1 Núcleo de Pesquisas em Qualidade de Vida VI ENABER – Aracaju, 2008 DINÂMICA URBANA E MERCADO IMOBILIÁRIO: O CASO DO BAIRRO DA MOOCA EM SÃO PAULO Daniel Brenna Pires1 Mônica Yukie Kuwahara2 RESUMO Este trabalho se ocupa da dinâmica imobiliária do bairro da Mooca. A Mooca é um dos bairros de São Paulo que tem sua origem associada ao processo de industrialização substitutiva de importações verificada na cidade ao longo do século XX. Tem por objetivo descrever as principais variáveis que afetam o mercado imobiliário da Mooca. Com o crescimento da cidade e expulsão das indústrias do centro, os espaços vazios surgem no bairro despertam o interesse do mercado imobiliário em lançar novos produtos nesses locais, valorizando a região e elevando o valor do metro quadrado. A pesquisa que originou este artigo utiliza dados fornecidos pela EMBRAESP sobre imóveis comercializados na região entre 1995 e 2008 e aplica dois métodos de análise das informações. O primeiro é a análise fatorial para gerar indicadores de localização (proximidade do centro). O segundo método é o modelo de preços hedônicos que utilizou como variáveis as características destes imóveis tais como a área útil, a divisão dos cômodos, a metragem e a localização. Os resultados indicam a significância da variável “distância do centro” na formação de preços dos imóveis, sinalizando o valor estratégico da localização na composição dos preços destes imóveis. Palavras chave: mercado imobiliário, preços hedônicos, fatores aglomerativos e desaglomerativos, amenidades. 1 Graduando do curso de Ciências Econômicas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie Pesquisadora do Núcleo de Pesquisas em Qualidade de Vida (NPQV) do curso de Economia da Universidade Presbiteriana Mackenzie 2 KUWAHARA & PIRES MACKENZIE - NPQV 2 Núcleo de Pesquisas em Qualidade de Vida VI ENABER – Aracaju, 2008 INTRODUÇÃO Este trabalho se ocupa da dinâmica imobiliária do bairro da Mooca. Bairro este que é um dos mais tradicionais de São Paulo, com fortes raízes italianas e também de outros imigrantes oriundos da Europa. Seus habitantes têm grande prazer em dizer que são moradores do bairro, uma característica unânime entre todos, tornando o moquense um apaixonado pelo seu bairro, sendo motivo até de pesquisas e matérias de jornais. Sua paisagem sempre foi marcada por muitas fábricas, galpões e operários. É um dos berços da industrialização brasileira e um dos motores que ao lado de outros bairros industriais como a Barra Funda e Santo Amaro, levaram São Paulo a se tornar a cidade que é hoje. A intensa atividade cafeeira do interior paulista encontrou nos trilhos que por ela cruzavam as fábricas que produziam as sacas para embrulho do café, bem como indústrias alimentícias. (KÜNSCH, 2006, p.45) Com o passar dos anos, São Paulo foi crescendo e se desenvolvendo, tornando-se uma metrópole. E como toda metrópole, problemas começaram a surgir: trânsito, poluição do ar, dos rios, encarecimento do preço da terra (valorização) nas proximidades do centro entre outros. Foram estes motivos que levaram à falência e à expulsão de uma série de indústrias da cidade, inclusas nestas, as indústrias do bairro. Estas foram buscar regiões mais afastadas, em torno da metrópole, para se instalar. (KÜNSCH, 2006, p. 40) Assim, espaços vazios começam a se formar na cidade. Na Mooca, este fato é facilmente percebido. Por ser uma região fabril, abriga enormes terrenos com galpões antigos e casas (cortiços) abandonadas. É nesta nova paisagem que começam a surgir uma série de empreendimentos verticais, os condomínios fechados. Incorporadoras e grandes imobiliárias perceberam na região, certa propensão para o desenvolvimento e crescimento, após anos estagnada e abandonada. (KÜNSCH, 2006, p. 173) E é este um dos principais motivos para que esta pesquisa se iniciasse. Entender o porquê desta procura por uma região que antes era considerada fabril e antiga e que hoje está se valorizando, além de possuir um grande atrativo para um problema crônico na cidade, bons terrenos disponíveis, chamando assim a atenção do mercado KUWAHARA & PIRES MACKENZIE - NPQV 3 Núcleo de Pesquisas em Qualidade de Vida VI ENABER – Aracaju, 2008 imobiliário. Este interesse pode levar a um melhor desenvolvimento da região e assim uma melhor qualidade de vida. Para isso, uma questão chave será trabalhada. Qual a característica do mercado imobiliário na Mooca? Para que esta questão seja respondida, será trabalhada a hipótese de que a proximidade do centro é uma variável que afeta o preço dos imóveis. A oferta de espaços vazios no bairro foi percebida por empreendimentos verticais, elevando o preço do metro quadrado e valorizando a região. Os objetivos, portanto, são: identificar as principais características do processo de formação do bairro da Mooca e descrever algumas das variáveis que afetam o mercado imobiliário em questão. Para tanto, o trabalho utilizou como procedimentos iniciais a revisão bibliográfica para analisar como se deu o processo de formação do bairro, que fatores levaram ao surgimento de uma intensa atividade industrial e que fatores levaram as mesmas indústrias décadas mais tarde, a serem expulsas do centro urbano. A partir da revisão bibliográfica, duas formas de tratamento de dados foram estabelecidas. A primeira foi a criação de um indicador de localização e em seguida, a utilização do modelo de preços hedônicos para buscar identificar as variáveis relevantes na formação do preço dos imóveis. Os dados utilizados foram fornecidos pela EMBRAESP (Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio), relativos ao período de Janeiro de 1995 à Março de 2008 e se referem a 2623 imóveis, distribuídos em 124 empreendimentos localizados no bairro da Mooca e Alto da Mooca. Os resultados destas reflexões se apresentam em cinco itens. No primeiro se descreve o processo de formação do bairro a partir de Moinbeg (2005) Szmrecsányi (2005), salientando os principais aspectos históricos que levaram a caracterização do bairro. Para análise de possíveis efeitos aglomerativos ou desaglomerativos, o referencial teórico utilizado foi o Modelo de Weber (MACIEL, 2000). O segundo item apresenta o Modelo de Preços Hedônicos. Tal método, muito utilizado para valoração econômica, é sugerido quando se buscam quais atributos, amenidades, na linguagem do modelo, são realmente determinantes na formação dos preços de imóveis na região. Já o terceiro item apresenta os dados utilizados no KUWAHARA & PIRES MACKENZIE - NPQV 4 Núcleo de Pesquisas em Qualidade de Vida VI ENABER – Aracaju, 2008 modelo adotado, descrevendo a construção do índice de localização e a técnica utilizada para obtê-lo, a análise fatorial formativa. É neste item também que se apresenta a descrição dos dados sócio demográficos do bairro, coletados da Subprefeitura Mooca, do CENSO 2000 do IBGE e do NPQV (Núcleo Pesquisa em Qualidade de Vida). O quarto item apresenta os resultados e discussões obtidos da aplicação do modelo à amostra utilizada, avaliando a capacidade explicativa do mesmo. Entre os resultados se destaca a forte fazendo uma análise dos coeficientes de cada característica que compõe a regressão. E por fim, o quinto e último capítulo com as conclusões do trabalho e os resultados esperados. 