AMBIENTE SOCIAL E CONSUMO DE DROGAS: PERSPECTIVAS DE
MORADORES DO BAIRRO LAGOINHA (UBERLÂNDIA/MG)
Letícia Pereira de Souza
Universidade Federal de Uberlândia
Acadêmica do Curso de Medicina da Universidade Federal de Uberlândia
Monitora Bolsista do PET-Saúde
[email protected]
Ana Luiza Zacour Marinho
Universidade Federal de Uberlândia
Acadêmica do Curso de Biomedicina da Universidade Federal de Uberlândia
Monitora Não-bolsista do PET-Saúde
[email protected]
Álex Moreira Herval
Universidade Federal de Uberlândia
Cirurgião Dentista pela Faculdade de Odontologia da Universidade Federal de Uberlândia
Monitor Bolsista do PET-Saúde
[email protected]
Carla Vila-Verde
Universidade Federal de Uberlândia
Acadêmica do Curso de Biomedicina da Universidade Federal de Uberlândia
Monitora Não-bolsista do PET-Saúde
[email protected]
Ileanna Emanuela de Freitas Faria
Universidade Federal de Uberlândia
Acadêmica do Curso de Educação Física da Universidade Federal de Uberlândia
Monitora Bolsista do PET-Saúde
[email protected]
Regina Maria Tolesano Loureiro
Universidade Federal de Uberlândia
Doutora em Odontologia Preventiva e Social pela UNESP
Tutora do PET-Saúde
[email protected]
Eveline Novacki
Secretaria Municipal de Saúde de Uberlândia
Especialista em Saúde de Família e Comunidade pela SBMFC (Sociedade Brasileira de
Medicina de Família e Comunidade) e pela UFU (Universidade Federal de Uberlândia)
Preceptora do PET-Saúde
[email protected]
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OBSERVATORIUM: Revista Eletrônica de Geografia, v.3, n.7, p.151-163, out. 2011.
Ambiente Social e Consumo de drogas: perspectivas de moradores do Bairro
Lagoinha (Uberlândia/MG)
Letícia P. de Souza; Ana Luiza Zacour Marinho; Álex Moreira Herval; Carla Vila-Verde;
Ileanna Emanuela de Freitas Faria; Regina Maria Tolesano Loureiro; Eveline Novacki
Resumo
Resultado de uma pesquisa desenvolvida no âmbito do Programa de Educação pelo Trabalho
para a Saúde (PET-Saúde) do Ministério da Saúde em consonância com o Ministério da
Educação procedeu-se o estudo sobre o problema da drogadição, considerado um agravo
significante no contexto da Unidade Básica de Saúde da Família (UBSF) Lagoinha II. Para
tanto, foi realizado um estudo quantitativo do tipo analítico, observacional e transversal,
baseado em um questionário de caracterização socioeconômica e de determinação dos fatores
de risco e de proteção para o consumo de drogas, sob as perspectivas dos próprios residentes
no bairro. O questionário foi aplicado a 134 moradores que buscaram atendimento na UBSF
Lagoinha II no período de abril a junho de 2010. Do total de sujeitos da pesquisa, observou-se
que a maioria é do gênero feminino (81,34%) e 89,55% praticam alguma religião. A partir das
entrevistas realizadas, incluíram-se dentre os fatores de risco para o consumo de drogas a
curiosidade de experimentar (67,16%) e a pressão dos amigos (68,66%); dentre os fatores de
proteção, constatou-se as crenças espirituais e religiosas (78,36%) e também a vivência em
um bom ambiente familiar (76,86%). Tais constatações fornecem subsídios que possibilitam
direcionar futuros projetos de extensão nesse bairro no intuito de minimizar o consumo de
drogas e, por conseguinte, melhorar a qualidade de vida dos moradores.
Palavras-Chave: Consumo de drogas. Fatores de risco. Fatores de proteção. Ambiente social.
