Emoções, Medo e moralidade: a experiência de sociabilidade de moradores do
bairro de São Jose em João Pessoa-PB
Wanessa Souto Veloso1
O presente trabalho tem como foco apresentar as experiências de sociabilidade dos
moradores do bairro de São Jose, em João Pessoa Paraíba. O objetivo central é revelar o
olhar dos residentes acerca das noções de medo (dentro do bairro) e de vergonha (fora
do bairro); e como essas categorias são marcadas por formas de julgamentos morais. A
idéia é mostrar como medo, vergonha e percepções de moralidade se estabelecem em tal
contexto. E ainda, expor como tais percepções ou noções de moralidade e de justiça se
fazem presentes nos processos de sociabilidade desse espaço. Assim, baseado em estudo
de caso, foi possível perceber que as variadas formas de justificação relacionadas ao
sentido do que é bom ou mau na comunidade são elementos centrais, e por isso fazem
parte
do
processo
de
construção
da
sociabilidade
do
lugar.
Palavras-Chaves: Emoções, moralidade, medo, sociabilidade.
Apresentação
A proposta do presente artigo é apresentar as formas de sociabilidade do bairro a partir
do cotidiano observado durante determinado período de estudo 2 ao qual
se
desencadeou a pesquisa de campo. O foco do trabalho foi analisar o impacto sociológico
das notícias de violências entre os moradores de uma comunidade periférica da cidade
de João Pessoa, destacando as construções ou as noções de medo e de moralidade
observadas através da fala dos entrevistados e informantes. Antes, será revelada a
experiência inicial da pesquisa no que consiste as formas ou tentativas de estabelecer os
primeiros contatos; além das dificuldades encontradas durante o trabalho. Isso se dá
pelo fato de que se busca apontar ou descrever também as reflexões do trabalho de
1 Aluna do curso de pós-graduação em sociologia da Universidade Federal da Paraíba.
2 Pesquisa referente ao trabalho de conclusão do curso publicada no site:
http://www.cchla.ufpb.br/caos/n20/2.%20premio%20florestan%20fernandes%202011.pdf
1
campo destacando a importância das formas de inserção do pesquisador e os limites
encontrados por ele durante a entrada e permanência em determinado campo de
pesquisa. Com isso, apresento as formas de percepção do pesquisador em trabalho de
campo, apontando tal atividade como exercício metodológico enquanto prática
necessária.
Nesse sentido, apresentarei a minha experiência no Bairro de São José , como conheci o
seu cotidiano e saí de uma experiência de distância para uma experiência de
proximidade, fazendo das minhas dificuldades e impressões sobre a comunidade parte
da pesquisa3. Em seguida, trarei à tona a voz dos moradores, suas interpretações sobre
as notícias de violência e o impacto destas na comunidade, algo que não faz parte do
discurso midiático4. No segundo momento, irei apresentar as bases teóricas que
nortearam esse trabalho de pesquisa e como as percepções teóricas explicam as formas
de experiência e de construção das percepções de medo no interior do bairro estudado.
O que se busca aqui, é perceber um tipo de experiência de sociabilidade tendo como
foco central as emoções e as experiências de moralidade presentes no cotidiano.
Chamando atenção ainda para construção de estigmas e de noções de identidade grupal
entre os moradores do bairro estudado.
Conhecendo o bairro: as impressões, os primeiros contatos e o impacto das noções
de medo para construção da sociabilidade local
Antes de iniciar minhas visitas, realizei uma primeira espécie de contato com o bairro
através de uma pesquisa entre os telejornais locais. Observou-se dessa maneira, que o
bairro estudado (bairro de São José) se fazia sempre presente nestes telejornais se
destacando enquanto um lugar ou espaço de medo com base em narrativas de estória
tristes das quais favorecia a elaboração de estigmas e noções depreciativas sobre o
bairro. Para obter tal elaboração/percepção, acompanhei (no período de julho a
setembro de 2009 sistematicamente) os telejornais locais do meio-dia: “Caso de Polícia”
(TV Tambaú), “JPB” (TV Cabo Branco), “Correio Verdade” (TV Correio) e “Cidade em
Ação” (TV Arapuã). Nesse período, pude me familiarizar não só com os programas,
3
4 Esse trabalho é parte de uma pesquisa PIBIC com objetivo de analisar a construção ou experiência do
medo ou do pânico moral a partir das notícias de violência. Assim, o discurso midiático ou as formas de
divulgação de notícias sobre determinadas áreas periféricas da cidade João Pessoa- PB.
