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Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande
Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande
ISSN: 2178-1486 • Volume 5 • Número 15 • Maio 2015
Edição Especial • Homenageado
ARYON DALL'IGNA RODRIGUES
CONCORDÂNCIA: VERBOS E NOMES NA LÍNGUA KINIKINAU
Ilda de Souza (PQLP/CAPES)1
[email protected]
RESUMO: Neste texto apresento uma breve revisão da sintaxe, mais especificamente da concordância
de nomes e verbos do kinikinau, língua da família Aruak, falada pelos índios kinikinau, habitantes de
Mato Grosso do Sul, Brasil. Tipologicamente kinikinau se classifica como uma língua aglutinante, com
ênfase na sufixação, como a maioria das línguas da família linguística Aruak (cf. Aikhenvald, 1994).
Kinikinau, como o terena, apresenta em sua morfologia processos concatenativos e não-concatenativos,
fenômenos que serão descritos ao longo do texto. Os dados apresentados constam da tese de Souza
(2008). Nesta língua o verbo e o nome são marcados da mesma forma por concordância de pessoa e
número. A língua kinikinau está no último estágio de obsolescência. Não é falada por crianças e jovens,
não tem função social nem ritualística. Não há mais diálogo cotidiano em kinikinau. Os poucos semifalantes pertencem a uma mesma família que está dispersa porque são índios sem terra.
PALAVRAS-CHAVE: Concordância; verbos e nomes; Língua kinikinau.
ABSTRACT: In this text I present a brief review of the syntax , specifically in relation to the verbs ad
names agreement of the kinikinau, an Arawak language that is spoken by the kinikinau Indians,
inhabitants of the state of Mato Grosso do Sul - Brazil. Typologically, kinikinau is classified as an
agglutinative language, with an emphasis on suffixation, as majority of the Arawak Language family
(cf.Aikhenvald, 1994). Kinikinau, like the terena, presents, in its morphology , concatenative and nonconcatenative processes. These phenomena will be described in the text. The data presented was taken
from Souza thesis (2008). In the kinikinau language the verb and the name are marked equally by
agreement of person and number. The kinikinau langage is in the last stage of obsolescence. It’s not
spoken by children and young people neither. It doesn’t have social function and it doesn’t have ritualistic
or religious function. There’s no daily dialogue in kinikinau. The few semi-speakers belong to the same
family that are scattered because they are landless Indians.
KEYWORDS: Agreement; Verbs and names; Kinikinau language.
O Centro-oeste, como espaço geográfico correspondente aos
territórios dos estados de Goiás, Mato-Grosso, Mato-Grosso
do Sul e Distrito Federal, é muito heterogêneo tanto no que
se refere a suas características físicas e ecológicas, como no
que diz respeito a sua população. Assim como esse imenso
espaço é recortado por rios de três grandes bacias
hidrográficas – a do Amazonas, a do Paraguai-Paraná e a do
Tocantins-Araguaia – assim também foi percorrido por
povos indígenas de diferentes culturas e línguas que,
deslocando-se uns aos outros ou confluindo para um mesmo
hábitat, compuseram um enorme mosaico cultural e
linguístico. Neste mosaico estão representadas as maiores
famílias linguísticas da América do Sul – a Aruák, a Karíb, a
1
Professora do Programa de Qualificação em Língua Portuguesa (PQLP/CAPES) em Timor Leste.
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Tupí-Guaraní e a Jê – entremeadas entre si e com um grande
número de famílias menores. (Aryon Rodrigues, 2003: 69 )
1. Introdução
A língua kinikinau pertence à família Aruak, classificação de Mason (1946, p.
214), Loukotka (1968, p.144) e ratificada por Rodrigues (2003, p. 69). 2
Segundo Metraux (1946), a cultura dos povos Chané (Guaná), a saber:
exoaladi†, kinikinau, layana e terena haveria se modificado pelas influências que cada
grupo teria recebido de outras culturas, em decorrência do contato. Para Mason (1946),
todos os subgrupos Guaná deixaram de falar sua língua Aruak e passaram a falar uma
língua Guaicuru.
Em Souza (2008) discuti essas questões e, com base nos estudos de Sandalo
(1997, 2001, 2004, 2005) sobre a língua kadiwéu, mostrei que a afirmação de Metraux
se confirmava, mas a de Mason estava equivocada, assim como outros estudos baseados
nele.
