ELEMENTOS DA DINÂMICA TERRITORIAL DO BAIRRO CIDADE MODELO – VITÓRIA DA CONQUISTA/BA ELEMENTS OF TERRITORIAL DYNAMICS OF THE NEIGHBORHOOD CIDADE MODELO - VITÓRIA DA CONQUISTA/BA Vagner Alves da Silva¹ ¹Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB Departamento de Geografia – DG [email protected] RESUMO O trabalho "Elementos da dinâmica territorial do bairro Cidade Modelo - Vitória da Conquista/BA" traz uma análise das mudanças ocorridas na dinâmica territorial desse espaço, tendo como base os elementos que proporcionaram essa mudança ao longo do tempo. Os elementos da dinâmica territorial de um bairro podem dizer muito sobre esse território, caracterizando - o quanto a forma como se desenvolveu, o tipo de bairro e o tempo que esse espaço levou para chegar no estado atual de desenvolvimento. Essa analise é possível a partir da interpretação de como esses elementos interagiram entre si, formando uma dinâmica territorial que gera uma identidade desse espaço baseada nos elementos formadores dessa dinâmica, presente nesse espaço. O bairro Cidade Modelo, localizado em Vitória da Conquista, a terceira maior cidade da Bahia, é um lugar bastante propício a esse tipo de analise, pois se trata de um território recente, que está passando por um processo de mudanças na sua valorização e dinâmica territorial, deixando alguns aspectos de sua formação para trás, e se tornando um espaço acessível a uma nova classe social. Essas mudanças não constituem apenas nos aspectos econômicos, mas consiste em várias outras mudanças, como: moradores, desenvolvimento de atividades comerciais, especulação imobiliária, dentre outras, que estão dando uma nova dinâmica nesse território, muito embora, o fato dessas mudanças ainda estarem em desenvolvimento, acaba por ter alguns aspectos que permanecem da sua organização territorial anterior. A busca por essa pesquisa é justamente analisar essas mudanças, levando - se em consideração o histórico desse bairro, desde sua formação, até os dias atuais, a fim de se correlacionar os elementos transformadores desse espaço, tentando apontar o que mudou em relação a dinâmica territorial da sua formação, e a que está se desenvolvendo no momento. A analise traz algumas vertentes que buscam interpretar fatores que tiveram uma importância significativa nesse processo. Essas vertentes utilizadas foram: o tempo, pois essas mudanças ocorrem com um tempo, muito embora o tempo levado para essas mudanças não seja constante, podendo se intensificar de acordo com as demandas e investimentos presentes naquele espaço. Um recurso cartográfico que foi fundamental para a analise desse território perante o tempo foi a utilização de imagens de satélites, que mostra a forma como esse processo se desenvolveu ao longo desse tempo. Além do tempo, as outras vertentes utilizadas foram as econômicas, que mostram como esse espaço se valorizou e desenvolveu - se atividades econômicas propícias a sua localização, além da analise baseada nas mudanças gerais nos bairros de baixo padrão, que podem sofrer esse processo vivenciado pelo bairro Cidade Modelo, e consequentemente, ter a implantação de uma nova dinâmica territorial. Com isso, desenvolveu - se uma pesquisa que tem como objetivo principal, apontar os elementos da dinâmica territorial do bairro Cidade Modelo, a partir do ponto de vista das mudanças que vem se desenvolvendo nesse espaço atualmente, e a forma como essas mudanças implicam em uma nova dinâmica territorial, promovendo alterações sociais, econômicas e estruturais nesse território. Palavras – Chave: Cidade Modelo, Território, Dinâmica Territorial, Especulação Imobiliária. ABSTRAC The work "Elements of territorial dynamics of the Model City neighborhood - Vitória da Conquista / BA" offers an analysis of the changes in territorial dynamics of this space, based on the evidence provided that this change over time. The elements of the territorial dynamics of a neighborhood can tell a lot about this area, featuring - as much as how it developed, the type of neighborhood and the time it took to get that space in the current state of development. This analysis is possible from the interpretation of how these elements interacted with each other, forming a regional dynamic that creates an identity in this space based formative elements of this dynamic, present in that space. The Model City neighborhood located in Vitória da Conquista, the third largest city of Bahia, is quite conducive to this type of analysis place because it is a new territory, which is undergoing a process of change in their recovery and dynamic territorial, leaving some aspects of their education behind and becoming affordable to a new social class space. These changes are not only in economic, but consists of several other changes, such as residents, development of commercial activities, land speculation, among others, who are giving a new dynamic in that territory, although the fact that these changes are still in development, turns out to have some aspects that remain of their former territorial organization. The pursuit of this research is to analyze these changes, leading - taking into consideration the history of this district since its formation to the present day, in order to correlate the transforming elements of this space, trying to point out what has changed in relation to dynamic territorial of their training, and that is developing at the moment. The analysis brings some approaches that seek to interpret factors that were significant in this process. These strands were used: the time because these changes occur with time, although the time taken for these changes is not constant and may be intensified according to the demands and present investments in that space. A map feature that was central to the analysis that territory before the time was the use of satellite images showing how this process has developed over that time. Besides time, other aspects were used economic, showing how this space is valued and developed - is conducive economic activities to its location, and the analysis based on the overall changes in the neighborhoods of low standard, which can undergo this process experienced by Model City neighborhood, and therefore have the implementation of a new regional dynamic. Thus, developed - a research that aims pointing elements of territorial dynamics of Model Town neighborhood, from the point of view of the changes that has been developing in this space today, and how these changes imply a new territorial dynamics by promoting social, economic and structural changes that territory. Key – words: Cidade Modelo, Territory, Territorial Dynamics, Property Speculation. 