1. A EVOLUÇÃO DA OCUPAÇÃO ECONÔMICA NO BAIRRO DA MOOCA Este capítulo tem por objetivo descrever o processo de ocupação da região da Mooca, buscando identificar as primeiras atividades econômicas realizadas no Bairro e como a teoria econômica consegue explicar este processo de ocupação. Começa-se descrevendo um pouco de sua história e aspectos relevantes do bairro e após isto serão utilizados os modelos de aglomeração como fundamentação teórica. Bairros e distritos de uma cidade, tal como o proposto pelo IEQV. 1.1 ORGIGENS DA MOOCA O nome Mooca, vem de origem indígena, mais precisamente do tupi-guarani, derivando de “moo-oca”, onde “moo” significa fazer e “oca” significa casa, ou seja, fazer casa. Esta expressão era dita pelos índios para designar as ações do homem branco que acabará de chegar ao local, construindo casas às margens do Rio Tamanduateí e utilizando a mão de obra indígena como força de trabalho. (KÜNSCH, 2006, p. 22) O início do processo de ocupação da região é 1556, sendo 17 de Agosto, a data de aniversário do bairro. Foi nesta data que a ponte Tabatingüera foi construída sobre o rio Tamanduateí, pelos jesuítas para abrir caminho para os bandeirantes que ali KUWAHARA & PIRES MACKENZIE - NPQV 5 Núcleo de Pesquisas em Qualidade de Vida VI ENABER – Aracaju, 2008 passavam e para que a região fosse explorada. Um dos primeiros a desbravar a região foi Brás Cubas, em 1567 e um dos responsáveis pela criação de bairros futuros como o Brás, Belém e Penha. (BARBULHO, 2006, p.16) É em 1867, que é construída a primeira estrada de ferro paulista, a São Paulo Railway, ligando o porto de Santos a Jundiaí, onde o principal produto transportado eram os valiosos grãos de café. Este fato favoreceu o surgimento de indústrias próximas aos trilhos do trem, para facilitarem o escoamento da produção. Como esta ferrovia passava no meio da Mooca, as primeiras indústrias a aparecerem no bairro foram as de fiação de algodão e tecelagens. O grande motivo delas se instalarem ali era que além de fabricarem as sacas que se embalariam os grãos, a região possuía terrenos baratos, facilitando estas se instalarem e os operários também, bem como a sua proximidade do caminho para Santos. Instalaram-se também, indústrias que se dedicavam à produção de bens de consumo para o mercado interno. “O café possibilitava altas margens de lucros que somadas com a alta produtividade, a grande disponibilidade de terras e o trabalho assalariado dos imigrantes, levaram a formação de uma alta acumulação de capital” (Cano, 1998, p.138). Isso gerou uma enorme capacidade para importar, e dadas as inversões de capitais dos cafeicultores que buscavam investir em novas áreas, foi o momento propício para o surgimento da industrialização em São Paulo. No início do século XX, São Paulo já era o estado mais populoso do país, grande mercado consumidor que possuía boa infraestrutura industrial e comercial. E o bairro da Mooca já possuía intensa atividade industrial, caracterizando-se como um bairro operário. Imigrantes chegavam do porto de Santos e se instalavam na Hospedaria dos Imigrantes, no Brás. Muitos eram alocados nas fazendas cafeeiras do interior paulista, e o restante era absorvido pela indústria paulista que não parava de crescer. “Estimase que até a primeira guerra mundial, a Hospedaria tenha recebido mais de três milhões de imigrantes”. (DIÁRIO DO COMÉRCIO, 17/08/2007, p. 3) Nos anos 50, São Paulo já era uma metrópole, e a Mooca um bairro já formado que acompanhava o ritmo de crescimento e modernidade da cidade. Havia diminuído o número de imigrantes advindos da Europa e um incremento na migração interna, KUWAHARA & PIRES MACKENZIE - NPQV 6 Núcleo de Pesquisas em Qualidade de Vida VI ENABER – Aracaju, 2008 principalmente de nordestinos para a cidade. É a partir desta época e mais acentuado nas décadas seguintes, que muitas das indústrias fecharam ou buscaram novas cidades para se instalar, pois a crescente valorização do preço da terra faz com que estas se desloquem para áreas mais baratas, tornando nítida a inviabilidade de se manter indústrias em grandes centros urbanos. Outros fatores contribuíram para tal situação como aumento dos custos de transporte dados pelos congestionamentos, expansão da cidade e dispersão dos consumidores, questões ambientais como poluição sonora, do ar entre outros. (BIDERMAN, 2004, p. 98) Percebe-se com este fato, uma realidade das grandes metrópoles: a expulsão de indústrias próximas do centro urbano de São Paulo e uma desconcentração da atividade produtiva, resultando num declínio do emprego industrial. 