Neste texto apresento uma breve análise da concordância (de nomes e verbos) do
kinikinau, língua dos índios da mesma designação, habitantes de Mato Grosso do Sul,
Brasil.
De acordo com ( Spencer , 1996) as línguas podem ser classificadas de acordo
com vários critérios e um deles é a estrutura morfológica. Entre
as tipologias, o
kinikinau se classifica como uma língua aglutinante, com ênfase na sufixação, como a
maioria das línguas da família linguística Aruak (cf. Aikhenvald 1994). Kinikinau e
terena apresentam em sua morfologia processos concatenativos e não concatenativos,
como poderá ser observado nos exemplos ao longo do texto.
2
A análise apresentada faz parte de minha tese de doutorado, defendida no IEL/UNICAMP – 2008.
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2. Concordância
Na língua kinikinau o verbo e o nome são marcados da mesma forma por
concordância de pessoa e número. Nesta análise, foi constatado que o kinikinau segue
as mesmas regras do terena, com algumas poucas diferenças, conforme consulta aos
trabalhos de Bendor-Samuel (1970, 1966, 1963), Ekdahl e Grimes (1964), Eastlack
(1968), Butler e Ekdahl (1979) e Butler (1977, 2003).
A terceira pessoa é não-marcada, a primeira pessoa do singular é marcada por
um traço [+ nasal], a primeira pessoa do plural é marcada pela prefixação de {w-} à raiz
verbal e a segunda pessoa (singular e plural) é marcada pela prefixação de {y-} à raiz
verbal, conforme pode ser constatado em seguida.
2.1 Primeira pessoa do singular
A primeira pessoa do singular é marcada pela nasalização de todas as vogais e
semivogais da esquerda para a direita da forma verbal, até que seja bloqueada por uma
obstruinte (oclusiva ou fricativa). Nesse processo de nasalização, também a obstruinte
recebe influência do espalhamento nasal, sonorizando-se e pré-nasalizando-se.
Observe os exemplos:
(01)
Forma não-marcada
a.
pore -x
-o
-a
Primeira Pessoa Sg.
-ti
mbore
-x
-o
-a
ti
dar -CT -IND -OBJ -IMPERF
1Sg.dar -CT -IND -OBJ -IMPERF
ele está dando-o
eu estou dando-o
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b.
c.
d.
e.
f.
tetu
-k
-o
-a
-ti
ndetu
-k
-o
-a
-ti
cortar -CT -IND -OBJ –
1Sg,cortar –CT -IND -OBJ -
IMPERF
IMPERF
ele está cortando-o
eu estou cortando-o
ni
-k
-o
-ti
ni
-ng
-o
-ti
comer -CT -IND -IMPERF
comer -1SgCT -IND -IMPERF
ele está comendo
eu estou comendo
aruxu
-k
-o
-ti
arunju
-k
-o
-ti
morder -CT -IND -IMPERF
1Sg.morder -CT -IND -IMPERF
ele está mordendo
eu estou mordendo
humi
-k
-o
-ti
nzumi
-k
-o
assoviar -CT -IND -IMPERF
1Sg.assoviar -CT
ele está assoviando
eu estou assoviando
ewese
-k
-o
-ti
ẽwẽnze
-k
-ti
-IND -IMPERF
-o
-ti
descer -CT -IND -IMPERF
1Sg.descer -CT -IND -IMPERF
ele está descendo
eu estou descendo
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g.
isu
-k
-o
-a
-ti
inzu
-k
-o
bater -CT -IND –OBJ –IMPERF
1Sg.bater -CT
ela está batendo nele
eu bati nele
-IND
-a
-OBJ
Caso a forma verbal não possua obstruinte em sua constituição morfológica, a
palavra toda é nasalizada, como pode ser constatado abaixo:
(02)
a.
b.
Forma não-marcada
Primeira Pessoa Sg.
yonôti
ȳõnõã
andar
1Sg.andar -PONT
ele está andando
eu andei
omo
õmõ
-ne
-ne
-ne
trazer -PONT
1Sg.trazer -PONT
ele trouxe
eu trouxe
O mesmo fenômeno ocorre com nomes na construção possessiva:
(03)
Forma não-marcada
Primeira Pessoa Sg.
Glossa
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a.
