Referências Modulares
para a Produção de Soja
na Mesorregião Norte do
Paraná
Sérgio Luiz Carneiro
Rafael Fuentes Llanillo
Adenir de Carvalho
Manuel Pessoa de Lira
Dimas Soares Júnior
Maurílio Soares Gomes
OJA
É
Referência modular
possível lucrar mais com a combinação
adequada da tecnologia, da economia e do trabalho.
Referências para:
Região Norte do Paraná
Sistemas de produção:
• Agricultura familiar;
• PSM 3 – Grãos;
• EF - Grãos
Solos:
• Argilosos;
• Eutróficos;
• Relevo suave/ondulado;
Clima:
• Cfa
Apresentação
Os resultados apresentados neste documento são originados do
acompanhamento de 50 talhões de soja nas safras 98/99, 99/00, 00/01, 01/02 e
02/03. Os registros das informações foram feitos por 28 agricultores integrantes
do projeto Redes de Referências, nas regiões de Apucarana, Cornélio Procópio e
Londrina, num total de 15 municípios. A cada ano foram feitas avaliações
técnicas e econômicas com o grupo de produtores para troca de informações e
para propor melhoria na condução da cultura. O objetivo deste trabalho é
disponibilizar as referências obtidas para subsidiar pesquisadores, técnicos e
agricultores que procuram o aumento da rentabilidade agrícola e a melhoria da
qualidade de vida no campo. Não se trata de um manual técnico, mas de um
documento útil para avaliar a performance dos resultados alcançados por
agricultores em condições similares de produção (ver o mapa e o quadro acima).
A Referência Modular não é um manual técnico e nem é o instrumento para recomendar
ao leitor a escolha de uma determinada marca, dosagem ou a forma de aplicação de um
insumo agrícola qualquer. É um documento que descreve os balizadores de eficiência
técnica e econômica de uma atividade (componente de um sistema de produção), com
base em acompanhamento a campo, portanto, em casos concretos.
Para que serve a Referência Modular?
• Nortear os planos de trabalho da extensão rural e da assistência técnica, por indicar
os pontos mais importantes, sob os aspectos técnico-econômicos, que merecem
prioridade de atendimento;
• Oferecer as referências globais de uma atividade (do todo e de seus principais
componentes) e não o reducionismo do nível de produção ou da produtividade,
muito comum nos diagnósticos atuais;
• Facilitar o diagnóstico da eficiência econômica de produtores acompanhados, pela
comparação com as referências obtidas a campo, em situações similares.
A Contribuição na Renda
A soja contribuiu, em média, com 52 % da renda bruta total dos sistemas de produção
de grãos acompanhados pelo projeto Redes de Referências na região norte do Estado do
Paraná, entre os anos 1998 e 2003. Em alguns sistemas essa contribuição chegou em até
75%.
A seguir, apresentam-se as referências técnicas e econômicas indexadas em sacas de
soja de 60 kg/ha, com as variações verificadas em acompanhamento a campo.
A Produtividade
PRODUTIVIDADE ( sc / ha)
54
40
Legenda:
Bom:
Médio:
Crítico:
25% dos melhores resultados
nível intermediário entre os melhores e os piores resultados
25% dos piores resultados
Pontos a melhorar visando a redução de riscos e o
aumento de produtividade:
• Plantio escalonado e uso de cultivares bem adaptados;
• A época preferencial de plantio: 25/outubro a 20/novembro;
• Nas propriedades acompanhadas as cultivares predominantes foram as
precoces (plantio no período preferencial) Embrapa-48, CD 202 e CD 203 e
as semiprecoces (plantio antecipado) BRS-133 e CD 201;
• O nível de fertilidade dos solos observado nas áreas mais produtivas
apresentaram a saturação de bases, o fósforo e o potássio com valores
superiores a 60 %, a 6 mg/dm3 e a 0,3 mg/dm3, respectivamente;
• Os melhores resultados foram obtidos com a população de 300 a 350 mil
plantas por hectare (espaçamento 40 a 45 cm e 12 a 15 plantas por metro);
• Poucos agricultores fizeram os testes de germinação em condições
semelhantes as do plantio;
• Constatou-se que a adoção de manejo de ervas daninhas e de pragas, a
avaliação do nível de incidência de doenças e o controle de perdas na
colheita não foram plenamente adotados.