1. INTRODUÇÃO O presente artigo traz uma analise de como se deu o processo de territorialização do bairro Cidade Modelo, localizado no Oeste da cidade de Vitória da Conquista – BA, na margem direita do anel viário. O foco do trabalho é discutir os aspectos sócio – espaciais do bairro, a forma como se deu a dinâmica territorial desse espaço e as mudanças ocorridas ao longo do tempo. Uma questão importante que vale ser destacada é que o território em questão não se trata oficialmente de um bairro, e sim de um loteamento, porém, esse espaço possui uma dinâmica própria de bairro, estando estabelecido entre seus moradores que se trata de um bairro, pela questão do pertencimento que esses apresentam nessa localidade, a dimensão territorial desse espaço e sua dinâmica, permite que trabalhe – se esse espaço como bairro, seguindo o mesmo raciocínio de trabalhos anteriores sobre essa área. A primeira parte traz uma caracterização geral do bairro Cidade Modelo, constando nessa caracterização, uma descrição de aspectos estruturais, econômicos, sociais e históricos, da dinâmica territorial desse espaço, contando com analises de imagens de satélite e revisão bibliográfica sobre o contexto histórico do bairro. Essa parte visa mostrar como é a dinâmica territorial do bairro, com suas principais características e a forma como esse processo está contido nesse espaço, e se desenvolve ao longo do tempo e ainda procedendo dentro das mudanças que vem ocorrendo nos últimos anos, caracterizando assim, esse território e seus aspectos sócio – espaciais. No decorrer do trabalho, apresenta – se alguns textos teóricos que dão suporte aos aspectos discutidos sobre esse espaço, contendo a forma como se desenvolvem os processos que atuaram no bairro. Fala – se bastante sobre os bairros de baixo padrão, de forma geral, da forma como essas áreas se desenvolvem ao longo do tempo e de como o capital se materializa no espaço, ajudando a moldar um território e formando uma dinâmica territorial. Por fim, traz – se nas considerações finais, a conclusão desse trabalho, com as percepções e resultados conclusivos obtidos a partir de observações e analises históricas e atuais do território do Cidade Modelo, deduz – se assim a forma como esse processo de territorialização se deu e como ele está contido no momento atua vivenciado por esse espaço. Com isso, pretende – se estudar a forma como se desenvolveu o processo de territorialização desse espaço, com suas variações ao longo do tempo e seu momento atual que é marcado por fortes processos econômicos vivenciados que marcam uma mudança na dinâmica desse território. A importância desse trabalho está justamente ligada com esse momento atual vivenciado por esse bairro, onde percebe – se um momento bem oportuno para esse tipo de pesquisa que visa entender as mudanças ocorridas em seu território e mostra como esse espaço vem se desenvolvendo com o decorrer de um tempo, onde passa por processos até chegar no ponto que se encontra atualmente. 2. CIDADE MODELO: CARACTERIZAÇÃO GERAL O bairro Cidade Modelo é um espaço que vem desenvolvendo uma dinâmica territorial de bairro habitacional muito forte. Esse desenvolvimento se deu num período de tempo relativamente curto, se comparado a outras áreas. Apesar desse desenvolvimento, esse bairro carece de uma estrutura adequada em alguns aspectos, como asfaltamento, por exemplo. Ao longo do tempo, percebe – se fortes mudanças inclusive nas classes que habitam o bairro, tendo em vista o valor dos imóveis e terrenos locais, sem contar na oferta e demanda desses terrenos. Apesar desse desenvolvimento relativamente acelerado, esse espaço detém características que divergem bastante dos demais espaços semelhantes a ele. A estrutura do bairro Cidade Modelo carece em alguns aspectos, principalmente por ser um bairro que não possui asfalto na maior parte do seu território, além de carecer de outros benefícios, como posto de saúde. Seus moradores tem que se deslocarem até o bairro vizinho, Kadija, para receberem atendimentos médicos no posto de saúde. A pavimentação carece de asfalto em todo o bairro, já que apenas as vias principais, que são onde os ônibus transitam, que possuem asfaltamento. As demais ruas são de chão batido, o que acaba gerando alguns transtornos no local, como poeira nas casas, lama, quando chove, dentre outros inconvenientes. Apesar desses problemas, recentemente foi implantada a rede de esgoto em todo o bairro, que conta com outros benefícios públicos, como iluminação pública na maior parte do seu território, água, o bairro conta também com a disponibilidade de acesso à internet. Esse acesso, assim como em outras áreas, muitas vezes vem através de redistribuições entre moradores locais, que desenvolvem uma rede de internet interna do bairro. Nesse esquema, um morador, o administrador da rede, contrata um plano de internet junto à operadora, e redistribui essa internet com vizinhos, e até outros moradores tanto do bairro como de outros bairros, via cabo ou rádio, cobrando uma mensalidade mais acessível