UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES PÓS-GRADUAÇÃO LATU SENSU INSTITUTO A VEZ DO MESTRE A ESTRUTURA DA METEOROLOGIA NO BRASIL – POSSIBILIDADES E PERSPECTIVAS Por: Marcelo Migueres Barbosa Orientador Prof. Fernando Alves Rio de Janeiro 2010 2 UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES PÓS-GRADUAÇÃO LATU SENSU INSTITUTO A VEZ DO MESTRE A ESTRUTURA DA METEOROLOGIA NO BRASIL – POSSIBILIDADES E PERSPECTIVAS Apresentação de monografia ao Instituto A Vez do Mestre – Universidade Candido Mendes como requisito obtenção do parcial para grau de especialista em Gestão Pública. Por: Marcelo Migueres Barbosa 3 AGRADECIMENTOS À Empresa Infraestrutura Brasileira de Aeroportuária – INFRAERO – por constantemente incentivar seus empregados busca do conhecimento. na 4 “Pior do que ter muitas ideias é não ter ideia nenhuma.” Linus Pauling 5 DEDICATÓRIA À minha esposa Cristiane, aos meus filhos Bruno e Miguel, e também à minha mãe Myrian pelo incentivo constante. 6 RESUMO Há muito tempo deixou-se de buscar explicações sobrenaturais para fenômenos climáticos. Os conhecimentos adquiridos ao longo dos anos permitem, hoje, entender e explicar inúmeros fenômenos da atmosfera. Para a sociedade, a consequência mais importante desses estudos foi o aperfeiçoamento da previsão do tempo, pois é com este conhecimento que se pode ajudar a salvar vidas. Porém, a Meteorologia não se restringe à apenas esta vertente. Existem várias áreas, com diferentes aplicabilidades desta fascinante ciência que precisam ser melhores aproveitadas e, sobretudo, melhor aparelhadas, contribuindo de maneira inexorável para o desenvolvimento do país. Este trabalho buscou apresentar, de maneira panorâmica, a Meteorologia, como esta ciência está organizada no Brasil, as diferentes áreas de atuação e perspectivas de aplicabilidade de políticas públicas voltadas para o seu desenvolvimento. 7 METODOLOGIA A metodologia utilizada para este trabalho foi baseada na pesquisa de referências teóricas, constantes em diferentes autores e vertentes, acrescentada da experiência pessoal em Meteorologia, ciência a qual exerço atividades profissionais há 25 anos e pela qual sedimentei minha formação com o curso superior de Administração de Empresas, com ênfase em Gestão Pública. 8 SUMÁRIO INTRODUÇÃO.............................................................................. 9 CAPÍTULO I – A contribuição da 2ª Guerra Mundial para a moderna Meteorologia...................................................... 12 CAPÍTULO II – A Meteorologia no Brasil..................................... 15 CAPÍTULO III – Análise das Políticas Públicas e da Gestão Pública no Brasil........................................................................................... 24 CAPÍTULO IV – Situação atual e necessidades de investimento... 30 CONCLUSÃO.............................................................................. 36 BIBLIOGRAFIA............................................................................ 37 FOLHA DE AVALIAÇÃO............................................................. 40 ÍNDICE........................................................................................ 41 9 INTRODUÇÃO O que é Meteorologia? A Meteorologia - do grego meteoros, que significa elevado no ar, e logos, que significa estudo - é a ciência que se dedica ao estudo dos processos que ocorrem na atmosfera terrestre, principalmente na camada mais próxima da superfície com aproximadamente 20 km de espessura. É nessa camada que ocorre a maioria das atividades humanas, e, é aí que podem ser sentidos os efeitos que as condições atmosféricas exercem no desenrolar dessas atividades. Dessa constatação surgiu a necessidade de se conhecer melhor os processos que causam a evolução das condições do tempo. Seus aspectos mais tradicionais e conhecidos são a previsão do tempo e a climatologia. O tempo pode ser definido como o estado da atmosfera em determinado instante e lugar. O clima tem sido frequentemente definido como um tempo médio, ou seja, um conjunto de condições normais que dominam uma região, obtidas das médias das observações durante um determinado intervalo de tempo. Contudo, variações e condições extremas do tempo também são importantes para caracterizar uma região. Por exemplo, fazendeiros estão interessados não apenas em conhecer a precipitação média de novembro, mas também a frequência de novembros extremamente secos. Da mesma forma o gerenciamento de recursos hídricos exige o conhecimento não apenas de valores médios, mas também de valores extremos e sua probabilidade de ocorrência. Portanto, o clima é o conjunto de toda a informação estatística sobre o tempo em determinado local. No longo prazo, é o clima que determina se uma região é ou não habitável e sua vegetação natural; num prazo mais curto, é o tempo que condiciona a segurança dos meios de transporte, a forma de lazer, a dispersão de poluentes e as atividades da agricultura. 10 Origens da Meteorologia • Civilizações ancestrais: Divindades controlam o estado do tempo, feiticeiros e sacerdotes são os mediadores. De referir na civilização egípcia (3500 a.c.) Ra e Osiris. Ra controlava o movimento dos corpos celestes, e assim as subidas e descidas de nivel do Nilo. Osiris controlava as cheias anuais do Nilo e, portanto, a fertilidade e a morte. Outros: Marduk era o Deus das tempestades na Babilônia (2100-689 a.c.). Thor (nome que deriva da palavra alemã para trovão) é o equivalente no norte da Europa. • Primeiras observações: astrônomos chineses desenvolvem um calendário que divide o ano em 24 festivais, e especificam o estado do tempo para cada um deles. • Grécia: Filósofos iniciam uma tradição de investigação e análise racional dos fenômenos naturais. Aristóteles com o seu livro Meteorológica (do qual deriva a palavra meteorologia) tenta descrever a natureza física do céu, do ar, do mar e da terra, incluindo todos os fenômenos atmosféricos conhecidos até então. Apesar de muitas observações e conjecturas corretas Aristóteles comete o erro de pensar que “a terra é imóvel”. Teophrastus publica “Sinais do Tempo” e descreve 80 tipos de chuva, 50 tipos de tempestades, 45 tipos de ventos e 24 tipos de bom tempo. É o responsável por muitos dos provérbios acerca do tempo e do clima que se viriam a generalizar mais tarde na idade média. • Idade média: Nos países árabes os almanaques tornam-se comuns. Estes incluem previsões do estado do tempo e da sua influência nas culturas agrícolas, assim como informação acerca de acontecimentos astronômicos e festas religiosas. Na Europa e na América do Norte os almanaques tornam-se muito populares no século XVII e XVIII. • 11 Renascimento: Copérnico (1473-1543) apresenta a teoria de que a Terra se move em torno do sol, fornecendo uma explicação para os equinócios, solstícios e estações do ano. Leonardo da Vinci (1452-1519) desenvolve o primeiro