2
mas também com a linguagem utilizada para tratar das estórias envolvendo práticas de
violência, e como esta linguagem criava uma visão do bairro em relação aos demais
bairros da cidade. Pude dessa maneira, perceber que todos eles (os telejornais)
reafirmavam a ideia de que a violência ou práticas desviantes seriam protagonizadas por
moradores do bairro. Um dos focos principais do discurso compartilhado por esses
programas se deu com base na ideia de uma ausência de “valores morais” devido à falta
de imposição de regras pelos pais, tornando o problema da violência um problema de
caráter privado.
Após acompanhar esses programas, durante todo o período restante da pesquisa, passei
a seguir apenas aos programas de maior audiência, e foi assim que selecionei os
programas “Correio Verdade” e “Cidade em Ação”. O fato de que estes programas
possuem maior audiência se refletiam (na época) pelo perfil dos próprios apresentadores
(Wagner Moura e Samuca Duarte) que “trocavam farpas” e realizavam uma espécie de
debate midiático sobre quem estaria mais ao lado da “verdade” em relação ao problema
da violência ocorrida na cidade e principalmente no bairro em destaque. Neste embate,
ganhava quem apresentava mais a “verdade nua e crua”. A impressão era de que o
primeiro faria um estilo mais “equilibrado” e o segundo seria mais intransigente e
agressivo. O primeiro, Wagner Moura, tenta apresentar um perfil que, segundo alguns
telespectadores, seria “culto”: sem agressividade, de roupas elegantes, falando
pausadamente e centrando seu discurso no papel da família e das regras religiosas. Já o
segundo (Samuca Duarte) revela ser um tipo de apresentador cuja performance,
normalmente se dava de forma oposta: gritando e clamando por ‘justiça’ em relação aos
casos sobre estórias de violência no bairro.
Apesar das diferenças entre os apresentadores e os programas, o Bairro de São José é
apresentado de forma similar em ambos. A ele estava relacionado todos os crimes e
delitos ocorridos na região do bairro de Manaíra 5. Dessa forma, a comunidade era
identificada como a fonte da criminalidade e do perigo, povoado por “desordeiros”,
“vagabundos” e “vândalos”. Sobretudo, o bairro era apresentado como uma ameaça aos
moradores das áreas cincunvizinhas. É importante dizer que esse discurso mudou
recentemente por causa das cartas6 e telefonemas de moradores do bairro dizendo que se
5 Bairro de classe média alta que faz divisa com bairro São José.
6 Durante a pesquisa tive essa informação dos moradores e pude (através deles) ter acesso a cartas antes
de serem enviadas ou entregues a produção dos respectivos programas.
3
sentiam injustiçados, que eles eram “honestos”, “trabalhadores” e de boa índole, não
merecendo aquela má ‘fama’. Agora, o discurso da ameaça permanece, mas existe
sempre uma ressalva inicial por parte dos apresentadores que afirmam que não estão
‘acusando’ a todos os moradores, pois eles reconheciam a presença de um número de
moradores que mereceriam “o cuidado com as palavras ou respeito” (Samuca), e que
“não é possível generalizar as ações ruins para todos os que moram no bairro” (Wagner
Moura). Contudo, de uma maneira geral, o bairro é descrito como o foco da violência, e
tem paralelos apenas com o Bairro de Mandacaru 7. Na verdade, os dois bairros alternam
a presença nos programas, havendo períodos em que aquele também se torna a fonte de
perigo da cidade. Ainda de acordo com o discurso desses programas, as gangs (grupo de
jovens infratores) dos dois bairros teriam uma forte ligação: circulando entre as
comunidades, ‘trabalhando juntas’ para eliminar quem não saldava dívidas (com o
tráfico). Contudo, o foco aqui será apenas a comunidade de São José.