SOCIAL ENVIRONMENT AND USE OF DRUGS: PERSPECTIVES FOR
RESIDENTS OF THE NEIGHBORHOOD LAGOINHA
(UBERLÂNDIA/MG)
Abstract
This article is the result of research carried out within the Education Program by Working for
Health (PET-Saúde), of Ministry of Health and Ministry of Education. We attempted to study
the problem of drug addiction, seen as a significant issue in the context of the Basic Health
Family Unit Lagoinha II. For this, we performed a quantitative-analytical, observation
statement and transversal investigation based on a questionnaire of socioeconomic
characteristics and determinant risk and protective factors for drug use, under the perspectives
of residents of the neighborhood Lagoinha. The questionnaire was applied to 134 individuals
who sought health care in the Basic Health Family Unit Lagoinha II during April, May and
June 2010. Considering the total subjects, it has been observed that the majority came to be
female (81.34%) and 89.55% participants said to follow some religion. Out of the interviews
performed, were included as risk factors for drug use the curiosity in trying (67.16%) and the
peer-pressure (68.66%); amidst protective factors, appeared the spiritual and religious beliefs
(78.36%) and also the good experience of family sphere (76.86%). This panorama provides
subsidies for directing future extension projects in this neighborhood in order to minimize
drug use and therefore improve residents' quality of life.
Keywords: use of drugs, risk factors, protective factors, social environment.
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Ambiente Social e Consumo de drogas: perspectivas de moradores do Bairro
Lagoinha (Uberlândia/MG)
Letícia P. de Souza; Ana Luiza Zacour Marinho; Álex Moreira Herval; Carla Vila-Verde;
Ileanna Emanuela de Freitas Faria; Regina Maria Tolesano Loureiro; Eveline Novacki
Introdução
Visando a integração ensino-serviço, por meio da inserção dos acadêmicos da área da
saúde nas Unidades Básicas de Saúde da Família (UBSF) e através da execução de ensino,
pesquisa e extensão voltados à comunidade e à Atenção Primária em Saúde, o Ministério da
Saúde criou, em agosto de 2008, o Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde (PETSaúde). Ele se apresenta como um importante instrumento para o cumprimento da legislação
do Sistema Único de Saúde, tendo como característica a ênfase em Atenção Primária em
Saúde e em concordância com o Programa Nacional de Reorientação da Formação
Profissional em Saúde (Pró-Saúde). (BRASIL, 2008)
Como parte das atividades de pesquisa sugeridas pelo PET-Saúde em Uberlândia,
foram observados relatos da comunidade adscrita a UBSF Lagoinha para compreender quais
os agravos que se sobressaem no bairro Lagoinha (Uberlândia, MG). Através dessa atividade
e da análise dos relatos de usuários da UBSF e de líderes de comunidade, pôde-se perceber
que a dependência química e suas consequências foram elencadas como um importante
problema que interfere no ambiente social dessa população. Em conformidade, estudo
realizado por Santos e Ramires (2007) em Uberlândia revelou a drogadição como uma forte
característica do bairro Lagoinha ao observar elevadas taxas de posses de drogas nesse bairro
no ano de 2003, quando comparada aos outros bairros da cidade.
Além disso, no estudo de Tavolucci e Fonseca (2007) foi observado um decréscimo na
taxa de mortalidade geral no bairro Lagoinha entre os anos 2000 a 2002 e houve um aumento
dessa taxa nos anos 2003 e 2004. Em relação à mortalidade geral de Uberlândia, esse bairro
representou 0,08% dessa taxa no ano de 2004.
De acordo com dados da Prefeitura Municipal, o bairro Lagoinha apresenta uma taxa
de alfabetização de 90%, considerando a população maior de 15 anos. Esse número é superior
apenas às taxas de alfabetização dos bairros Dom Almir, São José, Panorama e Tocantins.
O bairro Lagoinha está localizado no setor Sul da cidade de Uberlândia-MG, apresenta
uma população entre 3.000 a 4.999 habitantes, de acordo com o mapa 1 e abrange uma área
de 3,432 km².
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Lagoinha (Uberlândia/MG)
Letícia P. de Souza; Ana Luiza Zacour Marinho; Álex Moreira Herval; Carla Vila-Verde;
Ileanna Emanuela de Freitas Faria; Regina Maria Tolesano Loureiro; Eveline Novacki
Mapa 1. Número de habitantes por bairros de Uberlândia, MG (2000). Disponível em:
http://www3.uberlandia.mg.gov.br/midia/documentos/planejamento_urbano/numero_habitantes.pdf.