higrômetro. Galileo (1564-1642) inventa o primeiro termômetro, sem, no entanto, deixar registros das suas observações de temperatura. Torriceli (1608-1647) inventa o primeiro barômetro. Pascal (1623-1662) é o primeiro a pôr a hipótese de que as variações do estado do tempo estão relacionadas com variações da pressão atmosférica. • Século XIII: São introduzidas as escalas de temperatura de Celsius e Fahrenheit. Os higrômetros são aperfeiçoados e surgem novos instrumentos de medição. São criadas as redes meteorológicas internacionais sob os auspícios da Royal Society em Inglaterra, da Académie des Sciences na França e da Mannheim Society na Alemanha. Esta última sociedade desaparece em 1799, mas deixa estabelecidos os procedimentos básicos da meteorologia sinótica do século XX. • Século XIX: A invenção do telegrafo por Samuel Morse (17911872) permite a comunicação rápida das observações realizadas nas diversas estações meteorológicas. As primeiras cartas sinóticas são construídas com base nestas observações. Robert Fitz Roy (1805-1865) introduz a instalação de aparelhos de medição meteorológica em navios da armada britânica. Matthew Maury (1806-1873) promove as primeiras conferências com vista à permuta internacional de dados meteorológicos que levam, mais tarde, à fundação da WMO (World Meteorological Organization), em 1873. • Século XX: Diversos países entre os quais Portugal já dispõem no início do século de serviços nacionais de meteorologia. Na Suécia surge a escola de Bergen (1862-1951) onde é desenvolvida a teoria de que as zonas de atividade do tempo estão concentradas 12 em regiões relativamente estreitas. Chamam a estas zonas “frentes” por analogia com as frentes de batalha durante a primeira grande guerra. No início dos anos 30 são inventadas as radiossondas que permitem construir cartas sinóticas a níveis mais altos da atmosfera. Durante a Segunda Grande Guerra surge o radar que permite identificar padrões de chuva sobre grandes áreas. O primeiro modelo numérico de previsão do tempo é desenvolvido por Lewis Richardson (1881-1953). Com o advento dos computadores os problemas de cálculo numéricos são mais facilmente resolvidos, levando ao desenvolvimento de modelos de previsão do estado do tempo mais sofisticados. As primeiras fotografias tiradas do espaço provêm de câmaras instaladas em mísseis. Em 1960 é lançado o TIROS-1, o primeiro satélite orbital. O primeiro satélite geoestacionário é lançado em 1966. CAPÍTULO I A contribuição da 2ª Guerra Mundial para a moderna Meteorologia Em 6 de julho de 1944, os aliados desembarcaram nas praias da Normandia e iniciaram, de fato, o ataque decisivo para a queda da Alemanha Nazista, no que depois ficou conhecido como “Dia D”. A operação “Netuno”, nome em código da operação de desembarque, é até hoje bastante comentada, principalmente no aspecto meteorológico. Mas, esse aspecto foi apenas o momento mais visível de uma série de prognósticos meteorológicos fornecidos pelos meteorologistas americanos e ingleses durante toda a Segunda Guerra, no curso da qual o fator meteorológico certamente foi um dos elementos determinantes nos processos decisivos das numerosas operações bélicas dos aliados. 13 Foi exatamente esse fato e uma relativa tomada de consciência por parte das autoridades responsáveis, somado ao crescimento tecnológico, que contribuiu, de modo significativo, para o desenvolvimento da moderna meteorologia. Hoje sabemos que as previsões do tempo são baseadas em modelos físico-matemáticos da atmosfera, feitas com o auxílio de poderosos computadores. Porém, nem sempre foi assim. A história nos conta que o pai destas previsões foi o meteorologista e matemático inglês L. F. Richardson que, durante a Primeira Grande Guerra, começou a trabalhar em um experimento em que consistia na resolução das equações que governavam os movimentos da atmosfera. Tratou-se da primeira real experiência de prever a dinâmica do tempo, em uma previsão de tempo finito (24 horas), obtida por uma sucessão de previsões elementares, em curtos períodos (6 horas), em consideração ao intervalo total da previsão. Os resultados destes cálculos, feitos a mão, desapareceram na grande confusão da guerra. Os rascunhos foram encontrados logo depois e foram publicados em 1922, no famoso livro “Previsão do tempo por meio de cálculos numéricos”. A experiência de Richardson foi, no entanto, um verdadeiro fracasso: os cálculos previam o movimento das perturbações atmosféricas na direção errada e a uma velocidade fora da realidade dos fenômenos atmosféricos. Os cientistas formularam numerosas hipóteses sobre as razões do insucesso, em particular o conhecimento incompleto do estado inicial da previsão pela falta de cuidado nas análises e a escassa rede de estações de observação do tempo. Mas nenhuma conclusão empírica ou científica pode ser baseada em um só experimento e os cientistas teriam dificuldades em refazer a experiência, pois necessitariam de 64.000 mentes humanas capazes de trabalhar paralelamente para fazer uma previsão do tempo a uma velocidade apenas igual ao desenvolvimento de um sistema meteorológico. 14 Essa constatação acabou com todo o entusiasmo da tentativa de se prever a dinâmica do tempo por meio de modelagem numérica, e assim ficou adormecida por cerca de vinte anos. O retorno ao interesse nesta área da Meteorologia, uma das mais importantes hoje, aconteceu no início dos anos 40. As circunstâncias que favoreceram o desenvolvimento da previsão numérica de tempo estão ligadas à Segunda Guerra Mundial: a ampliação do sistema de observações, o desenvolvimento das telecomunicações e o surgimento dos primeiros computadores. Na Segunda Guerra houve um aumento substancial dos serviços meteorológicos nacionais e as observações deixaram de ser essencialmente “de terra” e passaram, também a fornecer informações do ar e do mar. As operações aéreas passaram a ser mais sensíveis aos fatores atmosféricos e as exigências de observações em quantidade e qualidade aumentaram, fazendo com que a rede de observações aumentassem consideravelmente. Os meteorologistas ingleses da Royal Air Force (RAF) e americanos da United States Air Force (USAF) sensibilizaram os comandantes das operações aliadas da importância de boas observações para confeccionarem boas previsões. Nesse contexto, foi criado um conjunto de rede de estações meteorológicas que efetuavam não só medidas de solo, mas, sobretudo, sondagens atmosféricas na terra e no mar. Essas informações não só serviam aos aviadores, mas também aumentava o conhecimento da estrutura tridimensional da atmosfera. Em fim, foi fixado um conceito hoje, indiscutível, da importância das observações periódicas de superfície e de altitude, seja nos aeroportos ou em estações isoladas, convencionais ou automáticas, fixas ou móveis, em proporcionar ao meteorologista a compreensão do estado da atmosfera para que ele possa fornecer um