Conflitos Inter e extra bairro
Dentro do bairro, os conflitos se davam normalmente por brigas relacionadas a dívidas
(não necessariamente do tráfico), por traição, disputas de vizinhos por espaço 8. Nas
imediações, geralmente ocorriam furtos e arrombamentos. Essas notícias eram
apresentadas na segunda-feira e, geralmente, perduram pelo resto da semana ou até que
algo mais “especial” acontecesse. Dessa forma, os noticiários criavam uma imagem do
bairro de São José como sendo um lugar ameaçador, fonte de violência e perigo.
Comecei a pesquisa consciente dessas imagens, e o acompanhamento dos programas me
ajudou, uma vez que, estando em São José, pude falar com os moradores sobre esses
noticiários, e perceber como eles se relacionavam com esse discurso criado pela mídia,
e como suas vidas (em termos de sociabilidades) eram transformadas. Mesmo sabendo
que o que organizava esse discurso da mídia era a necessidade do espetáculo, e que
muitas vezes o que os apresentadores tentavam era criar uma espécie de ‘medo’, tenho
que admitir que, antes de conhecer o bairro, também sentia o efeito desse ‘medo
midiatizado’.
7 Bairro localizado na zona norte da cidade de João Pessoa-PB
8 Havia casos de brigas por conta de cercas nos quintais de algumas casas.
4
Quando observava a comunidade de longe9, imaginava que seria muito difícil ter acesso
aquela esfera de sociabilidade: acreditava que era uma comunidade fechada e que seus
moradores evitariam o contato com estranhos. Algumas vezes fui impedida de observar
aquele lugar a partir do estacionamento do shopping, 10 pois os seguranças vinham e me
retiravam de lá, alegando que aquela área era uma “área de risco”. Assim, antes de
estabelecer o contato com os moradores, minha primeira preocupação foi a de conseguir
entrar no local com cautela, e por isso fui em busca de pessoas que já tinham
familiaridade com o lugar. Assim havia mantido contato com duas pessoas: uma técnica
em enfermagem e um ex-frequentador do bairro. Mas ambos (que inicialmente se
dispuseram a me levar até lá) se recusaram posteriormente. A técnica em enfermagem
informou-me que não poderia mais me levar porque não estava mais trabalhando no
PSF (Posto de Saúde Familiar) do Bairro. Então, pedi que ela me indicasse outra
técnica, mas ela se recusou de imediato, justificando que “não queria se comprometer”.
Bem, isso me fez reacender a hipótese de produção de medo e de estigmas frente a
comunidade. Mesmo com tais dificuldades o primeiro contato foi estabelecido (já nas
proximidades da comunidade) com uma moradora do bairro. Isso aconteceu de forma
‘inesperada’, pois num momento em que eu falava com uma funcionária do shopping
(no ônibus) sobre as dificuldades de entrar no bairro e de conversar com as pessoas;
uma moradora de São José, acabou ouvindo minha fala e, de imediato, se apresentou
como moradora e me levou até a sua casa. Lúcia11, 37 anos, empregada doméstica.
Durante o percurso, ela falou diretamente sobre o preconceito que sofria por morar
naquele bairro. Lúcia me recebeu em sua casa, onde morava com a filha, o marido e um
sobrinho há sete anos. Contou-me que nunca aconteceu nada com ela nem com ninguém
de sua família e que, portanto, não tinha como ter medo das pessoas do bairro. Para ela,
na verdade, o maior problema era o preconceito que sofria fora do bairro enquanto
moradora de São José. Fiquei muito surpresa com essa recepção tão aberta e generosa, o
que muito rapidamente desfez a minha imagem do bairro que tinha sido formada pela
televisão.
9 Antes de entrar na comunidade ficava observando o bairro na parte externa e pensava como seria a
minha entrada e permanência naquele espaço de sociabilidade marcada pelo medo transmitido pelos
noticiários.
