U niversidade
6
ENTREVISTA: LUIZ FREITAS
“Agenda dos reformadores empresariais
pode destruir a educação pública no Brasil”
16
Escola de Engenharia de Lorena, ingresso na USP ainda incompleto
Renato Brandão
25
Nova “procuradoria disciplinar ” torna a repressão profissional
Katia Abreu e Barbara Lopes
34
“Nova ECA”, concebida “de cima para baixo”, é unanimidade negativa
Rafael Nakamura
Caderno
especial
39
Subsídios para uma Comissão da Verdade da USP
41
Ditadura matou 47 pessoas ligadas à USP, entre alunos e docentes
46
Razões de sobra para se criar a Comissão da Verdade da USP
Camila Rodrigues da Silva
51
Em memória de Ana Rosa Kucinski, assassinada pela Ditadura Militar
Rogério Ferro e Camila Rodrigues da Silva
55
ECA de Manuel Dias e Helda Barracco apagou os vestígios de Herzog
Beatriz Vicentini
61
Torturas do Exército levaram aluno Juan Forrastal ao suicídio
Luiza Sansão
B rasil
71
Polícia Militar mata à larga, como a repressão política na Ditadura
Fausto Salvadori Filho
80
Corporação de SP vê “glória” na repressão de rebeliões populares
Henrique Carneiro
E uropa
88
“Austeridade fiscal” fragiliza o ensino superior português
Maurício Hashizume
95
Na Espanha, a crise desmonta Universidade e sistema de pesquisa
Marina Gonzalez
DIRETORIA
Heloísa Daruiz Borsari, César Augusto Minto, Elisabetta Antonietta R. M. C. Santoro,
Carla Roberta Carvalho, Helder Garmes, Jessé de Oliveira, Marcelo Ventura Freire,
Demóstenes Ferreira da Silva Filho, Sérgio Souto, Fabiana Cristina Severi
Comissão Editorial
Décio Crisol Donha, Dilma de Melo Silva, Flávio César Almeida Tavares, José Marcelino
de Rezende Pinto, José Maria Pacheco, Luiz Menna-Barreto, Jessé D’Assunção Rebello
de Souza Júnior, Maurilane de Souza Biccas, Osvaldo Coggiola
Editor: Pedro Estevam da Rocha Pomar
Assistente de redação: Mariana Queen Nwabasili
Fotografia da capa: Arquivo da família Carrasco Forrastal
Editor de Arte: Luís Ricardo Câmara
Assistente de produção: Rogério Yamamoto
Secretaria: Alexandra Moretti e Aparecida de Fátima dos R. Paiva
Distribuição: Marcelo Chaves e Walter dos Anjos
Tiragem: 6.000 exemplares
Gráfica: Referência Gráfica
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A Revista Adusp é uma publicação quadrimestral da Associação dos Docentes da Universidade de São Paulo,
destinada aos associados. Os artigos assinados não refletem, necessariamente, o pensamento da Diretoria da entidade.
Contribuições inéditas poderão ser aceitas, após avaliação pela Comissão Editorial.
Comissão
da
Verdade
também na
USP
Quarenta e sete mortos ou desaparecidos políticos que possuíam algum vínculo com a Universidade. Diversos docentes e centenas, talvez milhares, de alunos presos e, em muitos casos, torturados — alguns dos quais,
mesmo depois de libertados, foram atormentados por incessantes sofrimentos psíquicos ou sequelas físicas
causadas pela tortura, e por esta razão morreram. Demissões, aposentadorias compulsórias, perseguições, delações, humilhações. Colaboração ativa de docentes em posição de mando com o regime dos generais, seja na
formulação de leis, seja na composição do próprio governo ilegítimo.
Tudo isso ocorreu durante a Ditadura Militar, como já abordado preliminarmente e com riqueza de detalhes em edições anteriores desta revista (13, de 1998; 33, de 2004, e outras). É mais do que tempo, portanto, de
se criar uma Comissão da Verdade da USP, capaz de apurar o envolvimento da instituição e de expoentes seus
nas violações de direitos humanos praticadas pelo regime instalado em abril de 1964 — a propósito, a Faculdade de Direito do Largo São Francisco saiu à frente e criou sua própria comissão, em 27 de setembro. Esta
edição traz um caderno especial que pretende fornecer novos subsídios à Comissão da Verdade da USP, ainda
que não desconheça os obstáculos interpostos no caminho do órgão proposto, a começar pelo conservadorismo
de tintas retrógradas que embala os atuais gestores da instituição.
Entre os casos que destacamos, um em especial fere a nossa sensibilidade, é praticamente desconhecido, e
por isso tornou-se a reportagem de capa, de autoria de Luiza Sansão: a prisão e tortura dos irmãos Carrasco
Forrastal, desencadeadas pela invasão do Crusp em dezembro de 1968, logo após a decretação do AI-5.
A família veio da Bolívia para o Brasil para que o jovem Juan Antonio, hemofílico, fizesse aqui seu tratamento, que resultou na amputação da perna esquerda e implantação de uma prótese. Ele e seu irmão Jorge
Rafael ingressaram na USP, no Instituto de Física e na Escola Politécnica respectivamente. Jorge foi preso, e
Juan, ingenuamente, foi à procura do irmão no II Exército, onde também acabou capturado.
Não havia limites para a crueldade do coronel Sebastião Alvim, presidente do Inquérito Policial-Militar do
Crusp, e seus comandados: a perna ortopédica de Juan era retirada para as sessões de tortura, que ocorreram
no QG do II Exército no Ibirapuera, num quartel de Quitaúna e até mesmo num hospital militar. A tragédia
consumou-se com o suicídio de Juan, em 1972, no Hospital da Cruz Vermelha de Madri.
PMs e a “licença para matar”
Reportagem de Fausto Salvadori e um artigo do professor Henrique Carneiro analisam em profundidade a
atuação das Polícias Militares no Brasil e apontam o caminho da desmilitarização e unificação das corporações
policiais como indispensável para brecar ações de extermínio como os massacres do Carandiru, Eldorado dos
Carajás e Maio de 2006, ou as execuções praticadas pela Rota em São Paulo. A sociedade civil e até a ONU já
propuseram a extinção das PMs, mas o governo federal faz ouvidos moucos.
Educação pública, com gestão pública
Reveladora a entrevista com o professor Luiz Freitas, diretor da Faculdade de Educação da Unicamp, a
propósito das intenções dos chamados “reformadores empresariais” da educação: reformas semelhantes fracassaram nos EUA, e caso venham a emplacar no Brasil terão o condão de destruir a educação pública. É preciso que também a gestão se mantenha pública, adverte ele. O PISA, índice utilizado pela OCDE como medida
universal de qualidade do ensino, é pedagogicamente desconstruído por Freitas. Vale conferir!
O Editor
Revista Adusp
Outubro 2012
caderno especial
Subsídios para uma
Comissão da Verdade
da USP
39
Outubro 2012
40
Revista Adusp
Revista Adusp
Outubro 2012
Ditadura matou
47 pessoas ligadas
à USP, entre alunos
e docentes
Camila Rodrigues da Silva
Jornalista
Alunos, ex-alunos e professores da USP foram assassinados de 1968 a
1976 pelas forças do Estado durante a Ditadura Militar. Quase todas essas
pessoas tinham militância política contra o regime, e a maioria atuava em
organizações da luta armada. Catarina Helena Abi-Eçab e João Antônio
Abi-Eçab, alunos da Filosofia e militantes da ALN, foram executados
antes mesmo do AI-5. Não há registro de qualquer esforço institucional
da Universidade, em anos recentes, para apurar as circunstâncias em que
essas pessoas foram mortas ou recuperar a sua memória
41
Revista Adusp
Outubro 2012
Trinta e nove pessoas vinculadas
de algum modo à Universidade de
São Paulo — estudantes e professores — foram assassinadas por agentes do aparato repressivo da Ditadura Militar a partir de 1968, segundo
informações do Dossiê Ditadura:
mortos e desaparecidos políticos no
Brasil (1964-1985), publicado em
2009. Oito ex-alunos da Universidade também estão entre as vítimas
fatais do regime militar. A maioria
é formada por homens e mulheres
com idade entre 20 e 30 anos.
“Nota-se que, no Brasil, as prisões, demissões e torturas foram generalizadas, mas as mortes e desaparecimentos foram bem seletivos:
a maior parte era de membros de
organizações de esquerda que estavam na luta armada”, analisa a
historiadora Janaína Teles, uma das
organizadoras do dossiê e membro
da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos.
De fato, dos 47 mortos ou desaparecidos 45 faziam parte de grupos
de esquerda, e mais da metade estava
militando em organizações da luta
armada revolucionária, como a Ação
Libertadora Nacional (ALN), o Movimento de Libertação Popular (Molipo) e a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares).
Isso se explicava pelo fato de que a
USP era um dos principais centros
do movimento estudantil e uma fonte de quadros para as organizações
clandestinas que combatiam a Ditadura Militar.
As primeiras mortes conhecidas
de estudantes da USP aconteceram
pouco antes de 13 de dezembro de
1968, data em que foi editado o Ato
Institucional nº 5 (AI-5), que teve
42
Mortos e desaparecidos
oriundos da USP
Organização Quantidade
ALN
17
Molipo
10
PC do B
4
POC
3
VAR-Palmares
2
PORT
2
MIR
2
MR-8
1
PCB
1
Fonte: Dossiê Ditadura: mortos e desaparecidos
políticos no Brasil (1964-1985), de 2009
entre seus autores o próprio reitor
da USP, Luiz Antônio Gama e Silva, que acumulava o cargo de ministro da Justiça e estava afastado
da universidade naquele momento.
Em 8 de novembro de 1968, o
casal Catarina Helena Abi-Eçab
e João Antônio Abi-Eçab, ambos
estudantes da Faculdade de Filosofia e militantes da ALN, foi morto em Vassouras (RJ). A hipótese
mais provável é de que tenham sido
presos, torturados e assassinados
por serem suspeitos de participar
da execução do capitão do exército
norte-americano Charles Rodney
Chandler, promovida por ALN e
VPR em outubro.
Um mês após a morte de Catarina e João Antônio, e quatro dias
depois do decreto do AI-5, ocorreu
uma das ações mais violentas da história da USP: a invasão do Conjunto
Residencial (Crusp) pelo Exército,
Aeronáutica e Força Pública (Revista Adusp 44, p. 56). Aproximadamente 1.400 universitários moravam
lá, mas como era período de férias
muitos não estavam. Todos os moradores presentes foram presos.
“Eu estava dormindo quando fui
acordado pelos tanques que estavam
na avenida entre o Crusp e o Rio Pinheiros. Foi de madrugada. Quando eu tentei sair, acabei sendo preso.