Duvicq, Pereira e Carvalho (2004) definem drogas como substâncias psicoativas que,
quando usadas de forma abusiva, especialmente por jovens, são capazes de provocar aumento
do risco de acidentes, de violência, podendo ainda acarretar problemas econômicos, sociais e
de saúde. Segundo Silva et al (2009), o consumo de drogas ilícitas causa danos sociais e
econômicos que afetam o desenvolvimento de um país. Essas drogas representam um tema
internacional de grande relevância e um problema de saúde pública.
Liddle e Dakof (1995) ressaltam ainda que os distúrbios provocados pelo uso
excessivo de drogas trazem um ônus considerável, não apenas ao usuário, mas também à
família, levando à perda de emprego, rupturas familiares, instabilidade financeira e abuso
físico e psicológico. A comunidade também é onerada pelo fato de haver vítimas de crimes e
acidentes relacionados, bem como altos custos de tratamento e de encarceramento, no caso de
substâncias ilegais.
Loyola et al (2009) acreditam que para reduzir a produção, provisão e demanda por
drogas ilícitas devem-se considerar desafios regionais como a pobreza, desigualdades sociais,
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Lagoinha (Uberlândia/MG)
Letícia P. de Souza; Ana Luiza Zacour Marinho; Álex Moreira Herval; Carla Vila-Verde;
Ileanna Emanuela de Freitas Faria; Regina Maria Tolesano Loureiro; Eveline Novacki
planejamento urbano precário e o tráfico de drogas ilícitas. Para isso é necessário gerar
conhecimento, que deve ser resultado do envolvimento de diferentes atores. Apenas as
perspectivas de políticos, cientistas e gestores do cuidado em saúde não são suficientes para
lidar com as dificuldades vividas pelos usuários de drogas ilícitas e pela comunidade.
Por essa razão, as perspectivas da população local sobre a convivência com os
usuários são imprescindíveis à construção de conhecimento para análise, acompanhamento e
avaliação de ações e serviços dirigidos à comunidade.
Diante disso, o presente trabalho teve por objetivo registrar as perspectivas dos
moradores sobre os fatores de risco e proteção para o uso de drogas, bem como possíveis
interferências na qualidade de vida e no ambiente social do Bairro Lagoinha
(Uberlândia/MG).
A pesquisa foi realizada com moradores do Bairro Lagoinha pertencentes a Equipe de
Saúde da Família Lagoinha II (ESF Lagoinha II). Essa Equipe é responsável por 941 famílias,
totalizando 3284 moradores. Realiza, por mês, aproximadamente, 450 consultas médicas, 600
atendimentos de auxiliar de enfermagem, 250 consultas de enfermagem e 830 visitas
domiciliares pelos Agentes Comunitários de Saúde (SIAB-Sistema de Informação da Atenção
Básica, dez. 2009/jan.2010).
O presente artigo é resultado de uma pesquisa quantitativa do tipo analítica,
observacional e transversal, realizada com bases na aplicação de um questionário após
aprovação da pesquisa pelo CEP/UFU sob parecer 122/10. Iniciou-se a coleta de informações,
em dias alternados e variados, por meio de entrevistas individuais a 134 moradores, acima de
20 anos e pertencentes a área de abrangência da Equipe de Saúde da Família Lagoinha II, que
buscaram atendimento na UBSF Lagoinha II entre abril e junho de 2010.
O questionário foi baseado no trabalho de Loyola et al (2009) e também em relatos
clínicos das consultas médicas da ESF Lagoinha II. As perguntas foram referentes a uma
caracterização socioeconômica que permitiu traçar o perfil dos sujeitos da pesquisa (idade,
sexo, escolaridade, prática de religião, renda familiar, tipo de moradia e participação em
associação de moradores) e a uma caracterização subjetiva dos fatores de risco e proteção
para o uso de drogas a partir de opções previamente estabelecidas.
