MULHERES INDÍGENAS BOLIVIANAS E SUAS DIFERENTES FORMAS DE APROPRIAÇÃO DE CATEGORIAS DE ANÁLISE (1970-2006) Heloísia Nunes dos Santos ([email protected]) Bolsista de Iniciação Cientifica/ CNPq Universidade Federal de Santa Catarina Resumo: O estudo busca evidenciar de que forma as mulheres indígenas bolivianas, oriundas da Confederación Nacional de Mujeres Campesinas Indígenas Originarias de Bolivia- Bartolina Sisa (CNMCIOB-BS) se apropriam e, por conseguinte, fazem uso de categorias como “feminismo”, “mulher”, “mulheres”, “relações de gênero” e “machismo”. Estas apropriações de categorias de análise estão ligadas à cultura e à constituição de identidades que articulam gênero e etnia. O que quero saber é como se constroem em sua diferença dentro de uma universalidade, a partir da categoria “mulheres”, por exemplo. De que maneira a construção de um termo/palavra pode caracterizar um grupo distinto. Para tanto utilizarei como fontes entrevistas orais, realizada pelo grupo de pesquisa do qual faço parte e livros com entrevistas já publicadas. A partir da História Oral e da noção de interpretação observei que as mulheres indígenas usaram, em geral, a categoria “mulher” relacionando-a ao sujeito universal: mulher; “mulheres” em referência as companheiras de luta dentro do universo das próprias indígenas; “feminismo” aparece como a possibilidade de reivindicações por ações de mulheres e para mulheres. A categoria “machismo” tem forte presença nestes relatos tanto no trato de mulheres com mulheres, como na relação com os homens. Palavras-chave: Mulher; Mulheres; Feminismo; Apropriações; Machismo. Introdução A Confederação Nacional de Mulheres Campesinas Indígenas Originárias da Bolívia “Bartolina Sisa” (CNMCIOB-BS) é a organização de mulheres com o maior número de membros no país, reúne mulheres indígenas de diferentes etnias, ainda que com predominância da etnia ayamara, desde janeiro de 1980. As principais pautas de luta dessas mulheres são: a defesa e a promoção dos direitos humanos, a busca para garantir a participação das mulheres nos diferentes níveis de decisão, e também a libertação, tanto das mulheres rurais quanto das indígenas originárias, de todos os tipos de opressão. Para tanto, este estudo tem como objetivo perceber como se apropriam e fazem uso de categorias como, “feminismo”, “mulher”, “mulheres”, “relações de gênero” e “machismo” nos documentos produzidos por mulheres envolvidas na Confederação Nacional de Mulheres Campesinas Indígenas Originárias da Bolívia “Bartolina Sisa”, além de livros e entrevistas, entre 1970 e 2006. Segundo Sacchi (165: 2006) para o melhor entendimento das questões sobre a 'participação das mulheres no campo político', trazidas no bojo da luta feminista por uma maior igualdade entre os gêneros no universo da representatividade, determinados Anais do Colóquio Nacional de Estudos de Gênero e História – LHAG/UNICENTRO, p.700 conceitos tem sido (re)trabalhados e colocados no cerne das análises e ações transcorridas no seio da sociedade contemporânea. Logo, refletir acerca dessas apropriações representa, também, um esforço em pensar e conhecer uma lógica social muito distinta da nossa, onde questões étnicas e de gênero são cruzadas a todo o momento, em diferentes formas discursivas. Beatriz Sarlo no livro Paisagens Imaginárias: intelectuais, arte e meios de comunicação, argumenta que a participação feminina é uma das condições decisivas para novas formas de ideologia e política na América Latina. Camponesas, trabalhadoras, indígenas, donas de casa, desempregadas e moradoras de favelas, se relacionam com a política por meio de sua experiência vivida, é a vivência direta de injustiça e subordinação que as fazem intervir na esfera pública. Esse novo estilo carrega as marcas sociais de sua origem popular. As possibilidades de conhecimento estão ligadas ao novo paradigma social que esses movimentos