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DE cVINHOS
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olunista
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VINHOS DE
CINEMA
por Suzana Barelli
D
uas histórias ligam Donnafugata à Sicília. Na primeira, no filme Il Gattopardo, de Luchino Visconti, com Claudia Cardinalle e Alain Delon, donna Fugata é a rainha Maria Carolina, refugiada no castelo de Santa Margherita.
Na vida real, Donnafugata foi o nome escolhido por Giacomo e Gabriella Rallo
para designar sua vinícola, criada após uma partilha familiar no início da década
de 1980. Na época, o casal recorreu ao filme como inspiração para o projeto de
fazer tintos e brancos secos na ilha mediterrânea e deixar para trás os populares
Marsala, do qual a marca familiar Rallo era uma das grandes produtoras. E, como
cinema e realidade se encontram, há nos rótulos dos vinhos e no logotipo da vinícola a imagem de uma mulher com os cabelos ao vento, estilizando uma cena do
clássico filme de 1953.
Da história real de Marsala, Giacomo, representante da quarta geração de vinicultores da família Rallo, ficou com a antiga e enorme vinícola, erguida em 1851,
na cidade homônima, a oeste da ilha. No local, eram produzidos os vinhos fortificados, criados pelo inglês John Woodhouse, em 1773. Mas, Giacomo logo tratou
de reformar a vinícola centenária e de mudar a maneira de produzir os vinhos,
então com consultoria do enólogo italiano Giacomo Tachis (atualmente, o enólogo consultor da casa é o não menos badalado Carlo Ferrini). No lugar dos imensos
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tanques que produziam o Marsala, barricas pequenas – atualmente, a vinícola
adquire, em média, 1.000 novas barricas de carvalho por ano. Fermentação com
temperatura controlada, novos tanques de aço inox e cuidado com a higienização
foram conceitos que encontraram eco na vinícola nas últimas décadas.
Mas, se o vinho fortificado foi deixado em segundo plano, o mesmo não se
pode dizer das uvas locais. As brancas Ansonica, Catarratto e Grecanico, e as tintas Perricone e, principalmente, a Nero d’Avola predominam nos 140 hectares
próprios da Donnafugata e nos 120 hectares de produtores contratados, que trabalham os vinhedos com supervisão da equipe técnica da vinícola. Os vinhedos
se concentram nas colinas de Contessa Entellina, no interior da ilha, com altitudes de 200 a 600 metros do nível do mar. O solo é argiloso, com algumas áreas calcárias. A localização, informa o enólogo Stefano Valla, registra grandes variações
de temperatura entre o dia, mais quente, e as noites, com brisa freqüente, tanto
no inverno como no verão. Ao lado da vinícola de Entellina está também a residência de Giacomo e Gabriella, com a privilegiada vista panorâmica para os
vinhedos e ponto de encontro da família.
A Nero d’Avola, cepa autóctone da Sicília, é a vedete nos vinhedos e na
vinícola. A uva ganhou projeção internacional com o trabalho de redução de
produção por planta e de seleção clonal dos últimos anos. Nos vinhedos da
Donnafugata, ainda se estuda qual o clone ideal para traduzir o melhor do terroir da ilha mediterrânea e se investe em maior densidade por hectare no plantio da variedade. Giacomo Rallo não tem dúvida de que a cepa é uma das principais razões do salto de qualidade do vinho siciliano nos últimos anos. Não é
à toa que seu vinho principal, com o sugestivo nome de Mille e une Notte,
▼
Criada em 1980, a italiana Donnafugata
mostra que, com modernidade e visão, a Itália
continuará sempre produzindo grandes vinhos
Fachada da vinícola;
Giacomo e Gabriella
Rallo, criadores da
DonnaFugata; e a
colheita manual das
uvas brancas para
a elaboração do
bom Chardonnay
da casa.
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Acima, no alto, a
Vinha di Gabri, uma
das mais
importantes da
vinícola; a colheita
noturna e os
vinhedos das
encostas da ilha de
Pantelleria, onde
são elaborados os
doces passitos.
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a uva predomina com 90% – os 10% restantes são de outras cepas locais.
Na degustação na vinícola, na cidade de Marsala, fica claro o trabalho da
equipe de enólogos em definir o estilo do vinho. A safra 1999 pode ser definida
com o estilo mais siciliano, com os taninos um pouco mais duros. A de 2002,
ainda jovem, chama atenção pelo estilo mais internacional. “São mudanças sutis
no vinho para mostrar a tipicidade siciliana”, afirma Valla, que trabalha na equipe de Antonio Rallo, filho de Giacomo, e diretor técnico da vinícola. A conferir.
Ao lado das cepas italianas, a vinícola investe também em uvas de origem
francesa, como Chardonnay e Sauvignon Blanc, nas brancas, e Merlot, Shiraz e
Cabernet Sauvignon, nas tintas. São usadas, principalmente, em blends. O vinho
Tancredi, por exemplo, é um misto de Nero d’Avola (70%) e Cabernet
Sauvignon (30%). A Chardonnay, que junto com a Ansonica, faz o aromático e
com ótimo frescor Chiarandà, é a primeira a ser colhida na ilha. Pela própria localização geográfica, as primeiras colheitas no Hemisfério Norte ocorrem na Sicília.
Como as uvas amadurecem ainda em agosto, mês de muito calor na região e
picos de mais de 35 graus durante o dia, a colheita é realizada à noite desde
1998, com farta cobertura jornalística. Durante o dia, há o risco de as uvas
começarem a fermentar na curta distância entre o vinhedo e a vinícola, comprometendo o resultado final. A brisa freqüente na região mantém as temperaturas mais baixas à noite, ao redor de 16 graus, favorecendo o trabalho no
campo. Na vinícola, as uvas são selecionadas e prensadas, numa temperatura de
10 graus, a maneira de melhor preservar seus aromas.
A DOÇURA DA ILHA
Na pequenina e vulcânica Ilha de Pantelleria, próxima à costa siciliana
já em direção à África, estão mais 22 hectares de vinhedos da Donnafugata
e outros 20 hectares que fornecem para a vinícola. Lá, está plantada a
Zibibbo, como é chamada localmente a Moscatel de Alexandria, numa altitude que varia de 20 a 200 metros do nível do mar, num solo arenoso, fértil
e rico em potássio e zinco. O nome vem da palavra árabe zibibb, que significa, exatamente, uva. As vinhas têm idade de 20 a até 100 anos – aqui, tratase de uma zona de 7 hectares e a idade foi comprovada por professores da
Universidade Católica de Piacenza.
Com 2.500 vinhas por hectare e produção de 4 toneladas por hectare, as
uvas amadurecem em meados de agosto. Depois de colhidas, elas ficam
expostas ao sol por três a quatro semanas, para obter uma matéria-prima mais
concentrada e rica em aromas. Em setembro, seguindo uma segunda colheita, as uvas são prensadas e seguem para a fermentação e maceração, que só
terminam no final de novembro. Dão origem aos Passito di Pantelleria DOC
Kadir e Ben Ryé – este último recebe duas bicchieri do guia Gambero Rosso.
A pontuação vem a se juntar ao Mille e une Notte, que tem três bicchieri no
mesmo guia e são motivo de comemoração para a família Rallo, principalmente cantando. Se o cinema foi a inspiração para o nome da vinícola, a
veia artística se faz presente na voz de José, filho de Giacomo e Gabriella,
que tem em seu repertório a bossa nova brasileira.
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