Número 88
Setembro 2010
Voar sem amarras!
“Imagem de São Pio de Pietrelcina”
- Igreja de Santa Margarida Maria,
Toronto (Canadá)
(Homilia de João Paulo II
na canonização do Padre Pio,
16 de junho de 2002)
Gustavo Kralj
A
vida e a missão
do Padre Pio
testemunham que
as dificuldades e os
sofrimentos, se forem
aceitos por amor,
transformam-se num
caminho privilegiado
de santidade, abrindo
perspectivas de um
bem maior, que só
Deus conhece.
SumáriO
Flashes de
Fátima
Escrevem os leitores ����������������������������������������
4
......................
Ciência e Revelação (Editorial) . . . . . . . . . . . .
Director:
Manuel Silvio de Abreu Almeida
Conselho de redacção:
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Blanco Cortés, Mariana Morazzani
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da Associação
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Arautos do Evangelho
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36040 Brendola (VI)
Os artigos desta revista poderão ser reproduzidos,
desde que se indique a fonte e se envie cópia à
Redacção. O conteúdo das matérias assinadas
é da responsabilidade dos respectivos autores.
Membro da
Ó Cruz, única esperança!
A voz do Papa –
Na escola de São Tomás
de Aquino
Tiragem: 40.000 exemplares
......................
........................
6
Comentário ao Evangelho –
Voar sem amarras!
......................
10
Qumran, confirmação
ou desmentido?
......................
18
36
A palavra dos Pastores –
Anunciar com vigor e
alegria
......................
38
Aconteceu na Igreja e
no mundo
......................
40
História para crianças...
O segundo pedido
......................
46
Arautos no mundo
......................
24
Um jesuíta
vestido de púrpura
......................
Associação de Imprensa de
Inspiração Cristã
32
5
Boletim da Campanha
“O Meu Imaculado Coração Triunfará!”
Ano XII  nº 88 - Setembro 2010
Os homens de fé mudam
os rumos da história
Os santos de
cada dia
......................
48
Uma garantia de salvação
28
......................
50
E screvem
Os doze frutos do Espírito Santo
Desejo com imenso júbilo parabenizar os articulistas da revista
Arautos do Evangelho. De maneira
especial ao Sr. Flávio Roberto Fugiyama, por dissertar, sabiamente
e com muito esmero, sobre os doze
frutos do Espírito Santo.
Considerando, paulatinamente,
seus frutos para nós, leitores, são
um largo cabedal de sabedoria e
­ciência, do qual nossa Igreja Católica Romana soe conceder às pessoas iluminadas pelo Divino Paráclito, no desejo de nos unir a ela com
vínculos mais fortes.
José Maria Tardeli
Americana – Brasil
Fidelidade e amor à Igreja
Gostaria de agradecer à direção da
revista Arautos do Evangelho, pela fidelidade e amor à Igreja Católica que
permeiam todas as suas matérias.
Dignos de especial menção são os
artigos de Mons. João Scognamiglio
Clá Dias, verdadeiros trabalhos acadêmicos que, ao mesmo tempo, dão
prova de que o Espírito Santo não
deixa de atuar na Igreja, através dos
seus membros. Pois, apoiando-se
em autores os mais ilustres, Mons.
João instrui e ilumina nosso intelecto, mas, sobretudo, impele nossas
almas para uma vida mais próxima
dos ideais católicos.
Fernando Galán Villacampa
Saragoza – Espanha
Refinado e impecável conteúdo
Reverendíssimo Mons. João Scognamiglio Clá Dias,
A revista Arautos do Evangelho é
efetivamente uma obra-prima, sob
todos os aspectos, mormente quanto ao refinado e impecável conteú4      Flashes de Fátima · Setembro 2010
os leitores
do. Recebo-a e leio-a com extremada satisfação e gáudio.
Aproposita-se, pois, destacar que
a leitura da publicação enleva a alma e nos aproxima do que efetivamente interessa: a Palavra de Deus,
cuja inobservância é causa de todas
as desditas sociais que vivemos. Parabéns a V. Rev.ma pela luta empreendida no sentido de propagar tão
belas mensagens.
Lindinalvo Almeida Filho
Chefe da ­Delegacia de
­Polícia Federal
Ribeirão Preto – Brasil
Educar os pequeninos
É uma alegria poder felicitar os
Arautos do Evangelho, que há anos
trabalham aqui, no Equador, para
difundir o amor a Deus e à Virgem
Maria. Agradam-me todas as suas
propostas de evangelização, e suas
iniciativas me enchem de expectativa. Pela grande acolhida que têm,
vejo que as famílias do Equador estão sendo educadas e guiadas a reconhecer o amor de Deus e de Sua
Mãe Santíssima, resgatando os valores morais e religiosos que sempre
nos ensinou a Igreja Católica.
É o Espírito Santo que Se encontra agora empenhado em educar os
pequeninos, sementes para o futuro,
através das Histórias para crianças: é
um tesouro do qual seguramente desfrutarão e aprenderão, em cada um
dos exemplos que encontramos nessa
seção. Espero que este sistema de ensino chegue a uma grande quantidade de crianças e faça florescer em seus
pequenos corações o desejo enorme
de amar a Deus e a Maria Santíssima.
Lucía Andrade Iñiguez
Cuenca – Equador
Comentário de profundo
teor teológico
Venho acompanhando há vários
meses a Revista e me surpreendo ca-
da vez mais pelos assuntos nela abordados. O conteúdo é de excelente escolha em todos os aspectos.
Fiquei com o coração transbordando de alegria ao ler a revista do
mês de julho, cujo tema se refere
ao Evangelho do XVI Domingo do
Tempo Comum: O amor imperfeito de Maria e a preocupação naturalista de Marta. Excelente o comentário de Mons. João Scognamiglio Clá
Dias, EP, profundo e de grande teor
teológico, citando inumeráveis fontes de suma importância para todos
nós católicos praticantes. Realmente é uma leitura meditativa, que nos
faz refletir e mergulhar em sua essência, para interiorizarmos todo o
seu conteúdo.
Jonny Henrique Braga
Santos – Brasil
Meios para fortalecer a fé
Antes de mais nada, queria felicitá-los por sua belíssima revista. Por
outro lado, gostaria muitíssimo de
ver nela artigos sobre “Milagres Eucarísticos” e sobre Santos cujos corpos permanecem incorruptos. Tomei
conhecimento de que no mundo há
cerca de dois mil, tendo em comum
apenas o fato de terem sido batizados e recebido a Sagrada Eucaristia.
A circunstância particular de incorruptibilidade desses corpos parece-me ser um elemento particularmente convincente para fortalecer a fé de
muitos. E embora Nosso Senhor tenha dito a São Tomé: “Bem-aventurados os que creram sem ter visto!”,
inclusive este Santo necessitou pôr a
mão na chaga para crer... Mais ainda, julgo ser fundamental, nos tempos em que vivemos, usarmos todos
os meios a nosso alcance para crescer no amor a Deus e ajudar nossos
irmãos que correm perigo de perder-se por toda a eternidade...
Isabel M. Correa Parker
Santiago – Chile
Editorial
Ciência
e Revelação
I
88
Número
o 2010
Setembr
marras!
a
Voar sem
Devemos viver
desprendidos de
tudo quanto é
terreno, tal como
uma águia que voa
nas alturas
(ver p.10-17)
(Foto: Gerard Fritz / Getty
Images)
nvestigar a natureza, as coisas em si mesmas, suas propriedades, constitui uma
necessidade humana. Segundo São Tomás, os conhecimentos assim adquiridos contribuem para o homem crescer no amor a Deus e situar-se a si próprio
no conjunto da criação, como também para vencer doutrinas erradas a respeito das realidades terrenas (Cf. Summa contra gentiles, c.1-4).
Homens da estatura de um Santo Alberto Magno, destaca o Papa Bento XVI,
se dedicaram a “cultivar tranquilamente o estudo das ciências naturais e progredir no conhecimento do microcosmos e do macrocosmos, descobrindo as leis próprias da matéria, porque tudo isto concorre para alimentar a sede e o amor a
Deus”. Com seu espírito aberto e abrangente, o Doctor Universalis demonstra assim “que entre fé e ciência não existe oposição, não obstante alguns episódios de
incompreensão que se verificaram na História” (Audiência, 24/3/2010).
Meses depois, o Santo Padre lembrará também as palavras do famoso jesuíta
Matteo Ricci, para quem ciência, razão e fé formam uma síntese natural: “Quem
conhece o céu e a terra — escreve no prefácio para a terceira edição do mapa-múndi — pode provar que Quem governa o céu e a terra é absolutamente bom,
absolutamente grande e absolutamente único. Os ignorantes rejeitam o Céu, mas
a ciência que não remonta ao Imperador do Céu como à causa primeira, não é de
modo algum ciência” (Discurso de 29/5/2010).
Na sua elevada missão de estudar o universo material e compreender suas leis
físicas, a ciência nunca poderá, portanto, contradizer os dados da Revelação, que
afinal têm sua origem no mesmo Criador. A própria natureza das coisas supõe um
convívio harmonioso entre ciência e fé. Sempre que algum dado parecer conflitante, ou será fruto de um mal-entendido, ou de uma falha na interpretação dos
experimentos, ou de uma teoria sem fundamento na realidade. Cedo ou tarde
aquilo cairá por terra e a verdade prevalecerá.
Para não nos limitarmos aos campos da física, química e biologia, tomemos as
áreas que ajudam o homem a entender sua própria história, desvendando-lhe seu
passado: arqueologia, linguística histórica, papirologia, epigrafia e ramos correlatos. Quando o que se tem em vista é estabelecer a verdade honestamente, suas
conclusões e descobertas se harmonizam com os dados da Fé.
Um exemplo evidente nos vem do longo trabalho referente aos Manuscritos
do Mar Morto recolhidos nas grutas de Qumran, e que tanto papel e tinta fizeram correr desde sua descoberta em 1947. Ordenado e posto à disposição do público o conjunto do material encontrado naquelas grutas, estudos sérios e ponderados, verdadeiramente científicos, demonstraram não haver naqueles antigos papiros e pergaminhos nada que contradiga o que a Igreja sempre ensinou a propósito das Sagradas Escrituras. Pelo contrário, colocaram nas mãos dos exegetas um
precioso instrumento para o desenvolvimento de sua ciência e o aprofundamento da Revelação. ²
Setembro 2010 · Flashes
de Fátima      5
A voz do Papa
Na escola de
São Tomás de Aquino
Todos nós, filhos da Igreja, devemos, pelo menos em certa
medida, ser discípulos do Doutor Angélico e nos colocarmos
na escola da sua obra-prima, a “Summa Theologiæ”.
H
oje gostaria de completar, com uma terceira parte, as minhas catequeses sobre São Tomás de Aquino. Até a mais de setecentos anos de distância da sua morte,
podemos aprender muito dele. Recordava-o inclusive o meu Predecessor,
o Papa Paulo VI, que, num discurso
pronunciado em Fossanova no dia 14
setembro de 1974, por ocasião do sétimo centenário da morte de São Tomás, se interrogava: “Mestre Tomás,
que lição nos pode dar?”. E respondia
com estas palavras: “A confiança na
verdade do pensamento religioso católico, como foi por ele defendido, exposto e aberto à capacidade cognoscitiva da mente humana” (Insegnamenti di Paolo VI, XII, p.833-834). E, nesse mesmo dia, em Aquino, referindo-se ainda a São Tomás, ele afirmava:
“Todos nós que somos filhos da Igreja podemos e devemos, pelo menos
em certa medida, ser seus discípulos!”
(Idem, p.836).
Esforço da mente
iluminado pela oração
Por conseguinte, coloquemo-nos também nós na escola de São
6      Flashes de Fátima · Setembro 2010
Tomás e da sua obra-prima, a Summa Theologiæ. Ela permaneceu incompleta, e todavia é uma obra monumental: contém 512 questões e
2.669 artigos. Trata-se de um raciocínio cerrado, em que a aplicação
da inteligência humana aos mistérios da Fé procede com clareza e
profundidade, enlaçando perguntas e respostas, nas quais São Tomás aprofunda o ensinamento que
deriva da Sagrada Escritura e dos
Padres da Igreja, principalmente de
Santo Agostinho.
Nesta reflexão, no encontro com
verdadeiras interrogações do seu
tempo, que são muitas vezes também as nossas, São Tomás, utilizando inclusive o método e o pensamento dos filósofos antigos, de modo particular de Aristóteles, chega
desta maneira a formulações exatas, lúcidas e pertinentes das verdades de Fé, onde a verdade é um dom
da Fé, resplandece e torna-se acessível para nós, para a nossa reflexão.
No entanto, este esforço da mente humana — recorda o Aquinate,
com a sua própria vida — é sempre
iluminado pela oração, pela luz que
procede do Alto. Só quem vive com
Deus e com os mistérios pode compreender também o que eles dizem.
Estrutura de uma obra
monumental
Na Summa Theologiæ, São Tomás começa a partir do fato de que
há três diversos modos do ser e da
essência de Deus: Deus existe em Si
mesmo, é o princípio e o fim de todas as coisas, pelo que todas as criaturas procedem e dependem d’Ele;
em seguida, Deus está presente
através da Sua Graça na vida e na
atividade do cristão, dos santos; por
fim, Deus está presente de maneira totalmente especial na Pessoa de
Cristo, aqui unido realmente com o
homem Jesus, e ativo nos Sacramentos, que brotam da Sua obra redentora. [...]
Trata-se de um círculo: Deus em
Si mesmo, que sai de Si próprio e
nos toma pela mão, de tal maneira que assim, com Cristo, voltemos
para Deus, permaneçamos unidos a
Deus, e Deus será tudo em todos.
Por conseguinte, a primeira parte
da Summa Theologiæ indaga a propósito de Deus em Si mesmo, sobre o mistério da Trindade e ­acerca
Setembro 2010 · Flashes
de Fátima      7
L'Osservatore Romano
da atividade criadora de
Deus. Nesta parte encontramos também uma profunda reflexão sobre a
­realidade autêntica do ser
humano enquanto derivado das mãos criadoras de
Deus, fruto do Seu amor.
Por um lado, somos seres criados, dependentes,
não derivamos de nós mesmos; mas por outro, gozamos de uma verdadeira autonomia, de tal forma que
não somos só aparência —
como dizem alguns filósofos platônicos — mas uma
realidade desejada por
­
Deus como tal, e com um
valor em si mesma.
"Em nenhuma criatura, como em Nossa Senhora, as três Pessoas divinas habitam
e sentem a delícia e a alegria por viver na Sua alma cheia de Graça."
Na segunda parte, São
Tomás considera o hoAudiência Geral de 23/6/2010 na Sala Paulo VI
mem, impelido pela Graça, na sua aspiração a conhecer e picaz de mais de cinquenta virtudes cular sobre o Mistério da Eucarisamar a Deus para ser feliz no tem- morais, organizadas em volta das tia, ao qual teve uma enorme depo e na eternidade. Em primeiro lu- quatro virtudes cardeais — a pru- voção, a tal ponto que, segundo
gar, o Autor apresenta os princípios dência, a justiça, a temperança e a os antigos biógrafos, costumava
teológicos do agir moral, estudando fortaleza. Em seguida, termina com aproximar a sua cabeça do Tabercomo, na livre escolha do homem de a reflexão a respeito das diversas vo- náculo, como que para sentir palrealizar atos bons, se integram a ra- cações existentes na Igreja.
pitar o Coração divino e humano
Na terceira parte da Summa de Jesus.
zão, a vontade e as paixões, às quais
se acrescenta a força que confere a ­Theologiæ, São Tomás estuda o MisNuma das suas obras de comenGraça de Deus através das virtudes tério de Cristo — o Caminho e a tário à Escritura, São Tomás ajudae dos dons do Espírito Santo, co- Verdade — por meio do qual nós -nos a compreender a excelência do
mo também a ajuda que é ofereci- podemos unir-nos a Deus Pai. Nes- Sacramento da Eucaristia, quanda inclusive pela lei moral. Portan- ta seção, ele escreve páginas prati- do escreve: “Dado que a Eucaristia
to, o ser humano é um ser dinâmi- camente insuperadas a propósito do é o Sacramento da Paixão de Nosco que se põe em busca de si mes- Mistério da Encarnação e da Pai- so Senhor, contém em si mesma Jemo, procura tornar-se ele mesmo e, xão de Jesus, acrescentando depois sus Cristo que padeceu por nós.
neste sentido, tenta realizar atos que um vasto estudo sobre os sete Sacra- Portanto, tudo aquilo que é efeito
o edificam, que o tornam verdadei- mentos, porque neles o Verbo divi- da Paixão de Nosso Senhor, é tamramente homem; e aqui entra a lei no encarnado dilata os benefícios bém efeito deste Sacramento, uma
moral, entram a Graça e a própria da Encarnação para a nossa salva- vez que ele não é outra coisa seção, para o nosso caminho de fé ru- não a aplicação em nós da Paixão
razão, a vontade e as paixões.
Sobre este fundamento, São To- mo a Deus e à vida eterna, perma- do Senhor” (In Ioannem, c.6, lect.6,
más delineia a fisionomia do homem nece materialmente quase presente n.963). Assim compreendemos bem
que vive em conformidade com o com as realidades da criação, tocan- por que motivo São Tomás e ouEspírito e que, deste modo, se torna do-nos deste modo no nosso íntimo.
tros santos celebraram a Santa Misum ícone de Deus. Aqui, o Aquinate
sa vertendo lágrimas de compaixão
Apaixonemo-nos pela Eucaristia!
detém-se para estudar as três virtupelo Senhor, que Se oferece em sades teologais — fé, esperança e caFalando sobre os Sacramentos, crifício por nós, lágrimas de alegria
ridade — seguidas pelo exame pers- São Tomás reflete de modo parti- e de gratidão.
Prezados irmãos e irmãs, na escola dos santos, apaixonemo-nos por
este Sacramento! Participemos na
Santa Missa com recolhimento, para alcançar os seus frutos espirituais,
nutramo-nos do Corpo e do Sangue
do Senhor, para sermos incessantemente alimentados pela Graça divina! Permaneçamos de bom grado e
frequentemente, tu a tu, em companhia do Santíssimo Sacramento!
Argumentos que não devem faltar
na catequese e na pregação
Aquilo que São Tomás explicou
com rigor científico nas suas obras
teológicas principais — como precisamente a Summa Theologiæ e a
Summa contra Gentiles —, foi exposto inclusive na sua pregação, dirigida aos estudantes e aos fiéis.
Em 1273, um ano antes da sua
morte, durante a Quaresma inteira,
ele fez pregações na Igreja de São
Domingos Maior, em Nápoles. O
conteúdo destes sermões foi recolhido e conservado: trata-se dos Opúsculos em que ele explica o Símbolo dos Apóstolos, interpreta a oração do Pai-Nosso, ilustra o Decálogo
e comenta a Ave-Maria. O conteúdo
da pregação do Doctor Angelicus corresponde quase inteiramente à estrutura do Catecismo da Igreja Católica.
Com efeito, na catequese e na
pregação, numa época como a nossa, de renovado compromisso em
benefício da evangelização, nunca
deveriam faltar estes argumentos
fundamentais: aquilo em que cremos, eis o Símbolo da Fé; aquilo que
oramos, eis o Pai-Nosso e a Ave-Maria; e aquilo que vivemos, como
nos ensina a Revelação bíblica, eis a
lei do amor a Deus e ao próximo, e
dos Dez Mandamentos, como explicação deste mandato do amor.
Resposta de São Tomás àqueles
que objetam contra a fé
Gostaria de propor alguns exemplos do conteúdo, simples, essencial
8      Flashes de Fátima · Setembro 2010
e convincente, do ensinamento de
São Tomás.
No seu Opúsculo sobre o Símbolo dos Apóstolos, ele explica o valor
da fé. Por meio dela, diz, a alma une-se a Deus e brota como que um rebento de vida eterna; a vida recebe
uma orientação certa e nós superamos agilmente as tentações. Àqueles que objetam que a fé é uma estultice, porque faz acreditar em algo
que não faz parte da experiência dos
sentidos, São Tomás oferece uma
resposta muito elaborada, e recorda
que se trata de uma dúvida inconsistente, porque a inteligência humana
é limitada e não pode conhecer tudo. Só se pudéssemos conhecer perfeitamente todas as coisas visíveis e
invisíveis, então seria uma autêntica estultice aceitar verdades por pura fé. De resto, é impossível viver,
observa São Tomás, sem confiar na
experiência dos outros, aonde o conhecimento pessoal não chega.
Por conseguinte, é racional ter
fé em Deus que Se revela e no testemunho dos Apóstolos: eles eram
poucos, simples e pobres, amargurados por causa da Crucifixão do seu
Mestre; e no entanto, muitas pessoas sábias, nobres e ricas se converteram em pouco tempo à escuta
da sua pregação. Com efeito, trata-se de um fenômeno historicamente prodigioso, ao qual é difícil poder dar outra resposta racional, a
não ser a do encontro dos Apóstolos
com o Senhor Ressuscitado.
Considerações sobre o
Mistério da Encarnação
Comentando o artigo do Símbolo sobre a Encarnação do Verbo divino, São Tomás faz algumas considerações. Afirma que a fé cristã,
tendo em conta o mistério da Encarnação, é revigorada; a esperança eleva-se com maior confiança,
ao pensamento de que o Filho de
Deus veio entre nós, como um de
nós, para comunicar aos homens a
Sua própria divindade; a caridade
é reavivada, porque não existe sinal mais evidente do amor de Deus
por nós, do que ver o Criador do
universo fazer-Se Ele mesmo uma
criatura, um de nós.
Finalmente, considerando o mistério da Encarnação de Deus, sentimos inflamar-se o nosso desejo de alcançar Cristo na glória. Recorrendo
a uma comparação simples e eficaz,
São Tomás observa: “Se o irmão de
um rei estivesse distante, certamente desejaria poder viver ao lado dele.
Pois bem, Cristo é nosso irmão: por
conseguinte, temos que desejar a Sua
companhia, tornando-nos um só coração com Ele” (Opuscoli teologico-spirituali, Roma, 1976, p.64). [...]