Quando eu fui preso, apontaram uma
metralhadora para o meu estômago”,
relata o engenheiro Hugo Marques
Rosa em depoimento para o programa Assembleia Debate, da TV Alesp.
Ele compara ao Congresso da
UNE de Ibiúna (SP), quando centenas de estudantes foram presos:
“Sabíamos do risco da repressão. Era
um congresso ilegal, então havia uma
expectativa de que isso pudesse acontecer. No Crusp foi uma violência
maior, porque as pessoas estavam
dormindo. E a forma como foi feita
foi completamente desproporcional”.
O episódio afetou a vida de vários
estudantes, que tiveram de ser alojados na casa de colegas, sem contar
os episódios de tortura. Um dos mais
chocantes foi protagonizado pelo boliviano Juan Antônio Carrasco Forrastal, um dos 29 novos casos elencados na versão de 2009 do Dossiê Ditadura, e por seu irmão Jorge Rafael.
Além de abordar o até agora
desconhecido episódio dos irmãos
Forrastal, esta edição vai revisitar
por novos ângulos dois outros casos,
de maior visibilidade: dos professores Vladimir Herzog, da Escola
de Comunicações e Artes, e Ana
Rosa Kucinski, do Instituto de Química. Todos vítimas das equipes de
torturadores e assassinos a serviço
dos Destacamentos de Operações
de Informações dos Centros de
Operações de Defesa Interna (DOICODI). Todos relegados ao esquecimento, no que depender da instituição Universidade de São Paulo.
Revista Adusp
Nome
Catarina Helena Abi-Eçab
João Antonio Abi-Eçab
Fernando Borges de Paula Ferreira
Sergio Roberto Correa
Luiz Fogaça Balboni
Norberto Nehring
Olavo Hansen
Heleny Telles Ferreira Guariba
Luiz Eduardo da Rocha Merlino
Iara Iavelberg
Manoel José Nunes Mendes de Abreu
José Roberto Arantes de Almeida
Francisco José de Oliveira
Carlos Eduardo Pires Fleury
Luiz Hirata
Ruy Carlos Vieira Berbert
Jeová Assis Gomes
Gelson Reicher
Isis Dias de Oliveira
Arno Preis
Alexander Jose Ibsen Voeroes
Lauriberto José Reys
Lígia Maria Salgado Nóbrega
Antonio Carlos Nogueira Cabral
Boanerges de Souza Massa
Miguel Pereira dos Santos
Helenira Rezende de Souza Nazareth
Juan Antonio Carrasco Forrastal
Antonio Benetazzo
Aurora Maria Nascimento Furtado
Alexandre Vannucchi Leme
Ronaldo Mouth Queiroz
Henrique Cintra Ferreira de Ornellas
Luiz Carlos Almeida
Nelson de Souza Kohl
Wânio José de Mattos
Ana Rosa Kucinski
Wilson Silva
Issami Nakamura Okano
Luisa Augusta Garlippe
Tito Alencar Lima
Suely Yumiko Kanayama
Jane Vanini
João Leonardo da Silva Rocha
Vladimir Herzog
Sidney Fix Marques dos Santos
Maria Regina Marcondes Pinto
Outubro 2012
Vinculação à USP
Aluna da Faculdade de Filosofia
Aluno da Faculdade de Filosofia
Aluno de Ciências Sociais
Aluno da Faculdade de Filosofia
Aluno da Escola Politécnica
Professor da Faculdade de Economia
Aluno da Escola Politécnica
Professora da Escola de Artes Dramáticas
Aluno de História
Professora do Instituto de Psicologia
Aluno da Escola Politécnica
Aluno do Instituto de Física
Aluno de Ciências Sociais
Aluna da Faculdade de Filosofia
Aluno da ESALQ
Aluno de Letras
Aluno do Instituto de Física
Aluno da Faculdade de Medicina
Aluno de Ciências Sociais
Formado pela Faculdade de Direito
Aluno do Colégio de Aplicação da USP
Aluno da Escola Politécnica
Aluna de Pedagogia
Aluno da Faculdade de Medicina
Formado pela Faculdade de Medicina
Aluno do Colégio de Aplicação da USP
Aluna de Letras
Aluno do Instituto de Física
Aluno de Arquitetura e Filosofia
Aluna do Instituto de Psicologia
Aluno do Instituto de Geociências
Formado pelo Instituto de Geociências
Formado pela Faculdade de Direito
Professor do Instituto de Física, formado na instituição
Aluno da Escola de Comunicações e Artes
Formado pela Faculdade de Direito
Professora do Instituto de Química, formada na instituição
Formado pelo Instituto de Física
Aluno do Instituto de Química
Formada pela Escola de Enfermagem
Aluno da Faculdade de Filosofia
Aluno de Letras
Aluna em Ciências Sociais
Formado pela Faculdade de Direito
Professor de Jornalismo
Aluno do Instituto de Geociências
Aluno de Ciências Sociais
Data da morte ou
Nascimento Organização desaparecimento
(d)
29/1/1947
4/6/1943
1/10/1945
27/7/1941
25/5/1945
20/9/1940
14/12/1937
17/3/1941
18/10/1947
7/5/1944
1/1/1949
7/2/1943
5/4/1943
5/1/1945
23/11/1944
16/12/1947
24/8/1943
20/2/1949
29/8/1941
8/7/1934
5/7/1952
2/3/1945
30/7/1947
14/10/1948
7/1/1938
12/7/1943
11/1/1944
30/1/1945
1/11/1941
17/6/1946
5/10/1950
18/12/1947
ALN
ALN
VAR-Palm
ALN
ALN
ALN
PORT
VPR
POC
MR-8
ALN
Molipo
Molipo
Molipo
AP
Molipo
Molipo
ALN
ALN
Molipo
Molipo
Molipo
VAR-Palm
ALN
ALN
PCdoB
PCdoB
25 anos
25/1/1940
27/4/1926
12/1/1942
21/4/1942
23/11/1945
16/10/1941
14/9/1945
25/5/1948
8/9/1945
4/8/1939
27/5/1937
20/1/1940
17/7/1946
POC
POC
VPR
ALN
ALN
ALN
PCdoB
ALN
PCdoB
MIR
Molipo
PCB
PORT
MIR
Molipo
ALN
ALN
ALN
8/11/1968
8/11/1968
29/7/1969
4/9/1969
25/9/1969
24/4/1970
9/5/1970
12/07/1971 (d)
19/7/1971
20/8/1971
23/9/1971
4/11/1971
5/11/1971
10/12/1971
20/12/1971
02/01/1972 (d)
9/1/1972
20/1/1972
30/01/1972 (d)
15/2/1972
27/2/1972
27/2/1972
29/3/1972
12/4/1972
6/1972 (d)
20/09/1972 (d)
29/09/1972 (d)
28/10/1972
30/10/1972
10/11/1972
17/3/1973
6/4/1973
21/8/1973
14/9/1973 (d)
15/09/1973 (d)
16/10/1973 (d)
22/04/1974 (d)
22/04/1974 (d)
14/05/1974 (d)
junho de 1974 (d)
7/8/1974
setembro de 1974 (d)
06/12/1974 (d)
junho de 1975 (d)
25/10/1975
15/02/1976 (d)
10/04/1976 (d)
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Revista Adusp
Outubro 2012
Imagens
para não esque
mortos e desaparecidos
Alexandre Vanucchi Leme
Ana Rosa Kucinski
Antonio Nogueira Cabral
Antonio Benetazzo
Frei Tito Alencar
Gelson Reicher
Helenira Rezende
Heleny Guariba
Jeová Assis Gomes
José Arantes
Ligia Salgado Nóbrega
Lauriberto Reys
44
Revista Adusp
Outubro 2012
cer:
da USP
Carlos E. Pires Fleury
Luiz Eduardo Merlino
Fernando B. Ferreira
Aurora Furtado
Iara Iavelberg
Ísis Dias de Oliveira
Issami Nakamura Okano
Vladimir Herzog
Luiz Hirata
Nelson de Souza Kohl
Norberto Nehring
Luiz Balboni Fogaça
Olavo Hansen
Ronaldo Mouth Queiroz
Wilson Silva
45
Revista Adusp
Outubro 2012
Razões
de sobra para
se criar a Comissão da
Verdade da USP
Camila Rodrigues da Silva
Jornalista
Agência Estado/1977
46
Revista Adusp
Outubro 2012
O reitor Gama e Silva constituiu já
em 1964 uma comissão secreta para
investigar atividades “subversivas” na
USP. Compunham-na os docentes Moacyr
Amaral dos Santos (FD), Jerônimo de
Campos Freire (FM) e Theodureto de
Arruda Souto (EP). A íntima articulação
e cumplicidade entre as estruturas de
poder da Universidade e a Ditadura
Militar intimidavam docentes e estudantes
e facilitavam a ação do aparato de
repressão política, como demonstra a
troca de correspondência oficial entre
reitores, diretores e o DOPS
A Ditadura Militar articulou
meios de perseguição e repressão institucional dentro da USP. A primeira
ação foi já em 1964, quando o então
reitor Luiz Antonio Gama e Silva
constituiu uma comissão especial, secreta, para investigar atividades “subversivas” na USP. Foram escolhidos
para essa tarefa os professores Moacyr Amaral dos Santos, da Faculdade de Direito (FD), Jerônimo Geraldo de Campos Freire, da Faculdade
de Medicina (FM) e Theodureto I.
de Arruda Souto, da Escola Politécnica (EP), segundo o Livro Negro da
USP, lançado em 1978 pela Adusp (e
reeditado em 2004 como O Controle
Ideológico na USP).
O relatório final dessa comissão sugeriu a suspensão dos direitos políticos de 52 pessoas, 21 das
quais (40%) eram da FM. A partir dessa lista, foram instaurados
inquéritos policiais militares que
serviram de base para abrir proces-
sos nos tribunais militares. Ao todo
foram indiciados onze professores
da Medicina: Luiz Hildebrando Pereira da Silva, Erney Plessman de
Camargo, Luiz Rey, Julio Puddles, Michel P. Rabinovitch, Pedro
Henrique Saldanha, J.M. Tacques
Bittencourt, Nelson Rodrigues dos
Santos, Reynaldo Chiaverini, Israel
Nussenzveig e Thomas Maack —
todos estes submetidos mais tarde a
julgamento e absolvidos. Na lista de
docentes de outras unidades de ensino estavam incluídos nomes como
Florestan Fernandes e Fernando
Henrique Cardoso, da Faculdade
de Filosofia, Ciências Socias e Letras (hoje FFLCH); João Batista
Villanova Artigas, da Faculdade de
Arquitetura e Urbanismo; e Paul
Singer, da Faculdade de Ciências
Econômicas e Administrativas.