prognóstico que tenha utilidade para todas as atividades humanas. Também, em 1946, foram disponibilizadas as primeiras máquinas eletrônicas com capacidade de fazerem cálculos numéricos a uma velocidade 10.000 vezes superiores a um homem. Com esses instrumentos, as complexas 15 equações atmosféricas eram solucionadas em horas, ao invés de meses. Os meteorologistas decidiram que era o momento de voltar às previsões numéricas, como era vontade de Richardson. Nesse momento, a Meteorologia passa da fase de simplesmente ciência para a parte operativa, potencializada com um sistema de coleta, distribuição e armazenamento e manipulação de dados, com objetivos meramente operacionais. Particularmente, devemos ter em mente que o estado inicial da atmosfera sobre as previsões é de suma importância, regressando criticamente ao experimento de Richardson e a moderna previsão numérica de tempo. Temos que destacar a complexidade de um modelo que simule a evolução da atmosfera, sem esquecer, jamais, que o modelo não poderá nos dar informações totalmente confiáveis, mas um excelente guia para os nossos prognósticos. Das cinzas da Segunda Guerra Mundial nascia, em definitivo, a moderna Meteorologia, aliando as observações e telecomunicações adequadas e com potentes sistemas de cálculos, para formular e testar a complexidade da atmosfera. CAPÍTULO II A Meteorologia no Brasil 2.1 Antecedentes históricos Pelos registros históricos, poder-se-ia dizer que a Meteorologia Brasileira teve origem, cientificamente, a partir de 1781, com o início de campanhas de medidas meteorológicas realizadas no Rio de Janeiro e São Paulo, pelos astrônomos portugueses Bento Sanchez Dorta e Francisco de Oliveira Barbosa. A partir dessas campanhas, que duraram aproximadamente 10 anos, o Brasil passou por diferentes fases, com a instalação de observadores meteorológicos em diversos pontos do país, destacando-se o desenvolvimento 16 regional através de esforços concentrados em alguns estados. A Marinha do Brasil instalou a primeira rede meteorológica no Brasil. Mas, pode-se dizer que a fase de integração nacional, em termos de Meteorologia, só foi iniciada com a criação de um serviço Nacional de Meteorologia, seguindo as orientações de Sampaio Ferraz. Do ponto de vista científico destacaram-se, de início, vários climatologistas e, posteriormente, já no início do século XX, registraram-se estudos de Meteorologia Dinâmica, de Física e de Sinótica. Um acervo considerável de trabalhos científicos e uma grande coletânea de dados meteorológicos estão hoje disponíveis em nosso país. A primeira missão científica enviada da Europa ao Brasil no campo da Meteorologia foi organizada em Lisboa, sob a supervisão de Miguel Antonio Ciera, e foi formada pelos Astrônomos Bento Sanches Dorta e Francisco de Oliveira. O objetivo inicial da missão era realizar estudos visando definir os limites entre os territórios portugueses e espanhol estabelecidos no tratado de 1 de outubro de 1777, assinado entre Carlos III da Espanha, e Dona Maria I, de Portugal. Entretanto, os astrônomos se detiveram no Rio de Janeiro e em São Paulo realizando intensas campanhas de medidas meteorológicas e astronômicas entre 1781 e 1790. Sanchez que se encarregou principalmente das medidas meteorológicas utilizou instrumentos de medidas; barômetro, termômetro, udômetro e agulha magnética. A maior parte dos instrumentos foi fabricado na Inglaterra com a participação de um português radicado em Londres desde 1764, João Jacinto Magalhães. O período de observações no Rio de Janeiro foi de maio de 1781 a maio de 1788. Das observações diárias da temperatura do ar foram calculadas as médias mensais para todo o período e as médias anuais para o período de 1782 a 1787. O primeiro observatório instalado no Brasil após Sanchez foi inaugurado em 1808 pela Marinha Brasileira, para instrução dos guardas Marinhas. Em 1827 D. Pedro criou o Observatório do Rio de Janeiro, mas a sua instalação não chegou a se concretizar por divergência s da comissão de implantação sobre a sua localização. Em 1845, o Ministério da Guerra mandou construir um torreão, na academia Militar, destinado a abrigar os equipamentos meteorológicos e astronômicos. Esta instituição passou a se denominar 17 Imperial Observatório do Rio de Janeiro a partir de 1846, sob a direção de Eugênio Fernandes Soulier de Sauve. O Observatório sob a nova reforma, se destinava a fazer observações meteorológicas e astronômicas úteis às ciências em geral e ao Brasil. em particular, tendo funcionado durante 25 anos como centro de pesquisa e instrução. Em 1871, o observatório é reformado e entregue à direção do cientista francês Emanuel Liais, que permaneceu até 1881, tendo sido substituído pelo belga Luis Cruls. Este cientista publicou, em 1882, a talvez a mais importante monografia sobre o clima no Brasil, na época, intitulada O Clima do Rio de Janeiro, com base em 40 anos de observações meteorológicas. Em outras partes do país iniciam-se, nesta segunda metade do século XIX, importantes campanhas de observações meteorológicas. No Ceará, a partir de 1849, Osvaldo Weber começa a medir sistematicamente, as chuvas no Nordeste a fim de avaliar severidade das secas. Em Curitiba, a repartição dos telégrafos instalou em 1884, o Observatório Meteorológico de Curitiba. Em 1892, o Rio Grande do Sul dá início ao funcionamento do Posto Meteorológico de Porto Alegre. No Amazonas foi fundado em 1893, por Luis Friedman, o Observatório de Manaus, cujos resultados das medidas foram publicadas pelo Museu Goeldi do Pará. Em 1888, foi criada a repartição Central de Meteorologia, pela Marinha do Brasil, que teve como Diretor o tenente Adolpho Pereira Pinheiro. Em 1890 o tenente Adolpho elaborou a criação de um serviço meteorológico de âmbito nacional. Em 1909 foi criado a Diretoria de Meteorologia e Astronomia do Ministério da Agricultura com base no Observatório Nacional (Instituto Nacional de Meteorologia) Este serviço, criado por iniciativa de Morize, absorve as redes da Marinha e do Telégrafo Nacional. Em 1917, foram organizados os primeiros mapas sinóticos e inicia-se a previsão do tempo no Brasil, abrangendo apenas o Distrito Federal e o Estado do Rio de Janeiro. Entretanto, o atrelamento da Meteorologia à Astronomia oferecia dificuldades para um desenvolvimento desta ciência, que segundo Sampaio Ferraz (1945), limitava-se à expansão e manutenção da rede de observações 18 climatológicas e à previsão de tempo em escala reduzida. Assim, por inspiração de Sampaio Ferraz, apoiada pelos ideais progressistas do Ministro da Agricultura, Simões Lopes, em 1921, foi feito o desmembramento do Observatório Nacional, criando-se a Diretoria de Meteorologia. A partir daí, a Meteorologia conhece um novo surto de desenvolvimento, inspirado também nas experiências bem sucedidas da Argentina, Chile, Uruguai e de outros pises da Argentina, Chile, Uruguai e de outros