Os Resultados Econômicos
RECEITA BRUTA
RECEITA BRUTA ( sc/ha)
54
40
O que pode melhorar na comercialização da soja
Sazonalidade dos Preços (1990 a 1999)
13,50
13,00
12,50
US$ / sc
12,00
11,50
11,00
10,50
10,00
Fonte: AGRIANUAL 2000 / FNP Consultoria & Comércio
Entre os anos agrícolas
98/99 e 01/02, os agricultores que
fizeram a venda futura de parte
da sua produção total de soja,
obtiveram cerca de 20% a mais
no preço recebido do que aqueles
que venderam sem contrato na
época da colheita. Porém, em
02/03 e 03/04 a venda futura não
foi um bom negócio. Vender
antecipadamente parte da soja
requer uma análise cuidadosa
feita
por
especialistas.
Os
agricultores que conseguiram
comercializar a soja, nos meses
de dezembro e janeiro, obtiveram
resultados extraordinários nos
últimos cinco anos.
O preço da soja chegou até US$ 17,60/sc em março/2004. Muitos
agricultores não comercializaram esperando que os preços aumentassem
ainda mais. No entanto, o preço da soja caiu rapidamente para U$12,00/sc.
O gráfico de sazonalidade de preço da soja (acima) é um dos indicativos
que deve ser constantemente analisado para tomada de decisão e para o
planejamento da comercialização da soja.
Índices econômicos (13 de agosto de 2004):
•
•
•
Preço da Soja (valor histórico em reais): R$ 33,39;
Preço da Soja (valor histórico em dólares): US$ 11,00
Valor do dólar americano (em 13/08/2004, comercial): R$ 3,036
CUSTOS VARIÁVEIS
Os custos variáveis são os que mais permitem intervenções gerenciais, porém são
poucos os instrumentos e os indicadores que auxiliem efetivamente os gerentes na
arte de conciliar a redução dos custos sem reduzir lucro. Também é preciso
avaliar os aspectos ambientais, sociais e legais no planejamento dos custos
variáveis. Apresentam-se, a seguir, as referências e os aconselhamentos para a
gestão dos custos variáveis.
CUSTOS VARIÁVEIS (sc / ha)
20
28
Verificou-se, nas REDES, uma variação média de 8 sc/ha, o que
corresponde a US$ 88,00/ha ou R$ 267,00/ha.
Pontos a melhorar na gerência dos custos
variáveis:
• Óbvio e necessário, mas nem todos fizeram: reservas e aquisições
antecipadas de sementes e de adubos em empresas comprovadamente
idôneas; cotações de preços; negociação da forma de pagamento, evitando as
dívidas em dólar e as taxas de juros elevadas.
• Foi comum a compra de insumos de forma isolada. Não se observou a
negociação em grupo, o que poderia reduzir os custos de aquisição de
insumos.
• Verificou-se, em alguns casos, a compra de insumos sem levar em
consideração a real necessidade dos mesmos, motivada por uma assistência
técnica não isenta (interesses financeiros advindos da venda desses insumos).
A assistência técnica precisa estar comprometida com os resultados
econômicos do produtor e com a preservação ambiental.
CUSTOS VARIÁVEIS POR COMPONENTE
MECANIZAÇÃO (representaram 20% do custo variável total):
Variação do custo em números equivalentes á sacas de soja de 60 kg / ha
MECANIZAÇÃO
4,00
6,00
• A adoção do sistema de semeadura direta reduziu em 17% os custos com a manutenção
de máquinas e implementos e no consumo de combustível;
• A redução do número de pulverizações aconteceu em propriedades que adotaram os
manejos integrados de pragas, das ervas daninhas e de doenças;
• Um grupo de agricultores economizou com a aquisição e utilização de máquinas e
implementos agrícolas em conjunto. A troca de serviços mecanizados entre agricultores,
em vez de pagar aluguel, reduziu despesas com operações mecanizadas;
• De forma geral, os agricultores acompanhados mantiveram as máquinas e os implementos
regulados e em boas condições de uso. Prolongar a vida útil dos maquinários e
equipamentos foi uma das vantagens verificadas na agricultura familiar;
• Alguns agricultores precisaram corrigir o ângulo de inclinação e trocar as sapatas das
hastes (facões) em plantadeiras de plantio direto para reduzir a potência exigida do trator
e melhorar a qualidade da operação (existem gabaritos no IAPAR/Engenharia Agrícola
para as principais marcas/modelos de plantadeira);
ADUBOS (representaram 20% do custo variável total):
Variação do custo em números equivalentes à sacas de soja de 60 kg / ha
ADUBOS
4,00
8,65
• As coletas de amostras de solos para análise foram realizadas, no mínimo, a cada 2 anos.
Em plantio direto recomendou-se coletar amostras por talhão homogêneo na profundidade
de 0 – 10 cm;
• Em complementação à análise de solo, foi feita a análise foliar para monitorar a nutrição
das plantas e fazer as correções oportunas.
