Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 5 • Número 15 • Maio 2015 Edição Especial • Homenageado ARYON DALL'IGNA RODRIGUES CONCORDÂNCIA: VERBOS E NOMES NA LÍNGUA KINIKINAU Ilda de Souza (PQLP/CAPES)1 [email protected] RESUMO: Neste texto apresento uma breve revisão da sintaxe, mais especificamente da concordância de nomes e verbos do kinikinau, língua da família Aruak, falada pelos índios kinikinau, habitantes de Mato Grosso do Sul, Brasil. Tipologicamente kinikinau se classifica como uma língua aglutinante, com ênfase na sufixação, como a maioria das línguas da família linguística Aruak (cf. Aikhenvald, 1994). Kinikinau, como o terena, apresenta em sua morfologia processos concatenativos e não-concatenativos, fenômenos que serão descritos ao longo do texto. Os dados apresentados constam da tese de Souza (2008). Nesta língua o verbo e o nome são marcados da mesma forma por concordância de pessoa e número. A língua kinikinau está no último estágio de obsolescência. Não é falada por crianças e jovens, não tem função social nem ritualística. Não há mais diálogo cotidiano em kinikinau. Os poucos semifalantes pertencem a uma mesma família que está dispersa porque são índios sem terra. PALAVRAS-CHAVE: Concordância; verbos e nomes; Língua kinikinau. ABSTRACT: In this text I present a brief review of the syntax , specifically in relation to the verbs ad names agreement of the kinikinau, an Arawak language that is spoken by the kinikinau Indians, inhabitants of the state of Mato Grosso do Sul - Brazil. Typologically, kinikinau is classified as an agglutinative language, with an emphasis on suffixation, as majority of the Arawak Language family (cf.Aikhenvald, 1994). Kinikinau, like the terena, presents, in its morphology , concatenative and nonconcatenative processes. These phenomena will be described in the text. The data presented was taken from Souza thesis (2008). In the kinikinau language the verb and the name are marked equally by agreement of person and number. The kinikinau langage is in the last stage of obsolescence. It’s not spoken by children and young people neither. It doesn’t have social function and it doesn’t have ritualistic or religious function. There’s no daily dialogue in kinikinau. The few semi-speakers belong to the same family that are scattered because they are landless Indians. KEYWORDS: Agreement; Verbs and names; Kinikinau language. O Centro-oeste, como espaço geográfico correspondente aos territórios dos estados de Goiás, Mato-Grosso, Mato-Grosso do Sul e Distrito Federal, é muito heterogêneo tanto no que se refere a suas características físicas e ecológicas, como no que diz respeito a sua população. Assim como esse imenso espaço é recortado por rios de três grandes bacias hidrográficas – a do Amazonas, a do Paraguai-Paraná e a do Tocantins-Araguaia – assim também foi percorrido por povos indígenas de diferentes culturas e línguas que, deslocando-se uns aos outros ou confluindo para um mesmo hábitat, compuseram um enorme mosaico cultural e linguístico. Neste mosaico estão representadas as maiores famílias linguísticas da América do Sul – a Aruák, a Karíb, a 1 Professora do Programa de Qualificação em Língua Portuguesa (PQLP/CAPES) em Timor Leste. 112 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 5 • Número 15 • Maio 2015 Edição Especial • Homenageado ARYON DALL'IGNA RODRIGUES Tupí-Guaraní e a Jê – entremeadas entre si e com um grande número de famílias menores. (Aryon Rodrigues, 2003: 69 ) 1. Introdução A língua kinikinau pertence à família Aruak, classificação de Mason (1946, p. 214), Loukotka (1968, p.144) e ratificada por Rodrigues (2003, p. 69). 