1.2 DINÂMICA URBANA METROPOLITANA Paralelo a todos estes acontecimentos, nas décadas seguintes, começa a surgir em São Paulo um novo tipo de atividade, a dos serviços produtivos. Serviços estes que empregam uma força de trabalho altamente especializada e com alto grau de inovação. Localizam-se próximas da mão de obra que demandam e de seus clientes, caracterizando os ganhos de urbanização, ganhos decorrentes da presença de firmas de todos os setores. Tendem a se aglomerar, pois são atividades que se completam, ou seja, além de prestar serviços para as empresas elas acabam se “auto servindo”. “Outra característica é que as empresas se situam nos grandes centros urbanos, e estes atraem trabalhadores qualificados, logo é de se esperar que os serviços produtivos se localizem nos centros urbanos também”. (BIDERMAN, 2001, p. 16) Assim, com a expulsão das indústrias do centro urbano paulista, espaços vazios começaram a surgir na Mooca como galpões, casas e cortiços abandonados. Com o aumento do valor da terra, as pessoas de baixa renda que habitavam e trabalhavam próximas às indústrias, tiveram que deixar o local, uma vez que não podiam mais arcar com estes custos. Soma-se a isso a crescente oferta de serviços na cidade que contribui para que esta situação se agravasse. Em São Paulo Metrópole, Biderman deixa isso bem claro: KUWAHARA & PIRES MACKENZIE - NPQV 7 Núcleo de Pesquisas em Qualidade de Vida VI ENABER – Aracaju, 2008 “O aumento da demanda de espaços nas grandes cidades por parte dos serviços produtivos acaba encarecendo o preço da terra e os salários, ou seja, o custo do espaço urbano, o que acaba expulsando as indústrias” (2004, p. 191) Isso é verificado na Mooca, “um bairro plenamente equipado em infraestrutura e transporte, próximo do centro e de importantes regiões que se encontra num processo de esvaziamento populacional”. (BIDERMAN, 2004, p.190) Segundo o subprefeito da Mooca, Eduardo Odloak, “vinte por cento dos imóveis da Mooca estão vazios”. É daí que nasce a dinâmica imobiliária na Mooca. Imobiliárias e incorporadoras viram no local um grande atrativo para investimentos, ou seja, a construção de empreendimentos verticais de padrão médio-alto, substituindo as antigas construções do bairro. De acordo com o dono da imobiliária Frema, José Roberto Federighi, “quanto mais próximo for um bairro de comércio e serviços, além da arborização do local e tranquilidade em termos de segurança, mais moradores ele deverá ter”. Já na opinião de Klausner Monteiro, gerente comercial da construtora Rossi Residencial, “todos os imóveis recém-lançados na Mooca sempre vendem rápido, pois as pessoas gostam de morar na região principalmente devido à proximidade com o centro da cidade”. E é isto o que se tem observado no bairro, esta grande potencialidade para receber novas edificações, uma crescente verticalização residencial que substituiu a população de menor poder aquisitivo por moradores de maior renda. Acompanhada de atividades de comércio e serviços especializados. Uma frase explica ilustra bem esta transformação mooquense: “A Mooca retoma a vocação original de Moo Oca e se projeta para o alto”. (KUNSCH, 2006, p. 169) Dada uma explicação geral de como foi o processo de formação histórico do bairro da Mooca e descrito suas características atuais, com o auxílio da teoria econômica, podese explicar melhor alguns pontos chaves desta formação, como a questão do café, KUWAHARA & PIRES MACKENZIE - NPQV 8 Núcleo de Pesquisas em Qualidade de Vida VI ENABER – Aracaju, 2008 das indústrias, das ferrovias e dos imigrantes, pontos estes que contribuíram para o desenvolvimento do bairro e da cidade de São Paulo. 1.3 MODELOS INTERPRETATIVOS DA DINÂMICA URBANA Baseando-se em teorias e modelos que tratem da ocupação do espaço pela atividade econômica humana, modelo estes via localização das indústrias, são também chamados de modelos de custos mínimos, como é o caso do Modelo de Weber. “O modelo de Weber, expoente clássico dos modelos de localização, está baseado na ideia do custo mínimo, ou seja, economias de custo que a empresa pode obter ao escolher determinada localização, supondo fator trabalho imóvel e oferta elástica”. (MACIEL, 2000, p.34). Segundo o modelo, existem determinados fatores que conseguem explicar como determinada região foi escolhida em relação às demais, fatores regionais, e fatores capazes de explicar a concentração ou dispersão das indústrias em certa região, que são os fatores aglomerativos e desaglomerativos. Os primeiros estão relacionados ao transporte e à mão de obra. O autor faz uma análise comparativa entre os custos destes dois fatores para obter a localização de mínimo custo. Supõe existir um mercado puntiforme, perfeitamente competitivo, com dois locais produtores de matéria-prima. “A empresa pode escolher sua localização com base em dois estágios: escolher o local que gere o menor custo de transporte entre o local de produção e o mercado final e escolher a localização com base nas vantagens de se localizar num local mais aglomerado”. (CLEMENTE, 1994, p.103) A empresa pode localizar-se próxima as matérias-primas caso o custo de transporte das mesmas exceda o custo de transporte dos produtos. Do mesmo modo, irá se KUWAHARA & PIRES MACKENZIE - NPQV 9 Núcleo de Pesquisas em Qualidade de Vida VI ENABER – Aracaju, 2008 localizar próximo ao mercado consumidor se o custo de transporte até este, exceda o custo de transporte das matérias-primas. Outro ponto em destaque seria com relação à abundância dos fatores relacionados, principalmente do fator trabalho. Uma empresa se localizará em determinado centro caso este tenha abundancia deste fator, ou melhor, “quando o montante economizado de tal fator exceda o custo adicional de transporte”. (MACIEL, 2000, p. 38) Há também os fatores aglomerativos e desaglomerativos. Fatores aglomerativos no sentido de redução dos custos ou economias de escala que uma empresa de certa indústria aufere ao se localizar junto a outras empresas. Economias associadas à concentração de mão de obra qualificada, infraestrutura de transportes, de comunicações, proximidade com importantes regiões entre outros. Desaglomerativos no sentido de uma economia de custo obtida pelo distanciamento em relação às empresas já estabelecidas ou ao local instalado. Como exemplos já mencionados anteriormente têm-se o aumento dos custos de transporte das indústrias dados pelos congestionamentos, expansão da cidade e dispersão dos consumidores; elevação do preço da terra e questões ambientais como poluição atmosférica e sonora. (CLEMENTE, 1994, p. 102) Após uma breve explanação do modelo de Weber, pode-se relacioná-lo com alguns pontos históricos. A começar pela questão do fator transporte. Dado que a ferrovia que ligava o interior paulista ao litoral, a São Paulo Railway, passava no meio do bairro, e dada a proximidade com o centro da cidade de São Paulo, a região acabou sendo estratégica para a localização das indústrias, que ao se estabelecerem nas margens da linha do trem, teriam importantes reduções no custo do transporte dos produtos. Com relação ao fator trabalho. Como foi dito, na Mooca foi