aos moradores, do que a oferecida pela operadora. Assim funciona, principalmente em áreas de baixo valor aquisitivo, e, em grande parte, a internet do bairro Cidade Modelo se dá através dessa prática, porém, as operadoras já oferecem suporte à internet no local, caso os moradores não queiram utilizar esse esquema. A internet no local não vem com uma alta velocidade, devido à localidade. O bairro estudado apresenta um comércio de bairro pouco desenvolvido, porém, existentes nesse espaço, com bares, mercearias e depósitos de materiais de construção. O desenvolvimento dessas atividades está se dando de acordo com a demanda do bairro, e em alguns casos, devido à sua localização. Um tipo de estabelecimento comercial que vem se desenvolvendo nesse local são pequenas oficinas mecânicas, borracharias e autopeças. O desenvolvimento dessas atividades comerciais pode ser atribuído ao fato de o bairro se localizar a margem direita do anel viário. Essa localização próxima a uma estrada gera um fluxo local em áreas próximas, com a instalação de serviços relacionados à automóveis, com a finalidade de atender quem passe por esse caminho. Os estabelecimentos relacionados a esses serviços não são encontrados apenas à margem do anel viário, mas também no interior do bairro. Os comércios de maiores expressões, como supermercados, farmácias e açougues ainda não estão presentes no bairro, o que faz com que seus moradores se desloquem até os bairros vizinhos para atender suas necessidades.Os bairros vizinhos dão suporte em vários serviços aos moradores do bairro Cidade Modelo. Esses serviços não são apenas relacionados à alguns tipos de comércios que não se encontram no bairro, mas também à serviços públicos, como posto de saúde, que os moradores são atendidos pelo do Kadija, escola, já que o bairro possui apenas uma escola municipal que só vai até a 4ª série, ou 5º ano do ensino fundamental. Com isso, os alunos que passam dessa série tendem a se deslocar para colégios próximos. Os principais destinos são as escolas dos bairros: Kadija, Patagônia e Brasil. Outro serviço que o bairro carece é de uma creche, que poderia dar suporte às mães locais enquanto essas trabalham, mas não existe creche lá, então, esse é um outro serviço buscado em bairros próximos. Nesse caso, o principal destino é uma creche localizada no bairro Patagônia. Apesar da carência desses serviços, o bairro Cidade Modelo é dotado do Conquista Criança, um projeto que atende crianças e jovens com poucas condições financeiras para atividades educacionais. O projeto não atende crianças e jovens apenas desse bairro, mas também de outras localidades de Vitória da Conquista, o que gera um fluxo de jovens nesse espaço. Apesar das atividades serem voltadas às crianças, a estrutura do projeto é aproveitada também por moradores locais, como a quadra, por exemplo, e caracterizando o espaço como uma área de lazer do bairro Cidade Modelo.Outra característica marcante que está presente atualmente no bairro Cidade Modelo é o desenvolvimento urbano local, e valorização imobiliária dos terrenos e imóveis da localidade. Esse desenvolvimento não é tão recente assim, visto que se deu ao longo de alguns anos, porém, se acelerou bastante nos últimos. Observa – se uma construção acelerada de imóveis, tanto por moradores quanto por imobiliárias. Esse processo acabou provocando uma valorização dos terrenos e imóveis locais, de acordo com a demanda, sendo que terrenos que até 3 anos atrás poderiam ser encontrados por 10.000 reais, hoje se encontram em torno de 50.000 reais. Uma valorização muito grande em um período de tempo relativamente curto. As imagens de satélite abaixo, obtidas através do Google Earth, podem mostrar a forma como esse processo se desenvolveu: Fig. 1 - Imagem com destaque do bairro Cidade Modelo em 2003. Fonte: Google Earth Fig. 2 - Imagem com destaque do bairro Cidade Modelo em 2008. Fonte: Google Earth Fig. 3 Imagem com destaque do bairro Cidade Modelo em 2012. Fonte: Google Earth Se for comparar as imagens, percebe – se um índice de urbanização muito grande no bairro ao longo dos anos. Em 2002, o bairro tinha poucos imóveis, como o bairro era muito recente ainda, havia pouca urbanização, e alguns terrenos eram inclusive utilizados para o cultivo de hortas familiares pertencentes aos moradores locais. Mesmo assim, já havia um povoamento nas proximidades do anel viário, principalmente no Sul do bairro. Nessa época, havia ainda algumas “vias” que na verdade, eram terrenos não cercados que davam acesso à outras ruas. Embora pouco desenvolvido, no leste do bairro, já existia o Conquista Criança, que contava com poucas casas em seu entorno. Em 2008, o bairro já possuía um pouco mais de população, que se concentra principalmente às margens do anel viário, porem, agora se desenvolvendo também ao Oeste do bairro. Esse desenvolvimento se dá também no interior desse território, onde começam a surgir algumas casas, e o bairro vai se consumando. Apesar desse desenvolvimento significativo de 2008 em relação à 2002, esse espaço ainda carece de alguns elementos de infraestrutura, como pavimentação (ainda percebe – se as vias principais sem asfaltamento) e outros elementos, como saneamento básico, dentre outros. Em 2012, percebe – se o bairro já bastante evoluído em relação aos anos anteriores. Com um índice de povoamento relativamente alto, já conta com imóveis em áreas antes pouco habitadas. Já possui uma infraestrutura básica, onde percebe – se as ruas principais asfaltadas, o colégio municipal e um forte desenvolvimento urbano. Esse desenvolvimento não é apenas em relação à analise da imagem, mas pelo momento vivido pelo bairro, pois nesse período, já está ocorrendo fortemente o processo de especulação imobiliária, onde se valoriza bastante os imóveis e terrenos desse local, processo esse que se mantém até o presente. Atualmente, o