trazem em sua prática e muitas vezes (mas nem sempre) em seu discurso: o novo tema da esfera pública. Desse modo, há uma especificidade da atuação das mulheres no espaço político, domínio pouco explorado nas análises, resultado da 'invisibilidade' das mulheres no âmbito público e, como não poderia deixar de ser, também no movimento indígena. Tanto nos embates políticos como nas lutas cotidianas, as mulheres indígenas tem marcado cada vez mais presença. A maioria das mulheres indígenas, aqui estudadas, se constituiu como liderança política, em sua prática cotidiana, trabalhando em organizações indígenas, em conselhos escolares e grupos de artesanato. Percebemos que o protagonismo dessas mulheres ocorre no processo participativo que se inicia em sua comunidade, mas que muitas vezes ultrapassa tais limites, incidindo também na sociedade não indígena. Pensamos que, no momento em que determinados movimentos de mulheres indígenas passaram a se utilizar do discurso étnico, algo que adquiriu força, sobretudo ao longo da última década, um conjunto de identidades se reunia naquele momento para consolidar suas reivindicações políticas. A identidade que era inicialmente de classe delas como trabalhadoras - foi se aliando a identidade de gênero - quando assumiam que havia problemas específicos de mulheres que deveriam ser levados em conta - e por fim, também somasse a identidade étnica, que se refere a elas como indígenas. Pode-se dizer que há grupos políticos e movimentos sociais na Bolívia que tem se articulado em torno de um discurso étnico - no caso, o de identificação como indígenas e descendentes de povos “originários” que já estavam presentes na América desde muito antes da chegada dos europeus que os colonizaram - para reivindicar direitos, se posicionar politicamente e propor novos caminhos para a sociedade (MIRZA,2006). Hoje em países como Bolívia a auto-identificação de mulheres como indígenas, confere a essas pessoas uma multiplicidade identitária, que pode proporcionar um fortalecimento nos argumentos de que as (os) “verdadeiras (os) donos das terras” não podem mais aceitar serem excluídas (os) da sociedade. Isso difere do que acontecia anteriormente, quando era, em muitos casos, considerado vergonhoso ser descendente de indígenas (CUSICANQUI, 2003:40). Portanto, a participação nas organizações é também a forma encontrada por essas mulheres para viver e expressar a sua etnicidade deixando emergir no contanto com as outras mulheres os elementos de sua identidade étnica. Entendemos assim que, Anais do Colóquio Nacional de Estudos de Gênero e História – LHAG/UNICENTRO, p.701 etnia e gênero são também conceitos relacionais, ambos, só fazem sentido em um contexto de relações sociais entre pessoas que se diferenciam, confrontando formas de identidades, próprias e mutáveis. Identidades que se constroem nessas relações de confronto e de convivência (WOLFF,1999:61). Vejamos agora, como se iniciou o processo de utilização desses conceitos pelos movimentos de mulheres e feministas. Por volta do início da segunda metade do século XX, no interior do movimento feminista tem se utilizado as categorias “feminismo”, “mulher”, “mulheres” e “relações de gênero”. Essas categorias foram escolhidas dentro de “um ambiente de tensões e discussões” em virtude dos indivíduos que elas podiam acolher dentro de suas significações. O movimento feminista iniciou entre o final do século XIX e o início do século XX e teve esse começo chamado, posteriormente, de “primeira onda”, momento cujas reivindicações se concentravam na busca pelos direitos econômicos e sociais: o acesso ao trabalho remunerado, aos estudos, à propriedade e à herança; e os políticos: de votarem e serem eleitas. Nova Zelândia foi o primeiro país a conceder o direito ao voto feminino, em 1893. No Brasil, as mulheres tiveram o direito ao voto aprovado em 1932 no governo de Getúlio Vargas, e