instalada a Hospedaria dos imigrantes, que acolhia todos os imigrantes que aqui chegavam em busca de um futuro promissor. Muitos destes eram alocados nas próprias indústrias paulistas, sendo uma mão de obra farta e barata para a expansão industrial paulista. KUWAHARA & PIRES MACKENZIE - NPQV 10 Núcleo de Pesquisas em Qualidade de Vida VI ENABER – Aracaju, 2008 Logo estes dois fatores contribuíram e muito para que as indústrias se localizassem no bairro da Mooca, podendo ser considerados como fatores aglomerativos, ou seja, que atraíram as empresas para o local. Outras características também podem ser relacionadas como o fato de a região ser estratégica bem próxima de vias de acesso ao ABC, Litoral, Rio e Belo Horizonte, porta de entrada para a Zona Leste entre outros. Pode-se relacionar também a descentralização industrial de São Paulo a partir dos anos 50, com os fatores desaglomerativos de Weber. A elevação do preço da terra em regiões próximas do centro das grandes metrópoles somadas às pressões ambientais, sociais e econômicas, fez com que muitas das indústrias migrassem para regiões mais distantes do centro, em busca de menores custos, como talvez tenha acontecido na Mooca. Isto pode ser explicado pelo enorme número de galpões de antigas firmas espalhadas pelo bairro, que atualmente estão abandonados e que estão sendo motivo de especulação imobiliária. Assim, o modelo de Weber torna-se bastante interessante para explicar o modo como as indústrias se concentraram em São Paulo, principalmente no bairro da Mooca, um bairro operário, de origem fabril e que com o desenvolvimento e modernidade da cidade sofreu algumas consequências que estão direcionando seu futuro para uma realidade distante da apresentada um século antes. Logo, conclui-se que o modo como o bairro se formou, através das indústrias nas proximidades das linhas do trem e com a crescente chegada de imigrantes, propiciou a formação de um bairro fabril voltado a atender as demandas cafeeiras e as demandas da maior cidade do país. E isso é explicado claramente pelos fatores aglomerativos e desaglomerativos do Modelo de Weber, que acabam por sinalizar as características do bairro moquensese. Dadas estas informações da história do bairro e com o auxílio de modelos de valoração econômica, pode-se estimar um modelo capaz de captar e precificar todas estas características do bairro, reservando-se a características referentes ao mercado imobiliário. É o Modelo de Preços Hedônicos. KUWAHARA & PIRES MACKENZIE - NPQV 11 Núcleo de Pesquisas em Qualidade de Vida VI ENABER – Aracaju, 2008 2. O MODELO DE PREÇOS HEDÔNICOS Este capítulo tem por objetivo descrever o método de Preços Hedônicos, para que este sirva como modelo para estudarmos a dinâmica imobiliária do bairro da Mooca, identificando os principais atributos (amenidades) dos imóveis da região que podem influenciar preços de mercado e bem-estar dos agentes econômicos. Modelo desenvolvido por Rosen (1974) faz parte dos modelos referentes à valoração econômica do meio ambiente. Ao se valorar um recurso ambiental, estamos determinando o quanto este afetará o bem-estar das pessoas, se seu nível de existência variar, ou seja, mudanças na sua quantidade podem aumentar ou reduzir o bem-estar de um indivíduo. E para que isso aconteça, precisam “captar as distintas parcelas de valor econômico do recurso ambiental”. (MOTTA, 2006, p.15). Atualmente é muito utilizado para trabalhos e pesquisas referentes ao estudo do mercado imobiliário, pois dele podemos estimar valores para todas as características de um imóvel e possivelmente saber por que determinadas regiões se valorizam e outras não. Características e atributos que podem ser relacionados ao meio ambiente, como proximidade de áreas verdes, poluição do ar e sonora, entre outros, e que podem ser relevantes para a formação do valor dos imóveis. Esta modelo parte da ideia de que uma série de características que compõe um bem privado pode influenciar positiva ou negativamente o seu valor de mercado. Estas características, também chamadas de amenidades, atuam como preços implícitos, e para que a estimação da função hedônica aconteça, tais características precisam ser observadas pelos agentes, caso contrário, não podem explicar tal valor do bem. Pois partimos da suposição que alguém que, por exemplo, for comprar um imóvel, considera todas as características deste para que formule sua disposição a pagar, com base na sua função utilidade. Assim, “Estabelecesse uma relação, denominada de função de preços hedônicos, entre os atributos de um bem e seu preço de mercado, para que uma vez estimada esta função, seja possível estimar o valor implícito de cada um dos atributos relacionados”. (LEZCANO, 2004, p.78) KUWAHARA & PIRES MACKENZIE - NPQV 12 Núcleo de Pesquisas em Qualidade de Vida VI ENABER – Aracaju, 2008 Como dito, muito usado para estimar valores de imóveis. Para tanto, deve-se encontrar todas as características e fatores que influenciam as preferências do consumidor. Assim, é possível explicar porque imóveis semelhantes, com mesmo tamanho e forma, podem divergir quanto ao seu valor. Assim surge a função de preços hedônicos que nada mais é do que uma função que estima o preço marginal de um bem e de suas respectivas quantidades de atributos. É expressa a seguir: = ( Onde , é o preço do imóvel; , , ,…, ) as diferentes características do deste imóvel. Para determinar este valor com base em suas características, utiliza-se a econometria, através da regressão múltipla com base no método dos mínimos quadrados ordinários (MQO). Assim, podemos obter uma equação com todas as características linearizadas: = + + + + os coeficientes da regressão, denominados por constantes; Sendo explicativas, no caso, os atributos do imóvel e lembrar que as variáveis o erro aleatório do modelo. Vale , geralmente é negativo, tornando um termo independente. Depois de feita a estimativa dos parâmetros da regressão obtém-se: = Onde, + + + + são os coeficientes estimados, ou seja, estimativas dos valores dos atributos do bem e os resíduos do modelo. Determinada a função de preços hedônicos, pode-se agora determinar o peso de cada atributo no valor final do preço, ou seja, quanto uma pessoa esta disposta a pagar por aquela determinada característica adicional. Para isso, utilizamos a derivada parcial