ûke
ûnge
meu olho
b.
hêwe
njêwe
meu pé
c.
poynu
mboynu
meu irmão/irmã
d.
ha’a
nza´a
meu pai
A primeira pessoa do plural é marcada pelo morfema prefixal {w-}. Se a raiz for
iniciada por consoantes, há uma regra fonológica que apaga o segmento consonantal /w/
(a língua não admite encontros consonantais).
(04)
Forma não-marcada
a. imo
-k
-o
-ti
Primeira Pessoa PL.
kaliwôno
w –imo
-k
-o
-ti
dormir –CT -IND–IMPERF criança
1PL.dormir -CT -IND –
a criança está dormindo
IMPERF
nós estamos dormindo
b. eno
-w
-o -ti
atu waka
beber -CT -IND -IMPERF leite vaca
w- eno
atu
-w -o
-ti
1PL.beber-CT –IND –
IMPERF leite
ele está bebendo leite de vaca
nós estamos bebendo leite
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Quando ocorre esta regra fonológica, há uma preferência de não omitir o argumento
pronominal (ûti), conforme mostram os exemplos abaixo.
(05)
a. koepe
-k
matar
-o
-a
-CT -IND -OBJ
ûti
koexo'oketi
1PL
barata
nós matamos a barata
b. pi
-k
-o
medo –CT -IND
-a
ûti
-OBJ 1PL
koexoe
cobra
nós temos medo de cobra
2.2 Segunda Pessoa
O morfema de segunda pessoa é a aproximante {y-}. Entretanto, como no caso
acima, há um processo fonológico de apagamento de um segmento consonantal antes de
outro consonantal. O segmento /y/ é apagado quando ocorre diante de consoante. Mas,
no caso da segunda pessoa, há traços estáveis que permanecem. Assim, os traços [posterior] e [+alto] permanecem e causam alternância vocálica. Em outras palavras, os
traços [-posterior] e [+alto] são estáveis, isto é, permanecem ativos. Deste modo, se a
vogal que segue a consoante inicial da raiz for [+posterior] , a saber /o/, /u/ e /a/, esta
vogal torna-se [-posterior]. Ou seja, /o/ torna-se /e/, /a/ torna-se /e/, e /u/ torna-se /i/. O
traço [-posterior] marca a concordância de segunda pessoa, ou seja, há uma
anteriorização da vogal. Se a primeira vogal for /e/, entretanto, uma vogal já portadora
do traço [-posterior], esta vogal sofrerá alteamento para /i/. Neste caso, é o traço de
altura que marca a concordância de segunda pessoa. Note ainda que, se a primeira vogal
for /i/, portanto já portadora de ambos os traços [-posterior] e [+alto], a segunda vogal
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da raiz sofrerá o processo de altenância conforme descrito. Observe esquema do
processo apresentado abaixo:
Se V1 [+post]  [-post]
Se V1 [-post, -alta]  [+alta]
Se V1 [-post, +alta]  traços se espalham para V2 (de acordo com as
generalizações acima)
Exemplos de concordância em segunda pessoa, com verbos iniciados por vogais, exceto
/i /
(06)
Forma não-marcada
a. oro'o
-k
-o
Segunda Pessoa Sg.
-ti
y- ara'a
-k
-a
-a
queimar -CT -IND -IMPERF
2Sg queimar -CT -SUBJ -OBJ
ele está queimando
queime-o
b. ore
-k
beber -CT
-o
-ti
-IND -IMPERF
ele está bebendo
c. uru
-k
entrar -CT
-o
y-
ore
-k
-o
-ti
2Sg- beber -CT -IND -IMPERF
você está bebendo
-wo
-ti
-IND -Refl -IMPERF
y- uru
-k
2Sg entrar -CT
-a
-pu
-SUBJ -Refl
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ele está entrando
entre
A seguir, veja os exemplos com verbos iniciados por consoantes e por /i /:
(07)
Forma não-marcada
a. sim
-o
Segunda Pessoa Sg.
sime
-ne
chegar -IND -PONT
chegar.2Sg.
