Número 88 Setembro 2010 Voar sem amarras! “Imagem de São Pio de Pietrelcina” - Igreja de Santa Margarida Maria, Toronto (Canadá) (Homilia de João Paulo II na canonização do Padre Pio, 16 de junho de 2002) Gustavo Kralj A vida e a missão do Padre Pio testemunham que as dificuldades e os sofrimentos, se forem aceitos por amor, transformam-se num caminho privilegiado de santidade, abrindo perspectivas de um bem maior, que só Deus conhece. SumáriO Flashes de Fátima Escrevem os leitores ���������������������������������������� 4 ...................... Ciência e Revelação (Editorial) . . . . . . . . . . . . Director: Manuel Silvio de Abreu Almeida Conselho de redacção: Guy Gabriel de Ridder, Juliane Vasconcelos A. Campos, Luis Alberto Blanco Cortés, Mariana Morazzani Arráiz, Severiano Antonio de Oliveira Editor: Associação dos Custódios de Maria R. Dr. António Cândido, 16 1050-076 Lisboa I.C.S./D.R. nº 120.975 Dep. Legal nº 112719/97 Tel: 212 338 950 / Fax: 212 338 959 www.arautos.pt / www.arautos.org.br E-mail: [email protected] Assinatura anual: 24 euros Com a colaboração da Associação Privada Internacional de Fiéis de Direito Pontifício Arautos do Evangelho Impressão e acabamento: Pozzoni - Istituto Veneto de Arti Grafiche S.p.A. Via L. Einaudi, 12 36040 Brendola (VI) Os artigos desta revista poderão ser reproduzidos, desde que se indique a fonte e se envie cópia à Redacção. O conteúdo das matérias assinadas é da responsabilidade dos respectivos autores. Membro da Ó Cruz, única esperança! A voz do Papa – Na escola de São Tomás de Aquino Tiragem: 40.000 exemplares ...................... ........................ 6 Comentário ao Evangelho – Voar sem amarras! ...................... 10 Qumran, confirmação ou desmentido? ...................... 18 36 A palavra dos Pastores – Anunciar com vigor e alegria ...................... 38 Aconteceu na Igreja e no mundo ...................... 40 História para crianças... O segundo pedido ...................... 46 Arautos no mundo ...................... 24 Um jesuíta vestido de púrpura ...................... Associação de Imprensa de Inspiração Cristã 32 5 Boletim da Campanha “O Meu Imaculado Coração Triunfará!” Ano XII nº 88 - Setembro 2010 Os homens de fé mudam os rumos da história Os santos de cada dia ...................... 48 Uma garantia de salvação 28 ...................... 50 E screvem Os doze frutos do Espírito Santo Desejo com imenso júbilo parabenizar os articulistas da revista Arautos do Evangelho. De maneira especial ao Sr. Flávio Roberto Fugiyama, por dissertar, sabiamente e com muito esmero, sobre os doze frutos do Espírito Santo. Considerando, paulatinamente, seus frutos para nós, leitores, são um largo cabedal de sabedoria e ciência, do qual nossa Igreja Católica Romana soe conceder às pessoas iluminadas pelo Divino Paráclito, no desejo de nos unir a ela com vínculos mais fortes. José Maria Tardeli Americana – Brasil Fidelidade e amor à Igreja Gostaria de agradecer à direção da revista Arautos do Evangelho, pela fidelidade e amor à Igreja Católica que permeiam todas as suas matérias. Dignos de especial menção são os artigos de Mons. João Scognamiglio Clá Dias, verdadeiros trabalhos acadêmicos que, ao mesmo tempo, dão prova de que o Espírito Santo não deixa de atuar na Igreja, através dos seus membros. Pois, apoiando-se em autores os mais ilustres, Mons. João instrui e ilumina nosso intelecto, mas, sobretudo, impele nossas almas para uma vida mais próxima dos ideais católicos. Fernando Galán Villacampa Saragoza – Espanha Refinado e impecável conteúdo Reverendíssimo Mons. João Scognamiglio Clá Dias, A revista Arautos do Evangelho é efetivamente uma obra-prima, sob todos os aspectos, mormente quanto ao refinado e impecável conteú4 Flashes de Fátima · Setembro 2010 os leitores do. Recebo-a e leio-a com extremada satisfação e gáudio. Aproposita-se, pois, destacar que a leitura da publicação enleva a alma e nos aproxima do que efetivamente interessa: a Palavra de Deus, cuja inobservância é causa de todas as desditas sociais que vivemos. Parabéns a V. Rev.ma pela luta empreendida no sentido de propagar tão belas mensagens. Lindinalvo Almeida Filho Chefe da Delegacia de Polícia Federal Ribeirão Preto – Brasil Educar os pequeninos É uma alegria poder felicitar os Arautos do Evangelho, que há anos trabalham aqui, no Equador, para difundir o amor a Deus e à Virgem Maria. Agradam-me todas as suas propostas de evangelização, e suas iniciativas me enchem de expectativa. Pela grande acolhida que têm, vejo que as famílias do Equador estão sendo educadas e guiadas a reconhecer o amor de Deus e de Sua Mãe Santíssima, resgatando os valores morais e religiosos que sempre nos ensinou a Igreja Católica. É o Espírito Santo que Se encontra agora empenhado em educar os pequeninos, sementes para o futuro, através das Histórias para crianças: é um tesouro do qual seguramente desfrutarão e aprenderão, em cada um dos exemplos que encontramos nessa seção. Espero que este sistema de ensino chegue a uma grande quantidade de crianças e faça florescer em seus pequenos corações o desejo enorme de amar a Deus e a Maria Santíssima. Lucía Andrade Iñiguez Cuenca – Equador Comentário de profundo teor teológico Venho acompanhando há vários meses a Revista e me surpreendo ca- da vez mais pelos assuntos nela abordados. O conteúdo é de excelente escolha em todos os aspectos. Fiquei com o coração transbordando de alegria ao ler a revista do mês de julho, cujo tema se refere ao Evangelho do XVI Domingo do Tempo Comum: O amor imperfeito de Maria e a preocupação naturalista de Marta. Excelente o comentário de Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP, profundo e de grande teor teológico, citando inumeráveis fontes de suma importância para todos nós católicos praticantes. Realmente é uma leitura meditativa, que nos faz refletir e mergulhar em sua essência, para interiorizarmos todo o seu conteúdo. Jonny Henrique Braga Santos – Brasil Meios para fortalecer a fé Antes de mais nada, queria felicitá-los por sua belíssima revista. Por outro lado, gostaria muitíssimo de ver nela artigos sobre “Milagres Eucarísticos” e sobre Santos cujos corpos permanecem incorruptos. Tomei conhecimento de que no mundo há cerca de dois mil, tendo em comum apenas o fato de terem sido batizados e recebido a Sagrada Eucaristia. A circunstância particular de incorruptibilidade desses corpos parece-me ser um elemento particularmente convincente para fortalecer a fé de muitos. E embora Nosso Senhor tenha dito a São Tomé: “Bem-aventurados os que creram sem ter visto!”, inclusive este Santo necessitou pôr a mão na chaga para crer... Mais ainda, julgo ser fundamental, nos tempos em que vivemos, usarmos todos os meios a nosso alcance para crescer no amor a Deus e ajudar nossos irmãos que correm perigo de perder-se por toda a eternidade... Isabel M. Correa Parker Santiago – Chile Editorial Ciência e Revelação I 88 Número o 2010 Setembr marras! a Voar sem Devemos viver desprendidos de tudo quanto é terreno, tal como uma águia que voa nas alturas (ver p.10-17) (Foto: Gerard Fritz / Getty Images) nvestigar a natureza, as coisas em si mesmas, suas propriedades, constitui uma necessidade humana. Segundo São Tomás, os conhecimentos assim adquiridos contribuem para o homem crescer no amor a Deus e situar-se a si próprio no conjunto da criação, como também para vencer doutrinas erradas a respeito das realidades terrenas (Cf. Summa contra gentiles, c.1-4). Homens da estatura de um Santo Alberto Magno, destaca o Papa Bento XVI, se dedicaram a “cultivar tranquilamente o estudo das ciências naturais e progredir no conhecimento do microcosmos e do macrocosmos, descobrindo as leis próprias da matéria, porque tudo isto concorre para alimentar a sede e o amor a Deus”. Com seu espírito aberto e abrangente, o Doctor Universalis demonstra assim “que entre fé e ciência não existe oposição, não obstante alguns episódios de incompreensão que se verificaram na História” (Audiência, 24/3/2010). Meses depois, o Santo Padre lembrará também as palavras do famoso jesuíta Matteo Ricci, para quem ciência, razão e fé formam uma síntese natural: “Quem conhece o céu e a terra — escreve no prefácio para a terceira edição do mapa-múndi — pode provar que Quem governa o céu e a terra é absolutamente bom, absolutamente grande e absolutamente único. Os ignorantes rejeitam o Céu, mas a ciência que não remonta ao Imperador do Céu como à causa primeira, não é de modo algum ciência” (Discurso de 29/5/2010). Na sua elevada missão de estudar o universo material e compreender suas leis físicas, a ciência nunca poderá, portanto, contradizer os dados da Revelação, que afinal têm sua origem no mesmo Criador. A própria natureza das coisas supõe um convívio harmonioso entre ciência e fé. Sempre que algum dado parecer conflitante, ou será fruto de um mal-entendido, ou de uma falha na interpretação dos experimentos, ou de uma teoria sem fundamento na realidade. Cedo ou tarde aquilo cairá por terra e a verdade prevalecerá. Para não nos limitarmos aos campos da física, química e biologia, tomemos as áreas que ajudam o homem a entender sua própria história, desvendando-lhe seu passado: arqueologia, linguística histórica, papirologia, epigrafia e ramos correlatos. Quando o que se tem em vista é estabelecer a verdade honestamente, suas conclusões e descobertas se harmonizam com os dados da Fé. Um exemplo evidente nos vem do longo trabalho referente aos Manuscritos do Mar Morto recolhidos nas grutas de Qumran, e que tanto papel e tinta fizeram correr desde sua descoberta em 1947. Ordenado e posto à disposição do público o conjunto do material encontrado naquelas grutas, estudos sérios e ponderados, verdadeiramente científicos, demonstraram não haver naqueles antigos papiros e pergaminhos nada que contradiga o que a Igreja sempre ensinou a propósito das Sagradas Escrituras. Pelo contrário, colocaram nas mãos dos exegetas um precioso instrumento para o desenvolvimento de sua ciência e o aprofundamento da Revelação. ² Setembro 2010 · Flashes de Fátima 5 A voz do Papa Na escola de São Tomás de Aquino Todos nós, filhos da Igreja, devemos, pelo menos em certa medida, ser discípulos do Doutor Angélico e nos colocarmos na escola da sua obra-prima, a “Summa Theologiæ”. H oje gostaria de completar, com uma terceira parte, as minhas catequeses sobre São Tomás de Aquino. Até a mais de setecentos anos de distância da sua morte, podemos aprender muito dele. Recordava-o inclusive o meu Predecessor, o Papa Paulo VI, que, num discurso pronunciado em Fossanova no dia 14 setembro de 1974, por ocasião do sétimo centenário da morte de São Tomás, se interrogava: “Mestre Tomás, que lição nos pode dar?”. E respondia com estas palavras: “A confiança na verdade do pensamento religioso católico, como foi por ele defendido, exposto e aberto à capacidade cognoscitiva da mente humana” (Insegnamenti di Paolo VI, XII, p.833-834). E, nesse mesmo dia, em Aquino, referindo-se ainda a São Tomás, ele afirmava: “Todos nós que somos filhos da Igreja podemos e devemos, pelo menos em certa medida, ser seus discípulos!” (Idem, p.836). Esforço da mente iluminado pela oração Por conseguinte, coloquemo-nos também nós na escola de São 6 Flashes de Fátima · Setembro 2010 Tomás e da sua obra-prima, a Summa Theologiæ. Ela permaneceu incompleta, e todavia é uma obra monumental: contém 512 questões e 2.669 artigos. Trata-se de um raciocínio cerrado, em que a aplicação da inteligência humana aos mistérios da Fé procede com clareza e profundidade, enlaçando perguntas e respostas, nas quais São Tomás aprofunda o ensinamento que deriva da Sagrada Escritura e dos Padres da Igreja, principalmente de Santo Agostinho. Nesta reflexão, no encontro com verdadeiras interrogações do seu tempo, que são muitas vezes também as nossas, São Tomás, utilizando inclusive o método e o pensamento dos filósofos antigos, de modo particular de Aristóteles, chega desta maneira a formulações exatas, lúcidas e pertinentes das verdades de Fé, onde a verdade é um dom da Fé, resplandece e torna-se acessível para nós, para a nossa reflexão. No entanto, este esforço da mente humana — recorda o Aquinate, com a sua própria vida — é sempre iluminado pela oração, pela luz que procede do Alto. Só quem vive com Deus e com os mistérios pode compreender também o que eles dizem. Estrutura de uma obra monumental Na Summa Theologiæ, São Tomás começa a partir do fato de que há três diversos modos do ser e da essência de Deus: Deus existe em Si mesmo, é o princípio e o fim de todas as coisas, pelo que todas as criaturas procedem e dependem d’Ele; em seguida, Deus está presente através da Sua Graça na vida e na atividade do cristão, dos santos; por fim, Deus está presente de maneira totalmente especial na Pessoa de Cristo, aqui unido realmente com o homem Jesus, e ativo nos Sacramentos, que brotam da Sua obra redentora. [...] Trata-se de um círculo: Deus em Si mesmo, que sai de Si próprio e nos toma pela mão, de tal maneira que assim, com Cristo, voltemos para Deus, permaneçamos unidos a Deus, e Deus será tudo em todos. Por conseguinte, a primeira parte da Summa Theologiæ indaga a propósito de Deus em Si mesmo, sobre o mistério da Trindade e acerca Setembro 2010 · Flashes de Fátima 7 L'Osservatore Romano da atividade criadora de Deus. Nesta parte encontramos também uma profunda reflexão sobre a realidade autêntica do ser humano enquanto derivado das mãos criadoras de Deus, fruto do Seu amor. Por um lado, somos seres criados, dependentes, não derivamos de nós mesmos; mas por outro, gozamos de uma verdadeira autonomia, de tal forma que não somos só aparência — como dizem alguns filósofos platônicos — mas uma realidade desejada por Deus como tal, e com um valor em si mesma. "Em nenhuma criatura, como em Nossa Senhora, as três Pessoas divinas habitam e sentem a delícia e a alegria por viver na Sua alma cheia de Graça." Na segunda parte, São Tomás considera o hoAudiência Geral de 23/6/2010 na Sala Paulo VI mem, impelido pela Graça, na sua aspiração a conhecer e picaz de mais de cinquenta virtudes cular sobre o Mistério da Eucarisamar a Deus para ser feliz no tem- morais, organizadas em volta das tia, ao qual teve uma enorme depo e na eternidade. Em primeiro lu- quatro virtudes cardeais — a pru- voção, a tal ponto que, segundo gar, o Autor apresenta os princípios dência, a justiça, a temperança e a os antigos biógrafos, costumava teológicos do agir moral, estudando fortaleza. Em seguida, termina com aproximar a sua cabeça do Tabercomo, na livre escolha do homem de a reflexão a respeito das diversas vo- náculo, como que para sentir palrealizar atos bons, se integram a ra- cações existentes na Igreja. pitar o Coração divino e humano Na terceira parte da Summa de Jesus. zão, a vontade e as paixões, às quais se acrescenta a força que confere a Theologiæ, São Tomás estuda o MisNuma das suas obras de comenGraça de Deus através das virtudes tério de Cristo — o Caminho e a tário à Escritura, São Tomás ajudae dos dons do Espírito Santo, co- Verdade — por meio do qual nós -nos a compreender a excelência do mo também a ajuda que é ofereci- podemos unir-nos a Deus Pai. Nes- Sacramento da Eucaristia, quanda inclusive pela lei moral. Portan- ta seção, ele escreve páginas prati- do escreve: “Dado que a Eucaristia to, o ser humano é um ser dinâmi- camente insuperadas a propósito do é o Sacramento da Paixão de Nosco que se põe em busca de si mes- Mistério da Encarnação e da Pai- so Senhor, contém em si mesma Jemo, procura tornar-se ele mesmo e, xão de Jesus, acrescentando depois sus Cristo que padeceu por nós. neste sentido, tenta realizar atos que um vasto estudo sobre os sete Sacra- Portanto, tudo aquilo que é efeito o edificam, que o tornam verdadei- mentos, porque neles o Verbo divi- da Paixão de Nosso Senhor, é tamramente homem; e aqui entra a lei no encarnado dilata os benefícios bém efeito deste Sacramento, uma moral, entram a Graça e a própria da Encarnação para a nossa salva- vez que ele não é outra coisa seção, para o nosso caminho de fé ru- não a aplicação em nós da Paixão razão, a vontade e as paixões. Sobre este fundamento, São To- mo a Deus e à vida eterna, perma- do Senhor” (In Ioannem, c.6, lect.6, más delineia a fisionomia do homem nece materialmente quase presente n.963). Assim compreendemos bem que vive em conformidade com o com as realidades da criação, tocan- por que motivo São Tomás e ouEspírito e que, deste modo, se torna do-nos deste modo no nosso íntimo. tros santos celebraram a Santa Misum ícone de Deus. Aqui, o Aquinate sa vertendo lágrimas de compaixão Apaixonemo-nos pela Eucaristia! detém-se para estudar as três virtupelo Senhor, que Se oferece em sades teologais — fé, esperança e caFalando sobre os Sacramentos, crifício por nós, lágrimas de alegria ridade — seguidas pelo exame pers- São Tomás reflete de modo parti- e de gratidão. Prezados irmãos e irmãs, na escola dos santos, apaixonemo-nos por este Sacramento! Participemos na Santa Missa com recolhimento, para alcançar os seus frutos espirituais, nutramo-nos do Corpo e do Sangue do Senhor, para sermos incessantemente alimentados pela Graça divina! Permaneçamos de bom grado e frequentemente, tu a tu, em companhia do Santíssimo Sacramento! Argumentos que não devem faltar na catequese e na pregação Aquilo que São Tomás explicou com rigor científico nas suas obras teológicas principais — como precisamente a Summa Theologiæ e a Summa contra Gentiles —, foi exposto inclusive na sua pregação, dirigida aos estudantes e aos fiéis. Em 1273, um ano antes da sua morte, durante a Quaresma inteira, ele fez pregações na Igreja de São Domingos Maior, em Nápoles. O conteúdo destes sermões foi recolhido e conservado: trata-se dos Opúsculos em que ele explica o Símbolo dos Apóstolos, interpreta a oração do Pai-Nosso, ilustra o Decálogo e comenta a Ave-Maria. O conteúdo da pregação do Doctor Angelicus corresponde quase inteiramente à estrutura do Catecismo da Igreja Católica. Com efeito, na catequese e na pregação, numa época como a nossa, de renovado compromisso em benefício da evangelização, nunca deveriam faltar estes argumentos fundamentais: aquilo em que cremos, eis o Símbolo da Fé; aquilo que oramos, eis o Pai-Nosso e a Ave-Maria; e aquilo que vivemos, como nos ensina a Revelação bíblica, eis a lei do amor a Deus e ao próximo, e dos Dez Mandamentos, como explicação deste mandato do amor. Resposta de São Tomás àqueles que objetam contra a fé Gostaria de propor alguns exemplos do conteúdo, simples, essencial 8 Flashes de Fátima · Setembro 2010 e convincente, do ensinamento de São Tomás. No seu Opúsculo sobre o Símbolo dos Apóstolos, ele explica o valor da fé. Por meio dela, diz, a alma une-se a Deus e brota como que um rebento de vida eterna; a vida recebe uma orientação certa e nós superamos agilmente as tentações. Àqueles que objetam que a fé é uma estultice, porque faz acreditar em algo que não faz parte da experiência dos sentidos, São Tomás oferece uma resposta muito elaborada, e recorda que se trata de uma dúvida inconsistente, porque a inteligência humana é limitada e não pode conhecer tudo. Só se pudéssemos conhecer perfeitamente todas as coisas visíveis e invisíveis, então seria uma autêntica estultice aceitar verdades por pura fé. De resto, é impossível viver, observa São Tomás, sem confiar na experiência dos outros, aonde o conhecimento pessoal não chega. Por conseguinte, é racional ter fé em Deus que Se revela e no testemunho dos Apóstolos: eles eram poucos, simples e pobres, amargurados por causa da Crucifixão do seu Mestre; e no entanto, muitas pessoas sábias, nobres e ricas se converteram em pouco tempo à escuta da sua pregação. Com efeito, trata-se de um fenômeno historicamente prodigioso, ao qual é difícil poder dar outra resposta racional, a não ser a do encontro dos Apóstolos com o Senhor Ressuscitado. Considerações sobre o Mistério da Encarnação Comentando o artigo do Símbolo sobre a Encarnação do Verbo divino, São Tomás faz algumas considerações. Afirma que a fé cristã, tendo em conta o mistério da Encarnação, é revigorada; a esperança eleva-se com maior confiança, ao pensamento de que o Filho de Deus veio entre nós, como um de nós, para comunicar aos homens a Sua própria divindade; a caridade é reavivada, porque não existe sinal mais