pises da Europa. Sampaio Ferraz permaneceu como Diretor da Meteorologia entre 1921 e 1930, dando-lhe uma verdadeira estrutura de Serviço Nacional, instalando observações via radiossonda, organizando a previsão sistemática do tempo, montando uma biblioteca com um acervo englobando os melhores periódicos do mundo, realizando pesquisas e participando de todos os fóruns nacionais e internacionais de discussões dos problemas de Meteorologia. Em 1930, a revolução brasileira que levou Getúlio Vargas ao poder, inicia profundas reformas estruturais, incluindo aí o Serviço de Meteorologia. Sampaio Ferraz se afasta definitivamente da Diretoria da Meteorologia e dá lugar a um período de mediocridade praticada por políticos que pouco sabiam da importância da Meteorologia para o desenvolvimento do país. 2.2. Formação profissional Os Cursos de Meteorologia Em 1959, em face do interesse manifestado em vários setores, o Ministério de Educação e cultura tomou a iniciativa da criação, no âmbito civil, do primeiro curso de meteorologistas no Brasil, o que teve lugar na Escola Técnica Federal Celso Suckow da Fonseca, no Rio de Janeiro, em nível de segundo grau. O curso foi instituído pelo Decreto Lei N 44.912, de 28 de novembro de 1958 e regulamentado pela Portaria Ministerial 597, de 26 de dezembro deste mesmo ano. Deve-se destacar a participação do Instituto Nacional de Meteorologia neste cenário acadêmico. Também seguindo este 19 esforço inicial, dois meses depois foi fundada a Sociedade Brasileira de Meteorologia, 29 de dezembro de 1958, cujo objetivo principal segundo seu estatuto era: promover, incentivar e divulgar o estudo da Meteorologia em todos os seus aspectos. Em 1960, foi instituída a Campanha de Formação de Meteorologista (CAME), através do Decreto 49.305, de 21 de novembro de 1960, com a finalidade de promover a formação de pessoal especializado em Meteorologia, para atender as necessidades profissionais nacionais. Quase três anos depois, foi criado o grupo de trabalho misto (GTM), sendo uma de suas atribuições a cooperação com os órgãos meteorológicos e incentivos do ensino da Meteorologia em todos os seus graus, visando à formação uniforme e o aperfeiçoamento de profissionais Meteorologistas. O segundo curso foi criado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, no ano de 1963, em nível de terceiro grau. Suas atividades tiveram início em com a realização do primeiro vestibular, em janeiro de 1964. A instalação desse curso teve como colaboradores o Instituto Nacional de Meteorologia e da Organização Meteorológica Mundial (OMM/ONU). Em 1964, a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE) iniciou o programa de Capacitação de Pessoal Meteorologista – Observadores Meteorológicos (PCPM) para treinar pessoal em meteorologia, a nível de primeiro grau. Esse programa foi realizado fora do âmbito do MEC, estendendo-se até 1975 e destinou-se à capacitação de Observadores Meteorológicos para atender a demanda das redes de observações meteorológicas do Nordeste. Em 10 de dezembro de 1964, o profissional da meteorologia foi declarado privativo de diplomado por curso superior através do Decreto Lei N 55.175, no seu artigo 40. Ainda neste ano o cargo de Meteorologista é reconhecido como integrante do nível universitário, através do Decreto 55.204, de 11 de dezembro, e publicado no DOU. 20 Três anos depois, o mercado de trabalho para o Meteorologista foi julgado suficiente através do Decreto 60.091, em seu artigo 11. No ano seguinte, foi criado pelo Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE) do Conselho Nacional de Desenvolvimento e Tecnológico (CNPq), o curso em nível de quarto grau. O Conselho Federal de Educação (MEC) aprovou o parecer de N 85.470, relativo a regulamentação da profissão de Meteorologista, em 12 de novembro de 1970. Em 1972, O CFE estabeleceu o currículo mínimo para a formação de Meteorologista em nível de graduação (documento nº 155, outubro de 1973, pp. 181-187). Seguiram-se, em nível de terceiro grau, o curso de Meteorologia na Universidade Federal da Paraíba, em Campina Grande, no ano de 1973, e, dois anos depois, ainda em nível de terceiro grau, pela Universidade do Pará, em Belém. Em 7 de setembro de 1976, o Decreto 77.980, extinguiu a Campanha para a formação de Meteorologista. Em 22 de novembro de 1976, foi apresentado na Câmara dos deputados, em Brasília, o projeto de lei n 3.168, que dispõe sobre o exercício da profissão de Meteorologista. No ano seguinte, foi criado o curso em nível de quarto grau na Universidade Federal da Paraíba, com início das atividades em agosto de 1978. Campina Grande, Paraíba. Em 1978, a Universidade Federal de Pelotas, no Rio Grande do Sul, e a Universidade Federal de Alagoas também organizaram o curso de bacharelado em Meteorologia. O ano letivo em ambas as instituições teve seu início em 1979. O Técnico em Meteorologia é o responsável pela garantia de uma informação confiável para que um meteorologista possa realizar com segurança e alto índice de acerto suas previsões meteorológicas acerca de uma determinada região. O técnico dá o suporte direto ao meteorologista, atuando desde a coleta de dados no campo até a divulgação destes dados com qualidade e clareza. O Técnico pode atuar em diversas atividades da sociedade: buscando soluções para o planejamento agrícola, a prevenção de catástrofes naturais, o gerenciamento hídrico e de energia, o funcionamento da 21 navegação aérea e marítima, o planejamento turístico e urbano, assim como ajudando na simples decisão de se levar um guarda-chuva ou determinada roupa ao sair de casa. A profissão de Técnico em Meteorologia é regulamentada pela Lei 6.835 de 14 de outubro de 1980 que dispõe sobre o exercício da profissão de Meteorologista e em conjunto com a Decisão Normativa 050 de 03 de março de 1993 do CONFEA, que dispõe sobre o desempenho das atividades de Técnicos de nível médio em Meteorologia. A primeira instituição de ensino de Meteorologia no Brasil foi a Escola Técnica Federal, atual Centro Federal de Educação Tecnológica do Rio de Janeiro- CEFET/RJ, cujas atividades para a formação de técnicos de nível médio em Meteorologia, tiveram início em 1958. Em 1995 a Universidade do Vale do Paraíba – UNIVAP – de São José dos Campos-SP organizou a primeira turma do curso de nível médio em Meteorologia, o que também aconteceu no ano de 2003, no Centro Federal de Educação Tecnológica de Santa Catarina - CEFET/SC. 2.3. Importância e aplicações da Meteorologia 2.3.1 Importância A Meteorologia tem importância fundamental na vida humana. Vários aspectos da nossa vida cotidiana são afetados pelo tempo: nosso vestuário, nossas atividades ao ar livre, o preço dos produtos hortifrutigranjeiros, dentre outros. Ocasionalmente, as condições de tempo são extremas e o impacto pode estender-se de uma mera inconveniência a um desastre de grandes custos materiais e perda de vidas humanas. Os meios de transporte (terrestre, marítimo e aéreo) dependem muito do tempo. O tempo e o clima são decisivos, também, para a agricultura, zootecnia e gerenciamento de recursos hídricos. 