bairro conta com um forte índice de urbanização, sendo que essas áreas menos povoadas ao Norte e ao Leste já se encontram bem mais povoadas que em relação à imagem de 2012 (a mais recente fornecida pelo Google Earth). Hoje em dia, é muito difícil encontrar terreno disponível, pois as construtoras estão comprando todos para construir imóveis habitacionais. Alguns terrenos ao Sul já estão sendo construídos, ou apenas esperando para serem construídos, porém, são poucos que ainda não foram negociados, seja com moradores, seja com imobiliárias, sendo que o valor médio em um terreno no local se encontra atualmente em cerca de 50.000 reais. Para Corrêa: A evolução da favela, isto é, a sua progressiva urbanização até se tornar bairro popular, resulta de um lado, da ação dos próprios moradores que, pouco a pouco, durante um longo período de tempo, vão melhorando suas residências e implantando atividades econômicas diversas. De outro, advém da ação do Estado, que implanta alguma infra – estrutura urbana, seja a partir de pressões exercidas pelos moradores, organizados em associações, seja a partir de interesses eleitoreiros. Esta urbanização, contudo, desencadeia uma valorização que acaba por expulsar alguns de seus moradores e atrair outros. (CORRÊA, 1995). Apesar de ser um bairro de baixa renda, e com uma população relativamente pobre financeiramente, atualmente, os habitantes do Cidade Modelo não são tão humildes quanto se imagina. Com o passar dos anos, as classes mais baixas ficaram sem condições de comprar imóveis e terrenos nessa localidade, tendo de se deslocar para outras áreas, ou entrar em programas do governo, como o minha casa minha vida. Mesmo assim, esse espaço não é totalmente fechado à pessoas das classes mais baixas, tendo em vista que ainda possui moradores dessas classes que o habitam desde quando foi criado. Todavia, alguns moradores estão vendendo suas residências daquela época, com a finalidade de obter lucro com a especulação imobiliária, se mudando para áreas cujo valor é mais baixo que os pertencentes a esse bairro. E os lucros realmente são altos, se você levar em conta que no passado, os terrenos de 50.000 reais de hoje, custavam cerca de 3.000 reais, em um determinado período de tempo (entre meados de 2004 e 2012) o valor do solo nessa localidade cresceu bastante, se tornando mais viável a obtenção de imóveis nesses locais por pessoas de classe média baixa, inclusive através do financiamento dos imóveis. Outra característica desse local é que, mesmo sendo uma área carente de certa infraestrutura, segundo moradores, é um bairro com pouca violência. Até podem existir furtos, assaltos, dentre outros, porém, nada exorbitante, ou que o classifique como um bairro violento, pelo contrário, o bairro é um espaço relativamente tranquilo, se comparado a outros bairros como ele. Sua formação inicial, segundo Alves, 2011, se deu através do Programa Municipal de Habitação Popular (PMHP), no final da década de 1990. Para Alves: Já a parte estudada do bairro Cidade Modelo, por ter sido um espaço de ocupação por meio de um dos projetos de habitação popular da Prefeitura, teve uma estrutura mínima de limpeza e de arruamento, antes que os primeiros moradores a ocupassem. Esse último espaço, segundo a moradora mais antiga do local, tratava-se de um “terreno baldio”, que servia como uma das lixeiras da cidade, e que foi recebido da Engenharia Construção Saneamento e Indústria Ltda. (ECOSANE) pela Prefeitura Municipal como pagamento por impostos atrasados, sendo transformado em um loteamento popular em 1999. (...) No caso do Cidade Modelo, o processo de ocupação se deu de modo diferente das outras duas áreas estudadas. Essa, por se tratar de uma ocupação proveniente de um dos programas de habitação popular da Prefeitura de Vitória da Conquista, a ocupação ocorreu em um tempo curto (noventa dias) e de uma só vez. (ALVES, 2011). Com isso, observa – se a atuação da prefeitura no processo de territorialização do bairro, planejado para ser uma área de ocupação popular, tanto que o processo se deu em apenas noventa dias, e a área já recebeu, antes do loteamento, uma infraestrutura mínima para atender aos moradores. Isso explica também o fato do baixo valor agregado aos terrenos inicialmente. Outro fato curioso é o de que, segundos moradores, inicialmente os terrenos não tinham escritura, e com isso, alguns terrenos não ocupados foram invadidos por moradores. Sendo assim, observa – se a estratégia municipal em promover uma área de ocupação popular para uma determinada classe, com uma infraestrutura mínima local por ser um território de baixo valor nessa época. Atualmente, depois da valorização imobiliária desse espaço, a tendência é de os investimentos em infraestrutura aumentarem, como já está se desenvolvendo, no caso do saneamento básico, por exemplo, onde essa valorização atrai uma infraestrutura maior, e o bairro deixa parcialmente de ser uma área exclusiva das classes populares, sendo frequentado agora pela classe média baixa também. 