evidente do amor de Deus por nós, do que ver o Criador do universo fazer-Se Ele mesmo uma criatura, um de nós. Finalmente, considerando o mistério da Encarnação de Deus, sentimos inflamar-se o nosso desejo de alcançar Cristo na glória. Recorrendo a uma comparação simples e eficaz, São Tomás observa: “Se o irmão de um rei estivesse distante, certamente desejaria poder viver ao lado dele. Pois bem, Cristo é nosso irmão: por conseguinte, temos que desejar a Sua companhia, tornando-nos um só coração com Ele” (Opuscoli teologico-spirituali, Roma, 1976, p.64). [...] Nossa Senhora: lugar onde a Trindade encontra o Seu descanso Como todos os santos, também São Tomás foi um grande devoto de Nossa Senhora. Ele definiu-A com um apelativo maravilhoso: Triclinium totius Trinitatis; triclínio, ou seja, lugar onde a Trindade encontra o Seu descanso porque, em virtude da Encarnação, em nenhuma criatura como n’Ela as três Pessoas divinas habitam e sentem a delícia e a alegria por viver na Sua alma cheia de Graça. Pela Sua intercessão, nós podemos obter todo auxílio. Com uma oração, que tradicionalmente é atribuída a São Tomás e que, de qualquer maneira, reflete os elementos da sua profunda devoção mariana, digamos nós também: “Ó bem-aventurada e doce Virgem Maria, Mãe de Deus... confio ao Teu Coração misericordioso toda a minha vida... Obtém-me, ó minha doce Senhora, verdadeira caridade, com a qual eu possa amar de todo o coração o Teu santíssimo Filho e a Ti, depois d’Ele, acima de todas as coisas, e o próximo em Deus e por Deus”. (Excertos da Audiência Geral, 23/6/2010) As exigências do chamado de Cristo As exigências do chamado de Cristo podem nos parecer demasiado severas, mas na realidade expressam a novidade e a prioridade absoluta do Reino de Deus. nhor jamais poderá arrepender-se (cf. Lc 9, 57-58.61-62). A outro jovem o próprio Cristo diz: “Segue-Me”, pedindo-lhe um desapego total dos vínculos familiares (cf. Lc 9, 59-60). Estas exigências podem parecer demasiado severas, mas na realidade expressam a novidade e a prioridade absoluta do Reino de Deus que se torna presente na própria Pessoa de Jesus Cristo. Em última análise, trata-se daquela radicalidade que é devida ao Amor de Deus, ao qual Jesus é o primeiro que obedece. Quem renuncia a tudo, até a si mesmo, para seguir Jesus, entra numa nova dimensão da liberdade, que São Paulo define “caminhar segundo o Espírito” (cf. Gl 5, 16). “Cristo libertou-nos para a liberdade!” — escreve o Apóstolo — e explica que esta nova forma de liberdade que nos foi conquistada por Cristo consiste em estar “ao serviço uns dos outros” (Gl 5, 1-13). Liberdade e amor coincidem! Ao contrário, obedecer ao próprio egoísmo leva a rivalidades e conflitos. Victor Toniolo A s leituras bíblicas da Santa Missa deste domingo dão-me oportunidade de retomar o tema do chamado de Cristo e das Suas exigências, tema sobre o qual me detive também há uma semana, por ocasião das Ordenações dos novos presbíteros da Diocese de Roma. De fato, quem tem o privilégio de conhecer um jovem ou uma moça que deixa a família de origem, os estudos ou o trabalho para se consagrar a Deus, sabe bem do que se trata, porque tem diante de si um exemplo vivo de resposta radical à vocação divina. Esta é uma das experiências mais bonitas que se fazem na Igreja: ver, sentir a ação do Senhor na vida das pessoas; experimentar que Deus não é uma entidade abstrata, mas uma realidade tão grande e for te que enche de modo superabundante o coração do homem, uma Pessoa viva e próxima, que nos ama e pede para ser amada. O Evangelista Lucas apresenta-nos Jesus que, no Seu caminho rumo a Jerusalém, encontra alguns homens, provavelmente jovens, os quais prometem segui-Lo onde quer que Ele vá. Ele mostrou-Se muito exigente com eles, admoestando-os que “o Filho do homem — isto é, Ele, o Messias — não tem onde repousar a cabeça”; ou seja, não tem uma habitação estável, e que quem escolhe trabalhar com Ele na vinha do Se- (Excerto do Angelus, 27/6/2010) Todos os direitos sobre os documentos pontifícios estão reservados à Libreria Editrice Vaticana. A íntegra dos documentos acima pode ser encontrada em www.vatican.va Setembro 2010 · Flashes de Fátima 9 Comentário ao Evangelho – XXIII Domingo do Tempo Comum Voar sem amarras! Claras são as condições para seguirmos a Jesus. Depende de nos libertarmos das amarras que nos prendem à terra. Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP I – Amarras e lastros na vida espiritual Em consequência do pecado, costuma haver amarras que prendem as nossas almas à terra e lastros que dificultam seu itinerário rumo à perfeição Em junho de 1783, os irmãos Joseph-Michel e Jacques-Étienne Montgolfier, filhos de um fabricante de papel de Lyon, conseguiram fazer voar, perante os assombrados olhos dos seus conterrâneos, um grande balão feito de linho, com 32 metros de circunferência. Cheio de ar quente fornecido pela combustão de palha seca, a aparatosa invenção elevou-se várias centenas de metros acima do solo e percorreu em dez minutos uma distância de dois a três quilômetros. Três meses depois, repetiram com êxito sua experiência no Parque de Versalhes, diante de Luís XVI, Maria Antonieta e toda a corte da França. Desde então, foi muito aperfeiçoada a técnica de fabricação dos aeróstatos, mas o princípio de seu funcionamento — baseado numa das mais elementares leis da Física — continua inalterado: sendo mais leve, o ar quente tende a subir. Enquanto está sendo enchido de ar, o balão fica preso ao solo por amarras. Em certo momento, são elas soltas e o engenho inicia sua ascensão, sendo então preciso ir liberando lastros gradativamente para ele poder atingir uma altura maior. Esta é uma bela imagem da elevação das almas a Deus. “Aquecidas” pela prática das virtudes, especialmente da caridade, iniciam elas a subida espiritual e começam a “voar”. Costuma ha- 10 Flashes de Fátima · Setembro 2010 ver, porém, em consequência do pecado, amarras que as prendem à terra e lastros que dificultam seu itinerário rumo à perfeição. É imperioso, portanto, cortar aquelas e alijar estes, para o espírito humano poder elevar-se ao transcendente e ao eterno. À semelhança de nosso corpo, padecem as almas dos danosos efeitos de uma espécie de lei da gravidade espiritual por onde nos sentimos atraídos para o mais baixo, o mais trivial, o que nos exige menos esforço. Até para as pessoas consagradas existem amarras e lastros, por vezes mais difíceis de soltar do que os dos simples fiéis. Se os religiosos não corresponderem ao convite da graça para viver num patamar mais elevado, poderão sentir uma como que vertigem por onde tenderão a se apegar com especial veemência ao que é terreno. Para ajudar a vencer esses entraves nas instituições religiosas, tem o Espírito Santo suscitado, ao longo dos tempos, as mais diversas formas de espiritualidade que intensificam o desapego dos bens passageiros. Algumas nos causam espanto por sua radicalidade. Por exemplo, a Ordem dos Clérigos Regulares Teatinos vive de esmolas, como tantas outras, mas seus membros não podem pedi-las: devem esperar que elas lhes sejam oferecidas espontaneamente!1 Em vista dessa nossa má tendência, Cristo nos ensina serem indispensáveis a renúncia e a Gustavo Kralj Os balões de ar quente são uma bela imagem da elevação das almas a Deus "Ancensão do balão Montgolfier em Aranjuez", por Antonio Carnicero - Museu do Prado, Madri a Evangelho A “Naquele tempo, 25 grandes multidões acompanhavam Jesus. Voltando-Se, Ele lhes disse: 26 ‘Se alguém vem a Mim, mas não se desapega de seu pai e de sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs e até da sua própria vida, não pode ser meu discípulo. 27 Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de Mim, não pode ser Meu discípulo. 28 Com efeito: qual de vós, querendo construir uma torre, não se senta primeiro e calcula os gastos, para ver se tem o suficiente para terminar? Caso contrário 29 ele vai lançar o alicerce e não será capaz de acabar. E todos os que virem isso começarão a caçoar, dizendo: 30 ‘Este homem começou a construir e não foi capaz de acabar!’ 31 Ou ainda: Qual o rei que ao sair para guerrear com outro, não se senta primeiro e examina bem se com dez mil homens poderá enfrentar o outro que marcha contra ele com vinte mil? 32 Se ele vê que não pode, enquanto o outro rei ainda está longe, envia mensageiros para negociar as condições de paz. 33 Do mesmo modo, portanto, qualquer um de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser Meu discípulo!’” (Lc 14, 25-33). Setembro 2010 · Flashes de Fátima 11 Corbis (DC)/ Latinstock. Como explicar, à luz dos Mandamentos da Lei de Deus, essa prescrição de odiar os parentes mais próximos e até a própria vida? “São Francisco de Assis renuncia às riquezas terrenas”, por Giotto di Bondone - Basílica de Assis (Itália) São Francisco toma a Deus por Pai D epois de levar uma vida mundana, decidiu-se Francisco de Assis (11821226) a desposar a Dama Pobreza, à estrita imitação de Nosso Senhor Jesus Cristo, renunciando a todos os seus bens. Para o ganancioso pai, Pedro Bernardone, que se queixava ao Bispo da excessiva generosidade das esmolas do filho, Fran- abnegação, para sermos verdadeiros discípulos Seus. Eis a lição da Liturgia deste domingo. II – Odiar o pai e a mãe? “Naquele tempo, 25 grandes multidões acompanhavam Jesus. Voltando-Se, Ele lhes disse:”. No início de Sua pregação, apenas alguns iam atrás do Divino Mestre, mas, em pouco tempo, o número dos Seus seguidores foi crescendo até formar um público considerável. A esta altura do Evangelho de São Lucas, quando Ele Se encaminha pela última vez a Jerusalém, já se pode dizer que “grandes multidões acompanhavam Jesus”. 12 Flashes de Fátima · Setembro 2010 cisco entrega até suas ricas vestimentas, passando a usar apenas uma pobre túnica. Preferiu, assim, tomar a Deus por Pai, atendendo ao pedido que Nosso Senhor lhe fizera na capela de São Damião de restaurar a casa de Deus, que estava em ruínas, em referência à situação lamentável da Santa Igreja na época. Entretanto, nem todos poderiam ser chamados propriamente Seus discípulos. Como sublinha o Cardeal Gomá, aquelas multidões seguiam Nosso Senhor “movidas talvez por pensamentos demasiado humanos, pressagiando quiçá a glória temporal do Reino Messiânico”.2 Foi esse o motivo que levou Jesus a voltar-Se para eles a fim de ensinar-lhes — e também a nós — o verdadeiro significado do Reino dos Céus e as condições para alcançá-lo. Jesus deve ser amado com um amor perfeitíssimo “Se alguém vem a Mim, mas não se desapega de seu pai e de sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas 26 irmãs, e até da sua própria vida, não pode ser Meu discípulo”. Embora algumas versões da Escritura interpretem nesta passagem o sentido do verbo grego μισεω como “desapegar-se”, a Vulgata prefere traduzir o termo μισεῖ por odit (odeia). Daí a formulação clássica deste versículo: “Se alguém vem a Mim e não odeia seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos, suas irmãs e até a sua vida, não pode ser Meu discípulo”.3 Ora, como explicar, à luz dos Mandamentos da Lei de Deus, essa prescrição de odiar os parentes mais próximos e até a própria vida? Tirar dela todas as consequências às quais uma consideração superficial pode induzir, não levaria este versículo ao parricídio, ao fratricídio e mesmo ao suicídio? Não terá sido, então, incorreta, por hiperbólica, a tradução de São Jerônimo? Não parece. Pelo contrário, o uso do verbo odiar sublinha com ênfase didática, neste contexto, o sentido mais profundo das palavras do Mestre: a necessidade de amarmos a Deus acima de tudo, portanto, de nos desapegarmos radicalmente até mesmo do que nos for mais caro, se isto representar um obstáculo para seguirmos a Cristo. Pois Jesus é digno de ser amado com um amor perfeitíssimo, e jamais chegará a ser Seu verdadeiro discípulo quem não estiver disposto a, por causa d’Ele, levar aos últimos extremos o desprendimento: “Quem ama seu pai ou sua mãe mais que a Mim, não é digno de Mim” (Mt 10, 37). Explica São Tomás, na Suma Teológica, que cabe à virtude da piedade “prestar aos pais culto e serviços, mas dentro das devidas medidas. Ora, não existe devida medida quando se tende a prestar ao homem um culto maior do que aquele que se presta a Deus. [...] Se, por conseguinte, o culto devido aos pais viesse a nos afastar do culto a Deus, já não seria mais piedade filial ficar insistindo num culto que é contra Deus”.4 Deve ser interpretado no mesmo sentido o convite a desapegar-se “até da própria vida”, como bem apontam Balz e Scheider: “A dupla exigência de Jesus — necessidade de odiar os pais e até a si mesmo, por causa d’Ele (Lc 14, 26), e de não amar os pais mais do que a Ele (Mt 10, 37) — tem na realidade este significado: para seguir a Jesus, é preciso pôr tudo de lado”.5 Os inimigos serão os próprios familiares Ora, como podem pai e mãe, irmão e irmã representarem obstáculos para a nossa salvação? Para melhor responder a esta pergunta, é útil lembrar outra passagem do Evangelho, correlata à que agora comentamos: “Não penseis que vim trazer paz à terra. Não vim trazer paz, mas sim, a espada. De fato, Eu vim pôr oposição entre o filho e seu pai, a filha e sua mãe, a nora e sua sogra; e os inimigos do homem serão seus próprios familiares” (Mt 10, 34-36). Sobre estes versículos de São Mateus — mais incisivos ainda, sob certo sentido, que os de São Lucas —, comenta Romano Guardini: “A mensagem de Jesus é mensagem de salvação. Anuncia o amor do Pai e o advento do Reino. Chama os homens para a paz e para a concórdia, na vontade santa. Contudo, Sua palavra não começa por produzir a união, mas a divisão. Quanto mais um homem se torna profundamente cristão, mais a sua vida se distingue da vida dos outros que não querem tornar-se cristãos, ou na medida em que se recusam a sê-lo. [...] Eis porque pode assim haver uma cisão entre pai e filho, amigo e amigo, ou entre os moradores de uma mesma casa”.6 Verdadeiro sentido do verbo odiar Ora, logo a seguir, Guardini acrescenta, com muita acuidade, que a exigência de odiar os parentes quando eles nos afastam de Deus “é antinatural, e provoca a tentação de guardar os parentes naturais e de abandonar Jesus”.7 É visando tornar clara a necessidade que o homem tem de fazer violência contra si mesmo para ser verdadeiro discípulo de Cristo, que a Vulgata, São Tomás, São Gregório Magno e muitos outros comentaristas recorrem a um termo tão radical quanto o verbo odiar: “Gregório interpreta esta palavra do Senhor no sentido de que ‘devemos odiar nossos pais e deles fugir, ignorando-os, quando os temos como adversários no caminho de Deus’. Se, de fato, nossos pais nos induzirem ao pecado e nos afastarem do culto divino, no que concerne a este ponto específico devemos odiá-los e abandoná-los”.8 Portanto, é natural, legítimo e até um dever o amor a irmãs e irmãos, filhas e filhos, pai ou mãe; mas devemos repudiá-lo com toda energia, se ele nos impede de seguir a Cristo. Mais uma vez, é São Tomás quem esclarece: “Não Setembro 2010 · Flashes A dupla exigência de Jesus tem, na realidade, este significado: para seguir a Jesus é preciso pôr tudo de lado de Fátima 13 Os pais devem ser honrados enquanto estão unidos a nós pela natureza e por afinidade, mas devemos odiá-los se forem um obstáculo em nossa ascensão à perfeição da justiça divina São inestimáveis, e a certo título insuperáveis, o estímulo e o apoio da família para a santificação Beatos Zélie e Louis Martin, pais de Santa Teresinha do Menino Jesus (no centro, aos oito anos de idade) nos é ordenado odiar nossos próximos porque eles são nossos próximos, mas somente os que nos impedem de nos unirmos a Deus. Nisso eles não são nossos próximos, mas inimigos, conforme o livro de Miqueias: ‘Os inimigos do homem, os seus próprios familiares’ (Mq 7, 6)”.9 E, mais adiante, acrescenta: “Portanto, deve-se dizer que, segundo o mandamento de Deus, os pais devem ser honrados enquanto estão unidos a nós pela natureza e por afinidade, como mostra o livro do Êxodo. Mas devemos odiá-los se forem um obstáculo em nossa ascensão à perfeição da justiça divina”.10 Fica, assim, posta a questão no seu verdadeiro equilíbrio. E pode a Santa Igreja ensinar com toda autoridade essa doutrina, pois foi ela quem evangelizou os povos pagãos e consolidou no mundo os princípios basilares da família monogâmica e indissolúvel, por sua pregação e pela administração do Sacramento do Matrimônio, instituído por Nosso Senhor Jesus Cristo. Com isso, estabeleceu em situação digna na sociedade a mulher e os filhos, fazendo cessar abusos vigentes no mundo antigo, como o “direito” do pai matar os filhos ou o marido repudiar a esposa. Entretanto, ao mesmo tempo, enfatiza ela que tudo, até mesmo a família, está subordinado ao serviço e à glória de Deus. Ainda a propósito do verbo odiar, aduz o padre Duquesne um importante esclarecimen- 14 Flashes de Fátima · Setembro 2010 to: “O termo odiar não significa que devemos fazer ou desejar-lhes o mal; mas ele assinala o ardor, a coragem, a força com a qual devemos lhes resistir, caso se oponham à nossa salvação, nos arrastem para o mal, nos demovam de assumir o estado ao qual Deus nos chama, ou queiram engajar-nos naquele ao qual Deus não nos chama; caso nos impeçam de abraçar a verdadeira Fé, e se esforcem por nos reter ou nos lançar no erro”.11 Em sentido contrário, podemos considerar numerosos exemplos que nos mostram como são inestimáveis, e a certo título insuperáveis, o estímulo e o apoio da família para os seus membros se santificarem: Santa Mônica, cujas lágrimas e orações obtiveram a conversão do filho; São Basílio, o Velho, e Santa Emília, pais de São Basílio, São Gregório de Nissa, Santa Macrina e São Pedro de Sebaste; ou os Beatos Luís e Zélia Martin, pais de Santa Teresinha do Menino Jesus. O prêmio virá na glória eterna “Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de Mim, não pode ser Meu discípulo”. 27 Estas palavras de Jesus descartam de vez todas as esperanças triunfalistas que a maior parte dos judeus tinha a propósito do reino essiânico. Com efeito, em toda a Sua pregam ção, jamais oferecera Nosso Senhor a plenitude da felicidade nesta vida, mas sim a glória eterna, cuja via passa pela abnegação e pelo sacrifício. Per crucem ad lucem (é pela cruz que se chega à luz), reza a conhecida divisa latina. Bem ilustra o Apóstolo essa necessidade de sacrifício e mortificação, recorrendo a um exemplo especialmente vivo para os seus seguidores em Corinto: “Todo atleta se impõe todo tipo de disciplina. Eles assim procedem para conseguir uma coroa corruptível. Quanto a nós, buscamos uma coroa incorruptível! Por isso eu corro, não como às tontas. Eu luto, não como quem golpeia o ar. Trato duramente meu corpo e o subjugo, para não acontecer que, depois de ter proclamado a mensagem aos outros, eu mesmo seja reprovado” (I Cor 9, 25-27). Ainda sobre este versículo do Evangelho, interessante é recordar uma piedosa consideração do padre Duquesne: “Comparemos nossa cruz com a de Jesus Cristo e as dos mártires, e envergonhemo-nos de nossa covardia!”.12 Não cabe, portanto, levá-la a contragosto, reclamando do seu peso ou manifestando amargura pelos sofrimentos que ela nos traz. Quem assim procede, arrasta a cruz, não a carrega; em consequência, não pode ser considerado discípulo do Mestre. Seguir Nosso Senhor não significa apenas andar fisicamente atrás d’Ele, como faziam muitos naquela multidão, mas sim “imitar Seus exemplos, praticar Suas virtudes”, acentua o mesmo padre Duquesne.13 III – Lucidez e prudência Ensinar por meio de parábolas é uma constante da divina didática. Assim, vai Nosso Senhor recorrer agora a duas, para tornar vivo aos olhos daquela multidão quanto o segui-Lo não exige apenas esforço e abnegação, mas também planejamento lúcido e cuidadosa execução, isto é, “prudência e resolução em calcular o esforço que isso nos custará”.14 Como não poderia deixar de ser, as duas imagens foram escolhidas com divina sabedoria, de forma a ilustrar com perfeição o ensinamento dos versículos anteriores. A este propósito, comenta Maldonado: “Cristo propôs as parábolas da torre e da guerra, de preferência a outros temas, por tratar-se de empresas bem difíceis e caras levantar torres e empreender guerras, as quais requerem grande e diligente preparação”.15 Os cálculos para construir uma torre ou travar uma guerra “Com efeito: qual de vós, querendo construir uma torre, não se senta primeiro e calcula os gastos, para ver se tem o suficiente para terminar? Caso contrário 29 ele vai lançar o alicerce e não será capaz de acabar. E todos os que virem isso começarão a caçoar, dizendo: 30 ‘Este homem começou a construir e não foi capaz de acabar!’”