22 Em adição a estes aspectos tradicionalmente reconhecidos, tem havido e continuará havendo uma demanda crescente por decisões políticas envolvendo a atmosfera, relacionados à poluição e seu controle, efeitos de vários produtos químicos sobre a camada de ozônio e outros impactos ambientais. Portanto, há necessidade de crescente conhecimento sobre a atmosfera e seu comportamento. A seguir são listadas algumas áreas de atuação da Meteorologia: • Previsão do Tempo: com a ajuda de satélites, radares e análises climáticas são elaborados boletins e alertas diários, semanais e mensais sobre as condições do tempo para o período estipulado. • Climatologia: preocupa-se em determinar as condições médias do tempo nas mais diversas regiões do globo terrestre e a pesquisar as causas das mudanças climáticas através das décadas, centenas e, até milhares de anos. • Agrometeorologia: consiste na aplicação da Meteorologia aos projetos agrícolas, visando a melhoria da produtividade, na determinação das condições meteorológicas favoráveis para o plantio e colheita, e na aclimatação de novas espécies vegetais e do zoneamento agrícola. • Meteorologia Ambiental: está ligada ao estudo e controle da poluição atmosférica. O estudo das condições meteorológicas que favorecem altas concentrações de poluentes ou que asseguram boa qualidade do ar em determinadas regiões. 2.3.2. Aplicações Pode-se determinar as aplicações de acordo com os diversos ramos da Meteorologia. Através destas áreas do conhecimento, que se inter-relacionam e se sobrepõem, identificamos estes ramos através de vários critérios. A seguir 23 são dados alguns exemplos desses critérios, bem como os principais objetos de estudo dentro de cada uma dessas áreas. a) Segundo a região de estudo: • Meteorologia Tropical: furacões, desertos, interação oceano-atmosfera, El Niño. • Meteorologia de Latitudes Médias: frentes frias, ciclones, geadas, nevascas, correntes de jato. • Meteorologia Regional: brisa marítima, circulação de vales e montanhas, "ilhas de calor" urbanas, efeitos topográficos, nevoeiros. • Micrometeorologia: interações superfície-atmosfera, fluxos de calor e massas, estabilidade atmosférica. • Meteorologia de meso-escala: fenômenos severos que ocorrem em períodos de até 1 dia em regiões localizadas, tais como tornados, "micro-explosão", chuvas intensas, ventos fortes e linhas de instabilidade. b) Segundo a aplicação: • Meteorologia Aeronáutica: apoio a operações de pouso e decolagem, planejamento de rotas e aeroportos. • Meteorologia Marinha: estudos de interação ar-mar, previsão de marés e ondas, planejamento de rotas. • Meteorologia Ambiental: estudos e controle de poluição atmosférica, planejamento urbano. • Agrometeorologia: projetos agrícolas, plantio e colheitas, produtividade, novas espécies. • 24 Hidrometeorologia: consiste na aplicação da Meteorologia nos estudos hidrológicos no que se diz em respeito ao planejamento de grandes reservatórios no controle de enchentes, e no abastecimento de água. • Biometeorologia: influência do tempo sobre a saúde, reações e modo de vida do homem, animais e plantas. c) Segundo a técnica ou equipamentos utilizados: • Radiometeorologia e Sensoriamento Remoto: estuda as influências meteorológicas na propagação de microondas na troposfera em enlaces de telecomunicações, quantificação de precipitação por radar, deslocamento de tempestades, ventos com radar Doppler. Importante para as radiocomunicações terrestres e via satélite, assim como, desenvolve metodologias de sensoriamento remoto da atmosfera, tanto a partir de sensores na superfície terrestre quanto a partir de plataformas terrestres. • Meteorologia por Satélite: auxílio à previsão, balanços de energia, ventos, precipitação, estrutura térmica e de vapor d'água na atmosfera, estudos de recursos naturais e produtividade agrícola. CAPÍTULO III – Análise das Políticas Públicas e da Gestão Pública no Brasil As políticas públicas referem-se a ações e tomada de decisões em diferentes áreas, tais como saúde, educação, segurança, habitação etc. que envolvem alocação de recursos. O processo das políticas públicas passa por diversas etapas: agenda, elaboração, formulação, implementação, execução, 25 acompanhamento e avaliação. As principais etapas envolvem seleção de problemas, definição de prioridades, planejamento, colocação em prática das ações, programas e projetos capazes de resolver os problemas da sociedade. O acompanhamento e avaliação das políticas públicas são etapas mais complexas que infelizmente, muitas das vezes não são exploradas por falta de experiência, dados, informações ou porque os resultados são visivelmente pífios, sem necessidade de avaliação. Acompanhar e a avaliar as políticas públicas exigem dados mais desagregados, registros administrativos e metodologia própria para cada programa, projeto ou ação do governo além de pessoal qualificado para tal enquanto que no caso da política econômica, ao utilizar dados agregados disponíveis em boletins, relatórios, jornais, revistas, qualquer pessoa pode acompanhá-la e avaliá-la. Feito isso, também é possível julgar se o gestor público é eficiente, eficaz e efetivo. É fundamental a análise constante para avaliarmos a política econômica e social implantada ao longo dos últimos anos e também, refletirmos criticamente sobre a necessidade de acompanhamento e avaliação de nossas políticas públicas. O debate e o foco das discussões concentram-se em listas de realizações ou listas de pretensões, deixando distante, as ferramentas necessárias para a avaliação da capacidade de administrar em termos de recursos financeiros, capacidade gerencial e técnica. A facilidade em acompanhar e avaliar as políticas econômicas não se verifica no caso das políticas públicas de caráter mais específico e de menor abrangência, porém, não menos importante. A meta de inflação é acompanhada sistematicamente e periodicamente, no entanto, o mesmo não ocorre com a meta de redução da mortalidade infantil, de redução da pobreza, do aumento da qualidade de educação, dentre outros aspectos. No mundo globalizado, as organizações constantemente tentam fazer uma medição do seu nível, mediante um mercado ou setor, a fim de obterem comparações de seus indicadores com outras organizações. Este processo é denominado de benchmarking. 