da função hedônica em relação a cada atributo do bem. Por exemplo, supondo que KUWAHARA & PIRES MACKENZIE - NPQV 13 Núcleo de Pesquisas em Qualidade de Vida VI ENABER – Aracaju, 2008 seja a proximidade do local ao centro da cidade, seu preço implícito seria dado por: = Onde é o preço hedônico de cada atributo, ou melhor, “beneficio” ou “malefício” marginal de cada atributo ou amenidade do imóvel. Note-se que ao fazer a derivada parcial de cada atributo do imóvel, “Estamos estimando uma curva de demanda inversa pela quantidade do atributo ambiental, regredindo os valores calculados dos preços implícitos contra vários níveis de qualidade ambiental. E o valor obtido, mostrará a mudança no bem-estar a partir de mudanças na qualidade do atributo ambiental analisado” (MAY, 2003, p.33). Assim, o método de preços hedônicos torna-se de grande importância para estudos relacionados ao mercado imobiliário, pois além de poder dizer os motivos pelas quais determinadas regiões se valorizam e outras não, pode ser usado em pesquisas de mercado, para saber quais são realmente os gostos dos compradores e o porquê de estarem comprando imóveis na região, influenciando no nível de oferta de imóveis. Mas algumas limitações podem ser listadas deste modelo. A primeira e mais importante refere-se ao fato já mencionado neste trabalho, de que todas as amenidades, atributos devem ser de conhecimento dos consumidores, pois caso este não for percebido pelos agentes, não irá influenciar no preço de compra. Outro fator, não menos importante, está relacionado à escolha das variáveis para serem incluídas na função hedônica. Que atributos são realmente importantes para formação do preço do bem? Deve-se tomar certo cuidado para que não ocorram problemas de multicolinearidade, já que certas variáveis possam possuir certa correlação mútua. KUWAHARA & PIRES MACKENZIE - NPQV 14 Núcleo de Pesquisas em Qualidade de Vida VI ENABER – Aracaju, 2008 Outra limitação diz respeito à necessidade de simetria de informações. O Modelo supõe que os agentes têm conhecimento de todas as informações, só que na realidade, não é bem isso o que acontece. Ao considerar o mercado imobiliário de São Paulo, verifica-se que grandes empresas representam grande parte do mercado, e uma série de minúsculas empresas, representam fatias menores. Muitas dessas acabam passando despercebidas por determinados agentes, seja por lançarem em regiões mais afastadas, seja por terem um poder mídia menor que as líderes. 3. DADOS E ANÁLISE DESCRITIVA Este capítulo tem como objetivos apresentar os dados referentes ao bairro da Mooca e análise descritiva de cada atributo incluso no modelo de Preços Hedônicos. Serão apresentados os dados sócio demográficos referentes ao bairro para caracterização deste nos dias atuais e os dados para serem utilizados no método dos Preços Hedônicos. Está dividido em três seções: dados sócio-demográficos, variáveis do modelo e análise descritiva. 3.1 DADOS SÓCIO-DEMOGRÁFICOS Serão apresentados alguns dados referentes ao bairro da Mooca e a Subprefeitura à qual este bairro pertence. Dados estes obtidos da Prefeitura de São Paulo, IBGE e do NPQV. De acordo com a Prefeitura de São Paulo, o bairro da Mooca está situado na Subprefeitura Mooca, que é composta pelos distritos: Água Rasa, Belém, Mooca, Tatuapé, Pari e Brás. Compreende uma população de 308.161 habitantes, distribuída em uma área de 35,20 km², possuindo uma densidade demográfica de 8.754 hab/km². Considerando, os distritos em que ocorrem o maior número de lançamentos de imóveis na Subprefeitura, no caso Belém, Tatuapé, Mooca e Água Rasa, o número de habitantes cai para 268.000. Estes estão distribuídos em 85.000 domicílios, sendo quase 54.000 casas e 30.000 aptos. Destes, 13.458 domicílios possuem chefes de família com renda superior a 20 salários mínimos. (PREFEITURA SÃO PAULO) KUWAHARA & PIRES MACKENZIE - NPQV 15 Núcleo de Pesquisas em Qualidade de Vida VI ENABER – Aracaju, 2008 A região possui boa oferta de infraestrutura como escolas, creches e hospitais, bem como áreas de lazer para atender sua população. Encontra-se na região também cerca de 15.334 estabelecimentos comerciais, que geram mais de 160 mil empregos. (PREFEITURA SÃO PAULO) Com relação ao bairro da Mooca, está situado numa área de 7 km², com uma população de mais de 63 mil habitantes. Bem próxima do centro da cidade, distante 5 km, possui fácil acesso as grandes vias do município. De acordo com a Lopesquisa, inteligência de mercado da Lopes Consultoria de imóveis, a região é um grande polo de moradia, emprego e comércio. O Preço do metro quadrado na região varia entre 2 a 3,2 mil reais. Semelhante a Subprefeitura que pertence, possui grande oferta de escolas, creches, hospitais e lazer, o que leva a entender a elevada expectativa de vida de seus habitantes, que pode chegar a 74,7 anos para as mulheres e 65,2 anos para os homens. Com o auxilio de um índice geral criado pelo NPQV (Núcleo Pesquisa em Qualidade de Vida), o IEQV (Índice Econômico de Qualidade de Vida), será possível verificar se as informações citadas acima são realmente verdadeiras. Este índice pretende descrever a qualidade de vida em cada uma das 31 Subprefeituras da cidade, com base em variáveis como educação, renda, saúde, cultura e lazer, meio ambiente, segurança e justiça e habitação, podendo-se assim, ter uma ideia de como está à situação atual da Subprefeitura Mooca. Com relação aos dados referentes à cultura e lazer, está entre as cinco subprefeituras com maior número de equipamentos tecnológicos e culturais por 100.000 habitantes e quantidades de bibliotecas também por 100.000 habitantes. Isso comprova com o também índice INAI (Índice de Não-acesso a Informação), onde esta subprefeitura figura em 5º lugar, comprovando que seus habitantes possuem acesso a diferentes tipos de informação seja via internet, televisores ou rádios. Nota-se que para o acesso à internet, é necessário um microcomputador e uma linha telefônica, fatores que ajudam a caracterizar o acesso à tecnologia e a informação. Isso indica também a KUWAHARA & PIRES MACKENZIE - NPQV 16 Núcleo de Pesquisas em Qualidade de Vida VI ENABER – Aracaju, 2008 posição de destaque da subprefeitura com relação à educação, já que possui a 5ª maior taxa de escolarização na educação infantil e a 6ª no ensino médio, bem