Fatores de risco e os fatores de proteção para o uso de drogas
Ao analisar a adesão de jovens ao uso de drogas é necessário refletir sobre a existência
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Ambiente Social e Consumo de drogas: perspectivas de moradores do Bairro
Lagoinha (Uberlândia/MG)
Letícia P. de Souza; Ana Luiza Zacour Marinho; Álex Moreira Herval; Carla Vila-Verde;
Ileanna Emanuela de Freitas Faria; Regina Maria Tolesano Loureiro; Eveline Novacki
de uma estrutura e organização de diferentes fatores que contribuiriam para um
comportamento de risco.
Risco é a consequência da livre e consciente decisão de se expor a uma
situação na qual se busca a realização de um bem ou desejo, em cujo o
percurso se inclui a possibilidade de perda ou ferimento físico material ou
psicológico. [...] Na área da saúde, risco é um conceito que envolve
conhecimento e experiência acumulada sobre o perigo de alguém ou de uma
coletividade ser acometida por doenças e agravos. Sendo um termo central
da epidemiologia, diz respeito a situações reais ou potenciais de produzirem
efeitos adversos e configuram algum tipo de exposição. (SCHENKER e
MINAYO, 2005, p. 708)
Dessa maneira, é importante considerar que fatores como: o efeito cumulativo das
substâncias tóxicas, as atitudes dos familiares e dos grupos de amigos, o papel da escola como
propiciador ou transformador, a disponibilidade da droga na comunidade e a mídia atuam de
forma interligada, e não fragmentada, produzindo interações sociais. (SCHENKER e
MINAYO, 2005)
Sanchez et al (2010) destacam que os fatores de risco ao uso de drogas são
classificados, tradicionalmente, em endógenos (como os inerentes à personalidade) e
contextuais (decorrentes da influência do meio social sobre o indivíduo). Entre os endógenos,
são comumente citados: genética, psicopatologias como depressão e transtorno de
personalidade antissocial, baixa auto-estima, falta de perspectiva de vida e procura de novas
sensações, inclusive busca pelo prazer e curiosidade. Em relação aos contextuais, foram
citados: baixa condição socioeconômica; disponibilidade da droga; criminalidade; aspectos
socioculturais, incluindo campanhas publicitárias e políticas sociais; falta de vínculo com a
família (rejeição, negligência e falta de contato) e com atividades religiosas; pouca adesão às
atividades escolares; pressão e influência dos amigos que já são usuários.
É por isso que indivíduos expostos a um maior número de fatores de risco são mais
propensos a serem usuários de drogas ilícitas. (HERNÁNDEZ
et al, 2009). Em
complemento, Duvicq, Pereira e Carvalho (2004) afirmam que o uso de drogas é
extremamente complexo, multicausal e não reconhece limites etários, territoriais ou sociais.
Schenker e Minayo (2005) definem a noção de proteção como integrante do contexto
das relações primárias e do universo semântico das políticas sociais:
Significa, sobretudo, oferecer condições de desenvolvimento, amparo e
fortalecimento da pessoa em formação. [...] Estudiosos têm identificado três
categorias de fatores de proteção em crianças e adolescentes resilientes: (a)
individuais: temperamento que favoreça o enfrentamento do problema,
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Ambiente Social e Consumo de drogas: perspectivas de moradores do Bairro
Lagoinha (Uberlândia/MG)
Letícia P. de Souza; Ana Luiza Zacour Marinho; Álex Moreira Herval; Carla Vila-Verde;
Ileanna Emanuela de Freitas Faria; Regina Maria Tolesano Loureiro; Eveline Novacki
autoimagem positiva e a capacidade de criar e desenvolver estratégias ativas
na forma de lidar com problemas. Esses atributos denotam autoeficácia,
autoconfiança, habilidades sociais e interpessoais, sentimentos de empatia,
controle emocional, humor e relacionamento [...]; (b) familiares: que se
traduzem em suporte, segurança, bom relacionamento e harmonia com pais e
no ambiente de relações primárias; (c) extrafamiliares ou ambientais, quando
se referem ao suporte de pessoas significativas e experiências escolares
positivas. (SCHENKER e MINAYO, 2005, p. 712)
Em um estudo realizado por Díaz et al (2009) para registrar a perspectiva dos
membros das famílias de dependentes químicos sobre o uso de drogas ilícitas, foi observado
que 46% dos entrevistados consideram o uso de drogas como uma decisão pessoal.