-PONT
ele já chegou
você já chegou
b. mana -k
-ne
-o
-ti
xûpu
menako
-ti
descascar-CT-IND-IMPERF mandioca
2Sg.descascar–
ele está descascando mandioca
IMPERFmandioca
xûpu
você está descascando mandioca
c. imo
-k
dormir -CT
-o
ime
-IND
dormir.2Sg -CT
ele dormiu
d. keho
-k
-k
-o
-IND
você dormiu
-o
-a
ûto
kiho
-k
-o
-a
quebrar -CT -IND -OBJ prato
2Sg.quebrar -CT -IND -OBJ
ele quebrou o prato
você quebrou- o
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Novamente, as mesmas regras operam para nomes:
(08)
Forma não-marcada
Segunda Pessoa
glossa
a.
ûke
y- ûke
teu olho
b.
owoku
y- owoku
tua casa
c.
amori
y- amori
teu neto
Os exemplos abaixo mostram a marcação de segunda pessoa, quando o nome
possuidor ou o verbo se inicia por consoante ou pela vogal i.
(09)
Forma não-marcada Segunda Pessoa Sg
glossa
a.
kenôti
kinôti
tua orelha
b.
poynu
peynu
teu irmão
c.
pâho
peaho
tua boca
d.
kihuati
kihiati
você está enxugando
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e.
neneti
nineti
você está mentindo
f.
ipikoati
ipikiati
você está salvando-o/a
Existem algumas ocorrências ainda não completamente explicadas. Há casos em
que mais de uma vogal sofre assimilação. Nestes casos, parece que sempre há uma
aproximante ou glotal (glide para Chomsky & Halle 1968). Mas há outros para os quais
ainda não tenho uma explicação.
(10)
Forma não-marcada Segunda Pessoa
Glossa
a.
hêwe
hîwi
teu pé
b.
xe'exa
xi'ixa
teu filho
d.
wo'u
w-i-a 'u
teu dedo
e.
há'a
y-a'a
teu pai
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f.
nône
nione
tua plantação
2.3 Morfemas de concordância com o objeto
O kinikinau marca concordância com o sujeito ou possuidor (como visto acima)
e com o objeto direto e objeto indireto (i.e. todos os argumentos concordam). Os
morfemas que marcam objetos direto e indireto são os mesmos. Mas há uma hierarquia
para decidir a ordem dos morfemas. Nem todos os paradigmas puderam ser verificados.
Até o presente momento, as seguintes generalizações parecem ocorrer. A marca de
objeto indireto precede à marca de objeto direto quando o objeto indireto é de segunda
pessoa, e o direto, terceira. Quando o objeto indireto é de primeira pessoa, e o direto de
terceira, a concordância de objeto direto ocorre antes. Quando ambos os objetos são
terceira pessoa, apenas uma marca ocorre. São as seguintes as marcas de concordância
com objeto:
(i) 1ª. Pessoa singular {-nu}
(ii) 2ª. Pessoa singular {-pi}
(iii) 3ª. Pessoa singular {-a}
(iv) 1ª. Pessoa plural {-owi}
Os exemplos que seguem poderão esclarecer melhor essa concordância:
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2.3.1 {-nu} 1ª. Pessoa do Singular Objeto
(11)
a. isi
-k
-o
2SgSUJ.bater -CT
-nu
-IND
-1SgOBJ
você me bateu / bate
b
pore
-x
-o
3SgSUJ.dar -CT
-a
-nu
koyuhopeti
-IND -3OBJ -1SgOBJi
papel
ele deu o papel para mim
2.3.2 {-pi} ~ [-pe] 2ª. Pessoa do Singular Objeto
(12)
a. mbore
1Sg.SUJ.dar
-x
-o
-pe
-CT -IND -OBJi
-a
-OBJ
-ne
-PONT
eu já o dei para você
Se o morfema -pi é seguido do morfema -a (concordância de 3ª. pessoa
objeto) ocorre um processo morfofonológico que impede a formação do ditongo. Assim,
cria-se um hiato. Ou seja, quando o morfema {-pi} antecede o morfema {-a}, usa-se o
alomorfe {-pe}.