26 Na gestão pública não é diferente. A organização pública faz constantemente a medição de seus indicadores, tais como o produto interno bruto per capita, renda familiar, arrecadação de impostos, desempenho de estudantes, entre outros, de modo a obter um referencial, um nível de performance, reconhecido como padrão de excelência para um processo de negócio específico em relação a outros países. Um dos desafios dos gestores públicos é encontrar padrões a serem seguidos para os principais indicadores ou processos da gestão pública. O advento da globalização trouxe a homogeneização dos centros urbanos, expansões geopolíticas, revolução tecnológica e hibridização entre as culturas. Os países, considerados de primeiro mundo, passaram a influenciar e ditar os padrões de excelência em todas as áreas: econômica, política, educacional e social. Para diminuir essa linha de comando imposta pelos países de primeiro mundo, a gestão pública pode visionar seu foco num excelente planejamento estratégico. Se iniciarmos nossa linha de raciocínio pela missão e a estratégia das organizações, veremos um conjunto abrangente de medidas de desempenho que servem de base para um sistema de medição e gestão estratégica. Assim, o objetivo é que todos saibam o que fazer e de que forma suas ações impactam no desempenho organizacional. Os objetivos desta metodologia vão muito além do que se poderia extrair de um mero conjunto de indicadores. Quando aplicado adequadamente, permite ainda transformações organizacionais no sentido da ação, em especial criar uma visão integral da gestão e da sua situação atual, olhar em frente de forma proativa, alinhar a estrutura organizacional, estabelecer iniciativas priorizadas em direção as estratégicas definidas e ainda influenciar o comportamento da sociedade. Por outro lado, um olhar sobre a inércia dos sistemas de informações atuais dos serviços públicos sugere que alguns têm funcionado em autogestão e internamente, algumas produzidas também isoladamente ao longo do tempo. 27 Por exemplo, temos a redundância de processos para uma mesma finalidade, sendo processo um conjunto de atividades estruturadas. Tem-se ouvido constantemente de alguns adeptos da era da modernização que a área pública carece e necessita urgentemente da implantação de inteligência. Falam em inteligência como se esta fosse um produto acabado, disposto em prateleiras de lojas, à disposição de um ávido administrador bem-intencionado que queira propiciar uma verdadeira reforma no setor público! Eis um desafio, desenvolver um processo de gestão do conhecimento. Os sintomas de disfunção são visíveis no interior do setor público, ao longo de seu relacionamento e até com a sociedade. A perspectiva de novos processos aplicados ao setor público implica uma visão organizada e interativa que afeta ao negócio de todos os serviços públicos fazendo cair à lógica de autogestão, independência funcional destes serviços e a carência de inteligência. Tal visão leva ainda a inclusão da voz do cidadão no desenho do processo, de modo que o resultado conduza a sua satisfação. Tudo é uma questão de estratégia. De identificar quais as aspirações públicas, aonde queremos chegar e o que pretendemos ser. Embora não seja um padrão único e universal para a formulação de estratégias, faz-se necessário à criação de um esboço para que se possa prosseguir com a definição do processo estratégico, que viabilize a sociedade. Muitas análises preditivas podem ajudar os administradores na gestão de seus municípios, estados e outros órgãos públicos, nas mais diversas áreas. Estas análises auxiliam na prevenção a eventos futuros, fazendo com que diversas ações possam ser tomadas antes que os eventos ocorram. Essas análises devem estar presentes no planejamento estratégico. Isso auxiliará a gestão pública nas questões concernentes à arrecadação dos impostos, ao atendimento das demandas sociais em relação à saúde e a educação. 28 De forma mais específica é fundamental formular, desenvolver, planejar, implantar e controlar o processo estratégico, além de se prevenir dos comportamentos sazonais futuros nas séries temporais, que está liga a macroeconomia (crescimento econômico, taxas de inflação, etc), às finanças (previsão de evoluções de mercados financeiros, investimentos, etc), a gestão empresarial (procura de produtos, consumo, etc), a gestão pública (previsões de trafego em pontos ou estradas, etc) e as áreas científicas – a Meteorologia, escopo principal deste trabalho, seria uma das maiores beneficiadas. 3.1. Política pública para a Meteorologia brasileira Tramita há anos no Congresso Nacional uma proposta de emenda constitucional que, se aprovada, poderia culminar na Agência Nacional de Meteorologia. Esta ação, juntamente com outras, como, por exemplo, a criação por decreto presidencial de uma Comissão Nacional de Meteorologia e Climatologia, poderia também, segundo a crença de muitos, resolver um problema sério que ocorre no Brasil: a falta de um órgão maior de Meteorologia para centralizar, gerenciar e coordenar todas as atividades no setor. Hoje as duas maiores instituições de Meteorologia no Brasil, o Instituto Nacional de Meteorologia Inmet/Mapa e o Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos Cptec/Inpe, centralizam quase toda a verba disponível para o setor, sobrando muito pouco para os centros estaduais de meteorologia. O país ainda não tem um sistema de distribuição de dados meteorológicos unificado numa base onde todos poderiam trocar dados, acessá-los e utilizá-los como bem entendessem. Enquanto isso, a maioria dos centros regionais carece fortemente de recursos humanos e materiais, tendo às vezes que operar com meteorologistas previsores pagos com bolsas do CNPq. Obviamente, valores muito aquém do que seria o justo para um profissional da área receber. O MCT oferece um total de apenas 15 bolsas para estes centros. 29 Número logicamente insignificante perante o total de bolsas oferecidas pelo CNPq no país, algo que gira em torno de 60 a 70 mil bolsas. David M.L. Sills publicou recentemente no Bulletin of the American Meteorology Society um artigo muito interessante relatando sobre o estado atual e as perspectivas futuras do meteorologista previsor no Canadá, nesta era de grandes avanços da previsão numérica de tempo e clima. O relato é uma síntese do que foi discutido em três fóruns de debate sobre o assunto, conduzidos pelo Serviço Meteorológico Canadense (MSC) em 2003, 2004 e 2005. Fica bastante claro que a presença humana sempre se fará presente na confecção da previsão do tempo, e que a qualificação da mesma se fará cada vez mais necessária, seja através de treinamentos dos meteorologistas para a utilização do que há de mais moderno em termos de produtos de previsão ou na operação de programas de inteligência artificial que o assistirão ajudando na interpretação do cenário mais correto e do provável cenário futuro. Com isto, os previsores teriam mais tempo para concentrar seus esforços na previsão de eventos “meteorológicos de alto impacto”, aqueles mais perigosos e que potencialmente poderiam incorrer em grandes prejuízos (humanos ou materiais). A área de mudanças climáticas e aquecimento global, uma linha de pesquisa importante, mas ainda insipiente no Brasil, tem recebido significativas verbas