Nossa Senhora: lugar onde a
Trindade encontra o Seu descanso
Como todos os santos, também
São Tomás foi um grande devoto de
Nossa Senhora. Ele definiu-A com
um apelativo maravilhoso: Triclinium totius Trinitatis; triclínio, ou seja, lugar onde a Trindade encontra o
Seu descanso porque, em virtude da
Encarnação, em nenhuma criatura
como n’Ela as três Pessoas divinas
habitam e sentem a delícia e a alegria por viver na Sua alma cheia de
Graça. Pela Sua intercessão, nós podemos obter todo auxílio.
Com uma oração, que tradicionalmente é atribuída a São Tomás e que,
de qualquer maneira, reflete os elementos da sua profunda devoção mariana, digamos nós também: “Ó bem-aventurada e doce Virgem Maria,
Mãe de Deus... confio ao Teu Coração misericordioso toda a minha vida... Obtém-me, ó minha doce Senhora, verdadeira caridade, com a
qual eu possa amar de todo o coração o Teu santíssimo Filho e a Ti, depois d’Ele, acima de todas as coisas, e
o próximo em Deus e por Deus”. 
(Excertos da Audiência Geral,
23/6/2010)
As exigências
do chamado de Cristo
As exigências do chamado de Cristo podem nos parecer demasiado severas, mas
na realidade expressam a novidade e a prioridade absoluta do Reino de Deus.
nhor jamais poderá arrepender-se (cf. Lc 9, 57-58.61-62).
A outro jovem o próprio
Cristo diz: “Segue-Me”, pedindo-lhe um desapego total dos
vínculos familiares (cf. Lc 9,
59-60). Estas exigências podem
parecer demasiado severas,
mas na realidade expressam a
novidade e a prioridade absoluta do Reino de Deus que se
torna presente na própria Pessoa de Jesus Cristo.
Em última análise, trata-se
daquela radicalidade que é devida ao Amor de Deus, ao qual
Jesus é o primeiro que obedece.
Quem renuncia a tudo, até a si
mesmo, para seguir Jesus, entra numa nova dimensão da liberdade, que São Paulo define
“caminhar segundo o Espírito”
(cf. Gl 5, 16). “Cristo libertou-nos para a liberdade!” — escreve o Apóstolo — e explica
que esta nova forma de liberdade que nos foi conquistada por
Cristo consiste em estar “ao serviço uns dos outros” (Gl 5, 1-13).
Liberdade e amor coincidem!
Ao contrário, obedecer ao próprio
­egoísmo leva a rivalidades e conflitos. 
Victor Toniolo
A
s leituras bíblicas da
Santa Missa deste domingo dão-me oportunidade de retomar o tema do
chamado de Cristo e das Suas exigências, tema sobre o qual
me detive também há uma semana, por ocasião das Ordenações dos novos presbíteros da
Diocese de Roma.
De fato, quem tem o privilégio de conhecer um jovem
ou uma moça que deixa a família de origem, os estudos ou
o trabalho para se consagrar a
Deus, sabe bem do que se trata, porque tem diante de si um
exemplo vivo de resposta radical à vocação divina.
Esta é uma das experiências
mais bonitas que se fazem na
Igreja: ver, sentir a ação do Senhor na vida das pessoas; experimentar que Deus não é uma
entidade abstrata, mas uma
realidade tão grande e for­
te que enche de modo superabundante o coração do homem, uma Pessoa viva e próxima,
que nos ama e pede para ser amada.
O Evangelista Lucas apresenta-nos Jesus que, no Seu caminho rumo a Jerusalém, encontra alguns homens, provavelmente jovens, os quais
prometem segui-Lo onde quer que
Ele vá. Ele mostrou-Se muito exigente com eles, admoestando-os que
“o Filho do homem — isto é, Ele, o
Messias — não tem onde repousar
a cabeça”; ou seja, não tem uma habitação estável, e que quem escolhe
trabalhar com Ele na vinha do Se-
(Excerto do Angelus, 27/6/2010)
Todos os direitos sobre os documentos pontifícios estão reservados à Libreria Editrice Vaticana.
A íntegra dos documentos acima pode ser encontrada em www.vatican.va
Setembro 2010 · Flashes
de Fátima      9
Comentário ao Evangelho – XXIII Domingo do Tempo Comum
Voar sem amarras!
Claras são as condições para seguirmos a Jesus.
Depende de nos libertarmos das amarras que
nos prendem à terra.
Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP
I – Amarras e lastros
na vida espiritual
Em
consequência
do pecado,
costuma
haver amarras
que prendem
as nossas
almas à terra
e lastros que
dificultam
seu itinerário
rumo à
perfeição
Em junho de 1783, os irmãos Joseph-Michel e
Jacques-Étienne Montgolfier, filhos de um fabricante de papel de Lyon, conseguiram fazer voar,
perante os assombrados olhos dos seus conterrâneos, um grande balão feito de linho, com 32 metros de circunferência. Cheio de ar quente fornecido pela combustão de palha seca, a aparatosa invenção elevou-se várias centenas de metros
acima do solo e percorreu em dez minutos uma
distância de dois a três quilômetros. Três meses
depois, repetiram com êxito sua experiência no
Parque de Versalhes, diante de Luís XVI, Maria
Antonieta e toda a corte da França.
Desde então, foi muito aperfeiçoada a técnica de fabricação dos aeróstatos, mas o princípio
de seu funcionamento — baseado numa das mais
elementares leis da Física — continua inalterado: sendo mais leve, o ar quente tende a subir.
Enquanto está sendo enchido de ar, o balão fica
preso ao solo por amarras. Em certo momento,
são elas soltas e o engenho inicia sua ascensão,
sendo então preciso ir liberando lastros gradativamente para ele poder atingir uma altura maior.
Esta é uma bela imagem da elevação das almas a Deus. “Aquecidas” pela prática das virtudes, especialmente da caridade, iniciam elas a subida espiritual e começam a “voar”. Costuma ha-
10      Flashes de Fátima · Setembro 2010
ver, porém, em consequência do pecado, amarras que as prendem à terra e lastros que dificultam seu itinerário rumo à perfeição. É imperioso, portanto, cortar aquelas e alijar estes, para o
espírito humano poder elevar-se ao transcendente e ao eterno. À semelhança de nosso corpo, padecem as almas dos danosos efeitos de uma espécie de lei da gravidade espiritual por onde nos
sentimos atraídos para o mais baixo, o mais trivial, o que nos exige menos esforço.
Até para as pessoas consagradas existem
amarras e lastros, por vezes mais difíceis de soltar do que os dos simples fiéis. Se os religiosos
não corresponderem ao convite da graça para viver num patamar mais elevado, poderão sentir
uma como que vertigem por onde tenderão a se
apegar com especial veemência ao que é terreno.
Para ajudar a vencer esses entraves nas instituições religiosas, tem o Espírito Santo suscitado, ao longo dos tempos, as mais diversas formas de espiritualidade que intensificam o desapego dos bens passageiros. Algumas nos causam espanto por sua radicalidade. Por exemplo,
a Ordem dos Clérigos Regulares Teatinos vive
de esmolas, como tantas outras, mas seus membros não podem pedi-las: devem esperar que
elas lhes sejam oferecidas espontaneamente!1
Em vista dessa nossa má tendência, Cristo
nos ensina serem indispensáveis a renúncia e a
Gustavo Kralj
Os balões de ar quente são uma bela imagem da elevação das almas a Deus
"Ancensão do balão Montgolfier em Aranjuez", por Antonio Carnicero - Museu do Prado, Madri
a  Evangelho  A
“Naquele tempo, 25 grandes multidões
acompanhavam Jesus. Voltando-Se, Ele
lhes disse: 26 ‘Se alguém vem a Mim, mas
não se desapega de seu pai e de sua mãe,
sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs e até da sua própria vida, não pode ser meu discípulo. 27 Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de Mim,
não pode ser Meu discípulo.
28
Com efeito: qual de vós, querendo
construir uma torre, não se senta primeiro e calcula os gastos, para ver se tem o
suficiente para terminar? Caso contrário
29
ele vai lançar o alicerce e não será capaz de acabar. E todos os que virem isso
começarão a caçoar, dizendo: 30 ‘Este homem começou a construir e não foi capaz de acabar!’
31
Ou ainda: Qual o rei que ao sair para guerrear com outro, não se senta primeiro e examina bem se com dez mil
homens poderá enfrentar o outro que
marcha contra ele com vinte mil? 32 Se
ele vê que não pode, enquanto o outro
rei ainda está longe, envia mensageiros
para negociar as condições de paz. 33 Do
mesmo modo, portanto, qualquer um
de vós, se não renunciar a tudo o que
tem, não pode ser Meu discípulo!’” (Lc
14, 25-33).
Setembro 2010 · Flashes
de Fátima      11
Corbis (DC)/ Latinstock.
Como
explicar,
à luz dos
Mandamentos
da Lei de
Deus, essa
prescrição
de odiar os
parentes mais
próximos e
até a própria
vida?
“São Francisco de Assis renuncia às riquezas terrenas”, por Giotto di Bondone - Basílica de Assis (Itália)
São Francisco toma a Deus por Pai
D
epois de levar uma vida mundana,
decidiu-se Francisco de Assis (11821226) a desposar a Dama Pobreza, à estrita
imitação de Nosso Senhor Jesus Cristo, renunciando a todos os seus bens.
Para o ganancioso pai, Pedro Bernardone, que se queixava ao Bispo da excessiva generosidade das esmolas do filho, Fran-
abnegação, para sermos verdadeiros discípulos
Seus. Eis a lição da Liturgia deste domingo.
II – Odiar o pai e a mãe?
“Naquele tempo, 25 grandes multidões
acompanhavam Jesus. Voltando-Se, Ele
lhes disse:”.
No início de Sua pregação, apenas alguns
iam atrás do Divino Mestre, mas, em pouco
tempo, o número dos Seus seguidores foi crescendo até formar um público considerável. A
esta altura do Evangelho de São Lucas, quando
Ele Se encaminha pela última vez a Jerusalém,
já se pode dizer que “grandes multidões acompanhavam Jesus”.
12      Flashes de Fátima · Setembro 2010
cisco entrega até suas ricas vestimentas, passando a usar apenas uma pobre túnica.
Preferiu, assim, tomar a Deus por Pai,
atendendo ao pedido que Nosso Senhor lhe
fizera na capela de São Damião de restaurar a casa de Deus, que estava em ruínas, em
referência à situação lamentável da Santa
Igreja na época.
Entretanto, nem todos poderiam ser chamados propriamente Seus discípulos. Como sublinha o Cardeal Gomá, aquelas multidões seguiam Nosso Senhor “movidas talvez por pensamentos demasiado humanos, pressagiando
quiçá a glória temporal do Reino Messiânico”.2
Foi esse o motivo que levou Jesus a voltar-Se
para eles a fim de ensinar-lhes — e também a nós
— o verdadeiro significado do Reino dos Céus e
as condições para alcançá-lo.
Jesus deve ser amado com
um amor perfeitíssimo
“Se alguém vem a Mim, mas não se
desapega de seu pai e de sua mãe, sua
mulher e seus filhos, seus irmãos e suas
26
irmãs, e até da sua própria vida, não pode ser Meu discípulo”.
Embora algumas versões da Escritura interpretem nesta passagem o sentido do verbo grego μισεω como “desapegar-se”, a Vulgata prefere traduzir o termo μισεῖ por odit (odeia).
Daí a formulação clássica deste versículo: “Se
alguém vem a Mim e não odeia seu pai, sua
mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos, suas irmãs e até a sua vida, não pode ser Meu discípulo”.3
Ora, como explicar, à luz dos Mandamentos
da Lei de Deus, essa prescrição de odiar os parentes mais próximos e até a própria vida? Tirar
dela todas as consequências às quais uma consideração superficial pode induzir, não levaria este versículo ao parricídio, ao fratricídio e mesmo ao suicídio? Não terá sido, então, incorreta,
por hiperbólica, a tradução de São Jerônimo?
Não parece. Pelo contrário, o uso do verbo odiar sublinha com ênfase didática, neste contexto, o sentido mais profundo das palavras do Mestre: a necessidade de amarmos
a Deus acima de tudo, portanto, de nos desapegarmos radicalmente até mesmo do que nos
for mais caro, se isto representar um obstáculo para seguirmos a Cristo. Pois Jesus é digno
de ser amado com um amor perfeitíssimo, e jamais chegará a ser Seu verdadeiro discípulo
quem não estiver disposto a, por causa d’Ele,
levar aos últimos extremos o desprendimento: “Quem ama seu pai ou sua mãe mais que a
Mim, não é digno de Mim” (Mt 10, 37).
Explica São Tomás, na Suma Teológica, que
cabe à virtude da piedade “prestar aos pais culto e serviços, mas dentro das devidas medidas.
Ora, não existe devida medida quando se tende a prestar ao homem um culto maior do que
aquele que se presta a Deus. [...] Se, por conseguinte, o culto devido aos pais viesse a nos
afastar do culto a Deus, já não seria mais piedade filial ficar insistindo num culto que é contra Deus”.4
Deve ser interpretado no mesmo sentido o
convite a desapegar-se “até da própria vida”,
como bem apontam Balz e Scheider: “A dupla
exigência de Jesus — necessidade de odiar os
pais e até a si mesmo, por causa d’Ele (Lc 14,
26), e de não amar os pais mais do que a Ele
(Mt 10, 37) — tem na realidade este significado: para seguir a Jesus, é preciso pôr tudo de
lado”.5
Os inimigos serão os próprios familiares
Ora, como podem pai e mãe, irmão e irmã
representarem obstáculos para a nossa salvação?
Para melhor responder a esta pergunta, é útil
lembrar outra passagem do Evangelho, correlata à que agora comentamos: “Não penseis que
vim trazer paz à terra. Não vim trazer paz, mas
sim, a espada. De fato, Eu vim pôr oposição entre o filho e seu pai, a filha e sua mãe, a nora e
sua sogra; e os inimigos do homem serão seus
próprios familiares” (Mt 10, 34-36).
Sobre estes versículos de São Mateus — mais
incisivos ainda, sob certo sentido, que os de São
Lucas —, comenta Romano Guardini: “A mensagem de Jesus é mensagem de salvação. Anuncia o amor do Pai e o advento do Reino. Chama os homens para a paz e para a concórdia, na
vontade santa. Contudo, Sua palavra não começa por produzir a união, mas a divisão. Quanto
mais um homem se torna profundamente cristão, mais a sua vida se distingue da vida dos outros que não querem tornar-se cristãos, ou na
medida em que se recusam a sê-lo. [...] Eis porque pode assim haver uma cisão entre pai e filho, amigo e amigo, ou entre os moradores de
uma mesma casa”.6
Verdadeiro sentido do verbo odiar
Ora, logo a seguir, Guardini acrescenta, com
muita acuidade, que a exigência de odiar os parentes quando eles nos afastam de Deus “é antinatural, e provoca a tentação de guardar os parentes naturais e de abandonar Jesus”.7
É visando tornar clara a necessidade que o
homem tem de fazer violência contra si mesmo
para ser verdadeiro discípulo de Cristo, que a
Vulgata, São Tomás, São Gregório Magno e
muitos outros comentaristas recorrem a um
termo tão radical quanto o verbo odiar: “Gregório interpreta esta palavra do Senhor no sentido
de que ‘devemos odiar nossos pais e deles fugir,
ignorando-os, quando os temos como adversários no caminho de Deus’. Se, de fato, nossos
pais nos induzirem ao pecado e nos afastarem
do culto divino, no que concerne a este ponto
específico devemos odiá-los e abandoná-los”.8
Portanto, é natural, legítimo e até um dever
o amor a irmãs e irmãos, filhas e filhos, pai ou
mãe; mas devemos repudiá-lo com toda energia, se ele nos impede de seguir a Cristo. Mais
uma vez, é São Tomás quem esclarece: “Não
Setembro 2010 · Flashes
A dupla
exigência de
Jesus tem, na
realidade, este
significado:
para seguir
a Jesus é
preciso pôr
tudo de lado
de Fátima      13
Os pais devem
ser honrados
enquanto
estão unidos
a nós pela
natureza e
por afinidade,
mas devemos
odiá-los se
forem um
obstáculo em
nossa ascensão
à perfeição da
justiça divina
São inestimáveis, e a certo título insuperáveis, o estímulo e o apoio da família para a santificação
Beatos Zélie e Louis Martin, pais de Santa Teresinha do Menino Jesus (no centro, aos oito anos de idade)
nos é ordenado odiar nossos próximos porque
eles são nossos próximos, mas somente os que
nos impedem de nos unirmos a Deus. Nisso eles
não são nossos próximos, mas inimigos, conforme o livro de Miqueias: ‘Os inimigos do homem, os seus próprios familiares’ (Mq 7, 6)”.9
E, mais adiante, acrescenta: “Portanto, deve-se dizer que, segundo o mandamento de Deus,
os pais devem ser honrados enquanto estão unidos a nós pela natureza e por afinidade, como
mostra o livro do Êxodo. Mas devemos odiá-los
se forem um obstáculo em nossa ascensão à perfeição da justiça divina”.10
Fica, assim, posta a questão no seu verdadeiro
equilíbrio. E pode a Santa Igreja ensinar com toda
autoridade essa doutrina, pois foi ela quem evangelizou os povos pagãos e consolidou no mundo os
princípios basilares da família monogâmica e indissolúvel, por sua pregação e pela administração do
Sacramento do Matrimônio, instituído por Nosso
Senhor Jesus Cristo. Com isso, estabeleceu em situação digna na sociedade a mulher e os filhos, fazendo cessar abusos vigentes no mundo antigo, como o “direito” do pai matar os filhos ou o marido
repudiar a esposa. Entretanto, ao mesmo tempo,
enfatiza ela que tudo, até mesmo a família, está subordinado ao serviço e à glória de Deus.
Ainda a propósito do verbo odiar, aduz o
padre Duquesne um importante esclarecimen-
14      Flashes de Fátima · Setembro 2010
to: “O termo odiar não significa que devemos
fazer ou desejar-lhes o mal; mas ele assinala
o ardor, a coragem, a força com a qual devemos lhes resistir, caso se oponham à nossa salvação, nos arrastem para o mal, nos demovam
de assumir o estado ao qual Deus nos chama,
ou queiram engajar-nos naquele ao qual Deus
não nos chama; caso nos impeçam de abraçar a
verdadeira Fé, e se esforcem por nos reter ou
nos lançar no erro”.11
Em sentido contrário, podemos considerar numerosos exemplos que nos mostram como são
inestimáveis, e a certo título insuperáveis, o estímulo e o apoio da família para os seus membros se
santificarem: Santa Mônica, cujas lágrimas e orações obtiveram a conversão do filho; São Basílio,
o Velho, e Santa Emília, pais de São Basílio, São
Gregório de Nissa, Santa Macrina e São Pedro de
Sebaste; ou os Beatos Luís e Zélia Martin, pais de
Santa Teresinha do Menino Jesus.
O prêmio virá na glória eterna
“Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de Mim, não pode ser Meu
discípulo”.
27
Estas palavras de Jesus descartam de vez
todas as esperanças triunfalistas que a maior
parte dos judeus tinha a propósito do reino
­ essiânico. Com efeito, em toda a Sua pregam
ção, jamais oferecera Nosso Senhor a plenitude
da felicidade nesta vida, mas sim a glória eterna,
cuja via passa pela abnegação e pelo sacrifício.
Per crucem ad lucem (é pela cruz que se chega à
luz), reza a conhecida divisa latina.
Bem ilustra o Apóstolo essa necessidade
de sacrifício e mortificação, recorrendo a um
exemplo especialmente vivo para os seus seguidores em Corinto: “Todo atleta se impõe todo tipo de disciplina. Eles assim procedem para
conseguir uma coroa corruptível. Quanto a nós,
buscamos uma coroa incorruptível! Por isso eu
corro, não como às tontas. Eu luto, não como
quem golpeia o ar. Trato duramente meu corpo
e o subjugo, para não acontecer que, depois de
ter proclamado a mensagem aos outros, eu mesmo seja reprovado” (I Cor 9, 25-27).
Ainda sobre este versículo do Evangelho, interessante é recordar uma piedosa consideração do
padre Duquesne: “Comparemos nossa cruz com
a de Jesus Cristo e as dos mártires, e envergonhemo-nos de nossa covardia!”.12 Não cabe, portanto,
levá-la a contragosto, reclamando do seu peso ou
manifestando amargura pelos sofrimentos que ela
nos traz. Quem assim procede, arrasta a cruz, não
a carrega; em consequência, não pode ser considerado discípulo do Mestre. Seguir Nosso Senhor
não significa apenas andar fisicamente atrás d’Ele,
como faziam muitos naquela multidão, mas sim
“imitar Seus exemplos, praticar Suas virtudes”,
acentua o mesmo padre Duquesne.13
III – Lucidez e prudência
Ensinar por meio de parábolas é uma constante da divina didática. Assim, vai Nosso Senhor recorrer agora a duas, para tornar vivo aos
olhos daquela multidão quanto o segui-Lo não
exige apenas esforço e abnegação, mas também
planejamento lúcido e cuidadosa execução, isto
é, “prudência e resolução em calcular o esforço
que isso nos custará”.14
Como não poderia deixar de ser, as duas imagens foram escolhidas com divina sabedoria, de
forma a ilustrar com perfeição o ensinamento
dos versículos anteriores. A este propósito, comenta Maldonado: “Cristo propôs as parábolas da torre e da guerra, de preferência a outros
temas, por tratar-se de empresas bem difíceis e
caras levantar torres e empreender guerras, as
quais requerem grande e diligente preparação”.15
Os cálculos para construir uma
torre ou travar uma guerra
“Com efeito: qual de vós, querendo construir uma torre, não se senta primeiro e calcula os gastos, para ver
se tem o suficiente para terminar? Caso contrário 29 ele vai lançar o alicerce e
não será capaz de acabar. E todos os que
virem isso começarão a caçoar, dizendo:
30
‘Este homem começou a construir e
não foi capaz de acabar!’”.
28
Como bem observou Maldonado, “calcular os
gastos” significa aqui preparar-se com cuidado,
inclusive detendo-se para ouvir prudentes conselhos. É o que todo homem deve fazer nas importantes encruzilhadas da vida: medir as dificuldades antes de lançar-se por uma ou outra via, sempre de acordo com a razão, nunca guiado apenas
pelos sentimentos ou pelos impulsos. Mais importante ainda, precisa decidir e agir tendo em
vista, sobretudo, a vida eterna, e não só os interesses terrenos, passageiros por definição.