. 28 Como bem observou Maldonado, “calcular os gastos” significa aqui preparar-se com cuidado, inclusive detendo-se para ouvir prudentes conselhos. É o que todo homem deve fazer nas importantes encruzilhadas da vida: medir as dificuldades antes de lançar-se por uma ou outra via, sempre de acordo com a razão, nunca guiado apenas pelos sentimentos ou pelos impulsos. Mais importante ainda, precisa decidir e agir tendo em vista, sobretudo, a vida eterna, e não só os interesses terrenos, passageiros por definição. “Ou ainda: Qual o rei que ao sair para guerrear com outro, não se senta primeiro e examina bem se com dez mil homens poderá enfrentar o outro que marcha contra ele com vinte mil?”. 31 As guerras entre pequenos estados eram comuns na Antiguidade. Portanto, Nosso Senhor apresentava nessa parábola uma realidade bem conhecida de todos os Seus ouvintes. Ora, na batalha para alcançar o Reino dos Céus, entra o homem em condições muito desfavoráveis. Dada a natureza decaída em consequência do pecado original, cada um tem no seu interior terríveis inimigos: “o açoite da carne, a lei do pecado que impera em nossos membros, e varias paixões”.16 A eles se acrescentam “os principados, as potestades, os dominadores deste mundo tenebroso, os espíritos malignos espalhados pelos ares” (Ef 6, 12). Visando tornar notória essa desproporção de forças, Santo Agostinho assim interpreta o sentido da parábola: “Os dez mil homens com os quais ele deve combater o rei que dispõe de vinte mil representam a simplicidade do cristão, que precisa lutar contra a falsidade do demônio, isto é, com seus dolos e falácias”.17 Setembro 2010 · Flashes Nas encruzilhadas da vida, é preciso medir as dificuldades antes de lançar-se por uma ou outra via, sempre de acordo com a razão de Fátima 15 Gustavo Kralj, por concessão do Ministério dos Bens Culturais da República Italiana Há uma diferença entre renunciar a todas as coisas e abandonálas: compete a um pequeno número de perfeitos abandonálas; e cabe a todos os fiéis renunciar a elas Seguir Nosso Senhor significa imitar Seu exemplo e praticar Suas virtudes “Nosso Senhor carregando a Cruz, com Nossa Senhora e São Domingos de Gusmão”, por Fra Angélico - Museu de São Marcos, Florença Tratado de paz com o Supremo Soberano “Se ele vê que não pode, enquanto o outro rei ainda está longe, envia mensageiros para negociar as condições de paz”. 32 Por seu lado, São Gregório Magno dá desta parábola uma interpretação de caráter escatológico, segundo a qual o rei que se aproxima seria Aquele que virá no fim dos tempos para julgar os vivos e os mortos.18 Assim, na perspectiva da chegada do Supremo Soberano, em comparação ao qual nada somos nem podemos, caber-nos-ia apenas enviar mensageiros para Lhe solicitar a paz. São estes os nossos Anjos da Guarda, os nossos intercessores celestes e, sobretudo, Nossa Senhora. Pois, como pergunta o padre Duquesne, “quem somos nós para nos apresentarmos diante de Deus e ter a ousadia de com Ele negociar a paz? Que temos para oferecer-Lhe?”.19 Quanto às condições da paz, já foram elas enunciadas nos primeiros versículos deste 1 CONSTITUIÇÕES, art.26: “Nós, clérigos, devemos viver do Altar e do Evangelho, e de quanto nos oferecerem espontaneamente os fiéis, sem pedir esmola alguma aos seculares, nem diretamente nem por intermédio de outrem. Toda a nossa esperança deve estar posta na palavra de Cristo Senhor, que diz: ‘Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a Sua justi- 16 Flashes de Fátima · Setembro 2010 Evangelho: trata-se de renunciar a tudo e abraçar a Cruz para seguir o Divino Redentor. O único cálculo permitido ao verdadeiro discípulo “Do mesmo modo, portanto, qualquer um de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser Meu discípulo!”. 33 Nessas duas parábolas, Nosso Senhor torna evidente quão necessário é fazer bem os cálculos antes de encetar algum empreendimento, assumir uma responsabilidade ou travar uma batalha terrena. Ora, neste versículo, segundo a interpretação de Santo Agostinho, estaria declarado o sentido de ambas, pois, afirma ele, “o dinheiro para edificar a torre e a força de dez mil homens para enfrentar os vinte mil combatentes do outro rei, não têm outro significado senão o de cada um renunciar a tudo quanto possui”.20 E acrescenta o santo Bispo de Hipona: “O anteriormente dito concorda com o que se diz Horst; SCHEIDER, Gerhard (Eds.). Diccionario exegético del Nuevo Testamento. 2.ed. Salamanca: Sígueme, 2002, col.295). ça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo’”. 2 3 GOMÁ Y TOMÁS, Isidro. El Evangelio explicado. Barcelona: Casulleras, 1930, v.III, p.283. As duas traduções são corretas, pois o verbo grego μισεω, como o seu equivalente hebreu śānā’, abarca uma gama de significados que vai desde amar menos, detestar, até odiar (cf. BALZ, 4 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, II-II, q.101, a.4, resp. 5 BALZ e SCHEIDER, op. cit., col.295. 6 GUARDINI, Romano. O Senhor. Rio de Janeiro: Agir, s/d, p.293. agora, porque na renúncia de cada qual a tudo quanto possui está contido também o ódio a seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos, suas irmãs e até à sua própria vida. Todas essas coisas são próprias de cada um, e constituem obstáculo e impedimento para obter, não o temporal e transitório, mas aquilo que é comum a todos e subsistirá sempre”.21 Há, em suma, apenas um caminho para nos tornarmos verdadeiros discípulos de Jesus: renunciar totalmente aos afetos desordenados e ao apego aos bens terrenos, evitando que eles atuem como amarras para nossa vida espiritual ou de pesados lastros para nossa alma. Sem nos desprendermos de forma plena e completa de quanto nos separa de Cristo, jamais alcançaremos o Reino dos Céus. Importante é notar, ademais, como faz o Cardeal Gomá, que não apenas os clérigos e religiosos devem ser discípulos de Jesus, mas sim todos os batizados: “Com os exemplos da torre e do rei, não quer o Senhor significar que cada um de nós seja livre de tornar-se ou não Seu discípulo, como o homem da torre era livre de lançar ou não os alicerces. Tenciona Ele ensinar-nos a impossibilidade de agradar a Deus em meio às coisas que distraem a alma e nas quais ela corre o risco de sucumbir, pela astúcia do demônio”.22 São Beda faz uma distinção entre o dever das almas chamadas ao estado de vida consagrada e a obrigação de todos os fiéis: “Há uma diferença entre renunciar a todas as coisas e abandoná-las: compete a um pequeno número de perfeitos abandoná-las, ou seja, pôr de lado os cuidados do mundo; e cabe a todos os fiéis renunciar a elas, isto é, possuir as coisas terrenas de maneira tal que elas não os prendam ao mundo”.23 IV – Os apegos desordenados roubam-nos a paz de alma O Evangelho ora comentado torna patente o quanto esse desapego radical e completo é a pedra fundamental de nossa vida interior, quer constituamos família, quer façamos parte do Clero, quer estejamos consagrados a Deus em algum instituto religioso. Nesse sentido, podemos afirmar que a liturgia do 23º Domingo do Tempo Comum é um convite ao desprendimento: “Quem não carrega sua cruz e não Me segue, não pode ser Meu discípulo”. Não significa isso que precisamos ser flagelados, coroados de espinhos ou pregados na cruz, como foi Nosso Senhor Jesus Cristo. A cruz que Ele pede de nós consiste principalmente em vivermos desprendidos de tudo quanto é terreno, tal qual uma águia que voa sem amarras para, nas alturas, melhor contemplar o sol. Como tantas vezes comprovamos na vida, o apego desordenado gera aflições, inseguranças e receios que nos roubam a paz de alma. Portanto, mesmo o homem não chamado à vida religiosa deve fazer tudo com o coração posto nas coisas de Deus, inclusive ao cuidar dos negócios e da administração dos seus bens. Esse desprendimento é condição para seguir de perto a Nosso Senhor Jesus Cristo. Assim agindo, a alma experimentará a verdadeira felicidade, prenunciativa da alegria que terá no Céu. 7 Idem, ibidem. 14 8 SÃO TOMÁS DE AQUINO, Suma Teológica, II-II, q.101, a.4, ad.1. GOMÁ Y TOMÁS, op. cit., p.282. 15 MALDONADO, SJ, Juan de. Comentarios a los cuatro Evangelios. Evangelios de San Marcos y San Lucas. Madrid: BAC, 1951, v.II, p.642. 9 Idem, II-II, q.26, a.7, ad.1. 10 Idem, II-II, q.34, a.3, ad.1. 11 DUQUESNE. L’Évangile médité. Lyon-Paris: Perisse Frères, 1849, v.III, p.104. 12 Idem, p.106. 13 Idem, ibidem. 16 17 SÃO CIRILO DE ALEXANDRIA. Commentaria in Lucam, sermo 105: PG 72, 796. SANTO AGOSTINHO. Quæstiones Evangeliorum, l.2, c.31: PL 35, 1343. 18 Cf. SÃO GREGÓRIO MAGNO. Homiliarum in Evangelia, hom. 37, c. 6: PL 76, 1277-1278. 19 DUQUESNE, op. cit., p.119. 20 SAN AGUSTÍN, apud SANTO TOMÁS DE AQUINO, Catena Aurea. 21 Idem. 22 GOMÁ Y TOMÁS, op. cit., p.285. 23 SAN BEDA, apud SANTO TOMÁS DE AQUINO, Catena Aurea. Setembro 2010 · Flashes Para nos tornarmos verdadeiros discípulos de Jesus, há apenas um caminho: renunciar totalmente aos afetos desordenados e ao apego aos bens terrenos de Fátima 17 Qumran, Gustavo Kralj confirmação ou desmentido? Fragmento 4Q1, contendo Gn 39, 11-21 (ano 125 a 100 a.C.) Considerada a maior descoberta arqueológica do século XX, a coleção dos manuscritos do Mar Morto veio prestar grande auxílio à exegese cristã, esclarecendo pontos relativos à Sagrada Escritura e confirmando a veracidade dos textos bíblicos que circulam hoje. José Messias Lins Brandão N o início do ano de 1947, um jovem pastor beduíno, chamado Mohammed ed-Dib, procurava afanosamente uma ovelha desgarrada ao longo da falésia que margeia o Mar Morto, a cerca de dez quilômetros da bíblica cidade de Jericó. Vasculhando as reentrâncias da rocha, entrou numa caverna onde descobriu vasos de argila contendo rolos de pele manuscritos, envolvidos em tecido de linho. Escolheu e retirou os sete que lhe pareciam em melhor estado. Alguns meses depois, os beduínos venderam três desses rolos a um arqueólogo da Universidade Hebraica de Jerusalém e os restantes ao Metropolita do convento sírio-jacobita São Marcos, também da Cidade Santa. Pouco tardou para os estudiosos perceberem que Mohammed havia feito a mais retumbante descoberta arqueológica do século XX: os famosos Manuscritos do Mar Morto. Aos poucos, pesquisadores começaram a explorar meticulosamente a região, enquanto os beduínos, por seu lado, faziam o mesmo. Assim, de 1949 a 1956, foram descobertas mais dez grutas, nas quais foram coletados diversos rolos em diferentes estados de conservação e dezenas de milhares de fragmentos, alguns tão diminutos que contêm apenas poucas letras. Riqueza e variedade de conteúdo Uma vez analisados e classificados os fragmentos maiores, chegou-se à conclusão de que eles compõem um conjunto de 900 documentos escritos em hebraico, aramaico ou grego entre o fim do século III a.C. e o ano 68 da Era Cristã. A maior parte deles está grafada sobre pergaminho, alguns em papiro, e há um único texto gravado em cobre. Mais de uma quarta parte desses documentos é constituída por cópias de livros do Antigo Testamento, em sua imensa maioria escritos em hebraico ou aramaico. Todos os livros canônicos da bíblia hebraica, salvo o de Ester e o de Neemias, 18 Flashes de Fátima · Setembro 2010 ali figuram, e frequentemente em vários exemplares: há pelo menos quatorze manuscritos do Deuteronômio, quinze de Isaías e dezessete dos Salmos. Encontram-se também três livros deuterocanônicos: Tobias, Eclesiástico e a Carta de Jeremias, que faz parte de Baruc. Um segundo bloco de manuscritos está formado por excertos de livros apócrifos: Jubileus, Salmos Apócrifos, Livro de Enoc, Testamento dos Doze Patriarcas e Apócrifo do Gênesis. Faz parte também desse conjunto um grande número de outros escritos tais como a Oração de Nabônides, trechos de hinos, anotações e comentários, entre eles o Targum de Jó e o Comentário de Habacuc. Há, por fim, excertos do que se poderia chamar de “códigos disciplinares” — a Regra da Comunidade, o Regulamento da Guerra dos Filhos da Luz contra os Filhos das Trevas, o Escrito de Damasco —, bem como orações para cada dia do mês, Getty Images/Dorling Kindersley Gustavo Kralj Entre 1949 e 1956, beduínos e pesquisadores descobriram onze grutas com documentos À direita, vista exterior da gruta IV; acima, fotografia tirada na época das escavações - Royal Ontario Museum, Toronto (Canadá) textos poéticos, comentários de trechos da Bíblia, calendários, etc. A misteriosa comunidade de Qumran Cabia, então, aos arqueólogos desvendar o mistério: como fora parar nas inóspitas cavernas uma tão valiosa biblioteca? Qual a autoria desses documentos, muitos dos quais inéditos? A clave da solução estava, certamente, nas vizinhas ruínas de Qumran e na enigmática comunidade que as habitara até o primeiro século da nossa era. Como explica Pnina Shor, chefe da Seção de Conservação de Artefatos do Departamento de Antiguidades de Israel, em entrevista exclusiva à nossa revista, “o grupo que escreveu os manuscritos chama a si mesmo de yahad, que em hebraico significa ‘o conjunto’, ‘a comunidade’”.1 Ao longo dos anos não faltaram as controvérsias entre os especialistas sobre a identidade dessa comu- nidade. Mas, hoje em dia, a grande maioria deles a identifica com os essênios,2 ou, para ser mais preciso, com os membros de uma ala radical desse movimento.3 Os essênios constituíam, junto com os fariseus e os saduceus, os três principais grupos religiosos em que se dividiam os judeus desde o segundo século antes de Cristo até a destruição de Jerusalém.4 Procuravam viver em estrito cumprimento da lei mosaica, atendo-se à letra desta mais ainda do que os próprios fariseus. Segundo uma corrente de autores, seu nome deriva do grego εσσηνοι (os piedosos). Embora não sejam mencionados por este título nas Escrituras Sagradas, não faltam referências a eles em autores antigos como Plínio o Velho, Flávio Josefo e Fílon de Alexandria. Os essênios que moravam em Qumran compunham uma comunidade masculina, celibatária, de vida austera e regida por uma re- gra, assemelhando-se, portanto, aos mosteiros cristãos surgidos séculos depois. E, como reconhece a mencionada Pnina Shor, responsável pela conservação dos manuscritos do Mar Morto, “a descrição que Josefo faz dos essênios e de como eles viviam é muitíssimo parecida com o que esse grupo narra sobre si mesmo”. 5 O assentamento de Qumran foi arrasado no ano 68 por uma legião Romana. Ao que tudo indica, os essênios, ante o irresistível avanço das tropas imperiais, procuraram pôr a salvo sua biblioteca. No início, envolviam os rolos em tecidos e colocavam-nos em vasos de argila bem tampados; no fim, atiravam-nos nas cavidades da falésia, às pressas e sem qualquer proteção. Observa a este respeito o teólogo luterano Joachim Jeremias: “Os irmãos devem ter sido exterminados, até o último, neste ano de 68, pois, se um só deles tivesse escapado, as Setembro 2010 · Flashes de Fátima 19 Gustavo Kralj grutas não teriam guardado, até os nossos dias, o seu segredo”.6 O “fenômeno Qumran” A descoberta dos manuscritos do Mar Morto provocou o que o sacerdote jesuíta J. R. Scheifler descreve como “fenômeno Qumran”: “uma prodigiosa e alarmante fecundidade literária, sobretudo entre os especialistas; e um inusitado interesse entre o grande público, às vezes com certos ressaibos de esnobismo e não sem uma dose de insegurança e inquietação entre os fiéis”.7 Com efeito, apenas nos primeiros quinze anos após a descoberta dos manuscritos vieram a público “mais de três mil títulos, entre obras e artigos, além de uma revista científica consagrada exclusivamente ao tema”, acrescenta o estudioso jesuíta. O “fenômeno Qumran” também não tardou a transbordar dos círculos científicos para as revistas de generalidades. Ao longo desses quase sessenta anos desde a descoberta dos manuscritos, a imprensa dedicou ao tema rios de tinta e toneladas de papel, e ele ocupa hoje considerável espaço nas páginas web da internet. Qual a causa mais profunda desse “inusitado interesse”? Fidelidade das versões bíblicas Antes de Gutenberg imprimir, em 1455, sua “bíblia de 42 linhas”, cada exemplar das Sagradas Escrituras era uma transcrição singular feita por amanuenses. Ora, uma vez que não se conservam os originais dos livros vetero e neotestamentários, qual o grau de confiabilidade dessas inumeráveis “cópias de cópias” realizadas ao longo de dezenove ou mais séculos por escrivães de índoles e raças variadas? Até a descoberta do Mar Morto, os mais antigos manuscritos com a Bíblia completa eram o Codex Vaticanus (séc. IV), o Sinaiticus (séc. IV) e o Ale- Pnina Shor: “Quando os manuscritos foram encontrados, verificou-se que a exatidão das traduções é realmente de admirar — e isso é emocionante”. xandrinus (séc. V), todos eles provenientes da Septuaginta. Os primeiros textos massoréticos — escritos em hebreu e incluindo apenas os livros aceitos pela religião judaica — eram mais recentes: tanto o Codex Leningradensis como o Aleppo estão datados no século XI. Conservavam-se também fragmentos de textos anteriores, sendo, o mais antigo deles, um raro papiro do século segundo antes de Cristo, trazendo apenas o decálogo e um trecho do Deuteronômio. Ora, em 1947, surgiu inesperadamente nas onze grutas do Qumran um grande número de textos bíblicos copiados entre o século II a.C. e o século I da Era Cristã que podiam reforçar a autenticidade das versões da Sagrada Escritura hoje utilizadas pela Igreja, ou apontar-lhes as deficiências. Ademais, a maior parte dos livros do Antigo Testamento havia sido copiada em hebreu ou aramaico, o que permitia confrontá-los com o texto grego da Septuaginta. Foram essas as razões que tornaram a publicação dos documentos do Mar Morto tão esperada. Hoje em dia, tendo vindo a lume o último volume da coleção com os manuscritos,8 qualquer pessoa com conhecimento de hebraico, aramai- 20 Flashes de Fátima · Setembro 2010 co e grego pode conferir as diferentes versões, e verificar que, ao longo dos séculos, as traduções mantiveram uma impressionante fidelidade. Por isso a Dra. Shor comenta que, através dos manuscritos do Mar Morto, pôde-se constatar como as traduções gregas e latinas da Sagrada Escritura conservaram-se fiéis aos originais hebraicos. “Quando os manuscritos foram encontrados, verificou-se que a exatidão das traduções é realmente de admirar — e isso é emocionante”.9 Ao contrário, portanto, do que alguns previam, os manuscritos de Qumran vieram mostrar que são perfeitamente confiáveis os textos das Sagradas Escrituras conservados pela Igreja Católica e propostos aos fiéis durante quase vinte séculos. E desmontaram certas hipóteses imaginativas sobre a origem do Novo Testamento surgidas cem anos atrás. Hipóteses imaginativas sobre os quatro Evangelhos Com efeito, certos exegetas do início do século XX quiseram ver nos livros do Novo Testamento obras tardias, distantes da realidade que narram, influenciadas pela mitologia e filosofia grega. Ora, tal hipótese choca-se agora com a evidência fornecida pelos manuscritos do Mar Morto. Muitas das expressões e estilos supostamente helênicos das redações neotestamentárias coincidem com expressões e estilos encontrados em tais manuscritos, os mais recentes dos quais, como vimos, remontam ao ano 68 d.C. Demonstra-se, assim, terem sido eles de uso corrente na sociedade judaica da época de Jesus e, a fortiori, estarem os autores do Novo Testamento acostumados a pensar e a falar em hebraico ou aramaico, e não em grego. Mesmo não tendo sido provado haver entre os documentos de Filho do Altíssimo” (Lc 1, 32). Uma geração anterior de exegetas tentava procurar a origem desses termos no paganismo helênico. Ora, elas são encontradas num texto aramaico de Qumran, no qual se lê claramente: “Será denominado filho de Deus, e o chamarão filho do Altíssimo” (4Q246). Parece, portanto, que tais conceitos se desenvolveram em círculos judaicos, o que constitui mais um prova do enraizamento hebraico, e não helênico, do Novo