10 O bairro fica ao lado do maior polo de consumo da cidade: o shopping Manaíra.
11 Todos os nomes apresentados aqui são fictícios para proteger a identidade dos informantes.
5
Durante toda a pesquisa os meus principais contatos foram seis moradores do bairro:
Lúcia, Sérgio, Sandra (19 anos, funcionária do shopping), Fátima (32 anos, empregada
doméstica), Ana (29 anos, dona de casa), Marta (27 anos, dona de casa). Mas tive
muitas conversas rápidas e participei de vários encontros com grupos de pessoas no
salão de Sérgio e nas casas de Lúcia e Sandra. Um dos problemas que tive que enfrentar
inicialmente foi a grande dificuldade de falar sobre o tema do medo dentro do bairro.
Apesar das pessoas serem gentis e dispostas a ajudar na pesquisa, quando eu tentava
abordar o assunto do possível medo produzido pelos noticiários em relação a imagem
do bairro, eles sempre tentavam mudar de assunto, deslocar a conversa. Muitas vezes
me prometiam apresentar alguma pessoa para falar sobre ‘aquilo’ 12, alguém que tivesse
algum problema com drogas ou que morasse perto da ‘Laje 13’ ou da ‘beira do rio’14.
Esses lugares eram apontados como os lugares ‘críticos’ ou, nas palavras de Lúcia: “o
outro lado da estória”. Na verdade, o medo instaurado em relação a imagem do bairro
era proveniente de alguns pontos do bairro. Ou seja, havia um tipo de reconhecimento
entre alguns moradores de que o medo disseminado por conta de práticas delituosas se
apresentava apenas por meios de alguns indivíduos pertencentes ao bairro. Dessa
maneira os noticiários estavam “errados” apenas em dizer que a culpa dá violência
ocorrida a partir de pequenos roubos, furtos ou agressões se dava por conta da
proximidade em relação ao bairro São José. Por outro lado, ‘reconheciam’ que havia
“problema” e que tais problemas deveriam ser apontados como sendo provenientes de
uma certa parcela das pessoas que ali moravam. Em torno dessa noção ‘classificatória’
havia toda uma elaboração de distinção e de percepção indenitária através das falas dos
informantes. Tais percepções elaboram (dentro do bairro) justificativas morais que
apontavam para um quadro de distinção indenitária entre os moradores de determinadas
áreas do bairro. Assim todos os meus informantes se referiam ao ‘outro lado’, este, era o
lugar onde realmente eu encontraria a violência (causadora do medo). Na verdade,
descobri que meus informantes não se identificavam com aqueles lugares, e se diziam
diferentes daqueles que frequentavam ou que moravam do ‘outro lado’ do bairro. Por
isso, enfatizavam que havia uma diferença grande e que por isso a mídia local (ao falar
12 ‘Aquilo´ na fala deles se referia ao problema da violência, e das ‘coisas ruins’ que aconteciam em uma
parte do bairro.
13 Laje significa o lugar onde se concentram as pessoas de á ‘índole’ aqueles que são responsáveis pela
má fama do bairro.
14 O lugar estigmatizado por alguns moradores do bairro.
6
sobre estórias de violência envolvendo a imagem do bairro) deveria “separar o joio do
trigo” os “bons e os maus” moradores. Havia por isso muita ‘indignação’ e uma das
maiores críticas em relação aos enfoques midiáticos era o de que informações
relacionadas a alguns jovens do bairro eram mentirosas, pois muitas pessoas que
tiveram (pós morte) sua imagem na televisão, não tinham envolvimento com o crime, e,
só por serem da comunidade, suas histórias eram deturpadas pelos programas de
televisão. Para eles, tais programas de televisão, generalizavam para toda a comunidade
um ‘problema’ que (segundo eles) envolvia apenas alguns moradores - os que estavam
do ‘outro lado’. Quando falavam do ‘outro lado’, meus informantes se referiam ao lado
do bairro em que o acesso se dá pela Avenida Rui Carneiro, onde ficaria a “Laje”. Esse
lugar (a laje) apareceu em todas as conversas, juntamente com pessoas que moravam a
beira do rio, como os responsáveis pela má fama da comunidade. Assim, segundo meus
informantes os programas de televisão não sabem quem realmente é ‘culpado’, e dessa
forma omitem ou não deixam claro que a violência e o medo seriam protagonizados
pelos que vivam no lado em que ficava a laje e na beira do rio: ‘do outro lado’.