“Ou ainda: Qual o rei que ao sair para guerrear com outro, não se senta primeiro e examina bem se com dez mil
homens poderá enfrentar o outro que
marcha contra ele com vinte mil?”.
31
As guerras entre pequenos estados eram comuns na Antiguidade. Portanto, Nosso Senhor
apresentava nessa parábola uma realidade bem
conhecida de todos os Seus ouvintes.
Ora, na batalha para alcançar o Reino dos
Céus, entra o homem em condições muito desfavoráveis. Dada a natureza decaída em consequência do pecado original, cada um tem no seu
interior terríveis inimigos: “o açoite da carne, a
lei do pecado que impera em nossos membros,
e varias paixões”.16 A eles se acrescentam “os
principados, as potestades, os dominadores deste mundo tenebroso, os espíritos malignos espalhados pelos ares” (Ef 6, 12).
Visando tornar notória essa desproporção de
forças, Santo Agostinho assim interpreta o sentido da parábola: “Os dez mil homens com os
quais ele deve combater o rei que dispõe de vinte mil representam a simplicidade do cristão,
que precisa lutar contra a falsidade do demônio,
isto é, com seus dolos e falácias”.17
Setembro 2010 · Flashes
Nas
encruzilhadas
da vida,
é preciso
medir as
dificuldades
antes de
lançar-se por
uma ou outra
via, sempre
de acordo
com a razão
de Fátima      15
Gustavo Kralj, por concessão do Ministério dos
Bens Culturais da República Italiana
Há uma
diferença
entre
renunciar a
todas as coisas
e abandonálas: compete
a um pequeno
número de
perfeitos
abandonálas; e cabe a
todos os fiéis
renunciar
a elas
Seguir Nosso Senhor
significa imitar Seu
exemplo e praticar Suas
virtudes
“Nosso Senhor carregando a
Cruz, com Nossa Senhora e
São Domingos de Gusmão”,
por Fra Angélico - Museu de
São Marcos, Florença
Tratado de paz com o Supremo Soberano
“Se ele vê que não pode, enquanto o
outro rei ainda está longe, envia mensageiros para negociar as condições de paz”.
32
Por seu lado, São Gregório Magno dá desta
parábola uma interpretação de caráter escatológico, segundo a qual o rei que se aproxima seria Aquele que virá no fim dos tempos para julgar os vivos e os mortos.18
Assim, na perspectiva da chegada do Supremo Soberano, em comparação ao qual nada somos nem podemos, caber-nos-ia apenas
enviar mensageiros para Lhe solicitar a paz.
São estes os nossos Anjos da Guarda, os nossos intercessores celestes e, sobretudo, Nossa Senhora. Pois, como pergunta o padre Duquesne, “quem somos nós para nos apresentarmos diante de Deus e ter a ousadia de com
Ele negociar a paz? Que temos para oferecer-Lhe?”.19
Quanto às condições da paz, já foram elas
enunciadas nos primeiros versículos deste
1
CONSTITUIÇÕES, art.26:
“Nós, clérigos, devemos viver do Altar e do Evangelho,
e de quanto nos oferecerem
espontaneamente os fiéis,
sem pedir esmola alguma aos
seculares, nem diretamente
nem por intermédio de outrem. Toda a nossa esperança
deve estar posta na palavra
de Cristo Senhor, que diz:
‘Buscai em primeiro lugar o
Reino de Deus e a Sua justi-
16      Flashes de Fátima · Setembro 2010
Evangelho: trata-se de renunciar a tudo e abraçar a Cruz para seguir o Divino Redentor.
O único cálculo permitido ao
verdadeiro discípulo
“Do mesmo modo, portanto, qualquer
um de vós, se não renunciar a tudo o
que tem, não pode ser Meu discípulo!”.
33
Nessas duas parábolas, Nosso Senhor torna
evidente quão necessário é fazer bem os cálculos antes de encetar algum empreendimento,
assumir uma responsabilidade ou travar uma
batalha terrena.
Ora, neste versículo, segundo a interpretação
de Santo Agostinho, estaria declarado o sentido
de ambas, pois, afirma ele, “o dinheiro para edificar a torre e a força de dez mil homens para
enfrentar os vinte mil combatentes do outro rei,
não têm outro significado senão o de cada um
renunciar a tudo quanto possui”.20
E acrescenta o santo Bispo de Hipona: “O
anteriormente dito concorda com o que se diz
Horst; SCHEIDER, Gerhard
(Eds.). Diccionario exegético
del Nuevo Testamento. 2.ed.
Salamanca: Sígueme, 2002,
col.295).
ça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo’”.
2
3
GOMÁ Y TOMÁS, Isidro. El
Evangelio explicado. Barcelona: Casulleras, 1930, v.III,
p.283.
As duas traduções são corretas, pois o verbo grego μισεω,
como o seu equivalente hebreu śānā’, abarca uma gama de significados que vai
desde amar menos, detestar, até odiar (cf. BALZ,
4
SÃO TOMÁS DE AQUINO.
Suma Teológica, II-II, q.101,
a.4, resp.
5
BALZ e SCHEIDER, op. cit.,
col.295.
6
GUARDINI, Romano. O Senhor. Rio de Janeiro: Agir,
s/d, p.293.
agora, porque na renúncia de cada qual a tudo
quanto possui está contido também o ódio a seu
pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos, suas irmãs e até à sua própria vida. Todas
essas coisas são próprias de cada um, e constituem obstáculo e impedimento para obter, não
o temporal e transitório, mas aquilo que é comum a todos e subsistirá sempre”.21
Há, em suma, apenas um caminho para nos
tornarmos verdadeiros discípulos de Jesus: renunciar totalmente aos afetos desordenados e
ao apego aos bens terrenos, evitando que eles
atuem como amarras para nossa vida espiritual
ou de pesados lastros para nossa alma. Sem nos
desprendermos de forma plena e completa de
quanto nos separa de Cristo, jamais alcançaremos o Reino dos Céus.
Importante é notar, ademais, como faz o
Cardeal Gomá, que não apenas os clérigos e
religiosos devem ser discípulos de Jesus, mas
sim todos os batizados: “Com os exemplos da
torre e do rei, não quer o Senhor significar que
cada um de nós seja livre de tornar-se ou não
Seu discípulo, como o homem da torre era livre de lançar ou não os alicerces. Tenciona Ele
ensinar-nos a impossibilidade de agradar a
Deus em meio às coisas que distraem a alma
e nas quais ela corre o risco de sucumbir, pela
astúcia do demônio”.22
São Beda faz uma distinção entre o dever
das almas chamadas ao estado de vida consagrada e a obrigação de todos os fiéis: “Há uma
diferença entre renunciar a todas as coisas e
abandoná-las: compete a um pequeno número
de perfeitos abandoná-las, ou seja, pôr de lado
os cuidados do mundo; e cabe a todos os fiéis
renunciar a elas, isto é, possuir as coisas terrenas de maneira tal que elas não os prendam ao
mundo”.23
IV – Os apegos desordenados
roubam-nos a paz de alma
O Evangelho ora comentado torna patente
o quanto esse desapego radical e completo é a
pedra fundamental de nossa vida interior, quer
constituamos família, quer façamos parte do
Clero, quer estejamos consagrados a Deus em
algum instituto religioso.
Nesse sentido, podemos afirmar que a liturgia do 23º Domingo do Tempo Comum é um
convite ao desprendimento: “Quem não carrega sua cruz e não Me segue, não pode ser Meu
discípulo”. Não significa isso que precisamos
ser flagelados, coroados de espinhos ou pregados na cruz, como foi Nosso Senhor Jesus Cristo. A cruz que Ele pede de nós consiste principalmente em vivermos desprendidos de tudo
quanto é terreno, tal qual uma águia que voa
sem amarras para, nas alturas, melhor contemplar o sol.
Como tantas vezes comprovamos na vida, o
apego desordenado gera aflições, inseguranças
e receios que nos roubam a paz de alma. Portanto, mesmo o homem não chamado à vida religiosa deve fazer tudo com o coração posto nas
coisas de Deus, inclusive ao cuidar dos negócios
e da administração dos seus bens. Esse desprendimento é condição para seguir de perto a Nosso Senhor Jesus Cristo. Assim agindo, a alma
experimentará a verdadeira felicidade, prenunciativa da alegria que terá no Céu. 
7
Idem, ibidem.
14
8
SÃO TOMÁS DE AQUINO,
Suma Teológica, II-II, q.101,
a.4, ad.1.
GOMÁ Y TOMÁS, op. cit.,
p.282.
15
MALDONADO, SJ, Juan
de. Comentarios a los cuatro
Evangelios. Evangelios de San
Marcos y San Lucas. Madrid:
BAC, 1951, v.II, p.642.
9
Idem, II-II, q.26, a.7, ad.1.
10
Idem, II-II, q.34, a.3, ad.1.
11
DUQUESNE. L’Évangile
médité. Lyon-Paris: Perisse
Frères, 1849, v.III, p.104.
12
Idem, p.106.
13
Idem, ibidem.
16
17
SÃO CIRILO DE ALEXANDRIA. Commentaria in Lucam, sermo 105: PG 72, 796.
SANTO AGOSTINHO.
Quæstiones Evangeliorum,
l.2, c.31: PL 35, 1343.
18
Cf. SÃO GREGÓRIO MAGNO. Homiliarum in Evangelia, hom. 37, c. 6: PL 76,
1277-1278.
19
DUQUESNE, op. cit., p.119.
20
SAN AGUSTÍN, apud SANTO TOMÁS DE AQUINO,
Catena Aurea.
21
Idem.
22
GOMÁ Y TOMÁS, op. cit.,
p.285.
23
SAN BEDA, apud SANTO
TOMÁS DE AQUINO, Catena Aurea.
Setembro 2010 · Flashes
Para nos
tornarmos
verdadeiros
discípulos
de Jesus, há
apenas um
caminho:
renunciar
totalmente
aos afetos
desordenados
e ao apego aos
bens terrenos
de Fátima      17
Qumran,
Gustavo Kralj
confirmação ou desmentido?
Fragmento 4Q1,
contendo Gn 39,
11-21 (ano 125 a
100 a.C.)
Considerada a maior descoberta arqueológica do século
XX, a coleção dos manuscritos do Mar Morto veio prestar
grande auxílio à exegese cristã, esclarecendo pontos
relativos à Sagrada Escritura e confirmando a veracidade
dos textos bíblicos que circulam hoje.
José Messias Lins Brandão
N
o início do ano de
1947, um jovem pastor
­beduíno, chamado Mohammed ed-Dib, procurava afanosamente uma ovelha desgarrada ao longo da falésia que margeia o Mar Morto, a cerca de dez quilômetros da bíblica cidade de Jericó.
Vasculhando as reentrâncias da rocha,
entrou numa caverna onde descobriu
vasos de argila contendo rolos de pele
manuscritos, envolvidos em tecido de
linho. Escolheu e retirou os sete que
lhe pareciam em melhor estado.
Alguns meses depois, os beduínos
venderam três desses rolos a um arqueólogo da Universidade Hebraica
de Jerusalém e os restantes ao Metropolita do convento sírio-jacobita São
Marcos, também da Cidade Santa.
Pouco tardou para os estudiosos
perceberem que Mohammed havia
feito a mais retumbante descoberta arqueológica do século XX: os famosos Manuscritos do Mar Morto.
Aos poucos, pesquisadores começaram a explorar meticulosamente a
região, enquanto os beduínos, por seu
lado, faziam o mesmo. Assim, de 1949
a 1956, foram descobertas mais dez
grutas, nas quais foram coletados diversos rolos em diferentes estados de
conservação e dezenas de milhares de
fragmentos, alguns tão diminutos que
contêm apenas poucas letras.
Riqueza e variedade de conteúdo
Uma vez analisados e classificados os fragmentos maiores, chegou-se à conclusão de que eles compõem um conjunto de 900 documentos escritos em hebraico, aramaico ou grego entre o fim do século
III a.C. e o ano 68 da Era Cristã. A
maior parte deles está grafada sobre
pergaminho, alguns em papiro, e há
um único texto gravado em cobre.
Mais de uma quarta parte desses
documentos é constituída por cópias de livros do Antigo Testamento, em sua imensa maioria escritos
em hebraico ou aramaico. Todos os
livros canônicos da bíblia hebraica, salvo o de Ester e o de Neemias,
18      Flashes de Fátima · Setembro 2010
ali figuram, e frequentemente em
vários exemplares: há pelo menos
quatorze manuscritos do Deuteronômio, quinze de Isaías e dezessete
dos Salmos. Encontram-se também
três livros deuterocanônicos: Tobias,
Eclesiástico e a Carta de Jeremias,
que faz parte de Baruc.
Um segundo bloco de manuscritos está formado por excertos de livros apócrifos: Jubileus, Salmos
Apócrifos, Livro de Enoc, Testamento dos Doze Patriarcas e Apócrifo do Gênesis. Faz parte também
desse conjunto um grande número
de outros escritos tais como a Oração de Nabônides, trechos de hinos,
anotações e comentários, entre eles
o Targum de Jó e o Comentário de
Habacuc.
Há, por fim, excertos do que se
poderia chamar de “códigos disciplinares” — a Regra da Comunidade,
o Regulamento da Guerra dos Filhos da Luz contra os Filhos das Trevas, o Escrito de Damasco —, bem
como orações para cada dia do mês,
Getty Images/Dorling Kindersley
Gustavo Kralj
Entre 1949 e 1956, beduínos e
pesquisadores descobriram onze
grutas com documentos
À direita, vista exterior da gruta IV;
acima, fotografia tirada na época
das escavações - Royal Ontario
Museum, Toronto (Canadá)
textos poéticos, comentários de trechos da Bíblia, calendários, etc.
A misteriosa comunidade
de Qumran
Cabia, então, aos arqueólogos desvendar o mistério: como fora parar nas inóspitas cavernas uma
tão valiosa biblioteca? Qual a autoria desses documentos, muitos dos
quais inéditos?
A clave da solução estava, certamente, nas vizinhas ruínas de
Qumran e na enigmática comunidade que as habitara até o primeiro século da nossa era. Como explica Pnina Shor, chefe da Seção de Conservação de Artefatos do Departamento de Antiguidades de Israel, em entrevista exclusiva à nossa revista, “o
grupo que escreveu os manuscritos
chama a si mesmo de yahad, que em
hebraico significa ‘o conjunto’, ‘a comunidade’”.1
Ao longo dos anos não faltaram
as controvérsias entre os especialistas sobre a identidade dessa comu-
nidade. Mas, hoje em dia, a grande
maioria deles a identifica com os essênios,2 ou, para ser mais preciso,
com os membros de uma ala radical
desse movimento.3
Os essênios constituíam, junto com os fariseus e os saduceus, os
três principais grupos religiosos em
que se dividiam os judeus desde o
segundo século antes de Cristo até
a destruição de Jerusalém.4 Procuravam viver em estrito cumprimento da lei mosaica, atendo-se à letra
desta mais ainda do que os próprios
fariseus.
Segundo uma corrente de autores, seu nome deriva do grego
εσσηνοι (os piedosos). Embora não
sejam mencionados por este título
nas Escrituras Sagradas, não faltam
referências a eles em autores antigos como Plínio o Velho, Flávio Josefo e Fílon de Alexandria.
Os essênios que moravam em
Qumran compunham uma comunidade masculina, celibatária, de
vida austera e regida por uma re-
gra, assemelhando-se, portanto,
aos mosteiros cristãos surgidos séculos depois. E, como reconhece a
mencionada Pnina Shor, responsável pela conservação dos manuscritos do Mar Morto, “a descrição
que Josefo faz dos essênios e de
como eles viviam é muitíssimo parecida com o que esse grupo narra
sobre si mesmo”. 5
O assentamento de Qumran foi
arrasado no ano 68 por uma legião
Romana. Ao que tudo indica, os
essênios, ante o irresistível avanço das tropas imperiais, procuraram pôr a salvo sua biblioteca. No
início, envolviam os rolos em tecidos e colocavam-nos em vasos de
argila bem tampados; no fim, atiravam-nos nas cavidades da falésia, às pressas e sem qualquer proteção.
Observa a este respeito o teólogo
luterano Joachim Jeremias: “Os irmãos devem ter sido exterminados,
até o último, neste ano de 68, pois,
se um só deles tivesse escapado, as
Setembro 2010 · Flashes
de Fátima      19
Gustavo Kralj
grutas não teriam guardado, até os
nossos dias, o seu segredo”.6
O “fenômeno Qumran”
A descoberta dos manuscritos do
Mar Morto provocou o que o sacerdote jesuíta J. R. Scheifler descreve
como “fenômeno Qumran”: “uma
prodigiosa e alarmante fecundidade literária, sobretudo entre os especialistas; e um inusitado interesse
entre o grande público, às vezes com
certos ressaibos de esnobismo e não
sem uma dose de insegurança e inquietação entre os fiéis”.7
Com efeito, apenas nos primeiros
quinze anos após a descoberta dos
manuscritos vieram a público “mais
de três mil títulos, entre obras e artigos, além de uma revista científica consagrada exclusivamente ao tema”, acrescenta o estudioso jesuíta.
O “fenômeno Qumran” também
não tardou a transbordar dos círculos científicos para as revistas de generalidades. Ao longo desses quase sessenta anos desde a descoberta dos manuscritos, a imprensa dedicou ao tema rios de tinta e toneladas de papel, e ele ocupa hoje considerável espaço nas páginas web da
internet.
Qual a causa mais profunda desse “inusitado interesse”?
Fidelidade das versões bíblicas
Antes de Gutenberg imprimir,
em 1455, sua “bíblia de 42 linhas”,
cada exemplar das Sagradas Escrituras era uma transcrição singular
feita por amanuenses. Ora, uma vez
que não se conservam os originais
dos livros vetero e neotestamentários, qual o grau de confiabilidade
dessas inumeráveis “cópias de cópias” realizadas ao longo de dezenove ou mais séculos por escrivães de
índoles e raças variadas?
Até a descoberta do Mar Morto,
os mais antigos manuscritos com a Bíblia completa eram o Codex Vaticanus
(séc. IV), o Sinaiticus (séc. IV) e o Ale-
Pnina Shor: “Quando
os manuscritos foram
encontrados, verificou-se
que a exatidão das traduções
é realmente de admirar — e
isso é emocionante”.
xandrinus (séc. V), todos eles provenientes da Septuaginta. Os primeiros
textos massoréticos — escritos em hebreu e incluindo apenas os livros aceitos pela religião judaica — eram mais
recentes: tanto o Codex Leningradensis como o Aleppo estão datados no
século XI. Conservavam-se também
fragmentos de textos anteriores, sendo, o mais antigo deles, um raro papiro do século segundo antes de Cristo,
trazendo apenas o decálogo e um trecho do Deuteronômio.
Ora, em 1947, surgiu inesperadamente nas onze grutas do Qumran
um grande número de textos bíblicos copiados entre o século II a.C. e
o século I da Era Cristã que podiam
reforçar a autenticidade das versões
da Sagrada Escritura hoje utilizadas pela Igreja, ou apontar-lhes as
deficiências. Ademais, a maior parte dos livros do Antigo Testamento havia sido copiada em hebreu ou
aramaico, o que permitia confrontá-los com o texto grego da Septuaginta. Foram essas as razões que tornaram a publicação dos documentos
do Mar Morto tão esperada.
Hoje em dia, tendo vindo a lume
o último volume da coleção com os
manuscritos,8 qualquer pessoa com
conhecimento de hebraico, aramai-
20      Flashes de Fátima · Setembro 2010
co e grego pode conferir as diferentes versões, e verificar que, ao longo
dos séculos, as traduções mantiveram uma impressionante fidelidade.
Por isso a Dra. Shor comenta que, através dos manuscritos do
Mar Morto, pôde-se constatar como
as traduções gregas e latinas da Sagrada Escritura conservaram-se fiéis
aos originais hebraicos. “Quando os
manuscritos foram encontrados, verificou-se que a exatidão das traduções é realmente de admirar — e isso é emocionante”.9
Ao contrário, portanto, do que
alguns previam, os manuscritos de
Qumran vieram mostrar que são
perfeitamente confiáveis os textos
das Sagradas Escrituras conservados
pela Igreja Católica e propostos aos
fiéis durante quase vinte séculos. E
desmontaram certas hipóteses imaginativas sobre a origem do Novo
Testamento surgidas cem anos atrás.
Hipóteses imaginativas sobre
os quatro Evangelhos
Com efeito, certos exegetas do
início do século XX quiseram ver
nos livros do Novo Testamento
obras tardias, distantes da realidade
que narram, influenciadas pela mitologia e filosofia grega. Ora, tal hipótese choca-se agora com a evidência fornecida pelos manuscritos do
Mar Morto.
Muitas das expressões e estilos
supostamente helênicos das redações neotestamentárias coincidem
com expressões e estilos encontrados em tais manuscritos, os mais recentes dos quais, como vimos, remontam ao ano 68 d.C. Demonstra-se, assim, terem sido eles de
uso corrente na sociedade judaica
da época de Jesus e, a fortiori, estarem os autores do Novo Testamento
acostumados a pensar e a falar em
hebraico ou aramaico, e não em grego.
Mesmo não tendo sido provado haver entre os documentos de
Filho do Altíssimo” (Lc 1, 32). Uma
geração anterior de exegetas tentava procurar a origem desses termos
no paganismo helênico. Ora, elas
são encontradas num texto aramaico de Qumran, no qual se lê claramente: “Será denominado filho de
Deus, e o chamarão filho do Altíssimo” (4Q246). Parece, portanto,
que tais conceitos se desenvolveram
em círculos judaicos, o que constitui
mais um prova do enraizamento hebraico, e não helênico, do Novo Testamento.13
Mais impressionante ainda foi a
descoberta relacionada com a resposta dada por Nosso Senhor aos
discípulos de São João Batista, que
lhe foram perguntar: “Sois vós aquele que deve vir, ou devemos esperar
por outro?” (Mt 11, 3; Lc 7, 20). Jesus lhes respondeu: “Ide e contai a
João o que ouvistes e o que vistes: os
cegos veem, os coxos andam, os leprosos são limpos, os surdos ouvem,
os mortos ressuscitam, o Evangelho
é anunciado aos pobres...” (Mt 11,
4-5; Lc 7, 21-22).