Antes mesmo da conclusão do inquérito, o então governador de São
Paulo Adhemar de Barros utilizou
as prerrogativas do Ato Institucional
(o primeiro, ainda sem número) para
demitir seis professores da Faculdade de Medicina: Luiz Hildebrando,
Pedro Saldanha, Júlio Puddles, Erney Plessmann, Reynaldo Chiaverini
e Thomas Maack, além do médicoassistente Luiz Rey. As demissões se
deram por decreto publicado no Diário Oficial de 10 de outubro de 1964.
Somente Saldanha seria readmitido.
Maack foi ainda impedido de matricular sua filha na creche do Hospital
das Clínicas, segundo relato do hoje
psicanalista Reinaldo Morano Filho,
à época presidente do Centro Acadêmico Oswaldo Cruz (CAOC).
Em 1968, quando se iniciaram as
torturas e assassinatos de militantes
das organizações da luta armada, foram publicados dois decretos para
promover a aposentadoria compulsória e imediata de professores de
diversos institutos da universidade
— desta vez, sem a instauração de
nenhum inquérito, diferentemente
do ocorrido em 1964.
Tais perseguições não seriam
possíveis sem a presença de informantes e colaboradores do regime
militar. O clima de terror instaurado
na Universidade após o AI-5, com o
expurgo das lideranças acadêmicas
mais críticas e dinâmicas, eliminou
a possibilidade de continuar um debate democrático sobre a reforma
universitária, que havia se iniciado
nas duas décadas anteriores.
A intensa repressão ao movimento estudantil da USP nas décadas
de 1960 e 1970, cujos resultados foram prisões, extradições, torturas de
estudantes e professores, além das
aposentadorias compulsórias decretadas em 1969, foi facilitada pela ín-
47
Revista Adusp
Outubro 2012
tima articulação entre as estruturas
de poder da Universidade de São
Paulo e o aparato repressivo do Estado militar. Um órgão de mediação
foi criado para facilitar o trânsito
de informação: a Agência Especial
de Segurança e Informação (AESI,
vide Revista Adusp 33, p. 37).
O Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) organizou,
entre 1959 e 1975, pastas relacionadas aos diversos institutos e faculdades da USP, com a correspondência trocada entre os delegados
e diretores da Universidade, interrogatórios de estudantes, listas de
professores investigados e recortes
de jornais. Documentos acessíveis
no Arquivo do Estado de São Paulo
denunciam parte dessas relações de
proximidade entre a universidade
e o regime militar — e as lacunas
dessa história só serão preenchidas
com relatos de quem viveu a época.
Gama e Silva foi personagem
importante do regime militar e
um dos autores do AI-5. Eleito
reitor em 1963, o catedrático
do Direito permaneceu no
cargo até 1969, cumprindo,
assim, o mandato mais longo
da história da USP
Desde o golpe de 1964, expoentes da burocracia da universidade acumularam cargos em outras
esferas públicas do Estado. São
exemplares os casos dos reitores
48
Luís Antônio Gama e Silva e Miguel Reale e do vice-reitor Alfredo Buzaid, todos oriundos da FD.
Gama e Silva foi um personagem
importante do regime militar no
período de transição entre a “ditadura envergonhada” e a “ditadura
escancarada”, se adotarmos a divisão histórica de Elio Gaspari em
sua tetralogia sobre o período. Eleito reitor em 1963, o catedrático do
Direito permaneceu no cargo até
1969, cumprindo, assim, o mandato
mais longo da história da USP.
Ainda em 1964, ocupou o cargo
de ministro da Educação interinamente. Em 1967, passou a acumular
o cargo de reitor com o de ministro
da Justiça do governo Costa e Silva e, como tal, foi o principal redator do Ato Institucional número
5 (AI-5), que decretou recesso do
Congresso Nacional e eliminou os
direitos políticos dos cidadãos brasileiros, em 1968. Delfim Netto, professor de Economia da USP, tornara-se ministro poderoso e foi um dos
signatários e entusiastas do AI-5.
Em abril do ano seguinte, um decreto presidencial reorganizou o Ministério da Justiça, incumbindo o titular de formular a política do governo
federal para manutenção da ordem
jurídica e da segurança interna do
país, o que ampliou a influência de
Gama e Silva no governo. Somente
nesse momento é que ele foi substituído na Reitoria por Miguel Reale.
Antigo integralista, Reale já havia sido reitor da USP entre 1949 e
1950 e, assim, como seu antecessor,
esteve muito próximo da Presidência da República. No ano em que
assumiu a Reitoria (1969), foi incumbido pelo ditador Costa e Silva
de rever a Constituição de 1967. No
mesmo período, implantou a reforma universitária com a substituição
das cátedras pelos departamentos e
deu definitiva organização aos campi da capital e do interior do Estado.
Seu mandato terminou em 1973.
O vice-reitor de Reale foi Alfredo Buzaid, que exerceu o cargo de
diretor da FD em 1966 e foi reitor
interino em 1968, durante o mandato de Gama e Silva. No mesmo
ano em que assumiu a vice-reitoria,
em 1969, o professor e advogado se
tornou ministro da Justiça do presidente Emílio Garrastazu Médici,
e foi um dos mentores intelectuais
do Código de Processo Civil que
entrou em vigor em 1973.
Um dos principais alvos da
repressão eram os diretores
dos centros acadêmicos
(CAs), muitos dos quais
foram presos entre 1968
e 1973. Tal fato se devia à
resistência e às manifestações
contra a Ditadura Militar
em praticamente todas as
faculdades da USP
Denúncias e relatos enviados
por secretários e diretores dos institutos e faculdades da USP foram
importantes fontes de informação
da polícia política, como demonstram numerosos exemplos encontrados nas pastas das faculdades
montadas pelo DOPS.
Revista Adusp
Pedido de informações sobre Jan Talpe
Um documento de 2 de setembro de 1966, em papel timbrado
da Cidade Universitária e assinado
pelo secretário-geral Julio Mario
Stamato, é encaminhado ao delegado do DOPS Alcides Cintra Bueno Filho com o resultado das eleições dos diretórios acadêmicos e do
Diretório Central dos Estudantes
(DCE). Ele pondera que ainda faltam a lista de eleitos das faculdades
de Direito, Higiene e Saúde Pública, Medicina de Ribeirão Preto e Odontologia de Bauru, e que
eles serão “encaminhados oportunamente”. Em outubro do mesmo
ano, chegam ao DOPS o resultado
das eleições restantes e a constituição dos conselhos técnico-administrativos (CTA) das faculdades. Em
Outubro 2012
1968, o envio
do resultado
das eleições dos
representantes
estudantis foi
feito pelo próprio Buzaid,
que assinava
como “diretor
da Faculdade
de Direito no
exercício da
Reitoria”.
Um
dos
principais alvos
da repressão
eram os membros dos Centros Acadêmicos (CAs), muitos dos quais
foram presos
entre 1968 e
1973. Tal fato se
devia à intensa
resistência e às numerosas manifestações do movimento estudantil
contra a Ditadura Militar em praticamente todas as faculdades da
USP, em consonância com outras
universidades públicas e com algumas instituições particulares, como
a PUC.
Na USP, as principais pautas internas incluíam alterar o formato
das estruturas universitárias, com
comissões que reunissem professores e estudantes de forma paritária. O objetivo era estabelecer
uma nova relação entre professor
e aluno e construir uma universidade que atendesse às necessidades
da realidade brasileira, ao invés de
simplesmente copiar o conteúdo e
os métodos das universidades euro-
peias e norte-americanas. Em geral,
havia um clamor pela democratização da universidade e um forte
tom nacionalista nas reivindicações,
que se contrapunha ao caráter “colonizado” do acordo MEC-Usaid,
que guiava as modificações que o
Estado militar pretendia impor ao
ensino superior.
Há diversos exemplos de perseguição ao movimento estudantil. Em 2 de janeiro de 1969, um
documento em papel timbrado do
Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, assinado
pelo diretor técnico Geraldo Silva
Ferreira, é endereçado ao secretário de Segurança Pública, Hely
Lopes Meirelles, solicitando as
“dignas providências” para que
os doutorandos deixassem a Residência dos Estagiários até as 17
horas daquele dia. Também é pedido que seja mantido o policiamento da Guarda Civil no prédio
da Residência dos Estagiários, até
deliberação do Conselho de Administração.
Outro documento, de 1973,
relata que um investigador (não
identificado) teria conversado com
o “dr. Ilineu”, diretor administrativo, e com o “dr. Paulo”, diretor da
Medicina, no período em que as
bolsas pró-labore dos estagiários
do curso foram suspensas, o que
levou os estudantes a protestar de
diversas formas. Os diretores informaram ao investigador que os
estagiários do quinto e sexto ano
pretendiam fazer uma reunião no
interior da escola. “Sendo eles impedidos de realizá-la no interior
da Escola, poderá haver tumulto”,
encerra o documento.
49
Revista Adusp
Outubro 2012
Em 1969 Oswaldo Torres,
diretor da Politécnica, pediu
ao DOPS informações
sobre o professor belga Jan
Talpe, alegando que, por
tratar-se de “funcionário
preso em flagrante ou
preventivamente”, seria
preciso afastá-lo do cargo e
reduzir seus vencimentos
Na pasta da Escola Politécnica
foi encontrado um documento de junho de 1973, em que o delegado do
DOPS, Tácito Pinheiro Machado,
solicita diretamente à Reitoria os dados do então presidente do Grêmio
Politécnico, Marcos Alberto Castelhano Bruno, após o estudante pedir
uma posição da direção da escola e
da Reitoria sobre a prisão do colega
Marcelo José Chueiri. A Reitoria
atende prontamente ao pedido... do
DOPS. (A Revista Adusp 33, p. 48,
relata caso semelhante ocorrido em
1974, quando Luis Carlos Moreira,
presidente do Centro Acadêmico
Lupe Cotrim, tenta obter da direção
da ECA informações quanto ao paradeiro do aluno Álvaro Zini Jr., e
também termina preso.)
Em maio de 1969, Oswaldo Fadigas Fontes Torres, diretor da EP,
enviou uma correspondência ao delegado Alcides Cintra, do DOPS,
sobre a prisão do padre belga Jan
Honoré Talpe, que era professor-
50
assistente daquela escola. No documento, Torres explica ao delegado
suas preocupações: segundo o artigo 70 do Estatuto do Funcionário Público, parágrafo primeiro, “o
funcionário preso em flagrante ou
preventivamente, pronunciado ou
condenado por crime inafiançável,
será considerado afastado do exercício do cargo até condenação ou
absolvição passada em julgado” e
“durante o afastamento, o funcionário perceberá apenas dois terços
do vencimento ou remuneração,
tendo direito a diferença, se for,
afinal, absolvido”. Seis dias depois,
o delegado enviou a resposta de
que Talpe estava sob custódia do
Estado desde 27 de fevereiro de
1969, aguardando o término do seu
processo de expulsão do país.