elas só conseguiram votar em 1934. No Japão, na França e na Itália elas só puderam votar a partir de 1939 (NIEM/UFRGS, 2010 apud Nascimento, 2011). Então, até a primeira metade do século XX as lutas das mulheres se pautaram por direitos vistos como de ordem pública. As mulheres envolvidas neste movimento buscaram inserção em um mundo idealizado e, principalmente, realizado para o homem - visto que as grandes lutas pelos direitos travadas durante a História Moderna resultaram em promulgações que privilegiaram os indivíduos do sexo masculino – brancos e proprietários. A partir do ressurgimento do movimento feminista, no início da segunda metade do século XX, as mulheres se ocuparam em reclamar direitos utilizando a categoria “Mulher”, em contraposição à categoria “Homem”, usado genericamente nas referências aos seres humanos, pois as feministas não se viam contempladas por esse termo universal e reivindicavam o direito de escolha em relação à reprodução, contra a violência doméstica e pela divisão de tarefas domésticas. Entretanto, durante a década de 1980, muitas mulheres pertencentes às variadas classes e etnias – mestiças, negras, indígenas, trabalhadoras, pobres -, também não se sentiram incluídas nesta modalidade uma vez que enxergavam outras prioridades. Assim, o movimento feminista passou a reclamar pelos direitos das mulheres utilizando a categoria “Mulheres”, respeitando suas complexidades, diversidades e necessidades particulares dentro de um universo maior (PEDRO, 2005: 82). O feminismo, embora estivesse presente em alguns movimentos de mulheres entre o final do século XIX e início do XX (ALVES; PITANGUY, 2007, p.54), ressurge com força como categoria de análise, a partir de meados do século XX. E, na década de 1990 recebe como concorrente, sob a influência da virada linguística, a categoria “relação de gênero” que passou a ser utilizada com frequência, trazendo para as discussões uma análise dual, entre a ação de homens e mulheres de forma concomitante (PEDRO, s/d, : 6). A possibilidade que as mulheres têm de se organizarem, de terem um espaço Anais do Colóquio Nacional de Estudos de Gênero e História – LHAG/UNICENTRO, p.702 próprio de identificação passa muito pela noção de empoderamento 1, através da participação no espaço público. O empoderamento efetivo das mulheres deriva de uma reformulação e desconstrução dos atuais esquemas políticos e sociais, através da participação ativa em movimentos, conscientização na sociedade, atuação nas instâncias governamentais e também com a criação de organizações da sociedade civil (associações). Tais aspectos, correspondem às alternativas de sobrevivência de várias mulheres e suas famílias, sobretudo, as de baixa renda, pois levam demandas do âmbito privado para os espaços públicos, influenciando nos processos de tomadas de decisões (MACEDO; REGINO, 2012: 96). Percebe-se que no caso das mulheres indígenas, tal noção de empoderamento, tornou-se um incentivo a mais, que contribuiu na visualização de seus papéis nas lutas e embates políticos. Segundo Mario de Sá, o empoderamento feminino só será realidade a partir do reconhecimento, do respeito e da valorização das mulheres pela sua multiplicidade, quando nossa sociedade puder desmistificar a naturalização que impõe um padrão para o “ser mulher” (SÁ, 2011:13). Assim, o engajamento de mulheres indígenas em movimentos sociais e em organizações, abre espaço para o processo de resignificação de sua posição nas relações familiares, matrimoniais, comunitárias, enfim, no espaço público, que tenta romper com estruturas patriarcais existentes em nossa sociedade. No caso da Bolívia, evidencias nos mostram que as mulheres indígenas tem sofrido uma tripla discriminação, por serem mulheres, por sua etnia, e sua condição geral de pobreza. Ou seja, para mulheres indígenas, o gênero, a classe e a etnia são dimensões de uma matriz de dominação, que