Testamento.13 Mais impressionante ainda foi a descoberta relacionada com a resposta dada por Nosso Senhor aos discípulos de São João Batista, que lhe foram perguntar: “Sois vós aquele que deve vir, ou devemos esperar por outro?” (Mt 11, 3; Lc 7, 20). Jesus lhes respondeu: “Ide e contai a João o que ouvistes e o que vistes: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, o Evangelho é anunciado aos pobres...” (Mt 11, 4-5; Lc 7, 21-22). Estas palavras de Nosso Senhor aludem claramente a Isaías (35, 5-6 e 61, 1). Porém, neste livro profético não se fala em ressurreição dos mortos. Ora, o fragmento 4Q521 de Qumran, referindo-se ao Messias, afirma: “Pois Ele curará os criticamente feridos, Ele ressuscitará os mortos, Ele trará boas novas aos pobres”.14 Conforme comenta John J. Collins, a impressionante semelhança entre esse fragmento e as citadas passagens dos Evangelhos de São Mateus e São Lucas permitem chegar à conclusão de que Jesus “proclama o reino de Deus, e por Seu ministério de cura e exorcismo, prova que está presente; e alega ser ungido e, pois, qualificado para proclamar a boa nova. [Esse fragmento] apoia de modo significativo a tradicional concepção de que Jesus via a Si mesmo como o Messias de Israel”.15 No total, foram identificados mais de 500 paralelos entre a linguagem de Qumram e a do Novo Testamento, muitos dos quais sem precedentes no Antigo Testamento.16 A imaginativa hipótese a propósito da origem helênica dos escritos neotestamentários fica, assim, definitivamente descartada. Desmentido cabal a hipóteses sensacionalistas e extravagantes No entanto, a origem comum judaica das literaturas qumrânica e Gustavo Kralj Qumran fragmentos de escritos neotestamentários,10 “vários textos-chaves contêm informações, ideias ou linguagem muito similares aos encontrados em certas passagens dos Evangelhos”,11 como ainda nas Epístolas e nos Atos, embora não tenham sido redigidos por cristãos ou para cristãos. Por isso a Dra. Shor diz que, nesses manuscritos, “podem-se ver as origens do cristianismo, junto com textos bíblicos e outros textos judaicos. Constata-se assim a origem comum das duas religiões”.12 Mesmo no terceiro bloco de manuscritos — o qual, como vimos, contém textos doutrinários e disciplinares dos essênios — encontramos alguns elementos de grande interesse para a exegese neotestamentária. Nesses documentos inéditos pululam numerosas palavras, frases e descrições de fatos que reportam surpreendentemente a palavras, frases e fatos dos Evangelhos e de algumas epístolas de São Paulo: os “pobres de espírito”, a “justificação pela Fé”, luta entre os “filhos da luz” e os “filhos das trevas”. Merecem destaque duas expressões usadas por São Lucas: “será chamado Filho de Deus” (Lc 1, 35) e “chamar-se-á Os manuscritos de Qumran vieram mostrar a confiabilidade dos textos bíblicos propostos pela Igreja Católica durante quase vinte séculos Páginas do “Codex Sinaiticus” - Freer & Sackler Gallery, Smithsonian Institution, Washington; Evangelhos bizantinos, séc. X Smithsonian Institution, Washington; Bíblia de Gutenberg - Coleção privada, Nova York Setembro 2010 · Flashes de Fátima 21 Gustavo Kralj Embora haja muitas similitudes entre a linguagem do Novo Testamento e a dos documentos essênios, há também diferenças doutrinárias irreconciliáveis À esquerda, “São Lucas Evangelista” Basílica de São Marcos, Veneza; à direita, fragmento 11Q14, pertencente ao Livro da Guerra (entre 20 e 50 d.C.) eotestamentária, bem como as sin milaridades apontadas acima, conduziram a pôr novamente em dúvida a autenticidade das narrativas evangélicas, analisando-as agora sob outro prisma. Pretendia-se provar que o Cristianismo nascente não trazia nenhuma novidade; nada mais era que um prolongamento da comunidade de Qumran, um mero plágio dela. “Via-se, no agrupamento essênio, um predecessor da comunidade cristã, e até mesmo sua origem. Pensava-se, notadamente, ter-se encontrado no Mestre de Justiça um precursor de Jesus: tinha-se por certo que a seita teria visto nele o Messias, atribuía-se-lhe uma morte violenta, supondo-se até mesmo que ele teria sido crucificado, e falava-se de fé na sua ressurreição e no seu retorno”.17 Dupont-Sommer chegou a tirar a conclusão de que as semelhanças entre a Religião Cristã e a seita essênia “constituem um conjunto quase alucinante”, acrescentando: “Em todas as partes nas quais os paralelos nos obrigam ou convidam a pensar em um plágio, o plágio foi feito pelo cristianismo”.18 Alguns galoparam em suas hipóteses, ganhando muita atenção na mídia. Um jornalista americano, E. Wilson, opinou que o mosteiro de Qumran “é talvez, mais do que Belém ou Nazaré, o berço do cristianismo”.19 E no jornal russo Konsomolskaia Pravda, edição de 9/1/1958 lê-se que os Manuscritos do Mar Morto “demonstraram peremptoriamente o caráter mítico de Moisés e de Jesus”.20 John Allegro, Barbara Thiering e Edmond Székely tornaram-se nomes populares na literatura sensacionalista por suas hipóteses extravagantes, todas pretendendo apoiar-se nos manuscritos do Mar Morto para reduzir o cristianismo a uma seita pagã ou gnóstica, negar a existência histórica de Nosso Senhor ou a atribuir-Lhe uma vida excêntrica.21 Ora, após a catalogação final dos pergaminhos e o atual estágio de conhecimento do seu conteúdo, já não há mais lugar para teses esdrúxulas e fantasiosas. A tal propósito, Vanderkam e Flint são taxativos: “Devemos deixar claro que as teorias ou aproximações descritas [até aqui] não são apoiadas pelos especialistas dos pergaminhos do Mar Morto”.22 22 Flashes de Fátima · Setembro 2010 Diferenças em pontos essenciais Refutando as hipóteses anteriores, todas elas baseadas nas semelhanças entre textos essênios e textos cristãos, os manuscritos de Qumran demonstram que há diferenças irreconciliáveis em pontos fundamentais. Um dos temas nos quais o choque é maior entre as concepções cristãs e as de Qumran é o da Lei de Moisés. Na comunidade do Mar Morto, a justificação pela Lei tem um caráter intenso e a realização da perfeição por meio da Lei era ali interpretada de um modo mais estrito do que entre os próprios fariseus. Em Qumran, “a Lei é propriamente o messias, a salvação”.23 Por causa disso, conforme Scheifler, mesmo sem atribuir a Nosso Senhor uma atitude polêmica relativamente àquela comunidade, parece haver uma alusão a Qumran na resposta aos fariseus que lhe interrogavam sobre a cura no sábado: “Há alguém entre vós que, tendo uma única ovelha e se esta cair num poço no dia de sábado, não a irá procurar e retirar?” (Mt 12, 10-13). “As palavras de Cristo parecem supor uma prática admitida ou de sentido comum. Porém, a seita de Qumran, mais estreita na casuística sabática que os próprios fariseus, a proibia expressamente”.24 O ponto mais difícil de harmonizar entre o cristianismo e a doutrina de Qumran é o do amor ao inimigo. Terão sido uma referência direta a eles as palavras de Nosso Senhor: “Tendes ouvido que se diz: amarás a teu próximo e odiarás a teu inimigo, mas eu vos digo...” (Mt 5, 43s)? Um bom número de especialistas responde afirmativamente.25 Do mesmo modo, a extensão dada por Jesus ao mandamento do amor ao próximo é alheia ao pensamento da comunidade de Qumran. Esta se aferrava a um exclusivismo separatista e orgulhoso, considerando digno de amor só seu selecionado grupo, excluindo de modo absoluto os pagãos e grande parte de Israel. Mais que para os fariseus, as três parábolas 1 2 3 4 5 6 7 KRALJ, Gustavo Adolfo. Palavras que mudaram o mundo. Entrevista exclusiva com a Dra. Pnina Shor. In: Arautos do Evangelho. São Paulo, set. 2009, n.93, p.49. VANDERKAM, James; FLINT, Peter. The Meaning of the Dead Sea Scrolls. London-New York: T&T Clark International, 2002, p.239-252. SIEVERS, Joseph. Judaísmo y Cristianismo del siglo I a través de los Rollos del Mar Muerto. Texto de conferência disponível em www. sion.org.ar. da misericórdia (Lc 3, 3-32) e o “eu também não te condeno”, dirigido à adúltera, devem ter repercutido como algo insuportável em Qumran.26 A arqueologia confirma o acerto da Igreja Por causa da demora na publicação dos manuscritos do Mar Morto, já referida mais atrás, levantou-se em certo momento a suspeita de que a Santa Sé estivesse pondo obstáculos a isto, por receio da verdade histórica. Num dos episódios mais rocambolescos, M. Baigent e R. Leigh aproveitaram o clima criado para lançar um livro com o chamejante título de O embuste dos rolos do Mar Morto: Porque uma dúzia de estudiosos religiosos conspiraram para suprimir o conteúdo revolucionário dos rolos do Mar Morto.27 8 9 A coleção de 40 volumes, intitulada Discoveries in the Judaean Desert (Oxford University, www.oup. co.uk), vinha sendo publicada ao longo dos anos. O v.39, editado em 2002, traz uma introdução e notas à coleção completa. O último livro veio a lume em 2009. KRALJ, op. cit., p.50. 10 JOSEPHUS, Flavius. Jewish Antiquities. London: Wordsworth, 2006, p.549; JOSEPHUS, Flavius. The Jewish War. London: Penguin Books, 1981, p.133-137. KRALJ, op. cit., p.49. JEREMIAS, Joachim. Estudos no Novo Testamento. Santo André: Academia Cristã, 2006, p.409. SCHEIFLER, J.R. Así nacieron los Evangelios. Bilbao: Mensajero, 1967, p.231. 11 Também não foi provado que não os há (VANDERKAM; Flint, op. cit., p.311-320). Deixamos propositalmente de lado o cuidadoso estudo feito pelo papirólogo jesuíta espanhol José O’Callaghan Martínez sobre o fragmento 7Q5, uma vez que, pelo material disponível até o momento, não é possível concluir contra ou a favor de suas hipóteses (Idem, p.320). Vanderkam; Flint, op. cit., p.330. 12 KRALJ, op. cit., p.49. 13 Vanderkam; Flint, op. cit., p.334-336; SIEVERS, op. cit., p.6. 14 Idem, p.332-334; Idem, p.7. Segundo os dois autores, a equipe de especialistas a cargo da publicação estava sob o controle do Vaticano, o qual temia ver o Cristianismo minado pelas revelações contidas nos referidos manuscritos. O livro se tornou um best-seller. Quem o comprou caiu num verdadeiro embuste, pois, como comentam Vanderkam e Flint, “agora que os textos estão à disposição em forma de fotografia, transcrições e traduções, perguntamo-nos o que pode ter levado alguém a pensar que eles causariam dano ao Cristianismo ou que o Vaticano teria interesse — e mesmo o poder — de eliminá-los”.28 Ao contrário de autores como esses, os estudiosos cristãos veem nos manuscritos do Mar Morto uma inesgotável fonte de dados exegéticos, um inestimável instrumento para seu trabalho. 15 COLLINS, John J., apud Vanderkam; Flint, op. cit., p.334. 16 Scheifler, op. cit., p.251. 17 JEREMIAS, op. cit., p.417. 18 DUPONT-SOMMER, André, apud SCHEIFLER, op. cit., p.235. 19 E. WILSON, apud Scheifler, op. cit., p.235. 20 Jornal Konsomolskaia Pravda, apud JEREMIAS, op. cit., p.417. 21 Vanderkam; Flint, op. cit., p.321-330. 22 idem, p.330. 23 Scheifler, op. cit., p.257. 24 Idem, p.259. 25 Idem, p.262. 26 Idem, p.265. 27 BAIGENT, Michael; LEIGH, Richard. Dead Sea Scrolls Deception. New York: Touchstone Book, 1991. 28 VANDERKAM; FLINT, op. cit., p.394. Setembro 2010 · Flashes de Fátima 23 Portugal – Participantes do Apostolado do Oratório reuniram-se em Póvoa do Varzim para uma tarde de formação (esquerda). Em meados de Agosto, as freguesias de Santa Marinha do Zêzere (direita) e São Tomé de Covelas, à beira Douro, acolheram novos Oratórios do Imaculado Coração de Maria. Estados Unidos – Paróquias de Waltham (MA) e Rahway (NJ) receberam com entusiasmo a Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima. Cingapura – Arautos levaram a Imagem Peregrina a diversos lares, promovendo a devoção mariana e a recitação do Rosário em família. Equador – Arautos visitaram, em Quito, o Instituto Especial Mariana de Jesus, para crianças com deficiência visual ou auditiva. A maternal presença da imagem de Maria foi de grande consolo para aqueles pequenos. 24 Flashes de Fátima · Setembro 2010 Dom Francesco Coccopalmerio visita igrejas dos Arautos 1 2 3 O s Arautos do Evangelho tiveram a inesperada alegria de receber a visita de Dom Francesco Coccopalmerio, Presidente do Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, acompanhado do Subsecretário do mesmo dicastério, Mons. José Aparecido Gonçalves de Almeida. Indo ao Brasil por ocasião do 4º Colóquio Latino Americano de Direito Canônico, quis Dom Coccopalmerio conhecer pessoalmente e celebrar a Eucaristia no Seminário da Associação (fotos 1 e 2) e na Casa Generalícia da Sociedade Regina Virginum (fotos 3 e 4). Nas suas homilias, o Prelado estimulou os arautos ali presentes a anunciarem ao mundo o “tesouro” do Evangelho e pediu orações pelo importante labor realizado pelo seu dicastério. 4 Mons. José Aparecido, Dom Coccopalmerio e Pe. Alex Brito, EP Joinville, Brasil – Arautos solenizaram com cantos e instrumentos musicais a homenagem prestada a Dom Irineu Roque Scherer pela Câmara de Vereadores, estando presentes diversas autoridades e movimentos católicos. Por sua atuação marcante junto à população, foi-lhe concedido o título de Cidadão Honorário de Joinville. Setembro 2010 · Flashes de Fátima 25 Em Aguascalientes, Ano Sacerdotal – A Imagem Peregrina foi conduzida pelo clero em procissão até a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, onde foi comemorado o encerramento do Ano Sacerdotal. Consagração – Dom José Maria de la Torre Martín consagrou a diocese ao Imaculado Coração de Maria em solene ato na catedral. E ntre os dias 8 e 13 de junho, missionários arautos realizaram uma peregrinação com a imagem de Nossa Senhora de Fátima na cidade de Aguascalientes, no estado mexicano do mesmo nome. A imagem foi recebida na catedral pelo Bispo, Dom José Maria de la Torre Martín, que, após a solene coroação da imagem, consagrou o clero e a diocese ao Imaculado Coração de Maria. Paróquias, colégios, casas religiosas, residências, um hospital e um asilo foram visitados por Nossa Senhora. Na Paróquia de San José de los Pocitos, os fiéis receberam a visita da Imagem Peregrina com muito fervor, permanecendo a igreja repleta até o término da visita na- Entrevistas – A peregrinação foi anunciada na rádiocabo Mexicana (foto acima) e na Rádio Grupo, bem como no programa televisivo “Mi Ciudad”. 26 Flashes de Fátima · Setembro 2010 quele povoado. Houve procissão, catequese, recitação do Rosário e, no final, o pároco celebrou a Santa Missa. Um dos dias, missionários arautos conduziram a imagem à cidade de Calvillo, que recebeu a ilustre visitante com uma procissão até a Paróquia do Senõr del Salitre. Houve Missa, catequese sobre a mensagem de Fátima e entrega de Oratórios do Imaculado Coração de Maria. No último dia, em Aguascalientes, a Imagem Peregrina foi recebida no Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe, onde milhares de fiéis veneraram a Virgem de Fátima, formando extensas filas. “Nunca vi tanta gente”, disse um empregado que trabalha há 20 anos no santuário. Oratórios – Foram implantados onze oratórios em Calvillo e nove no povoado de Ojocaliente. Agora já somam 31 na cidade. ardorosos devotos de Maria Colégios – Diretores, professores e alunos de vários colégios tiveram momentos de oração diante da Imagem Peregrina. Entre os colégios visitados, estão o dos Irmãos Maristas (esquerda) e o Colégio Esperança (direita). Paróquias e igrejas – Piedade e fervor marcaram as visitas da Imagem Peregrina às paróquias de Aguascalientes e Calvillo, acompanhada em várias ocasiões pelos Cavaleiros de Colombo (à esquerda, no Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe; no centro, na catedral; e à direita, na Paróquia das Três Ave Marias). Doentes – A imagem visitou os enfermos do Hospital Miguel Hidalgo e depois foi venerada pelo diretor, médicos e funcionários. Idosos – Em Calvillo, os idosos do Asilo de Anciãos São José tiveram oportunidade de rezar diante da imagem da Virgem de Fátima. Setembro 2010 · Flashes de Fátima 27 São Roberto Belarmino, SJ Um jesuíta vestido de púrpura Sua viva fé e profunda sabedoria foram de incalculável valor para a Igreja. Se considerável parte da Áustria e da Alemanha ainda hoje permanece católica, deve-se, em boa medida, ao apostolado deste filho de Santo Inácio. Irmã Clara Isabel Morazzani Arráiz, EP A pesar de haver ele disposto no testamento que seus funerais fossem sóbrios, como correspondia a um membro da Companhia de Jesus, quis o Papa Gregório XV dar grande solenidade às exéquias daquele Cardeal que tanto bem fizera à Igreja de Cristo Revestido da púrpura recebida havia 22 anos, o corpo de Sua Eminência foi velado na igreja da Casa Professa dos Jesuítas, onde o povo se aglomerara para lhe prestar a última homenagem. Tornou-se necessário recorrer a uma guarda a fim de evitar a indiscreta devoção dos presentes. Todo o Sacro Colégio participou dos ofícios, e o registro do Consistório lavrou ata da sua morte nos seguintes termos: “Esta manhã, 17 de setembro de 1621, à hora duodécima, o Reverendíssimo Senhor Belarmino, Cardeal Presbítero, de Montepulciano, passou desta região de morte para a morada dos vivos. Era um homem notabilíssimo, teólogo eminente, intrépido defensor da Fé Católica, martelo dos hereges, tão piedoso, prudente e humilde, como caridoso para com os pobres. O Sacro Colégio e toda a Corte Romana sentiram e choraram vivamente a morte de tão grande homem”.1 Palavras breves e significativas, carregadas do sabor da época, bem sintetizam elas o sentir do povo romano em relação a esse Cardeal de quem afirmavam, ao vê-lo passar: “Ecco il santo! — Eis o santo!”