Estas palavras de Nosso Senhor
aludem claramente a Isaías (35, 5-6
e 61, 1). Porém, neste livro profético não se fala em ressurreição dos
mortos. Ora, o fragmento 4Q521
de Qumran, referindo-se ao Messias, afirma: “Pois Ele curará os criticamente feridos, Ele ressuscitará os
mortos, Ele trará boas novas aos pobres”.14
Conforme comenta John J.
Collins, a impressionante semelhança entre esse fragmento e as
citadas passagens dos Evangelhos
de São Mateus e São Lucas permitem chegar à conclusão de que Jesus “proclama o reino de Deus, e
por Seu ministério de cura e exorcismo, prova que está presente; e
alega ser ungido e, pois, qualificado para proclamar a boa nova. [Esse fragmento] apoia de modo significativo a tradicional concepção de
que Jesus via a Si mesmo como o
Messias de Israel”.15
No total, foram identificados
mais de 500 paralelos entre a linguagem de Qumram e a do Novo Testamento, muitos dos quais sem precedentes no Antigo Testamento.16 A
imaginativa hipótese a propósito da
origem helênica dos escritos neotestamentários fica, assim, definitivamente descartada.
Desmentido cabal a hipóteses
sensacionalistas e extravagantes
No
entanto, a origem comum judaica das literaturas qumrânica e
Gustavo Kralj
Qumran fragmentos de escritos
neotestamentários,10 “vários textos-chaves contêm informações,
ideias ou linguagem muito similares aos encontrados em certas passagens dos Evangelhos”,11 como ainda nas Epístolas e nos Atos, embora não tenham sido redigidos por
cristãos ou para cristãos. Por isso a
Dra. Shor diz que, nesses manuscritos, “podem-se ver as origens do
cristianismo, junto com textos bíblicos e outros textos judaicos. Constata-se assim a origem comum das duas religiões”.12
Mesmo no terceiro bloco de manuscritos — o qual, como vimos,
contém textos doutrinários e disciplinares dos essênios — encontramos alguns elementos de grande interesse para a exegese neotestamentária.
Nesses documentos inéditos pululam numerosas palavras, frases
e descrições de fatos que reportam
surpreendentemente a palavras, frases e fatos dos Evangelhos e de algumas epístolas de São Paulo: os “pobres de espírito”, a “justificação pela Fé”, luta entre os “filhos da luz” e
os “filhos das trevas”.
Merecem destaque duas expressões usadas por São Lucas: “será
chamado Filho de Deus”
(Lc 1, 35) e “chamar-se-á
Os manuscritos de Qumran vieram mostrar a confiabilidade dos textos bíblicos propostos
pela Igreja Católica durante quase vinte séculos
Páginas do “Codex Sinaiticus” - Freer & Sackler Gallery, Smithsonian Institution, Washington; Evangelhos bizantinos, séc. X Smithsonian Institution, Washington; Bíblia de Gutenberg - Coleção privada, Nova York
Setembro 2010 · Flashes
de Fátima      21
Gustavo Kralj
Embora haja muitas
similitudes entre
a linguagem do
Novo Testamento e
a dos documentos
essênios, há
também diferenças
doutrinárias
irreconciliáveis
À esquerda, “São Lucas Evangelista” Basílica de São Marcos, Veneza; à direita,
fragmento 11Q14, pertencente ao Livro da
Guerra (entre 20 e 50 d.C.)
­ eotestamentária, bem como as sin
milaridades apontadas acima, conduziram a pôr novamente em dúvida a autenticidade das narrativas
evangélicas, analisando-as agora
sob outro prisma.
Pretendia-se provar que o Cristianismo nascente não trazia nenhuma novidade; nada mais era que
um prolongamento da comunidade de Qumran, um mero plágio dela. “Via-se, no agrupamento essênio,
um predecessor da comunidade cristã, e até mesmo sua origem. Pensava-se, notadamente, ter-se encontrado no Mestre de Justiça um precursor de Jesus: tinha-se por certo que a seita teria visto nele o Messias, atribuía-se-lhe uma morte violenta, supondo-se até mesmo que
ele teria sido crucificado, e falava-se
de fé na sua ressurreição e no seu
retorno”.17
Dupont-Sommer chegou a tirar
a conclusão de que as semelhanças
entre a Religião Cristã e a seita essênia “constituem um conjunto quase
alucinante”, acrescentando: “Em todas as partes nas quais os paralelos
nos obrigam ou convidam a pensar
em um plágio, o plágio foi feito pelo
cristianismo”.18
Alguns galoparam em suas hipóteses, ganhando muita atenção na
mídia. Um jornalista americano, E.
Wilson, opinou que o mosteiro de
Qumran “é talvez, mais do que Belém ou Nazaré, o berço do cristianismo”.19 E no jornal russo Konsomolskaia Pravda, edição de 9/1/1958
lê-se que os Manuscritos do Mar
Morto “demonstraram peremptoriamente o caráter mítico de Moisés
e de Jesus”.20 John Allegro, Barbara
Thiering e Edmond Székely tornaram-se nomes populares na literatura sensacionalista por suas hipóteses extravagantes, todas pretendendo apoiar-se nos manuscritos do
Mar Morto para reduzir o cristianismo a uma seita pagã ou gnóstica,
negar a existência histórica de Nosso Senhor ou a atribuir-Lhe uma vida excêntrica.21
Ora, após a catalogação final dos
pergaminhos e o atual estágio de conhecimento do seu conteúdo, já não
há mais lugar para teses esdrúxulas
e fantasiosas. A tal propósito, Vanderkam e Flint são taxativos: “Devemos deixar claro que as teorias ou
aproximações descritas [até aqui]
não são apoiadas pelos especialistas
dos pergaminhos do Mar Morto”.22
22      Flashes de Fátima · Setembro 2010
Diferenças em pontos essenciais
Refutando as hipóteses anteriores, todas elas baseadas nas semelhanças entre textos essênios e textos
cristãos, os manuscritos de Qumran
demonstram que há diferenças irreconciliáveis em pontos fundamentais.
Um dos temas nos quais o choque é maior entre as concepções
cristãs e as de Qumran é o da Lei
de Moisés. Na comunidade do Mar
Morto, a justificação pela Lei tem
um caráter intenso e a realização da
perfeição por meio da Lei era ali interpretada de um modo mais estrito do que entre os próprios fariseus.
Em Qumran, “a Lei é propriamente o messias, a salvação”.23 Por causa
disso, conforme Scheifler, mesmo sem
atribuir a Nosso Senhor uma atitude polêmica relativamente àquela comunidade, parece haver uma alusão a
Qumran na resposta aos fariseus que
lhe interrogavam sobre a cura no sábado: “Há alguém entre vós que, tendo uma única ovelha e se esta cair
num poço no dia de sábado, não a irá
procurar e retirar?” (Mt 12, 10-13).
“As palavras de Cristo parecem supor
uma prática admitida ou de sentido
comum. Porém, a seita de Qumran,
mais estreita na ­
casuística sabática
que os próprios fariseus, a proibia expressamente”.24
O ponto mais difícil de harmonizar entre o cristianismo e a doutrina de Qumran é o do amor ao inimigo. Terão sido uma referência direta
a eles as palavras de Nosso Senhor:
“Tendes ouvido que se diz: amarás a
teu próximo e odiarás a teu inimigo,
mas eu vos digo...” (Mt 5, 43s)? Um
bom número de especialistas responde afirmativamente.25 Do mesmo modo, a extensão dada por Jesus
ao mandamento do amor ao próximo é alheia ao pensamento da comunidade de Qumran. Esta se aferrava a um exclusivismo separatista e
orgulhoso, considerando digno de
amor só seu selecionado grupo, excluindo de modo absoluto os pagãos
e grande parte de Israel. Mais que
para os fariseus, as três parábolas
1
2
3
4
5
6
7
KRALJ, Gustavo Adolfo. Palavras
que mudaram o mundo. Entrevista exclusiva com a Dra. Pnina Shor.
In: Arautos do Evangelho. São Paulo, set. 2009, n.93, p.49.
VANDERKAM, James; FLINT, Peter. The Meaning of the Dead Sea
Scrolls. London-New York: T&T
Clark International, 2002, p.239-252.
SIEVERS, Joseph. Judaísmo y Cristianismo del siglo I a través de los
Rollos del Mar Muerto. Texto de
conferência disponível em www.
sion.org.ar.
da misericórdia (Lc 3, 3-32) e o “eu
também não te condeno”, dirigido à
adúltera, devem ter repercutido como algo insuportável em Qumran.26
A arqueologia confirma
o acerto da Igreja
Por causa da demora na publicação dos manuscritos do Mar Morto, já referida mais atrás, levantou-se em certo momento a suspeita de
que a Santa Sé estivesse pondo obstáculos a isto, por receio da verdade histórica. Num dos episódios
mais rocambolescos, M. Baigent e
R. Leigh aproveitaram o clima criado para lançar um livro com o chamejante título de O embuste dos rolos do Mar Morto: Porque uma dúzia
de estudiosos religiosos conspiraram
para suprimir o conteúdo revolucionário dos rolos do Mar Morto.27
8
9
A coleção de 40 volumes, intitulada Discoveries in the Judaean Desert (Oxford University, www.oup.
co.uk), vinha sendo publicada ao
longo dos anos. O v.39, editado em
2002, traz uma introdução e notas
à coleção completa. O último livro
veio a lume em 2009.
KRALJ, op. cit., p.50.
10
JOSEPHUS, Flavius. Jewish Antiquities. London: Wordsworth,
2006, p.549; JOSEPHUS, Flavius.
The Jewish War. London: Penguin
Books, 1981, p.133-137.
KRALJ, op. cit., p.49.
JEREMIAS, Joachim. Estudos no
Novo Testamento. Santo André:
Academia Cristã, 2006, p.409.
SCHEIFLER, J.R. Así nacieron los
Evangelios. Bilbao: Mensajero,
1967, p.231.
11
Também não foi provado que não
os há (VANDERKAM; Flint, op.
cit., p.311-320). Deixamos propositalmente de lado o cuidadoso estudo feito pelo papirólogo jesuíta espanhol José O’Callaghan Martínez
sobre o fragmento 7Q5, uma vez
que, pelo material disponível até o
momento, não é possível concluir
contra ou a favor de suas hipóteses
(Idem, p.320).
Vanderkam; Flint, op. cit.,
p.330.
12
KRALJ, op. cit., p.49.
13
Vanderkam; Flint, op. cit.,
p.334-336; SIEVERS, op. cit., p.6.
14
Idem, p.332-334; Idem, p.7.
Segundo os dois autores, a equipe de especialistas a cargo da publicação estava sob o controle do Vaticano,
o qual temia ver o Cristianismo minado pelas revelações contidas nos referidos manuscritos. O livro se tornou
um best-seller. Quem o comprou caiu
num verdadeiro embuste, pois, como
comentam Vanderkam e Flint, “agora que os textos estão à disposição
em forma de fotografia, transcrições
e traduções, perguntamo-nos o que
pode ter levado alguém a pensar que
eles causariam dano ao Cristianismo
ou que o Vaticano teria interesse — e
mesmo o poder — de eliminá-los”.28
Ao contrário de autores como esses, os estudiosos cristãos veem nos
manuscritos do Mar Morto uma
inesgotável fonte de dados exegéticos, um inestimável instrumento para seu trabalho. 
15
COLLINS, John J., apud Vanderkam; Flint, op. cit., p.334.
16
Scheifler, op. cit., p.251.
17
JEREMIAS, op. cit., p.417.
18
DUPONT-SOMMER, André,
apud SCHEIFLER, op. cit.,
p.235.
19
E. WILSON, apud Scheifler,
op. cit., p.235.
20
Jornal Konsomolskaia Pravda, apud
JEREMIAS, op. cit., p.417.
21
Vanderkam; Flint, op. cit.,
p.321-330.
22
idem, p.330.
23
Scheifler, op. cit., p.257.
24
Idem, p.259.
25
Idem, p.262.
26
Idem, p.265.
27
BAIGENT, Michael; LEIGH, Richard. Dead Sea Scrolls Deception.
New York: Touchstone Book, 1991.
28
VANDERKAM; FLINT, op. cit.,
p.394.
Setembro 2010 · Flashes
de Fátima      23
Portugal – Participantes do Apostolado do Oratório reuniram-se em Póvoa do Varzim para uma tarde de
formação (esquerda). Em meados de Agosto, as freguesias de Santa Marinha do Zêzere (direita) e São Tomé de
Covelas, à beira Douro, acolheram novos Oratórios do Imaculado Coração de Maria.
Estados Unidos – Paróquias de Waltham (MA) e
Rahway (NJ) receberam com entusiasmo a Imagem
Peregrina de Nossa Senhora de Fátima.
Cingapura – Arautos levaram a Imagem Peregrina a
diversos lares, promovendo a devoção mariana e a
recitação do Rosário em família.
Equador – Arautos visitaram, em Quito, o Instituto Especial Mariana de Jesus, para crianças com deficiência visual
ou auditiva. A maternal presença da imagem de Maria foi de grande consolo para aqueles pequenos.
24      Flashes de Fátima · Setembro 2010
Dom Francesco Coccopalmerio
visita igrejas dos Arautos
1
2
3
O
s Arautos do Evangelho tiveram a inesperada alegria
de receber a visita de Dom Francesco Coccopalmerio,
Presidente do Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, acompanhado do Subsecretário do mesmo dicastério,
Mons. José Aparecido Gonçalves de Almeida.
Indo ao Brasil por ocasião do 4º Colóquio Latino Americano de Direito Canônico, quis Dom Coccopalmerio conhecer pessoalmente e celebrar a Eucaristia no Seminário
da Associação (fotos 1 e 2) e na Casa Generalícia da Sociedade Regina Virginum (fotos 3 e 4). Nas suas homilias,
o Prelado estimulou os arautos ali presentes a anunciarem
ao mundo o “tesouro” do Evangelho e pediu orações pelo
importante labor realizado pelo seu dicastério.
4
Mons. José Aparecido, Dom Coccopalmerio e
Pe. Alex Brito, EP
Joinville, Brasil – Arautos solenizaram com cantos e instrumentos musicais a homenagem prestada a Dom Irineu
Roque Scherer pela Câmara de Vereadores, estando presentes diversas autoridades e movimentos católicos. Por
sua atuação marcante junto à população, foi-lhe concedido o título de Cidadão Honorário de Joinville.
Setembro 2010 · Flashes
de Fátima      25
Em Aguascalientes,
Ano Sacerdotal – A Imagem Peregrina foi conduzida pelo clero em procissão até a Igreja do Sagrado Coração de
Jesus, onde foi comemorado o encerramento do Ano Sacerdotal.
Consagração – Dom José Maria de la Torre Martín consagrou a diocese ao Imaculado Coração de Maria em
solene ato na catedral.
E
ntre os dias 8 e 13 de junho, missionários arautos
­realizaram uma peregrinação com a imagem de Nossa Senhora de Fátima na cidade de Aguascalientes, no
estado mexicano do mesmo nome. A imagem foi recebida na catedral pelo Bispo, Dom José Maria de la Torre
Martín, que, após a solene coroação da imagem, consagrou o clero e a diocese ao Imaculado Coração de Maria.
Paróquias, colégios, casas religiosas, residências, um
hospital e um asilo foram visitados por Nossa Senhora.
Na Paróquia de San José de los Pocitos, os fiéis receberam a visita da Imagem Peregrina com muito fervor, permanecendo a igreja repleta até o término da visita na-
Entrevistas – A peregrinação foi anunciada na rádiocabo Mexicana (foto acima) e na Rádio Grupo, bem
como no programa televisivo “Mi Ciudad”.
26      Flashes de Fátima · Setembro 2010
quele ­povoado. Houve procissão, catequese, recitação
do Rosário e, no final, o pároco celebrou a Santa Missa.
Um dos dias, missionários arautos conduziram a imagem à cidade de Calvillo, que recebeu a ilustre visitante
com uma procissão até a Paróquia do Senõr del Salitre.
Houve Missa, catequese sobre a mensagem de Fátima e
entrega de Oratórios do Imaculado Coração de Maria.
No último dia, em Aguascalientes, a Imagem Peregrina
foi recebida no Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe, onde milhares de fiéis veneraram a Virgem de Fátima,
formando extensas filas. “Nunca vi tanta gente”, disse um
empregado que trabalha há 20 anos no santuário.
Oratórios – Foram implantados onze oratórios em
Calvillo e nove no povoado de Ojocaliente. Agora já
somam 31 na cidade.
ardorosos devotos de Maria
Colégios – Diretores, professores e alunos de vários colégios tiveram momentos de oração diante da Imagem
Peregrina. Entre os colégios visitados, estão o dos Irmãos Maristas (esquerda) e o Colégio Esperança (direita).
Paróquias e igrejas – Piedade e fervor marcaram as visitas da Imagem Peregrina às paróquias de Aguascalientes
e Calvillo, acompanhada em várias ocasiões pelos Cavaleiros de Colombo (à esquerda, no Santuário de
Nossa Senhora de Guadalupe; no centro, na catedral; e à direita, na Paróquia das Três Ave Marias).
Doentes – A imagem visitou os enfermos do Hospital
Miguel Hidalgo e depois foi venerada pelo diretor,
médicos e funcionários.
Idosos – Em Calvillo, os idosos do Asilo de Anciãos
São José tiveram oportunidade de rezar diante da
imagem da Virgem de Fátima.
Setembro 2010 · Flashes
de Fátima      27
São Roberto Belarmino, SJ
Um jesuíta
vestido de púrpura
Sua viva fé e profunda sabedoria foram de incalculável valor para a
Igreja. Se considerável parte da Áustria e da Alemanha ainda hoje
permanece católica, deve-se, em boa medida, ao apostolado deste
filho de Santo Inácio.
Irmã Clara Isabel Morazzani Arráiz, EP
A
pesar de haver ele disposto no testamento que
seus funerais fossem sóbrios, como correspondia a um membro da Companhia de
Jesus, quis o Papa Gregório XV dar
grande solenidade às exéquias daquele Cardeal que tanto bem fizera
à Igreja de Cristo
Revestido da púrpura recebida
havia 22 anos, o corpo de Sua Eminência foi velado na igreja da Casa
Professa dos Jesuítas, onde o povo se
aglomerara para lhe prestar a última
homenagem. Tornou-se necessário
recorrer a uma guarda a fim de evitar
a indiscreta devoção dos presentes.
Todo o Sacro Colégio participou
dos ofícios, e o registro do Consistório lavrou ata da sua morte nos seguintes termos: “Esta manhã, 17
de setembro de 1621, à hora duodécima, o Reverendíssimo Senhor
Belarmino, Cardeal Presbítero, de
Montepulciano, passou desta região
de morte para a morada dos vivos.
Era um homem notabilíssimo, teólogo eminente, intrépido defensor
da Fé Católica, martelo dos hereges,
tão piedoso, prudente e humilde,
como caridoso para com os pobres.
O Sacro Colégio e toda a Corte Romana sentiram e choraram vivamente a morte de tão grande homem”.1
Palavras breves e significativas,
carregadas do sabor da época, bem
sintetizam elas o sentir do povo romano em relação a esse Cardeal de
quem afirmavam, ao vê-lo passar:
“Ecco il santo! — Eis o santo!”.
Precoce no estudo e na pregação
Roberto Francesco Romolo Belarmino nasceu em Montepulciano, na Toscana, em 4 de outubro
de 1542. O pai, Vincenzo Belarmino, de nobreza empobrecida, ocupara durante muitos anos o cargo de
governador da cidade. A mãe, Cinzia Cervini, era irmã do futuro Papa Marcelo II que governou a Igreja durante apenas 22 dias, em abril
de 1555.
Desde cedo se aplicou aos estudos, aprendendo com facilidade tudo a que se dedicava, inclusive a música. Mas encantava-lhe também visitar o Santíssimo Sacramento, e,
28      Flashes de Fátima · Setembro 2010
apesar da pouca idade, observava os
jejuns do Advento e da Quaresma.
Encontro com a vocação religiosa
Aos catorze anos ingressou ele no
colégio da Companhia de Jesus, onde começou a despontar sua vocação de grande pregador e polemista.
Um pequeno episódio da época ilustra esse pendor.
Espalharam pela cidade boatos caluniosos, sobre a qualidade do ensino ministrado nesse colégio, que deixaram Roberto indignado. Para acabar com eles de vez, tomou alguns
dos seus companheiros e desafiou para um debate público os melhores alunos das outras instituições de ensino.
No dia combinado, coube-lhe fazer o
discurso de abertura, na sala do município, onde se deu o evento. A vitória
dos estudantes jesuítas foi estrondosa!
Com a palavra fácil, raciocínio
metódico e lógico, e, sobretudo, piedade sincera, o jovem santo passou
a ser convidado para pregar em retiros e outros eventos. O sucesso batia-lhe às portas. Sendo, ademais,
sobrinho de um Papa, embora de
Gustavo Kralj
reinado efêmero, cresciam no
pai as esperanças de vê-lo levantar o nome da família, quiçá como destacado membro da
corte pontifícia...
Porém, Roberto media bem
os perigos da dourada ascensão
que se apresentava diante dele:
“Estando durante muito tempo pensando na dignidade a que
podia aspirar, me veio de modo
insistente a brevidade das coisas temporais. Impressionado
com estes sentimentos, cheguei
a conceber um horror desta vida
e determinei buscar uma ordem
religiosa na qual não houvesse
perigo de tais dignidades”.2
Tomou, então, a resolução
de fazer-se jesuíta.
A fecunda atuação de São Roberto
Belarmino na Cidade Eterna tornou inevitável
sua nomeação como Cardeal
Primeiros anos na
Companhia de Jesus
Vencidas as resistências paternas e após um ano de prova na
própria cidade natal, foi transferido
para Roma, onde fez os votos de devoção na Companhia e começou a estudar filosofia no Colégio Romano.
Apesar de ter compleição débil e
enfermiça, sua inteligência era agudíssima. Possuía, ademais, uma memória tão privilegiada que lhe bastava uma simples leitura para reter
o conteúdo de um livro. Assim, marcantes foram os êxitos acadêmicos.