se interceptam em diferentes pontos, proporcionando-lhes uma visão distinta do que significa ser mulher em uma sociedade desigual, racista e sexista (AILLÓN, 2006: 321). Vejamos agora, como ocorrem as apropriações e usos destas categorias, dentro do universo distinto das mulheres indígenas bolivianas da CNMCIOB-BS. Seus discursos e práticas estão voltados para constituição e efetivação da organização, enquanto um lugar onde possam reivindicar seu espaço na sociedade. Com o intuito de perceber tais usos e apropriações das categorias “feminismo”, “mulher”, “mulheres”, “relações de gênero” e “machismo” usei como fontes os livros “Género, etnicidad y participación politica” organizado por Virginia Aillón; “Sociología de los Movimientos Sociales em Bolivia: Estructuras de movilización, repertórios culturales y acción política”, organizado por Álvaro Linera e a entrevista com Jenny Román2. Temos acesso a essas narrativas a partir da metodologia da História Oral, que compõem as fontes primárias deste estudo e vem sendo muito utilizada nos estudos históricos. Tais entrevistas nos permitem desvendar determinadas dimensões, de ordem tanto objetiva quanto subjetiva, são documentos que são construídos a partir da memória da pessoa entrevistada e, por esse motivo, são carregados de ressignificações. Silva Salvatici, em Memórias de gênero: reflexões sobre história oral de mulheres, procura refletir sobre os usos dessa metodologia, já que a história oral e a história das mulheres, em seus propósitos e objetivos têm significativas similitudes, como ao focalizar uma história oculta, uma “história vinda de baixo”. Esta autora nos 1 Entendido na perspectiva feminista, como poder que afirma, reconhece e valoriza as mulheres. Tais entrevistas foram feitas por integrantes do Projeto Cone Sul, e que participam da equipe do Laboratório de Estudos de Gênero e História da Universidade Federal de Santa Catarina, do qual também sou integrante, e coordenado pelas Professoras Doutoras Cristina Scheibe Wolff e Joana Maria Pedro. 2 Anais do Colóquio Nacional de Estudos de Gênero e História – LHAG/UNICENTRO, p.703 alerta, que: [...] os entrelaçamentos entre história de mulheres e a história oral podem ser identificados seguindo trajetórias diferentes. Em primeiro lugar, está a exclusão das mulheres dos documentos escritos, geralmente considerados as únicas fontes válidas para a história. O interesse pelas mulheres e o uso de fontes orais ampliaram positivamente o cenário da pesquisa histórica e nele introduziram novos tópicos de investigação, tais como vida diária, as atividades domésticas e a esfera privada de mulheres. O objetivo político do movimento feminista era dar valor a essas áreas especificas de experiência feminina, e a história oral forneceu assunções teóricas e soluções metodológicas para caminhar nessa direção. (SALVATICI, 2005; p. 31) Este entrelaçamento entre História Oral e História das Mulheres, proposta pela autora citada acima, nos estimula a incluir estas abordagens neste trabalho. Também acreditamos ser importante refletir acerca da intencionalidade na produção não só das entrevistas, mas como também dos livros. Desse modo, Tânia Regina de Luca alerta para que o pesquisador esteja atento ao analisar essas fontes impressas de forma a não dissociar o conteúdo da fonte do espaço ocupado pela publicação no processo histórico (In PINSKY, 2005:139). Lembro que para este trabalho, considero, a partir de Reinhart Koselleck, que as categorias de análise têm história (2006: 336).3 Felipa Huanca Llupanqui, militante e secretária-geral da Confederação Nacional de Mulheres Indígenas Originárias da Bolívia “Bartolina Sisa”, ao narrar à trajetória da organização, possibilita que percebamos como utiliza a categoria mulheres: [...] o que vocês devem saber é que esta organização Bartolinas Sisa não é recente, não veio com este governo. Já temos 31 