como a 6ª menor taxa de analfabetismo de sua população dentre as 31 subprefeituras. Logo, pela análise destes indicadores, verifica-se que os moradores do bairro possuem boas condições de lazer e acesso informação. Assim é de se esperar que possuam um maior nível de escolaridade perante as demais subprefeituras da cidade e chances de emprego e salários maiores, caracterizando uma melhor qualidade de vida. Com relação aos dados sobre saúde, verifica-se que possui umas das menores taxas de mortalidade infantil, figurando entre as sete menores taxas dentre as subprefeituras. Está entre as seis maiores subprefeituras onde as gestantes fazem mais de sete consultas pré-natais e entre as dez com maior oferta de equipamentos de saúde. Gráfico 1: Índice Econômico de Qualidade de Vida Fonte: NPQV Pelo gráfico, verifica-se que a Subprefeitura Mooca, encontra-se bem posicionada entre as Subprefeituras da cidade, ocupando o 7° lugar com 65,03, numa escala que vai de 0 a 100. KUWAHARA & PIRES MACKENZIE - NPQV 17 Núcleo de Pesquisas em Qualidade de Vida VI ENABER – Aracaju, 2008 Essa posição de destaque na qual a Subprefeitura Mooca se encontra no ranking das Subprefeituras da cidade, reflete a boa visão que os moradores têm do local. Uma região servida de boa infraestrutura de transporte, próxima do centro da cidade, facilitando o deslocamento de seus moradores pela cidade. Uma região segura, com baixo índice de roubos e homicídios. Facilidade no acesso a informação e a cultura, bem como boa infraestrutura escolar e hospitalar. Isso implica em rendas maiores de seus habitantes levando a um maior conforto e qualidade de vida elevada, diminuindo cada vez mais a desigualdade entre seus moradores. E para comprovar isso, em pesquisa recente feita pelo Datafolha, o bairro da Mooca, foi eleito o melhor bairro paulistano para se viver, desbancando bairros badalados da cidade. Sossego, acesso fácil, oferta de serviços e segurança foram os atributos escolhidos pelos entrevistados na escolha. Nesta pesquisa, foi citada a proximidade do centro como um grande atrativo para escolha do bairro. A pesquisa mostra também que o perfil do morador do bairro é de predominância da classe B e C, sendo que 20% possui ensino superior e 44% renda entre 5 e 20 salários-mínimos. Com o auxílio de outro índice, o IVH, Índice de Vulnerabilidade Habitacional, cuja tarefa é localizar no município de São Paulo as regiões com maiores problemas habitacionais, colocando-as numa escala de 0 a 100, onde 0 significa ausência de vulnerabilidade habitacional e 100 total vulnerabilidade, pode-se ter a noção de quão deficitária é a região em termos de oferta de moradia, e dentre as existentes, classificá-las quanto ao seu tipo, espécie, condição, quantidades de cômodos, banheiros e densidade de moradores. Assim, torna-se mais fácil a tarefa de planejar e direcionar políticas públicas para correção dos prováveis problemas habitacionais existentes. Pelo gráfico abaixo, percebe-se que a Subprefeitura Mooca encontra-se em 5° lugar num ranking de 31 Subprefeituras, com 17,60 de vulnerabilidade habitacional. De imediato, percebe-se que a crescente oferta de empreendimentos verticais na região, e a consequente melhoria no tipo de habitação do bairro, podem levar a modificar este valor para os próximos anos e assim quem sabe, melhorar o ranking da Subprefeitura, KUWAHARA & PIRES MACKENZIE - NPQV 18 Núcleo de Pesquisas em Qualidade de Vida VI ENABER – Aracaju, 2008 uma vez que cortiços e galpões, que são potenciais vilões para agravar este índice, tendem a desaparecer, levando a entender que as novas moradias criadas, se enquadrem num melhor padrão de qualidade de vida. Gráfico 2: Índice de Vulnerabilidade Habitacional Fonte: NPQV Assim, conclui-se que a Subprefeitura da Mooca está entre uma das melhores da cidade, sendo classificada com uma qualidade de vida de padrão médio-alto pelos índices do NPQV, como mostra o mapa abaixo. KUWAHARA & PIRES MACKENZIE - NPQV 19 Núcleo de Pesquisas em Qualidade de Vida VI ENABER – Aracaju, 2008 Figura 1: Mapa IEQV / Fonte: NPQV 3.2 VARIÁVEIS DO MODELO Para aplicar o método de Preços Hedônicos, serão utilizados dados referentes à EMBRAESP (Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio) relativos a empreendimentos lançados de Janeiro de 1996 até Março de 2008. Esta amostra, que compreende um universo de 122 empreendimentos lançados no período acima citado, está caracterizada pelas Zonas de Valor Mooca e Alto da Mooca. Foram selecionados os atributos que melhor possam representar o valor dos imóveis e alocados como variáveis explicativas no modelo. São eles: variável área útil, variável dormitório, variável suíte, variável vagas de garagem, variável número de andares, variável número de torres, variável tamanho do terreno, variável total de unidades, variável distância do centro da cidade. 3.3 ANÁLISE DESCRITIVA Foram selecionados 122 empreendimentos, totalizando 2.623 observações que foram alocadas numa base de dados do tipo cross-section. Assim, foi feita uma regressão linear múltipla, considerando o preço do imóvel como variável dependente e as demais características como variáveis independentes. KUWAHARA & PIRES MACKENZIE - NPQV 20 Núcleo de Pesquisas em Qualidade de Vida VI ENABER – Aracaju, 2008 Para a variável distância do centro da cidade, foi utilizada a técnica da análise fatorial. Esta é uma técnica de interdependência na qual todas as variáveis são consideradas simultaneamente, com o objetivo de maximizar a explicação do conjunto inteiro de variáveis e não para predizer uma variável dependente. (HAIR Jr. et al, 2005). Assim espera-se conseguir agrupar variáveis correlacionadas de um modo que se consiga formar um fator (variável substituta) que explique igual com uma pequena perda de informação. Neste trabalho, para mensurar a distância de cada empreendimento do centro da cidade e das principais vias de acesso do bairro, foram criados três índices: Distância da Praça da Sé, IQL1 e IQL2, sendo que IQL1 corresponde ao número de quadras da via de acesso mais próxima e IQL2 corresponde ao número de vias de acesso do bairro em um raio de cinco quadras. Todos estes índices foram transformados em números de modo que foram criados para os 122 empreendimentos. Estes índices foram agrupados pelo método da análise fatorial, e foi criado um novo fator, que nada mais é que uma nova variável, que substituiu os três índices anteriores e que foi chamada de ILOC (índice de localização). A seguir será feita uma análise descritiva das variáveis e posteriormente serão analisados os resultados da regressão, bem como suas conclusões. 