2 Segundo Metraux (1946), a cultura dos povos Chané (Guaná), a saber: exoaladi†, kinikinau, layana e terena haveria se modificado pelas influências que cada grupo teria recebido de outras culturas, em decorrência do contato. Para Mason (1946), todos os subgrupos Guaná deixaram de falar sua língua Aruak e passaram a falar uma língua Guaicuru. Em Souza (2008) discuti essas questões e, com base nos estudos de Sandalo (1997, 2001, 2004, 2005) sobre a língua kadiwéu, mostrei que a afirmação de Metraux se confirmava, mas a de Mason estava equivocada, assim como outros estudos baseados nele. Neste texto apresento uma breve análise da concordância (de nomes e verbos) do kinikinau, língua dos índios da mesma designação, habitantes de Mato Grosso do Sul, Brasil. De acordo com ( Spencer , 1996) as línguas podem ser classificadas de acordo com vários critérios e um deles é a estrutura morfológica. Entre as tipologias, o kinikinau se classifica como uma língua aglutinante, com ênfase na sufixação, como a maioria das línguas da família linguística Aruak (cf. Aikhenvald 1994). Kinikinau e terena apresentam em sua morfologia processos concatenativos e não concatenativos, como poderá ser observado nos exemplos ao longo do texto. 2 A análise apresentada faz parte de minha tese de doutorado, defendida no IEL/UNICAMP – 2008. 113 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 5 • Número 15 • Maio 2015 Edição Especial • Homenageado ARYON DALL'IGNA RODRIGUES 2. Concordância Na língua kinikinau o verbo e o nome são marcados da mesma forma por concordância de pessoa e número. Nesta análise, foi constatado que o kinikinau segue as mesmas regras do terena, com algumas poucas diferenças, conforme consulta aos trabalhos de Bendor-Samuel (1970, 1966, 1963), Ekdahl e Grimes (1964), Eastlack (1968), Butler e Ekdahl (1979) e Butler (1977, 2003). A terceira pessoa é não-marcada, a primeira pessoa do singular é marcada por um traço [+ nasal], a primeira pessoa do plural é marcada pela prefixação de {w-} à raiz verbal e a segunda pessoa (singular e plural) é marcada pela prefixação de {y-} à raiz verbal, conforme pode ser constatado em seguida. 2.1 Primeira pessoa do singular A primeira pessoa do singular é marcada pela nasalização de todas as vogais e semivogais da esquerda para a direita da forma verbal, até que seja bloqueada por uma obstruinte (oclusiva ou fricativa). Nesse processo de nasalização, também a obstruinte recebe influência do espalhamento nasal, sonorizando-se e pré-nasalizando-se. Observe os exemplos: (01) Forma não-marcada a. pore -x -o -a Primeira Pessoa Sg. -ti mbore -x -o -a ti dar -CT -IND -OBJ -IMPERF 1Sg.dar -CT -IND -OBJ -IMPERF ele está dando-o eu estou dando-o 114 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 5 • Número 15 • Maio 2015 Edição Especial • Homenageado ARYON DALL'IGNA RODRIGUES b. c. d. e. f. tetu -k -o -a -ti ndetu -k -o -a -ti cortar -CT -IND -OBJ – 1Sg,cortar –CT -IND -OBJ - IMPERF IMPERF ele está cortando-o eu estou cortando-o ni -k -o -ti ni -ng -o -ti comer -CT -IND -IMPERF comer -1SgCT -IND -IMPERF ele está comendo eu estou comendo aruxu -k -o -ti arunju -k -o -ti morder -CT -IND -IMPERF 1Sg.morder -CT -IND -IMPERF ele está mordendo eu estou mordendo humi -k -o -ti nzumi -k -o assoviar -CT -IND -IMPERF 1Sg.assoviar -CT ele está assoviando eu estou assoviando ewese -k -o -ti ẽwẽnze -k -ti -IND -IMPERF -o -ti descer -CT -IND -IMPERF 1Sg.descer -CT -IND -IMPERF ele está descendo eu estou descendo 115 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 5 • Número 15 • Maio 2015 Edição Especial • Homenageado ARYON DALL'IGNA RODRIGUES g. isu -k -o -a -ti inzu -k -o bater -CT -IND –OBJ –IMPERF 1Sg.bater -CT ela está batendo nele eu bati nele -IND -a -OBJ Caso a forma verbal não possua obstruinte em sua constituição morfológica, a palavra toda é nasalizada, como pode ser constatado abaixo: (02) a. b. Forma não-marcada Primeira Pessoa Sg. yonôti ȳõnõã andar 1Sg.andar -PONT ele está andando eu andei omo õmõ -ne -ne -ne trazer -PONT 1Sg.trazer -PONT ele trouxe eu trouxe O mesmo fenômeno ocorre com nomes na construção possessiva: (03) Forma não-marcada Primeira Pessoa Sg. Glossa 116 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 5 • Número 15 • Maio 2015 Edição Especial • Homenageado ARYON DALL'IGNA RODRIGUES a. ûke ûnge meu olho b. hêwe njêwe meu pé c. poynu mboynu meu irmão/irmã d. ha’a nza´a meu pai A primeira pessoa do plural é marcada pelo morfema prefixal {w-}. Se a raiz for iniciada por consoantes, há uma regra fonológica que apaga o segmento consonantal /w/ (a língua não admite encontros consonantais). (04) Forma não-marcada a. imo -k -o -ti Primeira Pessoa PL. kaliwôno w –imo -k -o -ti dormir –CT -IND–IMPERF criança 1PL.dormir -CT -IND – a criança está dormindo IMPERF nós estamos dormindo b. eno -w -o -ti atu waka beber -CT -IND -IMPERF leite vaca w- eno atu -w -o -ti 1PL.beber-CT –IND – IMPERF leite ele está bebendo leite de vaca nós estamos bebendo leite 117 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 5 • Número 15 • Maio 2015 Edição Especial • Homenageado ARYON DALL'IGNA RODRIGUES Quando ocorre esta regra fonológica, há uma preferência de não omitir o argumento pronominal (ûti), conforme mostram os exemplos abaixo. (05) a. koepe -k matar -o -a -CT -IND -OBJ ûti koexo'oketi 1PL barata nós matamos a barata b. pi -k -o medo –CT -IND -a ûti -OBJ 1PL koexoe cobra nós temos medo de cobra 2.2 Segunda Pessoa O morfema de segunda pessoa é a aproximante {y-}. Entretanto, como no caso acima, há um processo fonológico de apagamento de um segmento consonantal antes de outro consonantal. O segmento /y/ é apagado quando ocorre diante de consoante. Mas, no caso da segunda pessoa, há traços estáveis que permanecem. Assim, os traços [posterior] e [+alto] permanecem e causam alternância vocálica. Em outras palavras, os traços [-posterior] e [+alto] são estáveis, isto é, permanecem ativos. Deste modo, se a vogal que segue a consoante inicial da raiz for [+posterior] , a saber /o/, /u/ e /a/, esta vogal torna-se [-posterior]. Ou seja, /o/ torna-se /e/, /a/ torna-se /e/, e /u/ torna-se /i/. O traço [-posterior] marca a concordância de segunda pessoa, ou seja, há uma anteriorização da vogal. Se a primeira vogal for /e/, entretanto, uma vogal já portadora do traço [-posterior], esta vogal sofrerá alteamento para /i/. Neste caso, é o traço de altura que marca a concordância de segunda pessoa. Note ainda que, se a primeira vogal for /i/, portanto já portadora de ambos os traços [-posterior] e [+alto], a segunda vogal 118 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 5 • Número 15 • Maio 2015 Edição Especial • Homenageado ARYON DALL'IGNA RODRIGUES da raiz sofrerá o processo de altenância conforme descrito. Observe esquema do processo apresentado abaixo: Se V1 [+post] [-post] Se V1 [-post, -alta] [+alta] Se V1 [-post, +alta] traços se espalham para V2 (de acordo com as generalizações acima) Exemplos de concordância em segunda pessoa, com verbos iniciados por vogais, exceto /i / (06) Forma não-marcada a. oro'o -k -o Segunda Pessoa Sg. -ti y- ara'a -k -a -a queimar -CT -IND -IMPERF 2Sg queimar -CT -SUBJ -OBJ ele está queimando queime-o b. ore -k beber -CT -o -ti -IND -IMPERF ele está bebendo c. uru -k entrar -CT -o y- ore -k -o -ti 2Sg- beber -CT -IND -IMPERF você está bebendo -wo -ti -IND -Refl -IMPERF y- uru -k 2Sg entrar -CT -a -pu -SUBJ -Refl 119 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 5 • Número 15 • Maio 2015 Edição Especial • Homenageado ARYON DALL'IGNA RODRIGUES ele está entrando entre A seguir, veja os exemplos com verbos iniciados por consoantes e por /i /: (07) Forma não-marcada a. sim -o Segunda Pessoa Sg. sime -ne chegar -IND -PONT chegar.2Sg. -PONT ele já chegou você já chegou b. mana -k -ne -o -ti xûpu menako -ti descascar-CT-IND-IMPERF