Entretanto, segundo Suaréz e Galera (2004), ainda que o uso de drogas seja considerado uma
decisão individual, a família possui um papel decisivo na conservação, trocas de hábitos,
costumes e comportamentos entre seus membros. Assim, é de extrema relevância que a
família seja incluída em estudos para investigar o papel de proteção contra a utilização de
drogas.
Schenker e Minayo (2005) acreditam que a família, pela função de desenvolver cultura
e instituir as relações primárias, é capaz de influenciar de forma significante o modo como os
indivíduos reagem à oferta de drogas.
Sanchez e Nappo (2007) afirmam existir diversos estudos científicos que mostram a
importância da prática de religião e fé para a manutenção e melhoria das condições de saúde,
bem como para prevenção do uso de drogas.
Estudo realizado por Oviedo et al (2009) foi importante para determinar as
perspectivas de familiares e pessoas próximas aos usuários sobre elementos protetores contra
o uso de drogas ilícitas em um centro de saúde em Guayaquil. Os resultados mostraram que a
proteção vincula-se ao fato de possuir fortes princípios morais, de expressar suas emoções, de
dedicar tempo à família e de ter relação de apoio com os pais. E, quando indagados sobre
fatores ligados à comunidade, 99% apontaram para a necessidade da existência de policiais
honestos e de programas que protejam as pessoas do uso de droga, além de instituições
empenhadas na prevenção.
Sanchez et al (2010) relacionam que, mesmo em um ambiente permeado pelo
consumo e tráfico, os motivos para o não uso de drogas foram: disponibilidade de
informações a respeito da droga e seus perigos; apoio e bom relacionamento entre
adolescentes e jovens, pais e demais familiares; características pessoais, como auto-estima
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Ambiente Social e Consumo de drogas: perspectivas de moradores do Bairro
Lagoinha (Uberlândia/MG)
Letícia P. de Souza; Ana Luiza Zacour Marinho; Álex Moreira Herval; Carla Vila-Verde;
Ileanna Emanuela de Freitas Faria; Regina Maria Tolesano Loureiro; Eveline Novacki
preservada e perspectiva de futuro e, finalmente, aspectos culturais, como crença e religião.
Resultados e discussão
Dentre os 134 entrevistados, todos eram maiores de 18 anos, com média de idade de
43,7 anos. Quanto ao gênero, 81,34% eram do sexo feminino e 18,66%, do sexo masculino.
Acredita-se que essa maior proporção seja devido ao fato das mulheres apresentarem uma
maior frequência nas unidades de saúde, porque buscam atendimento médico durante a
gestação, para exames de prevenção e na maioria das vezes, são as mães quem acompanham
os filhos nas consultas pediátricas. Além disso, os homens têm resistência em procurar
assistência em saúde para realização de exames de profilaxia e até mesmo quando estão com
alguma enfermidade .
Quanto à escolaridade, 6,72% dos moradores afirmaram nunca ter estudado, 44,03%
possuem o ensino fundamental incompleto, 13,43% o ensino fundamental completo, 13,43%
o ensino médio incompleto, 18,66% o ensino médio completo e 3,73% a graduação.
Ademais, quanto aos grupos sociais, 89,55% praticam alguma religião e 2,98% dos moradores
participam de associação comunitária.
Quanto a renda familiar, a maioria (75,37%) tem renda familiar entre 1 e 3 salários,
12,69% entre 3 e 5 salários, 11,19% inferior a um salário e 0,75% superior a 5 salários.
Quanto ao tipo de moradia, 64,93% afirmaram morar em casa própria, 17,16% em casa
alugada, 11,94% em casa cedida, 0,75% em casa em processo de aquisição e 5,22% em outro
tipo de moradia.