Na defesa de sua tese de filosofia,
salientou-se pela segurança e clareza
de raciocínio com que expôs a matéria e respondeu às objeções propostas. Isso lhe valeu o cargo de professor de Humanidades no Colégio de
Florença, apesar de seus 21 anos.
Além das aulas, recebeu também
a incumbência de pregar aos domingos e dias santos diante de prelados e
eclesiásticos, bem como do escol intelectual da cidade. Os categorizados
ouvintes admiravam-se, mais do que
por sua eloquência, por vê-lo praticar
de forma coerente aquilo mesmo que
lhes pregava nos sermões.
“São Roberto Belarmino” Igreja de Santo Inácio de Loyola, Roma
Doze meses depois, o jovem Roberto foi enviado como professor de
retórica a Mondovi, onde permaneceu durante três anos. Ao ouvir ali
uma das suas pregações, o Padre
Provincial o encaminhou a Pádua,
para os estudos de Teologia, a fim de
receber as ordens maiores.
Em vista dos rápidos progressos
que lá fizera, São Francisco de Borja, então Superior Geral, determinou sua ida para Lovaina, onde se
precisava de homens de talento para defender o “Depósito da Fé”, fortemente questionado na época pelos
intelectuais luteranos.
Exímio pregador, embora
ainda sem estola
Localizada a menos de vinte
quilômetros de Bruxelas — próxima, portanto, de vários Estados
que aderiram às teses de Lutero
—, era a Universidade de Lovaina um baluarte da verdadeira doutrina. A ela chegou Roberto para
permanecer dois anos, os quais se
transformaram em sete, segundo
a previsão que ele mesmo fizera.
Pequeno de estatura, o jovem jesuíta era um gigante no
púlpito. Aos domingos, pregava em latim na igreja do ateneu,
repleta de um público habituado a escutar com espírito crítico
os mais doutos pregadores.
Preciosos foram os frutos
desses sermões: católicos hesitantes eram confirmados na
Fé, numerosos jovens consagravam-se ao serviço de Deus,
muitos protestantes se convertiam. Não faltavam entre eles
os que, vindos da Holanda ou
da Inglaterra para ouvi-lo e refutar-lhe os argumentos, retornavam arrependidos.
Em Gante, a 25 de março de
1570, recebeu Roberto o presbiterato.
O período mais fecundo
de sua vida
Renhidas polêmicas marcavam a
época. Os problemas levantados pelos protestantes levaram o padre Belarmino a estudar o hebraico, a fim
de adquirir uma segurança exegética
ainda maior. Chegou a compor, para seu uso, uma gramática dessa língua, que acabou sendo também de
grande ajuda para seus alunos.
São Roberto estudou ainda, com
afinco, os Padres da Igreja, os Doutores, Papas, Concílios e a História da Igreja. Aparelhou-se, assim,
para uma forma de ensino sólida,
orientada para um gênero de apologética na qual os erros eram sempre impugnados com respeito e
prudência.
Foi o período mais fecundo de
sua vida. As principais universidades da Europa, inclusive a de Paris, disputavam-no como professor
de Teologia. Até mesmo São Carlos Borromeu chegou a solicitá-lo
para Milão. Contando apenas 30
anos de idade, arcava com imensas
Setembro 2010 · Flashes
de Fátima      29
j
sul da Itália, conheceria São Bernardino Realino. Quando os dois jesuítas
se encontraram, caíram de joelhos,
um diante do outro, e se abraçaram.
“Um grande santo nos deixou”5—
disse São Bernardino quando partiu
o superior. Ambos jesuítas, unidos
desde aquele momento por uma amizade toda sobrenatural, veneravam-se mutuamente como santos.
al
Kr
vo
ta
Algum tempo mais tarde, a Santa
Obediência o fez retornar à Cidade
Eterna. Gregório XIII fundara no
Colégio Romano uma cátedra de
apologética chamada Controvérsias,
com o objetivo de ensinar a verdadeira doutrina contra os erros que
pululavam nos centros universitários de então. São Roberto encarregou-se dela por doze anos, durante
os quais refutou primorosamente as
objeções dos protestantes. Seus ensinamentos durante esse longo período foram compilados, por ordem
dos seus superiores, na monumental
obra Controvérsias.
Considerada a “Summa” de Belarmino, ela foi acolhida com grande
entusiasmo e traduzida para quase
todas as línguas europeias. São Francisco de Sales, o grande Bispo de Genebra, afirmou ter pregado por cinco anos contra os calvinistas em Chablais, usando apenas a Bíblia e as
Controvérsias de Belarmino.
Até mesmo os protestantes deram testemunho da eficácia e valor desta obra. Guiène reconheceu
valer o santo jesuíta, por si só, por
todos os doutores católicos. Bayle
confessou não ter havido nenhum
autor que tenha sustentado melhor
a causa da Igreja. E ficou célebre a
confidência do sucessor de Calvino, Théodore de Bèze, ao desabafar com seus amigos, batendo com
a mão nas Controvérsias: “Eis o livro
que nos deitou a perder”.3
Assim, a fé viva e a profunda sabedoria do santo, bem como seu método tomista de argumentar — começando sempre por expor com imparcialidade as razões e argumentos apresentados pela parte contrária
us
Controvérsias: a “Summa”
de Belarmino:
—, foram de incalculável valor para
a defesa da Igreja. Se a maior parte
da Áustria e quase um terço da Alemanha ainda hoje permanecem católicos, podemos afirmar dever-se, em
boa medida, ao apostolado de São
Roberto Belarmino.
“‘Ó! Se soubésseis quantos filhos restituístes a Cristo!’, escrevia-
G
r­esponsabilidades pastorais e acadêmicas, as quais desempenhava
com virtude e talento. Isso levou os
superiores a adiantarem sua profissão solene.
São Luís Gonzaga, de quem
o Cardeal Belarmino foi confessor,
admirava-o como a um Anjo
Mosaico da Igreja de
Santo Inácio de Loyola, Roma
-lhe o Duque Guilherme da Baviera, ao pedir-lhe licença de traduzir
as ‘Controvérsias’”.4
Amizade e admiração entre santos
Naquele período conturbado para a Igreja, muitos foram os jesuítas
que praticaram a virtude em grau heroico, merecendo ser elevados à honra dos altares. Com alguns deles teve
São Roberto um trato mais estreito.
Sendo diretor espiritual do Colégio Romano, coube-lhe ser confessor de São Luís Gonzaga, que o
admirava como a um Anjo. Aquele,
por sua vez, dizia nunca haver tratado com alma tão pura e delicada
quanto a deste jovem.
Mais tarde, durante uma visita como provincial ao colégio de Lecce, no
30      Flashes de Fátima · Setembro 2010
Cardeal em nome da
Santa Obediência
A fecunda atuação de São Roberto
Belarmino na Cidade Eterna não se
circunscrevia ao Colégio Romano, do
qual passaria, em 1592, a ser Reitor.
Entre outros encargos, foi ele teólogo do Papa Clemente VIII, consultor
do Santo Ofício e teólogo da Penitenciária Apostólica. Fez também parte
da comissão encarregada de preparar
a edição clementina da Vulgata, versão oficial da Bíblia para o rito latino
até 1979, quando foi substituída pela
Neovulgata.
Sua nomeação como Cardeal era
inevitável. Ele, porém, recusava-se a
aceitar o cargo, alegando incompatibilidade com seus votos. Mas o Papa Clemente VIII o obrigou a aceitar
em nome da Santa Obediência, afirmando: “Nós o elegemos porque não
há na Igreja de Deus outro que lhe
equipare em ciência e sabedoria”.6
Com o mesmo espírito religioso, desinteresse e abnegação que o
caracterizaram até aquele momento, dedicou-se aos trabalhos, muitas vezes espinhosos, exigidos aos
prelados romanos. Mas em 1602,
Clemente VIII o liberou da pesada carga nomeando-o Arcebispo de
Cápua, conferindo-lhe ele mesmo a
ordenação episcopal.
À frente da Arquidiocese de Cápua
Gozando já em vida de fama de
santidade, o Cardeal Belarmino foi
recebido na catedral com grande
pompa e enorme concurso de fiéis,
que tocavam nele medalhas e terços.
alguém mais apto, rezando com insistência: “Do Papado, livrai-me, Senhor!”.7
Eleito Paulo V, este o trouxe para
junto de si, fazendo-o deixar definitivamente a Arquidiocese de Cápua.
Ainda dezesseis anos passaria em
Roma, desempenhando os mais altos cargos a serviço da Santa Sé e intervindo nos assuntos mais importantes, para cuja resolução exercia o
seu parecer uma influência decisiva.
fugira de honras e dignidades, tornava-se assim o único jesuíta inscrito na lista dos santos como Cardeal
e como Bispo. 
1
MENDES, SJ, João Rodrigues. O
Santo Cardial Roberto Belarmino.
Porto: Apostolado de Imprensa,
1930, p.66-67.
2
IPARRAGUIRRE, SJ, Ignacio. San
Roberto Belarmino. In: ECHEVERRÍA, Lamberto de; LLORCA, Bernardino; BETES, José L.
R. (Org.). Año Cristiano. Madrid:
BAC, 2005, v.IX, p.479.
3
MENDES, SJ, op. cit., p.23.
4
VASCONCELLOS, Roberto de.
Biografia de São Roberto Belarmino. In: SÃO ROBERTO
BELLARMINO. Elevação da mente a Deus pelos degraus das coisas
criadas. São Paulo: Paulinas, 1955,
p.12.
5
ECHANIZ, SJ, Ignacio. Paixão e
Glória. História da Companhia de
Jesus em corpo e alma. São Paulo:
Loyola, 2006, t.II, p.23.
6
IPARRAGUIRRE, SJ, op. cit.,
p.481.
7
PEPE, Enrico. Martiri e santi del calendario romano. Roma: Città Nuova, 2006, p.546.
Serenidade na vida e na morte
Ao sentir se aproximar a morte,
São Roberto pediu ao recém-eleito
Papa Gregório XV dispensa de todos os seus cargos na Cúria e retirou-se para o Noviciado de Santo André,
no Quirinal, a fim de “esperar o Senhor”, como costumava dizer.
Ele chegou em 17 de setembro
de 1621. Depois de curta enfermidade, tendo recebido a visita de muitas
pessoas ilustres — incluindo o próprio Papa —, que lhe pediam um último conselho ou uma bênção, despediu-se desta terra com uma sereníssima morte.
Pio XI o canonizou em 29 de junho de 1930, e o declarou Doutor da
Igreja no ano seguinte. Aquele que,
durante a vida, com tanto empenho
Gustavo Kralj
Seu governo começou por uma
reforma geral do clero. Entrevistou-se em particular com cada um
dos presbíteros, usando de bondade e firmeza evangélica para com
os transviados. Manifestava-se disposto a perdoar os mais graves pecados aos arrependidos, mas mantinha uma inflexibilidade completa
para com os recalcitrantes: aut vitam
aut habitum — ou mudança de vida
ou de hábito.
Na catedral, deu nova vida ao coro, participando ele próprio da recitação do Ofício. Dedicou-se com
frequência à pregação, como era
seu costume, usando deste meio para converter as almas. Visitou também todo o território da arquidiocese, estimulando a piedade dos f­iéis
e ajudando a reerguer os conventos
decadentes. Mas, como bom filho de
Santo Inácio, dava particular importância à formação: ele próprio ensinava o Catecismo nas paróquias e
na catedral, aos domingos.
No meio de todas essas ocupações, sua vida espiritual era uma
obra-prima de serenidade. Conseguia organizar seu tempo de modo
a encontrar momentos para pensar,
meditar, rezar, estudar, escrever, sem
descuidar as obrigações para com seu
rebanho. Pelo contrário, era do recolhimento e da oração que hauria as
forças para a ação pastoral.
Que linda ilustração da tese de
D. Chautard: o apostolado é o transbordamento da vida interior!
Eleição do novo Papa
À morte de Clemente VIII, o Cardeal Belarmino regressou a Roma para participar de um Conclave, pela
primeira vez. O papa eleito foi Leão
XI, falecido menos de um mês depois.
No segundo Conclave, São Roberto chegou a ter um bom número
de votos. Mas, assim como recusara
as honras de Cardeal, revela em sua
Autobiografia haver pedido a Deus,
naqueles dias, que fosse escolhido
Ao sentir aproximar-se a morte, o Cardeal Belarmino pediu
dispensa de todos os cargos na Cúria e retirou-se para o Noviciado
dos Jesuítas, a fim de “esperar o Senhor”
Altar com os restos mortais de São Roberto na Igreja de Santo Inácio, Roma
Setembro 2010 · Flashes
de Fátima      31
Prefácio para a tese doutoral de Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP
Os homens de fé
mudam os rumos da
História
Cada carisma é um novo luzeiro no grandioso firmamento da
Santa Madre Igreja, e adquire todo o seu esplendor quando
mostrado numa realidade eclesial verdadeira, viva, fortemente
ancorada em uma espiritualidade autêntica.
Cardeal Franc Rodé, CM
Prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada
e as Sociedades de Vida Apostólica
A
o pensar em um prefácio para a presente obra, não me vêm à
mente, em primeiro lugar, considerações de índole acadêmica, em consonância com a natureza da dissertação doutoral que encerra — A gênese e o desenvolvimento
do movimento dos Arautos do Evangelho e seu reconhecimento canônico
—, mas antes o desejo de compartilhar com o leitor uma série de reflexões que a evocação do autor, Mons.
João Scognamiglio Clá Dias, EP, e do
movimento por ele fundado me trazem ao espírito, fruto da estima que a
convivência com essa realidade eclesial fez aflorar em mim.
Soluções imprevistas para
problemas aparentemente
insolúveis
O Divino Espírito Santo, desde
o santo escândalo da ebriedade de
Pentecostes, não tem deixado de sur-
preender o mundo e a Igreja, em todos os séculos da existência dela até o
presente. A problemas aparentemente insolúveis, tem sempre dado soluções imprevistas, que com f­ requência
não são entendidas por muitos.
Não é nenhum segredo que vivemos em um mundo secularizado e
afastado de Deus. A própria Igreja
— Esposa Mística de Cristo, “gloriosa, sem mácula, sem ruga ou coisa semelhante, mas santa e imaculada” (Ef
5, 27) —, em seu elemento humano,
encontra-se também sob a deletéria
influência do secularismo, como tantas vezes advertiu o Santo Padre Bento XVI. Basta-nos mencionar a preocupante falta de vocações, tanto nos
institutos de vida consagrada como no
clero diocesano, que afeta, sobretudo,
a nossa velha Europa, em claro contraste com séculos e séculos de fecunda e gloriosa tradição evangelizadora.
Sem dúvida, os sinais de esperança no panorama hodierno podem
32      Flashes de Fátima · Setembro 2010
ser procurados em muitos níveis. Faz
falta, entretanto, um discernimento
equilibrado para perceber os “sinais
dos tempos”, a fim de reconhecer, como os Santos Magos, em meio a um
universo de estrelas, algumas capazes
de nos guiar de lugares distantes até o
Divino Redentor. Pois bem, posso dizer que, no meio da noite, vi uma entre elas. Sobre seu fulgor e seu percurso desejo transmitir de modo breve,
ao estimado leitor, algumas impressões que me calaram no espírito.
Significativa harmonização entre
vida contemplativa e vida ativa
Trata-se de uma estrela com uma
trajetória precisa. Os Arautos do
Evangelho começaram como um movimento laical — característica predominante que se mantém até o presente —, que adotou a ­espiritualidade
de São Luís Maria Grignion de Montfort como ­ponto de partida da primeira experiência de vida ­comunitária e
Gustavo Kralj
Jesus Hóstia, durante horas
marco inicial da institucionalie horas, reza-se em conjunto
zação da obra. Para viver mais
ou individualmente, lê-se, esintensamente a consagração
tuda-se, trabalha-se, ou simensinada pelo grande santo
plesmente deixa-se banhar
mariano, os primeiros mempelo “Sol que nasce do alto”,
bros se dispuseram a viver em
na oração de quietude. É hacomunidade. A partir do mobitual para esses jovens covimento laical, surgiram posmungar duas vezes ao dia na
teriormente um ramo sacerSanta Missa.
dotal (a Sociedade Clerical de
Por outro lado, numa époVida Apostólica Virgo Flos
ca em que se proclama o diCarmeli) e um ramo feminireito a uma mal-entendida lino de consagradas (a Sociedaberdade sem limites, a nota
de de Vida Apostólica Regina
mariana que distingue esses
Virginum).
jovens está profundamente
Os objetivos ao longo desmarcada pela espiritualidade
te caminho estão muito clade São Luís Maria Grignion
ros. Por exemplo, no tocante
de Montfort, como mencioao essencial capítulo da fornado antes, segundo a qual
mação, pude observar, nas dise consagram como escravos
versas ocasiões em que convide amor a Nosso Senhor Jevi com eles, uma equilibrada
O Cardeal Franc Rodé, CM, preside a Eucaristia
sus Cristo pelas mãos de Madisciplina interna: firme e ao
na igreja do Seminário dos Arautos do Evangelho
ria; daí a corrente que levam
mesmo tempo delicada; lógica
em Caieiras-SP
em torno da cintura. O santo
e flexível. No meio de uma viRosário, pendente do lado direito,
da comunitária de oração, multiplicaexpressa a necessidade da oração.
ram suas atividades evangelizadoras e
Do mesmo modo, a obediência à Sajá ­atuam em mais de 70 países nos cingrada Hierarquia, praticada com reco continentes. E não poupam esforlação a todos os níveis, em particuços para pôr a serviço da nova evanlar ao dos Bispos, é a melhor prova
gelização inclusive as mais modernas
do amor que devotam à Igreja e ao
tecnologias: desde a internet até a diSanto Padre.
vulgação em grande escala da boa imprensa; desde a produção de prograTransformar a vida
mas de televisão até visitas a famílias;
quotidiana numa liturgia
desde Missões Marianas organizadas
de louvores ao Altíssimo
até o apoio telefônico sistemático aos
colaboradores. Significativa harmoniO fulgor dessa estrela é sem dúvização entre a vida contemplativa e a
da atraente; é difícil não se deixar cavida ativa, própria do dom de Sabedotivar por semelhante caleidoscópio de
ria, que é um dos traços característimatizes de cores e intensidades, por
cos do carisma da instituição.
mais que muitos de seus aspectos possam ser reconhecidos em outros asVida eucarística, devoção à
No caso dos Arautos do Evange- tros já famosos. Na verdade, cada caSantíssima Virgem e veneração
lho, distinguem-se três pilares funda- risma é um novo luzeiro no grandiopelo Pontífice Romano
mentais nesta matéria: a vida eucarís- so firmamento da Santa Madre Igreja,
Se uma estrela decidisse renunciar tica, a devoção à Santíssima Virgem e e adquire todo o seu esplendor quana seu brilho, que seria dela? Tornar- a veneração pelo Pontífice Romano. do mostrado numa realidade eclesial
-se-ia uma simples pedrinha, errante Ecclesia de Eucharistia; são cada vez verdadeira, viva, fortemente ancorada
na imensidade do espaço. Assim ocor- mais numerosas as suas casas de vida em uma espiritualidade autêntica.
Por ocasião da dedicação da Igrereria com todo movimento eclesial comunitária onde se realiza a Adoraque deixasse de lado a espiritualidade. ção Eucarística perpétua. Diante de ja Nossa Senhora do Rosário, em
Siginificativa
harmonização entre
a vida contemplativa
e a vida ativa,
própria do dom
de Sabedoria, que
é um dos traços
característicos
do carisma da
instituição
Setembro 2010 · Flashes
de Fátima      33
São Paulo, Brasil, em uma cerimônia que nada tinha a invejar aos
mais esmerados pontificais romanos, tive ocasião — ao me deparar
com um auditório repleto de mais
de mil jovens de variadas idades, revestidos com seu hábito característico — de apreciar a riqueza de dons
com a qual o Espírito Santo favorece Sua Igreja. Não causa estranheza
que um elemento fundamental desse novo carisma seja o amor à perfeição: “Sede, pois, perfeitos, como também vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 48). Daí o esmero em
transformar toda a vida cotidiana,
até em seus mais mínimos detalhes,
numa liturgia de louvores ao Altíssimo.
devota submissão ao Santo Padre e
à Sagrada Hierarquia, sem uma delicada fidelidade ao Magistério Eclesiástico, sem uma fortaleza de espírito disposta a todos os sacrifícios por amor a Nosso Senhor Jesus Cristo, em uma palavra, sem um
exemplo de vida irrepreensível; qualidades que, na própria instituição,
não são senão reflexo do fundador.
Mons. João Scognamiglio Clá
Dias, EP, é Doutor em Direito Canônico pela Pontifícia Universidade São Tomás de Aquino, de Roma (Angelicum), grau que lhe foi
O Divino Espírito Santo
não faz nascer uma obra
sem um fundador
Ademais, cada estrela é única e
irrepetível, se não para os homens,
ao menos para Deus, que “chama
cada uma pelo seu nome” (Sl 147,
4). O Divino Espírito Santo concede Seus dons para o bem do povo de Deus. E os faz frutificar a
seu tempo, já que nunca deixa Suas obras inacabadas. Assim como
não suscita um movimento alheio
às necessidades de sua época, tampouco faz nascer uma obra sem um
fundador.
Por isso, só a têmpera de um fundador foi capaz de transformar, com
equilíbrio e sabedoria, o ideal das
antigas ordens de cavalaria — sempre aprovado e incentivado pela
Igreja ao longo dos séculos —, adaptando-o às novas gerações como
bandeira digna de ser desfraldada
nos dias de hoje, com poder de entusiasmar e arrastar.