124
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(13) a. pore -x
-o
-pe
-a
dar -CT -IND -2SgOBJi
3OBJ
ele o deu para você
b. posi
-k
-o
-pe
-a
-ti
procurar –CT -IND -2SgOBJi -3OBJ
-IMPERF
ele está procurando-o para você
c. ngauna
-k
-o
-pe
1Sg.guardar –CT -IND
-a
-2OBJi
3OBJ
eu o guardei para você
2.3.3 {-a} 3ª. Pessoa do Singular Objeto
(14) a.
noi
-x
-o
-a
ver
-CT -IND -OBJ
ele o viu
b. y- aruxu
-k
-o
-a
2Sg.morder -CT -IND -OBJ
-ne
-PONT
você já o mordeu
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c. inju
-k
-o
1Sg.bater CT
-a
IND
-OBJ
eu bati nele
d. pore
dar
-x
-o
-a
-CT
-IND -OBJ
-a
-OBJ
ele o deu para lele
2.3.4 {owi} 1ª. Pessoa do Plural Objeto
(15)
a.
isu
-k
-o
-owi
bater -CT -IND -1PLOBJ
ele bateu em nós
c. kipehe
2Sg lavar
-ino
-owi
ûto
Benef -1PLOBJ prato
lave o prato para nós
A pluralização de objetos pode ser marcada por palavras funcionais
independentes, no caso de os afixos não conterem pluralização.
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2.3.5 {-pi} + hiko Segunda Pessoa do Plural Objeto
(16)
a. mbore
-x
-o
1Sg.dar -CT
-pi
-ne
IND -2SgOBJi
hiko
-PONT
PL
pãw
OBJ.pão
eu dei o pão para vocês
b. kaha’ati
querer
inju
-k
-a
1Sg.bater -CT
-pi
hiko
SUBJ -2SgOBJ
PL
ele quer que eu bata em vocês
c. no
-njo
-pi
hiko
ver -1SgCT -2SgOBJ
PL
nós vimos vocês
2.3.6 {-a} + hiko 3ª. Pessoa do Plural Objeto
(17) a. oposi
-k
-o
-â
-ne
hiko
procurar –CT -IND -3OBJ -PONT PL
ele as procurou
b. mana
-ng
-o
-ne
hiko
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descascar -1SgCT
-IND
-PONT
PL
eu já as descasquei
c
w-
iti
-x
-o
1PL- juntar -CT
-a
-IND -3OBJ
-ti
hiko
-IMPERF PL
nós as juntamos
Esta forma de marcação de plural difere da marcação usada na língua terena. Na
língua terena são dois sufixos que marcam o objeto plural: {-noe} para a 2ª. Pessoa e
{-hiko} para a 3ª. Pessoa, conforme mostram os exemplos a seguir:3
(18)
a.
Terena
Kinikinau
nguixópinoe
ngixópine hiko
nguixo
1Sg.dizer
b.
-pi
2SgOBJ
ngixo
-pi
-PL
1Sg.dizer -2SgOBJ
eu disse a vocês
eu disse a vocês
nguixoahiko
ngixoa hiko
nguixo
-a
1Sg.dizer -3OBJ
3
-noe
-a
-ne
-hiko
ngixo
-PL
1Sg.dizer -3OBJ PL
hiko
PONT PL
hiko
Os exemplos da língua Terena são de (Butler e Ekdahl, 1979, p. 36)
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c.
eu disse a eles
eu disse a eles
pihénoe
pihe hiko
pih
ir
d.
-é
-2Sg
-noe
-PL
pih
-é
hiko
ir
2Sg
PL
vão vocês
vão vocês
arunjukoatihikomo
arunjukoatimo hiko
arunjuko
-a
-ti
-hiko -mo
arunjuko
-a
-ti
-mo
hiko
1Sg.morder -OBJ -IMPERF -PL -
1Sg.morder -3O -IMPERF -FUT
FUT
PL
eu vou mordê-las
eu vou mordê-las
2.4 Morfemas Reflexivos e Recíprocos
2.4.1 {-wo} morfema reflexivo
O morfema reflexivo -wo ocorre em sentenças afirmativas:
(19)
a.
kahararaiko -ne Wiwi
pintar
Rafaela
-PONT Vivi Rafaela
kahararaiko -wo -ne
pintar
Rafaela
-Refl -PONT Rafaela
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ARYON DALL'IGNA RODRIGUES
a Rafaela pintou a Vivi
b.
kuriko -a
-ne waka
a Rafaela se pintou
Mane
soltar -3OBJ -PONT vaca
kuriko -wo
-ne
waka
soltar -Refl -PONT
Manoel
vaca
a vaca se soltou
o Manoel soltou a vaca
c.
engoko
-a
1Sg.machucar -OBJ
-ne
engoko
-PONT
1Sg.machucar -Refl
eu o machuquei
-wo
-ne
-PONT
eu me machuquei
2.4.2 {-pu} Reflexivo
O morfema reflexivo -pu ocorre em sentenças negativas.