Na maioria das vezes, eu pude observar que essas diferentes posições representavam
diferentes identidades e vozes sobre o que era a vida na comunidade. Ainda, havia uma
hierarquia que marcava as formas de identidade do bairro entre aqueles que se viam
como os que eram da parte ‘boa’ do bairro e aqueles que moravam na parte ‘ruim’. E
ainda, um outro aspecto importante do impacto das percepções de identidade
relacionada a ocupação do espaço se estabelecia em relação a entrada de outros atores
na comunidade: a polícia. Na verdade, quando os ‘sujeitos’ que moravam no lado ‘ruim’
do bairro cometiam algum delito, a mídia noticiava durante toda semana e assim
‘incitava’ um desejo de resolução do problema a partir da entrada na comunidade, cujo
foco era fazer justiça prendendo os suspeitos do eventual delito.
A partir dessa
‘empreitada’ policial ocorre (no cotidiano do bairro) uma experiência de medo e de
insatisfação de alguns informantes. Um dos entrevistados fala sobre o que sente a
respeito da divulgação dessas notícias sobre violência, relatando a forma como a polícia
encara os moradores:
O que mais me chateia é que notícias desse tipo acabam trazendo a polícia para
dentro do Bairro, e quando a polícia entra, ela não respeita ninguém você está
entendendo? É que para eles todos os moradores do Bairro são marginais e isso
não existe, é por isso que alguns “traficantes” não gostam. Ai eles pegam essas
7
pessoas que provocam a entrada da polícia e matam ou expulsam do bairro.
(Sérgio, depoimento obtido em abril de 2010).
Pode-se dizer que a presença policial é tida como problemática para os moradores. Na
verdade, eles não sabem se isso traz segurança ou se provoca mais insegurança. Há um
medo do que pode ocorrer se houver conflito entre policiais e traficantes. Nesse sentido,
as notícias intensificam o clima de tensão entre os moradores e provoca o medo e a
insegurança. Pode-se dizer que as notícias além de reforçar o estigma do bairro como
sendo um lugar ameaçador, elas também influenciam um processo de ‘sociabilidade de
risco’ dentro do próprio Bairro. As ruas e as calçadas não podem ser ocupadas. Portanto,
o primeiro sinal na mudança do cotidiano dos moradores quando ‘o clima está tenso’
(pela intensificação das noticiais sobre o bairro), é a evitação dos espaços coletivos da
comunidade. Outra percepção acerca das notícias é em relação a maneira distinta como
os fatos são divulgados. Segundo os moradores do bairro de São José, os casos
ocorridos em bairros nobres não são relatados da mesma forma que os fatos ocorridos
na comunidade. Eles afirmam que a mídia não tem a mesma autonomia de divulgação
sobre fatos ocorridos em áreas de classe média que fazem divisa com bairro, como por
exemplo: conflito familiar, baderna de jovens na rua, ou até briga entre vizinhos e etc.
Lúcia diz: “Por aí, por esses bairros nobres também tem violência sabe, só que não
passa na televisão, JOTA JUNIOR15 não fala nada”. Para eles, com a intensificação das
notícias sobre o bairro, as pessoas de fora, “os outros” e a própria polícia, passa a
classificá-los como suspeitos. “Olhe! Para polícia, morou na periferia é bandido, para
eles todos são criminosos. Eu vejo que para eles todos os moradores daqui são pessoas
suspeitas até que se prove o contrário. (Sandra 32 anos).
Alguns moradores do São José têm uma relação de medo com a polícia e isso acontece
porque, segundo eles, os policiais teriam preconceito com os moradores da comunidade.
Esse preconceito (estigma) provocaria as tensões e conflitos nas relações dos moradores
com os policiais e com os outros (os que são de fora). Isso foi observado em algumas
narrativas. Uma das entrevistadas, fala da experiência de contato com pessoas de fora
do bairro:
15 Apresentador de um programa de notícias policias.
8
O que mais tem em João Pessoa é transporte escolar, mas para mim é a pior
dificuldade, por que nenhum dos que passam na BR16, entram aqui no bairro
Entendeu? [...] Lembro das vezes em que liguei, era mais ou menos assim que eu
dizia: Moço eu peguei seu número, você trabalha com transporte escolar não é?