Pode-se pensar que o diretor
apenas se valeu de um artifício
burocrático para, com isso, tentar
resguardar a segurança física do
professor, acusado de subversão
por seu envolvimento com o movimento operário de Osasco. Mas
Torres também “teve a honra” de
encaminhar informações e cópias
de documentos do ex-aluno Carlos
Alberto Vilches Viceconti, em 14
de agosto de 1970, ao mesmo delegado do DOPS.
Outra arma da repressão foi a
invasão de espaços estudantis e a
depredação de locais públicos para deslegitimar as ocupações e manifestações dos alunos. Em notícia
de 26 julho de 1967, nas Folhas, o
presidente do CAOC da Medicina
afirmou que “trinta homens fortemente armados” invadiram o centro
acadêmico à meia-noite: “Depredaram instalações, roubaram docu-
mentos e o que de mais aproveitável havia. Agiram como se o local
invadido fosse um perigoso foco de
criminosos, precisando, para tanto,
entrar de fuzil em punho, prontos
para atirar. Na madrugada, soldados
e investigadores da Policia Federal
promoveram essa invasão, chegando
a percorrer o túnel subterrâneo que
liga o edifício da Faculdade de Medicina ao Hospital das Clínicas.”
Ação parecida ocorreu no Direito, em 23 de junho de 1968, depois
que estudantes ocuparam por 26
dias as Arcadas do Largo São Francisco. Após o diretor Buzaid haver
pedido a reintegração de posse, policiais ocuparam a sede do Centro
Acadêmico XI de Agosto até julho
de 1968 e, segundo acusação dos
estudantes amplamente divulgada
nos jornais da época, depredaram a
sede. Buzaid dizia aos jornais que a
destruição era obra do vandalismo
dos estudantes.
A reabilitação dos perseguidos
e humilhados e a reparação dos danos causados mal se iniciou. Quem
mais avançou nessa seara foi a Faculdade de Medicina, uma das que
mais sofreram com a ação ditatorial
e as mesquinhas caçadas macartistas. Numa cerimônia realizada em
2008, os cientistas de renome nacional e internacional Maack, Plessmann, Hildebrando, Rey, Saldanha
e Rabinovitch receberam da FM o
título de “Professor Emérito” (Revista Adusp 44, p. 62). O ex-aluno
Reinaldo Morano Filho, que militou na ALN, foi torturado e passou
seis anos no cárcere, também foi
homenageado pela FM por ocasião
do centenário da instituição, em 14
de setembro de 2012.
Revista Adusp
Outubro 2012
Em memória de
Ana Rosa Kucinski,
assassinada pela
Ditadura Militar
Rogério Ferro e Camila Rodrigues da Silva
Jornalistas
Professora demitida em 1975 pela Congregação do Instituto de Química
da USP por suposto “abandono de função” (na verdade fora executada
pela Ditadura Militar), Ana Rosa Kucinski foi homenageada em agosto
último por docentes, estudantes, amigos e familiares. O Fórum pela
Redemocratização da USP pede que o caso seja revisto pela Congregação.
Em julho de 1995, a Reitoria cancelou a dispensa efetuada vinte anos
antes, mas a Congregação não tomou qualquer medida para reabilitar a
memória de Ana Rosa e jamais pediu desculpas
51
Revista Adusp
Outubro 2012
“Certeza da morte já é um sofrimento suficiente, por assim dizer. Um sofrimento brutal. Agora,
a incerteza de uma morte, que no
fundo é certeza, mas formalmente
não é, é muito pior. Passam-se anos
até que as pessoas comecem a pensar que houve morte mesmo. E os
pais principalmente, já mais idosos,
nunca conseguem enfrentar essa
situação com realismo.”
A leitura deste depoimento do jornalista e professor universitário aposentado Bernardo Kucinski, extraído
do livro Desaparecidos Políticos, de
Reinaldo Cabral e Ronaldo Lapa, deu
início, numa ensolarada manhã de
agosto, a um ato público realizado na
área externa do Instituto de Química
(IQ-USP), na Cidade Universitária
do Butantã, que lembrou e pediu reparações às injustiças sofridas por sua
irmã, Ana Rosa Kucinski.
Militante da Ação Libertadora
Nacional (ALN), a professora do
IQ foi capturada em 22 de abril
de 1974, torturada e morta nesse
mesmo ano pelos órgãos de repressão da Ditadura Militar. Dezenove
meses depois, uma votação na 46ª
reunião mensal da Congregação do
instituto decidiu por sua demissão
por “abandono de função”, apesar
de saber-se de suas atividades políticas e de seu desaparecimento
(Revista Adusp 33, p. 92).
Organizado pelo Fórum Aberto
pela Democratização da USP, movimento que reúne cerca de vinte grupos organizados dentro da universidade, o ato em memória de Ana Rosa foi realizado em frente ao espaço
conhecido como “Queijinho”, complexo de salas de aula do IQ, e aglomerou algumas dezenas de pessoas
52
entre familiares e amigos da vítima,
professores, funcionários e alunos.
Concretamente, o movimento
reivindica da Congregação a revogação da decisão de 1975, e propõe
que o “Queijinho” receba o nome
de Complexo Ana Rosa Kucinski.
“É nosso dever reparar um equívoco cometido no passado. Primeiro,
porque a Congregação do IQ não
é mais a mesma. Segundo, porque
hoje não vivemos mais sob a Ditadura, como em 1974. Terceiro,
porque as pressões políticas que
levaram à aprovação do desligamento por abandono de função não
podem mais existir em uma universidade comprometida com valores
democráticos e com os direitos humanos”, diz o documento do Fórum
Aberto pela Redemocratização.
Após a inclusão do nome da
professora do IQ na lista da
CEMDP, a Reitoria adotou seu
único gesto de revisão do caso:
o reitor Flávio Fava de Moraes
determinou o cancelamento
da rescisão contratual por
abandono de serviço, em
despacho de 18/7/1995
Bernardo Kucinski, autor de uma
angustiante descrição da rotina de
seu pai em busca da filha Ana Rosa,
no livro K., publicado em 2011, esteve presente no ato. Durante a manifestação, ele se disse “cansado”. Afi-
Daniel Garcia
Professor Bernardo Kucinsky
nal, só em 1995, 21 anos depois do
desaparecimento de sua irmã, a lei
9.140 incluiu o nome da vítima em
uma lista de pessoas que se encontravam desaparecidas “em razão de
participação, ou acusação de participação, em atividades políticas, entre
2/9/61 e 15/8/79, e que por este motivo tenham sido detidas por agentes
públicos”. Tal lista foi examinada pela Comissão Especial sobre Mortos e
Desaparecidos Políticos (CEMDP),
instituída por essa mesma lei, e Ana
Rosa foi finalmente declarada vítima do Estado brasileiro. Pode-se
entender que nessa época terminou
a já frágil esperança da “incerteza
da morte” a que Kucinski se referia
em seu depoimento.
Após a inclusão do nome da professora do IQ na lista da CEMDP, a
Reitoria da USP adotou seu único
gesto de revisão do caso: a pedido
do professor Bernardo Kucinski, o
reitor Flávio Fava de Moraes determinou o cancelamento da pena de
Revista Adusp
Outubro 2012
e outros membros da Congregação
que estiveram na reunião, não houve votação formal para decidir se a
carta de repúdio seria publicada.
“O Brasil silenciou, negou,
minimizou, encobriu as
feridas do passado recente
e assim fez também a USP.
Mas chegou a hora de falar,
de contar essas histórias. Só
assim será possível entender
O livro de Bernardo...
... e o de Guerra
dispensa (rescisão contratual) por
abandono de serviço, em despacho
de 18/7/1995, publicado no Diário
Oficial do Estado de 27/7/1995. Uma
medida puramente formal. Apenas
isso: não deu divulgação ao ato, não
advertiu os envolvidos, nem reconheceu sua dívida moral com a família da vitima. Já os integrantes da
Congregação jamais se desculparam.
Para Bernardo Kucinski, a USP
de hoje tem práticas institucionais
que a distanciam do que deveria ser
uma instituição democrática. Como
exemplo, citou a reunião recente da
Congregação do IQ em que o diretor da unidade propôs um voto de
repúdio ao teor do seu livro K. “Se
ainda há gente tentando desqualificar meu relato, sinceramente,
não acredito que vá acontecer algo
importante depois dessa nossa manifestação aqui”, lamentou.
Na reunião de junho da Congregação, o diretor Fernando Rei Ornellas sugeriu que se fizesse uma
moção de desaprovação a um capítulo do livro K., “A Reunião da Congregação”, publicado na edição 52
da Revista Adusp. O diretor sentiu-se
ofendido quando, numa passagem
assumidamente especulativa do texto de Bernardo Kucinski, o professor Otto Gottlieb, ao avaliar o comportamente dos colegas no decorrer
da reunião, refere-se — apenas em
pensamento — ao professor Ernesto
Giesbrecht, presidente da Congregação, e portanto o principal responsável direto pela desonrosa demissão
de Ana Rosa, como schwein (“porco”, em alemão).
“Ele [Giesbrecht] foi meu professor e era uma das pessoas mais
doces deste instituto”, declarou à
reportagem da Revista Adusp o diretor do IQ. “Achei uma injustiça. E
o professor Otto nunca falaria aquilo do professor [Geraldo] Vicentini!
Mas conversei com alguns professores que me aconselharam a não
mexer com isso”. Segundo Ornellas
o presente e olhar para o
futuro”, declarou a professora
Elisabetta Santoro, da Adusp
“Estou aqui em respeito à velha
guarda, aos colegas, camaradas e amigos que eu sabia que estariam presentes”, afirmou Kucinski no ato. Suas
declarações, no entanto, não devem
ser interpretadas como uma desistência ou resignação perante a derrota
da democracia. Talvez sim, uma passagem de bastão. “Cabe aos jovens,
que são poucos aqui hoje, organizar
essas coisas, eu estou cansado. Tudo
isso foi muito desgastante. As novas
bandeiras surgem e com elas, novas
necessidades, o que é compreensível.
O que não pode é o passado ficar para
o passado, esquecido”, alerta.
É o que pensa Marcela Espósito Baena, 20 anos, aluna do curso
de licenciatura em Química e uma
das participantes do ato. “Temos
que, em conjunto, continuar cons-
53
Outubro 2012
truindo uma democracia
que, para nascer, derramou sangue no Brasil”,
diz. “Nossa principal reivindicação é que a Congregação do Instituto
reconheça oficialmente
a professora Ana Rosa
como uma desaparecida política, alguém que
foi assassinada pelo regime militar e reveja seu
processo”, explica Fábio
Franco, diretor da Associação dos Pós-Graduandos (APG) da USP.