. Precoce no estudo e na pregação Roberto Francesco Romolo Belarmino nasceu em Montepulciano, na Toscana, em 4 de outubro de 1542. O pai, Vincenzo Belarmino, de nobreza empobrecida, ocupara durante muitos anos o cargo de governador da cidade. A mãe, Cinzia Cervini, era irmã do futuro Papa Marcelo II que governou a Igreja durante apenas 22 dias, em abril de 1555. Desde cedo se aplicou aos estudos, aprendendo com facilidade tudo a que se dedicava, inclusive a música. Mas encantava-lhe também visitar o Santíssimo Sacramento, e, 28 Flashes de Fátima · Setembro 2010 apesar da pouca idade, observava os jejuns do Advento e da Quaresma. Encontro com a vocação religiosa Aos catorze anos ingressou ele no colégio da Companhia de Jesus, onde começou a despontar sua vocação de grande pregador e polemista. Um pequeno episódio da época ilustra esse pendor. Espalharam pela cidade boatos caluniosos, sobre a qualidade do ensino ministrado nesse colégio, que deixaram Roberto indignado. Para acabar com eles de vez, tomou alguns dos seus companheiros e desafiou para um debate público os melhores alunos das outras instituições de ensino. No dia combinado, coube-lhe fazer o discurso de abertura, na sala do município, onde se deu o evento. A vitória dos estudantes jesuítas foi estrondosa! Com a palavra fácil, raciocínio metódico e lógico, e, sobretudo, piedade sincera, o jovem santo passou a ser convidado para pregar em retiros e outros eventos. O sucesso batia-lhe às portas. Sendo, ademais, sobrinho de um Papa, embora de Gustavo Kralj reinado efêmero, cresciam no pai as esperanças de vê-lo levantar o nome da família, quiçá como destacado membro da corte pontifícia... Porém, Roberto media bem os perigos da dourada ascensão que se apresentava diante dele: “Estando durante muito tempo pensando na dignidade a que podia aspirar, me veio de modo insistente a brevidade das coisas temporais. Impressionado com estes sentimentos, cheguei a conceber um horror desta vida e determinei buscar uma ordem religiosa na qual não houvesse perigo de tais dignidades”.2 Tomou, então, a resolução de fazer-se jesuíta. A fecunda atuação de São Roberto Belarmino na Cidade Eterna tornou inevitável sua nomeação como Cardeal Primeiros anos na Companhia de Jesus Vencidas as resistências paternas e após um ano de prova na própria cidade natal, foi transferido para Roma, onde fez os votos de devoção na Companhia e começou a estudar filosofia no Colégio Romano. Apesar de ter compleição débil e enfermiça, sua inteligência era agudíssima. Possuía, ademais, uma memória tão privilegiada que lhe bastava uma simples leitura para reter o conteúdo de um livro. Assim, marcantes foram os êxitos acadêmicos. Na defesa de sua tese de filosofia, salientou-se pela segurança e clareza de raciocínio com que expôs a matéria e respondeu às objeções propostas. Isso lhe valeu o cargo de professor de Humanidades no Colégio de Florença, apesar de seus 21 anos. Além das aulas, recebeu também a incumbência de pregar aos domingos e dias santos diante de prelados e eclesiásticos, bem como do escol intelectual da cidade. Os categorizados ouvintes admiravam-se, mais do que por sua eloquência, por vê-lo praticar de forma coerente aquilo mesmo que lhes pregava nos sermões. “São Roberto Belarmino” Igreja de Santo Inácio de Loyola, Roma Doze meses depois, o jovem Roberto foi enviado como professor de retórica a Mondovi, onde permaneceu durante três anos. Ao ouvir ali uma das suas pregações, o Padre Provincial o encaminhou a Pádua, para os estudos de Teologia, a fim de receber as ordens maiores. Em vista dos rápidos progressos que lá fizera, São Francisco de Borja, então Superior Geral, determinou sua ida para Lovaina, onde se precisava de homens de talento para defender o “Depósito da Fé”, fortemente questionado na época pelos intelectuais luteranos. Exímio pregador, embora ainda sem estola Localizada a menos de vinte quilômetros de Bruxelas — próxima, portanto, de vários Estados que aderiram às teses de Lutero —, era a Universidade de Lovaina um baluarte da verdadeira doutrina. A ela chegou Roberto para permanecer dois anos, os quais se transformaram em sete, segundo a previsão que ele mesmo fizera. Pequeno de estatura, o jovem jesuíta era um gigante no púlpito. Aos domingos, pregava em latim na igreja do ateneu, repleta de um público habituado a escutar com espírito crítico os mais doutos pregadores. Preciosos foram os frutos desses sermões: católicos hesitantes eram confirmados na Fé, numerosos jovens consagravam-se ao serviço de Deus, muitos protestantes se convertiam. Não faltavam entre eles os que, vindos da Holanda ou da Inglaterra para ouvi-lo e refutar-lhe os argumentos, retornavam arrependidos. Em Gante, a 25 de março de 1570, recebeu Roberto o presbiterato. O período mais fecundo de sua vida Renhidas polêmicas marcavam a época. Os problemas levantados pelos protestantes levaram o padre Belarmino a estudar o hebraico, a fim de adquirir uma segurança exegética ainda maior. Chegou a compor, para seu uso, uma gramática dessa língua, que acabou sendo também de grande ajuda para seus alunos. São Roberto estudou ainda, com afinco, os Padres da Igreja, os Doutores, Papas, Concílios e a História da Igreja. Aparelhou-se, assim, para uma forma de ensino sólida, orientada para um gênero de apologética na qual os erros eram sempre impugnados com respeito e prudência. Foi o período mais fecundo de sua vida. As principais universidades da Europa, inclusive a de Paris, disputavam-no como professor de Teologia. Até mesmo São Carlos Borromeu chegou a solicitá-lo para Milão. Contando apenas 30 anos de idade, arcava com imensas Setembro 2010 · Flashes de Fátima 29 j sul da Itália, conheceria São Bernardino Realino. Quando os dois jesuítas se encontraram, caíram de joelhos, um diante do outro, e se abraçaram. “Um grande santo nos deixou”5— disse São Bernardino quando partiu o superior. Ambos jesuítas, unidos desde aquele momento por uma amizade toda sobrenatural, veneravam-se mutuamente como santos. al Kr vo ta Algum tempo mais tarde, a Santa Obediência o fez retornar à Cidade Eterna. Gregório XIII fundara no Colégio Romano uma cátedra de apologética chamada Controvérsias, com o objetivo de ensinar a verdadeira doutrina contra os erros que pululavam nos centros universitários de então. São Roberto encarregou-se dela por doze anos, durante os quais refutou primorosamente as objeções dos protestantes. Seus ensinamentos durante esse longo período foram compilados, por ordem dos seus superiores, na monumental obra Controvérsias. Considerada a “Summa” de Belarmino, ela foi acolhida com grande entusiasmo e traduzida para quase todas as línguas europeias. São Francisco de Sales, o grande Bispo de Genebra, afirmou ter pregado por cinco anos contra os calvinistas em Chablais, usando apenas a Bíblia e as Controvérsias de Belarmino. Até mesmo os protestantes deram testemunho da eficácia e valor desta obra. Guiène reconheceu valer o santo jesuíta, por si só, por todos os doutores católicos. Bayle confessou não ter havido nenhum autor que tenha sustentado melhor a causa da Igreja. E ficou célebre a confidência do sucessor de Calvino, Théodore de Bèze, ao desabafar com seus amigos, batendo com a mão nas Controvérsias: “Eis o livro que nos deitou a perder”.3 Assim, a fé viva e a profunda sabedoria do santo, bem como seu método tomista de argumentar — começando sempre por expor com imparcialidade as razões e argumentos apresentados pela parte contrária us Controvérsias: a “Summa” de Belarmino: —, foram de incalculável valor para a defesa da Igreja. Se a maior parte da Áustria e quase um terço da Alemanha ainda hoje permanecem católicos, podemos afirmar dever-se, em boa medida, ao apostolado de São Roberto Belarmino. “‘Ó! Se soubésseis quantos filhos restituístes a Cristo!’, escrevia- G responsabilidades pastorais e acadêmicas, as quais desempenhava com virtude e talento. Isso levou os superiores a adiantarem sua profissão solene. São Luís Gonzaga, de quem o Cardeal Belarmino foi confessor, admirava-o como a um Anjo Mosaico da Igreja de Santo Inácio de Loyola, Roma -lhe o Duque Guilherme da Baviera, ao pedir-lhe licença de traduzir as ‘Controvérsias’”.4 Amizade e admiração entre santos Naquele período conturbado para a Igreja, muitos foram os jesuítas que praticaram a virtude em grau heroico, merecendo ser elevados à honra dos altares. Com alguns deles teve São Roberto um trato mais estreito. Sendo diretor espiritual do Colégio Romano, coube-lhe ser confessor de São Luís Gonzaga, que o admirava como a um Anjo. Aquele, por sua vez, dizia nunca haver tratado com alma tão pura e delicada quanto a deste jovem. Mais tarde, durante uma visita como provincial ao colégio de Lecce, no 30 Flashes de Fátima · Setembro 2010 Cardeal em nome da Santa Obediência A fecunda atuação de São Roberto Belarmino na Cidade Eterna não se circunscrevia ao Colégio Romano, do qual passaria, em 1592, a ser Reitor. Entre outros encargos, foi ele teólogo do Papa Clemente VIII, consultor do Santo Ofício e teólogo da Penitenciária Apostólica. Fez também parte da comissão encarregada de preparar a edição clementina da Vulgata, versão oficial da Bíblia para o rito latino até 1979, quando foi substituída pela Neovulgata. Sua nomeação como Cardeal era inevitável. Ele, porém, recusava-se a aceitar o cargo, alegando incompatibilidade com seus votos. Mas o Papa Clemente VIII o obrigou a aceitar em nome da Santa Obediência, afirmando: “Nós o elegemos porque não há na Igreja de Deus outro que lhe equipare em ciência e sabedoria”.6 Com o mesmo espírito religioso, desinteresse e abnegação que o caracterizaram até aquele momento, dedicou-se aos trabalhos, muitas vezes espinhosos, exigidos aos prelados romanos. Mas em 1602, Clemente VIII o liberou da pesada carga nomeando-o Arcebispo de Cápua, conferindo-lhe ele mesmo a ordenação episcopal. À frente da Arquidiocese de Cápua Gozando já em vida de fama de santidade, o Cardeal Belarmino foi recebido na catedral com grande pompa e enorme concurso de fiéis, que tocavam nele medalhas e terços. alguém mais apto, rezando com insistência: “Do Papado, livrai-me, Senhor!”.7 Eleito Paulo V, este o trouxe para junto de si, fazendo-o deixar definitivamente a Arquidiocese de Cápua. Ainda dezesseis anos passaria em Roma, desempenhando os mais altos cargos a serviço da Santa Sé e intervindo nos assuntos mais importantes, para cuja resolução exercia o seu parecer uma influência decisiva. fugira de honras e dignidades, tornava-se assim o único jesuíta inscrito na lista dos santos como Cardeal e como Bispo. 1 MENDES, SJ, João Rodrigues. O Santo Cardial Roberto Belarmino. Porto: Apostolado de Imprensa, 1930, p.66-67. 2 IPARRAGUIRRE, SJ, Ignacio. San Roberto Belarmino. In: ECHEVERRÍA, Lamberto de; LLORCA, Bernardino; BETES, José L. R. (Org.). Año Cristiano. Madrid: BAC, 2005, v.IX, p.479. 3 MENDES, SJ, op. cit., p.23. 4 VASCONCELLOS, Roberto de. Biografia de São Roberto Belarmino. In: SÃO ROBERTO BELLARMINO. Elevação da mente a Deus pelos degraus das coisas criadas. São Paulo: Paulinas, 1955, p.12. 5 ECHANIZ, SJ, Ignacio. Paixão e Glória. História da Companhia de Jesus em corpo e alma. São Paulo: Loyola, 2006, t.II, p.23. 6 IPARRAGUIRRE, SJ, op. cit., p.481. 7 PEPE, Enrico. Martiri e santi del calendario romano. Roma: Città Nuova, 2006, p.546. Serenidade na vida e na morte Ao sentir se aproximar a morte, São Roberto pediu ao recém-eleito Papa Gregório XV dispensa de todos os seus cargos na Cúria e retirou-se para o Noviciado de Santo André, no Quirinal, a fim de “esperar o Senhor”, como costumava dizer. Ele chegou em 17 de setembro de 1621. Depois de curta enfermidade, tendo recebido a visita de muitas pessoas ilustres — incluindo o próprio Papa —, que lhe pediam um último conselho ou uma bênção, despediu-se desta terra com uma sereníssima morte. Pio XI o canonizou em 29 de junho de 1930, e o declarou Doutor da Igreja no ano seguinte. Aquele que, durante a vida, com tanto empenho Gustavo Kralj Seu governo começou por uma reforma geral do clero. Entrevistou-se em particular com cada um dos presbíteros, usando de bondade e firmeza evangélica para com os transviados. Manifestava-se disposto a perdoar os mais graves pecados aos arrependidos, mas mantinha uma inflexibilidade completa para com os recalcitrantes: aut vitam aut habitum — ou mudança de vida ou de hábito. Na catedral, deu nova vida ao coro, participando ele próprio da recitação do Ofício. Dedicou-se com frequência à pregação, como era seu costume, usando deste meio para converter as almas. Visitou também todo o território da arquidiocese, estimulando a piedade dos fiéis e ajudando a reerguer os conventos decadentes. Mas, como bom filho de Santo Inácio, dava particular importância à formação: ele próprio ensinava o Catecismo nas paróquias e na catedral, aos domingos. No meio de todas essas ocupações, sua vida espiritual era uma obra-prima de serenidade. Conseguia organizar seu tempo de modo a encontrar momentos para pensar, meditar, rezar, estudar, escrever, sem descuidar as obrigações para com seu rebanho. Pelo contrário, era do recolhimento e da oração que hauria as forças para a ação pastoral. Que linda ilustração da tese de D. Chautard: o apostolado é o transbordamento da vida interior! Eleição do novo Papa À morte de Clemente VIII, o Cardeal Belarmino regressou a Roma para participar de um Conclave, pela primeira vez. O papa eleito foi Leão XI, falecido menos de um mês depois. No segundo Conclave, São Roberto chegou a ter um bom número de votos. Mas, assim como recusara as honras de Cardeal, revela em sua Autobiografia haver pedido a Deus, naqueles dias, que fosse escolhido Ao sentir aproximar-se a morte, o Cardeal Belarmino pediu dispensa de todos os cargos na Cúria e retirou-se para o Noviciado dos Jesuítas, a fim de “esperar o Senhor” Altar com os restos mortais de São Roberto na Igreja de Santo Inácio, Roma Setembro 2010 · Flashes de Fátima 31 Prefácio para a tese doutoral de Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP Os homens de fé mudam os rumos da História Cada carisma é um novo luzeiro no grandioso firmamento da Santa Madre Igreja, e adquire todo o seu esplendor quando mostrado numa realidade eclesial verdadeira, viva, fortemente ancorada em uma espiritualidade autêntica. Cardeal Franc Rodé, CM Prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica A o pensar em um prefácio para a presente obra, não me vêm à mente, em primeiro lugar, considerações de índole acadêmica, em consonância com a natureza da dissertação doutoral que encerra — A gênese e o desenvolvimento do movimento dos Arautos do Evangelho e seu reconhecimento canônico —, mas antes o desejo de compartilhar com o leitor uma série de reflexões que a evocação do autor, Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP, e do movimento por ele fundado me trazem ao espírito, fruto da estima que a convivência com essa realidade eclesial fez aflorar em mim. Soluções imprevistas para problemas aparentemente insolúveis O Divino Espírito Santo, desde o santo escândalo da ebriedade de Pentecostes, não tem deixado de sur- preender o mundo e a Igreja, em todos os séculos da existência dela até o presente. A problemas aparentemente insolúveis, tem sempre dado soluções imprevistas, que com f requência não são entendidas por muitos. Não é nenhum segredo que vivemos em um mundo secularizado e afastado de Deus. A própria Igreja — Esposa Mística de Cristo, “gloriosa, sem mácula, sem ruga ou coisa semelhante, mas santa e imaculada” (Ef 5, 27) —, em seu elemento humano, encontra-se também sob a deletéria influência do secularismo, como tantas vezes advertiu o Santo Padre Bento XVI. Basta-nos mencionar a preocupante falta de vocações, tanto nos institutos de vida consagrada como no clero diocesano, que afeta, sobretudo, a nossa velha Europa, em claro contraste com séculos e séculos de fecunda e gloriosa tradição evangelizadora. Sem dúvida, os sinais de esperança no panorama hodierno podem 32 Flashes de Fátima · Setembro 2010 ser procurados em muitos níveis. Faz falta, entretanto, um discernimento equilibrado para perceber os “sinais dos tempos”, a fim de reconhecer, como os Santos Magos, em meio a um universo de estrelas, algumas capazes de nos guiar de lugares distantes até o Divino Redentor. Pois bem, posso dizer que, no meio da noite, vi uma entre elas. Sobre seu fulgor e seu percurso desejo transmitir de modo breve, ao estimado leitor, algumas impressões que me calaram no espírito. Significativa harmonização entre vida contemplativa e vida ativa Trata-se de uma estrela com uma trajetória precisa. Os Arautos do Evangelho começaram como um movimento laical — característica predominante que se mantém até o presente —, que adotou a espiritualidade de São Luís Maria Grignion de Montfort como ponto de partida da primeira experiência de vida comunitária e Gustavo Kralj Jesus Hóstia, durante horas marco inicial da institucionalie horas, reza-se em conjunto zação da obra. Para viver mais ou individualmente, lê-se, esintensamente a consagração tuda-se, trabalha-se, ou simensinada pelo grande santo plesmente deixa-se banhar mariano, os primeiros mempelo “Sol que nasce do alto”, bros se dispuseram a viver em na oração de quietude. É hacomunidade. A partir do mobitual para esses jovens covimento laical, surgiram posmungar duas vezes ao dia na teriormente um ramo sacerSanta Missa. dotal (a Sociedade Clerical de Por outro lado, numa époVida Apostólica Virgo Flos ca em que se proclama o diCarmeli) e um ramo feminireito a uma mal-entendida lino de consagradas (a Sociedaberdade sem limites, a nota de de Vida Apostólica Regina mariana que distingue esses Virginum). jovens está profundamente Os objetivos ao longo desmarcada pela espiritualidade te caminho estão muito clade São Luís Maria Grignion ros. Por exemplo, no tocante de Montfort, como mencioao essencial capítulo da fornado antes, segundo a qual mação, pude observar, nas dise consagram como escravos versas ocasiões em que convide amor a Nosso Senhor Jevi com eles, uma equilibrada O Cardeal Franc Rodé, CM, preside a Eucaristia sus Cristo pelas mãos de Madisciplina interna: firme e ao na igreja do Seminário dos Arautos do Evangelho ria; daí a corrente que levam mesmo tempo delicada; lógica em Caieiras-SP em torno da cintura. O santo e flexível. No meio de uma viRosário, pendente do lado direito, da comunitária de oração, multiplicaexpressa a necessidade da oração. ram suas atividades evangelizadoras e Do mesmo modo, a obediência à Sajá atuam em mais de 70 países nos cingrada Hierarquia, praticada com reco continentes. E não poupam esforlação a todos os níveis, em particuços para pôr a serviço da nova evanlar ao dos Bispos, é a melhor prova gelização inclusive as mais modernas do amor que devotam à Igreja e ao tecnologias: desde a internet até a diSanto Padre. vulgação em grande escala da boa imprensa; desde a produção de prograTransformar a vida mas de televisão até visitas a famílias; quotidiana numa liturgia desde Missões Marianas organizadas de louvores ao Altíssimo até o apoio telefônico sistemático aos colaboradores. Significativa harmoniO fulgor dessa estrela é sem dúvização entre a vida contemplativa e a da atraente; é difícil não se deixar cavida ativa, própria do dom de Sabedotivar por semelhante caleidoscópio de ria, que é um dos traços característimatizes de cores e intensidades, por cos do carisma da instituição. mais que muitos de seus aspectos possam ser reconhecidos em outros asVida eucarística, devoção à No caso dos Arautos do Evange- tros já famosos. Na verdade, cada caSantíssima Virgem e veneração lho, distinguem-se três pilares funda- risma é um novo luzeiro no grandiopelo Pontífice Romano mentais nesta matéria: a vida eucarís- so firmamento da Santa Madre Igreja, Se uma estrela decidisse renunciar tica, a devoção à Santíssima Virgem e e adquire todo o seu esplendor quana seu brilho, que seria dela? Tornar- a veneração pelo Pontífice Romano. do mostrado numa realidade eclesial -se-ia uma simples pedrinha, errante Ecclesia de Eucharistia; são cada vez verdadeira, viva, fortemente ancorada na imensidade do espaço. Assim ocor- mais numerosas as suas casas de vida em uma espiritualidade autêntica. Por ocasião da dedicação da Igrereria com todo movimento eclesial comunitária onde se realiza a Adoraque deixasse de lado a espiritualidade. ção Eucarística perpétua. Diante de ja Nossa Senhora do Rosário, em Siginificativa harmonização entre a vida contemplativa e a vida ativa, própria do dom de Sabedoria, que é um dos traços característicos do carisma da instituição Setembro 2010 · Flashes de Fátima 33 São Paulo, Brasil, em uma cerimônia que nada tinha a invejar aos mais esmerados pontificais romanos, tive ocasião — ao me deparar com um auditório repleto de mais de mil jovens de variadas idades, revestidos com seu hábito característico — de apreciar a riqueza de dons com a qual o Espírito Santo favorece Sua Igreja. Não causa estranheza que um elemento fundamental desse novo carisma seja o amor à perfeição: “Sede, pois, perfeitos, como também vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 48). Daí o esmero em transformar toda a vida cotidiana, até em seus mais mínimos detalhes, numa liturgia de louvores ao Altíssimo. devota submissão ao Santo Padre e à Sagrada Hierarquia, sem uma delicada fidelidade ao Magistério Eclesiástico, sem uma fortaleza de espírito disposta a todos os sacrifícios por amor a Nosso Senhor Jesus Cristo, em uma palavra, sem um exemplo de vida irrepreensível; qualidades que, na própria instituição, não são senão reflexo do fundador. Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP, é Doutor em Direito Canônico pela Pontifícia Universidade São Tomás de Aquino, de Roma (Angelicum), grau que lhe foi O Divino Espírito Santo não faz nascer uma obra sem um fundador Ademais, cada estrela é única e irrepetível, se não para os homens, ao menos para Deus, que “chama cada uma pelo seu nome” (Sl 147, 4). O Divino Espírito Santo concede Seus dons para o bem do povo de Deus. E os faz frutificar a seu tempo, já que nunca deixa Suas obras inacabadas. Assim como não suscita um movimento alheio às necessidades de sua época, tampouco faz nascer uma obra sem um fundador. Por isso, só a têmpera de um fundador foi capaz de transformar, com equilíbrio e sabedoria, o ideal das antigas ordens de cavalaria — sempre aprovado e incentivado pela Igreja ao longo dos séculos —, adaptando-o às novas gerações como bandeira digna de ser desfraldada nos dias de hoje, com poder de entusiasmar e arrastar. É difícil imaginar como pudesse ter isso ocorrido sem uma fé inquebrantável no triunfo da Santa Igreja, sem uma valente audácia na expansão da obra, sem uma atenta docilidade às moções da graça, sem uma 34 Flashes de Fátima · Setembro 2010 Só a têmpera de um fundador foi capaz de transformar o ideal das antigas ordens de cavalaria, adaptando-o às novas gerações outorgado precisamente pela defesa da tese que tenho o gosto de apresentar (ele bem poderia contar entre seus títulos, o de ser um dos pouquíssimos casos conhecidos em que um fundador defende uma tese sobre a trajetória jurídico-canônica de sua própria obra); Mestre, também em Direito Canônico, pela Pontifícia Universidade Gregoriana; Mestre em Psicologia pela Universidade Católica de Bogotá (Colômbia); Licenciado em Humanidades pela Pontifícia Universidade Católica Madre y Maestra, da República Dominicana. É fundador do Instituto Teológico São Tomás de Aquino (ITTA) e do Instituto Filosófico-Teológico Santa Escolástica (IFTE). Também se deve a sua iniciativa a publicação da revista mensal de atualidade religiosa Arautos do Evangelho, com uma tiragem de quase um milhão de exemplares em quatro línguas, assim como da revista científica de inspiração tomista Lumen Veritatis. É autor de 15 livros, com uma tiragem total de 14 milhões de exemplares, em sete idiomas. Cônego honorário da Basilica Papale di Santa Maria Maggiore, de Roma, é ademais membro da Pontificia Accademia dell’Immacolata e da Sociedade Internacional São Tomás de Aquino, assim como da Academia Marial de Aparecida (Brasil). Em busca de uma forma jurídica capaz de preservar o carisma no futuro Uma primeira edição da tese de Mons. João, em italiano, acaba de ser impressa em Roma. Em breve, ela será também publicada em português, espanhol e inglês. O objetivo da tese é abordar cientificamente o problema que consiste em encontrar a figura jurídica mais adequada para enquadrar a obra dos Arautos do Evangelho no ordenamento canônico, garantindo-lhe a unidade institucional com o englobamento dos diversos estados de vida, o que evita o risco de uma fragmentação futura da instituição e de um desvirtuamento do carisma; François Boulay Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP, defende no “Angelicum”, em Roma, sua tese de doutorado em Direito Canônico roblema de máxima atualidade pap ra diversos movimentos eclesiais que iniciaram sua trajetória institucional como associação privada de fiéis. Para isso, o autor divide a tese em três capítulos, que tratam respectivamente dos aspectos jurídicos, históricos e carismáticos relacionados com o nascimento e a evolução da instituição desde suas origens até nossos dias. Fundamentando-se em célebres juristas da atualidade, enfoca-se, no primeiro capítulo, o fenômeno associativo, segundo as várias formas jurídicas contempladas pelo atual Código de Direito Canônico, para enquadrar os carismas suscitados pelo Espírito Santo. A análise das associações de fiéis ocupa um lugar relevante, pois, dada a sua flexibilidade, a maioria dos movimentos eclesiais tem adotado essa forma jurídica para situar-se no ordenamento da Igreja. Em seguida são estudados os diversos tipos de vida consagrada: Institutos Religiosos, Institutos Seculares e as Sociedades de Vida Apostólica. Por fim, é abordado o tema das prelazias pessoais como possível molde canônico para receber um carisma ou movimento. No segundo capítulo — de grande interesse para o estudo dos fundadores — se encontra a narração da autobiografia do fun- Nenhuma das formas associativas em vigor é capaz de abarcar por inteiro o movimento dos Arautos do Evangelho dador desde sua mais tenra infância, constituindo um elemento fundamental para entender a essência do carisma dos Arautos do Evangelho. O terceiro capítulo está dedicado a analisar com profundidade teológica o carisma da instituição, difícil de apreender de uma só vez em suas multiformes manifestações. Com efeito, não é intenção do autor tratar esta matéria de modo exaustivo, embora alguns de seus traços inquestionáveis sejam descritos com precisão. Finalmente, após a consideração de algumas soluções alternativas, embora não plenamente satisfatórias, chega-se à conclusão, partilhada por eminentes canonistas da atualidade, de que nenhuma das formas associativas em vigor é capaz de abarcar por inteiro o movimento dos Arautos do Evangelho, dada a diversidade de estados de vida que engloba; “deita-se o vinho novo em odres novos” (Mt 9, 17; Mc 2, 22; Lc 5, 38). Intuição que, de algum modo, estava já implícita no reconhecimento pontifício das duas Sociedades de Vida Apostólica (Virgo Flos Carmeli e Regina Virginum), ao considerá-lo um passo intermediário, que solucionava temporariamente determinados problemas, como a incardinação dos clérigos, até encontrar-se uma forma suficientemente flexível e abarcadora, capaz de preservar o carisma no futuro. Gostaria de terminar estas linhas desejando ao autor uma grande difusão da presente obra em toda a Igreja — certo de que poderá servir como válido estímulo a outros movimentos de origem laical —, bem como agradecendo-lhe tudo o que faz e ainda fará pela Santa Igreja de Deus. São os homens de fé que mudam os rumos da História, aqueles que formam parte da estirpe dos heróis e dos santos. E é deles que a Igreja tem necessidade hoje, como ontem e sempre. Afinal de contas, quem não experimenta uma grande alegria, como os Santos Magos, ao ver uma estrela que deve guiá-lo na obscuridade da noite? ² Setembro 2010 · Flashes de Fátima 35 Ó Cruz, única esperança! A Cruz de Caravaca: um fragmento da Vera Cruz recolhido no interior de um esplêndido relicário O culto oito vezes secular à “Santíssima e Vera Cruz” de Caravaca lembra-nos que o Sagrado Madeiro não é símbolo de morte e de derrota, mas sim anúncio de salvação e caminho seguro para a glória celeste. C orria o ano de 1232. A Península Ibérica encontrava-se ainda em plena Reconquista, dividida em vários reinos. Sancho II governava em Portugal; Jaime I, em Aragão; e Fernando III, o Rei Santo, em Leão e Castela. Do lado muçulmano, o declínio da dinastia Almóada fora aproveitado por Ibn-Hud para se apossar de uma ampla região do sul da Espanha e se fazer proclamar emir em Múrcia. A cidade de Valência, entretanto, era ainda governada por Ceyt Abu-Ceyt, descendente daquela dinastia. Sob o domínio deste último encontrava-se a fortaleza de Caravaca, em cujo alcácer, segundo a tradição histórica local, deu-se no dia 3 de maio desse ano, “um acontecimento maravilhoso e único”.1 Acompanhemos o relato que dele nos fazem as antigas crônicas.2 Dando ocupação aos prisioneiros Encontrando-se naquela fortaleza, e visando tirar melhor proveito dos prisioneiros que lá havia, o governador Abu-Ceyt começou a interrogá-los sobre a respectiva profissão e ocupá-los segundo as respectivas aptidões. Quando chegou a vez Carlos Tonelli do padre Ginés Pérez Chirinos, o governador perguntou-lhe: — E tu, que sabes fazer? — Eu sei celebrar Missa. — O que significa isso? — replicou Abu-Ceyt. Padre Ginés explicou-lhe ser o mais alto e principal encargo do sacerdote cristão celebrar a Eucaristia, instituída por Nosso Senhor Jesus Cristo na Última Ceia. Durante a mesma, esclareceu, o pão e o vinho passam a ser o Corpo e o Sangue do Deus verdadeiro. — Não acredito! — replicou-lhe incrédulo. Mostra-me como isso acontece. — Se me deres quanto preciso para celebrar Missa, eu o farei — redarguiu o sacerdote. Abu-Ceyt aquiesceu. Feita a lista dos paramentos e alfaias litúrgicas necessários, o alcaide mandou logo providenciá-los. Milagrosa aparição da Cruz No dia seguinte, o padre Chirinos rezou bem de manhã seu breviário. Logo após, dirigiu-se ao salão principal da fortaleza, onde fez cuidadosamente todos os preparativos para a Eucaristia e vestiu os paramentos. 36 Flashes de Fátima · Setembro 2010 Já seguia rumo ao improvisado altar para dar início à celebração quando percebeu a ausência do crucifixo. Sem conseguir explicar como pudera esquecê-lo, disse consternado ao governador: — Senhor, falta-me uma das coisas mais importantes para celebrar a Missa: a Cruz. — Mas... não é isso que está em cima da mesa? — perguntou o alcaide apontando para o altar. O sacerdote voltou-se e viu, admirado, uma Cruz patriarcal de 17cm de altura com duas hastes transversais, de 7 e 10cm. Transido de devoção, ajoelhou-se, osculou-a e deu início à Santa Missa, terminada a qual, Abu-Ceyt pediu para ser batizado. Oito séculos de devoção A Cruz de Caravaca é um lignum crucis — fragmento da verdadeira Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo — recolhido no interior de um belo relicário. Segundo antiga tradição, este era usado como cruz peitoral pelo Patriarca de Jerusalém, Dom Roberto, empossado como Bispo da Cidade Santa no ano de 1099. Daí o seu singular formato, com duas hastes transversais, símbolo do poder patriarcal. Fotos: Wikipedia Situada no local do antigo alcácer, a Basílica-Santuário domina o panorama da cidade Sejam quais forem as circunstâncias em que ela chegou a Caravaca, não se pode duvidar de sua presença na cidade em pleno século XIII. Já no ano de 1285 sua silhueta é representada no escudo da municipalidade, e datam da mesma época os primeiros relatos orais do miraculoso aparecimento. Desde os primórdios, a devoção à “Santíssima e Vera Cruz” de Caravaca difundiu-se por todo o mundo cristão. Da Espanha medieval — onde logo adquire fama de milagrosa protetora na tormentosa vida fronteiriça— passou para os outros países europeus e estendeu-se de pois às nações americanas. A partir de 1392 — quando Clemente VII concede as primeiras indulgências —, os Papas têm outorgado regularmente privilégios aos peregrinos que acorram a venerar a sagrada relíquia. Em 1736, é-lhe reconhecido pela Igreja o culto de latria. Ao longo desses quase oito séculos, desenvolveu-se também um rico e variado ritual em torno dela: bênção das flores e dos campos, uma peculiar bênção da água e do vinho, além de uma espécie de romaria durante a qual a sagrada relíquia visita as casas dos enfermos impedidos de comparecer à igreja. Em fins do século XV, a pequena capela do alcácer de Caravaca foi acrescida de uma nave de maiores proporções. E, em 1617, iniciou-se a construção da atual Basílica-Santuário. Também o relicário que contém o lignum crucis tem passado por sucessivas reformas, sendo o atual uma maravilhosa obra de ourivesaria, ornada com pedras preciosas. Uma mensagem atual Setecentos e cinquenta anos após a milagrosa aparição, o culto à “Santíssima e Vera Cruz” recebeu um novo impulso por parte do Papa João Paulo II. Em 1981, ele concedeu à Basílica-Santuário um ano jubilar para comemorar esse aniversário. Em 1996, proclamou novo Ano Santo e, dois anos depois, outorgou um jubileu in perpetuum, de sete em sete anos, a começar em 2003. O primeiro desses períodos de graça foi precedido por uma Missa solene na basílica, celebrada pelo Cardeal Joseph Ratzinger, então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, em 1º de dezembro de 2002, primeiro domingo do Advento. Durante a homilia, ele fez uma esplêndida interpretação teológica do antiquíssimo relato, tomando por base o exemplo do padre Ginés Pérez Chirinos, para recordar a grandeza da vocação sacerdotal e lembrar que é o próprio Cristo quem toma possessão do presbítero, a tuando por meio dele e “pronunciando por boca do sacerdote as palavras santas que transformam as coisas terrenas num mistério divino”. Após estender-se nas relações entre a Eucaristia e a Cruz, concluiu o atual Papa com esta tocante exortação: “A cruz, à qual nos remete a Santa Eucaristia e cujo sinal exterior é a Santa Cruz de Caravaca, é a força santa com que Deus bate à porta dos nossos corações e nos acorda. Ver a Cristo crucificado significa vigiar e, em consequência, viver com retidão. Senhor, abri o Céu! Fazei-nos vigilantes para que Vos reconheçamos, oculto no meio de nós”. A frase adotada como lema para o Ano Santo 2010, que agora celebramos — Ó Cruz, única esperança! —, foi escrita pelo próprio Cardeal Ratzinger, por ocasião dessa sua visita ao Santuário. Ela nos recorda que a Cruz é nossa esperança no presente e o será em todos os tempos. A Cruz não é um símbolo de morte e de derrota; ao contrário, é anúncio de salvação e caminho seguro para chegar à glória celeste. Homilia pronunciada pelo C ardeal Joseph Ratzinger, na Basílica-Santuário da Santíssima e Vera Cruz de Caravaca (1/12/2002). Texto íntegro em http://www.diocesisdeteruel.org/pdf y otros/Adviento 2007/HOMILIAS/Homilía en el SantuarioCaravaca.pdf. 1 2 Uma interessante análise historiográfica dos relatos do milagre é feito em BALLESTER LORCA, Pedro. La Cruz de Caravaca — Historia, rito y tradición. 11.ed. Caravaca de la Cruz: Real e Ilustre Cofradía de la Cruz, 2006. Setembro 2010 · Flashes de Fátima 37 A palavra dos Pastores Anunciar com vigor e alegria Ao tomar posse da diocese de Viana do Castelo, Dom Anacleto serviu-se das palavras de Bento XVI em Portugal, para convidar cada fiel ser “uma presença irradiante da perspectiva evangélica no meio do mundo”. Dom Anacleto de Oliveira Bispo de Viana do Castelo A primeira vez que visitei esta Diocese de Viana do Castelo, depois da minha nomeação para seu Bispo, foi há pouco mais de um mês: uma visita de apenas dois dias, mas na qual colhi impressões e experimentei sensações que desejo transmitir-vos. Fui acompanhado pelo meu antecessor neste ministério, o Senhor Dom José Pedreira, a pessoa que certamente mais bem conhece esta Diocese. Nela nasceu, serviu-a longo tempo como presbítero e, durante quase 13 anos, como Bispo. Agradeço-lhe muito, Senhor Dom José, a disponibilidade com que me guiou nesse primeiro contacto com as gentes e as terras de Viana. (...) “Eis aqui a escrava do Senhor” Um dos maiores exemplos desta entrega de fé é o de Santa Maria, padroeira desta Diocese e que, nesta solenidade da sua Assunção, veneramos como a Maior. Maior por ser tão pequena. Ao ver-se eleita para a missão sobre-humana de ser Mãe do Filho do Altíssimo, foi então que ela mais se apercebeu da sua pequenez. Sentiu-o mais do que nunca, quando se viu extremamente agraciada por Deus. E foi, levada por essa graça, que se entregou: “Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua Palavra” (Lc 1, 38). A graça do Senhor, que a fez sentir-se tão humilde, como uma escrava, foi essa mesma graça que a levou a dar-se ao Senhor, para a plena realização da sua palavra. E foi assim que o Filho de Deus ganhou corpo no seu corpo virginal: pela graça da fé – a graça que sempre precede, acompanha e alimenta toda a entrega de fé – como uma criança que, se ama o pai e a mãe, deve-o afinal ao amor que deles recebe. E quão feliz Maria se sentiu assim, totalmente possuída pelo Senhor. Ouvimo-lo há pouco, de sua prima Santa Isabel: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre.” A bênção do Filho apodera-se da Mãe. E esta é feliz, porque “acreditou no cumpri- 38 Flashes de Fátima · Setembro 2010 mento de tudo quanto lhe foi dito da parte do Senhor” (Lc 1, 42.45). E como reagiu Maria às palavras de Isabel? – “A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus meu salvador”. Repare-se como toda ela, neste louvor, se confia ao Senhor: com o corpo que fala, a alma que vibra e o espírito de que vive. Tudo isto, porque Ele, o Deus Salvador, “pôs os olhos na humildade da sua serva” (Lc 1, 46-48). Por isso, desde então, todas as gerações lhe chamam “bem-aventurada”. Chamamos-lhe assim, na medida em que fazemos, também nós e no grau que nos é acessível, a sua experiência de fé. Também por meio de nós, o Senhor quer fazer “maravilhas”, fruto da “sua misericórdia”: a misericórdia que, ao mesmo tempo, nos faz sentir pequenos e nos capacita para sermos agentes de tudo aquilo que só Ele tem poder para realizar (Lc 1, 49.50). Vejamos o que, sobre isso, as leituras bíblicas desta celebração ainda nos sugerem. “É preciso anunciar com vigor e alegria o acontecimento da morte e ressurreição de Cristo, coração do Cristianismo” (Lisboa, 11 de Maio de 2010). Segundo a do livro do Apocalipse (12, 1-6), é o Senhor, na sua infinita misericórdia, que faz de nós o Seu Povo, aquela “mulher revestida de sol, com a lua debaixo dos pés e uma coroa de doze estrelas na cabeça”: a mulher que Deus ama e que, à imagem de Maria e por meio dela, dá à luz o Messias; a mulher que, depois da glorificação de Cristo, tem de retirar-se para o deserto das carências e do sofrimento, mas onde recebe de Deus a energia necessária para enfrentar o poder do mal e não ceder à tentação de alinhar com os seus adoradores. Crentes envergonhados que dão a mão ao secularismo Ainda hoje a Igreja sofre perseguições; e é sua missão assegurar que os seus membros se não deixem conquistar por tantos ídolos destruidores. Em Fátima, o Papa chamava a nossa atenção, como Bispos, para isso: para o que se passa em vários âmbitos da nossa sociedade, onde, segundo as suas palavras, há “crentes envergonhados que dão as mãos ao secularismo, construtor de barreiras à inspiração cristã.” E exor- tava-nos a que, “mesmo aqueles que lá defendem com coragem um pensamento católico vigoroso e fiel ao Magistério continuem a receber o vosso estímulo e palavra esclarecedora para, como leigos, viverem a liberdade cristã” (Discurso aos Bispos, 13.05.2010). E, em Lisboa, afirmava que “para fazer de cada mulher e homem cristão uma presença irradiante da perspectiva evangélica no meio do mundo, na família, na cultura, na economia, na política” – “para isso é preciso voltar a anunciar com vigor e alegria o acontecimento da morte e ressurreição de Cristo, coração do Cristianismo, fulcro e sustentáculo da nossa fé, alavanca poderosa das nossas certezas, vento impetuoso que varre qualquer medo e indecisão, qualquer dúvida e cálculo humano” (Homilia em Lisboa, 12.05.2010). Trata-se da mesma mensagem da ressurreição de Cristo que, há pouco, São Paulo proclamava como “primícias” da nossa ressurreição (1 Cor 15, 20.23). Também a essa mensagem podemos associar outras palavras do Santo Padre, neste caso relativas à esperança que nos anima: “Só Cristo pode satisfazer plenamente os anseios profundos de cada coração humano e responder às suas questões mais inquietantes acerca do sofrimento, da injustiça e do mal, sobre a morte e a vida do Além” (Ibidem). Só Cristo! – O mesmo Cristo que passou pela terrível humilhação da cruz e pelo qual o Deus Todo-poderoso “manifestou o poder de seu braço e dispersou os soberbos; derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes; aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias” (Lc 1, 51-53). Palavras que Maria coloca nos nossos lábios, como programa de vida: da minha como Bispo e da de cada um de vós, particularmente os da diocese que me é confiada, com colaboradores que o Senhor me concede e aos quais me confio… como uma criança. “A palavra de Deus feita amor entre nós” Convido-vos, caríssimos Diocesanos, a fazermos todos o mesmo: a conservarmo-nos dependentes uns dos outros, unindo os carismas que o Espírito do Senhor suscita em cada um de nós, em ordem à construção das comunidades a que pertencemos e que precisam de todos. Só assim, poderemos, para já, realizar plenamente o Projecto Pastoral Diocesano, escolhido para o triénio que termina no próximo ano: o de encarnarmos nas nossas vidas e levarmos outros a encarnar, conforme o título dado a esse Projecto, “A Palavra de Deus feita amor entre nós.” Que esse amor ganhe expressões concretas, dentro e fora das nossas comunidades cristãs, nomeadamente em relação a tantos carenciados e bens materiais e espirituais, entre os quais destaco, pela sua actualidade, os que têm estado a braços com os incêndios que têm assolado terras da nossa Diocese e fora dela. Mas lembremo-nos de que esse amor só é possível ou, pelo menos, é muito mais possível, se todos nos entregarmos inteiramente nas mãos de Deus, deixando-nos encantar e conquistar pela sua misericórdia de Pai, para que Ele, em nós, continue a fazer maravilhas. Confiemo-nos a Ele, com estas palavras do Salmo 130/131 que Ele próprio coloca nos meus lábios: “Senhor, não se eleva soberbo o meu coração, nem se levantam altivos os meus olhos. Não ambiciono grandezas nem coisas superiores a mim. Antes fico sossegado e tranquilo como criança ao colo da mãe. Espera, Israel, no Senhor, agora e para sempre.” Espera, Igreja de Viana, no Senhor agora e para sempre! Amen. ² (Excertos da Homilia de 15 de Agosto de 2010) Setembro 2010 · Flashes de Fátima 39 Erigida em 1946, a Diocese de Taizhou, passou por dura prova em 1957: seu Bispo e todos os sacerdotes foram presos, e os lugares de culto foram fechados. Somente em 1984 o governo permitiu a reabertura de algumas igrejas. Antonio Xu Jiwei, então seminarista, foi condenado a 25 anos de trabalhos forçados. Libertado em 1985, recebeu nesse mesmo ano a ordenação sacerdotal. Governava a Igreja de Taizhou desde 1999, na qualidade de Administrador Diocesano. Um grupo de desconhecidos atacou em 4 de julho, na cidade de Muvattupuzha, Índia, um professor universitário católico, decepando-lhe a mão e parte do braço direito — informa a agência AsiaNews. Segundo apurou a polícia, o Prof. T. J. Joseph retornava da Missa dominical, com sua família, quando foi abordado pelos agressores, que o arrastaram para fora do carro, causaram-lhe profundos ferimentos com facas e espadas e, por fim, cortaram e atiraram a cerca de duzentos metros a mão direita com parte do braço. Motivo alegado para o crime: o professor teria, alguns meses antes, blasfemado contra Maomé. Várias organizações manifestaram-se contra esse ato de barbárie. O presidente do Global Council of Indian Christians, Sajan K. George, pediu que os assaltantes sejam julgados sem demora. “Espero que não aconteça, como de outras vezes, que a denúncia acabe desaparecendo dos arquivos policiais, por causa das ameaças dos militantes islâmicos de Kerala” — declarou. Após quase 50 anos de provações, restaura-se diocese na China Continental Mons. Antonio Xu Jiwei, com 75 anos de idade e 25 de sacerdócio, foi consagrado Bispo de Taizhou, na província chinesa de Zhejiang, segundo nota divulgada em 14 de julho pela Sala de Imprensa da Santa Sé. www.santuario-fatima.pt Bárbara agressão a professor católico na Índia Arquidiocese coreana celebra primeiro centenário Para comemorar seu primeiro centenário, a Arquidiocese de Daegu, na Coreia, decidiu, entre outras iniciativas, construir uma nova catedral e realizar um sínodo sobre métodos de evangelização da juventude e da sociedade hodierna — informa a agência Ucanews. Segundo explicações fornecidas por Dom Tadeu Cho Hwan-kil, Bispo Auxiliar, a nova igreja terá também instalações para funcionamento de um complexo cultural. Sua construção, orçada em 26 milhões de dólares, deverá estar concluída até 2014. A Arquidiocese de Daegu tem sua origem no desmembramento do antigo Vicariato Apostólico da Coreia, em 1911. Segundo estatísticas de 2009, conta com 154 paróquias, nas quais 461 sacerdotes atendem 451 mil fiéis. Cristãos são o grupo religioso mais discriminado Bispo emérito de LeiriaFátima apela à oração e à acção pelo Mundo O bispo emérito de Leiria-Fátima, D. Serafim Ferreira e Silva exortou à oração mas também à acção para a melhoria do mundo, informou a Sala de Imprensa do Santuário de Fátima Dirigindo-se aos peregrinos durante a homilia da missa celebrada no recinto de oração do Santuário de Fátima, o prelado sublinhou a necessidade de “rezarmos, reflectindo, corrigindo, prometendo e agindo. Não basta ficar na igreja ou aqui no santuário a rezar. O mundo precisa de nós!”