Ai em seguida, quando pergunto quanto é que ele cobra para pegar minha filha
em Manaíra e deixá-la no Bessa ele pergunta: “mais precisamente em que local
do bairro Manaíra”? Eu respondo: Bairro São José. Aí, ele logo em seguida diz
NÃO, EU NÃO FAÇO ESSA ÁREA. [...] Mesmo tendo como pagar um
alternativo não tem quem faça o trabalho por que ninguém entra no bairro, a não
ser se for um morador que trabalhe com alternativo. [...] isso são coisas que
incomodam muito, pesa muito”. (Lúcia, depoimento obtido em Agosto de 2009).
Segundo os moradores, torna-se difícil estabelecer o contato com ‘os de fora’ do bairro
porque a percepção estigmatizada que eles (os de fora) têm dos moradores vai
influenciar toda uma rede de possibilidades de interação promovendo assim um possível
mal-estar ou frustração sentido por aqueles que são ou fazem parte da comunidade de
São José. Nesse sentido, o bairro aparece como marcador de diferenças: diferenças de
valor moral e de conduta que (dentro de uma hierarquia) acaba ocupando um lugar
desprivilegiado dentro de um contexto macro da cidade de João Pessoa. Assim, o que se
percebe é que dentro de uma lógica Eliaseana, da dinâmica das relações ‘intra e extra’
bairro, a sociabilidade da comunidade é influenciada pelas formas de transmissão das
notícias locais das quais apresentam uma imagem ‘pejorativa’ de todos os moradores do
bairro.
O Medo e a construção do “Outro”
A partir da discussão dos processos de estigma e das noções de identidade “nós/eles”
será possível perceber como se modificam esses julgamentos do “outro”, ou como, neste
caso, a sociabilidade marcada pelo medo interferiu nos valores que são atribuídos aos
demais moradores. Para iniciar a discussão, é necessário recorrer à percepção de Mauro
Guilherme Pinheiro Koury em relação ao fenômeno do medo na sociedade. A análise
deste autor apresenta o medo como uma categoria capaz de revelar as mais variadas
possibilidades de interação e o próprio movimento de construção do “tecido social”.
Isso ocorre porque a partir da análise dessa categoria, torna-se possível entender como
se estabelece o jogo de interação entre os atores sociais com base em percepções de
16 Rodovia localizada ao lado de uma das principais entradas do bairro.
9
“semelhança” e “dessemelhança” presentes em contextos específicos. Portanto, o medo
ordena as possibilidades de contato e de diálogo entre os indivíduos de determinado
contexto.
Outro aspecto importante dessa abordagem que guiou o enfoque desta pesquisa, é a
percepção de que emoções como o medo não são estranhas a vida social. Também foi
possível observar na comunidade de São José processos de semelhança e de
dessemelhança envolvendo a noção “nós/eles” dentro da comunidade, onde pude
perceber que os processos de dessemelhança eram baseados em uma interpretação
moral das ações dos outros. Assim, a vida da comunidade, a convivência com o medo da
violência (dentro da comunidade) e a vergonha (fora da comunidade) geram uma
sociabilidade muito peculiar: as mínimas ações passam a ser analisadas segundo
discussões sobre o certo e o errado, o bom e mau. Constantemente, o julgamento de
valor da conduta dos indivíduos é posto em prática. Esse constante processo de
avaliação, como se cada um estivesse sendo julgado a cada momento, e precisassem
sempre provar algo, ocorre em paralelo ao processo de estigmatização. Na verdade, não
há como separar esses julgamentos e a preocupação com as ameaças e a vergonha da
formação dos estigmas. Nesse sentido, a criação dos estigmas não é só algo imposto (de
fora) aos moradores do bairro, pois se faz presente também dentro da própria
comunidade. Conseqüentemente, eles também viabilizam ou potencializam formas de
estigmatização, bem como recriam medos e vergonha dentro do próprio bairro em
relação aos de fora. Dessa maneira, é correto afirmar que “pela estigmatização permitese elaborar as estratégias de pertença ao local e satisfazer as acomodações das visões
positivas e negativas do resto da cidade em relação ao próprio bairro e do bairro em
relação a si mesmo.” (KOURY, 2005: p. 38). Seguido Norbert Elias, é possível perceber
a dinâmica da alteridade e da diferença através do desequilíbrio na “balança de poder”,
ou seja, aquilo que Koury (2008) chama de enclaves de semelhança e dessemelhança.