“O Brasil silenciou,
negou, minimizou, justi- Professora Elisabetta Santoro
ficou, encobriu as feridas
do seu passado recente e assim fez no início do ato, que contém totambém a USP. Mas chegou a ho- das as reivindicações relativas ao
ra de falar, de contar essas histó- processo da professora Ana Rosa
rias. Essas histórias precisam ser Kucinski, foi entregue à direção
conhecidas e seus protagonistas do IQ.
lembrados. No lugar de silenciar e
Recentemente, o ex-delegado do
justificar, é preciso passar a limpo DOPS-ES e ex-agente do Serviço Nao passado, pois só assim será pos- cional de Informações (SNI) Cláudio
sível entender o presente e olhar Guerra apontou Ana Rosa e seu espara o futuro”, declarou em leitu- poso Wilson Silva, também militante
ra emocionada Elisabetta Santoro, da ALN, como duas das pessoas que
vice-presidente da Associação dos tiveram os corpos incinerados por
Docentes da USP (Adusp).
ele na Usina Cambahyba (RJ), em
O Fórum Aberto pela Demo- 1974. “Eu e o sargento Levy, do DOI
cratização da USP considera que [Destacamento de Operações de Ina Universidade foi um palco privi- formações], fomos levar seus corpos.
legiado das ações de repressão po- Os dois estavam completamente nus.
lítica e que muitas histórias ainda A mulher apresentava muitas marcas
precisam ser contadas sobre esse de mordida pelo corpo, talvez por
período. Por isso, o movimento ter sido violentada sexualmente. O
reivindica a instalação de uma Co- jovem não tinha as unhas da mão dimissão da Verdade da USP, dota- reita. Tudo levava a crer que tinham
da de autonomia e independência sido torturados. Não havia perfurapara apurar as graves violações de ção de bala neles. Quem morre de
direitos humanos ocorridas no pe- tiro não sofre. Morte por tortura é
ríodo de 1964 a 1985. A carta lida muito mais desumano”.
54
Revista Adusp
Daniel Garcia
Ainda segundo Guerra, foram
incinerados no local mais oito cadáveres de pessoas assassinadas no
DOI-CODI e na Casa da Morte, em
Petropólis (RJ), e alguns que vieram
de São Paulo. A revelação consta
do livro Memórias de uma guerra suja, lançado em maio deste ano pelos jornalistas Rogério Medeiros e
Marcelo Netto, que colheram um
longo e detalhado depoimento do
ex-delegado sobre seu envolvimento
nas atrocidades cometidas pela Ditadura Militar.
Após o ato, o diretor do IQ, Fernando Rei Ornellas, foi questionado se a revisão da demissão da
professora Ana Rosa seria item da
pauta da reunião seguinte da Congregação, em agosto. “Nem a direção nem a assistência acadêmica
receberam nenhum pedido formal
de revisão do caso. O assunto será
pauta se algum conselheiro levá-lo
para a reunião da Congregação”,
disse Ornellas.
Revista Adusp
Outubro 2012
ECA de Manuel Dias
e Helda Barracco
apagou os vestígios
de Herzog
Beatriz Vicentini
Jornalista
Fotos: Acervo Instituto Vladimir Herzog
Aquela segunda-feira de outubro de
1975 em que se soube, na USP, da
morte de Vlado Herzog, permanece
em minha memória: sinto ainda
o frio da sarjeta, onde muitos
permanecemos sentados durante
parte da manhã, na ECA, olhando
no vazio... Nos últimos anos vieram
à tona fatos chocantes, como a
ordem da chefe do Departamento de
Jornalismo para apagar o nome de
Herzog do Relatório de Atividades
55
Revista Adusp
Outubro 2012
Quanto ainda haverá para se descobrir em torno da vida de Vladimir
Herzog, morto nas dependências do
Destacamento de Operações de Informações (DOI-CODI) do II Exército em 25 de outubro de 1975? Entre
agosto e outubro daquele ano fatídico, Vlado foi professor da disciplina
Jornalismo Televisionado na Escola
de Comunicações e Artes (ECA),
como relembram vários de seus exalunos. Mas o que houve entre o seu
cotidiano docente e as tentativas para apagar sua passagem pela ECA,
poucos sabem. Não envolveu apenas a sua memória, mas o futuro de
Diléa Frate, aluna recém-formada
que começara a dar aulas naquele
semestre, praticamente escorraçada
da escola pelo diretor Manuel Nunes
Dias, depois que ela deixou as celas
do Departamento de Ordem Política
e Social (DOPS, a polícia política),
onde esteve presa no mesmo período
em que Vlado foi morto.
Aquela segunda-feira, 27 de outubro de 1975, em que se soube,
na USP, da morte de Herzog, permanece em minha memória: sinto
ainda o frio da sarjeta, onde muitos
permanecemos sentados durante
parte da manhã, na ECA, olhando
no vazio, sem entender, querendo
saber mais do que havia acontecido. Informações desencontradas,
a contradição entre as conversas
quase sussurradas e as tentativas de
se promover assembléias, ficaram.
A sensação de medo, de insegurança, comentários que se multiplicavam em voz baixa. Além da morte
de Vlado, que a maioria dos estudantes não havia conhecido pessoalmente, havia ex-alunos e alunos mais próximos do convívio de
56
muitos que foram presos naquela
ocasião e que permaneciam encarcerados. E isso assustava!
Eram tempos em que ainda se falava muito pouco e ficava difícil saber
o que realmente acontecia, especialmente para nós, calouros. Ao longo
daquela semana, não importava que
não houvesse aulas, ninguém deixava
de ir à ECA — onde faixas de indignação contra a morte do professor e a
prisão de colegas já se espalhavam —
mesmo que fosse apenas para tentar
conversar, saber. Éramos centenas de
estudantes em greve, enfrentando o
próprio medo. Mas muito do que eu
soube e entendi só foi possível muitos
anos mais tarde, como talvez ocorreu
com muitos de nós.
Gabriel Priolli, aluno da ECA
em 1972, foi estagiário de
Herzog na TV Cultura: “Vlado
me chamou à sua sala, na
noite de 24 de outubro:‘Posso
ser preso a qualquer momento,
então pegue os trabalhos da
sua turma e devolva aos seus
colegas’, ele me pediu”. No dia
seguinte, Vlado estaria morto
Em 2012, durante reencontro da
turma de Jornalismo de 1972, a única a quem Vladimir Herzog deu aulas, o ex-professor foi homenageado.
Apesar da passagem dos anos, alguns
daquele grupo se lembram dele, com
quem, contudo, a maioria realmen-
te teve pouca convivência. História
das mais significativas é a de Gabriel
Priolli, que relembrou a entrega de
trabalhos para avaliação da disciplina, dias antes da morte de Herzog.
Priolli, que além de aluno na ECA
era estagiário de Herzog no jornalismo da TV Cultura, falou do clima
tenso que envolvia quem trabalhavam na emissora, com denúncias contra a “infiltração comunista” que ali
estaria acontecendo. “Não estranhei
quando Vlado me chamou à sua sala,
no início da noite de 24 de outubro,
para dizer que a situação estava se
agravando e poderia atingi-lo. ‘Posso
ser preso a qualquer momento, então
pegue aqui os trabalhos da sua turma
e devolva aos seus colegas’, ele me
pediu. ‘Quando as coisas se acalmarem, a gente vê como faz a avaliação
do curso”, registrou Priolli. No dia
seguinte, um sábado, Vlado estaria
morto e a Priolli só restou devolver
os trabalhos aos colegas de turma.
Outro jornalista daquela turma
que registrou em artigo o choque daquela segunda-feira foi Paulo Eduardo Nogueira. “Logo cedo, nós nos
reunimos na ECA para discutir como
enfrentar a situação. Um dos colegas
redigiu rapidamente um panfleto para distribuirmos no enterro de Vlado
e o assinou em nome da Comissão
Universitária... Chegando ao cemitério, no fim da manhã, distribuímos o
texto para algumas pessoas. Nunca li
menção a este detalhe em nenhum
lugar. Talvez a panfletagem tenha
sido muito discreta, como exigia a
época”, descreveu ele, anos depois.
Em 2012, Paulo relembrou que não
mais do que quatro ou cinco colegas
foram com ele ao cemitério num clima de muita tensão.
Revista Adusp
Outubro 2012
Daniel Garcia/2004
tinente”, é motivo de indignação:
“Não existiu sequer a possibilidade
de vê-lo como um ser humano que
havia morrido e deixava filhos, mãe
e esposa. A direção do departamento não enviou sequer um voto de pêsames à família do colega falecido”.
Clarice recorda-se bem de que,
após a morte de Vlado, nunca
houve qualquer contato da
USP, algo da instituição ou
Professora Alice Mitika
A passagem de Herzog pela
ECA por muito pouco não foi apagada. Algo que se iniciou logo após
sua morte, e que publicação da professora Alice Mitika Koshiyama,
de 2008, denuncia. No artigo “A
prática política para ser jornalista”,
ela relata o que aconteceu no Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA, naquele segundo
semestre. “Colocamos o nome de
Vladimir Herzog no rascunho do
‘Relatório de Atividades de 1975’
mas o nome dele foi suprimido do
texto ‘oficial’, por ordem da chefe,
professora doutora Helda Bullotta
Barracco, que arbitrariamente se
recusou a ouvir quaisquer protestos, alegando ordens superiores...
Todas as pessoas do corpo docente (efetivos, contratados, à espera
de contratos e voluntários), exceto
Herzog, figuraram no Relatório”.
Documentos comprovam o registro de Alice, até hoje docente do
mesmo departamento. Em 13 de
agosto de 2012, o diretor da ECA,
Mauro Wilton de Souza, em resposta a pedido de informações sobre os
docentes que ministraram disciplinas
no Departamento de Jornalismo em
1975 e 1976, encaminhou cópia daquele relatório, à qual faltam algumas páginas se considerada a lógica
da numeração dos itens. Em seguida
a uma listagem de 39 nomes datilografados à máquina e com a devida identificação da categoria a qual
pertenciam como docentes, aparece,
escrito à mão, o nome “Wladimir
Herzog” (grafado assim, com W). O
procedimento se repete na relação
de professores e respectivas disciplinas. Em Jornalismo Televisionado,
oferecido ao 7º semestre, aparece à
máquina o nome de Gisela Swetlana
Ortriwano e, de forma manuscrita,
“W. Herzog”.
