is obtained due to infection elimination or its control. However, individuals who developed periodontitis have greater risk in presenting recurrent disease, even after an effective periodontal treatment. So in order that the patient can maintain and build upon the preceeding periodontal treatment, it is necessary to maintain a periodic maintenance program, with recalls in regular intervals of time, in accordance to the necessity of each case. This professional control and maintenance constitutes the only method to guarantee the beneficial effects of the treatment and, consequently, the dentition maintenance. In general, patient compliance with periodontal maintenance is, however, poor. Some methods of motivation were proposed in the literature for this purpose, and this bibliographical revision aimed to find effective motivation methods applicable in periodontal practice in order to have greater number of compliance patients in the maintenance program proposed. Sending letters and making phone calls are known to be very successful methods. Moreover, the constant stimulation of the patient through positive reinforcements and, mainly, the explanation for the patient about the maintenance therapy importance is another motivation method suggested in the literature. UNITERMS: Periodontitis; Maintenance; Motivation 12 periojun2010 08-11-10.pmd 12 11/17/2010, 10:27 AM Patient Compliance; R. 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