Em ambos os casos, os autores buscam explicar como se dão os processos de construção
das distinções grupais.
A partir do exemplo da comunidade de São José, percebemos que esses processos 17 não
se dão entre apenas dois grupos, mas que outros tipos de distinção e de
17 Processos de distinção entre grupos de moradores que se classificam como “os melhores ou
superiores” e os que representam a instituição que vai em busca da reparação do dano: “o grupo
representado pela polícia”; além do grupo apontado como causador do ‘mal’ e por isso responsáveis pela
‘má fama’ do próprio bairro.
10
relações/interaçoes vão se operando. Esse processo de distinção é classificado segundo
Elias (2000) como a própria ‘sócio dinâmica’ das relações, e elaboram uma espécie de
interação marcada pelas formas de identidade e de reconhecimento (Honneth, 2003).
Dentro desse processo é importante enfatizar que as notícias sobre o Bairro de São José,
na mídia, traziam/narravam os casos/estórias de violência envolvendo alguns moradores
da comunidade, e que os próprios moradores (os que auto classificavam como
‘superiores’) reconheciam tais casos/estórias como exceção. E que, ao verem essas
imagens, esses moradores passavam a ter suas interações (em áreas de fronteira) 18
abaladas pela influência de tais notícias. Assim, crescia o preconceito daqueles que não
são da comunidade, posto que tais notícias fomentavam o sentimento de medo junto aos
moradores de outras áreas, e isso passava a afetar a imagem da comunidade, ao recriar
estigmas. Portanto, posso afirmar que os outsiders19 observados por mim têm uma
desvantagem ainda maior do que a dos outsiders estudados por Elias (2000). Isso
acontece porque, no caso de São José, a mídia torna-se um aliado poderoso dos grupos
estabelecidos (os que residem nos bairros de classe média alta na região circunvizinha),
espalhando o suposto valor ‘negativo’ do bairro de São José para muito além de suas
fronteiras, ampliando o transtorno de sua suposta ameaça, trazendo as tensões e os
conflitos entre os dois grupos para um palco mais amplo. Assim, como em Winston
Parva20, o contexto da cidade de João Pessoa também passa expressar a noção de que
determinado grupo de pessoas (os outsiders - a comunidade de São José) seriam “sujas,
indignas de permanecer em determinada área, e que seriam as protagonistas de todo o
“mal” - pondo em risco a vida das pessoas de bem e provocando o medo no local”
(ELIAS, 2000: p. 26). A experiência do bairro de São José confirma a ideia de Elias de
que “os outsiders, tanto no caso de Winston Parva quanto noutros locais, são vistos coletiva e individualmente – como anômicos. O contato mais íntimo com eles, portanto
é sentido como desagradável. ” (ELIAS, 2000: p. 26). Em outros termos:
Entre os já estabelecidos, cerrar fileiras certamente tem a função social de
preservar a superioridade de poder do grupo. Ao mesmo tempo, a evitação de
qualquer contato social mais estreito com os membros do grupo outsiders tem
18 Áreas de fronteira quer dizer aqui contatos feitos com pessoas/grupos de pessoas dos bairros vizinhos.
19 Referência ao livro os estabelecidos e os outsiders em que Norbert Elias apresenta o estudo das
relações de poder em uma comunidade localizada no norte da Inglaterra. Outsiders quer dizer desviantes.
20 Nome fictício dado a cidade estudada por Norbert Elias.
11
todas as características emocionais do que, num outro contexto, aprendeu-se a
chamar de “medo da poluição. (ELIAS, 2000: p. 26).
Dessa maneira, esse medo da poluição se dá nas áreas “nobres” com relação à
comunidade de São José. Mas, dentro da própria comunidade percebemos o mesmo
medo ajudando a elaborar categorias para distanciar aqueles ‘tidos como perigosos’.