É difícil imaginar como pudesse
ter isso ocorrido sem uma fé inquebrantável no triunfo da Santa Igreja,
sem uma valente audácia na expansão da obra, sem uma atenta docilidade às moções da graça, sem uma
34      Flashes de Fátima · Setembro 2010
Só a têmpera
de um fundador foi
capaz de transformar
o ideal das antigas
ordens de cavalaria,
adaptando-o às
novas gerações
outorgado precisamente pela defesa da tese que tenho o gosto de
apresentar (ele bem poderia contar
entre seus títulos, o de ser um dos
pouquíssimos casos conhecidos em
que um fundador defende uma tese sobre a trajetória jurídico-canônica de sua própria obra); Mestre,
também em Direito Canônico, pela
Pontifícia Universidade Gregoriana; Mestre em Psicologia pela Universidade Católica de Bogotá (Colômbia); Licenciado em Humanidades pela Pontifícia Universidade
Católica Madre y Maestra, da República Dominicana. É fundador do
Instituto Teológico São Tomás de
Aquino (ITTA) e do Instituto Filosófico-Teológico Santa Escolástica
(IFTE). Também se deve a sua iniciativa a publicação da revista mensal de atualidade religiosa Arautos do Evangelho, com uma tiragem de quase um milhão de exemplares em quatro línguas, assim como da revista científica de inspiração tomista Lumen Veritatis. É autor de 15 livros, com uma tiragem
total de 14 milhões de exemplares,
em sete idiomas. Cônego honorário da Basilica Papale di Santa Maria Maggiore, de Roma, é ademais
membro da Pontificia Accademia
dell’Immacolata e da Sociedade Internacional São Tomás de Aquino,
assim como da Academia Marial de
Aparecida (Brasil).
Em busca de uma forma
jurídica capaz de preservar
o carisma no futuro
Uma primeira edição da tese de
Mons. João, em italiano, acaba de
ser impressa em Roma. Em breve,
ela será também publicada em
português, espanhol e inglês.
O objetivo da tese é abordar cientificamente o problema que consiste em encontrar a figura jurídica mais adequada para enquadrar a
obra dos Arautos do Evangelho no
ordenamento canônico, garantindo-lhe a unidade institucional com o
englobamento dos diversos estados
de vida, o que evita o risco de uma
fragmentação futura da instituição
e de um desvirtuamento do ­carisma;
François Boulay
Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP, defende no “Angelicum”, em Roma, sua tese de doutorado em Direito
Canônico
­ roblema de máxima atualidade pap
ra diversos movimentos eclesiais
que iniciaram sua trajetória institucional como associação privada de
­fiéis. Para isso, o autor divide a tese em três capítulos, que tratam respectivamente dos aspectos jurídicos,
históricos e carismáticos relacionados com o nascimento e a evolução
da instituição desde suas origens até
nossos dias.
Fundamentando-se em célebres
juristas da atualidade, enfoca-se,
no primeiro capítulo, o fenômeno
associativo, segundo as várias formas jurídicas contempladas pelo
­atual Código de Direito Canônico,
para enquadrar os carismas suscitados pelo Espírito Santo. A análise das associações de fiéis ocupa um lugar relevante, pois, dada a
sua flexibilidade, a maioria dos movimentos eclesiais tem adotado essa forma jurídica para situar-se no
ordenamento da Igreja. Em seguida são estudados os diversos tipos
de vida consagrada: Institutos Religiosos, Institutos Seculares e as Sociedades de Vida Apostólica. Por
fim, é abordado o tema das prelazias pessoais como possível molde
canônico para receber um carisma
ou movimento. No segundo capítulo — de grande interesse para o estudo dos fundadores — se encontra
a narração da autobiografia do fun-
Nenhuma das
formas associativas
em vigor é capaz
de abarcar por
inteiro o movimento
dos Arautos do
Evangelho
dador desde sua mais tenra infância, constituindo um elemento fundamental para entender a essência
do carisma dos Arautos do Evangelho. O terceiro capítulo está dedicado a analisar com profundidade teológica o carisma da instituição, difícil de apreender de uma só
vez em suas multiformes manifestações. Com efeito, não é intenção do
autor tratar esta matéria de modo
exaustivo, embora alguns de seus
traços inquestionáveis sejam descritos com precisão.
Finalmente, após a consideração de algumas soluções alternativas, embora não plenamente satisfatórias, chega-se à conclusão,
partilhada por eminentes canonistas da atualidade, de que nenhuma das formas associativas em vigor é capaz de abarcar por inteiro
o movimento dos Arautos do Evangelho, dada a diversidade de estados de vida que engloba; “deita-se o vinho novo em odres novos”
(Mt 9, 17; Mc 2, 22; Lc 5, 38). Intuição que, de algum modo, estava já
implícita no reconhecimento pontifício das duas Sociedades de Vida Apostólica (Virgo Flos Carmeli
e Regina Virginum), ao considerá-lo um passo intermediário, que solucionava temporariamente determinados problemas, como a incardinação dos clérigos, até encontrar-se uma forma suficientemente flexível e abarcadora, capaz de preservar o carisma no futuro.
Gostaria de terminar estas linhas desejando ao autor uma grande difusão da presente obra em toda a Igreja — certo de que poderá
servir como válido estímulo a outros movimentos de origem laical
—, bem como agradecendo-lhe tudo o que faz e ainda fará pela Santa Igreja de Deus. São os homens
de fé que mudam os rumos da História, aqueles que formam parte
da estirpe dos heróis e dos santos.
E é deles que a Igreja tem necessidade hoje, como ontem e sempre.
Afinal de contas, quem não experimenta uma grande alegria, como
os Santos Magos, ao ver uma estrela que deve guiá-lo na obscuridade
da noite? ²
Setembro 2010 · Flashes
de Fátima      35
Ó Cruz, única
esperança!
A Cruz de Caravaca: um
fragmento da Vera Cruz
recolhido no interior de um
esplêndido relicário
O culto oito vezes secular à “Santíssima e Vera Cruz”
de Caravaca lembra-nos que o Sagrado Madeiro não
é símbolo de morte e de derrota, mas sim anúncio de
salvação e caminho seguro para a glória celeste.
C
orria o ano de 1232. A Península Ibérica encontrava-se ainda em plena Reconquista, dividida em vários
reinos. Sancho II governava em Portugal; Jaime I, em Aragão; e Fernando
III, o Rei Santo, em Leão e Castela.
Do lado muçulmano, o declínio
da dinastia Almóada fora aproveitado por Ibn-Hud para se apossar
de uma ampla região do sul da Espanha e se fazer proclamar emir em
Múrcia. A cidade de Valência, entretanto, era ainda governada por
Ceyt Abu-Ceyt, descendente daquela dinastia. Sob o domínio deste último encontrava-se a fortaleza de
Caravaca, em cujo alcácer, segundo
a tradição histórica local, deu-se no
dia 3 de maio desse ano, “um acontecimento maravilhoso e único”.1
Acompanhemos o relato que dele
nos fazem as antigas crônicas.2
Dando ocupação aos prisioneiros
Encontrando-se naquela fortaleza, e visando tirar melhor proveito
dos prisioneiros que lá havia, o governador Abu-Ceyt começou a interrogá-los sobre a respectiva profissão e ocupá-los segundo as respectivas aptidões. Quando chegou a vez
Carlos Tonelli
do padre Ginés Pérez Chirinos, o
governador perguntou-lhe:
— E tu, que sabes fazer?
— Eu sei celebrar Missa.
— O que significa isso? — replicou Abu-Ceyt.
Padre Ginés explicou-lhe ser o
mais alto e principal encargo do sacerdote cristão celebrar a Eucaristia, instituída por Nosso Senhor Jesus Cristo na Última Ceia. Durante a mesma, esclareceu, o pão e o vinho passam a ser o Corpo e o Sangue do Deus verdadeiro.
— Não acredito! — replicou-lhe incrédulo. Mostra-me como isso acontece.
— Se me deres quanto preciso
para celebrar Missa, eu o farei — redarguiu o sacerdote.
Abu-Ceyt aquiesceu. Feita a lista
dos paramentos e alfaias litúrgicas
necessários, o alcaide mandou logo
providenciá-los.
Milagrosa aparição da Cruz
No dia seguinte, o padre Chirinos
rezou bem de manhã seu breviário.
Logo após, dirigiu-se ao salão principal da fortaleza, onde fez cuidadosamente todos os preparativos para
a Eucaristia e vestiu os paramentos.
36      Flashes de Fátima · Setembro 2010
Já seguia rumo ao improvisado
altar para dar início à celebração
quando percebeu a ausência do crucifixo. Sem conseguir explicar como
pudera esquecê-lo, disse consternado ao governador:
— Senhor, falta-me uma das coisas mais importantes para celebrar a
Missa: a Cruz.
— Mas... não é isso que está em
cima da mesa? — perguntou o alcaide apontando para o altar.
O sacerdote voltou-se e viu, admirado, uma Cruz patriarcal de 17cm
de altura com duas hastes transversais, de 7 e 10cm. Transido de devoção, ajoelhou-se, osculou-a e deu início à Santa Missa, terminada a qual,
Abu-Ceyt pediu para ser batizado.
Oito séculos de devoção
A Cruz de Caravaca é um lignum
crucis — fragmento da verdadeira
Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo
— recolhido no interior de um belo
relicário. Segundo antiga tradição, este era usado como cruz peitoral pelo
Patriarca de Jerusalém, Dom Roberto, empossado como Bispo da Cidade
Santa no ano de 1099. Daí o seu singular formato, com duas hastes transversais, símbolo do poder patriarcal.
Fotos: Wikipedia
Situada no local do antigo alcácer, a Basílica-Santuário domina o
panorama da cidade
Sejam quais forem as circunstâncias em que ela chegou a Caravaca,
não se pode duvidar de sua presença
na cidade em pleno século XIII. Já no
ano de 1285 sua silhueta é representada no escudo da municipalidade, e datam da mesma época os primeiros relatos orais do miraculoso aparecimento.
Desde os primórdios, a devoção
à “Santíssima e Vera Cruz” de Caravaca difundiu-se por todo o mundo cristão. Da Espanha medieval
— onde logo adquire fama de milagrosa protetora na tormentosa vida
fronteiriça— passou para os outros
países europeus e estendeu-se de­
pois às nações americanas.
A partir de 1392 — quando Clemente VII concede as primeiras indulgências —, os Papas têm outorgado regularmente privilégios aos peregrinos que acorram a venerar a sagrada relíquia. Em 1736, é-lhe reconhecido pela Igreja o culto de latria.
Ao longo desses quase oito séculos,
desenvolveu-se também um rico e variado ritual em torno dela: bênção das
flores e dos campos, uma peculiar bênção da água e do vinho, além de uma
espécie de romaria durante a qual a sagrada relíquia visita as casas dos enfermos impedidos de comparecer à igreja.
Em fins do século XV, a pequena capela do alcácer de Caravaca foi
acrescida de uma nave de maiores
proporções. E, em 1617, iniciou-se
a construção da atual Basílica-Santuário.
Também o relicário que contém o
lignum crucis tem passado por sucessivas reformas, sendo o atual uma
maravilhosa obra de ourivesaria, ornada com pedras preciosas.
Uma mensagem atual
Setecentos e cinquenta anos após
a milagrosa aparição, o culto à “Santíssima e Vera Cruz” recebeu um
novo impulso por parte do Papa
João Paulo II. Em 1981, ele concedeu à Basílica-Santuário um ano jubilar para comemorar esse aniversário. Em 1996, proclamou novo Ano
Santo e, dois anos depois, outorgou
um jubileu in perpetuum, de sete em
sete anos, a começar em 2003.
O primeiro desses períodos de
graça foi precedido por uma Missa solene na basílica, celebrada pelo Cardeal Joseph Ratzinger, então Prefeito da Congregação para
a Doutrina da Fé, em 1º de dezembro de 2002, primeiro domingo do
Advento. Durante a homilia, ele fez
uma esplêndida interpretação teológica do antiquíssimo relato, tomando
por base o exemplo do padre Ginés
Pérez Chirinos, para recordar a grandeza da vocação sacerdotal e lembrar
que é o próprio Cristo quem toma
possessão do presbítero, a­ tuando por
meio dele e “pronunciando por boca
do sacerdote as palavras santas que
transformam as coisas terrenas num
mistério divino”.
Após estender-se nas relações
entre a Eucaristia e a Cruz, concluiu
o atual Papa com esta tocante exortação: “A cruz, à qual nos remete a
Santa Eucaristia e cujo sinal exterior
é a Santa Cruz de Caravaca, é a força santa com que Deus bate à porta dos nossos corações e nos acorda.
Ver a Cristo crucificado significa vigiar e, em consequência, viver com
retidão. Senhor, abri o Céu! Fazei-nos vigilantes para que Vos reconheçamos, oculto no meio de nós”.
A frase adotada como lema para o Ano Santo 2010, que agora celebramos — Ó Cruz, única esperança! —, foi escrita pelo próprio Cardeal Ratzinger, por ocasião dessa
sua visita ao Santuário. Ela nos recorda que a Cruz é nossa esperança no presente e o será em todos os
tempos. A Cruz não é um símbolo
de morte e de derrota; ao contrário,
é anúncio de salvação e caminho seguro para chegar à glória celeste. 
Homilia pronunciada pelo C
­ ardeal
Joseph Ratzinger, na Basílica-Santuário da Santíssima e Vera Cruz
de Caravaca (1/12/2002). Texto íntegro em http://www.diocesisdeteruel.org/pdf y otros/Adviento
2007/HOMILIAS/Homilía en el
SantuarioCaravaca.pdf.
1
2
Uma interessante análise historiográfica dos relatos do milagre é feito em BALLESTER LORCA, Pedro. La Cruz de Caravaca — Historia, rito y tradición. 11.ed. Caravaca
de la Cruz: Real e Ilustre Cofradía
de la Cruz, 2006.
Setembro 2010 · Flashes
de Fátima      37
A palavra dos Pastores
Anunciar
com vigor e alegria
Ao tomar posse da diocese de Viana do Castelo, Dom Anacleto
serviu-se das palavras de Bento XVI em Portugal, para convidar
cada fiel ser “uma presença irradiante da perspectiva evangélica
no meio do mundo”.
Dom Anacleto de Oliveira
Bispo de Viana do Castelo
A
primeira vez que visitei
esta Diocese de Viana
do Castelo, depois da
minha nomeação para
seu Bispo, foi há pouco mais de um
mês: uma visita de apenas dois dias,
mas na qual colhi impressões e experimentei sensações que desejo transmitir-vos. Fui acompanhado pelo
meu antecessor neste ministério, o
Senhor Dom José Pedreira, a pessoa
que certamente mais bem conhece
esta Diocese. Nela nasceu, serviu-a
longo tempo como presbítero e, durante quase 13 anos, como Bispo.
Agradeço-lhe muito, Senhor Dom
José, a disponibilidade com que me
guiou nesse primeiro contacto com
as gentes e as terras de Viana. (...)
“Eis aqui a escrava do Senhor”
Um dos maiores exemplos desta entrega de fé é o de Santa Maria,
padroeira desta Diocese e que, nesta solenidade da sua Assunção, veneramos como a Maior. Maior por
ser tão pequena. Ao ver-se eleita
para a missão sobre-humana de ser
Mãe do Filho do Altíssimo, foi então que ela mais se apercebeu da
sua pequenez. Sentiu-o mais do que
nunca, quando se viu extremamente agraciada por Deus. E foi, levada por essa graça, que se entregou:
“Eis a escrava do Senhor; faça-se em
mim segundo a tua Palavra” (Lc 1,
38). A graça do Senhor, que a fez
sentir-se tão humilde, como uma escrava, foi essa mesma graça que a levou a dar-se ao Senhor, para a plena
realização da sua palavra.
E foi assim que o Filho de Deus
ganhou corpo no seu corpo virginal:
pela graça da fé – a graça que sempre
precede, acompanha e alimenta toda
a entrega de fé – como uma criança
que, se ama o pai e a mãe, deve-o afinal ao amor que deles recebe.
E quão feliz Maria se sentiu assim, totalmente possuída pelo Senhor. Ouvimo-lo há pouco, de sua
prima Santa Isabel: “Bendita és tu
entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre.” A bênção do Filho apodera-se da Mãe. E esta é feliz, porque “acreditou no cumpri-
38      Flashes de Fátima · Setembro 2010
mento de tudo quanto lhe foi dito
da parte do Senhor” (Lc 1, 42.45).
E como reagiu Maria às palavras
de Isabel? – “A minha alma glorifica
o Senhor e o meu espírito se alegra
em Deus meu salvador”. Repare-se
como toda ela, neste louvor, se confia ao Senhor: com o corpo que fala,
a alma que vibra e o espírito de que
vive. Tudo isto, porque Ele, o Deus
Salvador, “pôs os olhos na humildade da sua serva” (Lc 1, 46-48).
Por isso, desde então, todas as gerações lhe chamam “bem-aventurada”. Chamamos-lhe assim, na medida em que fazemos, também nós e
no grau que nos é acessível, a sua experiência de fé. Também por meio
de nós, o Senhor quer fazer “maravilhas”, fruto da “sua misericórdia”:
a misericórdia que, ao mesmo tempo, nos faz sentir pequenos e nos capacita para sermos agentes de tudo
aquilo que só Ele tem poder para realizar (Lc 1, 49.50).
Vejamos o que, sobre isso, as leituras bíblicas desta celebração ainda
nos sugerem.
“É preciso anunciar com vigor e
alegria o acontecimento da morte e
ressurreição de Cristo, coração do
Cristianismo” (Lisboa, 11 de Maio
de 2010).
Segundo a do livro do Apocalipse (12, 1-6), é o Senhor, na sua infinita misericórdia, que faz de nós o Seu
Povo, aquela “mulher revestida de sol,
com a lua debaixo dos pés e uma coroa de doze estrelas na cabeça”: a mulher que Deus ama e que, à imagem
de Maria e por meio dela, dá à luz o
Messias; a mulher que, depois da glorificação de Cristo, tem de retirar-se
para o deserto das carências e do sofrimento, mas onde recebe de Deus
a energia necessária para enfrentar o
poder do mal e não ceder à tentação
de alinhar com os seus adoradores.
Crentes envergonhados que
dão a mão ao secularismo
Ainda hoje a Igreja sofre perseguições; e é sua missão assegurar que os
seus membros se não deixem conquistar por tantos ídolos destruidores.
Em Fátima, o Papa chamava a nossa
atenção, como Bispos, para isso: para o
que se passa em vários âmbitos da nossa sociedade, onde, segundo as suas palavras, há “crentes envergonhados que
dão as mãos ao secularismo, construtor
de barreiras à inspiração cristã.” E exor-
tava-nos a que, “mesmo aqueles que
lá defendem com coragem um pensamento católico vigoroso e fiel ao Magistério continuem a receber o vosso
estímulo e palavra esclarecedora para,
como leigos, viverem a liberdade cristã” (Discurso aos Bispos, 13.05.2010).
E, em Lisboa, afirmava que “para
fazer de cada mulher e homem cristão uma presença irradiante da perspectiva evangélica no meio do mundo, na família, na cultura, na economia, na política” – “para isso é preciso voltar a anunciar com vigor e alegria o acontecimento da morte e ressurreição de Cristo, coração do Cristianismo, fulcro e sustentáculo da
nossa fé, alavanca poderosa das nossas certezas, vento impetuoso que
varre qualquer medo e indecisão,
qualquer dúvida e cálculo humano”
(Homilia em Lisboa, 12.05.2010).
Trata-se da mesma mensagem da
ressurreição de Cristo que, há pouco, São Paulo proclamava como “primícias” da nossa ressurreição (1 Cor
15, 20.23). Também a essa mensagem podemos associar outras palavras do Santo Padre, neste caso relativas à esperança que nos anima: “Só
Cristo pode satisfazer plenamente os
anseios profundos de cada coração
humano e responder às suas questões mais inquietantes acerca do sofrimento, da injustiça e do mal, sobre
a morte e a vida do Além” (Ibidem).
Só Cristo! – O mesmo Cristo que
passou pela terrível humilhação da
cruz e pelo qual o Deus Todo-poderoso “manifestou o poder de seu
braço e dispersou os soberbos; derrubou os poderosos de seus tronos
e exaltou os humildes; aos famintos
encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias” (Lc 1, 51-53).
Palavras que Maria coloca nos nossos lábios, como programa de vida: da
minha como Bispo e da de cada um
de vós, particularmente os da diocese que me é confiada, com colaboradores que o Senhor me concede e aos
quais me confio… como uma criança.
“A palavra de Deus feita
amor entre nós”
Convido-vos, caríssimos Diocesanos, a fazermos todos o mesmo: a
conservarmo-nos dependentes uns
dos outros, unindo os carismas que
o Espírito do Senhor suscita em cada um de nós, em ordem à construção das comunidades a que pertencemos e que precisam de todos. Só
assim, poderemos, para já, realizar
plenamente o Projecto Pastoral Diocesano, escolhido para o triénio que
termina no próximo ano: o de encarnarmos nas nossas vidas e levarmos
outros a encarnar, conforme o título
dado a esse Projecto, “A Palavra de
Deus feita amor entre nós.”
Que esse amor ganhe expressões
concretas, dentro e fora das nossas
comunidades cristãs, nomeadamente em relação a tantos carenciados
e bens materiais e espirituais, entre
os quais destaco, pela sua actualidade, os que têm estado a braços com
os incêndios que têm assolado terras
da nossa Diocese e fora dela.
Mas lembremo-nos de que esse
amor só é possível ou, pelo menos, é
muito mais possível, se todos nos entregarmos inteiramente nas mãos de
Deus, deixando-nos encantar e conquistar pela sua misericórdia de Pai,
para que Ele, em nós, continue a fazer
maravilhas. Confiemo-nos a Ele, com
estas palavras do Salmo 130/131 que
Ele próprio coloca nos meus lábios:
“Senhor, não se eleva soberbo o
meu coração, nem se levantam altivos os meus olhos.
Não ambiciono grandezas nem
coisas superiores a mim.
Antes fico sossegado e tranquilo
como criança ao colo da mãe.
Espera, Israel, no Senhor, agora
e para sempre.”
Espera, Igreja de Viana, no Senhor agora e para sempre!
Amen. ²
(Excertos da Homilia de
15 de Agosto de 2010)
Setembro 2010 · Flashes
de Fátima      39
Erigida em 1946, a Diocese de
Taizhou, passou por dura prova em
1957: seu Bispo e todos os sacerdotes foram presos, e os lugares de
culto foram fechados. Somente em
1984 o governo permitiu a reabertura de algumas igrejas.
Antonio Xu Jiwei, então seminarista, foi condenado a 25 anos de trabalhos forçados. Libertado em 1985,
recebeu nesse mesmo ano a ordenação sacerdotal. Governava a Igreja
de Taizhou desde 1999, na qualidade
de Administrador Diocesano.