3. FORMAÇÃO E ORGANIZAÇÃO SÓCIO - ESPACIAL DOS BAIRROS DE BAIXO PADRÃO Os bairros de baixo padrão são espaços frequentados pelas classes mais pobres, e com uma infraestrutura mínima se comparados a espaços habitados pelas classes dominantes. Sua estrutura carece de vários benefícios públicos, que estão presentes em áreas de alto valor imobiliário e de status. Mesmo que em áreas legalizadas, esse descaso com as localidades de baixo status ocorrem, principalmente por ser uma área sem alto valor, ao que parece, as prefeituras fazem vistas grossas sobre essas áreas pelo fato de não serem bairros nobres, e acaba não investindo nesses locais, ou investindo tardiamente, depois de algum tipo de movimento de moradores locais, a fim de “cala-los”. A segregação espacial está presente ativamente nessas áreas, já que elas são formadas por classes excluídas que não tem condições financeiras de morar em bairros de alto valor aquisitivo. Para Chaveiro e Anjos: Podemos perceber uma disputa pelo espaço através das lutas de classes implícitas nas dinâmicas locacionais urbanas, culminando com o domínio imediato dos espaços desprezados pelas classes média e média alta pela massa pobre. (CHAVEIRO e ANJOS, 2007). Dessa forma, percebe-se que as classes dominantes acabam se impondo diante das oprimidas, e ocupando os espaços melhores localizados, e deixando para as demais classes, as áreas rejeitadas por algum fator, como localização distante, e/ou carente de infraestrutura urbana. Com isso, observa-se essa disputa de classes como um dos agentes formadores do espaço urbano, onde uma classe domina e impõe sua dinâmica local sobre um território, criando limites tanto ao espaço habitado quanto à quem está apto a frequenta-lo, sendo assim, os não habilitados financeiramente para habitar áreas de alto status, destina-se às áreas de baixo padrão. Segundo Chaveiro e Anjos: Acerca da imbricação entre poder público, capital e crescimento da exclusão residencial, é fato largamente constatado a cumplicidade do aparato político e ideológico na reprodução do capital imobiliário, o qual também usa a expansão periférica como peça-chave na especulação de vazios, assim como dos espaços de onde a população pobre é desalojada através de suas pressões ao poder público. (CHAVEIRO e ANJOS, 2007). Analisando segundo a citação acima, percebe-se o poder público como favorecedor desse processo, onde ele favorece as classes dominantes oferecendo uma infraestrutura adequada em seus territórios e suporte à quaisquer problemas que possa ocorrer nessas áreas, e consequentemente, valorizando ainda mais as áreas de alto padrão e cooperando para que sejam habitadas por um grupo cada vez mais específico em relação ao resto da população. Em paralelo, ele acaba mantendo um descaso com as áreas de baixo status, sem oferecer os benefícios oferecidos às classes dominantes, e usa as classes baixas para preencher espaços rejeitados para outras atividades. O espaço das áreas pertencentes as classes baixas não é também algo fixo, podendo sofrer alterações caso haja a possibilidade de expansão das áreas pertencentes às classes dominantes. Para Correa: Quando existe urna possibilidade efetiva de ampliar o espaço residencial para as elites e a alta classe media, inicia-se o processo de valorização da área. (CORREA). Com isso, percebe-se que essas áreas podem ser valorizadas e receber uma infraestrutura adequada, porém, enquanto tiver a possibilidade de vim a se tornar um território destinado à elite. Sendo assim, as classes oprimidas serão mais uma vez, segregadas, agora, do seu espaço, tendo que se destinar a uma nova área de baixo padrão, mais distante que a habitada anteriormente. Durante esse processo, pode-se agregar diversos agentes econômicos, como a valorização imobiliária, o uso do território, já que pode não necessariamente se tornar um bairro habitacional para a elite, mas vim a se tornar um espaço industrial, por exemplo. E a questão da estrutura, já que agora, esse espaço terá uma estrutura adequada às atividades desenvolvidas ali, independente de ser comerciais, industriais ou habitacionais. Essas áreas se tornam periféricas por se encontrarem distante dos centros, onde as classes dominantes se instalam, e com isso, gera um fluxo migratório pendular, do trabalhador que mora numa área periférica, e trabalha no centro. Para Sousa e Braga: A busca por terrenos mais baratos e a expulsão, imposta pelo capital, das áreas centrais cria subúrbios em cidades pequenas, médias e grandes. A mobilidade populacional, em centros urbanos, conhecida também por movimentos pendulares, proporcionada pela localização de áreas habitacionais na periferia e o local de trabalho no centro é uma tendência de classes de menor poder aquisitivo. (SOUSA e BRAGA 2011). Assim, percebe-se esse fenômeno como algo proporcionado pelas formas de segregação espacial, onde os princípios econômicos excluirão as classes com menos valor aquisitivo desses espaços, e essas classes tenderão a buscar moradia em áreas periféricas, distantes do centro, porém, continuarão trabalhando nos centros, e consequentemente, gerarão um movimento pendular. Isso vai gerar alterações em vários sentidos, como a disponibilidade de transporte público para as áreas onde se instalarão as classes mais pobres, a necessidade de condições mínimas, como água e eletricidade que devem ser oferecidas aos moradores dessas localidades, dentre outros. Uma observação válida é de que não só os trabalhadores precisarão manter esse processo migratório, mas outras pessoas também, pertencentes a essas localidades, como por exemplo os estudantes. Muitas desses bairros de baixo padrão carecem de escolas, onde seus estudantes tem que buscar se matricular em outros bairros com escolas. Também ocorre isso em relação à postos de saúdes, nem todos esses bairros tem um posto de saúde, e seus moradores acabam buscando esses serviços em bairros vizinhos. Com isso, percebe-se toda uma alteração gerada por essa imposição das classes dominantes, já que provocará a migração das classes oprimidas para áreas periféricas, vai também gerar alterações no fluxo migratório pois os habitantes daquele espaço buscarão trabalho e serviço em outras localidades, e alterações nessas outras localidades, já que agora seus serviços não só serão oferecidos apenas para moradores locais, como também para os moradores das localidades de baixo padrão. Uma das características dessas áreas está relacionada à forma como se constrói o as casas, a partir da autoconstrução familiar. Para Chaveiro e Anjos: A verdade é que há um padrão de construção da periferia que é fundamentalmente diferente daquele intermediado pelo capital imobiliário: a