• Verificou-se a necessidade de planejar a adubação do sistema de produção (e não apenas
para a cultura), considerando as adoções da rotação de culturas e de adubos verdes e
orgânicos;
• Na utilização de adubo orgânico, aconselhou-se o uso do mesmo antes da safra de inverno
(milho safrinha ou trigo) para melhor aproveitamento do nitrogênio.
SEMENTES (representaram 9 % do custo variável total):
Variação do custo em números equivalentes à sacas de soja de 60 kg / ha
SEMENTES
2,00
3,00
• Alguns agricultores conseguiram economizar em torno de 50% deste custo utilizando
sementes próprias. No entanto, há severas críticas sobre o assunto e o que se alerta é que
essa prática necessita de cuidados especiais e acompanhamento de um responsável
técnico;
• O uso de cultivares de sementes miúdas possibilitou a economia na quantidade de sacas a
serem adquiridas (é preciso verificar as informações do lote das sementes);
• A redução de sementes só foi recomendada quando o produtor dispunha de semeadeira
confiáveis, de sementes de alta qualidade e quando a área não apresentava problemas com
pragas e doenças de solos. Em média, gastou-se 1,3 sacas de 50 kg de sementes/ha;
• Foram feitos tratamento de sementes com fungicidas sistêmicos e de contatos, na maioria
dos casos. O uso de inseticida não foi comum e só recomendado para áreas com o
histórico de ocorrência de pragas de solos;
• Verificou-se a realização do teste de germinação antes do plantio, porém não nas
condições de campo;
• O uso de inoculantes não foi muito freqüente. Essa prática requer atenção especial na
compra (validade do produto) e na forma de utilização (cuidados especiais na mistura
com fungicidas) para que os efeitos sejam positivos;
• O tratamento de sementes com fungicidas reduz a ação dos inoculantes. Recomendou-se a
utilização de fungicidas menos tóxicos em casos de inoculação de sementes (exemplo:
Carboxin +Thiram).
• Recomendou-se a aplicação do cobalto e do molibdênio via foliar por ocasião da
aplicação do herbicida pós-emergente ou junto com a aplicação de inseticida para lagartas
(antes da floração da soja);
HERBICIDAS (representaram 18% do custo variável total):
Variação do custo em números equivalentes a sacas de soja de 60 kg / ha
HERBICIDAS
3,00
7,00
• Poucos agricultores adotaram o planejamento da rotação de culturas e o uso de plantas de
cobertura do solo, porém observou-se 70 % de solo coberto com palha antes do plantio da
soja;
• O agricultor que conseguiu maior economia com herbicidas adotou práticas alternativas
de controle de ervas daninhas, principalmente, a “catação” manual;
• Os herbicidas elevaram os custos de produção da soja. Verificou-se a necessidade de um
trabalho mais efetivo da pesquisa e da extensão rural, principalmente em pequenas
propriedades rurais, no manejo integrado de ervas daninhas.
• Poucos agricultores fazem o mapeamento e o tratamento das áreas críticas. Alguns tentam
evitar as infestações;
• Foi pequena a ocorrência de dessecação de soja para antecipar colheita.
• Recomendou-se alternar os princípios ativos para evitar a resistência das ervas daninhas
ao herbicida.
INSETICIDAS (representam cerca de 4% do custo variável total):
Variação do custo em números equivalentes a sacas de soja de 60 kg / ha
INSETICIDA
0,30
1,60
• Poucos agricultores realizaram plenamente o manejo integrado de pragas;
• Nem todos os agricultores estão dando prioridade para o uso de inseticidas
biológicos no controle de lagartas (baculovirus);
• Alguns agricultores obtiveram custos baixíssimos, aplicando somente o
baculovírus junto com o herbicida pós-emergente (economiza uma aplicação).
Segundo esses agricultores, os inimigos naturais têm controlado a população de
percevejos;
• Verificou-se, também, o controle de percevejos iniciado pela a aplicação de
inseticidas em bordadura nos horários de menor insolação (ataque inicial);
• De forma geral, os agricultores evitaram a mistura de inseticidas.
Outros custos
Variação do custo em números equivalentes a sacas de soja de 60 kg / ha
FUNGICIDAS
0,55
2,20
0,30
0,80
0,15
0,25
0,30
1,10
0,80
2,40
3,00
7,00
TRAT. SEMENTES
INOCULANTES
MICRONUTRIENTES
MÃO-DE-OBRA TEMPORÁRIA
OUTRAS DESPESAS *
* Outras despesas: frete, INSS, juros do capital de giro, seguro,
assistência técnica, recepção, secagem e limpeza.
MARGEM BRUTA
A Margem Bruta é o resultado da diferença entre a Renda Bruta e os
Custos Variáveis.