Os fatores de risco e proteção para o uso de drogas foram organizados na Tabela 1,
disposta a seguir. Convém ressaltar que os entrevistados poderiam escolher quantas opções
quisessem para caracterizá-los, sendo o “N” referente à quantidade de entrevistados que
escolheu a opção.
Características pessoais, familiares e sociais de risco
e proteção
N
%
Curiosidade para experimentar
Desejo de sentir prazer
Sentimentos de solidão ou depressão
Baixa autoestima
90
82
79
73
67,16
61,19
58,95
54,47
Manejo social inadequado
55
41,04
Características pessoais de risco
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Lagoinha (Uberlândia/MG)
Letícia P. de Souza; Ana Luiza Zacour Marinho; Álex Moreira Herval; Carla Vila-Verde;
Ileanna Emanuela de Freitas Faria; Regina Maria Tolesano Loureiro; Eveline Novacki
Circunstâncias familiares e sociais de risco
Pressão de amigos
92
68,66
Envolver-se em gangues
91
67,91
Acesso fácil a drogas na vizinhança
90
67,16
Sentir-se não amado/não cuidado
85
63,43
Ser rejeitado pela família
84
62,69
Ser negligenciado pela família
82
61,19
Ter amigos que usem drogas
81
60,45
Crenças espirituais/religiosas
105
78,36
Atividades esportivas/culturais/de aprendizado
103
76,86
Fortes princípios morais
99
73,88
Projetos de vida
98
73,13
Visão otimista da vida
95
70,89
Estilo de vida saudável
81
60,45
Vivência em um bom ambiente familiar
104
77,61
Centros recreacionais na comunidade
103
76,86
Relação de apoio com os pais
99
73,88
Encontros e/ou oficinas que estimulem a autoestima
98
Relação de confiança com familiares
95
73,13
70,89
Ter participado de programas educacionais
93
69,4
Características pessoais de proteção
Circunstâncias familiares e sociais de proteção
Ter sido ajudado a lidar com sentimentos na infância
88
65,67
Tabela 1 – Fatores de risco e proteção para o uso de drogas Fonte: Tabulação dos dados do
questionário aplicado pelos autores.
Dentre os fatores de risco, destacaram-se a curiosidade de experimentar (67,16%) e a
pressão dos amigos (68,66%) e, dentre os de proteção, as crenças espirituais e religiosas
(78,36%) e vivência em um bom ambiente familiar (77,61%).
No trabalho de Vargens et al (2009), bem como na presente pesquisa, a existência na
comunidade de atividades recreativo-esportivas foi importante como proteção e, como risco, a
curiosidade por novas experiências.
Díaz et al (2009) defendem que os principais fatores para o uso de drogas são: a
pressão dos amigos e a convivência com amigos que fazem uso de drogas. A maioria dos
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sujeitos dessa pesquisa (68,66%) também acredita que esse é um motivo para o início do uso
de drogas.
A família desempenha o papel de uma instituição, sendo relevante para a formação
pessoal e interpessoal, apredizado de regras e normas de comportamento e aquisição de
valores. Assim, a rejeição dos familiares é um importante fator de risco para a inserção do
indivíduo em grupos de usuários de drogas. (CIRILO, 1999). Nesse trabalho, a rejeição e a
negligência familiar foram consideradas por 54,12% e 62,59% dos entrevistados,
respectivamente e, além disso, o fato de sentir-se não amado ou não cuidado foi apontado por
64,89% dos moradores.
Sanchez e Nappo (2007) e Sanchez et al (2010) afirmam a importância da prática de
uma religião e da fé para prevenção do uso de drogas. Comparando, 78,36% dos moradores
concordam com essa afirmação. Além disso, Bastos, Bertoni e Hacker (2008) destacam que a
ausência de práticas religiosas se mostra associada ao consumo de drogas.
Cirilo (1999), Diáz et al (2009) e Suaréz e Galera (2004) defendem a necessidade da
família para a proteção no uso de drogas. Os moradores acreditam que os jovens ficam mais
protegidos do uso de drogas quando há uma relação familiar, seja de apoio (73,88%) ou de
confiança (70,89%) e também quando os pais ajudam a lidar com os sentimentos dos filhos
desde a infância (65,67%), ou quando há uma vivência em um bom ambiente familiar
(76,86%), o que inclui conversas, lazer, diálogo, carinho e confiança. Possuir fortes princípios
morais também é função da família (CIRILO, 1999), fator que se mostrou frequente entre as
respostas dos moradores (73,88%).