autoconstrução familiar da periferia. Porém, analisando o processo pelo qual a periferia passa ao longo da história, podemos perceber que há um momento em que esse mesmo capital imobiliário participa da sua reconstrução, traçando, a partir daí, um novo estágio no desenvolvimento desta. Como mote da renda fundiária, ela é cobiçada, disputada, objeto de enriquecimento. (CHAVEIRO e ANJOS, 2007). Dessa forma, observa-se o desenvolvimento da construção familiar, onde a princípio não existe um tipo de produção local desenvolvida de forma “formal”, mas com mão de obra familiar, onde os próprios membros da família planejam e constroem suas casas nesse espaço. Porém, a partir do momento que há um interesse das classes dominantes nesse espaço, a valorização imobiliária consiste também na forma como as casas são produzidas, agora, não mais com mão de obra familiar, mas por construtoras contratadas das classes dominantes, que farão construções que fogem dos padrões da dinâmica territorial anterior desse bairro, sendo padronizada pela classe dominante imposta naquele território. Com isso, observa-se a formação desses bairros de baixo padrão por diversos fatores, sendo o principal deles econômico, que gera a segregação sócio – espacial das classes com baixo poder aquisitivo para áreas periféricas e de baixa infraestrutura, onde essas desenvolvem um tipo de produção, e uma dinâmica territorial local baseada nos desafios enfrentados para viver ali. 4. TEMPO E PRODUÇÃO TERRITORIAL O processo de produção espacial ocorre em decorrência de um determinado tempo, que é ditado pelo desenvolvimento capital, delimitando e impondo condições de produção sócio – espacial, gerando um território. A dinâmica territorial de um bairro está ligada a esses fatores, de forma a se territorializar e gerar uma identidade local da população com aquele espaço na medida em que esse território se denomina e se identifica com um determinado tipo de produção provinda de relações de poder impostas naquele local. Dessa forma, o fenômeno de consumação territorial de um bairro ocorre ao longo de um período, onde o tempo levado para o desenvolvimento das relações sócio – espaciais e de poder daquele território está ligado a fatores econômicos. Segundo Fani: A quantificação do tempo e do espaço atravessa as relações presentes na sociedade, penetra o universo do cotidiano do cidadão, não só pela constituição de uma rotina altamente organizada, mas pelos atos, gestos, modos de uso dos lugares da vida. (...) Espaço e tempo são redefinidos pela possibilidade de geração de lucros, logo quantificados e desta forma realizam concretamente a abstração. (ANA FANI, 2007). Com isso, observa-se que o tempo atua de forma bastante ativa no processo de produção do espaço. Seguindo a linha de analise da citação acima, percebe-se o tempo como influente na produção espacial, enquanto agente mediador de uma dinâmica social que organizará o uso desse território. Isso ocorre pelo fato de uma determinada dinâmica sócio – espacial não ocorrer de forma instantânea, mas a partir de uma determinada temporalidade que será levada para que essa dinâmica se estabeleça, e se crie uma relação entre a população que pratica essa atividade naquele espaço e o território onde essa prática se desenvolve, gerando assim uma determinada dinâmica territorial. Apesar dessa importância do tempo enquanto peça chave para compreender o estabelecimento de uma determinada dinâmica em um território, tanto o espaço e esse tempo podem variar de acordo com os interesses capitais naquela área. Com isso, esse território pode sofrer alterações a curto prazo em decorrência de interesses econômicos, sendo essas alterações tanto na sua dinâmica, como implantação de determinada atividade econômica onde pode pregar uma nova dinâmica territorial, (no caso, por exemplo, de um bairro habitacional que em decorrência de uma vocação locacional para atividades comerciais, passa a exercer uma dinâmica territorial de um território comercial, com atividades características dessa dinâmica bastante divergentes das desenvolvidas anteriormente) gerando o processo de reterritorialização, além de poder influenciar também na estrutura daquele bairro, como implantação de benefícios, como pavimentação e saneamento básico, que gerarão uma valorização nos terrenos e imóveis locais. Esse interesse econômico no processo de produção do espaço gera uma variação do tempo necessário para implantação de uma dinâmica de produção sócio – espacial, quebrando a ideia de um período fixo para a produção desse espaço, independente do tipo de produção desenvolvida naquele espaço. Com isso, para Fani: A cidade que se vislumbra a partir de suas formas, enquanto construção humana, acumulação de tempos, diz respeito à história da humanidade e nos remete à questão da “longa duração”, mas ao analisarmos a metrópole hoje, percebemos que o tempo acelerado desta degrada o “eterno e o contínuo“ impondo-nos a “curta duração”. (ANA FANI, 2007). Com isso, percebe-se que o tempo levado para o estabelecimento de uma determinada relação sócio – espacial em uma determinada localidade da cidade não segue um padrão, mas ocorre em decorrência dos interesses econômicos presentes naquela área, podendo exercer uma relação mais presente em um território, criando-se por exemplo uma identidade de território comercial, ou a valorização imobiliária de um bairro, onde fatores econômicos acelerarão a dinâmica territorial presente naquela área, e encurtarão o período de tempo necessário para a consagração desse território. Para Souza: Em qualquer circunstância, o território encerna a materialidade que constitui o fundamento mais imediato de sustento econômico e de identificação cultural de um grupo. (SOUZA, 2001). Percebe-se ai a importância de fatores econômicos ligados à materialização das atividades presentes em um determinado