Em 2012, Alice explica que
professores ministrarem aulas sem
contrato, de forma voluntária, como aconteceu com Herzog, não era
fato incomum, e diz que outras arbitrariedades, ainda mais graves,
ocorreram na Universidade. Mas
em seu artigo o comportamento de
certos colegas, para os quais Herzog
“representava uma presença imper-
dos professores da ECA para
com a família. “Todos tinham
muito medo. No entanto seus
alunos estiveram no enterro,
os estudantes foram à missa”
Clarice Herzog, viúva do jornalista e professor, explica que Herzog
gostava de dar aulas para estar em
contato com os jovens, e expor as
possibilidades de um jornalismo sério apesar dos limites impostos pela
Ditadura Militar: “O Vlado começou
dando aulas na FAAP [Fundação Armando Álvares Penteado], convidado
pelo Perseu Abramo. Havia um projeto sério para o curso de jornalismo
e Perseu procurou muita gente boa
para trabalhar com ele. Depois, em
função da ditadura, Perseu foi despedido e o grupo saiu junto”, conta ela.
Quanto à ECA, Clarice recorda-se bem de que, após sua morte,
nunca houve qualquer contato da
USP, algo formal da instituição ou
dos professores da ECA para com a
57
Revista Adusp
Outubro 2012
Nome de Herzog foi anotado à mão no relatório de 1975
família. “Todos tinham muito medo.
No entanto seus alunos estiveram
no enterro, os estudantes foram à
missa”. Apesar do silêncio daquele
tempo, Clarice se surpreendeu ao
saber, por mim, da orientação para
que o Departamento de Jornalismo
e Editoração ocultasse a passagem
de Herzog pela ECA. Foi a primeira vez que ela ouviu tal informação.
Vladimir Herzog chegou à ECA
a convite de Diléa Frate. Recémformada em Jornalismo na própria
ECA, ex-aluna brilhante, Diléa fora
recomendada por seus professores para assumir algumas aulas e
já cursava o mestrado. Uma história que ela conta, destacando que
ninguém antes teve interesse em
saber detalhes. “Meu projeto de
vida era cheio de romantismo: eu
não queria ser jornalista. Queria
ser professora universitária, achava
lindo ser professora da ECA. Os estágios, o trabalho, eram apenas um
aprendizado para ser uma docente
melhor”, desabafa.
58
Mas nada aconteceu como ela
sonhara aos vinte anos. Diléa, que
aparece na listagem oficial de 1975
como professora assistente, em fase de contratação, diz que conseguiu convencer Vlado — amigo
muito próximo do também jornalista, ex-aluno da ECA, Paulo
Markun, com quem era casada à
época — a dar aulas de Telejornalismo, apesar de sua restrição de
tempo: “Ele gostava de estar com
jovens. Sabia muito de cinema, de
televisão, era um tremendo profissional. Eu tinha bom trânsito
na escola, não houve restrições ao
convite. Eram tempos de distensão,
as pessoas acreditavam que o país
estava mudando, Vlado e eu não
éramos quadros do Partido Comunista [PCB, Partido Comunista
Brasileiro]. Ele nem quis discutir
salários e acabei acompanhando-o
em algumas aulas”, lembra ela.
Só que Diléa foi presa junto
com Markun, no dia 17 de outubro, ao lado de vários outros
jornalistas de São Paulo, acusados
naquelas semanas de pertencerem
ao PCB. Embora esse partido, colocado na clandestinidade, não
estivesse envolvido em ações armadas, ele se tornou alvo da Operação Jacarta, violenta iniciativa
dos órgãos de repressão política
da Ditadura Militar que resultou
no assassinato de vários membros
da direção do PCB.
Diléa acabou liberada apenas no
dia 25, depois da morte de Vlado.
“Recebi um recado para que, ao
voltar à ECA, antes de qualquer
coisa, passasse pela sala do diretor. Estava amedrontada com tudo
que enfrentara na prisão, inclusive
as torturas, e obedeci. O diretor
Manuel Nunes Dias, que me conhecia e com quem eu tivera uma boa
convivência como aluna, me passou um ‘sabão’, dizendo que jamais
me imaginara uma comunista, que
eu o enganara, que tinha destruído
minha carreira universitária, que
saísse imediatamente dali”.
Revista Adusp
Outubro 2012
Daniel Garcia/2011
Clarice Herzog
Pressionada pelo diretor da
ECA, Diléa Frate abandonou
as aulas e o mestrado, e
não recebeu uma única
manifestação de docentes do
Departamento. Na Telesp,
onde editava Entrelinhas, foi
demitida no dia seguinte à sua
saída do DOPS. “Da noite
para o dia virei o diabo. Todo
mundo me virou as costas”
Chocada e intimidada, Diléa efetivamente saiu. E não voltou à USP, até
poucos anos atrás. Deixou as aulas, o
mestrado, e não recebeu uma única
manifestação, sequer, de professores
do Departamento de Jornalismo e
Editoração. Na Telesp, onde editava
a revista Entrelinhas, sua demissão
foi formalizada no dia seguinte à saída do DOPS.
“Da noite para o dia virei
o diabo. Todo mundo me
virou as costas”. Nos documentos fornecidos pela
ECA em 2012 encontramos
confirmações da história
relatada por Diléa. No Relatório de 1975, seu nome
aparece como docente vinculada à disciplina Jornalismo Informativo, bem como
entre professores que tiveram pesquisas individuais
referenciadas. No seu caso,
na área de Jornalismo de
Humor no Brasil e como
supervisora de três números do boletim da Agência Universitária de Notícias. Em 1976, porém,
seu nome já não integra a listagem
dos professores do Departamento.
Há ainda outras questões do Departamento de Jornalismo pouco divulgadas. Foi a própria professora
Alice Mitika quem registrou que, naquele segundo semestre de 1975, o
“Conselho do Departamento de Jornalismo e Editoração aprovou a contratação de um senhor, João Ulisses
Cardoso, que se declarava publicamente ex-jornalista e policial de profissão, negando qualquer afinidade
com atividades de ensino e pesquisa”.
Mas há mais: no livro A Ditadura
Encurralada, Elio Gaspari recuperou documento do Centro de Informações do Exército, de 4/11/1975,
que abre outra polêmica: “Durante o
tempo em que João Walter Sampaio
Smolka ficou à frente do telejornalismo do Canal 2, procurou cooperar
com os órgãos de segurança, cooperação essa que se estendia até sua
função na ECA”. Sampaio coordenou o Departamento de Jornalismo e
Editoração até abril de 1975, quando
deixou a ECA, e foi demitido da TV
Cultura em agosto. Dupla coincidência: Herzog passa a atuar na ECA
em agosto, para ministrar a disciplina
da qual Sampaio era professor até o
semestre anterior, e assume na TV
Cultura. Em 2004, dois anos após sua
morte, Sampaio foi homenageado
em seminário realizado no Museu de
Arte Contemporânea, quando vários
depoimentos apontaram na direção
oposta à sugerida pelo documento do
Exército. Um deles foi do professor
Sinval Medina: “Lembro quando os
agentes vieram prender o professor
Jair Borin. A ECA vivia os momentos mais duros da Ditadura. Sampaio
não pensou duas vezes e insistiu para acompanhar Borin. Queria ter a
certeza de que o professor não iria
desaparecer pelo caminho”.
Diléa Frate, entretanto, não se
surpreende com tais descrições. Conta que quando chegou ao DOPS, vinda do DOI-CODI depois de quatro
dias de torturas, sua identificação digital foi feita por Dulcídio Wanderley
Boschilia, dublê de juiz de futebol
e policial: “Ele riu de mim. Provocou, dizendo que éramos todos muito
trouxas, que ele tinha muitos amigos
na USP, infiltrados não só na ECA,
mas na Universidade inteira”.
A dubiedade do registro da passagem de Herzog como professor da
ECA e a “expulsão” informal de Diléa são apenas dois exemplos, entre
diversos casos semelhantes. Naqueles
anos tornara-se comum na USP que
profissionais ministrassem aulas durante meses, sem receber sequer um
centavo por seu trabalho e sem que
59
Revista Adusp
Outubro 2012
Luana Laux
Diléa Frate
seus vínculos fossem reconhecidos pela Universidade. Por outro lado, havia
os professores que aguardavam a formalização de contratos que, porém,
nunca chegava a ocorrer, porque eram
barrados na “triagem ideológica”.
“A ‘triagem ideológica’
não deixa nenhum vestígio
material, sua sistemática é
a seguinte: os processos de
contratação devem passar
por uma ‘Comissão Especial’
ligada à Reitoria. Neste estágio
é feita a consulta aos órgãos
de segurança, sem nenhum
despacho escrito de modo a não
ficar vestígio algum”, afirmou
a CPI da USP de 1977
60
Atividades de Diléa constam do relatório
A existência desse controle ideológico na contratação de professores tornou-se pública pela Comissão
Parlamentar de Inquérito da Assembléia Legislativa de São Paulo sobre
a USP: “A ‘triagem ideológica’ não
deixa nenhum vestígio material, visto que sua sistemática é a seguinte:
na tramitação normal dos processos
de contratação devem eles passar
por uma ‘Comissão Especial’ ligada à Reitoria. Neste estágio é feita
a consulta aos órgãos de segurança, sem nenhum despacho escrito
de modo a não ficar vestígio algum.
Segundo o parecer oriundo de tais
consultas espúrias, a critério do reitor, o processo segue sua tramitação
ou é pura e simplesmente arquivado”, afirmou a CPI em seu relatório
final, em novembro de 1977.
A CPI chegou a oficiar ao Conselho Universitário da USP, aler-
tando o colegiado sobre as evidências de “um processo ilegal, ainda
que informal, que se convencionou
chamar ‘triagem ideológica’, isto
é, a consideração por parte dos
órgãos universitários responsáveis
pela contratação de docentes, de
razões de ordem ideológica, extraacadêmica, a determinação à aprovação ou não de qualquer processo
de contratação”. Não há nenhuma
resposta do colegiado arquivada
no processo.
Mas alguns registros sempre escapam. Como o de Diléa. “Preferi
seguir olhando para o futuro ao invés de me apegar ao passado, mover processos contra instituições.
Me botaram muito medo àquela
época e nunca imaginei que resquícios de minha passagem como docente da ECA tivessem permanecido. Felizmente nem tudo some”.
Revista Adusp
Outubro 2012
Torturas
do Exército
levaram aluno Juan
Forrastal ao suicídio
Luiza Sansão
Jornalista
O militante político sabe
dos riscos que corre.
Eventualmente, no entanto,
o terrorismo de Estado colhe
cidadãos comuns em suas
engrenagens dilacerantes. Em
dezembro de 1968 os irmãos
Jorge Rafael e Juan Antonio
Carrasco Forrastal, estudantes
bolivianos da USP sem
militância política, foram presos
pelo II Exército e torturados
por meses. Embora hemofílico
e amputado, Juan não foi
poupado: sob o comando do
coronel Sebastião Alvim, sua
perna ortopédica foi arrancada
para as sessões de tortura
no QG do Ibirapuera e em
Quitaúna. Juan matou-se em
1972, em Madri
61
Revista Adusp
Outubro 2012
Na crônica das violências da Ditadura Militar contra os estudantes
da USP, 17 de dezembro de 1968
ficou marcado como o dia em que
o Conjunto Residencial (Crusp) foi
invadido por tropas do Exército,
Marinha e Força Pública. Mais de
mil alunos teriam sido presos. Algumas das histórias relacionadas
ao episódio são conhecidas. Outras
ficaram esquecidas. Mas enganase quem pensar que nada de grave
aconteceu ali. O episódio da invasão do Crusp teve desdobramentos
de tal crueldade e ignomínia que
custa descrevê-los. O caso dos irmãos Forrastal impressiona pela
covardia dos torturadores e absoluto desrespeito à dignidade humana.