mandioca 2Sg.descascar– ele está descascando mandioca IMPERFmandioca xûpu você está descascando mandioca c. imo -k dormir -CT -o ime -IND dormir.2Sg -CT ele dormiu d. keho -k -k -o -IND você dormiu -o -a ûto kiho -k -o -a quebrar -CT -IND -OBJ prato 2Sg.quebrar -CT -IND -OBJ ele quebrou o prato você quebrou- o 120 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 5 • Número 15 • Maio 2015 Edição Especial • Homenageado ARYON DALL'IGNA RODRIGUES Novamente, as mesmas regras operam para nomes: (08) Forma não-marcada Segunda Pessoa glossa a. ûke y- ûke teu olho b. owoku y- owoku tua casa c. amori y- amori teu neto Os exemplos abaixo mostram a marcação de segunda pessoa, quando o nome possuidor ou o verbo se inicia por consoante ou pela vogal i. (09) Forma não-marcada Segunda Pessoa Sg glossa a. kenôti kinôti tua orelha b. poynu peynu teu irmão c. pâho peaho tua boca d. kihuati kihiati você está enxugando 121 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 5 • Número 15 • Maio 2015 Edição Especial • Homenageado ARYON DALL'IGNA RODRIGUES e. neneti nineti você está mentindo f. ipikoati ipikiati você está salvando-o/a Existem algumas ocorrências ainda não completamente explicadas. Há casos em que mais de uma vogal sofre assimilação. Nestes casos, parece que sempre há uma aproximante ou glotal (glide para Chomsky & Halle 1968). Mas há outros para os quais ainda não tenho uma explicação. (10) Forma não-marcada Segunda Pessoa Glossa a. hêwe hîwi teu pé b. xe'exa xi'ixa teu filho d. wo'u w-i-a 'u teu dedo e. há'a y-a'a teu pai 122 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 5 • Número 15 • Maio 2015 Edição Especial • Homenageado ARYON DALL'IGNA RODRIGUES f. nône nione tua plantação 2.3 Morfemas de concordância com o objeto O kinikinau marca concordância com o sujeito ou possuidor (como visto acima) e com o objeto direto e objeto indireto (i.e. todos os argumentos concordam). Os morfemas que marcam objetos direto e indireto são os mesmos. Mas há uma hierarquia para decidir a ordem dos morfemas. Nem todos os paradigmas puderam ser verificados. Até o presente momento, as seguintes generalizações parecem ocorrer. A marca de objeto indireto precede à marca de objeto direto quando o objeto indireto é de segunda pessoa, e o direto, terceira. Quando o objeto indireto é de primeira pessoa, e o direto de terceira, a concordância de objeto direto ocorre antes. Quando ambos os objetos são terceira pessoa, apenas uma marca ocorre. São as seguintes as marcas de concordância com objeto: (i) 1ª. Pessoa singular {-nu} (ii) 2ª. Pessoa singular {-pi} (iii) 3ª. Pessoa singular {-a} (iv) 1ª. Pessoa plural {-owi} Os exemplos que seguem poderão esclarecer melhor essa concordância: 123 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 5 • Número 15 • Maio 2015 Edição Especial • Homenageado ARYON DALL'IGNA RODRIGUES 2.3.1 {-nu} 1ª. Pessoa do Singular Objeto (11) a. isi -k -o 2SgSUJ.bater -CT -nu -IND -1SgOBJ você me bateu / bate b pore -x -o 3SgSUJ.dar -CT -a -nu koyuhopeti -IND -3OBJ -1SgOBJi papel ele deu o papel para mim 2.3.2 {-pi} ~ [-pe] 2ª. Pessoa do Singular Objeto (12) a. mbore 1Sg.SUJ.dar -x -o -pe -CT -IND -OBJi -a -OBJ -ne -PONT eu já o dei para você Se o morfema -pi é seguido do morfema -a (concordância de 3ª. pessoa objeto) ocorre um processo morfofonológico que impede a formação do ditongo. Assim, cria-se um hiato. Ou seja, quando o morfema {-pi} antecede o morfema {-a}, usa-se o alomorfe {-pe}. 