. (...) Rezou também “pelos migrantes, pelas vítimas de tantos males, tantas agressões” e vincou que é “preciso protestar, reflectir, ajudar, prevenir, tudo isto é pedir a Deus a força para vencer as contrariedades”. 40 Flashes de Fátima · Setembro 2010 “Com o aumento da intolerância religiosa no mundo, está amplamente documentado como os cristãos constituem o grupo religioso mais discriminado” — declarou Dom Mario Toso, SDB, Secretário do Pontifício Conselho Justiça e Paz, em evento promovido pela Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) em Astana (Cazaquistão). “Mais de 200 milhões de cristãos, pertencentes a diversas confissões, encontram-se em situação de dificuldade, por força das instituições e dos contextos legais e culturais que os discriminam” — acrescentou o Prelado. Entre várias outras manifestações discriminatórias, Dom Mario Toso apontou: frequentes episódios de violência e até mesmo assassinatos de cristãos; restrições irracionais à liberdade de aderir à respectiva comunidade religiosa; impedimentos para importar e distribuir mate- Santa Sé financia 186 projetos na América Latina R Jovanny Kranwinkel eunido de 20 a 23 de julho, na Casa Arquidio- visita, na qual afirma: “quero que saibam que o Papa cesana Maria da Altagracia, em Santo Domin- não se esqueceu de vocês; tem sempre presente a dor go, o Conselho de Administração da Fundação “Po- que sofreram e sabe do sofrimento e das dificuldapulorum Progressio” aprovou o financiamento de 186 des para reconstruir os lares, as cidades e as vidas”. projetos em benefício de comunidades indígenas, O Santo Padre enviou também uma doação especial mestiças, afro-americanas e camponesas de 20 paí- de 250 mil dólares para a reconstrução da escola São ses da América Latina e do Caribe, no valor total de Francisco de Sales, destruída pelo sismo. Acolhidos pelo Cardeal Nicolás de Jesús López 2.091.500 dólares. Na quinta-feira, dia 22, os membros do Conselho Rodríguez, Arcebispo de Santo Domingo, participade Administração deslocaram-se até o vizinha Hai- ram da reunião do Conselho de Administração o Preti, a fim de verificar in loco as necessidades da po- sidente desse Conselho, Cardeal Juan Sandoval Íñipulação e conhecer a realidade dos campos de refu- guez, Arcebispo de Guadalajara (México), e mais oito Arcebispos e Bispos, giados gerenciados peentre os quais Dom la Igreja. A visita tinha Giovanni Battista Gansido programada antes dolfo, representante da do terremoto de janeiConferência Episcoro, por causa do granpal Italiana. O Cardeal de número de projetos Paul Josef Cordes, Preque a Fundação finansidente do Pontifício cia nesse país. Conselho Cor Unum Durante a M issa cenão pôde participar da lebrada em Porto Prínreunião, por se enconcipe, foi lida a mensaOs membros do Conselho de Administração trar convalescente de gem enviada por Benda Fundação Populorum Progressio, durante uma recente intervento XVI ao povo haitiasua visita ao Haiti ção cirúrgica. no por ocasião dessa rial religioso; pressões sobre os cristãos que exercem funções públicas. O texto integral de seu discurso, pronunciado em 29 de junho, foi transcrito em L’Osservatore Romano de 7 de julho e está disponível, em italiano, na página da Secretaria de Estado do Vaticano (www.vatican.va). Congresso da Renovação Carismática Católica Momentos de oração e reflexão, palestras e pregações marcaram o XXIX Congresso Nacional da Renovação Carismática Católica do Brasil, realizado na capital mineira. Iniciado em 15 de julho com Missa celebrada pelo Arcebispo de Belo Horizonte, Dom Walmor Oliveira de Azevedo, o evento encerrou-se no dia 18 com a Celebração Eucarística presidida por Dom José Luiz Azcona Hermoso, Bispo da Prelazia do Marajó, Pará. “Aqui não existem espectadores, mas sim participantes: vive-se o Congresso, não se assiste ao Congresso” — afirmou Dom Alberto Taveira Corrêa, Arcebispo de Belém do Pará e assessor eclesiástico da RCC brasileira, aos milhares de membros que lotavam o Centro de Convenções e Feiras da Expominas. Entre vários outros palestrantes, destacou-se também o presidente do Conselho Nacional da RCC, Marcos Volcan, que proclamou, no dia do encerramento: “Deus tem colocado uma porta aberta em nossa frente, e o que Deus abre ninguém pode fechar” (cf. Ap 3, 8). Novo Superior Geral do Instituto do Verbo Encarnado Em 15 de julho, o Instituto do Verbo Encarnado escolheu como novo Superior Geral o Pe. Carlos Walker, até então Vigário Geral desse Instituto. Sucede no car- Setembro 2010 · Flashes de Fátima 41 go ao fundador, Pe. Carlos Miguel Buela. A eleição deu-se durante o Capítulo Geral, realizado no Seminário Internacional São Vitaliano Papa, em Velletri, Itália, na presença de Dom Vincenzo Apicella, em cuja diocese se encontra a Casa Generalícia do IVE. Ao aceitar o cargo, Pe. Carlos Walker manifestou sua gratidão aos padres capitulares e pediu especiais orações pelos bons resultados de seu período de governo. O Instituto do Verbo Encarnado iniciou suas atividades na cidade de San Rafael, Argentina, em 1984. Conta hoje com mais de 200 sacerdotes e atua em mais de trinta países dos cinco continentes. Bíblia e beleza numa reflexão em MP3 Os responsáveis do site “Passo a Rezar”(www.passo-a-rezar.net) explicam em comunicado de imprensa que convidaram o sacerdote e poeta madeirense P. José Tolentino Mendonça para escrever “sete textos inéditos sobre a beleza”. “O P. Tolentino inspirou-se naquilo que ele considera os sete textos mais belos da Bíblia e escreveu os conteúdos para ‘Sete pausas na beleza’ que o site passo-a-rezar.net vai oferecer em formato mp3 e para download gratuito”, indica o comunicado. No site, a iniciativa é apresentada em forma de convite: “A be- leza visita-nos com o jeito da surpresa. Comove os sentidos e toca a alma bem no seu centro. No Verão, talvez o teu tempo dos lugares longínquos e estranhos, o passo-a-rezar.net oferece-te, além das orações para cada dia, as ‘pausas’ e a beleza que só a Bíblia pode dizer”. Os actores Pedro Granger e Susana Arrais foram as vozes escolhidas para dar vida aos textos do P. Tolentino, que estão disponíveis para os mais de 9 mil utilizadores diários do passo-a-rezar.net. Este projecto é uma iniciativa do Secretariado Nacional do Apostolado da Oração, uma obra da Companhia de Jesus (Jesuítas) que se IV Colóquio Latino Americano de Direito Canônico D Carlos Adriano e 26 a 30 de julho, mais de setenta especialistas Instituto Superior de Direito Canônico do Rio de participaram no Rio de Janeiro do IV Colóquio Janeiro. Entre os participantes, cabe destacar a presença Latino Americano de Direito Canônico, promovido pelo Instituto Superior de Direito Canônico dessa ci- de Dom Tarcísio Nascentes dos Santos, Bispo de Didade para debater e aprofundar temas tais como a im- vinópolis (MG), e Dom Jaime Mota de Farias, Bispo portância da unidade pastoral, as normas canônicas, o Emérito de Alagoinhas (BA). Durante o evento, Dom Orani João Tempesta — relacionamento entre o Bispo e o seu Presbitério. As conferências foram pronunciadas pelo Ar- Arcebispo do Rio de Janeiro e Chanceler Delegacebispo Francesco Coccopalmerio, Presidente do do do Instituto Superior de Direito Canônico dessa cidade — recebeu a Pontifício Conselho Comenda de São Ropara os Textos Legisberto Belarmino, da lativos; Pe. Michael Pontifícia UniversiHilbert, SJ, Decano dade Gregoriana. E, da Pontifícia Univerno final, Dom Fransidade Gregoriana, cesco Coccopalmerio Pe. Damián Guillerressaltou a “grande fimo Astigueta e Pe. dalguia e pronta comYuji Sugawara, propetência” com que o fessores da mesma Pe. José Gomes Mouniversidade; e Pe. Dom Francesco Coccopalmeiro rodeado por raes acolheu os conJosé Gomes Moraes, participantes do encontro gressistas. diretor do Pontifício 42 Flashes de Fátima · Setembro 2010 dedica à promoção da oração pessoal. Cáritas Espanhola auxilia populações do Sahel Atendendo a um apelo da Caritas Internacional, a Caritas Espanhola contribuiu no mês de julho com 200 mil euros para proporcionar alimentos básicos a 1.600 famílias em Burkina Faso e apoiar o trabalho de Caritas Níger contra a onda de fome que assola o país. Essa ajuda vem somar-se a 150 mil euros enviados no mês de junho. Toda a região subsaariana do Sahel enfrenta uma crise alimentar de consequências imprevisíveis, vitimando pelo menos 10 milhões de pessoas — alerta a Caritas Internacional, que está se movimentando para angariar mais recursos em benefício dessas populações. Também no mês de julho, a Caritas Espanhola destinou 211.577 euros para projetos de segurança, alimentação e educação em Angola e Moçambique, além de 205.000 euros para Quirguistão, Camboja e Peru. Diácono cria site para combater o ódio religioso na Inglaterra Preocupado pelos níveis de “hostilidade, ridículo e má vontade com que certas figuras públicas e setores da imprensa” da Inglaterra se preparam para a visita pastoral de Bento XVI a esse país, Nick Donnelly, diácono permanente da Diocese de Lancaster, criou em fins de julho a página web protectthepope.com. O site fornece informação sobre a lei relativa ao crime de incitação ao ódio religioso e proporciona aos católicos as formas para informar a polícia sobre eventuais infrações dessa norma. O diácono Donnelly visa também combater a desinformação e as mentiras propaladas por certa imprensa sensacionalista, “apresentando a verdade simples, especialmente a res- peito da pessoa e das ações do Papa Bento XVI”. E promove, ademais, especiais orações pelo êxito pastoral e espiritual da visita do Santo Padre e pelo bem da Igreja nesse país. Mais dois livros do Papa Bento XVI Os amigos de Jesus é o título de um volume de 48 páginas no qual Bento XVI narra ao público infantil e juvenil a história dos Doze Apóstolos e de São Paulo, utilizando passagens das audiências gerais das quartas-feiras acompanhadas por ilustrações do artista italiano Franco Vignazia. Lançado no último 22 de julho pela Piccola Casa Editrice, a obra conta com um prefácio do Pe. Julián Carrón, presidente da fraternidade Comunhão e Libertação. De outro lado, Bento XVI começou a preparar, no palácio de verão de Castel Gandolfo, o terceiro volume de Jesus de Nazaré, dedicado aos Evangelhos da Infância. O primeiro volume dessa obra, publicado em 2007, logo se tornou um best-seller. O segundo, dedicado à Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo, já está em fase de tradução com vistas a ser distribuído em fevereiro. Itinerário para o Centenário das Aparições apresentado à Comunicação Social O Santuário de Fátima prepara-se para a celebração do Centenário das Aparições de Nossa Senho- ra, que ocorreram em 1917. Os próximos sete anos, com início no ano litúrgico de 2011, que começa no primeiro Domingo do Advento, a 28 de Novembro, serão dedicados às aparições. Em conferência de imprensa realizada no Santuário de Fátima, o Reitor da instituição, padre Virgílio Antunes, destacou os principais objectivos da celebração. “Dar a conhecer a mensagem de Fátima e as suas implicações com a vida dos cristãos deste tempo, assim como a sua dimensão profética, relevante para a Igreja e para o mundo; e ajudar a dinamizar espiritualmente todos os devotos, peregrinos e a própria Igreja em Portugal, que tem em Fátima um forte ponto de apoio para a sua acção pastoral” são dois dos propósitos da iniciativa que pretende também “contribuir para uma leitura da realidade do nosso tempo a partir da fé cristã e da afirmação de Deus como Senhor da História”. (...) “Uma Comissão Teológica elaborou ao longo deste ano o itinerário temático a seguir durante os próximos sete anos, entre 2011 e 2017. A partir das “Memórias da Irmã Lúcia”, elencaram-se os temas, seguindo o percurso das aparições do Anjo e de Nossa Senhora. Partiu-se sempre de um acontecimento de Fátima, tomou-se uma frase inspiradora e depois definiram-se um núcleo teológico, um elemento catequético e uma atitude crente a desenvolver”, explicou à Sala de Imprensa do Santuário de Fátima. Encontro Continental da Ação Católica Sob o lema Vida, pão, paz e liberdade: leigos da Ação Católica na cidade para um mundo mais humano, realizou-se no México, de 8 a 11 de julho, o VI Encontro Continental Americano da Ação Católica. O evento congregou trinta delegações de países latino-americanos cujos Setembro 2010 · Flashes de Fátima 43 representantes analisaram as questões acima sob a luz do Documento de Aparecida. Em mensagem assinada pelo Secretário de Estado da Santa Sé, Cardeal Tarcisio Bertone, o Santo Padre animou seus participantes a se aprofundarem no papel fundamental dos leigos na construção de uma sociedade “que responda ao projeto original de Deus sobre a humanidade”. Lembrou também a necessidade de “uma adequada formação e da profunda vida espiritual dos fiéis”. Primeiro Núncio da Santa Sé na Federação Russa Com a entrega de suas credenciais ao ministro de Relações Exteriores, Sergei Lavrov, em 15 de julho, o Arcebispo Antonio Mennini tornou-se oficialmente Núncio da Santa Sé em Moscou, inaugurando, assim, uma nova era de relações diplomáticas entre a Santa Sé e a Federação Russa. Segundo notícia de L’Osservatore Romano, a cerimônia de entrega das credenciais foi seguida de um “cordial encontro” do qual participou o vice-ministro de Relações Exteriores, Alexander Krusko. Este congratulou-se com o Núncio, em nome do Presidente Dimitri Medvedev, e ressaltou o crescente “espírito de harmonia e cooperação” entre a Santa Sé e a Rússia nos últimos anos. Por sua vez, Dom Mennini, manifestou sua decisão de colaborar para o estreitamento dessas relações diplomáticas, bem como para “o crescimento espiritual e moral do povo russo”. Causas de canonização e milagres O que é um milagre? Por que a Igreja exige milagres para beatificar ou canonizar uma pessoa? Por que Deus não me concede o que Lhe peço? As respostas a estas e muitas outras interrogações encontram-se ao alcance dos interessados num livro, recém-lançado na Espanha, intitulado Causas de canonização e milagres. Seus autores são dois especialistas: Cônego Ricardo Quintana Bescos, Delegado Episcopal para as Causas dos Santos, da Arquidiocese de Madri, e José Carlos Martín de la Hoz, licenciado em Ciências Geológicas, Doutor em Teologia e diretor do departamento do Opus Dei para as Causas dos Santos, na Espanha. No livro de 160 páginas, editado pela Desclée de Brouwer, os autores analisam com clareza e segurança doutrinária todas essas questões e apresentam uma ampla e bem selecionada bibliografia. Manteve-se rigorosamente a vida de clausura: nenhuma freira foi autorizada a sair da abadia ou receber visitas; podiam comunicar-se com pessoas de fora apenas através da grade conventual. Governador mexicano multado por fazer referência a Deus O governador do estado de Sinaloa, Mario López Valdez (Malova), foi condenado pelo Tribunal Eleitoral Federal do México a pagar uma multa de 27.235 pesos, por emitir expressões de caráter religioso durante um ato eleitoral. “Vencerei com o apoio da vontade popular e a de Deus” e “A vontade do povo, dos astros e de Deus estão alinhadas” foram as frases pronunciadas pelo governador. Os magistrados consideram que elas infringem “a proibição constitucional de empregar em atos públicos alusões ou expressões de caráter religioso”, informa em sua edição on-line o jornal mexicano La Jornada (28/7/2010). Carinho na infância reduz estresse de adulto Beneditinas assinam contrato com gravadora As freiras da abadia beneditina Nossa Senhora da Anunciação, situada nas proximidades de Avignon, França, venceram um concurso de âmbito mundial promovido pela gravadora britânica Decca Records para a produção de discos de música gregoriana. O primeiro álbum, intitulado Voices – Chant from Avignon (Vozes – Canto de Avignon) deve ser publicado em novembro. “Nós nunca procuramos isso, mas fomos procuradas”, declarou à agência Reuters a madre abadessa, cuja preocupação era de que as atividades da gravação não prejudicassem o recolhimento da comunidade. 