O estudante boliviano Jorge Rafael Carrasco Forrastal, que cursava
engenharia na Escola Politécnica,
morava no Crusp e estava presente
no momento da invasão — logo,
foi preso, embora não tivesse qualquer militância política. Ao saber
da prisão, seu irmão Juan Antonio,
estudante do Instituto de Física,
franzino, hemofílico, portador de
uma prótese na perna esquerda, foi
procurar Jorge Rafael no II Exército. Tudo poderia haver terminado
aí. Não terminou.
Juan Antonio foi imediatamente preso. Sequer passou pela cabeça dos militares que, fosse ele um
militante político de organização
clandestina, jamais apareceria no
Exército à procura de qualquer pessoa, muito menos uma semana após
a aprovação do draconiano AI-5.
Arrancaram-lhe a bengala e a perna ortopédica, surraram-no, e ali
apenas começava seu calvário de
puro terror.
62
Agência Estado
Invasão do Crusp em dezembro de 1968
Jorge Rafael e Juan Antonio
Carrasco Forrastal vieram para o
Brasil com os pais, Olga Forrastal
de Carrasco e Antonio Carrasco
Bustillo, em 1965, para tratar a
hemofilia de que sofria Juan Antonio, que em seguida teve sua perna
esquerda amputada. “A doença de
Juan precisava ser tratada no Brasil, pois aqui na Bolívia não havia
ainda condições para que sua perna fosse amputada”, conta à Revista Adusp sua irmã, Teresa Carrasco
de San Martin, hoje com 71 anos.
Ela veio para o Brasil mais tarde,
em 1984. Hoje vive em La Paz com
o marido e a filha, Fernanda San
Martin Carrasco.
Teresa explica que não ter envolvimento com atividades políticas era
pré-requisito para que estrangeiros
obtivessem direito a uma vaga na
universidade — era inclusive necessário que assinassem documento
garantindo que não tinham participação política — e, assim, Jorge
Rafael e Juan Antonio ingressaram
na USP, cursando respectivamente
Engenharia Elétrica e Física Nuclear. Nem os estudantes nem seus
pais tinham qualquer envolvimento
com política, na Bolívia ou no Brasil. Como os filhos não possuíam
bolsa de estudos, os pais fizeram
grandes esforços para mantê-los no
Brasil. Antonio Bustillo era contador e Olga passou a trabalhar como
secretária no Conselho Federal de
Farmácia, em São Paulo.
De acordo com relatório da Comissão Especial sobre Mortos e
Desaparecidos Políticos (CEDMP),
de 2006, para o qual prestaram depoimentos os pais dos estudantes e
duas amigas da família, “assim que
soube da prisão de Jorge Rafael, o
irmão foi procurá-lo no II Exército,
onde também foi detido sob o argumento de que era aluno da USP”.
Teresa acredita que Juan Antonio,
que não estava no Crusp no momento da invasão, tenha tomado
conhecimento da prisão do irmão
dois dias depois.
Outubro 2012
Arquivo da família Forrastal
Revista Adusp
Em pé: Juan e Jorge. Sentados: Olga, Antonio e Teresa (La Paz, 1964)
“Meus filhos desapareceram
do Hospital Militar e do II
Exército [QG] do Ibirapuera.
Soubemos que foram levados
para o quartel de Quitaúna,
onde o comandante era o
coronel Alvim. E sob seu
comando continuavam as
torturas de forma selvagem”,
relatou Olga à CEMDP
Foi no quartel-general do II Exército, no Ibirapuera, que começaram
as torturas, a fim de que os estudantes fornecessem informações sobre
sua participação em movimento polí-
tico contrário ao governo e sobre colegas com militância. Àquela altura,
Olga e Antonio procuravam os filhos
em vários quartéis, e os militares se
recusavam a fornecer informações
sobre onde eles estariam, até que
conseguiram encontrá-los no Ibirapuera. “Quando minha avó [Olga]
soube o que estava acontecendo e viu
que a vida de Juan estava em perigo,
procurou o cônsul da Bolívia, Alberto del Carpio, e conseguiu levar Juan
para o Hospital das Clínicas. Mas
os militares não esperaram a recuperação do Juan e o levaram para o
Hospital Militar de Cambuci, em São
Paulo”, conta a sobrinha Fernanda.
Porém, as torturas não pararam nem
mesmo no período em que Juan esteve internado: “No Hospital Militar,
não somente continuaram as torturas
físicas, mas também psicológicas, e
ameaças, inclusive com a possibilidade de desaparecimento de seus pais”,
contou Olga Carrasco à CEMDP.
Não se sabe ao certo por quanto
tempo Juan Antonio permaneceu internado, mas em depoimento escrito,
hoje em posse de Teresa, Olga registrou: “Depois meus filhos desapareceram do Hospital Militar do Cambuci e
do II Exército do Ibirapuera. Passados
vários dias em que ninguém queria
nos dar notícias deles, soubemos que
foram levados para o quartel de Quitaúna, de São Paulo, onde o comandante era o coronel Alvim. E sob seu
comando continuavam as torturas de
forma selvagem (...). A saúde física e
psicológica dos meus filhos estava terrivelmente prejudicada, em especial a
saúde mental de Juan Antonio”.
Na busca pelos filhos, Olga e Antonio foram diversas vezes intimidados por militares. “O próprio coronel
Alvim ameaçou minha mãe. Disse
a ela que a posição dele era a do sobrenome dela: Carrasco”, conta Teresa, com a voz embargada. O coronel
Sebastião Alvim era o presidente do
63
Revista Adusp
Arquivo da família Forrastal
Outubro 2012
Juan na entrada do Instituto de Física da USP (1965)
Inquérito Policial-Militar (IPM) do
Crusp. Um veterano da repressão,
atuou no navio-prisão Raul Soares,
ancorado em Santos e onde submetia
os presos a longas horas de permanência na geladeira da embarcação.
As ameaças de morte continuaram enquanto os pais recorriam a
autoridades, como o cônsul boliviano, para tirar os rapazes da prisão,
vivendo um processo de sofrimento
profundo e incertezas com relação
ao que aconteceria com Juan e Jorge. No quartel do 4º Batalhão de
Infantaria Blindada, em Quitaúna,
as torturas se intensificaram, “ocasionando sério desequilíbrio mental
em Juan Antonio, que já era fisicamente debilitado”, de acordo com o
relatório da CEMDP. Os militares,
durante as sessões de espancamento, “tiraram-lhe a perna ortopédica,
ocasionando hematomas generalizados, o que foi agravado pelo fato
de ser hemofílico”. A crueldade desconhecia limites, exceto o de manter
64
vivos os supliciados: “Chegaram a
queimar seus órgãos genitais com
cigarros acesos. Eram também realizados disparos de armas de fogo
durante a noite, com o intuito de
amedrontar os presos e mantê-los
sob constante vigília, causando-lhes
sérios traumas psicológicos”.
Não havia acusação formal contra nenhum dos dois. Como explicar,
então, o ódio de que foram vítimas?
“Quando fomos presos, separaram
todos os bolivianos [dos demais estudantes]”, afirma Gonzalo Pastor Castro Barreda, peruano, à época estudante de Engenharia Eletrônica, que
atuava como fotógrafo no jornal Vanguarda, da AURK, a associação que
coordenava os moradores do Crusp,
onde morava no apartamento 305-B
(vide p. 69). “Os bolivianos presos não
foram levados ao DOPS, mas ao II
Exército. E os arquivos do II Exército
não aparecem”, completa ele, que foi
preso na invasão do Crusp e também
no Congresso da UNE em Ibiúna,
em cuja organização atuou. “Mas os
bolivianos não participavam politicamente. Começou a ser difundida a
ideia de que existia uma ligação entre
o Che Guevara, que tinha morrido na
Bolívia [em 1967], e o movimento universitário”, o que, segundo Gonzalo,
teria ocasionado uma perseguição aos
estudantes bolivianos no Brasil.
O fato é que o relatório final do
Inquérito Policial-Militar do Crusp
sequer menciona os irmãos Forrastal.
“Havia grande número de estrangeiros entre os residentes do Crusp. Alguns eram clandestinos e outros eram
excursionistas andarilhos, que passavam meses residindo em apartamentos”, afirma o documento assinado
pelo coronel Alvim, que acusa como
participantes de “atividades políticas
subversivas” o peruano Gonzalo Barreda, o panamenho Aramis Arauz
Guerra, o paraguaio Ruben Anibal
Galindo e o espanhol José Cesareo
Raimundez Alvarez, todos alunos da
Escola Politécnica; o espanhol Ra-
Revista Adusp
Outubro 2012
... e sua filha Fernanda
Teresa em La Paz, em foto recente...
mon Varela Gonzalez, aluno da Faculdade de Filosofia; e o boliviano
Fabian Nicolas Yaksic Ferandy. Gonzalo e Aramis Arauz eram amigos de
Jorge Rafael, o que era simplesmente
natural, por serem poucos os alunos
de fala espanhola na Politécnica.
Juan Antonio, uma vez
libertado, não conseguiu
recuperar-se física e
psiquicamente das torturas
sofridas. Teresa conta que,
traumatizado, seu irmão
tinha pavor do barulho das
sirenes de ambulância
O mais espantoso é que ninguém
soube o que acontecia aos irmãos
Forrastal, nem mesmo seus amigos
próximos, provavelmente devido à
separação dos bolivianos dos demais
presos. Cacilda Salete Silva, ex-moradora do Crusp conhecida pelos colegas como Sissi, era amiga de Juan
Antonio e Jorge Rafael. Militante
política, foi presa na invasão e levada ao Presídio Tiradentes, sendo liberada na madrugada do dia seguinte. “Soube de muitos colegas que
sumiram, tombaram e foram presos,
porém, por incrível que pareça, nunca soube absolutamente nada sobre
a prisão e tortura dos irmãos”, conta
Cacilda, que cursava Pedagogia e
morava no apartamento 610-D.
Os irmãos foram postos em liberdade pouco antes do início das aulas
de 1969. “Juan Antonio foi libertado antes, porque estava muito mal
de saúde”, conta Teresa Carrasco.
“O coronel Alvim percebeu que tinha feito do meu filho um demente,
que não servia para seus propósi-
tos malévolos, de exigir informações
dos demais colegas de universidade.