Um grupo de desconhecidos atacou em 4 de julho, na cidade de Muvattupuzha, Índia, um professor universitário católico, decepando-lhe a
mão e parte do braço direito — informa a agência AsiaNews.
Segundo apurou a polícia, o Prof.
T. J. Joseph retornava da Missa dominical, com sua família, quando foi
abordado pelos agressores, que o arrastaram para fora do carro, causaram-lhe profundos ferimentos com
facas e espadas e, por fim, cortaram e
atiraram a cerca de duzentos metros
a mão direita com parte do braço.
Motivo alegado para o crime: o
professor teria, alguns meses antes,
blasfemado contra Maomé. Várias
organizações manifestaram-se contra esse ato de barbárie. O presidente do Global Council of Indian Christians, Sajan K. George, pediu que os
assaltantes sejam julgados sem demora. “Espero que não aconteça,
como de outras vezes, que a denúncia acabe desaparecendo dos arquivos policiais, por causa das ameaças
dos militantes islâmicos de Kerala”
— declarou.
Após quase 50 anos de
provações, restaura-se diocese
na China Continental
Mons. Antonio Xu Jiwei, com 75
anos de idade e 25 de sacerdócio,
foi consagrado Bispo de Taizhou, na
província chinesa de Zhejiang, segundo nota divulgada em 14 de julho
pela Sala de Imprensa da Santa Sé.
www.santuario-fatima.pt
Bárbara agressão a professor
católico na Índia
Arquidiocese coreana celebra
primeiro centenário
Para comemorar seu primeiro
centenário, a Arquidiocese de Daegu, na Coreia, decidiu, entre outras
iniciativas, construir uma nova catedral e realizar um sínodo sobre métodos de evangelização da juventude
e da sociedade hodierna — informa
a agência Ucanews.
Segundo explicações fornecidas
por Dom Tadeu Cho Hwan-kil, Bispo
Auxiliar, a nova igreja terá também
instalações para funcionamento de
um complexo cultural. Sua construção, orçada em 26 milhões de dólares, deverá estar concluída até 2014.
A Arquidiocese de Daegu tem
sua origem no desmembramento do
antigo Vicariato Apostólico da Coreia, em 1911. Segundo estatísticas
de 2009, conta com 154 paróquias,
nas quais 461 sacerdotes atendem
451 mil fiéis.
Cristãos são o grupo religioso
mais discriminado
Bispo emérito de LeiriaFátima apela à oração e
à acção pelo Mundo
O bispo emérito de Leiria-Fátima, D. Serafim Ferreira e Silva
exortou à oração mas também à acção para a melhoria do mundo, informou a Sala de Imprensa do Santuário de Fátima
Dirigindo-se aos peregrinos durante a homilia da missa celebrada no recinto de oração do Santuário de Fátima, o prelado sublinhou a
necessidade de “rezarmos, reflectindo, corrigindo, prometendo e agindo. Não basta ficar na igreja ou aqui
no santuário a rezar. O mundo precisa de nós!”. (...)
Rezou também “pelos migrantes, pelas vítimas de tantos males,
tantas agressões” e vincou que é
“preciso protestar, reflectir, ajudar,
prevenir, tudo isto é pedir a Deus
a força para vencer as contrariedades”.
40      Flashes de Fátima · Setembro 2010
“Com o aumento da intolerância religiosa no mundo, está amplamente documentado como os cristãos constituem o grupo religioso mais discriminado” — declarou
Dom Mario Toso, SDB, Secretário do Pontifício Conselho Justiça e
Paz, em evento promovido pela Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) em Astana (Cazaquistão).
“Mais de 200 milhões de cristãos,
pertencentes a diversas confissões,
encontram-se em situação de dificuldade, por força das instituições e dos
contextos legais e culturais que os discriminam” — acrescentou o Prelado.
Entre várias outras manifestações discriminatórias, Dom Mario
Toso apontou: frequentes episódios
de violência e até mesmo assassinatos de cristãos; restrições irracionais
à liberdade de aderir à respectiva
comunidade religiosa; impedimentos para importar e distribuir mate-
Santa Sé financia 186 projetos
na América Latina
R
Jovanny Kranwinkel
eunido de 20 a 23 de julho, na Casa Arquidio- visita, na qual afirma: “quero que saibam que o Papa
cesana Maria da Altagracia, em Santo Domin- não se esqueceu de vocês; tem sempre presente a dor
go, o Conselho de Administração da Fundação “Po- que sofreram e sabe do sofrimento e das dificuldapulorum Progressio” aprovou o financiamento de 186 des para reconstruir os lares, as cidades e as vidas”.
projetos em benefício de comunidades indígenas, O Santo Padre enviou também uma ­doação especial
mestiças, afro-americanas e camponesas de 20 paí- de 250 mil dólares para a reconstrução da escola São
ses da América Latina e do Caribe, no valor total de Francisco de Sales, ­destruída pelo sismo.
Acolhidos pelo Cardeal Nicolás de Jesús López
2.091.500 dólares.
Na quinta-feira, dia 22, os membros do Conselho Rodríguez, Arcebispo de Santo Domingo, participade Administração deslocaram-se até o vizinha Hai- ram da reunião do Conselho de Administração o Preti, a fim de verificar in loco as necessidades da po- sidente desse Conselho, Cardeal Juan Sandoval Íñipulação e conhecer a realidade dos campos de refu- guez, Arcebispo de Guadalajara (México), e mais oito Arcebispos e Bispos,
giados gerenciados peentre os quais Dom
la Igreja. A visita tinha
Giovanni Battista Gansido programada antes
dolfo, representante da
do terremoto de janeiConferência Episcoro, por causa do granpal Italiana. O Cardeal
de número de projetos
Paul Josef Cordes, Preque a Fundação finansidente do Pontifício
cia nesse país.
Conselho Cor Unum
Durante a M
­ issa cenão pôde participar da
lebrada em Porto Prínreunião, por se enconcipe, foi lida a mensaOs membros do Conselho de Administração
trar convalescente de
gem enviada por Benda Fundação Populorum Progressio, durante
uma recente intervento XVI ao povo haitiasua visita ao Haiti
ção cirúrgica.
no por ocasião dessa
rial religioso; pressões sobre os cristãos que exercem funções públicas.
O texto integral de seu discurso, pronunciado em 29 de junho,
foi transcrito em L’Osservatore
Romano de 7 de julho e está disponível, em italiano, na página da
Secretaria de Estado do Vaticano
(www.vatican.va).
Congresso da Renovação
Carismática Católica
Momentos de oração e reflexão,
palestras e pregações marcaram o
XXIX Congresso Nacional da Renovação Carismática Católica do
Brasil, realizado na capital mineira.
Iniciado em 15 de julho com Missa celebrada pelo Arcebispo de Belo Horizonte, Dom Walmor Oliveira de Azevedo, o evento encerrou-se
no dia 18 com a Celebração Eucarística presidida por Dom José Luiz
Azcona Hermoso, Bispo da Prelazia
do Marajó, Pará.
“Aqui não existem espectadores, mas sim participantes: vive-se
o Congresso, não se assiste ao Congresso” — afirmou Dom Alberto
Taveira Corrêa, Arcebispo de Belém do Pará e assessor eclesiástico
da RCC brasileira, aos milhares de
membros que lotavam o Centro de
Convenções e Feiras da Expominas.
Entre vários outros palestrantes, destacou-se também o presidente do Conselho Nacional da
RCC, Marcos Volcan, que proclamou, no dia do encerramento: “Deus tem colocado uma porta aberta em nossa frente, e o que
Deus abre ninguém pode fechar”
(cf. Ap 3, 8).
Novo Superior Geral do
Instituto do Verbo Encarnado
Em 15 de julho, o Instituto do
Verbo Encarnado escolheu como
novo Superior Geral o Pe. Carlos Walker, até então Vigário Geral desse Instituto. Sucede no car-
Setembro 2010 · Flashes
de Fátima      41
go ao fundador, Pe. Carlos Miguel
Buela.
A eleição deu-se durante o Capítulo Geral, realizado no Seminário
Internacional São Vitaliano Papa,
em Velletri, Itália, na presença de
Dom Vincenzo Apicella, em cuja
diocese se encontra a Casa Generalícia do IVE. Ao aceitar o cargo, Pe.
Carlos Walker manifestou sua gratidão aos padres capitulares e pediu
especiais orações pelos bons resultados de seu período de governo.
O Instituto do Verbo Encarnado iniciou suas atividades na cidade
de San Rafael, Argentina, em 1984.
Conta hoje com mais de 200 sacerdotes e atua em mais de trinta países dos cinco continentes.
Bíblia e beleza numa
reflexão em MP3
Os responsáveis do site “Passo a
Rezar”(www.passo-a-rezar.net) explicam em comunicado de imprensa
que convidaram o sacerdote e poeta
madeirense P. José Tolentino Mendonça para escrever “sete textos inéditos sobre a beleza”.
“O P. Tolentino inspirou-se naquilo que ele considera os sete textos mais belos da Bíblia e escreveu
os conteúdos para ‘Sete pausas na
beleza’ que o site passo-a-rezar.net
vai oferecer em formato mp3 e para download gratuito”, indica o comunicado.
No site, a iniciativa é apresentada em forma de convite: “A be-
leza visita-nos com o jeito da surpresa. Comove os sentidos e toca
a alma bem no seu centro. No Verão, talvez o teu tempo dos lugares longínquos e estranhos, o passo-a-rezar.net oferece-te, além
das orações para cada dia, as
‘pausas’ e a beleza que só a Bíblia
pode dizer”.
Os actores Pedro Granger e Susana Arrais foram as vozes escolhidas para dar vida aos textos do P. Tolentino, que estão disponíveis para
os mais de 9 mil utilizadores diários
do passo-a-rezar.net.
Este projecto é uma iniciativa do
Secretariado Nacional do Apostolado da Oração, uma obra da Companhia de Jesus (Jesuítas) que se
IV Colóquio Latino Americano
de Direito Canônico
D
Carlos Adriano
e 26 a 30 de julho, mais de setenta especialistas Instituto Superior de Direito Canônico do Rio de
participaram no Rio de Janeiro do IV Colóquio Janeiro.
Entre os participantes, cabe destacar a presença
Latino Americano de Direito Canônico, promovido
pelo Instituto Superior de Direito Canônico dessa ci- de Dom Tarcísio Nascentes dos Santos, Bispo de Didade para debater e aprofundar temas tais como a im- vinópolis (MG), e Dom Jaime Mota de Farias, Bispo
portância da unidade pastoral, as normas canônicas, o Emérito de Alagoinhas (BA).
Durante o evento, Dom Orani João Tempesta —
relacionamento entre o Bispo e o seu Presbitério.
As conferências foram pronunciadas pelo Ar- Arcebispo do Rio de Janeiro e Chanceler Delegacebispo Francesco Coccopalmerio, Presidente do do do Instituto Superior de Direito Canônico dessa
cidade — recebeu a
Pontifício Conselho
Comenda de São Ropara os Textos Legisberto Belarmino, da
lativos; Pe. Michael
Pontifícia UniversiHilbert, SJ, Decano
dade Gregoriana. E,
da Pontifícia Univerno final, Dom Fransidade Gregoriana,
cesco ­Coccopalmerio
Pe. Damián Guillerressaltou a “grande fimo Astigueta e Pe.
dalguia e pronta comYuji Sugawara, propetência” com que o
fessores da mesma
Pe. José Gomes Mouniversidade; e Pe.
Dom Francesco Coccopalmeiro rodeado por
raes acolheu os conJosé Gomes Moraes,
participantes do encontro
gressistas.
diretor do Pontifício
42      Flashes de Fátima · Setembro 2010
dedica à promoção da oração pessoal. Cáritas Espanhola auxilia
populações do Sahel
Atendendo a um apelo da Caritas
Internacional, a Caritas Espanhola contribuiu no mês de julho com
200 mil euros para proporcionar alimentos básicos a 1.600 f­amílias em
Burkina Faso e apoiar o trabalho de
Caritas Níger contra a onda de fome
que assola o país. Essa ajuda vem
somar-se a 150 mil euros enviados
no mês de junho.
Toda a região subsaariana do
Sahel enfrenta uma crise alimentar
de consequências imprevisíveis, vitimando pelo menos 10 milhões de
pessoas — alerta a Caritas Internacional, que está se movimentando
para angariar mais recursos em benefício dessas populações.
Também no mês de julho, a Caritas Espanhola destinou 211.577 euros para projetos de segurança, alimentação e educação em Angola e
Moçambique, além de 205.000 euros
para Quirguistão, Camboja e Peru.
Diácono cria site para combater
o ódio religioso na Inglaterra
Preocupado pelos níveis de “hostilidade, ridículo e má vontade com
que certas figuras públicas e setores
da imprensa” da Inglaterra se preparam para a visita pastoral de Bento XVI a esse país, Nick Donnelly,
diácono permanente da Diocese de
Lancaster, criou em fins de julho a
página web protectthepope.com.
O site fornece informação sobre
a lei relativa ao crime de incitação
ao ódio religioso e proporciona aos
católicos as formas para informar
a polícia sobre eventuais infrações
dessa norma.
O diácono Donnelly visa também
combater a desinformação e as mentiras propaladas por certa imprensa
sensacionalista, “apresentando a verdade simples, especialmente a res-
peito da pessoa e das ações do Papa
Bento XVI”. E promove, ademais,
especiais orações pelo êxito pastoral
e espiritual da visita do Santo Padre
e pelo bem da Igreja nesse país.
Mais dois livros do
Papa Bento XVI
Os amigos de Jesus é o título de
um volume de 48 páginas no qual
Bento XVI narra ao público infantil
e juvenil a história dos Doze Apóstolos e de São Paulo, utilizando passagens das audiências gerais das
quartas-feiras acompanhadas por
ilustrações do artista italiano Franco Vignazia. Lançado no último 22
de julho pela Piccola Casa Editrice,
a obra conta com um prefácio do Pe.
Julián Carrón, presidente da fraternidade Comunhão e Libertação.
De outro lado, Bento XVI começou a preparar, no palácio de verão
de Castel Gandolfo, o terceiro volume de Jesus de Nazaré, dedicado aos
Evangelhos da Infância. O primeiro volume dessa obra, publicado em
2007, logo se tornou um best-seller.
O segundo, dedicado à Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo, já
está em fase de tradução com vistas
a ser distribuído em fevereiro.
Itinerário para o Centenário
das Aparições apresentado
à Comunicação Social
O Santuário de Fátima prepara-se para a celebração do Centenário das Aparições de Nossa Senho-
ra, que ocorreram em 1917. Os próximos sete anos, com início no ano litúrgico de 2011, que começa no primeiro Domingo do Advento, a 28 de
Novembro, serão dedicados às aparições.
Em conferência de imprensa realizada no Santuário de Fátima, o Reitor da instituição, padre Virgílio Antunes, destacou os principais objectivos da celebração.
“Dar a conhecer a mensagem de
Fátima e as suas implicações com a
vida dos cristãos deste tempo, assim
como a sua dimensão profética, relevante para a Igreja e para o mundo;
e ajudar a dinamizar espiritualmente
todos os devotos, peregrinos e a própria Igreja em Portugal, que tem em
Fátima um forte ponto de apoio para a sua acção pastoral” são dois dos
propósitos da iniciativa que pretende
também “contribuir para uma leitura
da realidade do nosso tempo a partir
da fé cristã e da afirmação de Deus
como Senhor da História”. (...)
“Uma Comissão Teológica elaborou ao longo deste ano o itinerário
temático a seguir durante os próximos sete anos, entre 2011 e 2017. A
partir das “Memórias da Irmã Lúcia”, elencaram-se os temas, seguindo o percurso das aparições do Anjo
e de Nossa Senhora. Partiu-se sempre de um acontecimento de Fátima,
tomou-se uma frase inspiradora e depois definiram-se um núcleo teológico, um elemento catequético e uma
atitude crente a desenvolver”, explicou à Sala de Imprensa do Santuário
de Fátima.
Encontro Continental
da Ação Católica
Sob o lema Vida, pão, paz e liberdade: leigos da Ação Católica na cidade para um mundo mais humano, realizou-se no México, de 8 a 11
de julho, o VI Encontro Continental Americano da Ação Católica. O
evento congregou trinta delegações
de países latino-americanos cujos
Setembro 2010 · Flashes
de Fátima      43
representantes analisaram as questões acima sob a luz do Documento
de Aparecida.
Em mensagem assinada pelo Secretário de Estado da Santa Sé, Cardeal Tarcisio Bertone, o Santo Padre
animou seus participantes a se aprofundarem no papel fundamental dos
leigos na construção de uma sociedade “que responda ao projeto original de Deus sobre a humanidade”.
Lembrou também a necessidade de
“uma adequada formação e da profunda vida espiritual dos fiéis”.
Primeiro Núncio da Santa
Sé na Federação Russa
Com a entrega de suas credenciais ao ministro de Relações Exteriores, Sergei Lavrov, em 15 de julho, o Arcebispo Antonio Mennini tornou-se oficialmente Núncio da
Santa Sé em Moscou, inaugurando,
assim, uma nova era de relações diplomáticas entre a Santa Sé e a Federação Russa.
Segundo notícia de L’Osservatore
Romano, a cerimônia de entrega das
credenciais foi seguida de um “cordial encontro” do qual participou o
vice-ministro de Relações Exteriores, Alexander Krusko. Este congratulou-se com o Núncio, em nome do
Presidente Dimitri Medvedev, e ressaltou o crescente “espírito de harmonia e cooperação” entre a Santa
Sé e a Rússia nos últimos anos.
Por sua vez, Dom Mennini, manifestou sua decisão de colaborar para
o estreitamento dessas relações diplomáticas, bem como para “o crescimento espiritual e moral do povo
russo”.
Causas de canonização e milagres
O que é um milagre? Por que a
Igreja exige milagres para beatificar
ou canonizar uma pessoa? Por que
Deus não me concede o que Lhe peço? As respostas a estas e muitas outras interrogações encontram-se ao
alcance dos interessados num livro,
recém-lançado na Espanha, intitulado Causas de canonização e milagres.
Seus autores são dois especialistas: Cônego Ricardo Quintana Bescos, Delegado Episcopal para as
Causas dos Santos, da Arquidiocese de Madri, e José Carlos Martín
de la Hoz, licenciado em Ciências
Geológicas, Doutor em Teologia e
diretor do departamento do Opus
Dei para as Causas dos Santos, na
Espanha.
No livro de 160 páginas, editado
pela Desclée de Brouwer, os autores analisam com clareza e segurança doutrinária todas essas questões
e apresentam uma ampla e bem selecionada bibliografia.
Manteve-se rigorosamente a vida de
clausura: nenhuma freira foi autorizada a sair da abadia ou receber visitas; podiam comunicar-se com pessoas de fora apenas através da grade conventual.
Governador mexicano multado
por fazer referência a Deus
O governador do estado de Sinaloa, Mario López Valdez (Malova),
foi condenado pelo Tribunal Eleitoral Federal do México a pagar uma
multa de 27.235 pesos, por emitir
expressões de caráter religioso durante um ato eleitoral.
“Vencerei com o apoio da vontade popular e a de Deus” e “A vontade do povo, dos astros e de Deus estão alinhadas” foram as frases pronunciadas pelo governador. Os magistrados consideram que elas infringem “a proibição constitucional
de empregar em atos públicos alusões ou expressões de caráter religioso”, informa em sua edição on-line o jornal mexicano La Jornada
(28/7/2010).
Carinho na infância reduz
estresse de adulto
Beneditinas assinam
contrato com gravadora
As freiras da abadia beneditina
Nossa Senhora da Anunciação, situada nas proximidades de Avignon, França, venceram um concurso de âmbito mundial promovido pela gravadora britânica Decca Records para a produção de discos de música gregoriana. O primeiro álbum, intitulado Voices –
Chant from Avignon (Vozes – Canto de Avignon) deve ser publicado
em novembro.
“Nós nunca procuramos isso,
mas fomos procuradas”, declarou à
agência Reuters a madre abadessa,
cuja preocupação era de que as atividades da gravação não prejudicassem o recolhimento da comunidade.
44      Flashes de Fátima · Setembro 2010
Um bebê que recebeu da mãe
muito afeto torna-se um adulto menos exposto ao estresse e angústia. Esta é a conclusão a que chegou
uma equipe de especialistas liderados pela psicóloga Joanna Maselko,
da Universidade Temple (Filadélfia,
EUA).
Segundo notícia da Agence
France Presse (26/7/2010), Maselko e sua equipe usaram os dados
de mais de mil bebês de oito meses de idade, coletados num estudo feito no estado americano de
Rhode Island, na década de 1960.
Trinta e quatro anos mais tarde,
os pesquisadores conseguiram entrevistar mais da metade dos antigos bebês e traçar o seu perfil
psicológico. “Descobrimos que,
objetivamente observado, um al-
Cavaleiros de Colombo:
em defesa da vida, da família e do Papa
N
to nível de afeto entre as mães e
seus filhos de oito meses está associado a menos sintomas de angústia trinta anos depois” — relataram eles, em trabalho publicado no Journal of Epidemiology and
Community Health.
Rei do Marrocos condecora
freiras vicentinas
“Conheço e aprecio muito o
seu trabalho”, declarou a duas freiras v­ icentinas espanholas o
Rei Mohamed VI de Marrocos,
antes de condecorá-las, no Palácio Real de Tanger, com a Ordem
do Wissam Alauí, uma das mais
destacadas insígnias honoríficas
de seu reino — informa o jornal
kofc.org
o final de sua 128ª Convenção Suprema, encerrada em
5 de agosto, os Cavaleiros de Colombo deram a público uma série
de resoluções nas quais renovam
seu compromisso de defender a vida desde a concepção até a morte
natural, o matrimônio, de fortalecer
a família e apoiar o Santo Padre —
informa a agência ACI.
Na última sessão, foi aprovada
uma resolução em que os membros da maior associação de leigos
católicos do mundo manifestam
profunda gratidão ao Papa Bento XVI, por sua “vida
de serviço dedicado a Cristo e à Sua Igreja”. E reafirmam: “Nunca deixaremos nosso compromisso de defender o Santo Padre e assisti-lo em sua missão pastoral de levar a Boa Nova de Jesus Cristo ao mundo”.