território, gerando uma identidade com esse espaço, onde seus limites vão até onde sofre influência do poder que promove o exercício dessas atividades. As atividades estabelecidas no território, a partir do momento que gera uma identidade cultural naquele lugar, vão identificar qual a tipologia daquele território. Porém, ainda seguindo a linha de pensamento de Souza, o poder que pode influenciar um determinado território pode se estabelecer não só através da forma política, mas visto por fatores culturais, identificados através de grupos dominantes naquele território, como no caso do exemplo de “quarteirões aterrorizados por gangues”, citado pelo próprio autor. Essa questão da temporalidade é importante porque pode revelar bastante sobre o uso de determinado espaço, permitindo uma analise de como se deu o processo de territorialização de um determinado local, seja de forma mais acelerada, com influência de fatores econômicos, ou em um ritmo mais natural, com relações estabelecidas tradicionalmente à um longo período de tempo. Um dos grandes agentes da duração dessa temporalidade são os fatores econômicos, que podem se estabelecer em um determinado espaço, gerando uma atividade predominante que vai marcar a dinâmica territorial de uma localidade, além de influenciar no tempo que essa atividade levará para se consagrar como titular desse território. Numa análise mais voltada à produção territorial, o tempo é importante pois as relações estabelecidas em um território não ocorre instantaneamente, mas ao longo de um período de tempo que pode variar com fatores externos, que vão influenciar tanto esse período, como a própria produção do território, nesse caso específico, o fator econômico. 5. AGENTES ECONÔMICOS NA FORMAÇÃO DO ESPAÇO URBANO Os agentes econômicos estão presentes de forma ativa no desenvolvimento do espaço urbano. Esses agentes proporcionam uma organização sócio – espacial baseada no desenvolvimento capital aplicado em um determinado território, indicando também o uso desse território. Com isso, percebe – se a atuação dos fatores econômicos na produção e reprodução do espaço urbano, provindo de diferentes formas, mas sempre se materializando no espaço. O desenvolvimento do espaço urbano conta com os fatores econômicos em sua formação de várias formas distintas. Um desses fatores é a especulação imobiliária. No caso do espaço habitacional, o lugar tem seu valor baseado nos investimentos presentes naquele local. Lugares com uma localização mais acessível, e investimentos maiores em infraestrutura tendem a ter valores mais altos, e são habitados por uma classe. Enquanto lugares mais carentes de infraestrutura e com uma localização menos favorável ao deslocamento diário, tendem ser habitado por uma outra classe, com menos poder aquisitivo. Esses fatores podem indicar a valorização local dessas áreas, mas não é o único fator presente na especulação imobiliária. Dentro dela, pode – se acrescentar também o financiamento de casas por bancos, a compra e venda de imóveis pelas imobiliárias e a construção predestinada à uma determinada classe por parte da construtora. Observando – se também que essa questão da especulação imobiliária não ocorre apenas em áreas habitacionais, mas também em áreas que detém uma boa localização estratégia para comércio por exemplo, e que possui um forte retorno de lucro no espaço urbano. Para Arroyo: A cidade, como meio construído, é uma condição necessária da atividade econômica, mas usada diferentemente segundo o tamanho das firmas e seu poder de mercado. Artérias, dutos e avenidas, que em tese estão disponíveis para o conjunto dos agentes da economia urbana, não servem igualmente a todos, pois estes são detentores de velocidades diferentes conforme o circuito (superior ou inferior) do qual participam. (ARROYO Mônica.) Com isso, observa – se a forma como os valores espaciais se dão de acordo com os investimentos presentes no espaço urbano, sendo que esses investimentos não atendem à demanda de todos, privilegiando uma determinada área, pertencente a uma determinada classe, e esquecendo outras áreas, e consequentemente, desvalorizando esses locais. Dessa forma, percebe – se a intervenção do capital na valorização do espaço urbano, gerando uma desigualdade sócio – econômica local nessas áreas. Para Corrêa: A existência de uma demanda solvável saturada e de uma não – solvável insatisfeita explica o interesse do capital imobiliário em obter ajuda do Estado, de modo a permitir tornar viável a construção de residências para camadas populares: créditos para promotores imobiliários, facilidades para desapropriação de terras, e créditos para os futuros moradores. (CORRÊA, 1995). Segundo Corrêa, existe um interesse claro para os promotores imobiliários desejarem interferência do Estado na ajuda de construções imóveis para as classes populares. A intenção é poder colocar essas classes no ciclo capital, atendendo sua demanda por habitação, porém, com imóveis que estejam acessíveis a essa classe. Com isso, necessita – se da ajuda do Estado como forma de “garantia” para os promotores imobiliários, já que o Estado financia os imóveis, além de facilitar a obtenção das terras por parte da construtora. Com isso, gera – se moradias para as classes populares, e consequentemente, as insere no ciclo de atuação do capital sob o espaço, através dos processos imobiliários. Outro agente econômico que está ligado à formação do espaço urbano é o comércio. O comércio, de forma geral, pode marcar uma dinâmica territorial de um espaço, se materializando nesse espaço de acordo com suas necessidades. Com isso, pode – se tornar um agente transformador do espaço de forma a constituir todo um espaço comercial, no caso dos centros, ou se desenvolver a partir de uma demanda de uma determinada localidade. Um exemplo dessa situação pode ser o seguinte: imagine