MARGEM BRUTA ( sc / ha)
34
12
Pontos a melhorar para otimizar a Margem Bruta:
A tabela abaixo apresenta os resultados das Margens Brutas (sc/ha)
relacionadas com os custos variáveis (sc/ha) e as produtividades (sc/ha). Nota-se
que os melhores resultados foram obtidos pelos produtores que conseguiram
administrar bem os custos variáveis e não simplesmente aqueles que
obtiveram as maiores produtividades.
Custo variável
16
20
24
28
32
40
24
20
16
12
8
43
27
23
19
15
11
46
30
26
22
18
14
49
33
29
25
21
17
52
32
28
24
20
55
35
31
27
23
58
38
34
30
26
22
61
41
37
33
29
25
Produtividade
36
40
64
24
A título de exemplo, apresenta-se um itinerário técnico similar ao dos
agricultores que obtiveram resultados satisfatórios (safra: 03/04):
OPERAÇÕES MECANIZADAS
Aluguel de máquinas
Sub-itens
Colheitadeira
Quant./ha
Un
R$/ha
%
2,9
Sc
107,30
107,30
12
12
0,5
1
0,5
0,5
h/M
h/M
h/M
h/M
2,5
h/M
10,40
29,82
10,40
10,40
61,02
168,32
1
3
1
1
7
19
Quant.
Un.
R$/ha
%
1
0,2
1,2
D/H
D/H
D/H
20,00
4,00
24,00
24,00
2
0
3
3
Quant.
Un.
R$/ha
%
2,00
1,24
1,24
1,24
0,08
0,2
variável
1
0,35
variável
Litros
sc/50kg
sc
pct
litros
toneladas
idem
pct
Litros
idem
24,00
102,92
15,16
5,92
17,89
239,34
88,00
7,50
11,81
11,00
523,54
523,54
3
11
2
1
2
26
10
1
1
1
58
Sub-Total
Despesas c/ Máquina Própria
1ª pulverização: dessecante
Semeadura: direta
2ª pulverização ; mato / lagarta
3ª pulverização: percevejos
Sub-Total
TOTAL OPERAÇÕES MECANIZADAS
MÃO DE OBRA
Sub-itens
Mão de Obra Temporária
Outras
Catação manual de ervas daninhas
Auxilio no plantio
TOTAL MÃO DE OBRA
TOTAL DESPESAS ( Mão de Obra )
INSUMOS
Sub-itens
Herbicida dessecante
Sementes
Tratamento de sementes
Inoculante
Micronutrientes
Adubos – plantio
Herbicidas pós-emergentes
Inseticidas para lagartas
Inseticidas para percevejos
Outros insumos
TOTAL DESPESAS
Glyfosate ou Sulfosate
Precoce e semiprecose
Fungicidas sistêmicos e contatos
Inoculação com Bradyrhizobium
Cobalto e Molibdênio – via foliar
Fósforo e potássio
Folhas largas e estreitas
Baculovírus
Inseticidas seletivos
Espalhantes
( Insumos )
Outras Despesas
Transporte Externo
INSS
Juros do capital de giro
Seguro
Assistência Técnica
Recepção / Limp. / Secagem
Armazenagem
Outras Despesas
TOTAL OUTRAS DESPESAS
Sub-itens
R$ / saco
2,2 % s / Valor das vendas
8,75 % a.a.
2,0 % a.a. s/ Valor financiado
1,0 % s/ Valor das vendas
Cooperativa
2,0 % s/ Total das despesas
Quant.
Un.
R$/Total
%
54
2,20%
sc
%
%
30,00
50,43
62,59
0,00
14,30
22,92
0,00
14,30
194,54
3
5
7
0
2
2
0
2
21
2,0%
%
%
R$
%
TOTAL GERAL DAS DESPESAS
MECANIZAÇÃO
MÃO-DE-OBRA CONTRATADA
INSUMOS
OUTRAS DESPESAS
RECEITAS DA PRODUÇÃO
Quant.
Un.
Venda contrato futuro (R$ 42,00/sc) Soja
Venda escalonada
(R$ 41,50/sc) Soja
Sub-itens
20
35
sc
sc
TOTAL GERAL DAS RECEITAS
55
sc
REMUNERAÇÃO DA MÃO-DE-OBRA FAMILIAR (LUCRO)
R$/ha
%
910,40
100
168,32
24,00
523,54
194,54
18
3
58
21
R$/hal
840,00
1.452,50
%
37
63
2.292,50
R$/ha
%
RENDA BRUTA (RB)
CUSTO VARIÁVEL (CV)
CUSTO FIXO (CF)
2.292,50
910,40
233,60
100
40
10
CUSTO TOTAL (CT = CV + CF)
LUCRO (L= RB-CT)
1.144,00
1.148,50
50
50
Download

Referências Modulares para a Produção de Soja na