Através do Secretário de Estado da Santa Sé, Cardeal Tarcisio Bertone, Sua Santidade enviou aos participantes da Convenção Suprema uma mensagem na qual
elogia o tema escolhido para este ano: Eu sou o guardião do meu irmão. Este tema, frisou o Pontífice, “cha-
ma a atenção para o espírito de solidariedade fraterna que inspirou a
fundação dos Cavaleiros de Colombo e continua a orientar suas múltiplas atividades”.
O Papa manifestou “especial
apreço” pelos membros da Ordem,
por sua solidariedade espiritual
com o clero no decorrer do Ano Sacerdotal. “À vista dos ataques, frequentemente injustos e infundados,
contra a Igreja e seus líderes, o Santo Padre está convencido de que a
mais eficaz resposta é uma grande
fidelidade à Palavra de Deus, uma busca mais firme da
santidade e um maior compromisso com a caridade na
verdade, por parte de todos os fiéis” — afirmou ele.
Por fim, Bento XVI agradeceu, mais uma vez, aos
Cavaleiros de Colombo “por seu testemunho perante a santidade da vida humana e a autêntica natureza do casamento”, bem como por seu empenho para
promover entre os leigos católicos “uma maior consciência da necessidade” de moldarem sua vida cotidiana segundo a Fé que professam.
madrilenho El País (edição on-line de 3/8/2010).
“O rei explicou-nos que a comenda era para o conjunto das Filhas da Caridade no Marrocos”,
precisou por telefone a Irmã Rafaela del Campo, que está no país
há 40 anos. Sua companheira, Irmã
Fermina ­Suárez, lá se encontra há
48 anos. Junto com outras três filhas de São Vicente de Paulo, elas
mantêm um orfanato adjacente ao
hospital de Alhucenas, no norte do
Marrocos.
A Igreja Católica é oficialmente
reconhecida no Turcomenistão
“Nós fomos oficialmente reconhecidos como Igreja Católica
no Turcomenistão. É uma grande alegria e uma grande esperança” — comunicou à agência Fides
o superior da Missio Sui Iuris no
Turcomenistão, Pe. Andrzej Madej, OMI.
Segundo notícia da Rádio Vaticano, essa ex-república soviética da
Ásia Central conta com cinco milhões de habitantes, 90% dos quais
são muçulmanos. Nela vivem apenas cem católicos batizados, trinta
catecúmenos e um grupo de “simpatizantes da Fé cristã”. Lá não existem igrejas católicas, pois elas foram
destruídas pelos revolucionários soviéticos. Os missionários precisam
recomeçar tudo como em terra de
“primeira evangelização”.
Setembro 2010 · Flashes
de Fátima      45
História para crianças... ou adultos cheios de fé?
O segundo pedido
Como bom religioso, Frei Martinho obedeceu prontamente
e com alegria. Apenas pedia a Nosso Senhor Sacramentado
a graça de retornar a tempo para assistir à Missa da tarde e
recebê-Lo em seu coração.
Irmã Ana Rafaela Maragno, EP
F
do convento. Frei Martinho estava provisões, pois a casa estava lotada:
rei Martinho, sacristão de
encarregado de preparar as alfaias além dos frades vindos de outros
um convento franciscalitúrgicas e decorar a igreja para a conventos, havia um grupo de pereno, na Itália, cumpria suas
Missa solene. Sempre ativo e dedi- grinos carentes. E a despensa estafunções com a maior percado, conseguira belas flores para va quase vazia... Corria-se o risco de
feição. Esmerava-se em deixar alvíssiornar o altar, o que não era fácil na- servir um frugal almoço aos visitanmas e bem engomadas as toalhas do
tes e despedi-los sem jantar.
quela estação do ano.
altar. Nunca se via sequer um resto de
Como bom religioso, Frei MartiJá na noite anterior, deixara tucera ou de pó no presbitério, e os cádo pronto para a Celebração. Que- nho obedeceu prontamente e com
lices e cibórios estavam sempre reluria ter nesse dia o mínimo possível alegria. Apenas pedia a Nosso Sezentes.
de ocupações, pois assim poderia as- nhor Sacramentado a graça de re“A limpeza é o luxo do pobre”, disistir à Santa Missa com maior reco- tornar a tempo para assistir à Miszia a si mesmo, enquanto trabalhava
lhimento e receber mais fervorosa- sa da tarde e recebê-Lo em seu cocom redobrado empenho, por traração.
mente Jesus em sua alma.
tar-se do culto a Nosso Senhor. Na
Acompanhado por Frei Salomão,
Mas qual não foi sua surpresa
vida de voluntária pobreza, abraçaquando o Padre Guardião o escalou bateu de porta em porta durante váda por amor a Ele, queria servi-Lo
para a função de esmoler naque- rias horas. Porém, as almas caridoda forma mais excelente, pois, além
la jornada festiva! Era preciso con- sas pareciam ter desaparecido da redo senso do dever, brilhava na alma
seguir sem demora um reforço de gião! Somente ganharam alguns vede Frei Martinho uma profunda delhos pãezinhos, não conseguiram sevoção a Jesus Eucarístico.
quer os legumes necessários para
Quando o sacristão terminava
uma humilde sopa...
seus afazeres, dirigia-se invariavelComeçava a cair a tarde quanmente aos pés do tabernáculo e lá
do entraram numa pequena caficava rezando, em colóquios íntipela próxima do lugar onde
mos com o Senhor. Às quintas-feiestavam. Ali pediram com
ras, havia no convento Adoração
muita confiança à Virgem
solene ao Santíssimo Sacramento,
Maria que os ajudasse não só
e ele sempre conseguia organia obter os mantimentos nezar o serviço de forma a passar
cessários para a comunidalongo tempo ajoelhado aos
de, mas também a retornar a
pés do ostensório.
tempo para assistir à Missa e
Aproximava-se, por aqueComo bom religioso, Frei Martinho obedeceu
receber o Corpo de Jesus.
les dias, a festa do Padroeiro
prontamente e com alegria
46      Flashes de Fátima · Setembro 2010
Edith Petitclerc
Frei Martinho explicou-lhe a dificuldade pela qual passavam, e logo o camponês deu a solução
Pouco depois de recomeçarem
seu trabalho, encontraram um camponês guiando uma pequena carroça, o qual, depois de cumprimentá-los com respeito e pedir-lhes a bênção, perguntou:
— Meus bons frades, os senhores
parecem preocupados... Precisam
de alguma ajuda?
Frei Martinho explicou-lhe a dificuldade pela qual passavam, e logo
o camponês deu a solução:
— Vejam como Nossa Senhora é
boa por fazer-me passar por esta rua
justamente agora! Aqui está um saco com batatas, cenouras, rabanetes e tomates. E neste outro estão
dois grandes pernis. Agora entendo
por que não consegui vender tudo
na feira... É que Nossa Senhora decidiu reservar isto para o convento.
Pois bem, podem levar tudo. Dou de
muito bom gosto.
Os dois frades agradeceram de
coração ao generoso camponês, prometeram-lhe orações por ele e sua
família, e tomaram alegres o caminho de volta. Contudo, era longa a
distância a percorrer e chegaram ao
convento quase no fim da tarde. Entregaram as provisões ao irmão cozinheiro, limparam-se da poeira do
caminho e rumaram apressadamente para a igreja, onde ainda ressoavam as melodias eucarísticas.
Entretanto, a Missa havia terminado... Não tiveram sequer o consolo de receber a Comunhão! Nossa
Senhora havia atendido tão generosamente o primeiro de seus pedidos.
Por que não quisera fazer o mesmo
com o segundo?
Consternados, puseram-se de
­joelhos aos pés do tabernáculo e fizeram a Jesus um amoroso queixume:
— Senhor, por que nos abandonastes? Quanto queríamos participar desta Missa! Entretanto, por
amor à obediência, ficamos privados
de Vos receber na Eucaristia!
Aos poucos, a igreja foi se esvaziando, mas os dois religiosos lá ficaram em oração. De repente, viram
surgir no presbitério um varão alto,
cheio de nobreza e com uma fisionomia reluzente.
— A Rainha do Céu ouviu comprazida vossas súplicas — disse ele
— e mandou-me para atendê-las.
Ajoelhai-vos junto à mesa da Comunhão e preparai os vossos corações
para receber dignamente Seu Divino Filho.
O Anjo de luz abriu o sacrário,
tomou o cibório e ministrou-lhes a
Sagrada Comunhão. Depois, fez um
curto ato de adoração ao Santíssimo
Sacramento, recolocou-O no tabernáculo, e desapareceu.
Lágrimas de consolação corriam pelas faces de Frei Martinho e
Frei Salomão. Depois de uma longa
ação de graças, a mais ­abençoada
de suas vidas, foram narrar ao Padre Guardião o acontecido. Este
mandou tocar o sino para reunir os
outros frades e dirigiram-se todos à
capela do Santíssimo, a fim de agradecer a Deus tão insigne graça. E
aí viram — oh maravilha! — que o
Anjo havia deixado uma marca de
sua passagem: em belíssimas letras
douradas, as iniciais de Jesus e de
Maria! 
Setembro 2010 · Flashes
de Fátima      47
________
Os Santos de cada dia 1. São Josué. Filho de Nun, discípulo de Moisés. Introduziu o povo
de Israel na Terra Prometida.
2. São Justo, Bispo (†cerca de
381). Após o Concílio de Aquileia,
renunciou à sé episcopal de Lyon e
abraçou a humilde vida dos monges
de um eremitério no Egito.
3. São Gregório Magno, Papa e
doutor da Igreja (†604).
Beata Brígida de Jesus Morello,
religiosa (†1679). Após enviuvar,
dedicou-se à penitência e às obras
de caridade. Fundou em Piacenza,
Itália, a Congregação das Irmãs Ursulinas de Maria Imaculada, para
educação da juventude feminina.
4. São Moisés, profeta. Escolhido
por Deus para libertar o povo de Israel da opressão no Egito e conduzi-lo à Terra Prometida.
5. XXIII Domingo do Tempo Comum.
São Bertino, abade (†cerca de
698). Junto com dois companheiros,
fundou em Saint-Omer (França), o
mosteiro de Sithiu, do qual foi abade durante cerca de 60 anos.
6. Beato Diego Llorca Llopis,
presbítero e mártir (†1936). Sacerdote secular preso e fuzilado em Oliva, Espanha, aos 40 anos de idade.
7. Santa Regina, virgem e mártir
(†séc. III). Jovem cristã de pai pagão, decapitada nas proximidades
de Autun, França.
8. Natividade de Nossa Senhora.
São Sérgio I, Papa (†701). De origem síria, empenhou-se na evangelização dos frísios e saxões. Trabalhou
para o enriquecimento da Liturgia.
9. São Pedro Claver, presbítero
(†1654).
Beato Pedro Bonhomme, presbítero (†1861). Distinguiu-se por suas
missões populares e evangelização
dos camponeses, na França. Fundou
a Congregação das Irmãs de Nossa Senhora do Monte Calvário, para cuidar dos jovens, doentes e necessitados.
Sergio Hollmann
10. Beatos Sebastião Kimura e
Francisco Morales, presbíteros, e
companheiros, mártires (†1622).
Mortos em meio a cruéis torturas,
juntamente com mais 50 católicos
(sacerdotes, religiosos, casais, jovens, catequistas, viúvas e crianças),
em Nagasaki, Japão.
“São Moisés” - Basílica da Estrela,
Lisboa
11. São João Gabriel Perboyre,
presbítero e mártir (†1840). Sacerdote Lazarista, missionário na China. Traído por um dos seus discípulos, foi encarcerado, torturado e,
por fim, amarrado a uma cruz e estrangulado.
48      Flashes de Fátima · Setembro 2010
12. XXIV Domingo do Tempo Comum.
Santíssimo Nome de Maria.
Beato Pedro Sulpício Cristóvão Faverge, mártir (†1794). Irmão Lassalista, encarcerado numa
galera, junto com centenas de outras vítimas da Revolução Francesa. Aí morreu, em consequência das
­doenças contraídas ao tratar caridosamente dos prisioneiros enfermos.
13. São João Crisóstomo, Bispo e
doutor da Igreja (†407).
Beata Maria de Jesus López Rivas, virgem (†1640). Priora do Carmelo de Toledo, discípula de Santa
Teresa de Ávila. Caluniada e deposta injustamente do cargo, suportou
tudo com humildade e paciência.
14. Exaltação da Santa Cruz.
Santa Notburga, virgem (†1313).
Foi cozinheira do castelo de Rottenburg, no Tirol, e trabalhou como doméstica na aldeia de Eben, Aústria.
15. Nossa Senhora das Dores.
Beato Ladislau Miegon, presbítero e mártir (†1942). Sacerdote polonês deportado para o campo de concentração de Dachau, onde morreu
em meio a torturas.
16. São Cornélio, Papa (†253) e
São Cipriano, Bispo (†258), mártires.
São João Macías, religioso
(†1645). Irmão leigo do convento
dominicano de Lima, dedicou-se ao
cuidado dos pobres e dos enfermos.
17. São Roberto Belarmino, Bispo e doutor da Igreja (†1621).
São Pedro Arbués, presbítero e
mártir (†1485). Cônego regular da
Ordem de Santo Agostinho, assassinado por sicários aos pés do altar da
catedral, em Zaragoza, Espanha.
Beata Amalia Abad Casasempere
18. São José de Cupertino, presbítero (†1663). Religioso franciscano do convento de Osimo, Itália. Pouco dotado do ponto de vista
natural, foi, entretanto, favorecido
com graças místicas extraordinárias.
19. XXV Domingo do Tempo Comum.
São Januário, Bispo e mártir
(†305).
São Teodoro, Bispo (†690). Tinha
quase 70 anos quando o Papa São
Vitaliano o nomeou Bispo de Cantuária, Inglaterra.
20. Santo André Kim Tae-gon,
presbítero, Paulo Chong Ha-sang
e companheiros, mártires (†18391867).
São João Carlos Cornay, presbítero e mártir (†1837). Sacerdote da
Sociedade para as Missões Estrangeiras, submetido a horríveis torturas e por fim decapitado em Son
Tay, Vietnã.
21. São Mateus, Apóstolo e Evangelista.
São Castor de Apt, Bispo (†cerca de 426). Desejoso de explicar a
sublimidade da vida monástica aos
monges de um cenóbio sob sua jurisdição, na Provença, recorreu a São
João Cassiano e este, a seu pedido,
redigiu as célebres “Conferências”
sobre os ascetas do Egito.
22. Santa Salaberga, abadessa
(†cerca de 664). Segundo a tradição,
foi curada de cegueira por São Columbano, que a encaminhou para o
serviço de Deus. Faleceu em Laon,
França.
23. São Pio de Pietrelcina, presbítero (†1968).
Santo Adamano de Iona, presbítero e abade (†704). Profundo conhecedor das Sagradas Escrituras
e infatigável defensor da unidade,
convenceu muitos escoceses e irlandeses a celebrar a Páscoa segundo o
costume romano.
24. Nossa Senhora das Mercês. Em
1218, a Virgem Maria apareceu a São
Pedro Nolasco, recomendando-lhe
fundar um instituto religioso dedicado às obras de misericórdia, especialmente a libertação dos cristãos escravizados em terras muçulmanas. Nasceu assim a Ordem dos Mercedários.
25. São Sérgio de Radonez, abade (†1392). Após vários anos de vida eremítica, fundou o Mosteiro da
Santíssima Trindade, nas proximidades de Moscou e propagou a vida
cenobítica na Rússia Setentrional.
26. XXVI Domingo do Tempo
Comum.
Santos Cosme e Damião, mártires
(†séc. III).
Santo Eusébio de Bolonha, Bispo (†séc. IV). Combateu o arianismo, junto com Santo Ambrósio de
Milão, e empenhou-se em promover
entre os jovens o valor da virgindade.
27. São Vicente de Paulo, presbítero (†1660).
Beato Lourenço de Ripafratta,
presbítero (†1456). Dominicano do
mosteiro de Pistoia, Itália, observou
fielmente durante 60 anos a disciplina
religiosa, dedicando-se assiduamente
ao Sacramento da Reconciliação.
28. São Venceslau, mártir
(†929/935).
São Lourenço Ruiz e companheiros, mártires (†1633-1637).
Beata Amalia Abad Casasempere, mártir (†1936). Mãe de família
conhecida por sua militância católica, foi presa e assassinada por milicianos em Benillup, Espanha.
29. São Miguel, São Gabriel, São
Rafael Arcanjos.
Beato Nicolau de Furca Palena,
presbítero (†1449). Religioso da Ordem dos Eremitas de São Jerônimo, fundou em Roma o Mosteiro de
Santo Onofre, onde faleceu aos cem
anos de idade.
30. São Jerônimo, presbítero e
doutor da Igreja (†420).
São Francisco de Borja, presbítero (†1572). Duque de Gandía e Vice-rei da Catalunha, renunciou ao
mundo após a morte da esposa e ingressou na Companhia de Jesus, da
qual foi o terceiro Superior Geral.
filles-de-la-charite.org
©santiebeati.it
___________________ Setembro
São João Gabriel Perboyre
Setembro 2010 · Flashes
de Fátima      49
A devoção a Maria
Uma garantia de salvação
Oh! que preciosa segurança para nosso futuro se amarmos a Santíssima
Virgem a ponto de querermos ser imagens vivas d’Ela na Terra!
A
Termômetro espiritual e
garantia da salvação
Assim como, para certificar-se da vida de uma pessoa, o médico perscruta as
batidas de seu coração, nós,
para sabermos se uma alma
é virtuosa, se ela vive da vida cristã, averiguamos se
o culto à Santa Virgem das
Virgens lhe é indiferente ou
agradável.
Sim, a devoção a Maria é
como um termômetro espiritual que marca — se assim
podemos dizer — a temperatura de nossa alma, que
revela suas disposições secretas. Se as práticas desta devoção nos agradam,
podemos estar tranquilos
quanto ao estado de nossa
alma. Mas se sentimos que
há frieza entre nós e a Santíssima Virgem, se abandonamos os atos de culto
a Ela, se negligenciamos as orações
cotidianas, se alegamos falta de tempo para recitar o Rosário, tenhamos
cuidado: nossa virtude diminuiu, a
fé de nossa Primeira Comunhão esvaiu-se, estamos no caminho que
nos afasta de Deus!
Timothy Ring
devoção a Maria não é
um simples ornamento do Catolicismo, nem
mesmo um socorro entre muitos outros, que podemos usar
ou não, a nosso critério. É uma parte integrante da Religião. Deus quis
vir a nós por meio de Maria, e só por meio d’Ela podemos ir a Ele.
Compreende-se, pois, a necessidade de insistir neste tema, de estimular a piedade e a devoção a Nossa Senhora. Para nós, esta devoção é
uma garantia de salvação!
Como assim? É que, se amamos
a Virgem Maria, trabalharemos para nos assemelhar a Ela.
Somos irresistivelmente levados a imitar as pessoas que nos são simpáticas:
quereríamos pensar, falar,
­
viver como elas. Oh! que
preciosa segurança para
nosso futuro se amarmos a
Santíssima Virgem a ponto
de querermos ser imagens
vivas d’Ela na Terra! Como
Ela, evitaremos tudo quanto desagrada a Deus e tudo
quanto causaria prejuízo a
nossas almas; como Ela, faremos todo bem, cumpriremos nosso dever, praticaremos a virtude. Com isso,
podemos ter confiança.
O exemplo de
São Francisco de Sales
Atormentado na juventude por uma grave tentação,
foi por meio de Maria que São Francisco de Sales
conseguiu vencê-la
50      Flashes de Fátima · Setembro 2010
Por outro lado, está garantida uma proteção especial da Santíssima Virgem
a quem é, de fato, Seu devoto. Quando lhe vierem
as provas, as tribulações, as
tentações, por mais numerosas e violentas que forem,
Gustavo Kralj
todo o meu coração nesta
com a assistência de MaTerra!”.
ria, ele jamais desesperará.
Terminada sua oração,
Como prova disso, haveria
levantou-se vencedor: a
mil fatos emocionantes paConsoladora dos Aflitos o
ra contar. Vejamos somenhavia livrado daquele torte este, extraído da vida de
mento!
São Francisco de Sales.
Jovem ainda, São FranProva de predestinação
cisco estava atormentado
por uma tentação, contra
Caros leitores, se de vez
a qual ele lutava com enerem quando temos pecados
gia. Mas, numa hora de dea lamentar, se somos tessânimo, o futuro apareceutemunhas entristecidas de
-lhe com cores sombrias:
quedas humilhantes, não
ele imaginava-se perdido,
seria porque abandonamos
condenado ao inferno...
o culto à Santíssima VirSer condenado, ser separagem, porque renunciamos à
do de Deus, que ele amapiedade e, assim, nos privava como um pai, de Nossa
mos de uma assistência que
Senhora, que ele venerava
nos teria preservado?
como uma mãe, e isso por
Podemos concluir que
uma eternidade sem fim!...
uma piedade sólida e sinEste pensamento torturacera é uma prova de preva-lhe o coração e lhe ardestinação. Se tivermos esrancava soluços.
sa convicção e tomarmos a
Certo dia, em que ele
firme resolução de cultivar,
Se amarmos à Virgem Maria, trabalharemos para
entrou numa igreja sob essempre mais e mais, a denos assemelhar a Ela e evitaremos tudo quanto
desagrada a Deus
sa triste impressão, senvoção à Santíssima Virgem
tiu como uma mão invie praticar as virtudes que
sível que o empurrava para os pés cecava, e terminou sua oração com Ela nos inspira, será este um dos
de uma imagem de Nossa Senhora. estas belas palavras: “Se devo odiar melhores frutos desta leitura. 
Ajoelhou-se diante dela e suplicou a Deus eternamente no inferno, su(Traduzido, com adaptações,
a Maria que lhe obtivesse a graça plico-Vos uma coisa: obtende-me
de “L’Ami du Clergé”,
de vencer essa tentação que o ob- pelo menos a graça de amá-Lo de
6/11/1902, p.862-863).
Apostolado
Maria Rainha
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Setembro 2010 · Flashes
de Fátima      51
“Nossa Senhora do Bom
Sucesso” - Mosteiro das
MM. Concepcionistas, Quito
(Equador)
Leonel Mosquera
U
ma só palavra
de Seus lábios é
quanto basta para o
Filho atendê-La.
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Revista Arautos do Evangelho