124 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 5 • Número 15 • Maio 2015 Edição Especial • Homenageado ARYON DALL'IGNA RODRIGUES (13) a. pore -x -o -pe -a dar -CT -IND -2SgOBJi 3OBJ ele o deu para você b. posi -k -o -pe -a -ti procurar –CT -IND -2SgOBJi -3OBJ -IMPERF ele está procurando-o para você c. ngauna -k -o -pe 1Sg.guardar –CT -IND -a -2OBJi 3OBJ eu o guardei para você 2.3.3 {-a} 3ª. Pessoa do Singular Objeto (14) a. noi -x -o -a ver -CT -IND -OBJ ele o viu b. y- aruxu -k -o -a 2Sg.morder -CT -IND -OBJ -ne -PONT você já o mordeu 125 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 5 • Número 15 • Maio 2015 Edição Especial • Homenageado ARYON DALL'IGNA RODRIGUES c. inju -k -o 1Sg.bater CT -a IND -OBJ eu bati nele d. pore dar -x -o -a -CT -IND -OBJ -a -OBJ ele o deu para lele 2.3.4 {owi} 1ª. Pessoa do Plural Objeto (15) a. isu -k -o -owi bater -CT -IND -1PLOBJ ele bateu em nós c. kipehe 2Sg lavar -ino -owi ûto Benef -1PLOBJ prato lave o prato para nós A pluralização de objetos pode ser marcada por palavras funcionais independentes, no caso de os afixos não conterem pluralização. 126 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 5 • Número 15 • Maio 2015 Edição Especial • Homenageado ARYON DALL'IGNA RODRIGUES 2.3.5 {-pi} + hiko Segunda Pessoa do Plural Objeto (16) a. mbore -x -o 1Sg.dar -CT -pi -ne IND -2SgOBJi hiko -PONT PL pãw OBJ.pão eu dei o pão para vocês b. kaha’ati querer inju -k -a 1Sg.bater -CT -pi hiko SUBJ -2SgOBJ PL ele quer que eu bata em vocês c. no -njo -pi hiko ver -1SgCT -2SgOBJ PL nós vimos vocês 2.3.6 {-a} + hiko 3ª. Pessoa do Plural Objeto (17) a. oposi -k -o -â -ne hiko procurar –CT -IND -3OBJ -PONT PL ele as procurou b. mana -ng -o -ne hiko 127 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 5 • Número 15 • Maio 2015 Edição Especial • Homenageado ARYON DALL'IGNA RODRIGUES descascar -1SgCT -IND -PONT PL eu já as descasquei c w- iti -x -o 1PL- juntar -CT -a -IND -3OBJ -ti hiko -IMPERF PL nós as juntamos Esta forma de marcação de plural difere da marcação usada na língua terena. Na língua terena são dois sufixos que marcam o objeto plural: {-noe} para a 2ª. Pessoa e {-hiko} para a 3ª. Pessoa, conforme mostram os exemplos a seguir:3 (18) a. Terena Kinikinau nguixópinoe ngixópine hiko nguixo 1Sg.dizer b. -pi 2SgOBJ ngixo -pi -PL 1Sg.dizer -2SgOBJ eu disse a vocês eu disse a vocês nguixoahiko ngixoa hiko nguixo -a 1Sg.dizer -3OBJ 3 -noe -a -ne -hiko ngixo -PL 1Sg.dizer -3OBJ PL hiko PONT PL hiko Os exemplos da língua Terena são de (Butler e Ekdahl, 1979, p. 36) 128 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 5 • Número 15 • Maio 2015 Edição Especial • Homenageado ARYON DALL'IGNA RODRIGUES c. eu disse a eles eu disse a eles pihénoe pihe hiko pih ir d. -é -2Sg -noe -PL pih -é hiko ir 2Sg PL vão vocês vão vocês arunjukoatihikomo arunjukoatimo hiko arunjuko -a -ti -hiko -mo arunjuko -a -ti -mo hiko 1Sg.morder -OBJ -IMPERF -PL - 1Sg.morder -3O -IMPERF -FUT FUT PL eu vou mordê-las eu vou mordê-las 2.4 Morfemas Reflexivos e Recíprocos 2.4.1 {-wo} morfema reflexivo O morfema reflexivo -wo ocorre em sentenças afirmativas: (19) a. kahararaiko -ne Wiwi pintar Rafaela -PONT Vivi Rafaela kahararaiko -wo -ne pintar Rafaela -Refl -PONT Rafaela 129 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 5 • Número 15 • Maio 2015 Edição Especial • Homenageado ARYON DALL'IGNA RODRIGUES a Rafaela pintou a Vivi b. kuriko -a -ne waka a Rafaela se pintou Mane soltar -3OBJ -PONT vaca kuriko -wo -ne waka soltar -Refl -PONT Manoel vaca a vaca se soltou o Manoel soltou a vaca c. engoko -a 1Sg.machucar -OBJ -ne engoko -PONT 1Sg.machucar -Refl eu o machuquei -wo -ne -PONT eu me machuquei 2.4.2 {-pu} Reflexivo O morfema reflexivo -pu ocorre em sentenças negativas. (20) a. ako enga -k Neg 1Sg.machucar -CT -a -pu -SUBJ -Refl eu não me machuquei b. ako ihake Neg estudar -x -a -pu -CT -SUBJ -Refl ele não estudou 130 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 5 • Número 15 • Maio 2015 Edição Especial • Homenageado ARYON DALL'IGNA RODRIGUES 2.4.3 {-koko} recíproco (21) a. yuho'í -koko cumprimentar -Rec -ti hoyeno -IMPERF homem os homens estão se cumprimentando b. isú -koko bater -Rec -ne