4. RESULTADOS E DISCUSSÕES A Regressão de preços hedônicos resultou no seguinte modelo econométrico: PREÇO = -55868,45 + 2552,71*AREAUTIL + 13390,06*DORM + 7192,69*SUITE – 14829,16*VAGA – 1310,68*ANDAR – 5804,75*TORRE + 1,88*TERRENO + 125,45*TOTALUNID + 2286,19*ILOC + є, sendo que PREÇO corresponde ao preço total do apartamento (em R$); AREAUTIL corresponde à área útil ou metragem do apartamento (em m²); DORM corresponde ao número de dormitórios de cada apartamento (unidades); SUITE corresponde ao número de suítes de cada apartamento (unidades); VAGA corresponde ao número de vagas de garagem de cada apartamento (unidades); ANDAR corresponde ao número de andares de cada torre do empreendimento (unidades); TORRE corresponde ao número de blocos que KUWAHARA & PIRES MACKENZIE - NPQV 21 Núcleo de Pesquisas em Qualidade de Vida VI ENABER – Aracaju, 2008 compõe o empreendimento (unidades); TERRENO corresponde a área total na qual está situado o empreendimento (em m²); TOTALUNID corresponde ao total de unidades lançadas no empreendimento (unidades); ILOC corresponde ao índice de localização, fator que explica a variação dos indicadores de distância; є corresponde ao termo de erro do modelo. Analisando os coeficientes de cada variável do modelo hedônico, observa-se que o coeficiente AREAUTIL é altamente significante. Segundo o modelo, cada m² adicionado, representa um acréscimo de R$ 2.552,71 no valor total do apartamento. Este é um resultado esperado, pois quanto maior for o tamanho do apartamento, maior o preço a ser pago, ou seja, tendência de aumento do valor do imóvel. Esta variável pode ajudar a explicar outras variáveis do modelo, como dormitórios e suítes na formação do preço do apartamento e será citada mais adiante. O coeficiente DORM é altamente significante. Seu sinal positivo indica que o aumento de um dormitório representa um acréscimo de R$ 13.390,00 no valor final do imóvel. Pode-se extrair duas conclusões deste valor. A primeira é que quanto maior o número de quartos, maior tende a ser o preço do imóvel, mais valorizado será desde que sua área útil aumente. A segunda considera a área útil constante. Um dormitório a mais, em uma mesma área útil, ocupa espaço de algum outro cômodo do apartamento, tornando-se às vezes, desnecessário, resultando assim em uma queda no seu valor. Logo, um apartamento com um dormitório pode ser mais valorizado do que um apartamento com três dormitórios com mesma área. O coeficiente SUITE é altamente significante. A inclusão de uma suíte leva a um acréscimo de R$ 7.192,69 no valor do apartamento. Resultado esperado, pois a tendência é de que uma suíte, por ser um item de conforto, valorize o preço do imóvel. Assim como no caso do coeficiente DORM, ao manter a mesma área útil, talvez esta suíte não represente um incremento de valor no preço, e sim o faça diminuir, pois como foi dito, pode ocupar o espaço de algum outro cômodo, ou ser pequena o bastante para caber itens de luxo como hidromassagem entre outros que poderiam valorizar o imóvel. KUWAHARA & PIRES MACKENZIE - NPQV 22 Núcleo de Pesquisas em Qualidade de Vida VI ENABER – Aracaju, 2008 O coeficiente VAGA é altamente significante. Seu sinal negativo, não foi o sinal esperado. Segundo seu coeficiente, o aumento de uma vaga, faz reduzir o valor do imóvel em R$ 14.829,16. O comum é que quanto maior for o número de vagas, maior tende a ser preço do imóvel. Com o passar dos anos, as famílias estão adquirindo seu segundo carro e cada vez mais estas buscam apartamentos com uma segunda vaga de garagem para seus carros. Logo vaga teoricamente é um item de grande importância. O que talvez possa explicar este sinal negativo é uma tendência do mercado imobiliário em São Paulo, a dos condomínios-clube. São empreendimentos que possuem uma ampla gama de infraestrutura e lazer como piscinas, quadras poliesportivas, spas, saunas, salas de recreação, sala de leitura, trilhas e bosques e até cinema. As pessoas além de morar, não precisam sair de casa para se divertirem, encontram tudo dentro de seu próprio condomínio. Mantendo-se constante a área do terreno, cada vaga adicional por apartamento, tende a ocupar o espaço destes itens citados, e assim, sendo excluídos do projeto. Assim por essa análise, pode-se dizer que vaga não influencia diretamente o preço dos imóveis. O coeficiente ANDAR é altamente significante. Seu sinal negativo representa que um andar a mais, diminui o valor dos apartamentos em R$ 1.310,67. Analisando esta variável, número maior de andares indica mais apartamentos. No mercado é fato que quanto menos unidades, mais valorizados são os apartamentos, logo o aumento de andares pode desvalorizar os imóveis. Mas esta não é uma análise cem por cento correta. Há casos de grandes lançamentos imobiliários com mais de uma torre e com muitos andares, cujos preços referem-se a empreendimentos de padrão médio-alto. Logo, o coeficiente ANDAR não pode ser considerado um atributo diretamente relacionado ao preço do imóvel. O coeficiente TORRE é altamente significante. Seu sinal negativo sugere a mesma análise do coeficiente ANDAR. Uma torre a mais no projeto diminui o valor dos apartamentos em R$ 5.804,75. Como dito anteriormente, não é o número de torres que vai influenciar no valor do imóvel, já que há casos de empreendimentos de padrão elevados com muitas torres. O que talvez possa tentar explicar, é que essas torres KUWAHARA & PIRES MACKENZIE - NPQV 23 Núcleo de Pesquisas em Qualidade de Vida VI ENABER – Aracaju, 2008 possam ocupar o espaço de itens de lazer, caso o tamanho do terreno mantenha-se constante. Logo o coeficiente TORRE não pode ser considerado um atributo diretamente relacionado ao preço do imóvel. O coeficiente TERRENO é altamente significante. Seu valor indica que cada m² de aumento no terreno, indica um aumento de R$ 1,87 no valor do imóvel. Este valor indica que quanto maior o terreno do empreendimento, mais valorizados serão os apartamentos, pois terão mais espaço para itens de lazer e infraestrutura. Mesmo assim, a