para criação de centros e projetos. É fundamental primar por uma qualidade superior das previsões de tempo e clima dos centros regionais e nacionais para que tragédias com a do Furacão Catarina em 2004 e das enchentes no Vale do Itajaí/SC, em 2008, e no Nordeste em 2009 sejam previstas e, até aonde seja possível, minimizados os seus efeitos. A Sociedade Brasileira de Meteorologia – SBMET -, órgão que nasceu como uma sociedade técnico-científica para incentivar o desenvolvimento da Meteorologia e do pessoal especializado nacional, propõe a criação de uma Agência Brasileira de Meteorologia e Climatologia, com as atribuições e 30 elaborar e propor à Presidência da República uma Política Nacional de Meteorologia e Climatologia no país. A agência, caso ela venha a ser criada, deverá ser vinculada diretamente à Presidência da República, contar com recursos do Orçamento Geral da União, como uma Unidade Administrativa, na forma de Projeto/Atividade. Caberá a esta nova agência coordenar o Sistema Meteorológico Nacional, bem como todas as ações dele decorrentes, assegurando ao usuário o melhor e mais eficaz serviço de informação e previsão de tempo e clima possíveis com o estado-da-arte do conhecimento técnico científico em nível internacional. Além disso, ela deverá assegurar a participação federativa dos Estados de forma harmônica e eficaz, através de execução das ações a nível regional; mas de forma coordenada, promovendo a interligação dos sistemas regionais e estaduais ao sistema nacional, estimular as ações do setor privado, no sentido de melhor prestar serviços aos usuários de todos os setores produtivos e da sociedade brasileira. CAPÍTULO IV Situação atual e necessidades de investimento Tão ou mais importante do que saber se as mudanças climáticas estão ocorrendo é determinar o clima atual e como ele varia localmente. Isso permitirá melhorar as previsões e modelos climáticos na escala que interessa ao dia-a-dia das pessoas, que é local, ao nível do município. O Brasil possui 5.564 municípios e menos de 1.000 estações meteorológicas em funcionamento. É grande o desafio que se apresenta à comunidade envolvida com a coleta, tratamento e análise de dados meteorológicos. No Brasil temos, em média, menos de uma estação meteorológica em funcionamento para cada 8.500Km2. Como comparação, a área do Distrito 31 Federal é de 5.800Km2 e do estado de Sergipe é de 21.900Km2. É urgente, portanto, o aumento do número de estações, em especial nas regiões menos cobertas (a Amazônia é a principal delas). Mas também é preciso que todas as estações em território brasileiro, independente do órgão, instituição ou empresa que as administre, passem a compor uma rede única, atualizada, ágil e ativa,, permitindo-se o acesso totalmente livre aos dados obtidos, atuais e históricos. Além da relevância social na prevenção contra eventos extremos ou calamidades climáticas, seria alto o impacto econômico positivo alcançado com a ampla disponibilização dos dados, a ampliação da rede de estações e a garantia do seu funcionamento, de forma sustentada e coordenada no longo prazo. Poucos investimentos possuem um potencial de retorno tão robusto como a aplicação de recursos em Ciência e Tecnologia, em especial na coleta de dados que certamente encontrarão diversas aplicações, algumas já conhecidas, outras ainda nem imaginadas. A integração e a dimensão da atual rede brasileira de estações de coleta de dados meteorológicos são insuficientes para atender à demanda nacional pelo conhecimento do clima, dada a relevância do tema para as atividades econômicas no país. Nas atividades agrícolas quase tudo é afetado pelo clima, especialmente a determinação da melhor época para o plantio, o dimensionamento das necessidades de suplementação hídrica e a estimativa da produtividade, tão importante na previsão de safras. Embora a agropecuária talvez seja o caso mais emblemático de dependência do clima, outros setores socioeconômicos também são afetados. As grandes obras da construção civil planejam os cronogramas com base na previsão de dias sem chuva, que permitam o trabalho a céu aberto. Além disso, o dimensionamento de pontes, represas e canais é diretamente dependente da quantidade máxima de precipitação pluviométrica esperada em determinado período. Nesses casos, um cálculo baseado em dados de poucos anos de observação local pode permitir a ocorrência de transbordamentos e danos as obras e ao seu entorno. 32 O turismo é outro setor que pode ser influenciado pelo conhecimento do comportamento climático local. Desde o planejamento para a instalação de grandes empreendimentos ou a programação do calendário de eventos, até um projeto familiar de férias, todos podem ser afetados pela qualidade das informações climáticas disponíveis. O conhecimento sobre as variáveis climáticas é fundamental ainda para os setores de geração e transmissão de energia (hidrelétrica ou eólica) e de abastecimento de água (industrial, doméstico ou agrícola). O transporte terrestre, aéreo, fluvial ou marítimo também se beneficia do maior entendimento das variações climáticas. Importante distinguir “variação” de “mudança” quando se fala de clima. Se compararmos a quantidade de chuva acumulada no mês de janeiro, por exemplo, em um determinado município, dificilmente encontraremos dois valores iguais numa série histórica de 30 anos, pois a precipitação mensal varia de um ano para outro. Entretanto, neste local, pode ocorrer o “clima tropical com estação seca de inverno” há várias décadas. Uma mudança climática ocorreria se houvesse uma tendência constante e significativa de diminuição das chuvas. Tal mudança só poderia ser percebida se existisse um monitoramento continuado das variáveis climáticas, por um longo período, com medidas comparáveis ao logo do tempo, precisas e confiáveis. O clima segue determinando as características da biodiversidade de cada região. Suas variações podem levar a ocorrências extremas de precipitação, causando danos pela saturação hídrica e também pelas secas prolongadas. No campo da temperatura, os períodos de abrupta estiagem, com altas temperaturas, causam os veranicos e as baixas temperaturas ocasionam geadas, apontando aspectos da variabilidade no comportamento climático e suas tendências ao equilíbrio natural. Essas variações podem ou não ser periódicas em escalas variadas de tempo, isso porque, na natureza todas as variações atmosféricas em qualquer escala espacial, são de ordem dinâmica e não se deve atribuir às ocorrências extremas, a tão especulada “Mudança Climática”. 