que em um determinado bairro, instala – se uma escola particular. Essa escola já será um agente econômico na formação daquele espaço, pois ela investiu naquela área, desde a obtenção do terreno até a construção do colégio. Além disso, é um tipo de comércio, que vende um serviço, nesse caso, educação. Por consequência dessa escola, a tendência, é que surja, no seu entorno, outros estabelecimentos para atender a demanda dessa escola, como papelarias, lanchonetes, constituindo assim o desenvolvimento de outros estabelecimentos comerciais por conta dessa escola. Com isso, o bairro terá um fluxo mais intenso nos seus aspetos econômicos, já que as pessoas não precisarão se deslocar para outras localidades para obter esses serviços, além de se tornar um possível atrativo para a população dos bairros próximos, que não contam com a estrutura dessa área. Para Corrêa: Por toda a cidade ocorre pequenos agrupamentos de lojas localizadas em esquinas: duas a cinco lojas, como padaria, açougue, quitanda, farmácia, armazém, botequim, que atendem às demandas muito frequentes da população que habita nos quarteirões imediatos ao agrupamento. (CORRÊA, 1995). Com isso, observa – se o desenvolvimento de atividades comerciais nos bairros, com o intuito de atender as demandas de moradores locais. Isso gera alterações na formação do espaço urbano, pois será um agente econômico desenvolvido em um determinado bairro, descartando a necessidade dos moradores daquele local ter que se deslocar até o centro para atenderem suas necessidades. Sem contar nos que ainda deixam de ir ao centro a fim de trabalhar, já que esses estabelecimentos de bairro contam com o trabalho dos próprios moradores dos bairros. Sendo assim, intensifica – se o fluxo financeiro naquele espaço, com pontos comerciais que acabam por provocar alterações na dinâmica sócio – econômica daquele local. Dessa forma, percebe – se a presença intensa dos agentes econômicos na materialização do espaço urbano, causando alterações tanto na sua estrutura urbana como também no desenvolvimento de áreas que se destinarão à classes diferentes, atendendo aos interesses capitais, tanto na formação desses espaços, quanto ao suporte dado aos moradores desses locais. 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS O território estudado possui uma dinâmica territorial de bairro habitacional muito forte, sendo que os principais aspectos explorados na especulação imobiliária são voltados ao setor habitacional. O desenvolvimento dessa dinâmica se deu desde o início do bairro, quando fundado no final da década de 1990, com o propósito de ser uma área habitacional popular, através de um programa de habitação popular da prefeitura de Vitória da Conquista. Essa área, embora carente em vários aspectos de uma infraestrutura mais adequada, sofreu uma forte valorização imobiliária nos últimos anos, o que está alterando bastante a dinâmica social desse espaço. É um processo já esperado em algumas áreas que recebem algum tipo de infraestrutura, porém, no caso do bairro Cidade Modelo, está se desenvolvendo agora. Observa – se com isso, algumas mudanças, como a presença de novos moradores nesse espaço, que detém um poder aquisitivo relativamente maior para adquirir os imóveis nos valores atuais. Isso acaba trazendo uma dinâmica nova no bairro, que passa a contar com novos investimentos na estrutura, e uma supervalorização territorial, com imóveis de melhor qualidade e um maior desenvolvimento nesse espaço. Apesar dos investimentos no local, o bairro ainda tem um caminho logo à trilhar, já que sua estrutura carece em alguns aspectos, como pavimentação das suas vias, além de outros serviços que o bairro deveria oferecer à seus moradores, como uma creche e posto de saúde. Mesmo assim, esse espaço já conta com uma área de laser muito interessante, que é o Conquista Criança, que atende crianças e jovens não só do Cidade Modelo, como também de outras localidades de Vitória da Conquista, tendo assim uma importância significativa na dinâmica desse bairro, pois tem sua estrutura usada também pela comunidade local, e a atração de jovens de outras localidades da cidade traz um fluxo de jovens no bairro. O comércio desse espaço é pouco desenvolvido, contando apenas com alguns bares, mercearias, loja de materiais para construção e oficinas mecânicas. Os moradores, ao precisarem de algum produto não oferecido no bairro, destinam – se a bairros vizinhos, como o Kadija e o Patagônia, que possuem uma infraestrutura comercial e de serviços melhores que as do Cidade Modelo. Esse deslocamento de moradores do Cidade Modelo para bairros vizinhos não se dá apenas pelo comércio, mas também por serviços públicos não oferecidos no bairro, como posto de saúde, creche, e escolas maiores, já que a única presente no bairro é destinada a crianças até a 4ª série. Dessa forma, percebe – se a atuação de diversos fatores na territorialização do bairro Cidade Modelo, onde destaca – se o tempo que levou – se para chegar no ponto que está atualmente, sendo que esse tempo variou em vários aspectos, dentre eles, os financeiros, que aceleraram alguns processos, como a mudança de uma área de baixa renda para uma área destinada à uma classe com um poder aquisitivo razoavelmente maior que à classe original à que se destinava bairro. Esses fatores foram determinantes para o momento vivido atualmente, e a dinâmica territorial atual encontrada nesse espaço. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALVES, G. J. Um olhar sobre áreas pobres em Vitória da Conquista – BA: pensando o processo de favelização. Vitória da Conquista, 2011. ANJOS A. F. dos; CHAVEIRO E. F. A periferia urbana em questão: um estudo socioespacial de sua formação. Boletim Goiano de Geografia, Goiânia, junho de 2007. ARROYO M. A economia invisível dos pequenos. 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