anos. Desde aqueles tempos temos lutado contra os governantes que trouxeram os tempos colonialistas, que entraram com esse sistema de dominar, explorar… Percebe? Nossos avós, nossos ancestrais lutaram contra isso. Logo, em tempos de liberalismo, surgiu esta organização. Nas mobilizações veja quem sai primeiro: as mulheres. As mulheres estão na primeira fila para lutar. Por isso, sempre dizemos: nós, as mulheres, vamos seguir adiante frente a qualquer problema. (Entrevista disponível<http://miradas.com.br/? p=1114> Acesso 2 de março de 2012.) É o mesmo uso que percebemos na narrativa de Segundia Flores, secretária executiva do Departamento de Santa Cruz- Cnmciob- BS: Mis bases, compañero, son todas las mujeres, yo soy mujer. Ustedes no dejan venir a las compañeras, entonces me piden bases. Yo de dónde voy a traer a las compañeras. Entonces con eso compañeros, ustedes con sus tareas como compañeros. Pero si los compañeros hombres no las dejan trabajar como mujeres, no le van a dar esa libertad. Ustedes aprendan, que sapan las cosas, que a las 3 Ainda que em tal texto, o autor se refira aos conceitos. Penso que caiba para a discussão, também, das categorias de análise. Anais do Colóquio Nacional de Estudos de Gênero e História – LHAG/UNICENTRO, p.704 mujeres no las tengo que dibujar, aqui están...” ( LINERA, 2004; 508) Segundia Flores, ao reivindicar aos dirigentes homens a necessidade de ter outras mulheres ao seu lado, para fortalecer a luta e principalmente possibilitar a participação do maior numero de mulheres no movimento indígena, assim como Felipa Huanca Llupanqui, se referem comumente a categoria “Mulheres” utilizando-a quando a expressão se refere a assuntos que dizem respeito ao coletivo total de mulheres e também em referência as companheiras de luta dentro do universo das próprias indígenas, ainda que isso não fique tão claro nas entrevistas analisadas. É possível perceber aqui nestes dois trechos de entrevistas, a emergência da “luta pela emancipação da mulher” como um objetivo global das mulheres, porém, também é possível considerar que nem todas as mulheres bolivianas questionavam a sua subordinação em relação à hegemonia masculina. Outras narrativas como Sabina Choquetijlla, ex dirigente da Cnmiob-BS, reforçam a maneira como esta categoria é utilizada. Ao refletir sobre a necessidade de possuírem uma organização, onde possam conhecer e discutir os problemas “de mulher”, Choquetijlla está se dirigindo a esse coletivo de mulheres “universal”, vejamos: Desde que yo he assumido he sabido hablar y objetar de que las mujers deberíamos de aprender, de organizarnos; si las mujeres somos organizadas muy aparte, claro por supuesto com la coordinación de los varones, pero entre nosotras muchas cosas, entre nosotras podemos deliberar, discutir, analizar nuestros problemas, cosas, el miedo puede perder. O sea hay muchas cosas en cuestión de mujeres para discutir, cosa que los varones nunca asumen de discutir eso, nunca llegan a analizar la situación de la mujer, no?. Todas esas cosas he visto, por eso ha sido decepcionante, pero mayor parte siempre a mí me ha ido bien.” (LINERA, 2004; 512) Em outro trecho de Sabina Choquetijlla, podemos perceber que esse entendimento acerca das categorias “Mulher e Mulheres”, se mantém ao tratar das mulheres de um modo geral: “la organización exclusiva de las mujeres es uma necesidad demandada por las mismas mujeres”, apesar de estarem se constituindo enquanto mulheres na diferença em relação aos homens. Entendo que tanto Segundia Flores, Felipa Huanca Llupanqui, como Sabina Choquetijlla estão utilizando a categoria “Mulher/Mulheres”, quando diz respeito à totalidade das mulheres, independente da classe, etnia/raça. É provável que para essas entrevistadas as categorias fossem tomadas apenas como palavras sinônimas e talvez não enxergassem a distinção no uso das categorias “mulher” e “mulheres”. Diferente de Nemesia Achacollo, também representante da Secretaria Executiva Nacional, que ao utilizar outra palavra “Hermanas”, entendida por mim nesse contexto como sinônimo de “Mulheres”, mas que, entretanto expressa a constituição de uma identidade da diferença com relação aos homens, na diferença da totalidade das mulheres: Anais do Colóquio Nacional de Estudos de Gênero e História – LHAG/UNICENTRO, p.705 una parte respeto la decisión de las Hermanas, ellas nos han invitado al congresso y sin embargo no hemos podido asistir a su congresso que ellas han llevado y precisamente me ha tocado estar en el bloque amazónico que estaba en Beni no he podido llegar por los bloques [...] tampoco podemos obligarlos a que vengan porque yo creo que tiene que tener cada federación departamental su propia autonomía, entonces eso estamos viendo desde la anterior gestión, entonces vemos que no están participando las hermanas de La Paz. (LINERA, 2004: 517) Ao se tratarem pela palavra “Hermana”, estão caracterizando um grupo distinto dentro da universalidade da categoria “mulher”, porque se refere, como fica claro em trechos das entrevistas, às mulheres indígenas que compartilham experiências, vivem situações semelhantes. Logo, constituem sua identidade nesta diferença de serem mulheres indígenas, com necessidades e especificidades distintas da totalidade das mulheres do universo. Como destaca Jenny Román; “nesse momento era, o movimento indígena, não existia, ou seja, não existiam as mulheres indígenas como uma problemática, com uma questão, como uma problemática própria, mas que também era um grupo oprimido que tinha suas particularidades”, as mulheres indígenas irão se constituir enquanto mulheres na relação de diferenciação com o movimento indígena, de predominância masculina. E identificadas como mulheres indígenas na diferença de particularidades com as demais mulheres. Ou seja, mulheres negras, índias, mestiças, pobres, trabalhadoras, muitas delas feministas, reivindicaram uma “diferença” – dentro da diferença. Assim, a categoria “mulher”, que constituía uma identidade diferenciada da de “homem”, não era suficiente para explicá-las. Elas não consideravam que as reivindicações as incluíam. (PEDRO, 2005:6) A categoria “Feminismo”, não se apresenta claramente nas narrativas aqui estudadas, porém entendemos também por Feminismo, a capacidade e necessidade de organização das mulheres, com a possibilidade de ações e reinvindicações por espaço e representatividade, seja no dialogo com o Estado, seja na relação com o esposo, filhos e país. Portanto, por estarem organizadas em torno da Confederação Nacional de Mulheres Campesinas Indígenas Originárias da Bolívia “Bartolina Sisa”, percebemos esta prática como Feminismo. Nestas narrativas não aparecem a categoria “relações de gênero”, apesar de algumas vezes haver comparações entre situações vivenciadas por mulheres e homens. Já a categoria “machismo” tem forte presença nestes relatos tanto no trato de mulheres com mulheres, como entre homens e mulheres. O “machismo” é apontado como um obstáculo no relacionamento entre as organizações. Nemesia Achacollo diz: En la parte negativa vemos que todavía hay machismo dentro de la constituición misma de la federación de las departamentales. Porque vemos que las compañeras lo convocan, cuando a ellas lo necesitan. Pero el apoyo, necesitan quién les cocine, entonces para eso las mujeres sí tienen que estar, pero para otros decisivas, cuando ya tiene que decidir de su central o de su departamental, están muy poco tomadas en cuenta. (LINERA, 2004: 532) Anais do Colóquio Nacional de Estudos de Gênero e História – LHAG/UNICENTRO, p.706 O “machismo” na analise, aqui realizada, é admitido enquanto um sistema de representações simbólicas, que mistifica as relações de exploração, de dominação, de sujeição entre homens e mulheres. Segundia Flores critica os