44 Flashes de Fátima · Setembro 2010 Um bebê que recebeu da mãe muito afeto torna-se um adulto menos exposto ao estresse e angústia. Esta é a conclusão a que chegou uma equipe de especialistas liderados pela psicóloga Joanna Maselko, da Universidade Temple (Filadélfia, EUA). Segundo notícia da Agence France Presse (26/7/2010), Maselko e sua equipe usaram os dados de mais de mil bebês de oito meses de idade, coletados num estudo feito no estado americano de Rhode Island, na década de 1960. Trinta e quatro anos mais tarde, os pesquisadores conseguiram entrevistar mais da metade dos antigos bebês e traçar o seu perfil psicológico. “Descobrimos que, objetivamente observado, um al- Cavaleiros de Colombo: em defesa da vida, da família e do Papa N to nível de afeto entre as mães e seus filhos de oito meses está associado a menos sintomas de angústia trinta anos depois” — relataram eles, em trabalho publicado no Journal of Epidemiology and Community Health. Rei do Marrocos condecora freiras vicentinas “Conheço e aprecio muito o seu trabalho”, declarou a duas freiras v icentinas espanholas o Rei Mohamed VI de Marrocos, antes de condecorá-las, no Palácio Real de Tanger, com a Ordem do Wissam Alauí, uma das mais destacadas insígnias honoríficas de seu reino — informa o jornal kofc.org o final de sua 128ª Convenção Suprema, encerrada em 5 de agosto, os Cavaleiros de Colombo deram a público uma série de resoluções nas quais renovam seu compromisso de defender a vida desde a concepção até a morte natural, o matrimônio, de fortalecer a família e apoiar o Santo Padre — informa a agência ACI. Na última sessão, foi aprovada uma resolução em que os membros da maior associação de leigos católicos do mundo manifestam profunda gratidão ao Papa Bento XVI, por sua “vida de serviço dedicado a Cristo e à Sua Igreja”. E reafirmam: “Nunca deixaremos nosso compromisso de defender o Santo Padre e assisti-lo em sua missão pastoral de levar a Boa Nova de Jesus Cristo ao mundo”. Através do Secretário de Estado da Santa Sé, Cardeal Tarcisio Bertone, Sua Santidade enviou aos participantes da Convenção Suprema uma mensagem na qual elogia o tema escolhido para este ano: Eu sou o guardião do meu irmão. Este tema, frisou o Pontífice, “cha- ma a atenção para o espírito de solidariedade fraterna que inspirou a fundação dos Cavaleiros de Colombo e continua a orientar suas múltiplas atividades”. O Papa manifestou “especial apreço” pelos membros da Ordem, por sua solidariedade espiritual com o clero no decorrer do Ano Sacerdotal. “À vista dos ataques, frequentemente injustos e infundados, contra a Igreja e seus líderes, o Santo Padre está convencido de que a mais eficaz resposta é uma grande fidelidade à Palavra de Deus, uma busca mais firme da santidade e um maior compromisso com a caridade na verdade, por parte de todos os fiéis” — afirmou ele. Por fim, Bento XVI agradeceu, mais uma vez, aos Cavaleiros de Colombo “por seu testemunho perante a santidade da vida humana e a autêntica natureza do casamento”, bem como por seu empenho para promover entre os leigos católicos “uma maior consciência da necessidade” de moldarem sua vida cotidiana segundo a Fé que professam. madrilenho El País (edição on-line de 3/8/2010). “O rei explicou-nos que a comenda era para o conjunto das Filhas da Caridade no Marrocos”, precisou por telefone a Irmã Rafaela del Campo, que está no país há 40 anos. Sua companheira, Irmã Fermina Suárez, lá se encontra há 48 anos. Junto com outras três filhas de São Vicente de Paulo, elas mantêm um orfanato adjacente ao hospital de Alhucenas, no norte do Marrocos. A Igreja Católica é oficialmente reconhecida no Turcomenistão “Nós fomos oficialmente reconhecidos como Igreja Católica no Turcomenistão. É uma grande alegria e uma grande esperança” — comunicou à agência Fides o superior da Missio Sui Iuris no Turcomenistão, Pe. Andrzej Madej, OMI. Segundo notícia da Rádio Vaticano, essa ex-república soviética da Ásia Central conta com cinco milhões de habitantes, 90% dos quais são muçulmanos. Nela vivem apenas cem católicos batizados, trinta catecúmenos e um grupo de “simpatizantes da Fé cristã”. Lá não existem igrejas católicas, pois elas foram destruídas pelos revolucionários soviéticos. Os missionários precisam recomeçar tudo como em terra de “primeira evangelização”. Setembro 2010 · Flashes de Fátima 45 História para crianças... ou adultos cheios de fé? O segundo pedido Como bom religioso, Frei Martinho obedeceu prontamente e com alegria. Apenas pedia a Nosso Senhor Sacramentado a graça de retornar a tempo para assistir à Missa da tarde e recebê-Lo em seu coração. Irmã Ana Rafaela Maragno, EP F do convento. Frei Martinho estava provisões, pois a casa estava lotada: rei Martinho, sacristão de encarregado de preparar as alfaias além dos frades vindos de outros um convento franciscalitúrgicas e decorar a igreja para a conventos, havia um grupo de pereno, na Itália, cumpria suas Missa solene. Sempre ativo e dedi- grinos carentes. E a despensa estafunções com a maior percado, conseguira belas flores para va quase vazia... Corria-se o risco de feição. Esmerava-se em deixar alvíssiornar o altar, o que não era fácil na- servir um frugal almoço aos visitanmas e bem engomadas as toalhas do tes e despedi-los sem jantar. quela estação do ano. altar. Nunca se via sequer um resto de Como bom religioso, Frei MartiJá na noite anterior, deixara tucera ou de pó no presbitério, e os cádo pronto para a Celebração. Que- nho obedeceu prontamente e com lices e cibórios estavam sempre reluria ter nesse dia o mínimo possível alegria. Apenas pedia a Nosso Sezentes. de ocupações, pois assim poderia as- nhor Sacramentado a graça de re“A limpeza é o luxo do pobre”, disistir à Santa Missa com maior reco- tornar a tempo para assistir à Miszia a si mesmo, enquanto trabalhava lhimento e receber mais fervorosa- sa da tarde e recebê-Lo em seu cocom redobrado empenho, por traração. mente Jesus em sua alma. tar-se do culto a Nosso Senhor. Na Acompanhado por Frei Salomão, Mas qual não foi sua surpresa vida de voluntária pobreza, abraçaquando o Padre Guardião o escalou bateu de porta em porta durante váda por amor a Ele, queria servi-Lo para a função de esmoler naque- rias horas. Porém, as almas caridoda forma mais excelente, pois, além la jornada festiva! Era preciso con- sas pareciam ter desaparecido da redo senso do dever, brilhava na alma seguir sem demora um reforço de gião! Somente ganharam alguns vede Frei Martinho uma profunda delhos pãezinhos, não conseguiram sevoção a Jesus Eucarístico. quer os legumes necessários para Quando o sacristão terminava uma humilde sopa... seus afazeres, dirigia-se invariavelComeçava a cair a tarde quanmente aos pés do tabernáculo e lá do entraram numa pequena caficava rezando, em colóquios íntipela próxima do lugar onde mos com o Senhor. Às quintas-feiestavam. Ali pediram com ras, havia no convento Adoração muita confiança à Virgem solene ao Santíssimo Sacramento, Maria que os ajudasse não só e ele sempre conseguia organia obter os mantimentos nezar o serviço de forma a passar cessários para a comunidalongo tempo ajoelhado aos de, mas também a retornar a pés do ostensório. tempo para assistir à Missa e Aproximava-se, por aqueComo bom religioso, Frei Martinho obedeceu receber o Corpo de Jesus. les dias, a festa do Padroeiro prontamente e com alegria 46 Flashes de Fátima · Setembro 2010 Edith Petitclerc Frei Martinho explicou-lhe a dificuldade pela qual passavam, e logo o camponês deu a solução Pouco depois de recomeçarem seu trabalho, encontraram um camponês guiando uma pequena carroça, o qual, depois de cumprimentá-los com respeito e pedir-lhes a bênção, perguntou: — Meus bons frades, os senhores parecem preocupados... Precisam de alguma ajuda? Frei Martinho explicou-lhe a dificuldade pela qual passavam, e logo o camponês deu a solução: — Vejam como Nossa Senhora é boa por fazer-me passar por esta rua justamente agora! Aqui está um saco com batatas, cenouras, rabanetes e tomates. E neste outro estão dois grandes pernis. Agora entendo por que não consegui vender tudo na feira... É que Nossa Senhora decidiu reservar isto para o convento. Pois bem, podem levar tudo. Dou de muito bom gosto. Os dois frades agradeceram de coração ao generoso camponês, prometeram-lhe orações por ele e sua família, e tomaram alegres o caminho de volta. Contudo, era longa a distância a percorrer e chegaram ao convento quase no fim da tarde. Entregaram as provisões ao irmão cozinheiro, limparam-se da poeira do caminho e rumaram apressadamente para a igreja, onde ainda ressoavam as melodias eucarísticas. Entretanto, a Missa havia terminado... Não tiveram sequer o consolo de receber a Comunhão! Nossa Senhora havia atendido tão generosamente o primeiro de seus pedidos. Por que não quisera fazer o mesmo com o segundo? Consternados, puseram-se de joelhos aos pés do tabernáculo e fizeram a Jesus um amoroso queixume: — Senhor, por que nos abandonastes? Quanto queríamos participar desta Missa! Entretanto, por amor à obediência, ficamos privados de Vos receber na Eucaristia! Aos poucos, a igreja foi se esvaziando, mas os dois religiosos lá ficaram em oração. De repente, viram surgir no presbitério um varão alto, cheio de nobreza e com uma fisionomia reluzente. — A Rainha do Céu ouviu comprazida vossas súplicas — disse ele — e mandou-me para atendê-las. Ajoelhai-vos junto à mesa da Comunhão e preparai os vossos corações para receber dignamente Seu Divino Filho. O Anjo de luz abriu o sacrário, tomou o cibório e ministrou-lhes a Sagrada Comunhão. Depois, fez um curto ato de adoração ao Santíssimo Sacramento, recolocou-O no tabernáculo, e desapareceu. Lágrimas de consolação corriam pelas faces de Frei Martinho e Frei Salomão. Depois de uma longa ação de graças, a mais abençoada de suas vidas, foram narrar ao Padre Guardião o acontecido. Este mandou tocar o sino para reunir os outros frades e dirigiram-se todos à capela do Santíssimo, a fim de agradecer a Deus tão insigne graça. E aí viram — oh maravilha! — que o Anjo havia deixado uma marca de sua passagem: em belíssimas letras douradas, as iniciais de Jesus e de Maria! Setembro 2010 · Flashes de Fátima 47 ________ Os Santos de cada dia 1. São Josué. Filho de Nun, discípulo de Moisés. Introduziu o povo de Israel na Terra Prometida. 2. São Justo, Bispo (†cerca de 381). Após o Concílio de Aquileia, renunciou à sé episcopal de Lyon e abraçou a humilde vida dos monges de um eremitério no Egito. 3. São Gregório Magno, Papa e doutor da Igreja (†604). Beata Brígida de Jesus Morello, religiosa (†1679). Após enviuvar, dedicou-se à penitência e às obras de caridade. Fundou em Piacenza, Itália, a Congregação das Irmãs Ursulinas de Maria Imaculada, para educação da juventude feminina. 4. São Moisés, profeta. Escolhido por Deus para libertar o povo de Israel da opressão no Egito e conduzi-lo à Terra Prometida. 5. XXIII Domingo do Tempo Comum. São Bertino, abade (†cerca de 698). Junto com dois companheiros, fundou em Saint-Omer (França), o mosteiro de Sithiu, do qual foi abade durante cerca de 60 anos. 6. Beato Diego Llorca Llopis, presbítero e mártir (†1936). Sacerdote secular preso e fuzilado em Oliva, Espanha, aos 40 anos de idade. 7. Santa Regina, virgem e mártir (†séc. III). Jovem cristã de pai pagão, decapitada nas proximidades de Autun, França. 8. Natividade de Nossa Senhora. São Sérgio I, Papa (†701). De origem síria, empenhou-se na evangelização dos frísios e saxões. Trabalhou para o enriquecimento da Liturgia. 9. São Pedro Claver, presbítero (†1654). Beato Pedro Bonhomme, presbítero (†1861). Distinguiu-se por suas missões populares e evangelização dos camponeses, na França. Fundou a Congregação das Irmãs de Nossa Senhora do Monte Calvário, para cuidar dos jovens, doentes e necessitados. Sergio Hollmann 10. Beatos Sebastião Kimura e Francisco Morales, presbíteros, e companheiros, mártires (†1622). Mortos em meio a cruéis torturas, juntamente com mais 50 católicos (sacerdotes, religiosos, casais, jovens, catequistas, viúvas e crianças), em Nagasaki, Japão. “São Moisés” - Basílica da Estrela, Lisboa 11. São João Gabriel Perboyre, presbítero e mártir (†1840). Sacerdote Lazarista, missionário na China. Traído por um dos seus discípulos, foi encarcerado, torturado e, por fim, amarrado a uma cruz e estrangulado. 48 Flashes de Fátima · Setembro 2010 12. XXIV Domingo do Tempo Comum. Santíssimo Nome de Maria. Beato Pedro Sulpício Cristóvão Faverge, mártir (†1794). Irmão Lassalista, encarcerado numa galera, junto com centenas de outras vítimas da Revolução Francesa. Aí morreu, em consequência das doenças contraídas ao tratar caridosamente dos prisioneiros enfermos. 13. São João Crisóstomo, Bispo e doutor da Igreja (†407). Beata Maria de Jesus López Rivas, virgem (†1640). Priora do Carmelo de Toledo, discípula de Santa Teresa de Ávila. Caluniada e deposta injustamente do cargo, suportou tudo com humildade e paciência. 14. Exaltação da Santa Cruz. Santa Notburga, virgem (†1313). Foi cozinheira do castelo de Rottenburg, no Tirol, e trabalhou como doméstica na aldeia de Eben, Aústria. 15. Nossa Senhora das Dores. Beato Ladislau Miegon, presbítero e mártir (†1942). Sacerdote polonês deportado para o campo de concentração de Dachau, onde morreu em meio a torturas. 16. São Cornélio, Papa (†253) e São Cipriano, Bispo (†258), mártires. São João Macías, religioso (†1645). Irmão leigo do convento dominicano de Lima, dedicou-se ao cuidado dos pobres e dos enfermos. 17. São Roberto Belarmino, Bispo e doutor da Igreja (†1621). São Pedro Arbués, presbítero e mártir (†1485). Cônego regular da Ordem de Santo Agostinho, assassinado por sicários aos pés do altar da catedral, em Zaragoza, Espanha. Beata Amalia Abad Casasempere 18. São José de Cupertino, presbítero (†1663). Religioso franciscano do convento de Osimo, Itália. Pouco dotado do ponto de vista natural, foi, entretanto, favorecido com graças místicas extraordinárias. 19. XXV Domingo do Tempo Comum. São Januário, Bispo e mártir (†305). São Teodoro, Bispo (†690). Tinha quase 70 anos quando o Papa São Vitaliano o nomeou Bispo de Cantuária, Inglaterra. 20. Santo André Kim Tae-gon, presbítero, Paulo Chong Ha-sang e companheiros, mártires (†18391867). São João Carlos Cornay, presbítero e mártir (†1837). Sacerdote da Sociedade para as Missões Estrangeiras, submetido a horríveis torturas e por fim decapitado em Son Tay, Vietnã. 21. São Mateus, Apóstolo e Evangelista. São Castor de Apt, Bispo (†cerca de 426). Desejoso de explicar a sublimidade da vida monástica aos monges de um cenóbio sob sua jurisdição, na Provença, recorreu a São João Cassiano e este, a seu pedido, redigiu as célebres “Conferências” sobre os ascetas do Egito. 22. Santa Salaberga, abadessa (†cerca de 664). Segundo a tradição, foi curada de cegueira por São Columbano, que a encaminhou para o serviço de Deus. Faleceu em Laon, França. 23. São Pio de Pietrelcina, presbítero (†1968). Santo Adamano de Iona, presbítero e abade (†704). Profundo conhecedor das Sagradas Escrituras e infatigável defensor da unidade, convenceu muitos escoceses e irlandeses a celebrar a Páscoa segundo o costume romano. 24. Nossa Senhora das Mercês. Em 1218, a Virgem Maria apareceu a São Pedro Nolasco, recomendando-lhe fundar um instituto religioso dedicado às obras de misericórdia, especialmente a libertação dos cristãos escravizados em terras muçulmanas. Nasceu assim a Ordem dos Mercedários. 25. São Sérgio de Radonez, abade (†1392). Após vários anos de vida eremítica, fundou o Mosteiro da Santíssima Trindade, nas proximidades de Moscou e propagou a vida cenobítica na Rússia Setentrional. 26. XXVI Domingo do Tempo Comum. Santos Cosme e Damião, mártires (†séc. III). Santo Eusébio de Bolonha, Bispo (†séc. IV). Combateu o arianismo, junto com Santo Ambrósio de Milão, e empenhou-se em promover entre os jovens o valor da virgindade. 27. São Vicente de Paulo, presbítero (†1660). Beato Lourenço de Ripafratta, presbítero (†1456). Dominicano do mosteiro de Pistoia, Itália, observou fielmente durante 60 anos a disciplina religiosa, dedicando-se assiduamente ao Sacramento da Reconciliação. 28. São Venceslau, mártir (†929/935). São Lourenço Ruiz e companheiros, mártires (†1633-1637). Beata Amalia Abad Casasempere, mártir (†1936). Mãe de família conhecida por sua militância católica, foi presa e assassinada por milicianos em Benillup, Espanha. 29. São Miguel, São Gabriel, São Rafael Arcanjos. Beato Nicolau de Furca Palena, presbítero (†1449). Religioso da Ordem dos Eremitas de São Jerônimo, fundou em Roma o Mosteiro de Santo Onofre, onde faleceu aos cem anos de idade. 30. São Jerônimo, presbítero e doutor da Igreja (†420). São Francisco de Borja, presbítero (†1572). Duque de Gandía e Vice-rei da Catalunha, renunciou ao mundo após a morte da esposa e ingressou na Companhia de Jesus, da qual foi o terceiro Superior Geral. filles-de-la-charite.org ©santiebeati.it ___________________ Setembro São João Gabriel Perboyre Setembro 2010 · Flashes de Fátima 49 A devoção a Maria Uma garantia de salvação Oh! que preciosa segurança para nosso futuro se amarmos a Santíssima Virgem a ponto de querermos ser imagens vivas d’Ela na Terra! A Termômetro espiritual e garantia da salvação Assim como, para certificar-se da vida de uma pessoa, o médico perscruta as batidas de seu coração, nós, para sabermos se uma alma é virtuosa, se ela vive da vida cristã, averiguamos se o culto à Santa Virgem das Virgens lhe é indiferente ou agradável. Sim, a devoção a Maria é como um termômetro espiritual que marca — se assim podemos dizer — a temperatura de nossa alma, que revela suas disposições secretas. Se as práticas desta devoção nos agradam, podemos estar tranquilos quanto ao estado de nossa alma. Mas se sentimos que há frieza entre nós e a Santíssima Virgem, se abandonamos os atos de culto a Ela, se negligenciamos as orações cotidianas, se alegamos falta de tempo para recitar o Rosário, tenhamos cuidado: nossa virtude diminuiu, a fé de nossa Primeira Comunhão esvaiu-se, estamos no caminho que nos afasta de Deus! Timothy Ring devoção a Maria não é um simples ornamento do Catolicismo, nem mesmo um socorro entre muitos outros, que podemos usar ou não, a nosso critério. É uma parte integrante da Religião. Deus quis vir a nós por meio de Maria, e só por meio d’Ela podemos ir a Ele. Compreende-se, pois, a necessidade de insistir neste tema, de estimular a piedade e a devoção a Nossa Senhora. Para nós, esta devoção é uma garantia de salvação! Como assim? É que, se amamos a Virgem Maria, trabalharemos para nos assemelhar a Ela. Somos irresistivelmente levados a imitar as pessoas que nos são simpáticas: quereríamos pensar, falar, viver como elas. Oh! que preciosa segurança para nosso futuro se amarmos a Santíssima Virgem a ponto de querermos ser imagens vivas d’Ela na Terra! Como Ela, evitaremos tudo quanto desagrada a Deus e tudo quanto causaria prejuízo a nossas almas; como Ela, faremos todo bem, cumpriremos nosso dever, praticaremos a virtude. Com isso, podemos ter confiança. O exemplo de São Francisco de Sales Atormentado na juventude por uma grave tentação, foi por meio de Maria que São Francisco de Sales conseguiu vencê-la 50 Flashes de Fátima · Setembro 2010 Por outro lado, está garantida uma proteção especial da Santíssima Virgem a quem é, de fato, Seu devoto. Quando lhe vierem as provas, as tribulações, as tentações, por mais numerosas e violentas que forem, Gustavo Kralj todo o meu coração nesta com a assistência de MaTerra!”. ria, ele jamais desesperará. Terminada sua oração, Como prova disso, haveria levantou-se vencedor: a mil fatos emocionantes paConsoladora dos Aflitos o ra contar. Vejamos somenhavia livrado daquele torte este, extraído da vida de mento! São Francisco de Sales. Jovem ainda, São FranProva de predestinação cisco estava atormentado por uma tentação, contra Caros leitores, se de vez a qual ele lutava com enerem quando temos pecados gia. Mas, numa hora de dea lamentar, se somos tessânimo, o futuro apareceutemunhas entristecidas de -lhe com cores sombrias: quedas humilhantes, não ele imaginava-se perdido, seria porque abandonamos condenado ao inferno... o culto à Santíssima VirSer condenado, ser separagem, porque renunciamos à do de Deus, que ele amapiedade e, assim, nos privava como um pai, de Nossa mos de uma assistência que Senhora, que ele venerava nos teria preservado? como uma mãe, e isso por Podemos concluir que uma eternidade sem fim!... uma piedade sólida e sinEste pensamento torturacera é uma prova de preva-lhe o coração e lhe ardestinação. Se tivermos esrancava soluços. sa convicção e tomarmos a Certo dia, em que ele firme resolução de cultivar, Se amarmos à Virgem Maria, trabalharemos para entrou numa igreja sob essempre mais e mais, a denos assemelhar a Ela e evitaremos tudo quanto desagrada a Deus sa triste impressão, senvoção à Santíssima Virgem tiu como uma mão invie praticar as virtudes que sível que o empurrava para os pés cecava, e terminou sua oração com Ela nos inspira, será este um dos de uma imagem de Nossa Senhora. estas belas palavras: “Se devo odiar melhores frutos desta leitura. Ajoelhou-se diante dela e suplicou a Deus eternamente no inferno, su(Traduzido, com adaptações, a Maria que lhe obtivesse a graça plico-Vos uma coisa: obtende-me de “L’Ami du Clergé”, de vencer essa tentação que o ob- pelo menos a graça de amá-Lo de 6/11/1902, p.862-863). Apostolado Maria Rainha do Oratório dos Corações Receba o oratório do Imaculado Coração de Maria em sua casa, um dia por mês. Seja também um coordenador deste apostolado e organize a sua peregrinação pelas casas da sua vizinhança. É muito fácil. Entre em contacto connosco por: Tel.: 212 389 596 - Fax.: 212 362 299 Rua Dr. António Cándido, 16 - 1050-076 - Lisboa E-mail: [email protected] Setembro 2010 · Flashes de Fátima 51 “Nossa Senhora do Bom Sucesso” - Mosteiro das MM. Concepcionistas, Quito (Equador) Leonel Mosquera U ma só palavra de Seus lábios é quanto basta para o Filho atendê-La.