kaliwôno -PONT criança as crianças brigaram (entre si) c. kemomo -koko -ti olhar -Rec -IMPERF vocês estão se olhando d. kuri -koko separar -Rec -ti -IMPERF eles se separaram Como já ocorrido em exemplos acima, há ainda uma marca que co-ocorre com a marca de objeto indireto, indicando quando este é benefactivo: 131 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 5 • Número 15 • Maio 2015 Edição Especial • Homenageado ARYON DALL'IGNA RODRIGUES (22) a. y- axa -k -ino 2Sg-acender –CT -nu Benef -1SgOBJ yuku fogo acenda o fogo para mim b. kepe -k matar -CT -e -ino -owi -SUBJ -Benef -1SgOBJ koexo'oketi barata mate a barata para nós Considerações finais Todos os componentes de uma língua - seu sistema de sons, seu sistema morfológico e sintático e seu vocabulário, assim como suas estratégias de construção do discurso - mudam no curso do tempo, em consequência de reajustes internos desses sistemas e devido a mudanças na cultura e organização social do povo que a fala e a influências de outras línguas com que ela entra em contato em determinadas circunstâncias. A Originalidade das Línguas Indígenas Brasileiras (Aryon D. Rodrigues)4 Os Aruak do Mato Grosso do Sul são subgrupos Chané ou Guaná, conhecidos como exoaladi, kinikinau, layana e terena. Os terena sempre foram apresentados na literatura como grupo bastante numeroso de pessoas, o maior deles. O segundo, numericamente sempre foi o kinikinau e, por fim, exoaladi e layana os menores, ambos dados como extintos. Esses subgrupos sempre viveram independentes, cada um com suas aldeias próprias, mas com semelhanças culturais, inclusive linguística, que, 4 A Originalidade das Línguas Indígenas Brasileiras (Conferência feita na inauguração do Laboratório de Línguas Indígenas do Instituto de Letras da Universidade de Brasília, em 8 de julho de 1999.) 132 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 5 • Número 15 • Maio 2015 Edição Especial • Homenageado ARYON DALL'IGNA RODRIGUES segundo Taunay (1931), Metraux (1946) entre outros, falam uma mesma língua com algumas variações quanto à fonética e ao léxico. A história e o tempo distanciaram esses povos e hoje a língua dos kinikinau também se distanciou mais da língua dos terena. Não são diferenças que comprometem a comunicação entre esses povos irmãos, mas são diferenças que fazem parte da história, ou melhor, que ajudam a contar a história do kinikinau. Por isso considero importante evidenciá-las e procurei mostrar isso em Souza (2008). A língua kinikinau está no último estágio de obsolescência. Não há mais diálogo cotidiano em kinikinau. O diálogo foi silenciado no mês de julho de 2014, com a morte do Senhor Miguel Roberto, índio layana, esposo de Dona Zeferina Moreira (muito provavelmente) última falante da língua kinikinau. Ambos se comunicavam diariamente em suas línguas maternas. Os filhos mais velhos do casal são falantes passivos (apenas compreendem). Este texto foi elaborado para esta revista acadêmica que, nesta edição, presta homenagem a Aryon Dall’Igna Rodrigues. Passei a me interessar pelas culturas indígenas e, principalmente pelas línguas, no momento em que li uma reportagem sobre ”a última falante de xipaia”, em que o Professor Aryon era entrevistado e falava sobre a questão linguística. A partir daí, seus textos, além do conhecimento científico, me foram instigadores. Obrigada, Professor Aryon! BIBLIOGRAFIA AIKHENVALD, Alexandra Y. The Arawak language family. In: BLAKE, B. J. & BURRIDGE, K.(eds) Historical Linguistics. Amsterdam/Philadelphia: John Benjamins Publishing Company, 2001. pp. 65 - 106. BENDOR-SAMUEL, J. Some problems of segmentation in the phonological analysis of Terena. Word, 16.3, 1960 [1970]. pp. 348 – 55 BENDOR-SAMUEL, John T. A structure-function description of Terena phrases. 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