setores machistas dentro do movimento sindical, justamente por esta situação de exploração e dominação por que passam as mulheres indígenas envolvidas na Cnmiob-BS: A mi me decían: “¿ Las mujeres para qué tiene que organizarse?, si las mujeres ni siqueira su cocina está barrido, sus ollas una cochinada. Para qué, qué sabendo de organización van a organizarse, si nosostros suficiente estamos organizados. Por outro lado, para montar a las mujeres, para qué?, si se organizan las mujeres, si se capacitan, qué van a montar pues, y eso no puede ser pues”. Así me decían a mí, así decían los hombres, por eso yo decía: “ A la mujer necesitas para tu cama, a tu mujer necesitas para bailar, para hacerte servir tu comida, después para qué necesitas, para nada te sirve la mujer”. Esas cosas me han abierto el ojo, sí, mucho me ha hecho hablar, a muchos he discutido (LINERA, 2004: 508). Muitas mulheres indígenas bolivianas se queixam de não terem apoio de seu esposo, que ao negarem-se a dividir as tarefas domésticas, dificultam que a mulher possa ocupar cargos em diferentes instancias de exercício da autoridade. No relato de Sabina Choqutijla, podemos perceber como a categoria “machismo” é entendida por essas mulheres como discriminação e violência por que passam seja no interior das organizações, seja em suas relações pessoais: En mi hogar había mucha discriminación, de esa manera sé pensar mucho[...] el hombre es sólo de honra para decir que es hombre, para sacar guagua es el hombre, el hombre tiene derecho para emborracharse y dormir fuera de la casa[...] Me decían los hombres ; ¿ para qué quieren organizarse las mujeres? Nosostros ya estamos organizados, nosotros somos dirigentes con derechos, sus ollas están tan sucias, lleno de mugre, eso deben estar lavando, su cocina está tan sucia, eso deben limpiar, si ustedes salen líderes a los hombres nos pueden montar,[...] nosostros tenemos que estar arriba, ustedes no pueden estar arriba, son mujeres nomás, orinan en la pampa (AILLÓN, 2006:133). A discriminação se fez presente, dentro dos lares e das organizações indígenas, onde a presença masculina é predominante. A narrativa de Eugenia Rojas, é mais reforço a tudo que já foi relatado: nos hemos organizado las mujeres, en Escoma nos han golpeado con chicotes, yo tuve miedo, ya no nos hemos acercado con la Bárbara[...] Allí los varones estaban borrachos[...]ellos no dejan ir sus esposas diciendo que somos comunistas. (AILLÓN, 2006:80) Analisou-se que muitos dirigentes, não acreditavam que as mulheres podiam ter as mesmas capacidades que eles para exercerem funções de responsabilidade, e que Anais do Colóquio Nacional de Estudos de Gênero e História – LHAG/UNICENTRO, p.707 suas obrigações se restringiam ao âmbito doméstico, na organização do lar, no cuidado com os filhos, o que caracteriza que estamos lidando com uma sociedade patriarcal. Então, em relação às categorias “mulher” e “mulheres”, percebemos que é utilizada tanto uma categoria quanto a outra no sentido universal, o que, segundo Claire Hemmings, é comum acontecer na fala de mulheres militantes, principalmente as que atuaram nos anos 1970, quando a principal categoria usada era “mulher” (2003). Mas também como ficou evidenciado, destacamos mais uma vez que em alguns relatos o uso da categoria “mulheres”, se fez em referência às companheiras de luta dentro do universo das próprias indígenas. A categoria “feminismo” aparece como a possibilidade de reivindicações por ações de mulheres e para mulheres; a categoria “relações de gênero”, não aparece nas narrativas analisadas, apesar de algumas vezes haver comparações entre situações vivenciadas por mulheres e homens. Já o uso da categoria “machismo” foi recorrente, principalmente, quando diz respeito à dimensão da opressão e dominação por que passaram algumas das mulheres aqui estudadas. 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