33 Em maio de 2001, ano do apagão, quando as condições hídricas de Minas Gerais, estado onde abriga as principais bacias hidrográficas, deram seus primeiros sinais de escassez, setores mal informados do governo não hesitaram em apontar como causa as condições climáticas atuantes na região e logo propuseram o racionamento de energia como saída estratégica para atenuar os impactos climáticos que abateu sobre o país. Sabemos, climatologicamente, que em junho, começa o período de inverno em grande parte do país, portanto um período de seca, em que as chuvas são escassas e somente iniciarão o restabelecimento das normalidades climáticas a partir de outubro. O Brasil se tornou refém da irregularidade do clima, sobretudo do regime das chuvas, para o suporte do seu modelo de Desenvolvimento Político Socioeconômico baseado na geração de energia pelo sistema hidrológico. O modelo que aí está não é um modelo ultrapassado, porém devemos lembrar que o potencial hidrológico do país, para este fim, é finito e já estamos no limiar destes limites. Não podemos atribuir a crise energética do país somente à falta de chuva do verão de 2001. A falta de investimento no setor e gerenciamento para o uso da água, que há muito tempo se faz necessária, foi sem dúvida, a falha mais grave que ocasionou esta crise. A conservação dos rios é de fundamental importância na manutenção dos sistemas hidrológicos na medida em que seja ordenado o uso de águas subterrâneas. A água extraída do lençol freático não retorna para a composição dos mananciais, pois esta é evaporada contribuindo assim para a diminuição lenta e gradual do volume de água dos rios. A degradação dos ecossistemas situados nas nascentes dos rios, o desmatamento sem controle em regiões que deveriam ser preservadas até mesmo por razões estratégicas, o assoreamento provocado pelo manejo equivocado do solo e do uso de agrotóxicos na agricultura comprometem não 34 só a água, mas também todo um sistema de vida aquático e seus dependentes. Imaginemos o São Francisco, rio da integração nacional, que desde suas nascentes até sua foz renova todo um conjunto de recursos naturais, alimenta populações inteiras com a produção de pescado, provê água para irrigação no sertão árido da Bahia e mantém grandes ecossistemas, submetendo à tamanha degradação, sofrendo com grandes projetos de retirada de água e ainda a ameaça da transposição das águas para resolver a seca do nordeste brasileiro. Hoje, não basta querer produzir, temos que conhecer a dinâmica do meio em que vivemos. Isto é válido para todos os setores de produção. Assim, fica bem claro que esta cadeia de agressões alimentada pelos atuais projetos de desenvolvimento, vai num tempo médio comprometer todo um sistema ecológico compreendido entre solo, água, ar, flora e fauna. Neste caso, temos que fazer mais que uma reflexão sobre esse comportamento. Temos que criar leis e desenvolver políticas públicas que permitam disciplinar esse tipo de procedimento selvagem, por meio de grandes programas de educação ambiental para que possamos desenvolver e aplicar em nosso proveito um sistema de desenvolvimento autossustentável, para que as futuras gerações possam se orgulhar dos brasileiros de hoje. Que seja assimilado o imperativo de políticas públicas regionais integradas em ações estratégicas com base na proteção ao meio ambiente, uma vez visualizada as diferentes questões locais, padrões de urbanização, de exploração agrícola, mineral, de aproveitamento e conservação dos recursos naturais. Cabe ao governo, em todos os seus níveis de atuação, a missão de produzir e sistematizar leis e decretos para formular as políticas públicas tão necessárias para a defesa da nossa Biosfera oferecendo um conjunto de normas que sirva de referencial para conservação ambiental nos processos de exploração agrícola, turismo, urbanismo e outros, possibilitando a padronização 35 de um modelo de operação racional que garanta o desenvolvimento sustentável, com a participação da sociedade civil. 36 CONCLUSÃO Os avanços são incontestáveis e os Centros Nacionais de Previsão de Tempo de vários países possuem diversas ferramentas para auxiliarem na previsão, com suas potentes imagens meteorológicas (satélite, radar e modelagem numérica). Agora, o principal fator motivador não é o conflito bélico quando da Segunda Grande Guerra e, posteriormente o período da chamada Guerra Fria, mas sim a busca de uma melhor qualidade de vida, com a economia de recursos econômicos de um lado e a ampliação dos recursos disponíveis por outro. Sabemos, a qualquer momento, das condições do tempo, por meio dos canais de TV e da Internet. Confortáveis em nossa casa, podemos nos conectar a uma rede de centros meteorológicos e acessar informações de qualquer lugar do mundo, em tempo real. Podemos observar a evolução de fenômenos em escala global, como o El Nino, de um furacão no Caribe ou, simplesmente, verificar o tempo em uma localidade turística para passar um belo fim de semana. Tal praticidade e, sobretudo a acessibilidade de informações meteorológicas possuem um alto custo de manutenção de estações meteorológicas e pessoal qualificado em operá-las, bem como previsores responsáveis pela análise de dados meteorológicos coletados. É urgente que o Brasil passe a encarar a Meteorologia como uma grande aliada na busca do desenvolvimento, onde os dados climatológicos e as informações em tempo real servem, muitas vezes, de fatores de tomada de decisão em projetos e políticas públicas, com uma ou mais vertentes onde o clima estará diretamente relacionado e que afetará a vida de milhões de brasileiros. 37 BIBLIOGRAFIA ANTAS, L. M.; ALCÂNTARA, F. Manual de Meteorologia para aeronavegantes. MMA-DR-105-3, Brasil: Aliança para o progresso, 1969. 185p. AYOADE, J.O. Introdução à meteorologia para os trópicos. 8ª ed. Rio de Janeiro: Bertand Brasil, 2002. 332p. BRASIL. Comando da Aeronáutica. Departamento de Controle do Espaço Aéreo. ROTAER - manual auxiliar de rotas aéreas. 3. ed., Rio de Janeiro, 2005. CEBALLOS, J.C.; BOTTINO, M.J. Improved solar radiation assessment by satellite using cloud classification. In: INTERNATIONAL RADIATION SYMPOSIUM, 2000, São Petersburg. Proceedings... Virginia: A. 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Saraiva, 2007. 177p VIANELLO, R.L.; ALVES, A.R. Meteorologia básica e aplicações. Viçosa: UFV, 1991. 40 FOLHA DE AVALIAÇÃO Nome da Instituição: Universidade Cândido Mendes Título da monografia: A estrutura da Meteorologia possibilidades e perspectivas Autor: Marcelo Migueres Barbosa Data da entrega: Avaliado por: 1º de outubro de 2010 Conceito: no Brasil – 41 ÍNDICE AGRADECIMENTOS 3 DEDICATÓRIA 5 RESUMO 6 METODOLOGIA 7 SUMÁRIO 8 INTRODUÇÃO 9 CAPÍTULO I A contribuição da 2ª Guerra Mundial para a moderna Meteorologia 12 CAPÍTULO II A Meteorologia no Brasil 15 2.1 – Antecedentes históricos 15 2.2 – Formação profissional – os cursos de Meteorologia 18 2.3 – Importância e aplicações da Meteorologia 21 2.3.1 – Importância 21 2.3.2 – Aplicações 22 CAPÍTULO III Análise das Políticas Públicas e da Gestão Pública no Brasil 24 3.1 – Política pública para a Meteorologia brasileira 28 CAPÍTULO IV – Situação atual e necessidades de investimento 30 CONCLUSÃO 36 BIBLIOGRAFIA 37 ÍNDICE 41