Coisa que meus filhos não deviam
comentar, e não comentaram nada
porque nada sabiam”, relatou Olga
à CEDMP, deixando transparecer a
indignação e a dor.
Pouco depois, Jorge Rafael foi
solto e, de acordo com registro
escrito de Olga, ao final de 1969,
“mesmo com graves traumas”, conseguiu se formar antes de completar os 23 anos de idade. “Ele vivia
um terror, não queria mais morar
em São Paulo e, como tinha muita
capacidade, passou num concurso
em Curitiba para engenheiro da
Telepar [operadora de telefones
do Paraná]”, relatou. Casou-se em
1970 e foi viver em Curitiba, assumindo o cargo de engenheiro-chefe.
“Estava numa missão quando, num
acidente de automóvel, faleceu em
7 de outubro de 1970”, segundo sua
mãe. Sua esposa, Elvira Dulce Altoe, encontrava-se grávida. “Jorge
pensava que não poderia mais ter
filhos, por conta dos choques elétricos que havia sofrido nos órgãos
genitais durante a prisão. Então foi
uma alegria muito grande para ele
quando descobriu que sua mulher
estava grávida”, conta a irmã. Em
abril de 1971 nasceu sua filha, Rafaela Carrasco Altoe, que Jorge não
65
Revista Adusp
Outubro 2012
Carteira de identidade de Juan, emitida pelo Itamaraty
teve a oportunidade de conhecer,
pois fora sepultado em São Paulo
seis meses antes.
A tragédia rondava a família
Carrasco Forrastal. Juan Antonio,
uma vez libertado, não conseguiu,
contudo, recuperar-se física e psiquicamente das torturas sofridas.
Internado no Departamento de
Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, ali permaneceu
por várias semanas. Teresa conta
que, traumatizado, seu irmão tinha
pavor do barulho das sirenes de
ambulância desde que fora levado
pelos militares para sua primeira
internação durante a prisão. Olga
deixou registrada a maneira como
tomou conhecimento das diversas
formas de agressão usadas contra os
rapazes: “As torturas que sofreram
66
meus filhos soubemos quando Juan
Antonio, nos seus momentos de terror, estando doente em casa, falava
desses fatos. Meu filho Jorge Rafael
tinha medo de falar disso, provavelmente pelas ameaças de represálias
feitas quando estavam presos”.
Durante sua internação no Hospital das Clínicas, Juan Antonio,
com a saúde mental comprometida,
tentou suicídio cortando os pulsos.
Seus pais o levaram para casa, mas,
como não apresentava melhora, foi
novamente internado, desta vez no
Hospital Psiquiátrico da Vila Mariana. De acordo com Olga, ao sair
deste local ele “não queria mais morar em São Paulo, pois tinha medo
de tudo, não se interessava por nada”, nem mesmo pelos estudos de
que tanto gostava. “Antes, [mesmo]
com a perna amputada, primeiro
com as muletas, depois com a perna
ortopédica, por nenhum motivo ele
deixava de assistir às aulas”.
Em visita feita ao estudante no
hospital, logo após ter sido libertado, Maria de Lourdes Lyrio de
Moura, amiga da família, “constatou que Juan tinha os braços enfaixados e as mãos muito inchadas”,
segundo declarou à OAB-SP em
2006. “Juan relatou que fora brutalmente torturado nas dependências prisionais”, acrescentou ela.
No período em que esteve internado, ele tentou suicídio duas vezes:
na primeira, cortando os próprios
pulsos “com uma lâmina de barbear que o enfermeiro tinha usado
para lhe fazer a barba”, e depois,
ingerindo comprimidos.
Arquivo da família Forrastal
Revista Adusp
O corpo de Juan Antonio foi
cremado em Madri.Teresa
soube que o irmão havia se
suicidado somente em 1994,
quando Olga finalmente
contou à filha e à neta
que ele não havia morrido
atropelado, como familiares e
amigos pensavam até então
Outra amiga da família, Mary Deheza Balderrama, relatou à
OAB-SP suas impressões ao visitar Juan Antonio quando ele retornou para casa: “O moço alegre,
Outubro 2012
otimista e confiante cedera lugar
a outro com graves alterações psíquicas, amedrontado com tudo,
não podia ver um militar; mesmo
faltando apenas um ano para terminar o curso de Física Nuclear,
não queria mais voltar às aulas e
nem mesmo lecionar conforme
fazia antes”.
Os pais dedicaram-se incessantemente à sua reabilitação entre 1969
e 1972, período em que ocorreram
diversas internações e tentativas
de retomada de seus estudos. “Fazendo novos esforços econômicos,
o mandamos à Espanha, onde ele
foi internado no Hospital da Cruz
Vermelha de Madri”, contou Olga.
“Depois de doze dias de internação, em um momento de delírio ele
desligou os aparelhos que o mantinham vivo, estando eu na sala de
espera dos visitantes. Ele faleceu
em 28 de outubro de 1972”.
O corpo de Juan Antonio foi
cremado em Madri, mas apenas cinco anos depois seus pais conseguiram trazer suas cinzas para o Brasil.
Teresa soube que o irmão havia se
suicidado somente em 1994, quando Olga finalmente contou à filha
e à neta que Juan não havia morrido atropelado, como familiares e
amigos pensavam até então. “Era
muito doloroso para ela falar no
assunto”, diz Teresa. Seus pais viveram no Brasil até o ano de 2000 e
faleceram na Bolívia: Antonio, em
15 de abril de 2001, e Olga, em 3 de
agosto de 2011.
“Foram amigos que passaram
pela minha vida, como muitos outros, enchendo-me de orgulho por
serem pessoas educadas, sensíveis,
sinceras, alegres, queridas mes-
Arquivo da família Forrastal
Cacilda Salete
mo”, lembra a ex-cruspiana Cacilda, a Sissi, numa menção carinhosa a Jorge Rafael e Juan Antonio.
“Tive a oportunidade de no dia do
meu cumpleanõs, 5 de agosto de
1968, almoçar no apartamento dos
Carrasco. A família transpirava um
ar de muita sinceridade”.
Não há notícia de que a USP
tenha procurado intervir em defesa de seus alunos. Aparentemente, a instituição sequer tomou conhecimento das prisões, segundo
acaba de declarar o Gabinete do
Procurador Geral: “Em atenção
ao pedido de acesso à informação
protocolado por V. Sa., informamos que a Universidade não dispõe de registros em documentos
oficiais sobre a prisão do sr. Juan Antonio Carrasco Forrastal.
No mais, informamos que o aluno
ingressou no curso de Física em
1963 e manteve-se matriculado
até 1971. Não há informação de
conclusão de curso”.
67
Revista Adusp
Outubro 2012
Crusp, “foco
de irradiação subversiva”
Na década de 1960 o Crusp se consolidou como
um espaço de articulação política e cultural, onde os
estudantes realizavam discussões políticas, grupos
de estudos, shows, peças de teatro e inúmeras outras
atividades agregadoras. “Aqui em São Paulo, os dois
grandes focos de contestação eram a Faculdade de Filosofia e o Crusp”, diz Mouzar Benedito, 65, à época
um estudante de Geografia que morava no apartamento 202-F (e hoje autor de 1968, por aí... Memórias
burlescas da Ditadura).
Se, no início, as manifestações estudantis eram
restritas às condições de vida dos estudantes no
Crusp, como quando houve a manifestação contra
o aumento do preço do restaurante universitário
(1965), logo, com a crescente conscientização política dos estudantes e as intromissões do governo
militar nas normas internas da universidade, a luta
do movimento estudantil passou a ser, também, de
oposição à Ditadura Militar. Assim, os espaços de
representação foram se organizando cada vez mais
no Crusp.
Fundada em 1967, a Associação de Universitários
Rafael Kauan (AURK) conquistara força política
entre as entidades estudantis já existentes e passara
a ser foco da atenção dos militares. O IPM do Crusp
definiu o alojamento universitário como “um centro
turbulento de agitações estudantis e que abrigava grupos esquerdistas do Movimento Estudantil, perigosos.
Tornou-se um foco perigoso de irradiação subversiva
para a área estudantil e de infiltração na massa operária da periferia desta Capital”.
“A gente estava sentindo que a coisa ia explodir.
No dia 13 de dezembro de 1968, anunciaram que o
68
governo ia lançar uma medida muito radical à noite. Então fomos todos para o Centro de Vivência
da USP e vimos, pela televisão, o anúncio de que
estava sendo decretado o AI-5. Aí vi que a barra
era ainda mais pesada do que eu imaginava”, conta
Benedito. Nesse mesmo dia, durante a madrugada,
militares e militantes do Comando de Caça aos Comunistas (CCC) dispararam tiros contra os prédios
do Crusp.
Invasões policiais já tinham ocorrido outras vezes, e os moradores do Crusp se defendiam jogando
pedras e garrafas do alto dos prédios, e esguichando
água. Mas desta vez a coisa era diferente: contava
com soldados que vinham sendo preparados em quartéis para uma verdadeira guerra. Assim, quatro dias
depois da decretação do AI-5, o Crusp foi invadido de
madrugada pelas Forças Armadas, com muitos veículos, inclusive tanques de guerra. Cerca de 1.200 estudantes foram presos e levados, em sua maioria, para
o Presídio Tiradentes. “Alguns dos que foram presos
sem tortura e depois libertados foram novamente presos e aí sofreram violenta tortura”, diz Benedito, que,
preso na invasão, passou quatro dias no Presídio Tiradentes, mas não foi torturado. “Eu tive a sorte de ser
interrogado no DOPS sem tortura. Então meu nome
ficou fichado lá, mas teoricamente eles não precisavam mais me interrogar”, acrescenta.
Após a invasão, o Crusp foi, então, fechado
pelos militares, e os estudantes presos não tiveram
para onde ir após serem libertados. Apartamentos
haviam sido até mesmo saqueados pelos militares,
que levaram pertences pessoais dos cruspianos, como roupas, livros e outros objetos.
Revista Adusp
Outubro 2012
Dignidade
e afeto
As imagens sugerem uma família
solidária: formatura em La Paz
(1963), os irmãos no Ibirapuera,
com o pai Antonio (1965), no
centro de São Paulo, com a irmã
Teresa (1969), e com Olga na
Avenida São Luis (1965)
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Revista Adusp
Outubro 2012
Arquivo da família Forrastal
Carteirinha de Juan
Antonio no Cefisma.
Jorge Rafael com a
esposa Elvira, em
momento de grande
felicidade (1970). Nas
outras fotos, aparece com
amigos: Aramis Arauz (no
refeitório, 1965) e este
e Vismark Imamura (no
Crusp, 1966)
70
Download

mortos e desaparecidos da usp - Prêmio Vladimir Herzog de Anistia