variável TERRENO não é uma variável relevante na formação dos preços dos imóveis O coeficiente TOTALUNID é altamente significante. Esperava-se que seu sinal fosse negativo, assim como foi com as variáveis TORRE e ANDAR. Analisando seu coeficiente, o aumento de unidades, faz com que aumente em R$ 125,00 o valor dos apartamentos. Como já foi dito, quanto mais unidades tiver um empreendimento, talvez mais desvalorizadas estas serão, pois mantendo-se constante o tamanho do edifício, os apartamentos terão áreas menores, logo serão desvalorizados. Conclui-se que a variável TOTALUNID não é uma variável relevante na formação dos preços dos imóveis. Por fim, resta analisar o coeficiente ILOC. Este é altamente significante e diz que, a proximidade com o centro da cidade, bem como a proximidade com grandes vias de acesso do bairro e quantidade destas próximas dos empreendimentos, eleva o preço dos imóveis em R$ 2.286,19. Em outras palavras, estar próximo do centro da cidade e a forma de como acessá-lo, influencia na formação dos preços dos imóveis, no caso da Mooca, valorizando-os, já que é uma região bem localizada, próxima do centro e de fácil acesso. Para analisar o poder explanatório do modelo de preços hedônicos será utilizado o R². Este visa mostrar quanto do modelo é explicado pelas variáveis independentes. No modelo analisado, o R² é de 0,8852 ou 88,52%, sinalizando um ótimo nível de poder explanatório. Indica também que 11% do preço do imóvel não é explicado pelos KUWAHARA & PIRES MACKENZIE - NPQV 24 Núcleo de Pesquisas em Qualidade de Vida VI ENABER – Aracaju, 2008 atributos listados no modelo, mas sim por fatores externos como segurança da região, infraestrutura como hospitais, escolas e áreas verdes. Isso mostra que o cliente não apenas busca conforto e lazer no empreendimento como também uma boa localização, em um bairro completo e de fácil acesso. 5. CONCLUSÕES Neste trabalho procurou-se levantar as principais características do mercado imobiliário da Mooca. Para tanto se utilizou o modelo dos preços hedônicos e dados fornecidos pela EMBRAESP referentes a imóveis em comercialização no período de 1995 e 2008. Após rodar o modelo, verificou-se um R² elevado, indicando uma boa capacidade preditiva do modelo. Esse indica que apenas 11% do preço de um imóvel na Mooca não é explicado pelos atributos do modelo, sendo explicado por atributos externos. Pela análise dos coeficientes, verifica-se que o tamanho da área útil além de ser significante, influencia positivamente nos preços dos imóveis na Mooca, pois uma metragem maior tende a ter uma precificação maior. O número de dormitórios é uma variável significativa e influencia positivamente o preço dos imóveis do bairro, e sugere duas análises. A primeira considerando metragem variável mostra que ao incluir um quarto, aumenta o valor do imóvel. A segunda supõe metragem constante e a inclusão de um quarto a mais, incorre em perda de espaço, reduzindo o valor do imóvel. O número de suítes é uma variável significativa e influencia positivamente o preço dos imóveis na Mooca. Por ser um item de conforto, sua inclusão tende a valorizar o imóvel. Mas assim como o dormitório, ao se manter constante a metragem do apartamento, tende a desvalorizar o preço do apartamento. O número de vagas é uma variável significativa, porém seu sinal foi negativo. Uma explicação provável para isso é a tendência de condomínios-clube pela cidade, que KUWAHARA & PIRES MACKENZIE - NPQV 25 Núcleo de Pesquisas em Qualidade de Vida VI ENABER – Aracaju, 2008 priorizam itens de lazer e infraestrutura no terreno. Não influencia diretamente o preço do imóvel. O número de andares é uma variável significativa. Mas não influencia diretamente na formação dos preços, pois seu sinal negativo indica que mais andares depreciam os imóveis, só que há casos onde empreendimentos de padrão médio-alto são formados por mais de uma torre e com muitos andares. O número de torres é uma variável significativa, porém seu sinal negativo supõe a mesma análise feita para a variável andar. Logo também não é um fator determinante no preço do imóvel. O tamanho do terreno é uma variável significativa, onde um incremento no tamanho do terreno valoriza o preço dos imóveis, mas não chega a influenciar diretamente o preço dos imóveis. O total de unidades é uma variável significativa, porém esperava-se que seu sinal fosse negativo. Pode-se utilizar a mesma análise feita para as variáveis torres e andar. Logo não é determinante na formação dos preços dos imóveis. E por fim, o índice de localização, que é significativo. A proximidade com o centro da cidade e de vias de acesso do bairro tende a valorizar os imóveis da região. Desta forma, o objetivo deste trabalho foi concluído, pois pela análise dos dados através do método de preços hedônicos, verifica-se que a variável distância do centro é significativa na formação dos preços dos imóveis, sinalizando o valor estratégico da localização na composição dos preços dos imóveis do bairro. Em outras palavras, um empreendimento que for construído na Mooca, terá seu preço influenciado pela sua proximidade com o centro da cidade e com a proximidade de grandes vias de acesso do bairro, além de outras características intrínsecas do apartamento. Este tipo de análise é muito interessante. Pode ser utilizada para outras regiões da cidade e representa um grande auxílio para o mercado imobiliário, pois pode KUWAHARA & PIRES MACKENZIE - NPQV 26 Núcleo de Pesquisas em Qualidade de Vida VI ENABER – Aracaju, 2008 responder questões como onde construir determinado empreendimento, bem como explicar possíveis valorizações de preços em algumas regiões. 6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AGUIRRE, A., FARIA, D. A Utilização dos Preços Hedônicos na Avaliação de Projetos Sociais. Texto para Discussão do EconPaper, 35 p. Disponível em: < http://econpapers.repec.org/paper/cdptexdis/td103.htm>. Acesso em: 20 abr. 2008. ALVES, M. R. Casas Paulistanas- Pequenos Tesouros da Mooca na Transformação de São Paulo. 1. ed. São Paulo: Casa Paulista de Comunicação, 1998. BARBULHO, E. Mooca 450 anos, Passando no túnel do tempo. 1. ed. São Paulo: Edibarb, 2006. BIDERMAN, Ciro; Forças de Atração e Expulsão na Grande São Paulo. São Paulo: EASP/FGV, 2001. 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