Ainda acerca da interpretação dos moradores em relação aos ‘estigmas’, ficou claro que
para eles o que é dito pela mídia sobre o bairro não convém a todos. Contudo, mesmo
tendo consciência de que muitos dos que fazem parte dessa comunidade são pessoas de
‘conduta moral respeitável’, o discurso da mídia apresenta um efeito na comunidade não
por ser a mídia em si, mas por estabelecer frente a comunidade um lugar de tensão em
relação aos outros moradores da cidade. Essa tensão impossibilita esse grupo de
desconstruir as percepções ‘morais’ atribuídas a eles e, portanto,
os mesmos não
dispõem de uma possibilidade de reversão do processo de estigmatizaçao direcionados a
eles. A desvantagem desse grupo diante desse jogo de interação na balança de poder foi
percebida durante a pesquisa, e é possível afirmar que os moradores da comunidade de
São José estavam em uma condição inferior (segundo a lógica da cidade), mas
reproduziam entre eles uma lógica de distinção. Tal distinção, era elaborada com base
na reprodução de estigmas dentro da comunidade, essas distinções intra- bairro seguem
uma espécie de lógica de sub- estigmatizaçao que se mostra relevante dentro dos
embates entre os grupos de moradores do próprio bairro formando assim uma
sociabilidade local particular entre os membros do bairro de São José. Assim a partir de
tal perspectiva podemos enfatizar a perspectiva eliaseana acerca da possibilidade de
mobilização frente as estratégias contra aos processos de estigmatização:
A estigmatização, portanto, pode surtir um efeito paralisante nos grupos de
menor poder. Embora sejam necessárias outras fontes de superioridade de forças
para manter a capacidade de estigmatizar essa última, por si só, é uma arma nada
insignificante nas tensões e conflitos ligados ao equilíbrio de poder. Por algum
tempo, ela pode entravar a capacidade de retaliação dos grupos dotados de uma
parcela menor de poder, bem como sua capacidade de mobilizar as fontes de
poder que estejam a seu alcance. Pode até ajudar a perpetuar, durante algum
tempo, a primazia de status de um grupo cuja superioridade de poder já tenha
diminuído ou desaparecido. (ELIAS, 2000: p. 27).
12
No contexto do bairro de São José e na sua relação com os moradores das áreas
circunvizinhas não pude perceber as condições de reversão da balança de equilíbrio de
poder. Isso não ocorre só porque, como já havia dito, os “estabelecidos” contariam com
o apoio dos noticiários locais, mas, principalmente porque, enquanto grupo, a
comunidade é radicalmente dividida e, nesse sentido, estabelecer um processo de
contra-estigmatizaçao torna-se mais distante. Na verdade, o que se estabece é um
‘gradiente’ de poder a favor de determinado grupo, dificultando assim a contra partida
daqueles que se encontram em posição desprestigiada dentro da lógica das distinções
grupais no sentido eliasseano. Dessma maneira, buscou-se revelar (parcialmente) a
dinâmica dos processor de diferenciação e de distinção baseados em valões e
julgamentos morais que elvolviam: ora a identidade ou conduta moral de um grupo
(dentro do bairro); ora a imagem (de um grupo marcado por uma identidade associada a
um bairro classificado como lugar do medo de do perigo).
Considerações finais
Este artigo buscou apresentar (partes) de um estudo (referente ao trabalho de conclusão
de curso de bacharel em ciências sociais 21) acerca da maneira como os moradores do
bairro de São José interpretavam as notícias de violência que colocava a sua
comunidade como protagonista do medo e da criminalidade na cidade de João Pessoa; e
de que forma um tipo de discurso midiático interferia nas noções de identidade e
alteridade dos mesmos. Principalmente, mostrar um trabalho que teve como foco
identificar como o medo relacionado a essas notícias interferia nas perspectivas morais
dos membros desse contexto específico, e que o fenômeno da moralidade não é um
código distante, mas algo que se dá nos muitos processos de sociabilidade do cotidiano,
estando esse conectado a uma diversidade de processos sociais.
21 Como requisito de obtenção de título de bacharel em ciências sociais pela Universidade Federal da
Paraíba no ano de 2010.
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Referencias
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Site:
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Emoções, Medo e moralidade: a experiência de sociabilidade de