Quanto ao direito de tratamento dos dependentes químicos nos serviços públicos de
saúde, 76,86% dos moradores afirmaram que os usuários de drogas têm direito a tratamento,
resultado que vai de encontro à pesquisa de Silva et al (2009), na qual os entrevistados
declararam que os usuários de drogas não deveriam ter acesso a serviços de saúde,
caracterizando, segundo os autores, uma falta de respeito. Assim, é possível observar que a
população do bairro Lagoinha é permissiva à presença dos usuários no sistema de saúde.
No trabalho de Vargens et al (2009), os principais serviços de tratamento eram de
grupos de igrejas, enquanto Albarracín et al (2009) atenta para o fato de que o Estado é o
principal responsável pelo tratamento de problemas decorrentes do consumo de drogas
ilícitas.
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Considerações Finais
Tendo em vista as entrevistas realizadas, percebe-se que, dentre os fatores, grande
maioria dos de risco apareceu com frequência superior a 50%, exceto manejo social
inadequado, ao passo que, dentre os de proteção, todos aparecem com frequência superior a
60%. Esses fatores podem ser trabalhados em projetos de extensão direcionados para grupos
de adolescentes, buscando dialogar reflexivamente sobre auto-estima; efeitos e consequências
do uso das drogas por meio de linguagem aberta, verdadeira e não proibitiva; representações
sociais e atribuições de valor dentro da comunidade; novas perspectivas possíveis de vida;
direitos de cidadania; identificar casos vulneráveis e encaminhar para atendimento na UBSF,
tendo como prisma norteador a redução de danos.
Projetos de extensão também podem ser desenvolvidos na UBSF, com enfoque nos
grupos operativos de hipertensão arterial, diabetes, gestantes e puericultura, para estimular
valores familiares, sociais e sentimentais, princípios éticos, consequências do desamparo e da
negligência familiar e a importância do cuidar. Os dados da pesquisa podem ser repassados
nesses grupos, abordando os fatores de risco e proteção a fim de reforçar a relevância do
cuidado familiar e reduzir o uso de drogas e, por conseguinte, melhorar a qualidade de vida
dos moradores.
Acredita-se também que seja fundamental a criação de centros recreativos no bairro,
nos quais as famílias possam ter lazer de qualidade e os jovens tenham ocupação saudável.
Além disso, parece ser importante a atuação de grupos de incentivo a prática da religião e fé,
para a redução da dependência química no bairro, bem como incentivar relações familiares de
apoio e confiança.
Referências
ALBARRACÍN, D.G.E. et al. O Consumo de Drogas e o seu Tratamento, a partir da
Perspectiva da Família e Amigos dos Consumidores, em Bogotá, Colômbia. Revista Latino
Americana de Enfermagem, vol. 17, n. especial, p. 763-769, 2009.
BASTOS, F.I.; BERTONI, N.; HACKER, M.A. Consumo de álcool e drogas: principais
achados de pesquisa de âmbito nacional, Brasil 2005. Revista de Saúde Pública, v. 42, supl.
1, p. 109-117, 2008.
BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria Interministerial nº 1.802, de 26 de agosto de 2008.
161
OBSERVATORIUM: Revista Eletrônica de Geografia, v.3, n.7, p.151-163, out. 2011.
Ambiente Social e Consumo de drogas: perspectivas de moradores do Bairro
Lagoinha (Uberlândia/MG)
Letícia P. de Souza; Ana Luiza Zacour Marinho; Álex Moreira Herval; Carla Vila-Verde;
Ileanna Emanuela de Freitas Faria; Regina Maria Tolesano Loureiro; Eveline Novacki
Diário Oficial da União. Agosto de 2008. Disponível em:
http://www.saude.pr.gov.br/arquivos/File/CIB/port_interministerial_1802_26_ago_2008.pdf
Acesso em: 26 jan. 2009.
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