(20)
a. ako
enga
-k
Neg 1Sg.machucar -CT
-a
-pu
-SUBJ
-Refl
eu não me machuquei
b. ako
ihake
Neg estudar
-x
-a
-pu
-CT
-SUBJ -Refl
ele não estudou
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2.4.3 {-koko} recíproco
(21) a. yuho'í
-koko
cumprimentar -Rec
-ti
hoyeno
-IMPERF homem
os homens estão se cumprimentando
b. isú
-koko
bater -Rec
-ne
kaliwôno
-PONT
criança
as crianças brigaram (entre si)
c. kemomo
-koko
-ti
olhar
-Rec
-IMPERF
vocês estão se olhando
d. kuri
-koko
separar -Rec
-ti
-IMPERF
eles se separaram
Como já ocorrido em exemplos acima, há ainda uma marca que co-ocorre com a
marca de objeto indireto, indicando quando este é benefactivo:
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(22) a. y- axa
-k
-ino
2Sg-acender –CT
-nu
Benef -1SgOBJ
yuku
fogo
acenda o fogo para mim
b. kepe
-k
matar -CT
-e
-ino
-owi
-SUBJ -Benef -1SgOBJ
koexo'oketi
barata
mate a barata para nós
Considerações finais
Todos os componentes de uma língua - seu sistema de sons, seu
sistema morfológico e sintático e seu vocabulário, assim como suas
estratégias de construção do discurso - mudam no curso do tempo, em
consequência de reajustes internos desses sistemas e devido a
mudanças na cultura e organização social do povo que a fala e a
influências de outras línguas com que ela entra em contato em
determinadas circunstâncias. A Originalidade das Línguas Indígenas
Brasileiras (Aryon D. Rodrigues)4
Os Aruak do Mato Grosso do Sul são subgrupos Chané ou Guaná, conhecidos
como exoaladi, kinikinau, layana e terena. Os terena sempre foram apresentados na
literatura como grupo bastante numeroso de pessoas, o maior deles. O segundo,
numericamente sempre foi o kinikinau e, por fim, exoaladi e layana os menores, ambos
dados como extintos. Esses subgrupos sempre viveram independentes, cada um com
suas aldeias próprias, mas com semelhanças culturais, inclusive linguística, que,
4
A Originalidade das Línguas Indígenas Brasileiras (Conferência feita na inauguração do Laboratório
de Línguas Indígenas do Instituto de Letras da Universidade de Brasília, em 8 de julho de 1999.)
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segundo Taunay (1931), Metraux (1946) entre outros, falam uma mesma língua com
algumas variações quanto à fonética e ao léxico.
A história e o tempo distanciaram esses povos e hoje a língua dos kinikinau
também se distanciou mais da língua dos terena. Não são diferenças que comprometem
a comunicação entre esses povos irmãos, mas são diferenças que fazem parte da
história, ou melhor, que ajudam a contar a história do kinikinau. Por isso considero
importante evidenciá-las e procurei mostrar isso em Souza (2008).
A língua kinikinau está no último estágio de obsolescência. Não há mais diálogo
cotidiano em kinikinau. O diálogo foi silenciado no mês de julho de 2014, com a morte
do Senhor Miguel Roberto, índio layana, esposo de Dona Zeferina Moreira (muito
provavelmente) última falante da língua kinikinau. Ambos se comunicavam diariamente
em suas línguas maternas. Os filhos mais velhos do casal são falantes passivos (apenas
compreendem).
Este texto foi elaborado para esta revista acadêmica que, nesta edição, presta
homenagem a Aryon Dall’Igna Rodrigues.
Passei a me interessar pelas culturas indígenas e, principalmente pelas línguas,
no momento em que li uma reportagem sobre ”a última falante de xipaia”, em que o
Professor Aryon era entrevistado e falava sobre a questão linguística. A partir daí, seus
textos, além do conhecimento científico, me foram instigadores. Obrigada, Professor
Aryon!
BIBLIOGRAFIA
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Companhia Melhoramentos de São Paulo, 1931.
Recebido Para Publicação em 18 de março de 2015.
Aprovado Para Publicação em 21 de maio de 2015.
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concordância: verbos e nomes na língua kinikinau